Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador Ednardo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ednardo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Luxo da Aldeia, num sábado de janeiro...

Por Fabrício Martins da Costa

Ontem foi dia de sentir orgulho de ser cearense, de saber de cor as musicas de Paulo Gomes, Lauro Maia, Fausto Nilo, Fagner , Ednardo, e tantos outros.

Foi dia de se orgulhar de ver Moraes Moreira dizer: é bom ver carnaval em Fortaleza, quando eu vinha pra cá era pra ir pra Aracati, Camocim e tal.

Foi dia sobretudo de se orgulhar de ser amigo que tanta gente bacana e generosa. 

De pular ao som de frevo com meu pai, meu compadre Joel, Rafael Farias, minha esposa Mariana Mota Moura Fé e de tantos outros... de quase cair de tanto empurra-empurra sem dizer uma reclamação.

De dizer pro povo que pergunta: tu faz o que no Luxo da Aldeia?

- meu irmão é um dos vocalistas, mas minha sobrinha nasceu ontem, sou amigo desse mais alto que toca guitarra baiana, do que toca violão ali no canto, do surdista namorado da Rebeca Ribeiro de Moura, do baixista com aquele tênis vermelho.

- Ouvi, ainda no violão, "Um sol pra cada um".

- Ah!  e também estava no Cantinho Acadêmico, em 2007 no primeiro ano do bloco.

- Já escutei Jamelão com o pai dos Perdigão. 

Parece coisa de adolescente que guarda escondido o disco de sua banda preferida. 
Sou do bloco Luxo da Aldeia e isso já me garante emoção pro ano inteiro

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Tem cearense no samba

Por Nelson Augusto

Os primeiros registros em disco de um compositor popular cearense, José Ramos Filho (1871-1916), não constavam explicitamente como sambas. Ramos Cotoco, como ficou conhecido artisticamente, morreu um ano antes do registro oficial do primeiro samba, “Pelo Telefone”, em 1917, embora o pesquisador cearense Nirez discorde do fato histórico e possua em seu acervo, registros que provam o contrário. Daí, na pequena, mas importante obra do compositor alencarino, recheada de cançonetas, chulas, lundus e valsas, algumas foram gravadas pelo cantor Baiano, um dos principais cantores da mais importante gravadora do Brasil no início do século XX, a Casa Edson.

Já em 1937, o compositor cearense Lauro Maia foi o ganhador do concurso musical no Rio de Janeiro, na categoria de sambas, do jornal carioca O Povo com sua criação “Eis Meu Samba”. Ainda morando em Fortaleza, Lauro Maia, que havia sido registrado em disco no Rio de Janeiro com outros estilos musicais pelo grupo cearense Quatro Azes e Um Coringa com “Eu Vi Um Leão” (1942), e “Fan Ran, Fun Fan” e “Trem de Ferro”, ambas no ano seguinte, teve seu samba “Febre de Amor” gravado por Orlando Silva, uma espécie de Roberto Carlos de sua época. O Cantor das Multidões emprestaria também sua potente voz para “Samba de Roça”, parceria de Lauro Maia com seu cunhado Humberto Teixeira, em 1945. Nesse ano, Lauro vai residir no Rio de Janeiro, e em 1946 já tem o samba “Deus Me Perdoe”, também dividido com Humberto Teixeira, cantado num 78 rpm por Ciro Monteiro.

Ainda na década de 40 os alencarinos Gilberto Milfont e os grupos Quatro Azes e Um Coringa e Vocalistas Tropicais seguiram a tradição cearense do samba na MPB gravaram vários clássicos do gênero. Dick Farney gravou em 1946 o samba “Esquece” do cantautor Gilberto Mifont. Esse registrou com sucesso no mesmo ano, os sambas “Aquela Mulher” e “Apelo”, ambas da conceituada dupla Pedro Caetano e Claudionor Cruz. Em 1950, Milfont cantou em disco o seu maior hit no samba, o carnavalesco “Prá Seu Governo”, de Haroldo Lôbo.

