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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Alguém viu manifestações reclamando das calçadas?

via Bruno  Perdigão

Por FERNANDO SERAPIÃO

Poucos se sensibilizam com a qualidade da calçada paulistana: nem poder público nem sociedade levantam a bandeira daquele que é o espaço público mais importante da cidade.

A calçada é o patinho feio nas demandas populares: alguém se lembra de ver alguma faixa reclamando da qualidade delas nas recentes manifestações populares?

Não é um problema estético. O tema é de mobilidade urbana e a questão é histórica: uma lei municipal de quase 70 anos definiu que a responsabilidade por construir e manter o passeio público é dos proprietários.

O poder público ficou com a parte boa --fiscalizar e multar--, porém menos de 10% dos infratores pagam as multas, que não são revertidas diretamente nos passeios.

Se a municipalidade se diz incapaz de assumir o ônus financeiro, deveria criar campanhas de conscientização e, depois, fiscalizar com rigor.

O aumento recente do valor das multas não trouxe resultados e o sistema se provou ineficaz: quase todas as calçadas são problemáticas.

Ainda que seja uma agulha em um palheiro, o anúncio da implantação de oito rotas acessíveis é um fato positivo, mas o governo só está cumprindo a lei: as ruas escolhidas integram o Plano Emergencial de Calçadas, lei sancionada na gestão Kassab, e de iniciativa da então vereadora Mara Gabrilli.

Progressista, o plano repassou à prefeitura a responsabilidade pela requalificação de quase 3.000 quilômetros, ou seja, cerca de 10% das calçadas da cidade.

Dezenas de vias fazem parte do plano, algumas já implantadas, onde circula a maioria dos pedestres.

O dado negativo é que, por se tratar de verba da pasta federal do turismo, as rotas privilegiam pontos turísticos e comerciais no centro e deixam fora a periferia.

Com esse pecado original, a ação corre o risco de demonstrar mais preocupação com turistas do que com moradores.
FERNANDO SERAPIÃO é crítico de arquitetura e editor da revista "Monolito".

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/122820-alguem-viu-manifestacoes-reclamando-das-calcadas.shtml

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Passo a passo

Por Romeu Duarte

A José Sales e Bruno Perdigão

Será possível conhecer uma cidade pelas suas calçadas? O grande Vilanova Artigas dizia ser factível medir a felicidade dos moradores de uma cidade pela beleza desta. O espaço público, sua qualidade e suas características é o que fica em nós de qualquer urbe que visitemos, a não ser que sejamos como Garrincha, que se lembrava de Paris apenas por ter sido a cidade onde o técnico Vicente Feola, quando da passagem da seleção brasileira por lá, havia levado uma desastrada queda... Eu, pedestre assumido muito antes de virar arquiteto folgado, só tenho a dizer que tentar desfrutar nossa capital a pé é tarefa que exige, dentre muitas outras virtudes, agilidade de tigre, resistência de Wolverine e paciência de Jó.
Romeu Duarte


Ah, como é difícil gostar de Fortaleza pela via do seu espaço público. Passeios estreitos, desnivelados, escorregadios, sem padrão de pavimentação, o inferno de idosos e inválidos. Out-doors, top-lights, back-lights, fachadeiros, letreiros, luminosos, quem terá a coragem, como dizia Augusto Pontes, de descascar esta Las Vegas tupiniquim e mostrar-lhe a verdadeira face? Praças abandonadas, o parquinho imundo e seus brinquedos quebrados, o vaqueiro destemido tangendo o gado garatujado com spray preto. Ah, Bárbara, Clóvis, Rachel, Patativa, o que vocês diriam se vissem como suas estátuas são por nós tratadas? Ganha um canário roubado da Feira dos Pássaros quem souber.

Palácios tombados pichados e vandalizados, “são as casas dos que nos oprimem, acho é pouco”, diz o ex-manso e gentil ativista ecológico, agora rebelde carbonário do Facebook. O ubíquo engarrafamento de cada dia nos dai hoje, Senhor, mas sem assalto, pedido de amigo, que o liso está no cheque especial e o Nokia dele é xing-ling. O jardim cheio de lixo, as flores disputando os olhares com latas de refrigerante, pontas de cigarro e preservativos usados. No vento, a voz do poeta me sussurra: “nós somos os homens ocos, nós somos os homens empalhados, apoiados uns aos outros, a cabeça cheia de palha, ai de nós!”. Diz aí do alto, Cazuza, por que a gente é assim?

Como se não fora bastante o desmazelo causado por nós próprios, os poderes públicos insistem em nos oferecer, sem nos consultar, as infelizes soluções de um urbanismo rodoviarista tardio, mera panacéia para nossos males citadinos, no qual reina absoluta Sua Majestade O Veículo Individual. E tome túnel inseguro, viaduto mala sem alça e com semáforo embaixo, rotatórias ajardinadas sem condição de acesso e uso, vias que viram rodovias sem passarelas de pedestres, afinal de contas, quem é o doido que vai ao Centro de Eventos a pé? Conseguirá a vigília de alguns poucos abnegados sob a sombra das castanholas cortadas no Cocó deter o coito ensandecido dos viadutos-serpentes?

Um alerta ressoa em todos os i-pods, i-pads, walkmans e celulares dos passageiros-sardinhas do Circular 2: “Desistam, infiéis, vocês pagarão muito caro pelos efeitos desta burrice elevada à potência da omissão e do autoritarismo. Nem a sua divindade máxima, a Ponte Estaiada, os salvará da hecatombe final”. No trajeto, uma área de risco é ocupada, a tapioca com café toma a pracinha sem cerimônia e os camelôs do Buraco da Jia penduram a mercadoria no gradil da Catedral: “Calcinha da moça da novela, uma é dois real, três é cinco real. Quer não, dona? Vai dar um up no material aí...”. Pesadelo lisérgico, exagero do cronista pessimista ou apenas a realidade nua e crua, tal como o bife desta quentinha que eu comprei ali debaixo do Tatazão?
Estejam certos: é a presença, o passo a passo firme dos que não fogem do seu lugar (que deveria ser o de todos), mesmo contrafeitos com tudo isso aí (aqui), o que vai redimir esta cidade, que fazemos, todos os dias, tão bela e tão feia.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O que sobra entre a rua e o prédio

Por Bruno Perdigão
ESPECIAL PARA O POVO

Muito além de pensar apenas os meios de locomoção das pessoas, a mobilidade urbana pode facilitar a democratização do espaço ou aumentar a segregação de uma cidade. Quanto mais prioritário for o uso do carro, maiores serão os problemas de trânsito e de segregação espacial. Um raciocínio bastante usado pelos planejadores urbanos hoje em dia é “se você planeja sua cidade pensando nos carros, você vai ter uma cidade cheia de carros. Mas se você planeja sua cidade pensando nas pessoas, você vai ter uma cidade cheia de pessoas”. Isso é muito revelador se pensarmos que a grande maioria dos espaços públicos da nossa cidade é formada por ruas. Estas são feitas principalmente para passar carros. Ou seja, temos pouquíssimos espaços na cidade pensados para o tráfego de pessoas. Será justo e democrático haver tanto espaço público na cidade voltado para o uso do carro?

Foto - Tatiana Fortes
Dentro dessa lógica, podemos concluir que o caminhar é o meio de transporte mais democrático, pois é a forma de deslocamento básica do ser humano. Se as calçadas são a infraestrutura que dá suporte para a caminhada, deveriam, portanto, ter total prioridade de investimentos do poder público. Se bem projetadas de acordo com as normas de acessibilidade, incluem ainda o deslocamento de portadores de necessidades especiais de maneira confortável. Infelizmente, hoje as calçadas são tratadas apenas como o que sobra entre a rua e o prédio.

O planejamento urbano para Fortaleza deveria ser pensado a partir de suas calçadas. Isso possibilitaria conseguir uma relação mais harmoniosa entre espaços públicos e privados, visto que a calçada é o primeiro mediador entre estas duas esferas. Além disso, os benefícios de uma cidade pensada para o pedestre são enormes. Quanto mais gente nas ruas, mais segura, mais viva e mais atrativa é a cidade. Quanto menos carros nas ruas, menor o número de acidentes de trânsito, de poluição, de barulho, de estresse, etc. A caminhada melhora a qualidade de vida das pessoas e uma cidade pensada a partir de suas calçadas se torna mais pública e coletiva, onde as pessoas convivem mais harmoniosamente e desenvolvem um senso maior de cidadania e pertencimento.

É claro que as calçadas não resolvem os problemas dos grandes deslocamentos. Sua integração com vias exclusivas de ônibus, ciclovias e metrôs se faz necessária. Mas mesmo para esses meios de transporte, as calçadas são complementares, pois existe um deslocamento a pé até o veículo que a pessoa vai utilizar.

É importante lembrar que fazer boas calçadas é algo muito maior do que reformar e padronizar seu piso. Precisamos de calçadas largas, bem mantidas, com faixas de livre passagem para pedestre, desobstruídas de postes e bancas de revistas, bastante arborizadas para criar sombras e com pequenas áreas de estar e descanso. Mas como conseguir dinheiro e espaço para tudo isso? É preciso que o poder público se ocupe menos com soluções para os problemas de engarrafamento dos carros. Dinheiro público é pra ser investido em meios de transporte democráticos e não para dar satisfação para uma classe média individualista, contribuindo para uma cidade cada vez mais apartada.

Bruno Perdigão, arquiteto, músico. Sócio do escritório Rede Arquitetos e organizador do Fórum Jovens Arquitetos Latino-americanos.