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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






terça-feira, 17 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 8

Laís Barreira

A vida como ela é!


Vovó Jovina, mãe do meu pai, foi uma mulher contraditória. Era pequenininha e aparentava mais jovem, porém era uma mulher durona, de princípios rígidos, muito autoritária com os filhos e netos.

Para se casar com o homem do qual ela gostou na juventude, precisou fugir de casa. Isso aconteceu provavelmente porque seus pais deviam ser muito rigorosos com a filha e não devem ter visto com bons olhos seu romance com aquele viajante, que era como se chamavam os vendedores de tecidos e artigos (futuramente chamados de caixeiros-viajantes).

Pois bem, depois da fuga, para não ficar desonrada, os pais de minha avó fizeram o seu casamento, como vigorava a moral daquela época.

O curioso foi que, anos depois, a minha avó Jovina replicou a educação recebida dos pais, à qual ela precisou se rebelar, com os seus próprios filhos; ela não queria que nenhum deles se casasse e fez o que pôde para impedi-los.

Com os filhos homens ela não conseguiu, mas “torceu o nariz” a todas as noras. Já com as cinco mulheres ela foi ainda mais dura e não lhes deu o direito de traçar seus próprios destinos. Apenas uma delas se casou, depois de fugir, como a própria mãe; porém, minha tia Júlia faleceu prematuramente, do parto do primeiro filho; a tia mais velha, apelidada “Senhorinha” também faleceu jovem, de tuberculose.

As outras três, a quem chamávamos “tias Ayres”, nunca se casaram, ficaram solteironas e até o fim de suas vidas viveram juntas, uma cuidando das outras.
                                               
                                                                
***

Pelo lado da minha mãe, um tio pouco afeito a autoritarismos, casou-se com um “mulherão”, teve com ela dois filhos, uma baita decepção e ainda ganhou a triste fama de “chifrudo”, apelido que nem hoje em dia os homens aguentam. Imagine só naqueles tempos!

Eu ainda era meninota, mas lembro-me bem.

Meu tio era bonitão, alto e tinha os olhos claros, mas lhe faltava um pouco mais de inteligência e sua voz gaguejante não era das mais agradáveis de ouvir.

O fato é que os dois casaram e tiveram filhos, porém, sua mulher conheceu um engenheiro, pessoa importante, que tempos depois recebeu a homenagem de ter uma estrada, que liga dois estados brasileiros, com o seu nome.

Quando o tal engenheiro esteve aqui, fez amizade com o casal e passou a frequentar a casa da Praia de Iracema, local onde as famílias passavam férias e temporadas. Minha avó, Emisabel, que passava um período na casa deles, “maldou” logo daquela amizade e comentava que o engenheiro sempre ia lá para conversar; lá pras tantas, contava ela, a esposa alegava sede e entrava em casa, logo em seguida o engenheiro arranjava uma desculpa para também entrar e, nisso, ambos se demoravam lá por dentro. Só o bobo do tio não percebia nada.

Um dia eu estava passando férias na Praia de Iracema, na casa da família Markan, amigos de minha mãe e à tarde fomos passear pela praia.

Ao passar em frente à casa do meu tio, uma das pessoas que estava conosco apontou: “olha lá: aquela é a casa onde mora o chifrudo”! Imagine minha situação, eu era sobrinha do dito cujo; encabulada, olhei para o outro lado e fiz de conta que não sabia de quem se tratava.

O fato é que os dois se separaram, ela foi embora com o engenheiro para o Rio de Janeiro deixando os dois filhos com o ex-marido que, durante um bom tempo, moraram com a minha mãe.


(História narrada por Laís Barreira, aos cem anos e transcrita por Vólia Barreira).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 7

Laís Barreira
A mágoa inesquecível



“Mô chefe jogou minhas coisas tudo, pela janela”, falou tristemente, com seu sotaque alemão carregado e engraçado, o nosso amigo Fred.
Namorado da amiga Lurdinha, que estava hospedada na casa da minha mãe, Fred era um dos alemães da pequena colônia que vivia em Fortaleza e, naquele dia todos nós sentimos o significado de estar em guerra com outro país.

Era o ano de 1942, quase no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que nós chamávamos de “Grande Guerra”.

O Presidente Getúlio Vargas simpatizava com o Eixo formado pela Alemanha, Japão e Itália, porém acabou entrando na guerra e lutando junto aos adversários destes, os países aliados; a gota d’água foram os bombardeios de vários navios brasileiros por submarinos italianos e alemães.
Aqueles episódios indignaram a população e em todos os estados houve represália a emigrantes estrangeiros, mesmo aqueles que já viviam no Brasil muito antes da guerra.
Em Fortaleza teve um “quebra-quebra” em várias lojas pertencentes a alemães, italianos e japoneses.

