Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Kadhafi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kadhafi. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Satisfação, Culpa e Vergonha

Elzira Saraiva
Por Elzira Saraiva

Gostei muito do artigo do Plínio Bortolloti do "O POVO" de hoje, e que foi postado pelo Marvioli no DIUMTUDO (http://diumtudo-marvioli.blogspot.com/2012/01/e-se-o-exercito-resolver-fazer-greve.html).

Fiquei muito preocupada quando vi no “face” e nas conversas com alguns de vocês terça passada, o insuflamento ao descredenciamento da constitucionalidade a tão duras penas conseguida pelas gerações passadas. Rapidamente foi criada uma situação de pânico, onde uma análise com um mínimo de racionalidade virou DELÍRIO nas palavras dos insufladores.

Gostei muito também da análise do Márcio Caetano, também postada no DIUMTUDO.(http://diumtudo-marvioli.blogspot.com/2012/01/o-o-arrastao-meu-povo.html)

Acho que a reflexão feita por Plínio Bortolotti, mostra bem a inabilidade do Governador Cid para lidar com o funcionalismo público. Parece que isso é característica da família Gomes. O outro Gomes, o Ciro, também comprou uma briga grande com a turma do jaleco e se deu mal por isso.

Mas o que quero colocar pra vocês é um outro aspecto da situação criada na terça-feira, dia 4 de janeiro de 2012, em Fortaleza.O governador Cid Gomes, gostemos ou não dele, foi eleito pelo voto dos(as) cearenses. Se não conseguimos vencê-lo nas urnas, seja porque os setores que o apoiaram tinham mais poder econômico, ou porque tiveram mais competência política, insuflar a população a linchá-lo (tirá-lo do governo pela força é um linchamento político que facilmente poderia descambar para o linchamento físico), é uma atitude irresponsável e muito perigosa.

Vocês podem ler o que diz a história sobre esse tipo de atitude.

Leiam o que fizeram com Salvador Allende, no Chile (governo popular), com Sadam Husseim (governo, segundo as informações plantadas pelos EUA, não popular), com Kadhafi (governo, também segundo as informações plantadas pelos EUA, não popular), com Jesus Cristo(esse todo mundo sabe a história), e inúmeros outros no passado recente ou remoto.

Citei esses exemplos só pra dizer que qualquer linchamento, se por um lado traz a marca da satisfação imediata das mãos lavadas com o sangue do opositor, por outro traz a culpa e a vergonha permanente por essa satisfação.

De qualquer modo as consequências são sempre negativas. Alimentar o medo é uma atitude pra lá de arriscada, pois o medo é uma fera insaciável e poderosa. Já a vergonha, essa vai requerer muita energia para esconder a culpa. Para lidar com as duas, vergonha e culpa, necessário se faz criar justificativas, uma vez que a mente teima em trazer de volta o ato insano. E aí de novo nos deparamos com o linchamento, só que dessa vez sem sangue, mas não menos cruel, que
consiste na destruição da memória do linchado. Para quem não consegue lidar com a culpa, os preconceitos são muito úteis. Assim, a mente culpada inverte a realidade transformando o linchado em "o culpado". Aí vale tudo para culpar. Quem é negro, homossexual, mulher, nordestino, enfim quem já foi vítima de preconceito sabe bem do que estou falando.

O resto vocês podem imaginar...

*Elzira Saraiva - Agrônoma e sócia do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os olhos de Kadhafi


Por Sandra Helena de Souza

Tentei escapar desse tema, mas ando acossada pela morte e a coincidência desse texto público no dia dos mortos me obriga a enfrentá-lo.

O que nos faz humanos? Você pensa que é humano? Então, sinceramente, o que sentiu vendo o assassinato/linchamento de Kadhafi? E quando soube/viu que ele foi abusado sexualmente antes de morrer? Costuma-se dizer que o tratamento digno dado aos criminosos a quem nossos mais arcaicos instintos recomendam a crueldade é sinal claro da civilidade que se impõe contra a barbárie, ainda que repousando sobre ela. Foi assim que aprendi, foi assim que me constituí e isso não por minha própria conta, mas pelos mais nobres valores herdados da assim chamada civilização ocidental, de matriz judaico-cristã.

O iluminismo laicizou as melhores pretensões das grandes religiões mundiais e as tornou princípios soberanos, consolidando o que nos acostumamos a chamar de humanidade, em sentido pleno, no afã de nos destacarmos da animalidade infra-humana. Sinceramente, como muitos, acreditei nisso. Por isso não consigo me livrar das apavorantes imagens a que fomos expostos, e continuamos sendo, à exaustão do assassinato festivo de um ser humano.

