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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

"O racismo tem o propósito de garantir vantagens ao grupo racial dominante"


Entrevista - Adilson Moreira por Brenno Tardelli

Foto - Wanezza Soares
Adilson José Moreira sempre quis entender os mecanismos que perpetuam o racismo. A curiosidade tornou-se o principal objeto de suas investigações acadêmicas desde a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais.

Doutor pela prestigiosa Universidade Harvard, Moreira acaba de lançar O Que É Discriminação?, livro que esmiúça o conceito de direito antidiscriminatório, disciplina obrigatória nas faculdades do ramo nos Estados Unidos e praticamente desconhecida no Brasil.

O racismo, explica o professor na entrevista a seguir, muda constantemente para alcançar o propósito de perpetuar as vantagens socioeconômicas de um grupo de indivíduos sobre outro.

Carta Capital: O que é discriminação?

Adilson José Moreira
: Sempre pensamos na discriminação como algo ligado à ideia de intencionalidade e arbitrariedade. Não é inteiramente equivocado, mas o problema é que essa concepção tradicional de discriminação que ainda influencia as discussões sobre justiça social, tanto entre leigos quanto entre integrantes do Judiciário, está associada à vontade de indivíduos.

CC: Como assim?

AJM: Atos discriminatórios são vistos como meros comportamentos individuais. Em razão disso, não consideramos o aspecto institucional, estrutural, o papel de autores públicos e privados. Também ficamos cegos aos processos de exclusão social que não dependem da vontade individual.

Compreendemos a ideia de discriminação como todo tipo de tratamento, consciente ou inconsciente, intencional ou não intencional, que coloca determinados grupos em uma situação de desvantagem social.

O elemento central é exatamente a ideia de desvantagem e isso pode ocorrer, repito, tanto em função de comportamentos intencionais quanto de processos que operam independentemente da vontade de indivíduos.

CC: O racismo no Brasil tem características próprias?

AJM: Sim. O racismo que existiu no século XIX não é o mesmo que existiu no XX, que não é o mesmo de hoje. O racismo tem um aspecto dinâmico e um propósito específico, garantir as vantagens econômicas materiais do grupo racial dominante. Ele pode assumir diversas formas, inclusive a da negação.

Ou seja, o projeto racial brasileiro, curiosamente, opera como uma ideologia antirracista, a ideia da democracia racial. O racismo no Brasil tem essa característica de ser encoberto, mas também aversivo. Há uma defesa pública da igualdade, mas no espaço privado os indivíduos só mantêm contato com gente da mesma raça.

Além disso, frequentemente nos deparamos com exemplos nítidos de racismo institucional, caso da prisão do Rafael Braga ou da declaração do comandante da Rota, segundo quem os moradores dos Jardins não podem ser tratados da mesma forma que os habitantes da periferia. Muitos negam que esses casos possam ser classificados como racismo. Sempre há a vontade, a intenção, de mascarar a discriminação no Brasil.

CC: Como o senhor interpreta o crescimento nos Estados Unidos da direita xenófoba e racista?

AJM: O sentimento de superioridade racial aflora em indivíduos de diferentes classes sociais, níveis educacionais e espectros ideológicos. Ele não é um distúrbio psicológico, mas um comportamento aprendido e consiste em uma sensação de superioridade biológica e moral, como se brancos devessem sempre estar na parte superior da escala econômica e o Estado fosse obrigado a fazer o possível para manter essa diferença.

Não bastasse, as crises econômicas açulam os movimentos extremistas. No caso específico dos Estados Unidos, desde a eleição à Presidência da República de Ronald Reagan, nos anos 80 do século passado, os republicanos recorrem à estratégia de promover o ódio e o desprezo raciais para fins eleitorais.

CC: O senhor vê semelhanças entre essas manifestações nos Estados Unidos e o que acontece no Brasil?