Lembro bem do episódio da Casa Veneza, de um italiano, uma das sapatarias mais chiques da cidade, que ficava na Rua Floriano Peixoto. Os manifestantes invadiram a loja e jogaram os sapatos no meio da rua.
Outras lojas também foram depredadas e algumas foram até incendiadas pelo povo revoltado contra o Eixo dominado por Hitler, entre elas as lojas Pernambucanas, da família Lundgren, a padaria de um espanhol e a loja de flores da família Fujita que se chamava “Jardim Japonês”.
Os alemães, principalmente, eram olhados “meio de lado” pela população de Fortaleza, mas nós mantivemos nossas amizades e nunca os tratamos mal.

O “Seu” Vicente Cunto e seu primo José, italianos que moravam aqui há muito tempo eram nossos vizinhos, donos de uma loja de tecidos e alfaiataria chamada A Formosa Cearense e eram boa gente.  
O Brasil declarou guerra aos países do Eixo, mas, quando enviou os soldados para a luta nós já imaginávamos que a guerra estava próxima do fim; a Alemanha e seus parceiros estavam perdendo algumas batalhas importantes e as notícias do rádio informavam o avanço das tropas aliadas.
Em junho de 1944 os oficiais da FEB (Força Expedicionária Brasileira) embarcaram para a Itália; nesse dia houve uma grande comemoração na Praça do Ferreira, uma alegre multidão se concentrou no centro da cidade, para se despedir e desejar boa sorte aos soldados.
Foi um dia inesquecível!
Houve desfile de carros abertos pelas ruas do centro e nós saímos a pé, em passeata, até a praça, eufóricos com aquele acontecimento que era esperado por todos e protelado pelo governo apesar das pressões (em agosto de 1942 o governo do Presidente Getúlio Vargas declara guerra à Alemanha e à Itália, porém as tropas só foram enviadas para a Itália em junho de 1944).
Em meados de agosto de 1945 esperávamos a declaração do fim da guerra a qualquer momento e, quando finalmente a notícia chegou, transmitida por todas as estações de rádio, eu estava em casa; nessa época eu já tinha quatro filhos, todos pequenos.

A princípio não me animei muito pra ir, o Américo não havia voltado pra casa, eu não tinha companhia e nem com quem deixar as crianças.
Mas, quando as rádios começaram a dar notícias das centenas de pessoas chegando à Praça 
do Ferreira, do clima de euforia e animação, fiquei louca para estar lá comemorando com todo mundo.
Mas, o Américo não deu notícia nem voltou em casa. Do trabalho foi direto para a praça comemorar com os amigos.
Só depois soube dos detalhes, da multidão que se reuniu lá, da alegria e da vibração que contagiou as pessoas e percebi que perdi a comemoração de um dia histórico para toda a humanidade.
Senti uma grande frustração e uma mágoa do Américo, por não ter ido me buscar, que nunca esqueci.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira).

Nota
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era formada por uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças. Mais de 25.000 homens e mulheres participaram da Campanha da Itália em suas duas últimas fases.  Seu lema "A cobra está fumando", era uma alusão irônica ao que se afirmava à época de sua formação, que seria "Mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa".

O Esquadrão de Caças da FAB (Força Aérea Brasileira) adotou o grito de guerra “Senta a Pua” que era uma expressão nordestina muito usada nos anos 40. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Histórias que Laís conta – 6


As rodas de conversa de Elisa

Laís Barreira


Naquela época ainda não havia televisão; era o tempo das cadeiras nas calçadas e nos terraços das casas, ao entardecer, que reunia as famílias, os vizinhos e os amigos para prosear.

Na casa de minha mãe esse era um costume antigo; desde quando morávamos na Praça dos Voluntários, as rodas de conversa da d. Elisa juntavam amigos.

Minha mãe enviuvou cedo e precisou enfrentar a situação com coragem para superar, junto com seus dez filhos, as dificuldades advindas.

Todos nós começamos a trabalhar bem jovens para ajudar nas despesas domésticas, que eram controladas por ela com pulso firme.

Graças a ela sempre tivemos muitas amizades nas vizinhanças de todos os locais onde moramos; era uma época em que não havia grandes diferenças entre as classes sociais e era natural convivermos com pessoas mais abastadas do que nós e que frequentavam as “altas rodas”.

Um desses amigos, o escritor Milton Dias, era frequentador assíduo da casa da “d. Elisa” e, vários de seus contos foram inspirados nas histórias compartilhadas nesses encontros. A amizade teve início entre a minha mãe e a do Milton; ele era um escritor bastante conhecido, seus contos eram publicados nos jornais; O Zé Milton como nós o chamávamos tinha uma conversa brilhante, ele “enchia” a noite e era muito “requestado” para jantares e festas dos “grã-finos”. No entanto, ele dizia que se divertia nas nossas rodas de conversa e estava cansado de tantos jantares e festas para os quais era convidado: não aguento mais tantos convites!

A última casa em que mamãe morou tinha um terraço muito agradável, ao ar livre, que à tarde ficava sob a sombra de um grande pé de sapoti.

Nesse local todas as noites havia o ritual de levar as cadeiras para fora e esperar a chegada dos amigos; além do Milton, participaram de muitas rodas de conversa o pintor Floriano Martins que era um intelectual, o antropólogo e crítico de arte Geraldo Markan, conhecido como Gegê, muito amigos de minha irmã Lúcia, o jornalista Carlos D’Alge, o artista Zenon Barreto, além das nossas amigas mais assíduas, as Carvalhedo, Cármen, Maria Luisa e sua prima Zilma.

Nas reuniões se falava de tudo, política, religião e, principalmente assuntos do cotidiano, sempre tratados com bom humor, nada de muita polêmica!

Não havia bebida alcoólica, minha mãe, muito religiosa, fazia essa restrição, era “boca seca”, apenas um cafezinho e no máximo um suco de frutas; no entanto, as conversas eram muito animadas.

Hoje, olhando aqueles tempos com o que guardei na memória, me parece que a vida se passava com menos pressa.

Com o passar dos anos a casa foi ficando grande demais e insegura para as duas pessoas idosas que lá residiam, mamãe e minha irmã Marina; então, a casa foi vendida e elas mudaram para um apartamento menor onde minha mãe viveu até quase cem anos e sobreviveu a muitos daqueles amigos que frequentaram sua casa.

As rodas de conversa foram substituídas pela TV que tinha lugar de destaque na sala, no entanto, permanecem na lembrança as conversas inteligentes e espirituosas daquele grupo de pessoas que frequentava a casa da Rua Carlos Vasconcelos, 1438.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 4



O primeiro amor não se esquece
Laís Aires Barreira


Ele era aluno do Colégio Militar, o sonho de toda garota da época. Além disso, era um rapaz muito bonito, “um pitéuzinho” e, me apaixonei por ele.

Eu tinha 14 anos e era louca pra namorar de verdade. Naquela época, na década de 30 do século passado, uma moça chegar aos vinte e cinco sem namorado recebia o apelido de “vitalina”; eu estava longe disso, mas cuidava para não correr esse risco.

Eu o conheci nas retretas de domingo que aconteciam na Praça do Ferreira, onde sempre tocava uma banda de música. Os rapazes ficavam parados conversando, as moças ficavam dando voltas na praça e quando se cruzavam flertavam. Muitos namoros começaram assim.

Outra coisa que facilitava os encontros é que a irmã dele era minha colega de escola. Mesmo sendo de família mais “abastada” que a minha, ela estudava na Escola Normal Justiniano de Serpa, uma escola pública; nós estudávamos juntas, com outras duas amigas, hora na casa de uma, hora na casa de outra; No entanto, nunca contei para ela que estava namorando seu irmão.

Os namoros de antigamente não eram como os de hoje, com tanta liberdade que os casais se vêm  todo dia e até dormem juntos!

No meu tempo, quando a mãe consentia a gente namorava na sala de casa, dia de sábado e tinha hora pra chegar e sair.

Meu primeiro namoro não foi consentido, aliás, não foi nem falado para a minha mãe, era um namoro escondido.
Eu saia de casa com as amigas e ele ia me encontrar. Algumas vezes fomos ao cinema, que ficava próximo da igreja Coração de Jesus.

O cinema é um capítulo à parte. Eu e minha irmã Nadia adorávamos e durante muitos anos tivemos esse hábito e sempre que podíamos íamos assistir aos filmes românticos, de aventura e suspense e ver nossos artistas preferidos.

Um épico que recordo até hoje foi Ben Hur, que fez enorme sucesso na década de 50, estrelado por Charlton Heston e as atrizes mais famosas eram Ginger Rogers, Greta Garbo, Bette Davis, Hedy Lamarr, Marlene Dietrich, Olivia de Havilland, todas glamorosas.

