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quinta-feira, 16 de abril de 2015

PRA NUNCA DESISTIR

Iana Soares

Na vila São José, no Jacarecanga, existe uma passarela vermelha que treme quando passa o trem. Tremem também o sofá, a janela, o copo em cima da mesinha, a gaiola do passarinho, o ventilador sobre o banco, as peças do xadrez no jogo da praça, o muro da casa que era do tio Raimundo, meu padrinho. Tremem a roseira do João e a quadra onde jogam futebol. Sem saber, guardei a sensação no corpo. Hoje comemoro a Fortaleza com a tremedeira que conheci ainda menina. A cidade inteira tremia e eu tremia junto, como se aquilo fosse um jogo, um milagre ou uma prova boba de que tudo está conectado. Por alguns segundos, a vida parecia uma coisa só.

Caminhar na Ponte dos Ingleses também faz tremer. A madeira, o vento, o beijo do namorado, as cordas do violão, o Mara Hope, o frio que dá. O pulo do menino, o azul, o laranja, o rosa, o vermelho e tudo que vibra antes do sol desaparecer. A lua que nasce feito sorriso. Você deve ter outros lugares guardados no corpo.

Alguns talvez não percebam que os prédios históricos que derrubam, as árvores que cortam, os viadutos que erguem, os muros que constroem, as praças que viram cruzamentos, que tudo isso que machuca, também nos faz tremer. Agora de medo. Passamos a caminhar na sintonia das coisas quebradas, dos dias destruídos. Tremo ao lembrar do Alto da Paz, dos jovens assassinados, do Parque do Cocó que nunca regulamentam, do tiro que o Chico levou no braço, da estatística que nos marca como a oitava cidade mais violenta do mundo. Tremo ao saber dos fortalezenses que são favoráveis ao absurdo que é reduzir a maioridade penal.

Nos 289 anos, em vez do tradicional “parabéns pra você”, cantarei os versos do Cidadão Instigado. “Fortaleza eu te conheço, desde o dia em que eu nasci. Foi-se o tempo e a esperança é tudo que eu aprendi. Guardo tudo nas lembranças que é pra nunca desistir”. Fecho os olhos para ver o trem se aproximar. Não posso esquecer que ele sempre vem. Me fará tremer e devolverá o prazer de experimentar uma sensação sempre nova, mas que só faz sentido porque faz vibrar algo antigo e impossível de apagar. Guardo tudo nas lembranças que é pra nunca desistir.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Projeção Olhavê

Via Iana Soares

Projeção Olhavê/Foto em Pauta from Olhavê on Vimeo.


Projeção apresentada no 5º Festival de Fotografia de Tiradentes.

Fruto de convocatória aberta, o Olhavê recebeu 591 ensaios de 350 inscritos. Foram selecionados 44 autores:

Alexandre Guzanshe, Alfredo Brant, Ana Bê Elorza, André Conti, Andréa D'Amato, Andrea Eichenberger, Beto Figueiroa, Camila Otto, Carlos Franco, Chico Barros, Coletivo Pandilla, Denise del Giglio, Edgar Oliveira , Elaine Eiger, Felipe Abreu, Fernando Angulo, Francisco Santos, Gabriel Govoni, Gabriela Oliveira, Guilherme Bergamini, Guilherme Gerais, Hugo Cordeiro, Iana Soares, Jane Paris, Johanna Lieskow, Kareen Terenzzo, Karla Meneghetti, Katia Kuwabara, Ligia Jardim, Lis Sayuri, Mariana David, Milena Costa e Pedro Vieira, Myriam Vilas Boas, Nathalie Böhm, Nilmar Lage, Pedro Chavedar, Rafael M. Milani, Renato Stockler, Ricardo Thomé, Rodolfo Massambone, Sandra Audujas, Sergio Dominguez, Thays Bittar e Walter Ney.

Edição e narrativa: Alexandre Belém e Georgia Quintas.
Montagem: Vinicius Assencio.
Trilha sonora: Thiago Fontes e Iberê Sansara.

Baco & Euterpe - Julho de 2012

Por Marvioli

"Teaser" do Baco & Euterpe. Aqui na versão Cocó, em julho de 2012. O tema: Samba de Partido Alto e o partideiro - Felipe Araújo. Auxilio luxuoso da trupe. E, na fotografia, a imensa Iana Soares.



Edição - Evelyn Ferreira

quarta-feira, 18 de março de 2015

Mimi ou Zé Dirceu, o gato do meu avô

Por Iana Soares

Meu avô tinha costume de anotar receitas para minha avó Ilza. Acumularam cadernos com aquela letra desenhada como quem inventa versos. No final de cada lista de ingredientes e modos de preparo, tiradas de revistas e programas de TV, escrevia: “receita anotada por Luís, no dia tal do ano tal”. A assinatura tinha mais arte do que qualquer verso de Drummond ou Álvaro de Campos, meu Pessoa favorito.