AJM: Sim, sem dúvida. O discurso de ódio tem sido amplamente utilizado no País. Prosperou nas eleições de 2014 e durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Faço um trabalho de campo em áreas periféricas da cidade de São Paulo e ouço discursos que ligam problemas pessoais aos homossexuais.

Encontro negros que acreditam que suas dificuldades são produto de uma vingança divina. Pergunto: “Mas, veja, o casamento entre pessoas do mesmo sexo tem apenas três anos. Enfrentamos as consequências do racismo há 500. Então, qual a relação entre o casamento de pessoas do mesmo sexo e o fato de que sua esposa morreu de violência obstétrica, por exemplo?”

Muitas lideranças religiosas utilizam abertamente o discurso de ódio contra homossexuais para defender um programa político ultraconservador que atende aos interesses do capital. Nada é mais interessante para o grande capital do que um eleitorado contrário à expansão de direitos sociais e individuais.

CC: Como o combate ao racismo e à homofobia se conectam?

AJM: Uma das teorias mais relevantes que descrevo em meu livro é aquela da interseccionalidade. Essa teoria surgiu na década de 1980 e foi formulada pela professora Kimberlé Crenshaw, quando ela analisou a situação das negras vítimas de violência doméstica. É uma situação complicada, pois a negra é discriminada no mercado de trabalho por ser mulher e por ser negra, o que a coloca em uma situação de vulnerabilidade social.

Os sistemas de opressão social não operam sozinhos. Negros e negras homossexuais sofrem, além do racismo, com a homofobia. Quando as vítimas de violência contra homossexuais são negras, asiáticas ou indígenas, a crueldade dos agressores é muito maior. A raça é um fator que tende a gerar ainda mais violência.

https://www.cartacapital.com.br/revista/971/o-racismo-tem-o-proposito-de-garantir-vantagens-ao-grupo-racial-dominante

O léxico do golpe


Por Nirlando Beirão

Verbetes que traduzem o assalto ao poder – e à linguagem



Alternância do poder

É um instrumento democrático que você aspira quando – e só quando – o adversário está no governo. Quando seus apaniguados mandam, aí você passa a defender a “continuidade” em nome da “governabilidade” e das “reformas”. Neste caso, a alternância atrapalharia o aperfeiçoamento democrático.

Em São Paulo, a alternância do poder é especialmente execrada. Os paulistas preferem perpetuar um mesmo grupo político, como na época da República de polainas e cartola. Enquanto isso, clamam pela alternância do poder... na Venezuela (leia o verbete).

Aparelhamento do Estado
Os adversários são os que aparelham o Estado. O governo que você defende, não: ele procede a nomeações sérias, republicanas, de figuras de notório saber, superior competência e reputação ilibada (mesmo se processados criminalmente). Em teoria, o partido no poder nomeia para os cargos de confiança pessoas... de sua confiança.

Mas esse princípio não vale para os adversários, sempre acusados de irem com muita sede ao pote. Se aquele diretor da estatal nomeado por você ou pelos seus for pego mais tarde com a mão na botija, é um caso de cooptação estimulado pelo clima corrupto instaurado por seus adversários.

Corrupção

Prática entranhada nos governos dos outros – e felizmente reprimida ferozmente pelo Judiciário aliado da gente. Infelizmente, a corrupção às vezes ganha fatos comprovados e nomes ilustres de aliados seus. Mas não se preocupe. O Judiciário vai fazer vistas grossas, o doutor Gilmar Mendes está aí para zagueirar as injúrias gratuitas e infundadas.

E a mídia amiga estará a postos para jogar esse tipo de acusação para debaixo do tapete. A corrupção no Brasil foi inventada pelo partido adversário, uma organizaçãocriminosa que assaltou os cofres públicos. Se alguma dúvida insidiosa pairar sobre algum correligionário nosso, é só ir ao programa gratuito de tevê e dizer “eu errei”. E tudo ficará como está.

Corruptores

Sem eles não existe corrupção. Eventualmente (ou frequentemente) financiaram candidaturas amigas. Portanto, é melhor fazer como os justiceiros do Paraná: isso não vem ao caso.

Bolsa Família


Instrumento do Estado inchado, assistencialista e paternalista para manter politicamente subjugados os miseráveis que não se dispõem a trabalhar. Perpetua a miséria e a vagabundagem com os recursos dos impostos – aqueles poucos, bem entendido, que não são sonegados pelos ricos.

Criado e mantido pelos governos petistas, o Bolsa Família explica as sucessivas vitórias do PT nas urnas analfabetas. Projeto especialmente amaldiçoado pela classe média antes ascendente, a qual, no entanto, paga alegremente os juros escorchantes cobrados no cartão de crédito.

Cara nova

É aquele político que finge que não é político. “Cara nova” designa figuras que estão há anos, ou décadas, nos bastidores ou mesmo no proscênio da atividade política, em geral aproveitando-se da promiscuidade escancarada entre empresários e agentes públicos, mas que simulam não ter nada a ver “com isso que está aí”.

Ao abrir a boca, exprimem ideias anteriores à Revolução Francesa com a desfaçatez de quem se diz sintonizado com o dernier cri da modernidade e da tecnologia. Como os “caras novas” fingem ser o que não são, o eleitor pode ter dificuldade de perceber de imediato a falsidade.

Judiciário

Partido político não registrado oficialmente na Justiça Eleitoral, mas que atua em blocoa favor das causas mais truculentas e reacionárias. Seus mais altos representantes envergam um uniforme sombrio que, no entanto, não lhes tolhe os gestos de uma teatralidade sempre narcisista. Em esferas inferiores faz sucesso a camicia nera dos tempos do Duce.

O jargão obscuro com que se exprimem reforça o esprit de corps da turma, que faz política se fazendo de apolítica. A corporação dos intocáveis dissemina o ódio e critica omundo, mas fica furiosa, e leva aos tribunais, quem ouse criticá-la.

Crise

A pior crise econômica de todos os tempos é esta aí, provocada por um governo rival, aquele que zerou a dívida externa; ainda que, quando estivemos no poder, chegamos a quebrar o Brasil um punhado de vezes.

E não importa que o empresariado tenha premeditadamente empurrado o País abismoabaixo, com o edificante propósito de derrubar um governo que não descia na goela do “mercado”. O abismo era mais fundo do que se imaginava, mas a gente vai continuar culpando os adversários pela “herança maldita” que não sabemos agora como administrar.

Delação premiada
Ela só tem valor se for vazada cirurgicamente para atingir os nossos concorrentes. Se no meio do lamaçal surgir o nome de um aliado, diga que as revelações são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento ser também um crime, de responsabilidade, inclusive, do ministro da Justiça, caso envolva a Polícia Federal, bem... esqueça.

O STF vai abonar a bandalheira. Delações extraídas no porão da carceragem ficam sempre à espera de que o inimigo dos justiceiros seja citado. Senão a gente dá mais uma prensa no delator, para que ele confesse o que a gente quer.

Desemprego

Promover o desemprego em massa, com demissões no serviço público e no setor privado, é o que prescreve o catecismo do “mercado”. Vilanizar os raros direitos trabalhistas que ainda sobrevivem também faz parte do discurso que culpa pelo desemprego... os trabalhadores.

Vivendo uma realidade paralela, os mãos de tesoura do governo ilegítimo dizem que o desemprego (superior a 13 milhões) está diminuindo. De todo modo, é resultado da “herança maldita” deixada pelos antecessores, de cujo governo os golpistas de hoje faziam parte.

Deus
A julgar pelo que dizem os parlamentares, o Todo--Poderoso está dando expediente integral no Congresso brasileiro. Ele patrocina ações violentas e ilegais e abençoa pilantras notórios. Votou pelo impeachment da presidenta Dilma, reforçando a convicção de que Ele não é brasileiro.