Não preciso mais falar dos aspectos políticos que envolvem essa morte. Importa-me mais compreender o que somos, ao reagirmos tão docilmente diante disso, quando bem sabemos o que está em jogo. Aqui em nosso Estado, recebemos a oferta diária pela televisão de corpos mutilados, afogados, decompostos, torturados, associados aos gritos lancinantes de parentes, tudo isso apresentado como ornamento da liberdade de expressão e de garantia de direitos. Expressões pérfidas, perversas, de engravatados travestidos de defensores da cidadania e intrépidos guardiões da ordem pública. Uma mentira torpe, uma ilegalidade, uma hipocrisia empresarial de resultados funestos, que cinicamente aceitamos. Mas somos bem seletivos nessa aceitação. Designamos para alguns dentre nós essa condição de párias, completamente excluídos das mais ínfimas noções de dignidade.

A morte de Kadhafi, ao vivo, foi uma espécie de programa policial em clímax, em escala global. Já estamos anestesiados. Mas assim como os olhos mortos do Che, a reza interrompida pela corda no pescoço de Saddam Hussein, o espetáculo obscuro da morte de Bin Laden, cena filtrada pelos olhos da cúpula americana, são os olhos aterrorizados de Kadhafi que me interrogam, sem cessar. Fomos expostos sem peias a uma cena primária. Adultos, crianças, todos. Uma cena que não nos deixa espaço para a salvífica elaboração da imaginação e construção de narrativas, assim como podemos fazê-lo em relação aos mortos das torres gêmeas. Ali fomos poupados, em nome da “dignidade humana” e da esperança. Que pureza.

Você que me lê deve acreditar-se ao abrigo dessa podridão tornada entretenimento, catártico, pois portador de direitos e cidadão de bem. Pois sim. Volto então a perguntar: o que você sentiu ao ver aquelas imagens se é mesmo que sentiu algo. Responda diante de seu espelho, e não espere por Deus, o que nunca responde. O trabalho é nosso, apenas nosso. Os mortos agradecem.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/11/02/noticiaopiniaojornal,2327020/os-olhos-de-kadhafi.shtml

domingo, 23 de outubro de 2011

Queima de arquivo

Por Waldemar Menezes

(trecho da coluna Concidadania - Jornal O POVO )

"A execução de Muammar Kadhafi, segundo é corrente nos meios informados, foi uma operação planejada com muita antecedência. As potências ocidentais não queriam que ele tivesse uma tribuna de onde pudesse falar sobre acertos constrangedores, no passado, com seus atuais carrascos. Quando foram encontrados os arquivos secretos, no seu palácio, revelando as operações conjuntas com serviços de inteligência dos Estados Unidos e países europeus, sua sentença de morte teria sido definida. Não se deveria dar oportunidade para ele revelar tais segredos diante de um Tribunal Penal Internacional. Daí porque os aviões da Otan foram empregados para matá-lo, quando fugia do cerco de seus inimigos num comboio. Caso escapasse, os rebeldes se encarregariam de completar o serviço - como de fato aconteceu. Só que a ação da Otan foi totalmente ilegal. Aliás, toda a sua intervenção, nos moldes em que se deu, violou os limites do mandato recebido do Conselho de Segurança da ONU. O cinismo e o descaramento, já observados no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão (vide a morte e o desaparecimento do cadáver de Osama Bin Laden) repetiram-se agora, na justificativa da operação contra o dirigente líbio.

Agora que Kadhafi foi acolhido (quer se queira ou não) no panteão dos mártires da causa árabe, se transformará, provavelmente, numa grande força simbólica a alimentar a luta dos que são movidos pela defesa do interesse nacional. Muito pior (do ponto de vista moral) do que o primitivismo de seu regime é o escândalo de se flagrar um Estado que se diz democrático e civilizado, como os EUA, torturando prisioneiros, instalando prisões clandestinas, bombardeando populações civis e liberando seu serviço secreto para assassinar desafetos (chefes de estado, lideranças políticas e comunitárias estrangeiras) sem que seus dirigentes sejam julgados por crimes contra a humanidade, como, aliás, pede a Anistia Internacional. Por que deixar de acentuar também que a Líbia apresentava o mais alto IDH da África (sem que isso absolva os crimes do regime derrubado)?"

Para ler a coluna Concidadania: