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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






terça-feira, 17 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 8

Laís Barreira

A vida como ela é!


Vovó Jovina, mãe do meu pai, foi uma mulher contraditória. Era pequenininha e aparentava mais jovem, porém era uma mulher durona, de princípios rígidos, muito autoritária com os filhos e netos.

Para se casar com o homem do qual ela gostou na juventude, precisou fugir de casa. Isso aconteceu provavelmente porque seus pais deviam ser muito rigorosos com a filha e não devem ter visto com bons olhos seu romance com aquele viajante, que era como se chamavam os vendedores de tecidos e artigos (futuramente chamados de caixeiros-viajantes).

Pois bem, depois da fuga, para não ficar desonrada, os pais de minha avó fizeram o seu casamento, como vigorava a moral daquela época.

O curioso foi que, anos depois, a minha avó Jovina replicou a educação recebida dos pais, à qual ela precisou se rebelar, com os seus próprios filhos; ela não queria que nenhum deles se casasse e fez o que pôde para impedi-los.

Com os filhos homens ela não conseguiu, mas “torceu o nariz” a todas as noras. Já com as cinco mulheres ela foi ainda mais dura e não lhes deu o direito de traçar seus próprios destinos. Apenas uma delas se casou, depois de fugir, como a própria mãe; porém, minha tia Júlia faleceu prematuramente, do parto do primeiro filho; a tia mais velha, apelidada “Senhorinha” também faleceu jovem, de tuberculose.

As outras três, a quem chamávamos “tias Ayres”, nunca se casaram, ficaram solteironas e até o fim de suas vidas viveram juntas, uma cuidando das outras.
                                               
                                                                
***

Pelo lado da minha mãe, um tio pouco afeito a autoritarismos, casou-se com um “mulherão”, teve com ela dois filhos, uma baita decepção e ainda ganhou a triste fama de “chifrudo”, apelido que nem hoje em dia os homens aguentam. Imagine só naqueles tempos!

Eu ainda era meninota, mas lembro-me bem.

Meu tio era bonitão, alto e tinha os olhos claros, mas lhe faltava um pouco mais de inteligência e sua voz gaguejante não era das mais agradáveis de ouvir.

O fato é que os dois casaram e tiveram filhos, porém, sua mulher conheceu um engenheiro, pessoa importante, que tempos depois recebeu a homenagem de ter uma estrada, que liga dois estados brasileiros, com o seu nome.

Quando o tal engenheiro esteve aqui, fez amizade com o casal e passou a frequentar a casa da Praia de Iracema, local onde as famílias passavam férias e temporadas. Minha avó, Emisabel, que passava um período na casa deles, “maldou” logo daquela amizade e comentava que o engenheiro sempre ia lá para conversar; lá pras tantas, contava ela, a esposa alegava sede e entrava em casa, logo em seguida o engenheiro arranjava uma desculpa para também entrar e, nisso, ambos se demoravam lá por dentro. Só o bobo do tio não percebia nada.

Um dia eu estava passando férias na Praia de Iracema, na casa da família Markan, amigos de minha mãe e à tarde fomos passear pela praia.

Ao passar em frente à casa do meu tio, uma das pessoas que estava conosco apontou: “olha lá: aquela é a casa onde mora o chifrudo”! Imagine minha situação, eu era sobrinha do dito cujo; encabulada, olhei para o outro lado e fiz de conta que não sabia de quem se tratava.

O fato é que os dois se separaram, ela foi embora com o engenheiro para o Rio de Janeiro deixando os dois filhos com o ex-marido que, durante um bom tempo, moraram com a minha mãe.


(História narrada por Laís Barreira, aos cem anos e transcrita por Vólia Barreira).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 7

Laís Barreira
A mágoa inesquecível



“Mô chefe jogou minhas coisas tudo, pela janela”, falou tristemente, com seu sotaque alemão carregado e engraçado, o nosso amigo Fred.
Namorado da amiga Lurdinha, que estava hospedada na casa da minha mãe, Fred era um dos alemães da pequena colônia que vivia em Fortaleza e, naquele dia todos nós sentimos o significado de estar em guerra com outro país.