Gestão

É o talismã do “cara nova” (confira o verbete). O “gestor” considera-se um tremendoadministrador, mas sua cartilha é o samba de uma nota só da “austeridade”. Louco por cortar salários, promover demissões em massa e diminuir o investimento público com base na teoria de que Estado mínimo é Estado eficiente.

Em seus surtos de “privatização” a qualquer custo, o “gestor” na verdade pretende é dilapidar o patrimônio público, repassando-o a preço de banana a empresários amigos. Programas sociais, nem pensar. O “gestor” de cashmere tem ojeriza a pobres e trata os indigentes e o


s sem-teto a jatos de água fria em madrugadas geladas. É um genocida em potencial.

Institucional

É a versão pós-golpe de “republicano”, palavra muito em voga para designar, na temporada petista, situações de compromisso político com os piores adversários. “Institucional” foi, segundo a futura procuradora-geral Raquel Dodge, o meeting por ela mantido na calada da noite com quem a indicou, Michel Temer, no Palácio do Jaburu.

Flagrada pelas câmeras, a doutora Dodge afirmou que o ágape girou em torno de questões protocolares para a sua posse. Como nem o rei Luís XIV precisou de tantas minúcias de etiqueta para sua investidura, soou pouco plausível a versão da magistrada. Em seguida, ela corrigiu para “uma conversa institucional”.

Ficou pior ainda: deu a entender que estava indo buscar instruções de como promover a justiça com um sujeito processado por obstrução da Justiça. A língua inglesa tem um dito: “Quando você já está num buraco, pare de cavar”.

Lava Jato Inc.
É o empreendimento comercial do baixo Judiciário de Curitiba, que consiste em negociar palestras no Brasil e no exterior a preços sigilosos, palestras essas que podem incluir temas como o confisco do cachê das palestras de um conferencista concorrente e de muito prestígio.

O confisco acontece por decisão ciumenta, ainda que os valores das palestras doperseguido sejam transparentes e tenham sido declarados ao Fisco.

Liberdade de expressão
É o direito inapelável, intocável e irreversível dos meios de comunicação de exprimir opensamento único de seus proprietários, em consonância com interesses pecuniários e a pauta eleitoral deles. É facultado o direito de mentir e distorcer.

Em temporadas eleitorais, a toada de uma nota só torna-se obsessão, de forma a impedir que vaze para o noticiário algum acorde dissonante por parte da ralé das redações ou dos candidatos do outro lado.

Se alguém denuncia a censura que os patrões impõem às redações – e à verdade factual –, os mandarins da imprensa reagem com total hipocrisia: “Vocês querem me censurar”.
Meritocracia

Doutrina segunda a qual os pobres são pobres porque querem – ou porque lhes faltam qualidades para serem ricos. Já os ricos, ainda que muitos deles aquinhoados por robustas heranças, patrocinam a corrida malthusiana, cuja linha de chegada vai contemplar os mais fortes e determinados.

Uma transposição vulgar desse pensamento é representada pelo programa O Aprendiz, que nos Estados Unidos gestou Donald Trump e aqui no Brasil pariu JoãoDoria Jr.

Opinião pública
Entidade de contornos indefinidos da qual a mídia se apropria indevidamente, dizendo-se sua porta-voz, ainda que, no fundo, nutra o maior desprezo pela opinião do público. Tipo do cabeçalho da Folha de S.Paulo, a qual, sem o menor constrangimento, apregoa: “Um jornal a serviço do Brasil”.

Parlamentarismo

O sistema de governo ideal quando o nosso partido é sistematicamente surrado nas urnas em eleições presidenciais. O parlamentarismo acaba convocando figuras espectrais como o senador José Serra, ávido para levar sua ambição presidencial fracassada por um atalho autoritário.

