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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Oscar Niemeyer

Por Vladimir Safatle

Aos 104 anos, faleceu Oscar Niemeyer. Nenhum artista brasileiro foi reconhecido, de maneira praticamente unânime por seus pares em todo o mundo, como referência absoluta e incontornável. Nenhum, a não ser Niemeyer. Isso não é acaso nem algo desprovido de relevância.


Oscar Niemeyer
Não se trata de uma questão de sucesso, mas de consciência da força de sua linguagem e da originalidade de suas escolhas. Com Niemeyer, o modernismo alcançou uma audácia formal, que dificilmente encontrará em arquitetos como Le Corbusier, Walter Gropius, Frank Lloyd Wright ou Mies van der Rohe. Ele foi aonde todos esses nomes maiores, que moldaram a nossa sensibilidade, não conseguiram chegar. Sua vida longa e produtividade constante lhe permitiram ser aquele que levou o modernismo ao extremo, mostrando como poderia ser o portador de uma experiência renovada de liberdade da ideia. Experiência de reconciliação entre a clareza formal de quem seguiu à risca o ensinamento de Adolf Loos (Ornamento e Crime) e a organicidade de quem procura aproximar a arquitetura da imitação da sinuosidade dos gestos humanos.

Por unir clareza e organicidade, suas obras conseguem o feito de ser monumentais e humanas. Mas “humanas” não no sentido daquilo que perpetua as ilusões burguesas do acolhimento da intimidade da home. Acolhimento que parece nos alienar definitivamente na crença de que nosso lugar natural é o espaço privado cheio de memorabilias. “Humanas” no sentido deste desejo humano, demasiadamente humano de retornar aos gestos primordiais e encontrar, neles, uma força construtiva inaudita.

Na verdade, se uma ideia pudesse sintetizar a obra de Niemeyer, talvez fosse a ausência de medo. Nossas cidades parecem ter medo do vazio, dos espaços infinitamente abertos, da visão desimpedida, das formas improváveis que têm a força de dobrar o concreto armado, ou seja, da inventividade que parece se comprazer em negar toda a forma que se põe como necessária. Niemeyer não tinha medo de nada. Quantas vezes ele deve ter exasperado engenheiros que viam suas formas e pensavam: “Mas isso não pode ficar suspenso dessa forma. Mas não é possível deixar isso em pé”. E pur si muove!, como dizia Galileu.

Como se não bastasse a inventividade de sua obra e a coragem de suas escolhas, quis o destino que Niemeyer fosse a expressão artística mais bem-acabada do desejo brasileiro de modernidade. Ele soube dar forma ao desejo de seu país de olhar para dentro de si e romper com o que parecia aprisioná-lo em definitivo no século XIX.

Nesse sentido, há de se pensar em certas correlações próprias ao mundo da arquitetura. Como a mais pública das artes, aquela que mais claramente tem a capacidade de reorganizar a experiência do espaço, a arquitetura parece destinada a nos ensinar como o poder constrói. Não é um acaso, por exemplo, que todos os regimes totalitários tenham sempre se associado, em algum nível, ao neo-classicismo. O mesmo neoclassicismo que coloniza nossas cidades brasileiras atuais com seus empreendimentos imobiliários saídos da cabeça de um Albert Speer, tropical, travestido de construtor de sonhos de opulência da elite local.

Também não é um acaso que tenha sido contra o ­neoclassicismo e os vínculos arquitetônicos coloniais que o desejo de modernidade dos brasileiros se afirmou. Nesse sentido, Brasília, a cidade que Niemeyer construiu, juntamente com Lucio Costa, injustamente incompreendida por setores da sociedade brasileira, foi a expressão de que não há desenvolvimento possível sem o desejo de reinvenção de nossas formas de vida e de reorganização a partir do caráter igualitário da ideia. Durante certo tempo, tal igualitarismo conseguiu se sustentar. Até que foi definitivamente vencido pela especulação imobiliária e pelo desinteresse do poder público em sustentar tal realidade.

Por isso, gostaria de terminar este texto com uma consideração de ordem pessoal. Vivi em Brasília durante toda a minha infância e, por essa razão, sempre quis um dia agradecer a Oscar Niemeyer pela infância que ele, involuntariamente, me deu. Uma infância sem medo, sem grades, sem muros. Infância de quem cresce diante da imensidão de espaços vazios, capaz de acolher, sem violência, o vazio silencioso da natureza do cerrado. Um espaço de olhares desimpedidos, onde os elevadores davam diretamente para as ruas. Um tempo onde aprendi a beleza da igualdade e o prazer de ver todo espaço como um espaço comum. Ironia suprema: em pleno centro de decisão da ditadura, parecia possível ter uma infância comunista (ao menos no sentido de Niemeyer). Nada estranho para alguém capaz de construir um monumento que estiliza a foice e o martelo (o Memorial JK) nas barbas dos generais da ditadura. Por tudo isso, gostaria apenas de dizer: “Obrigado, Niemeyer. Suas ideias ajudaram a moldar nossas vidas”.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer, a Veja online e o Escaravelho

Oscar Niemeyer
Por Leonardo Boff

Com a morte de Oscar Niemeyer aos 104 anos de idade ouviram-se vozes do mundo inteiro cheias de admiração, respeito e reverência face a sua obra genial, absolutamente inovadora e inspiradora de novas formas de leveza, simplicidade e elegância na arquitetura. Oscar Niemeyer foi e é uma pessoa que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar.

E o fazemos por duas razões principais: a primeira, porque Oscar humildemente nunca considerou a arquitetura a coisa principal da vida; ela pertence ao campo da fantasia, da invenção e do lúdico. Para ele era um jogo das formas, jogado com a seriedade com que as crianças jogam.

A segunda, para Oscar, o principal era a vida. Ela é apenas um sopro, passageira e contraditória. Feliz para alguns mas para as grandes maiorias cruel e sem piedade. Por isso, a vida impõe uma tarefa que ele assumiu com coragem e com sérios riscos pessoais: a da transformação. E para transformar a vida e torná-la menos perversa, dizia, devemos nos dar as mãos, sermos solidários uns para com os outros, criarmos laços de afeto e de amorosidade entre todos. Numa palavra, nós humanos devemos aprender a nos tratar humanamente, sem considerar as classes, a cor da pele e o nível de sua instrução.

Isso foi que alimentou de sentido e de esperança a vida desse gênio brasileiro. Por aí se entende que escolheu o comunismo como a forma e o caminho para dar corpo a este sonho, pois, o comunismo, em seu ideário generoso, sempre se propôs a transformação social a partir das vítimas e dos mais invisíveis. Oscar Niemeyer foi um fiel militante comunista.

Mas seu comunismo era singular: no meu modo de ver, próximo dos cristãos originários pois era um comunismo ético, humanitário, solidário, doce, jocoso, alegre e leve. Foi fiel a esse sonho a vida inteira, para além de todos os avatares passados pelas várias formas de socialismo e de marxismo.
Na medida em que pudemos observar, a grande maioria da opinião pública mundial, foi unânime na celebração de sua arte e do significado humanista de sua vida. Curiosamente a revista VEJA de domingo, dedica-lhe 10 belas páginas. Outra coisa, porém, é a revista VEJA online de 7 de dezembro com um artigo do blog do jornalista Reinado Azevedo que a revista abriga.

Ele foi a voz destoante e de reles mau gosto. Até agora a VEJA não se distanciou daquele conteúdo, totalmente, contraditório àquele da edição impressa de domingo. Entende-se porque a ideologia de um é a ideologia do outro. Pouco importa que o jornalista Azevedo, de forma confusa, face às críticas vindas de todos os lados, procure se explicar. Ora se identifica com a revista, ora se distancia, mas finalmente seu blog é por ela publicado.

Notoriamente, VEJA se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. Essa revista parece se envergonhar do Brasil, porque gostaria que ele fosse aquilo que não é e não quer ser: um xerox distorcido da cultura norte-americana. Ela dá a impressão de não amar os brasileiros, ao contrário expõe ao ridículo o que eles são e o que criam. Já o titulo da matéria referente a Oscar Niemeyer da autoria de Azevedo, revela seu caráter viciado e malevolente: ”Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens”. Seu texto piora mais ainda quando, se esforça, titubeante, em responder às críticas em seu blog do dia 8/12 também na VEJA online com um título que revela seu caráter despectivo e anti-democrático:”Metade gênio e metade idiota- Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o bloco dos Sujos diz agora?” Sujo é ele que quer contaminar os outros com a própria sujeira de uma matéria tendenciosa e injusta.