Era o ano de 1942, quase no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que nós chamávamos de “Grande Guerra”.

O Presidente Getúlio Vargas simpatizava com o Eixo formado pela Alemanha, Japão e Itália, porém acabou entrando na guerra e lutando junto aos adversários destes, os países aliados; a gota d’água foram os bombardeios de vários navios brasileiros por submarinos italianos e alemães.
Aqueles episódios indignaram a população e em todos os estados houve represália a emigrantes estrangeiros, mesmo aqueles que já viviam no Brasil muito antes da guerra.
Em Fortaleza teve um “quebra-quebra” em várias lojas pertencentes a alemães, italianos e japoneses.

Lembro bem do episódio da Casa Veneza, de um italiano, uma das sapatarias mais chiques da cidade, que ficava na Rua Floriano Peixoto. Os manifestantes invadiram a loja e jogaram os sapatos no meio da rua.
Outras lojas também foram depredadas e algumas foram até incendiadas pelo povo revoltado contra o Eixo dominado por Hitler, entre elas as lojas Pernambucanas, da família Lundgren, a padaria de um espanhol e a loja de flores da família Fujita que se chamava “Jardim Japonês”.
Os alemães, principalmente, eram olhados “meio de lado” pela população de Fortaleza, mas nós mantivemos nossas amizades e nunca os tratamos mal.

O “Seu” Vicente Cunto e seu primo José, italianos que moravam aqui há muito tempo eram nossos vizinhos, donos de uma loja de tecidos e alfaiataria chamada A Formosa Cearense e eram boa gente.  
O Brasil declarou guerra aos países do Eixo, mas, quando enviou os soldados para a luta nós já imaginávamos que a guerra estava próxima do fim; a Alemanha e seus parceiros estavam perdendo algumas batalhas importantes e as notícias do rádio informavam o avanço das tropas aliadas.
Em junho de 1944 os oficiais da FEB (Força Expedicionária Brasileira) embarcaram para a Itália; nesse dia houve uma grande comemoração na Praça do Ferreira, uma alegre multidão se concentrou no centro da cidade, para se despedir e desejar boa sorte aos soldados.
Foi um dia inesquecível!
Houve desfile de carros abertos pelas ruas do centro e nós saímos a pé, em passeata, até a praça, eufóricos com aquele acontecimento que era esperado por todos e protelado pelo governo apesar das pressões (em agosto de 1942 o governo do Presidente Getúlio Vargas declara guerra à Alemanha e à Itália, porém as tropas só foram enviadas para a Itália em junho de 1944).
Em meados de agosto de 1945 esperávamos a declaração do fim da guerra a qualquer momento e, quando finalmente a notícia chegou, transmitida por todas as estações de rádio, eu estava em casa; nessa época eu já tinha quatro filhos, todos pequenos.

A princípio não me animei muito pra ir, o Américo não havia voltado pra casa, eu não tinha companhia e nem com quem deixar as crianças.
Mas, quando as rádios começaram a dar notícias das centenas de pessoas chegando à Praça 
do Ferreira, do clima de euforia e animação, fiquei louca para estar lá comemorando com todo mundo.
Mas, o Américo não deu notícia nem voltou em casa. Do trabalho foi direto para a praça comemorar com os amigos.
Só depois soube dos detalhes, da multidão que se reuniu lá, da alegria e da vibração que contagiou as pessoas e percebi que perdi a comemoração de um dia histórico para toda a humanidade.
Senti uma grande frustração e uma mágoa do Américo, por não ter ido me buscar, que nunca esqueci.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira).

Nota
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era formada por uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças. Mais de 25.000 homens e mulheres participaram da Campanha da Itália em suas duas últimas fases.  Seu lema "A cobra está fumando", era uma alusão irônica ao que se afirmava à época de sua formação, que seria "Mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa".

O Esquadrão de Caças da FAB (Força Aérea Brasileira) adotou o grito de guerra “Senta a Pua” que era uma expressão nordestina muito usada nos anos 40. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Histórias que Laís conta – 6


As rodas de conversa de Elisa

Laís Barreira


Naquela época ainda não havia televisão; era o tempo das cadeiras nas calçadas e nos terraços das casas, ao entardecer, que reunia as famílias, os vizinhos e os amigos para prosear.

Na casa de minha mãe esse era um costume antigo; desde quando morávamos na Praça dos Voluntários, as rodas de conversa da d. Elisa juntavam amigos.

Minha mãe enviuvou cedo e precisou enfrentar a situação com coragem para superar, junto com seus dez filhos, as dificuldades advindas.

Todos nós começamos a trabalhar bem jovens para ajudar nas despesas domésticas, que eram controladas por ela com pulso firme.

Graças a ela sempre tivemos muitas amizades nas vizinhanças de todos os locais onde moramos; era uma época em que não havia grandes diferenças entre as classes sociais e era natural convivermos com pessoas mais abastadas do que nós e que frequentavam as “altas rodas”.

Um desses amigos, o escritor Milton Dias, era frequentador assíduo da casa da “d. Elisa” e, vários de seus contos foram inspirados nas histórias compartilhadas nesses encontros. A amizade teve início entre a minha mãe e a do Milton; ele era um escritor bastante conhecido, seus contos eram publicados nos jornais; O Zé Milton como nós o chamávamos tinha uma conversa brilhante, ele “enchia” a noite e era muito “requestado” para jantares e festas dos “grã-finos”. No entanto, ele dizia que se divertia nas nossas rodas de conversa e estava cansado de tantos jantares e festas para os quais era convidado: não aguento mais tantos convites!

A última casa em que mamãe morou tinha um terraço muito agradável, ao ar livre, que à tarde ficava sob a sombra de um grande pé de sapoti.

Nesse local todas as noites havia o ritual de levar as cadeiras para fora e esperar a chegada dos amigos; além do Milton, participaram de muitas rodas de conversa o pintor Floriano Martins que era um intelectual, o antropólogo e crítico de arte Geraldo Markan, conhecido como Gegê, muito amigos de minha irmã Lúcia, o jornalista Carlos D’Alge, o artista Zenon Barreto, além das nossas amigas mais assíduas, as Carvalhedo, Cármen, Maria Luisa e sua prima Zilma.

Nas reuniões se falava de tudo, política, religião e, principalmente assuntos do cotidiano, sempre tratados com bom humor, nada de muita polêmica!

Não havia bebida alcoólica, minha mãe, muito religiosa, fazia essa restrição, era “boca seca”, apenas um cafezinho e no máximo um suco de frutas; no entanto, as conversas eram muito animadas.

Hoje, olhando aqueles tempos com o que guardei na memória, me parece que a vida se passava com menos pressa.

Com o passar dos anos a casa foi ficando grande demais e insegura para as duas pessoas idosas que lá residiam, mamãe e minha irmã Marina; então, a casa foi vendida e elas mudaram para um apartamento menor onde minha mãe viveu até quase cem anos e sobreviveu a muitos daqueles amigos que frequentaram sua casa.

As rodas de conversa foram substituídas pela TV que tinha lugar de destaque na sala, no entanto, permanecem na lembrança as conversas inteligentes e espirituosas daquele grupo de pessoas que frequentava a casa da Rua Carlos Vasconcelos, 1438.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 4



O primeiro amor não se esquece
Laís Aires Barreira


Ele era aluno do Colégio Militar, o sonho de toda garota da época. Além disso, era um rapaz muito bonito, “um pitéuzinho” e, me apaixonei por ele.

Eu tinha 14 anos e era louca pra namorar de verdade. Naquela época, na década de 30 do século passado, uma moça chegar aos vinte e cinco sem namorado recebia o apelido de “vitalina”; eu estava longe disso, mas cuidava para não correr esse risco.

Eu o conheci nas retretas de domingo que aconteciam na Praça do Ferreira, onde sempre tocava uma banda de música. Os rapazes ficavam parados conversando, as moças ficavam dando voltas na praça e quando se cruzavam flertavam. Muitos namoros começaram assim.

Outra coisa que facilitava os encontros é que a irmã dele era minha colega de escola. Mesmo sendo de família mais “abastada” que a minha, ela estudava na Escola Normal Justiniano de Serpa, uma escola pública; nós estudávamos juntas, com outras duas amigas, hora na casa de uma, hora na casa de outra; No entanto, nunca contei para ela que estava namorando seu irmão.

Os namoros de antigamente não eram como os de hoje, com tanta liberdade que os casais se vêm  todo dia e até dormem juntos!

No meu tempo, quando a mãe consentia a gente namorava na sala de casa, dia de sábado e tinha hora pra chegar e sair.

Meu primeiro namoro não foi consentido, aliás, não foi nem falado para a minha mãe, era um namoro escondido.
Eu saia de casa com as amigas e ele ia me encontrar. Algumas vezes fomos ao cinema, que ficava próximo da igreja Coração de Jesus.

O cinema é um capítulo à parte. Eu e minha irmã Nadia adorávamos e durante muitos anos tivemos esse hábito e sempre que podíamos íamos assistir aos filmes românticos, de aventura e suspense e ver nossos artistas preferidos.

Um épico que recordo até hoje foi Ben Hur, que fez enorme sucesso na década de 50, estrelado por Charlton Heston e as atrizes mais famosas eram Ginger Rogers, Greta Garbo, Bette Davis, Hedy Lamarr, Marlene Dietrich, Olivia de Havilland, todas glamorosas.

Teve ocasião em que o filme era tão bom que nós pagávamos o ingresso e quando a sessão acabava nós duas ficávamos dentro do cinema esperando a próxima começar. Quando o “lanterninha” não percebia, a gente assistia duas e até três vezes o mesmo filme!

Namorar no cinema era muito bom! Assim que as luzes apagavam a mão dele se insinuava até alcançar a minha, dava um frio na barriga, as mãos suavam, o coração acelerava e nós passávamos toda a sessão de mãos dadas. Era o máximo que acontecia, nem sequer um beijinho, mas, era proibidíssimo e uma ousadia, se minha mãe ficasse sabendo não iria acabar bem.

O cinema mais frequentado por nós era o Cine Pio X, dos frades capuchinhos que ficava pertinho da igreja do Coração de Jesus e do Parque da Liberdade (Cidade da Criança) onde encontrávamos as amigas para a sessão das três da tarde ou os namorados, cuja sessão era à noitinha.

O namoro durou três ou quatro meses e ia muito bem dessa forma, escondido, até que um dia minha mãe recebeu uma carta anônima mentirosa dizendo que eu fui vista “me agarrando” no escurinho do cinema.
Logo no Pio X, onde os frades capuchinhos eram tão rigorosos, ao ponto de, nas cenas de beijo, os “lanterninhas” iluminarem a plateia com suas lanternas para flagrar algum casal mais ousado!

Minha mãe me mandou imediatamente acabar esse namoro sob pena de que eu ficasse “falada”.
Muito triste fui falar com ele e contei-lhe da carta maldosa que nos denunciou e que por isso seria melhor nos afastarmos por um tempo.
Para minha surpresa ele não só acatou minha decisão como nunca mais me procurou.  Agiu covardemente, com medo de se meter em confusão, deixando uma mágoa que guardei por muito tempo.

Quanto à fofoqueira, nunca descobri quem foi a traidora que me entregou, talvez despeitada por eu namorar um aluno do Colégio Militar!

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 3

Laís Barreira

Moça não tem juízo!


Eu vi muita coisa mudar nessa cidade. 

Lembro que durante muitos anos eu morei no centro da cidade, na rua Sena Madureira, perto da Cidade da Criança que, naquela época, chamava-se Parque da Liberdade e tinha o portão de entrada encimado pela estátua de um índio quebrando os grilhões, que não sei se ainda está lá.  (A estátua permanece no local).

Cheguei na Sena Madureira ainda menina e saí de lá moça feita, j diplomada como professora.

Em 1930 eu tinha 14 anos e, morando próximo do parque ia muito lá com as amigas. Era um lugar muito agradável e embora fosse frequentado pelas famílias que moravam ali ao redor, as Leite Barbosa e as Carvalhedo, um pessoal “meio rico”, a sociedade daquela época não andava muito lá.

Próximo ao Parque, na Praça da Igreja do Coração de Jesus existia o Colégio Castelo Branco e nós, as mocinhas, tínhamos uns “namoricos” com os alunos do colégio que eram o motivo dos nossos passeios no Parque da Liberdade.

Porém, para as moças entre 15 e 18 anos o ideal, ao qual almejávamos, era namorar um aluno do Colégio Militar, principalmente por causa de suas fardas que achávamos lindas, especialmente a farda de gala usada nos desfiles de Sete de Setembro, que a gente adorava.

Eu e minhas amigas não perdíamos os desfiles de jeito nenhum; a estrela principal era o Colégio Militar que esperávamos ansiosas e fazíamos qualquer coisa para flertar com os rapazes!

Nós íamos esperar o início do desfile no Beco dos Pocinhos (início da Av. Santos Dumont) e sabíamos qual era o roteiro da “parada”.  Assim que os rapazes do Colégio Militar passavam nós corríamos para a outra rua só para vê-los passar novamente, trocar olhares, sorrisos e piscar de olhos.

Moça não tem juízo!

A gente fazia essas “loucuras” que hoje em dia nem consigo imaginar; naquele tempo eu adorava só que hoje eu sou contra os militares.

 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Histórias que Laís conta – 2


Emisabel
Laís Barreira


Seu nome era Maria Isabel, mas, a forma como bordava em seus lençóis e toalhas, M. Isabel, definiu o apelido com que passaria a ser chamada pelos netos e netas.

Emisabel, como sempre a chamamos, era uma mulher alegre e extrovertida demais para o final do século XIX, época em que viveu sua juventude; sua risada chamava a atenção e provavelmente escandalizava os mais puritanos, porém, foi justamente o seu temperamento que encantou o jovem tenor espanhol que veio ao Brasil com uma companhia de ópera que acabou falindo e se desmanchando.

Uma companhia de ópera que vem da Espanha e vai para o interior do Ceará, se vê logo que não andava bem das pernas. Suas últimas apresentações foram em Sobral, cidade em que minha avó nasceu e foi criada por “padrinhos” que tinham “alguma posse”.

A estreia da ópera alvoroçou Sobral. 

O espetáculo era O Guaraní, estrelado pelo tenor José Ubeda Perales que interpretava Peri. Ao final da apresentação, o jovem tenor que era bonito, apesar de não ser alto, recebeu rosas da plateia; a escolhida para entrega-las representando a sociedade sobralense foi a jovem Maria Isabel.

Sobre isso minha mãe contava um fato engraçado: o buquê entregue ao tenor era amarrado por um belo laço de fita que encantou o garoto que trabalhava na casa de minha avó. Sem falar com ninguém, no dia seguinte o rapaz foi ao hotel onde a companhia estava hospedada e solicitou a devolução da fita do buquê. O tenor, envergonhado, procurou a senhorinha que lhe entregara as flores pedindo-lhe desculpas, pois “não sabia que era costume em Sobral devolver a fita do buquê”.