Políticos
Fauna dotada de grande voracidade que se apresenta, a cada dois anos, em busca de um cargo público que lhe permita saciar essa voracidade. Por uma estranha circunstância, quanto mais facínora for o candidato, maior chance ele terá de se eleger.

Políticos não nascem de geração espontânea, eles são agraciados pelo voto do eleitor, o qual, no dia seguinte à eleição, já nem se lembrará do sujeito em quem votou e irá daí para a frente se eximir do ônus de sua própria e livre escolha. Brasília é o Brasil. Não existe uma política corrupta sem uma sociedade corrupta.

Recuperação econômica
Uma ficção produzida pelo governo ilegítimo e que passa, como uma chanchada sem graça, nas telas dos cadernos de Economia e Mercado dos jornalões cúmplices do golpe.

Velha política

Só os adversários a praticam. Se você não está aliado àquele plutocrata sulista ou ao coronel nordestino, é porque eles decidiram apoiá-lo, não o contrário. A pureza de princípios automaticamente os transformará em “homens de bem”. Não importa que o seu apoiador venha de uma nefanda dinastia baiana de três gerações de políticos suspeitos. Eu sou a renovação, velha política são os outros.os.

Venezuela
É a versão atualizada de “Cuba”. Para se distrair de um país que vai suprimindo os direitos e as liberdades democráticas, o nosso, você começa a apostrofar o país vizinho, acusando-o de suprimir os direitos e as liberdades democráticas.

Com o aval categorizado da Folha, passa a ter o direito de chamar o presidente eleito de “ditador” e de gritar para os esquerdistas: “Vá pra Caracas”. A Venezuela é o que o PT queria fazer do Brasil. Não fez não se sabe bem por que, talvez o cantor Lobão explique. O comunismo morreu, mas o anticomunismo continua a gerar bons negócios.

Já o capitalismo produz tragédias humanas como as do Burundi e do Zimbábue e ditaduras sanguinárias como a Arábia Saudita e o Azerbaijão – mas se Trump e o Estadão apoiam, então está tudo bem.

Lava Jato

Desencadeada a partir da prisão do megadoleiro Alberto Youssef, que já havia sido investigado pelo juiz Sergio Moro e demais xerifes de Curitiba quando do escândalo do Banestado. Como o foco da roubalheira era então o PSDB e aliados, Moro achou que não era o caso.

Mas já que a Operação Lava Jato passou a visar a Petrobras, os governos do PT e seus aliados, ela foi em frente, com o estardalhaço da mídia, vazamentos seletivos e prisões escolhidas a dedo.

Cumprida sua função de derrubar, aliado a um Congresso caricato, uma presidenta que jamais foi citada pelas acusações arrancadas nos porões, e de colocar no poder uma quadrilha beneficiada por propinas e malas de dinheiro, mas que nunca será incomodada pelos justiceiros, eles se dedicam agora à segunda missão política: evitar que Lula seja candidato em 2018. Até aqui têm ido bem nesse propósito.

Manifestações e protestos
Quando se trata de greves de trabalhadores e protestos a favor de direitos das minorias, devem ser chamados de “baderna” – distúrbios que incomodam o cidadão e a rotina das metrópoles e tendem a desandar em “vandalismo”, ainda que a polícia provoque e atire primeiro.

Manifestações ordeiras são, em contrapartida, aquelas, vestidas de canarinho, que desencadearam uma violência institucional e que agora clamam nas ruas pela intervenção das Forças Armadas.

Pedaladas fiscais

São ajustes orçamentários que os governantes utilizam, alocando recursos com certa destinação para outra. Por exemplo, assegurar que os programas sociais continuarão a ser abastecidos com verbas quando o caixa anda minguado.

O Poder Executivo, em todos os níveis, usa esse expediente no Brasil, mas só uma pessoa acabou punida a pretexto das tais pedaladas – muito alardeadas, mas pouco entendidas. De todo modo, como a acusada foi a presidenta Dilma, tratava-se de um crime hediondo.