O que se quer insinuar com os tipos de formulação usados? Que brasileiro não pode ser gênio; os gênios estão lá fora; se for gênio, porque lá fora assim o reconhecem, é apenas em sua terceira parte e, se melhor analisarmos, apenas numa quarta parte. Vamos e venhamos: Quem diz ser Oscar Niemeyer um idiota apenas revela que ele mesmo é um idiota consumado. Seguramente Azevedo está inscrito no número bem definido por Albert Einstein: ”conheço dois infinitos: o infinito do universo e o infinito dos idiotas; do primeiro tenho dúvidas, do segundo certeza”. O articulista nos deu a certeza que ele e a revista que o abriga possuem um lugar de honra no altar da idiotice.

O que não tolera em Oscar Niemeyer que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por VEJA e seu albergado, que só sabe de concorrência, de “greed is good”(cobiça é coisa boa), de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional.

Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica. Segue desavergonhadamente a lógica hegeliana do senhor e do servo; internalizou o senhor que está lá no Norte opulento e o serve como servo submisso, condenado a viver na periferia. Por isso tanto a revista quanto o articulista revelam um completo descompromisso com a verdade daqui, da cultura brasileira.

A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.

Paro por aqui. Mas quero apenas registrar minha indignação contra esta revista, em versão online, travestida de escaravelho por ter cometido um crime lesa-fama. Reproduzo igualmente dois testemunhos indignados de duas pessoas respeitáveis: Antonio Veronese, artista plástico vivendo em Paris e João Cândido Portinari, filho do genial pintor Cândido Portinari, cujas telas grandiosas estão na entrada do edifício da ONU em Nova York e cuja imagem foi desfigurada e deturpada, repetidas vezes, pela revista-escaravelho.
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Oscar Niemeyer e a imprensa tupiniquim- Antonio Veronese

Crítica mesquinha, que pune o Talento, essa ousadia imperdoável de alçar os cornos acima da manada. No Brasil, Talento, como em nenhum outro país do mundo, é indigerível por parte da imprensa, que se acocora, devorada por inveja intestina. Capitania hereditária de raivosos bufões que já classificou a voz de Pavarotti de ruído de pia entupida; a música de Tom Jobim de americanizada; João Gilberto de desafinado e Cândido Portinari de copista…
Quando morre um homem de Talento, como agora o grande Niemeyer, os raivosos bufões babam diante do espelho matinal sedentos de escárnio.

Não discuto a liberdade da imprensa. Mas a pergunta que se impõe é como um cidadão, com a dimensão internacional de Oscar Niemeyer, (sua morte foi reverenciada na primeira página de todos os grandes jornais do mundo) pode ser chamado, por um jornalista mequetrefe, num órgão de imprensa de cobertura nacional, de metade-gênio-metade idiota? Isso após sua morte, quando não é mais capaz de defender-se, e ainda que sob a desculpa covarde, de reproduzir citação de terceiros…
O consolo que me resta é que a História desinteressa-se desses espasmos da estupidez. Quem se lembra hoje dos críticos da bossa nova ou de Villa-Lobos? Ao talent, no entanto, está reservada a reverência da eternidade.

Antonio Veronese (mideart@gmail.com)
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Meu caro Antonio,

Que beleza o seu texto, um verdadeiro bálsamo para os que ainda acreditam no mundo de amanhã nascendo do espírito, da fé e do caráter dos homens de hoje!

Não é toda a imprensa, felizmente. Há também muita dignidade e valor na mídia brasileira. Mas não devemos nos surpreender com a revista semanal. Em termos de vileza, ela sempre consegue se superar. Ela terá, mais cedo ou mais tarde, o destino de todas as iniquidades: a vala comum do lixo, onde nem a história se dará o trabalho de julgá-la.

Os arquivos do Projeto Portinari guardam um sem número de artigos desta rancorosa revista, assim como de outras da mesma editora, sobre meu pai, Cândido Portinari e outros seus companheiros de geração. Sempre pérfidos, infames e covardes, como este que vem agora tentar apequenar um grande homem que para sempre enaltecerá a nossa terra e o nosso povo.