Teve ocasião em que o filme era tão bom que nós pagávamos o ingresso e quando a sessão acabava nós duas ficávamos dentro do cinema esperando a próxima começar. Quando o “lanterninha” não percebia, a gente assistia duas e até três vezes o mesmo filme!

Namorar no cinema era muito bom! Assim que as luzes apagavam a mão dele se insinuava até alcançar a minha, dava um frio na barriga, as mãos suavam, o coração acelerava e nós passávamos toda a sessão de mãos dadas. Era o máximo que acontecia, nem sequer um beijinho, mas, era proibidíssimo e uma ousadia, se minha mãe ficasse sabendo não iria acabar bem.

O cinema mais frequentado por nós era o Cine Pio X, dos frades capuchinhos que ficava pertinho da igreja do Coração de Jesus e do Parque da Liberdade (Cidade da Criança) onde encontrávamos as amigas para a sessão das três da tarde ou os namorados, cuja sessão era à noitinha.

O namoro durou três ou quatro meses e ia muito bem dessa forma, escondido, até que um dia minha mãe recebeu uma carta anônima mentirosa dizendo que eu fui vista “me agarrando” no escurinho do cinema.
Logo no Pio X, onde os frades capuchinhos eram tão rigorosos, ao ponto de, nas cenas de beijo, os “lanterninhas” iluminarem a plateia com suas lanternas para flagrar algum casal mais ousado!

Minha mãe me mandou imediatamente acabar esse namoro sob pena de que eu ficasse “falada”.
Muito triste fui falar com ele e contei-lhe da carta maldosa que nos denunciou e que por isso seria melhor nos afastarmos por um tempo.
Para minha surpresa ele não só acatou minha decisão como nunca mais me procurou.  Agiu covardemente, com medo de se meter em confusão, deixando uma mágoa que guardei por muito tempo.

Quanto à fofoqueira, nunca descobri quem foi a traidora que me entregou, talvez despeitada por eu namorar um aluno do Colégio Militar!

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 3

Laís Barreira

Moça não tem juízo!


Eu vi muita coisa mudar nessa cidade. 

Lembro que durante muitos anos eu morei no centro da cidade, na rua Sena Madureira, perto da Cidade da Criança que, naquela época, chamava-se Parque da Liberdade e tinha o portão de entrada encimado pela estátua de um índio quebrando os grilhões, que não sei se ainda está lá.  (A estátua permanece no local).

Cheguei na Sena Madureira ainda menina e saí de lá moça feita, j diplomada como professora.

Em 1930 eu tinha 14 anos e, morando próximo do parque ia muito lá com as amigas. Era um lugar muito agradável e embora fosse frequentado pelas famílias que moravam ali ao redor, as Leite Barbosa e as Carvalhedo, um pessoal “meio rico”, a sociedade daquela época não andava muito lá.

Próximo ao Parque, na Praça da Igreja do Coração de Jesus existia o Colégio Castelo Branco e nós, as mocinhas, tínhamos uns “namoricos” com os alunos do colégio que eram o motivo dos nossos passeios no Parque da Liberdade.

Porém, para as moças entre 15 e 18 anos o ideal, ao qual almejávamos, era namorar um aluno do Colégio Militar, principalmente por causa de suas fardas que achávamos lindas, especialmente a farda de gala usada nos desfiles de Sete de Setembro, que a gente adorava.

Eu e minhas amigas não perdíamos os desfiles de jeito nenhum; a estrela principal era o Colégio Militar que esperávamos ansiosas e fazíamos qualquer coisa para flertar com os rapazes!

Nós íamos esperar o início do desfile no Beco dos Pocinhos (início da Av. Santos Dumont) e sabíamos qual era o roteiro da “parada”.  Assim que os rapazes do Colégio Militar passavam nós corríamos para a outra rua só para vê-los passar novamente, trocar olhares, sorrisos e piscar de olhos.

Moça não tem juízo!

A gente fazia essas “loucuras” que hoje em dia nem consigo imaginar; naquele tempo eu adorava só que hoje eu sou contra os militares.

 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 2


Emisabel
Laís Barreira


Seu nome era Maria Isabel, mas, a forma como bordava em seus lençóis e toalhas, M. Isabel, definiu o apelido com que passaria a ser chamada pelos netos e netas.

Emisabel, como sempre a chamamos, era uma mulher alegre e extrovertida demais para o final do século XIX, época em que viveu sua juventude; sua risada chamava a atenção e provavelmente escandalizava os mais puritanos, porém, foi justamente o seu temperamento que encantou o jovem tenor espanhol que veio ao Brasil com uma companhia de ópera que acabou falindo e se desmanchando.