Se os nossos aliados são flagrados negociando roubalheiras na calada da noite, não passam de leves e desculpáveis contravenções.

Populista

É o rótulo destinado àqueles que cometem a irresponsabilidade de pensar nos pobres – criaturas descartáveis no xadrez da alta política. Os populistas põem em risco a estabilidade econômica e enfurecem os cânones do “mercado”, muito pouco propensos a pensar o País para além da “meritocracia” (veja o verbete).

Os populistas são, em geral, de esquerda. Os de direita, do tipo Jair Bolsonaro, a gente acaba agasalhando se for conveniente.

https://www.cartacapital.com.br/revista/967/o-lexico-do-golpe

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite”

Por Sergio Lirio

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.
Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

CartaCapital: impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.
Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.
CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.
CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo. 
CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.

"O ódio aos pobres é intenso"

CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.
A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.
CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.
CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.
CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres. 
CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.
CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.
CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes. 



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Ser contra cotas raciais é concordar com a perpetuação do racismo

Via Mateus Perdigão

Por Djamila Ribeiro

É comum algumas pessoas não entenderem por que afirmamos que pessoas contra cotas raciais são racistas. Há quem pense que racismo diz respeito somente a ofensas, injúrias e não percebem o quanto vai muito mais além: se trata de um sistema de opressão que privilegia um grupo racial em detrimento de outro.

No Brasil, foram 354 anos de escravidão, população negra escravizada trabalhando para enriquecer a branca. No pós-abolição, no processo de industrialização do Brasil, incentivou-se a vinda dos imigrantes europeus pra cá. Muitos inclusive receberam terras do Estado brasileiro, ou seja, foram beneficiados por ação afirmativa para iniciarem suas vidas por aqui. Tiveram acesso a trabalho remunerado e, se hoje a maioria de seus descendentes desfrutam de uma realidade confortável foi porque foram ajudados pelo governo pra isso.

Em contrapartida, para a população negra não se criou mecanismos de inclusão. Das senzalas fomos para as favelas. Se hoje a maioria da população negra é pobre é por conta dessa herança escravocrata e por falta da criação desses mecanismos. É necessário conhecer a história deste País para entender porque certas medidas, como ações afirmativas, são justas e necessárias. Elas precisam existir justamente porque a sociedade é excludente e injusta para com a população negra.

Cota é uma modalidade de ação afirmativa que visa diminuir as distâncias, no caso das universidades, na educação superior. Mesmo sendo a maioria no Brasil, a população negra é muito pequena na academia. E por quê? Porque o racismo institucional impede a mobilidade social e o acesso da população negra a esses espaços.

Pessoas brancas são privilegiadas e beneficiadas pelo racismo. Um garoto branco de classe média, que estudou em boas escolas, come bem, aprende outros idiomas, tem lazer e passa em uma universidade pública, pode se achar o máximo das galáxias, mas na verdade o que ocorre é que ele teve oportunidades na vida pra isso. Qual mérito ele teve? Nenhum. O que ele teve foi condições pra isso.

Um garoto negro pobre, que estuda nas péssimas escolas públicas, come mal, não tem acesso a lazer, para passar em uma universidade terá muito mais dificuldades para isso porque não teve as mesmas
oportunidades. Cota não diz respeito a capacidade, capacidade sabemos que temos; cota diz respeito a oportunidades. São elas que não são as mesmas.

Se o Estado brasileiro racista priva a população negra dessas oportunidades é dever desse mesmo Estado construir mecanismos para mudar isso. O movimento negro sempre reivindicou cotas juntamente com a melhoria do ensino de base. Só que, segundo pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), demoraria por volta de 50 anos para que a educação de base fosse de qualidade. Quantas mais gerações condenaríamos sem as cotas?