Outro grupo, o Trio Nagô, que destacou Evaldo Gouveia para a MPB, continuou a tarefa do samba pelos cearenses na década de 50. Entre outros, colocaram em discos, samba de nordestinos “Aquarela Cearense” (53) do conterrâneo Waldemar Ressurreição; e “Vive Seu Mané Chorando” (55) do maranhense Luiz Assunção. Ainda nos anos 60, Evaldo colaborou com o samba em “Garota Moderna” (65), no suíngue de Wilson Simonal; e “O Conde” (69), imortalizado por Jair Rodrigues. Na década seguinte, apesar de continuar suas parcerias românticas com o letrista capixaba Jair Amorim, o cearense de Iguatu também se aventurou numa nova seara: o samba-enredo. A dupla foi a grande vencedora em 1973 do concurso da agremiação carioca Portela com “O Mundo Melhor de Pixinguinha”. Na mesma escola de samba, repetiram a façanha em 1977 com “Mulher à Brasileira”.

Da geração do Pessoal do Ceará, citamos Ednardo, que gravou de sua autoria em 1978 “É Cara de Pau”. Fagner cantou em dueto com Zico em 1983 num compacto simples que também traz “Batuquê de praia”, o samba “Cantos do Rio”, de Petrúcio Maia. O cantor de Orós em seu LP de 1985 divide os vocais com a carioca Beth Carvalho em “Te Esperei”, de Gereba e Capinam. Amelinha, no álbum Caminhos do Sol, de 1985, interpreta “Samba Enredo Para um Grande Amor” de Luiz Carlos da Vila.

Uma coletânea lançada em vinil, no fim dos anos 80, reuniu alguns grupos de samba da Cidade. Nele, já se revelava com destaque o cantor e compositor Carlinhos Palhano. Além de Carlinhos, destacamos hoje David 7 Cordas, Ciribáh Soares, Academia, Policarpo e a Estrela de Madureira, Messias Castro, Leandro Rodrigues, Paulinho Brasil, Malena Monteiro, Gabriela Nunes, Marina Cavalcante, Samba de Rosas, Márcio Vianna, Vilmar Santos, Pasconith Franklin, Antonio Daniel, Damas Cortejam, Thais Costa Lima, Fernanda Farias, Michele Matheus, Lorena Lucena Tôrres e Danielly Ferreira, entre outros.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/11/30/noticiasjornalvidaearte,3169829/tem-cearense-no-samba.shtml

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Conexão musicultural

Por Nelson Augusto
Nelson Augusto

Como grande parte da população brasileira, eu também tive acesso primeiramente ao cancioneiro de Ednardo, através da criação do compositor cearense, “Pavão Mysteriozo”, a qual foi o tema central da trilha sonora da telenovela Saramandaia, em 1976, na Rede Globo do Televisão.

Na época, consegui o então vinil da novela, pois o elepê O Romance do Pavão Mysteriozo, lançado dois anos antes, em 1974, era difícil de encontrar nas lojas de discos. No álbum original de Saramandaia, a longa e criativa introdução inicial da composição foi cortada e Ednardo já começa cantando.

Só tempos depois, através de um amigo, Luiz Antônio Secundino (já falecido) que possuía o então primeiro LP solo do Ednardo, inclusive com o criativo encarte, nos moldes da literatura de cordel, gravei numa fita cassete, a obra completa e escutei o belo solo que inicia a canção que, primeiramente divulgou o maracatu cearense para o Brasil inteiro.

De tanto ouvir a tal da fita cassete com o álbum O Romance do Pavão Mysteriozo completo, decorei todas as letras e quando uma música acabava, no intervalo mudo eu já lembrava do início da outra canção. Tanto que, ao adquirir o álbum em CD, numa reedição de 2001, produzida por Charles Gavin, de imediato, notei que ele também mutilou parte da obra, quando cortou uma vinheta que existe no vinil, entre o final de “Avião de Papel” e o início de “Mais Um Frevinho Danado”.

A omissão deu-se por conta da exclusão de uma pequena composição, em que Ednardo, acompanhado do seu sonoro violão, canta, “É labareda, é labareda, é labareda, brasa e cinza”, palavras nas quais o artista celebra o nome de um dos livros de seu pai, o educador Oscar Soares Costa Souza, a publicação Labareda, Brasa e Cinza, lançada em 1979 durante a Massafeira Livre, no Theatro José de Alencar.

Quando da inauguração da Cidade 2000, na segunda metade da década de 1970, quando fui residir no conjunto habitacional do Papicu, conheci duas pessoas que tiveram uma relação direta com o trabalho de Ednardo: o Dudu (hoje apresentador de televisão e animador popular de eventos culturais, Eduardo Praciano) e o cantor, compositor, músico e arranjador Wilson Cirino, também integrante do Pessoal do Ceará.