Uma companhia de ópera que vem da Espanha e vai para o interior do Ceará, se vê logo que não andava bem das pernas. Suas últimas apresentações foram em Sobral, cidade em que minha avó nasceu e foi criada por “padrinhos” que tinham “alguma posse”.

A estreia da ópera alvoroçou Sobral. 

O espetáculo era O Guaraní, estrelado pelo tenor José Ubeda Perales que interpretava Peri. Ao final da apresentação, o jovem tenor que era bonito, apesar de não ser alto, recebeu rosas da plateia; a escolhida para entrega-las representando a sociedade sobralense foi a jovem Maria Isabel.

Sobre isso minha mãe contava um fato engraçado: o buquê entregue ao tenor era amarrado por um belo laço de fita que encantou o garoto que trabalhava na casa de minha avó. Sem falar com ninguém, no dia seguinte o rapaz foi ao hotel onde a companhia estava hospedada e solicitou a devolução da fita do buquê. O tenor, envergonhado, procurou a senhorinha que lhe entregara as flores pedindo-lhe desculpas, pois “não sabia que era costume em Sobral devolver a fita do buquê”.

Assim eles se conheceram e o tenor encantou-se tanto pela moça que decidiu ficar definitivamente no Brasil e a história dos dois terminou em casamento.

Depois de casados, com a companhia teatral falida, ambos resolveram ir morar em Camocim que era uma cidade em expansão por causa do porto e lá abriram uma pensão que se tornou uma das melhores da cidade.

José, um jovem culto e muito inteligente, nunca mais se apresentou como cantor, voltou uma única vez à Espanha e terminou sua curta vida em Camocim como guarda-livros, que hoje é a profissão de contador, da pensão que tinha com a mulher.

Emisabel, ao contrário, viveu quase cem anos e morou muitos anos em Fortaleza com Elisa, a mais velha dos seus cinco filhos, minha mãe.
Eu, meus irmãos e irmãs, convivemos muito com essa avó avançada, que fumava charuto, não tinha “papas na língua” e falava palavrão, o inverso da minha mãe, recatada e muito religiosa.


 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Histórias que Laís conta...(1)


Laís Barreira
Vovó Jovina

" 'Cuidei que era uma menina, mas já é uma mulherzinha!' Exclamou o viajante admirado com a beleza da mocinha de olhos azuis que lhe entregava uma caneca de água fresca."


Naqueles tempos os vendedores ambulantes eram chamados de viajantes e andavam, geralmente a cavalo, pelas cidades das redondezas oferecendo seus artigos.

Vovô Targino era um caboclo, porém, de cabelo liso, bem apessoado e era um desses viajantes que sempre passava pela propriedade da família de Jovina, à beira da estrada.

Certo dia ele resolveu parar para pedir água; apeou do cavalo e percebeu a menina sentada no terraço com uma mulher que penteava seus longos cabelos.

Vovó Jovina era uma moça baixinha e usava longas tranças negras que lhe desciam pelas costas e davam-lhe a aparência de menina.

Quando a moça lhe trouxe a água o cavaleiro percebeu que se enganara, diante dele uma bela e pequena mulher lhe oferecia a caneca d’água, deixando-o apaixonado.

Targino passou a parar sempre naquela propriedade, com a desculpa de beber água e a intenção de prosear com a moça que conquistara seu coração; até que um dia, suponho que com o seu consentimento, ele carregou Jovina na garupa de seu cavalo “roubando-a” de sua família, único jeito de casar-se com ela naquela época.

E assim, dessa união que durou até o fim de suas vidas nasceu Euclides, o meu pai.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)


terça-feira, 30 de maio de 2017

A CADELA VIRA-LATA

Por Vólia Barreira

Era uma cadela vira-lata e magra de dar dó. Chegou lá em casa de repente, vindo sabe-se lá de onde, com o rabo entre as pernas, arrastando um barrigão enorme e com uma cara de fome de vários dias. Não parecia ser jovem, tinha um ar cansado de quem já havia parido várias vezes.

Nós, crianças, ficamos com pena daquele animal que parecia tão sofrido, com aquele jeito humilde de cão sem dono, carregando com visível esforço o enorme barrigão.
Estava longe de ser uma cadela bonita, seu pelo amarelado era meio ralo, tinha o focinho muito comprido e andava sempre com o rabo entre as pernas. Era como se ela estivesse na iminência de apanhar, o que, aliás, deve ter acontecido muito por aí, nas suas andanças pela vida. Deixamos que ela se alojasse num canto do quintal, com a cumplicidade daquela que cuidara de mim desde que nasci, a quem meu irmão apelidou de “Pedinha”; ela acobertava todas as nossas traquinagens, pois mamãe não podia nem sonhar com aquela “presepada”. 