O Vô Luís tinha também um gato de nome camaleônico. Às vezes era Mimi, outras Zé Dirceu. Tinha coleirinha vermelha que lhe conferia um tanto de personalidade, no meio do pelo cinza escuro. Ainda não tinha sido inventado o adjetivo “petralha”, mas meu avô descobriu a raiva da estrela no primeiro governo. Votou no Lula, mas sentiu a traição na reforma da previdência. Depois veio o mensalão. Cada vez que aparecia o Pallocci, debatia com a televisão como se conseguisse teletransporte imediato para Brasília. Quando o gato fazia besteira, reclamava soltando um “esse Zé Dirceu é um safado”.

Esta semana ensinei a amigo como fazer mousse de limão com morango e kiwi. Em troca, aprendi a cozinhar tortilha de batatas, feijão com arroz espanhol. Lembrei dos cadernos.. Nunca anotei receita e tive saudades. Meu avô não precisou ser poeta para fazer poesia.

Não sei como amanheceremos depois da manifestação esquisita de ontem. Entreguei o artigo antes da tal passeata, mas acho que é a primeira vez que me angustia ver gente na rua se manifestando. É estranho. Já participei de caminhadas da Via Campesina, dancei torém com o movimento indígena, reivindiquei melhorias na universidade pública, fui à Parada da Diversidade Sexual, andei o Centro de Fortaleza contra a Guerra do Iraque. Agora, me assusta ver que o impeachment foi pedido na Câmara por Jair Bolsonaro. Aquele que disse que só não estupraria uma deputada porque ela não merecia. Um deputado homofóbico e racista com vasta coleção de declarações criminosas.

Tem algo errado em manifestação que fala de impeachment de forma tão rasa. Tem algo perigoso em tanta gente mobilizada pelo ódio que não consegue se esconder sob a máscara de “cidadãos de bem”. Lembrei do antipetismo do vô Luis. Ele usava panelas para investigar o amor, nunca para destruir uma democracia.

Iana Soares
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2015/03/16/noticiasjornalopiniao,3407707/mimi-ou-ze-dirceu-o-gato-do-meu-avo.shtml

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Fortaleza não é Vancouver

Pra começar bem o mês de Fevereiro, crônica de Iana Soares, diretamente de Barcelona para OPOVO

por Iana Soares

Em 1982, ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez fez um discurso que sempre me emociona. Destaco o trecho: “é compreensível que insistam (os europeus) em nos (aos latino-americanos) medir com a mesma régua que medem a eles próprios, sem lembrar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles. A interpretação de nossa realidade com esquemas alheios só contribui a nos fazer cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários”.

Voltei ao querido colombiano errante porque, na última semana, li absurdos espalhados no facebook. Um usuário publicou uma foto denunciando um suposto “ato de vandalismo” em algumas das bicicletas compartilhadas. Na legenda, dizia: “fico pensando que ainda vamos demorar muito para ser um povo civilizado, se é que iremos ser um dia”. A imagem obteve mais de 2440 compartilhamentos. Aos que não usam facebook: isso é muito. A mensagem mais repetida era “eu tinha certeza que isso não daria certo, pois o povo não tem educação”. A autora emendava com a explicação de como a vida em Vancouver é incrível e impossível de ser experimentada aqui.

No entanto, segundo matéria publicada no O POVO, no dia 28 de janeiro, as bicicletas apenas passavam por uma manutenção de rotina, já que as 150 unidades fazem mais de 900 viagens diárias. Podia comentar sobre a irresponsabilidade de compartilhar informações antes de checar, mas queria que você, leitor, voltasse ao parágrafo escrito por Gabo. Em vez de acreditar em iniciativas urgentes e continuar a cobrar do poder público a execução de políticas que melhorem e viabilizem a existência de uma vida coletiva na cidade, tem gente que mobiliza energia para aplaudir o próximo fracasso. Tem sido difícil falar de esperança, mas muitos fazem, da desgraça, uma rotina. Sadicamente confirmam sua mesquinhez, jogando-a para a cidade.

Fortaleza não pode ser Fortaleza enquanto quiser ser Vancouver. Uma sugestão aos amantes do “aqui-não-vai-dar-certo”: troquem as horas em frente ao computador pela leitura de “Cem anos de solidão”. “Diante da opressão, dos saques e do abandono, nossa resposta é a vida”, diz Gabo em outro trecho do discurso. Que nossas respostas venham em cima das bicicletas que se multiplicam sobre o asfalto alencarino.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2015/02/02/noticiasjornalopiniao,3386681/fortaleza-nao-e-vancouver.shtml

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Para hoje, amanhã e depois

Por Iana Soares

Observar o espreguiçar de uma borboleta (ou de uma lagarta). Desenhar um calendário no qual, em vez de dias, marque frutas. Acompanhar o caminho de uma gota sobre a pele, enquanto esta se arrepia. Plantar árvores para colher sombras. Saber diferenciar um flamboyant de um ipê e um ipê de uma acácia. Aprender nomes de plantas como se sabe os dos amigos.