Cotas e investimento no ensino de base não são tópicos excludentes, ao contrário, devem acontecer concomitantemente. Cotas não são pensão da previdência, são medidas emergenciais temporárias que devem existir até as distâncias diminuírem.

Minha avó materna nascida na década de 20 teve de começar a trabalhar aos 9 anos de idade como empregada doméstica. O Estado brasileiro não garantiu seu direito à educação. Ela contava que a patroa colocava um banquinho para que ela alcançasse a pia para lavar as louças enquanto os filhos da patroa estudavam, viajavam, comiam bem.

Joselia Oliveira, atleta de levantamento de peso, possui uma história similar. Trabalhou como empregada, cuidava dos filhos da patroa enquanto os mesmo faziam balé, inglês. “Sou do interior do Rio de Janeiro, aos 6 anos já subia no banquinho para lavar louças e cuidava de crianças menores. Algumas dessas famílias me trouxeram para o Rio de Janeiro com a promessa de cuidarem de mim, mas eu só trabalhava, não recebia salários e ganhava roupas e brinquedos usados. Muitas meninas do meu bairro tiveram o mesmo destino. Só aos 14 anos fui entendendo que aquilo era exploração, mas recuperar tanto tempo perdido não é fácil. Por isso, cotas são necessárias”, diz.

Joselia nasceu em 1978 e ainda enfrentou a mesma realidade de minha avó, o que na verdade é a realidade de muitas mulheres negras. Infelizmente, essa ainda é a regra. E, para se pensar políticas públicas, devemos nos ater à regra e não a exceções. Utilizar o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa como exemplo, quando a maioria da população negra está na pobreza, é além de um argumento falho, ignorância e má fé.

Logo, ser contra uma medida que visa combater essas distâncias criadas pelo racismo é ser a favor da perpetuação do racismo. E se você se coloca contra, isso te torna o quê?

Pesquisem sobre o conceito de equidade aristotélica (sim, de Aristóteles, o filósofo grego): as ações afirmativas também se baseiam nele, que basicamente significa tratar desigualmente os desiguais para se promover a efetiva igualdade. Ou seja, se duas pessoas vivem em situações desiguais, não se pode aplicar o conceito de igualdade abstrata porque concretamente é a desigualdade que se verifica. Aquela pessoa que está em situação de desigualdade precisa de mecanismos que visem o acesso dela à cidadania.

Em relação a pessoas brancas pobres, existem as cotas para quem é oriundo de escolas públicas, as cotas sociais. Mas as raciais também são necessárias porque pessoas brancas, por mais que pobres, possuem mais possibilidades de mobilidade social, uma vez que não enfrentam o racismo.

Façam um passeio por um shopping center e vejam a cor dos vendedores e vendedoras, das gerentes. Negros são os mais pobres entre os pobres e só a cota social não nos atinge. Beneficiaria somente pessoas brancas.

Cotas raciais porque esse País possui uma dívida histórica para com a população negra. Dizer-se anti-racista e ser contra as cotas é, no mínimo, uma contradição cognitiva e, no máximo, racismo.

Ou se lida com isso ou se repensa e questiona os próprios privilégios. Fazer-se de vítima é reclamar de exclusões que nunca passou.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ser-contra-cotas-raciais-e-concordar-com-a-perpetuacao-do-racismo-1359.html

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O refúgio de Donnafugata

por Walter Maierovitch

Homem solitário e leitor compulsivo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa morreu em 1957 com a certeza da não publicação do seu único e histórico romance, Il Gattopardo, lançado no Brasil com o título O Leopardo. Refutado por editora do porte de uma Mondadori-Einaudi depois de parecer contrário escrito com dor de cotovelo por Elio Vittorini, a obra foi publicada um ano depois da morte de Lampedusa pela Feltrinelli, com prefácio de Giorgio Bassani (autor do romance O Jardim dos Finzi-Contini).