Todo dia nós lhe levávamos um prato com restos de comida e ela foi ficando por ali enquanto aguardava mais uma ninhada. Sua “casa” era próxima ao pé de seriguela do nosso quintal, onde ficávamos encarapitados a “mangar” da pobre cadela.
Pedinha, que vivia há anos lá em casa, não gostava daquele “cão sarnento” como ela dizia, no entanto, era ela quem lhe preparava todos os dias o prato de comida e a tigela d'água.

Essa cachorra parece uma geringonça! dizia ela.
Para nós era mais um motivo de gozação; quando a pobre cadela, toda desengonçada, balançando os peitos caídos, vinha cheirar suas pernas, quem sabe atrás de comida ou, quem sabe, apenas para agradecer a atenção que nunca teve, ela lhe tascava um “sai pra lá geringonça”!
E assim, nós a batizamos oficialmente de Geringonça.

Pouco tempo depois a cadela já parecia outra. Mais gorda, mais disposta, até menos feia.

Num dia qualquer desse tempo, que já se tornara uma rotina e perdera a graça, tão acostumados estávamos com a “Geringonça”, eis que ela amanhece parida.
Foi um alvoroço! Uma ninhada de cachorrinhos, todos amarelados como a mãe, uns mais clarinhos, outros mais escuros. Cinco ao todo e todos querendo mamar ao mesmo tempo nos peitos murchos da cadela.

Nosso pai foi categórico: - “nada de ficar com essa cachorrada em casa. Tratem de dar os filhotes”.

Então aconteceu uma coisa insólita, que nunca havíamos visto antes e nosso pai nos explicou mais tarde ter sido essa, a única forma que o animal encontrara de defender uma parte da ninhada, pois sabia que não teria leite suficiente para alimentar a todos.
Todas as manhãs nós dávamos pela falta de um ou dois filhotes, que encontrávamos no terreno baldio ao lado da nossa casa, separado apenas por uma cerca de arame farpado.
Nós os levávamos de volta para a mãe e tornávamos a encontrá-los lá no dia seguinte.
A princípio pensávamos que os filhotes fugiam e não sabiam mais voltar, mas isso era inexplicável, pois os bichinhos mal abriam os olhos e nem se firmavam direito nas patas.

Como sempre, foi a minha preciosa Pedinha quem descobriu o “mistério”. A própria Geringonça os levava pendurados pelo cangote e os abandonava. Provavelmente ela escolhera aqueles que tinham mais condição de sobreviver. Lembro-me que uns dois chegaram a morrer e os outros nós distribuímos com a meninada da vizinhança. Não ficamos com nenhum.

Naquela época já tínhamos em casa outro cachorro, criado desde novinho, um cachorro bonito e macho (que a nossa mãe não gostava de cadela porque vivia no cio), não de raça pura, mas, “meio raceado” como dizia meu irmão, o dono oficial do cão.

Um belo dia, já sem nenhum filhote e refeita do parto e da amamentação, a nossa Geringonça sumiu, exatamente como chegou às nossas vidas, mansamente, sem alarde (nunca a ouvimos latir, ao contrário do nosso cão, que latia à noite ao menor ruído nos arredores da casa).
Foi embora sem se despedir e nunca mais a vimos pelas vizinhanças.
Certamente ela aportou na nossa casa apenas para ter suas crias e se restabelecer, sem intenção de ficar.
Como uma cadela de rua, que era provavelmente ela não se acostumaria a ter um dono (ou vários).
Não achamos que ela tenha sido mal agradecida, de alguma forma compreendemos que ela nos agradecera com seu olhar meloso e manso de quem não veio ao mundo para perturbar ninguém, apenas para ser livre.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

A CASA DA ESCADARIA


POR VÓLIA BARREIRA


A casa da escadaria

A bela escadaria da casa da minha infância
tinha degraus que eu subia em alegre algaravia.

Construída no centro de um terreno elevado
seus sete degraus davam acesso à varanda
encimada pelo amarelo do pé de acácia.

Com os olhos da recordação
vejo-me a subir correndo as escadas, contando os degraus,
como fazia em criança
enquanto nos ouvidos, ainda ressoam os passos do meu pai
escada abaixo,
a caminho de uma imensurável prisão
na madrugada que se eternizou na memória.

Num canto da escada, às escondidas, sinto o coração aos pulos
com a descoberta inusitada do desejo
e das profundas infelicidades dos amores imaturos.