Colecionar sorrisos desconhecidos. Estudar para me descobrir e lá encontrar o mundo. Fazer mais bolhas de sabão do que edifícios de cimento. Ter flores na varanda para que venham os pásssaros. Enviar cartas com perfume e postais com carimbos. Olhar o mundo para me encontrar, meio Wally. Revelar fotos e dar de presente com recados no verso.

Ter mais esperança do que medo. Aprender com o medo e a raiva. Inventar um movimento novo, sempre que me sentir paralisada. Abraçar quem acha esperança uma besteira. Apreciar as ilusões não para enganar-se, e sim para encantar o mundo. Usar o dia como matéria-prima. Em um segundo, experimentar mil revoluções. Em um passo, uma vida inteira. Não ter pressa, nem preguiça. Apreciar as “horinhas de descuido”. Fazer arte de artista, mas principalmente de menina danada que faz arte.

Fotografar o tempo que escorre. Deixar o tempo ir embora em mais uma imagem. Reciclar qualquer mágoa. Nadar no inverno para que o corpo se mantenha tropical. Aprender com o outro e a vida que inventou para si. Contar boas notícias. Não acreditar que é normal cortar árvore para dar espaço ao asfalto. Indignar-se com as tragédias cotidianas. Espalhar que nenhuma vida vale mais do que outra e que uma vida vale muito, e isso não se mede em dinheiro.

Não beber coca-cola. Estar perto das minhas fofurinhas, da minha mãe e do meu pai para amá-los, mesmo quando longe. Ter um barco imaginado em que caibam os amigos dos dois lados do Atlântico. Lembrar que “apesar de tudo existe uma fonte de água pura e quem beber daquela água não terá mais amargura”. Procurá-la e compartilhar as coordenadas. Olhar nos olhos de quem passa. Rasgar todas as listas que não sejam feitas de liberdade, amor e sentimentos de mundo. Para que, no final, possa dizer do 2015 que tive: “que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”?

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2015/01/05/noticiasjornalopiniao,3371751/para-hoje-amanha-e-depois.shtml

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Bons dias, brasileiros

Por Iana Soares

Nesta segunda-feira amanhecemos sem presidente. Ontem tivemos um dia frenético, como bem sabem. Tomamos café da manhã com mil adesivos na camiseta, almoçamos segurando garfo, faca e bandeira. Votamos. Gritamos entre vermelhos e azuis, postamos nas redes sociais e tentamos, até o último minuto, convencer vizinhos e parentes distantes a votarem no nosso candidato. Tudo em vão. Quem imaginaria esse desfecho? Um país com mais de 200 milhões de habitantes subitamente sem presidente.

Não houve qualquer explicação. Os candidatos sumiram e deixaram para nós uma missão intitulada “futuro do País”, pregada na testa de cada brasileiro que, assustado, correu para lavar o rosto logo cedo, incrédulo e inseguro. Não desgruda, pois é feita com material eterno e dura mais do que batom 24 horas. Alguns souberam da notícia pela televisão ou ao ler este breve artigo. O que importa é que já não se sustentam os insultos proferidos e o ódio destilado para defender e acusar um ou outro. Os que se abstiveram e por um segundo pensaram na frase “eu não gosto de política” já não podem brincar de Pôncio Pilatos.

Agora, com um destino tão certeiro, cada ex-eleitor compreenderá que é parte de um tecido social e que suas ações individuais impactam de forma certeira na vida coletiva. Estranho escrever o óbvio. Os formadores de opinião de última hora perceberão que não era só coisa de Facebook ou clima de clássico-rei, mas que os milagres imaginados poderão ser colocados em prática. Ou não, pois haverão embates. A democracia é território de conflito.

Como já havia antecipado, escrevo de Barcelona, na Espanha. Com um fuso horário de 4 horas, fui dormir sem presidente. Em espanhol, a forma de saudar as pessoas logo cedo é com um “buenos días”. Não se deseja apenas um único e solitário bom dia, tão caducável. Através da expressão, o interlocutor nos presenteia com um desejo plural. É como ganhar um buquê de flores coloridas que não murcham.