Assim eles se conheceram e o tenor encantou-se tanto pela moça que decidiu ficar definitivamente no Brasil e a história dos dois terminou em casamento.

Depois de casados, com a companhia teatral falida, ambos resolveram ir morar em Camocim que era uma cidade em expansão por causa do porto e lá abriram uma pensão que se tornou uma das melhores da cidade.

José, um jovem culto e muito inteligente, nunca mais se apresentou como cantor, voltou uma única vez à Espanha e terminou sua curta vida em Camocim como guarda-livros, que hoje é a profissão de contador, da pensão que tinha com a mulher.

Emisabel, ao contrário, viveu quase cem anos e morou muitos anos em Fortaleza com Elisa, a mais velha dos seus cinco filhos, minha mãe.
Eu, meus irmãos e irmãs, convivemos muito com essa avó avançada, que fumava charuto, não tinha “papas na língua” e falava palavrão, o inverso da minha mãe, recatada e muito religiosa.


 (História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Histórias que Laís conta...(1)


Laís Barreira
Vovó Jovina

" 'Cuidei que era uma menina, mas já é uma mulherzinha!' Exclamou o viajante admirado com a beleza da mocinha de olhos azuis que lhe entregava uma caneca de água fresca."


Naqueles tempos os vendedores ambulantes eram chamados de viajantes e andavam, geralmente a cavalo, pelas cidades das redondezas oferecendo seus artigos.

Vovô Targino era um caboclo, porém, de cabelo liso, bem apessoado e era um desses viajantes que sempre passava pela propriedade da família de Jovina, à beira da estrada.

Certo dia ele resolveu parar para pedir água; apeou do cavalo e percebeu a menina sentada no terraço com uma mulher que penteava seus longos cabelos.

Vovó Jovina era uma moça baixinha e usava longas tranças negras que lhe desciam pelas costas e davam-lhe a aparência de menina.

Quando a moça lhe trouxe a água o cavaleiro percebeu que se enganara, diante dele uma bela e pequena mulher lhe oferecia a caneca d’água, deixando-o apaixonado.

Targino passou a parar sempre naquela propriedade, com a desculpa de beber água e a intenção de prosear com a moça que conquistara seu coração; até que um dia, suponho que com o seu consentimento, ele carregou Jovina na garupa de seu cavalo “roubando-a” de sua família, único jeito de casar-se com ela naquela época.

E assim, dessa união que durou até o fim de suas vidas nasceu Euclides, o meu pai.


(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)


terça-feira, 13 de novembro de 2012

O voto de Laís

Por Vólia Barreira

O conceito de cidadania surgiu na Grécia de Platão e Aristóteles e, a partir dele, eram considerados cidadãos, todos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os rumos da sociedade.

Daí, até a minha mãe poder exercer seu direito de cidadã, através do voto, a história percorreu um longo caminho, que teve início em 1555, quando então, o voto no Brasil só era exercido pelos nobres, militares e ricos comerciantes do sexo masculino, até 1932 quando, finalmente, as mulheres conquistaram o direito de eleger seus representantes.

De lá para cá, ela nunca deixou de exercer esse direito, e continua a fazê-lo aos 96 anos, embora desobrigada por força da lei, há 26 anos.

Essa é Laís Aires Barreira, no segundo turno da eleição para prefeito de Fortaleza (2012), participando integralmente da vida social e política da cidade, consciente de que o exercício da cidadania é um direito e uma conquista da qual não se pode abrir mão.