O Dudu trabalhava na Emcetur e também atuava com peças de teatro e depois, chegou a participar como um dos produtores do Massafeira, fazendo parte inclusive, da trupe alencarina que foi para o Rio de Janeiro, gravar o tão sonhado álbum duplo de vinil. Lembro-me das nossas noitadas culturais, nas quais sempre gostávamos de cantar a música “Fênix”, do álbum Azul e Encarnado, lançado por Ednardo em 1977.
Com Wilson Cirino, que atualmente mora outra vez na Cidade 2000, além dos contatos musicais, nos quais ele sempre tocava seu violão e falava de suas atividades artísticas, quando vinha de férias para Fortaleza, sempre jogávamos futebol e tomávamos umas cervejas, após os rachas. Ao lado de Pepeu Gomes, Cirino fez os arranjos do disco Cauim, álbum que Ednardo gravou e lançou em 1978, pela Warner, atividade que, antes de acontecer, já tínhamos notícias.

Continuei adquirindo os discos seguintes – Ednardo (1979) e Imã (1981). Em 1981, quando fui para a Rádio Universitária FM, primeiramente como bolsista do Curso de Comunicação da UFC, de imediato levei minha coleção de elepês dele, para enriquecer o acervo da emissora. Foi a partir daí, que fiz as primeiras entrevistas com Ednardo, artista da música cearense que também se tornou meu amigo pessoal.

Tanto que, sempre que ele disponibilizava um álbum novo no mercado, fazíamos o lançamento, conversando sobre o processo de produção, e, tocando todas as faixas, num programa que ainda produzo e apresento todos os sábados ao meio-dia na Rádio Universitária FM, O Disco da Semana.

Quando do surgimento do CD, na primeira metade da década de 1990, através de um projeto de minha autoria, o “Memória 107”, cujo propósito é lançar no formato do Compact Disc, álbuns que foram gravados originalmente em vinil, sugeri ao Ednardo, fazer o lançamento do álbum Massafeira, no formato digital. Como as matrizes pertenciam ao acervo da atual Sony Music, através dos dados passados pelo Ednardo, contatei com a multinacional, a qual cobrou um preço fora do meu orçamento, para produzir mil cópias do álbum duplo coletivo, em CD.

Anos depois, em 2010, numa produção da Aura Edições Musicais, com organização de Ednardo, patrocínio do Banco do Nordeste e com chancela do Ministério da Cultura e o Governo do Estado do Ceará, através da Secretaria da Cultura, foi lançado o luxuoso livro/disco Massafeira – 30 Anos – Som, Imagem, Movimento e Gente.

A publicação tem vários depoimentos de participantes do movimento Massafeira, bem como textos de professores, estudiosos da cultura e jornalistas, além de fotos e vasto material impresso de publicações em outros veículos de comunicação. Serve de pesquisa para os interessados na história da música cearense, pois resgata um pouco da trajetória dessa geração de artistas alencarinos.

Nesses 40 anos de trajetória da carreira artística de Ednardo, resta-nos agradecer ao cantor, compositor que mais divulgou a riqueza da cultura musical cearense, tanto no que se refere aos seus ritmos, como principalmente o maracatu, quanto às mensagens das letras, nas quais, os lugares, personagens, expressões, usos e costumes cearenses, sempre são citados.

Na atual versão da telenovela Saramandaia, como não mantiveram a trilha sonora original, creio eu que a carga dramática dos personagens perdeu muito por conta do fio condutor imagem versus mensagem musical, não existir. No remake anterior da Globo, Gabriela, as canções originais foram aproveitadas outra vez e o resultado foi fantástico. Acredito que, apesar da nova roupagem de Saramandaia ser “livremente inspirada na obra de Dias Gomes”, como denunciam os créditos na tela, João Gibão sem o “Pavão Misteriozo” e o Professor Aristóbulo sem “Canção da Meia-Noite” (Almôndegas), por exemplo, nunca vão retratar a realidade fantástica que o autor escreveu em seu texto.