Com os pés pesados feito chumbo
desci os degraus na vez primeira
quando  tive a consciência da nossa finitude
e o fiz, na derradeira,
carregada de  tristeza,
no dia em que a casa se transformou em sentimento .

Em suas paredes ficaram grudadas as minhas memórias
que reconstituem cada vão,
cada mosaico, cada planta do jardim...

Apurando os ouvidos,
ouço os sons de um tempo,
que ainda repercute. 


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Poema premiado no 

1º Concurso Literário da Livraria Escritores do Ceará - Prêmio Milton Dias - Crônica e Poesia - 2017

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Carta para Helena


Fortaleza, maio de 2016.


Minha pequena Helena,


Antes de abrires teus olhinhos pra ver o mundo, já nos acende um sentimento novo no coração.
És a primeira das nossas melhores expectativas!

Viverás em um planeta muito bonito e, por vezes, encherás teus olhos com tanta beleza.
Porém, esse mundo em que vivemos, não tem sido acolhedor com os seres que ele abriga.

O planeta terra, onde a gente vive, é formado por muitos rios, pelos mares, pelas florestas e montanhas que chamamos de natureza e, aqui moram muitos animais, uns bem grandes e outros tão pequeninos que cabem dentro da tua mãozinha.

Muitas pessoas que vivem aqui na terra, estão se esquecendo de cuidar da natureza e de todos os seres vivos.

Algumas palavras que aprenderás, como intolerância, egoísmo, ganância, individualismo, preconceito, têm muita responsabilidade por isso tudo.

Neste ano de 2016, do teu nascimento, o nosso país, o Brasil, está passando por um período de muitas ameaças.
A mais grave delas é a uma palavra que se chama democracia.

Quando cresceres um pouco mais, vou te explicar o que ela significa e vou te contar que por ela e em defesa dela, muita gente sofreu.

Vou contar a história do teu bisavô Américo e como ele lutou pela democracia.

Infelizmente, nesses tempos, parece que muitas pessoas estão esquecendo-se de usar a palavra respeito.
Esta bela palavra não significa que temos que concordar em tudo com a outra pessoa, mas significa não discriminar ou ofender essa pessoa pelas suas escolhas, seus pensamentos e sua forma de viver.
A falta do respeito esbarra numa palavra muito dura: a intolerância.

Estou torcendo muito para que essa realidade mude logo.
Por isso, minha menina, não poderei te prometer tempos fáceis!

Mas, posso prometer cantar as mais belas canções que aprendi,
Para te fazer dormir e espantar teus medos.
Também prometo mostrar o mundo das histórias, que moram dentro dos livros e que nos ensinam como viajar para lugares muito distantes, com o nosso pensamento.

Num dia de sol, prometo que conhecerás o mar, uma água muito grande, que pode nos levar, de verdade, para quase todos os lugares do mundo.

Eu te darei, pra provar, pitomba e seriguela, frutinhas pequenas que guardam a infância e, vou te deixar se lambuzar de mangas e cajus que deixarão para sempre, em tua língua, o doce, o azedo e o travoso de maravilhosos sabores.
E, nesses dias, prometo que vamos todos virar crianças, com a alegria dos teus risos e das tuas gaiatices.
Tu vais conhecer e conviver com algumas pessoas maravilhosas, que te ensinarão palavras que te farão enxergar além dos horizontes e te abrirão novos caminhos.
E com outras, que tentarão influenciar tuas escolhas.

Mas saiba querida, que caberá somente a ti escolher o teu caminho.

Aprenderás que os caminhos às vezes são planos e cheios de lindas paisagens, e andarás por eles como se fosse um passeio.
E que, às vezes, eles têm curvas cansativas e grandes montanhas que precisarás subir ou contornar, mas, sei que terás a energia e a vontade necessárias para transpor todas as dificuldades.

Porém, não precisas te preocupar com isso agora;
Além do mais, sempre terás pessoas queridas ao teu lado.
Quando não estiveres bem e quando estiveres muito bem.

E saiba que cada uma dessas pessoas será importante na construção de cada pedacinho da tua identidade.
No entanto, nós, essas pessoas ao teu lado, não somos as “sabichonas” que iremos te ensinar tudo e tenho a certeza de uma coisa muito boa:
A nossa garotinha vai nos trazer muitas ideias novas e nos ensinará um pensar e um olhar diferente.

O amor não tem preconceitos e não se mede por nossas ações, nem por nossas escolhas, portanto, sejam quais forem as tuas, o meu lado sempre será o teu lado.
E vou torcer sempre por ti, sobretudo por tua felicidade.