Que venham dias com mais bicicletas e menos carros importados. Mais reforma agrária e menos latifúndio. Mais terras indígenas homologadas e nenhum trabalho escravo. Mais árvores e ninguém apavorado. Mais solidariedade e amor ao próximo nos bons dias que virão.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Meu Castelo

Por Iana Soares

Há 29 anos, Antônio não aguentou o coração. Morreu aos 49, antes de me conhecer. Soube que gostava de vacas, estudou agronomia na UFC e lá encontrou Neuma, uma moça do Jaguaribe. Durante a faculdade, não podiam viajar porque isso não era coisa de mulher de família. No último ano, casaram e puderam ir para algum lugar onde devem ter sido felizes. Plantaram uma vida em Mombaça e outra em Fortaleza. Tiveram Jeovah e outros quatro. Jeovah conheceu Eliana, inventaram um amor e me tiveram (e outras duas fofurinhas incríveis). Entre o Soares e o Meireles, fincaram o Castelo, homenagem e sobrenome do Antônio, que foi meu avô sem ter sido.

Por ter ido embora um ano antes de eu nascer, o vô Castelo era uma foto na parede. Um retrato bonito, de queixo levantado, olhando para algum ponto logo atrás do fotógrafo. Talvez encarasse o tempo que jamais viveria. Recentemente, o Castelo veio me encontrar sem carta, bilhete ou aviso.

Fiz a edição de imagens do livro Arena Castelão, publicado pela Fundação Demócrito Rocha, há um mês. No lançamento, descobri que o Plácido Aderaldo Castelo era primo legítimo do meu avô. José Freire Castelo, filho do Castelão, costurou o parentesco quando fui lhe perguntar sobre o sobrenome, após ouvi-lo dizer que também era de Mombaça.

Na última semana, o jornalismo me levou até o alpendre de Raimundo Castelo Cidrão, em Marrecas, um distrito miúdo no sertão de Tauá. Sorri com a coincidência do sobrenome para depois me arrepiar com o parentesco: ele é filho de Laura Castelo, irmã de Anésia Castelo, mãe do meu vô Castelo. Primos legítimos. Com os pés pendurados fora da rede, me observou com os olhos já apertados do tanto que enxergaram em 88 anos e disse: “é, menina, você tem mesmo uma aparência dos Castelo”.

O mundo é imenso, mas o castelo de cada um sempre será maior, silencioso e entranhado no que arriscamos ser. Nesses tempos estranhos, de tristezas e decepções familiares, encontrei o abraço faltante no avô que já não está e nunca esteve. Talvez o perdão venha através de uma saudade desconhecida. Ou da esperança de que o passado seja mais um lugar de carinho e respeito do que de mágoas.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/08/04/noticiasjornalopiniao,3292402/meu-castelo.shtml

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A vida por um fio

Por Iana Soares
Iana Soares


A vida por um fio. Literalmente e sem exagero. 

Estava caminhando pelas calçadas do Bairro de Fátima, voltando pra casa a pé, entre O POVO e a Treze de Maio... [tenho feito isso nos últimos dias, se consigo sair do trabalho ainda com o sol no mundo, e me dá uma alegria dessas pequenas e necessárias, além de ser uma economia]... quando de repente passa um caminhão em altíssima velocidade, numa rua MUITO estreita que eu nem sei o nome (perpendicular à Conselheiro Tristão, ali próximo ao Kasa Kaiada) e carrega os fios que haviam entre os postes. 

Um deles se transforma em um chicote e corta minha perna. O motorista segue na mesma ou maior velocidade, enquanto os frequentadores do bar da esquina gritam "a menina levou um choque, socorre a menina" e eu não entendia nada. A sensação era de que tinham passado uma faca na batata da minha perna, pensei até em um assalto. Depois de soltar um grito e alguns palavrões, vi o fio no chão.

Lembro que uma coisa que achei muito feia na Fortaleza, ao voltar a morar aqui depois de um tempo fora, foram os fios. Entre o aeroporto e a nova casa, minutos depois de aterrissar, fiz essa observação, há 11 anos atrás. 

Quem me conhece sabe que não engrosso o caldo dos que esculhambam a cidade. Pelo contrário, insisto na delicadeza, no otimismo, nas esperanças. Só que nesse momento, me deu uma raiva grande. Dos moradores que fazem trilhões de gatos e rebaixam os fios, da Prefeitura que não fiscaliza, nem substitui a porcaria desses fios que além de feios são perigosos, por outros subterrâneos; do homem que dirigia e pouco se importou com o fio ou comigo. Lá é uma área super residencial e com criança no meio da rua pra um caminhão passar assim. Tem um monte de coisa errada e não é só na minha vizinhança, é espalhado pela cidade inteira.

Tive algumas sortes: o fio era de telefone, segundo apurou um dos moradores; estava de calça jeans e não de vestido como de costume, então o machucado foi menor, mesmo com a sensação de queimação que persiste; foi na batata da perna (que é bem grossinha) e no tornozelo, e não no pescoço ou no rosto.