Espero que o show de Ednardo, próximo dia 27, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com o auxílio luxuoso de excelentes instrumentistas e cantores cearenses e a participação especial do paraibano Chico César, seja um sucesso também de público. Como o espetáculo que vai ser filmado e transformado em um futuro DVD, as novas gerações poderão ter um documento sonoro e musical representativo da obra do compositor mais representativo da cearensidade cultural contemporânea. Para os admiradores antigos, pela primeira vez terão um documentário de qualidade da obra do autor de “Beira-Mar”.

Nelson Augusto é jornalista e radialista da Universitária FM e editor de conteúdo de www.nelsons.com.br, site que brevemente implantará uma web rádio com foco também para a música cearense.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/07/20/noticiasjornalvidaearte,3095386/conexao-musicultural.shtml

Entre luzes que lhe escondem

Dalwton Moura

No calor desta efeméride, em meio ao reconhecimento à vasta e notável obra de Ednardo (e à necessária discussão sobre a renovação, reafirmação ou estagnação dessa obra, nas últimas décadas), cumpre destacar um outro aspecto da atuação do artista. Não o cantor e compositor, nem o produtor responsável, ao lado de Augusto Pontes e de tantos outros, pelo caleidoscópio de linguagens e expressões da Massafeira Livre, embora ele permaneça indissociável dessa condição. Mas o aglutinador responsável por um dos mais significativos registros sobre a música cearense, na forma de livro.

Falamos de Massafeira – 30 Anos, publicação de fôlego, lançada em 2010, como um imprescindível registro de muitos dos infinitos ângulos possíveis da “marmota do mormaço”, a história enriquecida pelos testemunhos dos que a vivenciaram, mas também de várias visões sobre aquela tentativa de inserção de novas e numerosas gerações de músicos do Ceará na faixa de visibilidade da música nacional.

É sintomático que, tanto tempo e tantas mudanças depois, entre fronteiras dissolvidas e a reinvenção dos próprios modos de produção, distribuição e consumo musical, a música feita no Ceará siga enfrentando desafios semelhantes aos de décadas anteriores, quanto à sua difusão para públicos mais amplos, aqui e em outros cenários, e à sua validação na mesma medida de sua qualidade e sua diversidade. Um mergulho nas causas dessas limitações demandaria um grande debate, mas parece claro que o caminho para superá-las passa por alguns pressupostos, entrelaçados justamente na construção dessa afirmação.

Se a geração de Ednardo, Belchior, Fagner, Rodger Rogério, Téti, Cirino, Brandão, Fausto Nilo, Ricardo Bezerra, Dedé Evangelista, Tânia Cabral, entre outros nomes de destaque, permanece, ainda e para muitos, como referência mais imediata quando se fala em “música cearense”, as várias gerações que a sucederam encontraram diante de si, em diferentes níveis e contextos, a tarefa de inventar sua própria estrada. Muito mais que fáceis e superficiais generalizações do tipo “depois deles, não apareceu mais ninguém”, há que se buscar compreender o porquê de certas dificuldades persistirem por tanto tempo e permearem a trajetória de tantos artistas, mesmo aqueles com mais claro potencial de comunicação e mercado.

As tramas dessa teia se tornam mais complexas à medida em que, no plano local, vivemos ainda a construção de uma cena, o esboço de uma indústria cultural minimamente sustentável como tal. Enquanto isso, no âmbito geral, as configurações da música se modificaram tão rápida e profundamente que mesmo cenários e protagonistas de há muito estabelecidos se viram fadados a reinventar-se ou desaparecer. De todo esse processo, a concorrência aumentou e a diversidade emanou como um “efeito colateral” – extremamente saudável para o público ativo o suficiente para garimpar novos nomes. Positivo também para os artistas que compreendem essa realidade e desenvolvem, na medida da perna de cada um, os instrumentos para nela atuar. Mesmo assim o nome, a fama, os milhões de discos vendidos em um ontem distante, a consagração em diferentes níveis permaneceram como valiosos distintivos nas prateleiras virtuais.

A quem não detivesse tal condição, restava a luta pela etiqueta do novo, da “tendência”, do “artista em ascensão” ou de “um novo nome promissor”. E é exatamente aqui que os caminhos dessa história se encontram. Nossos novos nomes seguem necessitando de instâncias de consagração, de parâmetros de validade, de chancelas que os coloquem em pauta e os legitimem perante um público maior. A escassez de bibliografia sobre o cenário da música no Ceará é um dos sintomas dessa cena ainda em construção. Se ainda lutamos para ter mais produtos musicais – discos, singles, shows, clipes, turnês – bem acabados e divulgados, com regularidade e visibilidade, terminamos por cultivar um quê de incompreensão diante de inúmeros nomes com grande potencial que não conseguem – por quê? – sedimentar as necessárias pontes até maiores audiências.