Caro amigo, é impossível ficar calado, diante de tanta indignidade.

Com o carinho e a admiração do
Professor João Candido Portinari (portinari@portinari.org.br)

*Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comisionado da Carta da Terra.
http://leonardoboff.wordpress.com/2012/12/09/oscar-niemeyer-a-veja-online-e-o-escaravelho/

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Tranquilo com a vida - Niemeyer, Krieger e Almeida



Tranquilo com a Vida
(Oscar Niemeyer / Edu Krieger / Caio Almeida)

Hoje em dia minha vida vai ser diferente
Calça de pijama, camisa listrada, sandália no pé
Andar pela praia vou fazer toda manhã
E até moça bonita vai ter se Deus quiser

Vou parar nos cafés pra ouvir historinhas
Coisas da vida que um dia vão ter que mudar
Quero ser um mulato que sabe a verdade
E que ao lado dos pobres prefere ficar

E assim vou eu
Tranqüilo com a vida
À espera da noite já solta no ar
Como um manto de estrelas com que se anuncia
E se multiplica nas águas do mar

Da minha favela eu vejo os grã-finos
Morando na praia, de frente pro mar
Não devemos culpá-los
São prestigiados
Que um dia entre nós vão voltar a morar

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Oscar Niemeyer - 15 de Dezembro de 1907

Por Marcus Vinicius


"Nascido em 15 de dezembro de 1907, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho é sem dúvida o maior arquiteto brasileiro de todos os tempos. Carioca, é considerado um dos nomes mais influentes da moderna arquitetura do Brasil e do mundo."


Bruno Perdigão escolheu a Casa de Canoas, quando solicitado pelo Diumtudo, para homenagear Niemeyer.
Casa de Canoas - "Minha preocupação foi projetar essa residência com inteira liberdade, adaptando-a aos desníveis do terreno, sem o modificar, fazendo-a em curvas, de forma a permitir que a vegetação nelas penetrasse, sem a separação ostensiva da linha reta. E criei para as salas de estar uma zona em sombra, para que a parte envidraçada evitasse cortinas e a casa ficasse transparente como preferia" Oscar Niemeyer






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

“A arquitetura ainda me convoca com toda a força”, diz Oscar Niemeyer

por Bruno Yataka Saito

Segundo relatos da história, Napoleão teria dito que, dentro da imponente catedral de Chartres, um dos principais exemplos da arquitetura medieval, até os ateus se sentiam desconfortáveis. Nascido em 15 de dezembro de 1907, Oscar Niemeyer não teve a chance de contradizer pessoalmente o imperador francês (1769-1821) sobre a atmosfera proporcionada por uma igreja.

Para este arquiteto ateu “desde muito cedo”, igrejas nunca o fizeram cogitar a possibilidade de existência de Deus. Suas convicções, no entanto, não o impedem de projetar várias construções ligadas ao sagrrado.

O livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, que será lançado amanhã (dia 23), reúne imagens e desenhos dessas 16 obras (executadas de fato ou não), como a Catedral de Brasília, o templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Paricatuba, PA) e a famosa Igreja da Pampulha (Belo Horizonte, MG).

Inaugurada em 1943, a construção em Minas Gerais causou certo desconforto local à época devido, entre outros fatores, às suas formas inovadoras. Em Pampulha, Niemeyer mostrou as diretrizes de seu trabalho posterior. Forma e estrutura são um elemento apenas, em que o concreto revela-se plasticamente flexível, resultando em uma construção ousada e sinuosa para a época. Durante anos os cultos foram proibidos na Igreja da Pampulha.

Aos 103 anos, Niemeyer é uma das principais referências de Brasil para o mundo, admirado não apenas por arquitetos e não apenas pela idade. Este carioca é de uma época anterior a iPhone, internet e televisão, de um tempo em que o homem ainda não tinha chegado à Lua e que duas guerras mundiais encontraram espaço para explodir. Viu as turbulências do Brasil, Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek, ditaduras e Fernando Collor, mas continuou firme na sua crença no PT.