Agradeço ao Pedro Paulo, frequentador do bar da esquina, que me ofereceu um copo d'água. Há umas duas semanas queria escrever sobre o meu percurso entre o jornal e a minha casa, que é simples e incrível, mas tive de começar com essa raiva e essa tristeza. Depois falarei da barbearia, do homem que conserta TVs de tubo, do avô que sempre está com as netas, da casa com fotopinturas na parede.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

[A eternidade de um instante]

Por Iana Soares

Quantos desconhecidos cabem nos teus sonhos e futuros? De quantos mistérios é feita a tua solidão? Quais esperanças restaram depois de tanta seca, tanto sal, tanta lágrima? No lugar de respostas, três sorrisos e algumas angústias. Perdemos a conta. Te vejo percorrer o centro de cada desilusão, inquieto, tentando inventar novos caminhos. É a luz, você justifica. É a luz que te confunde, embaralha tuas certezas e te guia. Sempre intensa, às vezes frágil, nunca indiferente. 

Autorretrato - Iana Soares
Espalho as tuas janelas sobre a mesa. Observo, sem pressa, a eternidade de cada instante. É um segundo, você me diz. É uma vida inteira, te explico. Não há relógios que acompanhem as nossas expectativas. Talvez tudo seja ligeiro, água que escorre e logo seca. Você toca meus dedos e procura o rastro molhado daquilo que vivemos. Até abrimos mão das dores e corremos, leves, feito criança que não entende de futuros e gasta o sorriso como se fosse algodão doce: delicioso e efêmero. Mas outra vez você percorre o 10x15 do retrato em busca das rugas de um passado recente, impregnado. Para quê tanta ansiedade?

Te mostro outra fotografia e você acha que é espelho. No reflexo, percebo que tudo é diametralmente oposto. Para cada identidade, mil mosaicos. Se existe cor, logo tudo vira preto e branco. Saudade, presente. Passado, viagem. Mestre, aprendiz. Ruído, silêncio. Pobreza, abundância. Onde há vazios, explodem desejos. No jogo, inverto ficção e realidade. Esqueço qual imagem vinha antes e, tal qual cobra de duas cabeças, não há mais fim ou começos.

Quando foi a primeira vez que você me encarou? Ali, quieto, pescador com isca pronta. Não te vi, nunca vejo. Apenas intuo. Pressinto cada clique que você nunca me devolveu. É tudo seu, você joga no meu colo. Queria que fosse nosso, grito em mais outro sussurro. Você entende e agradecemos ao acaso e a cada escolha que fizemos, tão cheios de esperanças. É do conflito que nasce cada pixel. É do amor que sobrevivem algumas imagens.

Não sei se é miragem, não importa. Vivemos. Pensamos, sugerimos, odiamos, conversamos, insistimos, amamos. Sonhamos. E é por não saber fazer de outro jeito que arriscamos. Somos invenção. Fotografamos.

Publicado na revista "Olho de peixe" e no Facebook - https://www.facebook.com/ianascm?hc_location=stream

sábado, 11 de maio de 2013

"ainda bem que eu fui!"

Por Mateus Perdigão

Eu nunca fui fã do Paul McCartney. Nem dos Beatles. Conheço, claro, as músicas deles pois é difícil não conhecer. Sempre gostei mais do John Lennon, mais pelas atitudes do que pelas músicas em si. 

Eu não ia ao show do Paul, não me animei e nem tava sofrendo por causa disso. Estava, na verdade, com muita preguiça de ir, principalmente quando pensava que o acesso seria complicado e coisa e tal. 

Mas fui ao show.

E nem me dei ao trabalho de ir comprar o ingresso, compraram para mim. Mas fui pra ouvir aquelas mesmas músicas que a gente já está cansado de ouvir e outras que nem conhecia.

Foto Iana Soares

Voltei pensando "ainda bem que eu fui!".

Ainda bem que pude estar perto pra perceber que aquilo não era apenas um mega-evento onde meia dúzia de pessoas enchem o cu de grana (perdoem-me a expressão, mas não encontrei outra mais adequada) explorando o desejo e a boa vontade de quem quis estar lá naquela hora. Por um momento, quem foi lá pra assistir transformou aquilo em outra coisa, em uma comunhão de sentimentos em torno da música. E é tão forte que, mesmo no momento mais previsível, com a música mais clichê e piegas, é impossível não se emocionar. 

E é emocionante não só quando você percebe que tem um cara que fez história ali no palco. É emocionante quando você olha pro lado e vê jovens, idosos, homens, mulheres, gente daqui, gente de lá, todos batendo palmas e cantando "Na na na na". E a sensação de sentir-se parte daquele momento se torna muito mais importante do que a vaidade de dizer "eu fui".