Pois bem. Massafeira – 30 Anos, o livro, ou projeto multimídia, é uma louvável exceção a essa regra. Ousa destoar do coro do “quase”, do “médio”, do “possível”, para afirmar que a música feita no Ceará merece, sim, um registro em centenas de páginas em couché e capa dura. Trata-se de um olhar em retrospecto que sugere muitos e importantes pontos para essa discussão. Mas principalmente coloca em perspectiva a música de um Ceará grande, destoando da leitura, exposta por parte da imprensa, de que aquela teria sido uma geração “abortada”, sufocada entre o sucesso reluzente do “Pessoal” e as mudanças de cenário que travaram o jogo.

Outro bom debate. Independentemente dele, porém, é inegável que o livro cumpre uma tarefa importantíssima, ajudando a aguçar o olhar e a provar que é possível, para esta mesma geração e para aquelas que a ela se seguiram, ver sua história contada de forma respeitosa e atraente. Ter ao menos o benefício da dúvida. Contar com um registro à altura da repercussão que, afinal, a Massafeira de Ednardo, Augusto, Brandão e muitos outros teve para muitos.

Os ecos da Massafeira chegaram a muitos outros potenciais ouvintes e novos irradiadores através da publicação, que bem pode merecer suas críticas, pela ausência, mesmo intencional, de maior ordenamento, pelo espaço para alguns nomes deslocados, pela ausência de outros. Mas, desde a capa em vermelho com o infinito tracejado nos chifres do carneiro estilizado por Brandão, o livro sugere muito mais a verborragia que a síntese, o múltiplo que o individual, a hipótese que a conclusão. Apesar de ter sido organizado por Ednardo e idealizado também por Julia Limaverde (filha do cantor), são as várias vozes sobre a Massafeira as responsáveis pelo encanto do livro. Do palco à academia, de 1979 a 2010, do TJA ao Dragão do Mar, da Massafeira ao Manifesta.

Outro grande trunfo da obra é o precioso acervo fotográfico de Gentil Barreira sobre a Massafeira, em 1979, e a posterior viagem dos cearenses ao Rio de Janeiro, para a gravação do que viria a ser um marcante, embora problemático, álbum duplo. Os fotogramas daquela efervescência revelam desde o “Pessoal” até os novíssimos músicos que reclamavam espaço para o rock e o blues, em meio ao telúrico, ao lírico, aos tons menores da tradicional canção cearense. Todos e cada um foram registrados pelo olhar de Gentil, em fotos em preto-e-branco, mas plenas de matizes na linguagem, nos detalhes, nas leituras, nos desejos. São os longos cabelos de Ife ou de Klaus Voormann a empunhar o contrabaixo? São Waters, Mason, Gilmour, Barrett e Wright ou Téti, Rodger, Stélio, Régis e Luiz Miguel a se debruçar sobre os botões da mesa de som? São os punks londrinos ou os jeans e olhares de Mona Gadelha e Lúcio Ricardo? Paralelos que brotam das imagens.

Outra oportunidade que justifica a viagem é a de (re) ouvir os dois LPs da Massafeira, transpostos para CDs a realçar o brilho de eternas joias, como “Vento-rei”, “Aurora”, “Pé de espinho”, “Aviso aos navegantes”, “Cor de sonho”, “Último raio de sol”... Patativa em “Senhor doutor”, Ana Fonteles e Ednardo em “O sol é que é o quente”, Téti e Tânia Cabral em “O rei”, Ângela Linhares em “Como as primeiras chuvas do caju”. É, faltou “Frio da serra”, gema da lavra de Petrúcio Maia e Brandão... Mas esta vale o esforço de procurar logo ali.

Entre virtudes e limitações, o livro organizado por Ednardo e tecido a inúmeras mãos demonstra um nível de valorização que, infelizmente, ainda destoa daquilo a que a música feita no Ceará está acostumada. Precisamos de mais registros como este, mais publicações que digam das asfixias e dos paradoxos mas também da verdadeira riqueza de nossa música. Que possibilitem abreviar o hiato de informações entre passado e presente, descortinando nossa trajetória, em boa medida ainda a ser contada. Porque, apesar das luzes que lhe escondem, essa história segue se refazendo em novas canções. E tem cada vez mais pressa de continuar.