“Vivemos um momento importante. Não posso avaliar se este seria o mais promissor de nossa história... Tenho a certeza de que houve avanços sociais relevantes graças ao empenho do presidente Lula”, afirma Niemeyer.

Se levarmos em conta o benefício da aposentadoria por idade, aos 65 anos para os homens, faz 38 anos que Niemeyer trabalha a mais, já que descarta a possibilidade de parar. As ideias e os pensamentos seguem contínuos, como mostra nesta entrevista exclusiva ao Valor.

Valor: Nunca cogitou a possibilidade de acreditar em Deus?

Oscar Niemeyer: Eu defini essa minha posição em relação à religião desde muito cedo, apesar das minhas origens familiares católicas. Na introdução que escrevi para o livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, procurei lembrar que na casa dos meus avós maternos em Laranjeiras minha avó organizava missas todos os domingos, a que muita gente assistia. Eram pessoas de muito boa índole, solidárias e generosas, acima de tudo tementes a Deus.

Valor: Qual a diferença entre projetar uma igreja e outros tipos de construções? O fato de a igreja ser um lugar sagrado para seus frequentadores interfere no modo como o sr. idealiza o projeto?

Niemeyer: Sempre apreciei esse tema, procurando responder, com a minha fantasia de arquiteto, a tal identificação que muitos fazem desses templos religiosos como lugares do sagrado. Isso tudo sem que eu tenha alguma crença dessa ordem.

Valor: A sua fé no comunismo nunca se abalou? O sr. acredita que os modelos de esquerda vigentes na Venezuela, em Cuba e na China são eficazes? Niemeyer: Continuo a defender a mensagem básica que é possível reconhecer nos escritos de Marx – a sua confiança no advento de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Aprecio muito a coragem política e a capacidade de resistência ao imperialismo dos EUA de líderes como Fidel – em primeiro lugar – e Chávez... Não sou cientista político; portanto, não posso avaliar “tecnicamente” o grau de eficácia do modelo político adotado na Venezuela e na China.

Valor: O sr. está gostando do governo de Dilma Rousseff ou preferia o governo do Lula? Por quê?

Niemeyer: Estou gostando bastante do governo da presidente Dilma. Acho prematuro fazermos comparações entre este e a gestão de Lula – um líder inconteste do povo brasileiro a quem admiro profundamente.

Valor: Os casos de corrupção que acontecem atualmente e aconteceram no governo abalaram a sua confiança no PT?

Niemeyer: Atenção, há outros partidos ou integrantes de partidos diversos do PT envolvidos em esquemas de corrupção que vêm sendo desmascarados...

Valor: O Brasil está preparado para receber uma Copa do Mundo e uma Olimpíada?

Niemeyer: Acho que sim. É bem verdade que caberá a nossos dirigentes políticos assegurar as condições de realização dos grandes eventos desportivos a terem lugar.

Valor: O sr. pensa em aposentadoria? O que o motiva a continuar trabalhando?

Niemeyer: Que é isso? A arquitetura ainda me convoca, com toda a força, e permanece este meu entusiasmo em prosseguir, realizando esta arquitetura diferente, tão pessoal, que tenho defendido desde o projeto da igrejinha de São Francisco de Assis na Pampulha. Projeto que, aliás, se encontra bem destacado no meu novo livro sobre as igrejas.

Valor: Como o sr. avalia o governo Barack Obama? Acredita que a atual crise econômica nos EUA indica a falência de um modelo?

Niemeyer: Os Estados Unidos enfrentam nova crise – recorrente – que tem marcado a história do capitalismo. É evidente que todo o quadro presente me preocupa... até porque o aprofundamento de tal crise deverá afetar os países emergentes, a exemplo do Brasil.

Valor: Como o ideal comunista do sr. se traduz nos seus projetos?

Niemeyer: Considero que não existe essa conexão de que vocês falam. Mas é evidente que os meus projetos têm por objetivo garantir a todos que visitam as minhas obras – independentemente de sua classe ou status social – um momento de surpresa, que é possível associarem a minha busca permanente da beleza e da invenção. Valores que podem ser apreciados por todo mundo.

http://www.valor.com.br/cultura/982458/%E2%80%9C-arquitetura-ainda-me-convoca-com-toda-forca%E2%80%9D-diz-oscar-niemeyer