Precisamos falar também de duas palavras que sempre andam juntas: alegria e risada.
Esta tua avó cearense não tem o espírito “moleque”, famoso nessas terras de José de Alencar e de Chico Anísio!
Mas, o humor é fundamental e já me disseram que quem sabe rir de si mesma vê a vida de uma perspectiva diferente e é capaz de torná-la mais leve.
Por isso, ria sempre e ria muito.

Por fim, gostaria de te dizer que dê muita importância a sentimentos como amor, generosidade, justiça, indignação...
Essas palavras são forças transformadoras!

Porém, de todas elas, uma para mim é especial: a palavra ética.

Na nossa família aprendemos o que ela significa e este foi o nosso melhor ensinamento.
A ética é uma palavra pequena, mas é muito grande no significado. Ela nos ensina a viver e conviver com as pessoas e faz com que a gente seja uma pessoa bacana de verdade.
Aprenderás muitas palavras, umas duras, outras doces, que farão de ti a pessoa que serás.
Mas, sobretudo, como disse o ídolo revolucionário Che Guevara, que um dia acreditou que mudaria o mundo:

“Não perca a ternura jamais”!

E para não dizer que não falei da poesia, deixo-te uns versos, entre tantos, que gosto muito. 

Põe quanto és no mínimo que fazes
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Vou finalizar essa cartinha com uma música que, quando ouço, me faz pegar pelo braço a menina que ainda dança dentro de mim e sair rodopiando com ela.
Quando cresceres, não se esqueça de levar sempre contigo a tua menina que dança!


A menina dança 
– Moraes Moreira e Galvão


Quando eu cheguei tudo tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma
Viro os olhinhos

Só entro no jogo por que
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar
De um lado o olho desaforo
E o que diz o meu nariz arrebitado
Que não levo pra casa
Mas se você vem perto eu vou lá

Eu vou lá

No canto do cisco
No canto do olho a menina dança
Dentro da menina
A menina dança

E se você fecha o olho a menina ainda
Dança dentro da menina
Ela ainda dança
Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há.

Quando eu cheguei tudo tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma
Viro os olhinhos.

Seja bem vinda ao mundo minha querida!

Um beijo da avó que te aguarda,

Vólia.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Américo barreira - Um homem para lembrar.

Por Vólia Barreira

1964. Ditadura Militar. A tensão e o medo cercavam a nossa casa. Eu, criança, ouvia conversas entrecortadas: “não vou fugir”, “se vierem me prender me encontrarão em minha casa!”. E foi assim que numa madrugada de abril, testemunhamos aterrorizados o exército, armado de metralhadora, prender nosso pai sob a acusação de ser um perigoso comunista. Era Américo Barreira. Nossa família ficou indelevelmente marcada pela truculência desse episódio.

No seu centenário, em 11 de fevereiro de 2014, lembro sua trajetória pontuada de lutas em defesa da democracia e da igualdade social, o humanista e educador, o municipalista e o boêmio romântico, de choro fácil. Iniciou sua militância política nos grêmios estudantis. Nos anos 40 ingressa no partido comunista, quando participou de memoráveis campanhas nacionais e foi eleito vereador de Fortaleza. Militante municipalista, liderou o movimento em defesa do município como estrutura fundamental da Federação. Organizou congressos e seminários Brasil afora dando importantes contribuições para essa causa.

Ajudou a construir o Partido dos Trabalhadores no Ceará e assumiu a primeira candidatura do partido ao governo estadual, em 1982. Também pelo PT, foi eleito vice-prefeito de Fortaleza, levando para a chapa de Maria Luiza Fontenele sua respeitabilidade de homem público, reconhecido por sua integridade ética e moral. Lembrar Américo Barreira é lembrar também do humanista e educador, particularmente o professor de história do Brasil, atividade que exerceu com orgulho e senso crítico, conquistando respeito e admiração dos alunos.

É lembrar, por fim, do homem generoso e solidário, que até o fim de sua vida, aos 79 anos, manteve as portas de sua casa abertas aos muitos amigos, que desfrutavam de sua conversa inteligente, seu espírito gozador e sua mesa farta. De herança, nos legou um grande exemplo de caráter e dignidade e o orgulho de termos partilhado de sua profícua vida, motivo pelo qual comemoramos, junto com nossa mãe, Laís, lúcida e jovial aos 97 anos, esse dia especial.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/02/11/noticiasjornalopiniao,3204881/americo-barreira-u2013-um-homem-para-lembrar.shtml

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Mia Couto: Murar o medo

Por Mia Couto
Via Vólia Barreira

"O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Mia Couto

Estoril, 2011