Dalwton Moura é jornalista, escritor e crítico musical. Autor do livro Nos Acordes do Jazz & Blues -Memórias do Festival Jazz & Blues de Guaramiranga (2013).

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/07/20/noticiasjornalvidaearte,3095390/entre-luzes-que-lhe-escondem.shtml

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A alegria que existe

Por Mateus Perdigão

O carnaval é um tema presente – e recorrente – na obra dos grandes compositores do cancioneiro popular brasileiro. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Alceu Valença, dentre vários outros artistas, já escreveram músicas para o carnaval ou usaram-no como pano de fundo nos versos de suas canções. A presença deste tema em suas obras artísticas não acontece à toa, ele é uma das maiores manifestações culturais de nosso País, em que pese toda sua heterogeneidade, complexidade e diferenças locais.

Com Ednardo não poderia ser diferente. Dentro do rol dos grandes compositores brasileiros, o carnaval foi tema de algumas de suas canções. Apesar de não ser o tema central de sua obra, ele merece atenção pois faz parte de uma visão maior que o compositor tem sobre Fortaleza e sua história. Entender o carnaval na obra de Ednardo, de certa forma, é pensar o carnaval de Fortaleza.
Ednardo


Dotado de uma sensibilidade e uma percepção estética singular, Ednardo canta o carnaval de uma forma em que ele não apareça apenas de forma descritiva, mas através de uma perspectiva histórica. Ele aparece em sua obra através de um olhar crítico de quem viveu e vivenciou diferentes experiências carnavalescas. E o carnaval em Fortaleza tem como um dos principais expoentes o maracatu.

A ligação de Ednardo com o maracatu começou ainda na infância, por volta dos cinco ou seis anos de idade, quando seus pais o levaram para ver a concentração dos maracatus no Parque da Liberdade. De lá, seguiu os cortejos até o Passeio Público que, depois, seguiu pela rua Senador Pompeu. Na ocasião assistiu e se encantou com os cortejos dos maracatus Estrela Brilhante, Az de Espada e Az de Ouro, que desfilavam pela rua pouco iluminada carregando os próprios candeeiros, num batuque envolvente.

O Estrela Brilhante foi, nas recordações do compositor, o primeiro maracatu que ele viu. Ainda criança seguiu o cortejo por entre as pessoas, levando seus pais à loucura, que o procuraram por aproximadamente meia hora pela multidão. Além de ser uma boa recordação de infância, o Estrela Brilhante foi tema de uma canção sua, gravada no disco Imã, em 1980. Nesta canção, Ednardo buscava homenagear um dos períodos mais férteis do maracatu cearense: “Maracatu estrela brilhante/ Maracatu o teu brilho errante/ Gamela da nossa mistura/ Tão linda tão mista tão pura/ Maracatu/ Garra maracá já guerreiro/ Batuque ferro e ganzá/ A flecha cravada no céu brasileiro/ Infinita mente cantar / Cantar/ Cantar”

Quando o local do desfile dos maracatus deixou de ser na rua Senador Pompeu e passou a ser na Avenida Duque de Caxias houve um certo esvaziamento do carnaval de Fortaleza e uma tendência a desvincular os maracatus do carnaval da cidade – por motivos inclusive políticos. “Mais um Frevinho Danado” é uma canção de Ednardo gravada na década de 1970, no disco O Romance do Pavão Mysterioso, que narra o início desse esvaziamento: “No espaço curto desse passo louco / vou sair um pouco pra esquecer o triste / se eu lhe encontrar pelo meio desse povo / vou lembrar de novo que a alegria existe”. Outra canção que fala do mesmo assunto é “Maresia”, gravada no disco O Azul e o Encarnado, de 1977: “A calmaria da cidade é geral/ É geral, é geral/ E a maresia que molhou a minha pele / Rimou com a canção pra este carnaval/ Nada me resta a não ser tua beleza / E a incerteza do que vai ser de mim/ Por isso basta dessas coisas sérias (...)”