Sinto essa comunhão de sentimentos, essa sensação de fazer parte da música com as rodas de samba e com o carnaval. Pra mim, o show do Paul McCartney foi um grande carnaval. Comportado, mas carnaval.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Justiça autoriza construção nas dunas protegidas

Área protegida por lei. Foto de Iana Soares
Por Demitri Túlio

Uma decisão judicial, publicada no dia 3 deste mês, autoriza a construção de um condomínio residencial nas dunas protegidas por lei no mangue do Cocó, na avenida Padre Antônio Tomás quase esquina com Sebastião de Abreu. O juíz da 2ª Vara da Fazenda Pública, Francisco Chagas Barreto, determina “que o município de Fortaleza, através do secretário do meio ambiente e controle urbano, executivo da regional II ou quem mais competente for, materialize as aprovações definitivas dos projetos do codomínio Central Park e expeça o alvará definitivo para a execução de suas obras”.

A determinação judicial levou em conta, principalmente, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado no dia 16 de outubro do ano passado pelo ex-procurador geral do município de Fortaleza, Martônio Mont´Alverne Barreto, e o ex-secretário de Meio Ambiente e Controle Urbano, Adalberto Alencar.

O documento foi firmado entre a Prefeitura de Fortaleza, gestão Luizianne Lins, a Associação Cearense dos Empresários da Construção e Loteadores (Acecol) e as construtoras Unit, Flórida, Waldir Diogo e Central Park Participações Ltda.

Apesar de a área ser protegida por lei, o juiz diz que o “Município de Fortaleza, peremptoriamente, renunciou ao seu direito de recorrer” contra o embargo das obras do empreendimento. Uma polêmica jurídica que se arrasta há anos apesar da Lei Municipal 9502/2009 que transformou as dunas do mangue do Cocó em Área de Relevante Interesse Ecológico (Arie).

Pelo TAC, assinado no período entre o 1º e o 2º turno das eleições municipais de 2012, a Acecol e seus associados têm “legitimados direito ao licenciamento ambiental para a instalação das quadras remanescentes do loteamento Jardim Fortaleza (área da construção do Central Park)”. E que a Prefeitura não ajuizará “qualquer medida judicial visando à suspensão, revogação, ou desconstituição de licenciamentos ambientais e alvarás de construção concedidos aos associados da Acecol” por meio de outras ações judiciais.

Paradoxo
- O então procurador Martônio Mont´Alverne, que assinou o TAC, enviou documento ao Tribunal de Justiça do Ceará contestando a validade do acordo firmado entre o Município e as construtoras. Em uma petição, datada do dia 19 de dezembro de 2012, Mont´Alverne pede que o desembargador Durval Aires Filho “desconsidere” o documento.

De acordo com o ex-procurador, o TAC em questão é uma “petição unilateral, firmada apenas pelos advogados dos apelados”. E afirma que, no Termo, não há sua assinatura digital.

Segundo Mont´Alverne, o TAC era apenas uma “minuta” e não poderia ter sido apresentada pela Acecol à Justiça. “Não sei qual foi a intenção dos advogados, talvez descuido”, diz. De acordo com o ex-procurador, o desembargador que recebeu o TAC, não ouviu o Ministério Público para homologar um “suposto acordo extrajudicial”, afirma.
Mont´Alverne afirma que o documento “não estebelece um ajustamento de conduta, mas mero pagamento pelos danos ambientais. O objeto do TAC é juridicamente impossível, à mdida qu recai sobre o direito ambiental indisponível”, diz.

ENTENDA A NOTÍCIA

Depois que o TAC foi assinado entre Prefeitura de Fortaleza e Acecol, em outubro passado, as construtoras pagaram R$ 500 mil como forma de medida compensatória para mitigar o prejuízo ambiental na área das dunas do Cocó.

Para ler e opinar: acompanhe a a página do O POVO Online no facebook (www.facebook.com/OPOVOOnline ) e no portal O POVO Online (www.opovo.com.br/fortaleza).

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Roteiro de uma viagem que não acaba

Por Marcos Sampaio

Foto da Exposição de Iana Soares
Se é verdade que há males quem vêm para o bem, a fotojornalista Iana Soares, editora-adjunta do núcleo de Imagem do O POVO, resolveu levar esta lição a sério. Apaixonada e viciada pelo ofício de registrar imagens, ela se viu num dilema com a proximidade das últimas férias. Com sua máquina fotográfica quebrada, ela tinha que escolher entre uma viagem ou um novo equipamento. Optando pela primeira, ela se viu com um novo problema quando teve seu telefone celular (que também tira fotos) roubado nas proximidades do Centro Dragão do Mar, faltando apenas duas semanas para embarcar. Nem a fotos de celular ela teria.