Vólia Barreira 








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

LAÍS QUE AMAVA AMÉRICO

Por Audifax Rios

Em meio aos cartões de Natal chegados no final do ano passado, uma mensagem com fotos e poemas que muito nos emocionou, mexeu com tempo e vida, puxou pela memória, reeditou lembranças. Era a participação das noventa e cinco primaveras (secas e invernos) de Dona Laís Aires Barreira, viúva do mestre Américo Barreira, mãe dos amigos Júnior, Nanan, Vólia, Olenka, Laisinha, Ivelise e Euclides. No verso, o recado do neto Tádzio assim arrematado: “De tudo fará para que o bem comum prossiga / E o porvir seja melhor que o tempo ido”. Tradução do pensamento de Dona Laís e confirmação das palavras de Américo: “Vou manter o meu compromisso com o futuro enquanto as pernas me levarem e a cabeça funcionar razoavelmente”.
Ilustração de Audifax Rios

Laís Aires esteve com Américo, solidária, até o último instante. A companheira, a mãe, a sombra da grande mulher. Laís, filha de Euclides Aires e Eliza, ele, destacado funcionário da firma Conrado Cabral & Cia, Grão Mestre de Loja Maçônica e presidente da Câmara Municipal.

Quando da morte de Américo (19 de novembro de 1993), seu irmão, o escritor e amigo Luciano Barreira, autor de Os Cassacos entre outros libelos, prestou carinhosa homenagem ao mano em forma de livro, (Américo Barreira - o mágico itinerário da liberdade), para o qual criamos capa e ilustrações. Constava de biografia, registro iconográfico, depoimentos e um caderno intitulado: Américo crítico, irônico e bem humorado. Onde o autor pinta um cidadão alegre e jovial através de histórias verdadeiras que passariam ao domínio do folclore com suas inevitáveis deturpações não fossem os conhecidos critérios de Luciano Barreira para com temas da maior seriedade. Mais tarde o jornalista Gervásio de Paula traçou perfil semelhante do grande municipalista.

Esta última parte do livro contém a narrativa de um causo no qual Dona Laís tem participação importante, pois motivo do incidente que deu margem para Américo externar seu pensamento dentro dos tenebrosos cárceres da ditadura militar. Tentaremos resumir aqui o Banquete comunista do Lano. Então: Preso no 23-BC, Américo recebia comida caseira preparada pela zelosa Laís, conforme o combinado. Certa vez a boia chegou em quantidade maior e qualidade melhor que a costumeira, sobra de um aniversário familiar.

A fartura não passou pelo crivo do oficial de plantão que pegou a deixa para fazer uma preleção diante dos presos e de seus subordinados. E soltou o verbo, taxou a alimentação enviada por Dona Laís de banquete comunista dando uma aula de civismo a sargentos cabos e soldados, salientando que ali havia alimento inviável até pra militar, imagine para o povo. Ao final perguntou: “O que é que o senhor acha disso, Dr. Américo?”. A velha raposa não deixou passar a oportunidade e usou de sua melhor arma: Explicou que a mulher e os filhos só queriam, com o ato, dar uma demonstração de solidariedade aos que ali mofavam privados da liberdade.

E que todos, até os militares, tinham direito de, ao menos, comer dignamente. O oficial cortou o barato: “Dr. Américo, pare, o senhor já falou demais”. Um capitão que assistia à distância, no dia seguinte, reuniu os presos políticos e alguns militares e proferiu breve oração desculpando-se pelo incidente, situando-o como caso isolado. Encerrando, disse da honra de ter sido aluno de Américo no Colégio Farias Brito.

Dona Laís nunca imaginou que seus quitutes fossem gerar uma revolução de quartel. Mas sabia, todas as suas interferências pesavam no desencadeamento do processo defendido pelo marido. Mesmo depois de não mais se encontrar entre nós. Como disse a filha Vólia no poema concebido para o pai, Saudade: “Pois tu és muito maior que o tempo / E já tens outro caminho a seguir”.

Laís comemorou em dezembro 95 anos de vida. Os últimos 18, sem Américo. A obra do municipalista, humaníssimo e coerente, porém, ainda norteia este fim de estrada. O exemplo de sua dignidade ilumina a trilha de todos.