Outra canção que merece destaque no seu repertório carnavalesco é o frevinho “Bloco do Susto”, gravado no disco Cauim, de 1978.
Ednardo é um entusiasta do maracatu cearense e do carnaval de Fortaleza. Sempre atento às manifestações culturais e todas as transformações que ocorreram no passado, com certeza ele está atento a este novo fôlego que o carnaval de Fortaleza tem tomado. Que os atuais blocos, escolas de samba, afoxés e maracatus se inspirem em suas canções para não mais deixar a calmaria na cidade ser geral, mas que permitam que todos nós possamos sair fantasiados de alegria por aí.

Mateus Perdigão é sociólogo, um dos fundadores e músico do Bloco Luxo da Aldeia que surgiu em 2006, no Benfica, com a proposta de reunir foliões em torno de canções de compositores cearenses.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Por que sou a nata do lixo

Raquel Chaves
Por Raquel Chaves

Após um plantão emoldurado por uma enxaqueca de três dias, resolvi enfrentar a noite do último sábado. Sorte minha, que (re)vi sorrisos amigos, abracei, cantei e esqueci-me do cansaço e de qualquer dor que se atrevesse a não partir. Anoiteci saltitante ao sabor das canções de Lauro, Fausto, Ednardo, Petrúcio, Evaldo, Luís e outros bons. Ainda não era o Pré-Carnaval e a festa era privada – para apurar recursos e começar a ganhar a rua nos dias que virão.

A música, a alegria, a festa, as cores e a dor de cabeça esquecida me reportaram a cinco anos atrás, quando recebi um email de um amigo bastante querido. Ele desejava apoio de qualquer sorte na divulgação de um projeto que ainda germinava. Desde outubro de 2007, os meninos do Luxo, novinhos ainda (como até hoje o são), semeavam a alegria e o orgulho de ser cearenses. Queriam cantar isso para mais gente ouvir. E mais. E mais. “O bloco Luxo da Aldeia é formado basicamente por universitários, estudantes de música e foliões que pensam em valorizar a música cearense e aumentar o vínculo desta com a população local, buscando intervir diretamente na construção da nossa cultura”. Assim, o projeto começava a delinear a que se pretendia.

Os meninos do Luxo explicavam que homenageariam, em verso e prosa, compositores cearenses e os que fizeram sua carreira artística no Ceará. E queriam, também, carnavalear. “O nome do bloco é inspirado na música Terral, de Ednardo, que tem os seguintes versos: eu sou a nata do lixo/ sou do luxo da aldeia/ sou do Ceará” – detalhava o projeto do bloco. A canção não era nova. O desejo de espraiar-se, sim. Os mesmos versos, desde o Pré-Carnaval de 2008, erguem cada vez mais pés e ecoam em um sem-número de vozes cearenses, orgulhosas de si.

Porque hoje é sexta-feira e primeiro dia de Luxo da Aldeia na rua, eu queria mesmo era despencar, despencar, despencar. Mas quando conseguir pisar o Benfica, a multidão já não terá mais o palco colorido à frente e terá se aquietado um tanto. De todo modo, meu bairro e Fortaleza ficam mais alegres depois que o Luxo canta.

PS: Obrigada por aquele email de 27 de dezembro de 2007, querido MM. Bom demais ver de perto que tudo deu certo e receber a energia de vê-los pulando em qualquer palco, (en)cantando o Ceará de todos nós.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Jornal O POVO - O que há de melhor no Carnaval do Ceará? (2)

No comecinho de uma música do Ednardo, o folião se diz fantasiado de alegria, a sair pela cidade para brincar a festa da carne. É essa mesma fantasia que eu me visto agora: feliz porque já chega o Carnaval e com ele as fantasias que há muito deixaram de ser apenas Pierrot e Colombina. 

Vontade de música e sol, cerveja e suor. A folia, na capital cearense, de uns anos pra cá, ficou ainda mais bonita, e enquanto eu escrevo esse pequeno depoimento são anunciadas as apresentações do bloco Luxo da Aldeia, no bairro do Benfica, nos dias 18 e 20, sábado e segunda (durante a tarde). A moçada que fez muita gente vibrar com canções de cearenses carnavalescos e alegres era uma verdade apenas do Pré-Carnaval. Com o pessoal do bloco Sanatório Geral, a minha festa ficará ainda mais completa no Carnaval deste ano.

JÚLIA LOPES
Repórter do Núcleo de Cultura e Entretenimento do O POVO