A situação começou a desanuviar quando ela ganhou do pai um novo aparelho celular, inclusive com uma lente fotográfica melhor que a anterior. E foi com esse novo equipamento que ela se embrenhou pelas ruas de Buenos Aires, na Argentina, e Montevidéu, Uruguai, conversando com pessoas, fotografando o cotidiano e registrando o máximo que podia ao longo de 32 dias de andanças. O resultado foram mais de 500 imagens. Percebendo que havia ali algo que ia além da intimidade, Iana selecionou o material que compõe a exposição Entre orillas (Entre margens), em cartaz no restaurante Dona Chica.

“A exposição passa por muitas coisas, como a forma como guardamos nossos afetos. E a fotografia é uma boa forma de guardá-los”, explica Iana, que teve a seu favor o prazer de falar espanhol e a prática em contar histórias. Entre os personagens que ela conheceu está Miguel Ángel. “O pior da Argentina são os argentinos”, disse o teólogo, advogado, professor de história, especialista em trânsito urbano e dono de banca de revistas. Foi dele a primeira foto da viagem e ainda rendeu um retorno, para que posasse recebendo a própria foto.

“Foi interessante perceber o sentimento de América Latina. Também é curioso perceber a imagem que o Brasil tem dos vizinhos. Como o País está na moda, é como se aqui não tivesse mais problema”, acrescenta a fotógrafa, que buscou retratar esses sentimentos nas imagens selecionadas para a exposição. “Essa não é uma exposição acabada. A imagem não termina, é um contínuo maior. São as sensações que me provocaram e que, agora, eu tô contando”.

Serviço

Entre orillas
O quê: exposição de Iana Soares
Dia: em cartaz até o dia 31 de janeiro, de segunda a sábado das 11h30 às 14h30 e de 17 horas à meia-noite
Onde: restaurante Dona Chica (avenida da Universidade, 2475 – Benfica)
Entrada franca
Outras informações: 3454 1182

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Aos que sobreviverem a mais este fim

Por Iana Soares

Iana Soares
Há alguns dias venho em intensa contagem regressiva para o fim do mundo. Confesso que passei o ano inteiro sem atentar para a profecia dos deuses, apesar da insistência dos humoristas, das mães e das conversas de elevador. Há uma semana, no entanto, talvez pela proximidade do fim, por já sentir a maresia da grande onda ou a aceleração do derretimento das calotas polares (todos já reparamos na quentura de Fortaleza, só pode ter uma relação imediata com isso), comecei a riscar os dias do meu calendário maia. 

De ontem para hoje, lembrei de muita gente e de mim. Inventei futuros,  planejei felicidades instantâneas. Não sei se escalaria uma montanha. Talvez beijasse o amor tantas vezes adiado. Passaria a noite em Paris. Voltaria a morar na Barcelona que demora a anoitecer e traz estampados os sorrisos da juventude. Mas enquanto fazia listas lembrei que já experimentei o fim do mundo. A memória, com suas asas de borboleta, ronda sob a pele e pousa com seus pés de elefante, feito tsunami. Há quatro anos, quando recebi um diagnóstico da doença que, pelo medo, alguns batizam com apenas duas letras (CA), tive o tal sentimento de apocalipse. Naqueles meses os deuses maias nem davam pitaco, tão confiantes no 21/12/2012.

Depois de duas cirurgias, radioterapia e dezenas de picadas de agulha, o mundo começou outra vez. Passei a experimentar novos sorrisos, cortei o cabelo bem curtinho para enganar o tanto que havia caído e vi o quanto ele ficava bonito assim. Assisti a vários filmes, defendi uma monografia, reforcei amizades, aprendi mais sobre família. Além de cientista social e jornalista, virei fotógrafa. Entendi que o apocalipse sacode as certezas e que o fim do mundo é todo dia. É, sobretudo, uma oportunidade de reinvenção.

Recebi um lindo convite para o fim de hoje: um aniversário à beira da piscina que traz em si um paradoxo. Como é possível comemorar o nascimento e o fim no mesmo brinde? Como já nos alertaram os livros de autoajuda, as frases já ditas pelo Caio Fernando Abreu no Facebook e a própria vida: todo princípio já traz em si o final. Nos esquecemos, temerosos da cena derradeira, que as coisas terminam. Vou comemorar este fim porque é do mundo mudar. Mover-se. É das pessoas estarem à deriva. Derivar-se.

Onde você vai estar no fim do mundo? E quando ele começar outra vez?


http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/12/21/noticiasjornalopiniao,2975839/aos-que-sobreviverem-a-mais-este-fim.shtml

domingo, 10 de junho de 2012

"Pastor de Cabras" - Francisco Carvalho

Por Demitrti Tulio




Pastor de cabras de Francisco Carvalho

Fui pastor de cabras 
e de rios secos 
rezei pelas vacas que morreram de sede 
e os bezerros que ficaram 
órfãos e foram alimentados com 
o leite dos pássaros. 

Rezei pelas vértebras da paisagem 
pelo sangue das pedras 
pelas árvores e seus esqueletos 
de faraós, pelas portas 
fechadas das casas onde a lua 
dialoga com os mortos. 

Rezei em memória do vento 
que à noite pastoreia 
as lavouras soterradas de meu pai. 

Rezei pelos seios da terra 
pelo aniquilamento dos pássaros 
pela volta da chuva 
e a diáspora das borboletas. 
Rezei pelos náufragos do amor 
do tempo e da eternidade. 

Rezei pelos espantalhos de braços abertos 
rezei pelos afogados daquele rio 
que não seca nunca. 

domingo, 9 de outubro de 2011

Serestas do Benfica

Por Pedro Rocha

Foto Iana Soares
Ao longo da segunda metade do século passado, juntou-se à tradição residencial do Benfica, outras características não menos importantes. A intelectualidade e a agitação cultural, alimentadas pelo estabelecimento da Universidade Federal do Ceará, transformaram-se em marcas do bairro. Marcas sintetizadas na vocação boêmia que se consolidou através de seus inúmeros bares. Estudantes, professores, intelectuais, artistas e boêmios de uma forma geral juntaram-se aos amantes do futebol.

Na noite de uma sexta-feira, a frequência dos bares não desmente a assertiva. No Pitombeiras, na rua que leva o nome do grande poeta romântico Juvenal Galeno, no quarteirão entre a Senador Pompeu e a Marechal Deodoro, estudantes universitários e secundaristas lotam as dezenas de mesas. Toda sexta-feira o burburinho se repete. Não por acaso, surgiu o Goiabeiras bem ao lado.

O Cantinho Acadêmico, no cruzamento da Avenida 13 de Maio com a rua Waldery Uchoa, está igualmente apinhado. Descendo a Waldery Uchoa, um quarteirão antes de outro bar, o Feitosa, a impressão é de que algum acidente aconteceu por ali. Pessoas no meio da rua praticamente fecham a passagem. Uma viatura do Ronda contempla o cenário.

Segue-se o périplo, dobrando na rua Adolfo Herbster, mais um quarteirão, até o cruzamento com a rua João Gentil, está o Assis, bar acolhedor. Quem passa em frente hoje pode ver a massa de ar compactada sobre as cabeças dos frequentadores – é a condensação de pequenas conversas ricocheteando nas paredes do bar. Às quintas, é nele que se encontram alguns escritores locais.

“A turma da gente se reúne geralmente no Assis. É uma turma muito grande, que a se reúne, conversa e bebe, bota as fofocas em dia É o Clube Social da Intelectualidade mais pobre, porque o escritor rico vai pro Ideal (Clube), o escritor classe média baixa vem pra cá”, brinca Pedro Salgueiro, escritor e cronista do O POVO.

Subindo a João Gentil, o caminho leva ao Chaguinha, o mais antigo do bairro em atividade, que toda sexta recebe sem falta uma roda de samba, ou melhor, a seresta, dedicado aos clássicos do samba-canção brasileiro. O bar pequeno já está lotado, obviamente. Mas ainda pode-se tentar o Bar do Marcão, o Buraco da Lúcia, o Bar do Manelzinho, o Bar do Nonato, sem falar nas mercearias que viram pouso de boêmios ao cair da noite. Cada qual com seu perfil. Bares como o do Manelzinho, por exemplo, na rua Paulino Rocha, quase esquina com João Gentil, respiram futebol. “Para você conversar sobre futebol, para você mexer com alguém, brincar, é o bar do Manel. Você pode até conseguir conversar outros assuntos lá, mas é meio difícil. A televisão é direto ligada em algum jogo”, fala Cristiano Santos, 63.

Cristiano nasceu e foi criado no Benfica. Bom de bola na juventude, viveu a época em que o bairro abrigava a sede de times como o Gentilândia, Maguari, Nacional e Fortaleza. Depois de uma temporada fora do Ceará, em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Teresina, foi para lá que ele voltou no final da década de 1980. Hoje, o corretor de imóveis é um freqüentador assíduo dos bares da vizinhança. “Eu deixei de beber, mas eu continuo fazendo uma Via Sacra”, revela.
Para o bem ou para o mal, Cristiano é absoluto em uma certeza: “Do Benfica, eu só saio para ser enterrado em algum lugar. Nós temos um amor por esse bairro aqui que a gente não sabe explicar”. E conta: “Quando eu morei no Rio de Janeiro, eu tive uns amigos na época de solteiro, que todos os anos organizam umas excursões pra Argentina, Uruguai, Chile... Eu sempre me preparava pra ir, mas preferia a Gentilândia”, diz.