Sucesso póstumo, Il Gattopardo tornou-se o maior best seller na história da literatura italiana. No cinema, a adaptação de Luchino Visconti com as interpretações magistrais de Claudia Cardinale e Burt Lancaster, bateu recordes de bilheteria. Pois bem, quando o autor desta coluna é tomado por desilusões e tristezas, refugia-se na sua imaginária e lampedusiana villa de Donnafugata e busca conforto na leitura de uma página de O Leopardo: “Nós fomos os leopardos, os leões. Quem nos substituirá serão os chacaizinhos, as hienas. E todos, leopardos, chacais e ovelhas, continuaremos a nos acreditar como o sal da terra”.

Na minha última estada em Donnafugata, estive na companhia da iraniana Reyhaneh Jabbari. Reyhaneh, 26 anos, decoradora de interiores, foi presa em 2007 por esfaquear o conacional Morteza Abdolali Sarbandi. Acusada de homicídio premeditado, permaneceu presa de 2007 a 25 de outubro de 2014, quando foi executada a pena capital imposta por cinco juízes de um tribunal penal e confirmada pela Corte Suprema do Estado teocrático iraniano.

No processo, a ré Reyhaneh sustentou haver atuado em legítima defesa para escapar de um estupro, no escritório de Sarbandi, que conhecera em um café e que a convidara para conversar a respeito de um projeto de decoração.

Depois de cominada a pena capital pela Justiça iraniana, resta a qualquer condenado, pela regras da teocracia xiita, recorrer à clemência da família da vítima. No caso de Reyhaneh, a família de Sarbandi condicionou o perdão à retratação da afirmada ocorrência de violência sexual. A família de Sarbandi insistia na premeditação sob argumento de a faca, instrumento do crime, ter sido comprada três dias antes do homicídio e numa interceptada mensagem via SMS enviada a um amigo, na qual a condenada dizia: “Penso que o matarei hoje”.

Reyhaneh continuou a sustentar a tentativa de estupro. Dada a recusa a um perdão condicionado à retratação, a execução da pena capital, chamada de homicídio legal por doutrinadores do direito penal, consumou-se no subterrâneo da prisão de Gohardasht, ao norte da cidade de Karaj. Os apelos da Comunidade Europeia, das Nações Unidas e da Anistia Internacional de nada valeram, como já se pressentia.

No sábado 8 de novembro, o jornalista Massimo Gramellini, vice-diretor do diário La Stampa, de Turim, observou, em um programa de televisão de larga audiência, que seria cômodo para Reyhaneh aceitar retratar-se para manter-se viva e livre. Sua consciência falou mais alto. Reyhaneh é um desses casos raros em que o ser humano é o “sal da terra”.

O chefe do Ministério Público iraniano, em nota, procurou, sem sucesso no exterior, contornar o impacto negativo da condenação ao evocar fatos processuais. Por exemplo, Reyhaneh, em um interrogatório inicial, sustentou que uma terceira pessoa estava presente e foi o homicida. Na nota, afirma-se que a faca ensanguentada e a bainha foram apreendidas na residência da ré. Em contrapartida, omite-se ter Reyhaneh ficado, antes do interrogatório, em isolamento celular por dois meses, sem possibilidade de contatar o advogado de defesa Mohammad Mostafaei, fato confirmado por este em seu blog.

Não bastasse, a Justiça da teocracia iraniana condenou à pena de um ano de prisão, a ser cumprida integralmente em regime fechado, a ativista Ghoncheh Ghavami, de 25 anos. A condenação deveu-se à violação de norma de proibição ao tentar assistir, em junho passado, a um jogo de vôlei masculino entre as seleções do Irã e da Itália. Ghavami luta pelo reconhecimento da igualdade de direitos entre homens e mulheres e está recolhida no nada recomendável cárcere de Evin, na periferia de Teerã.

No mundo sunita, mais especificamente na Arábia Saudita, a advogada e ativista Souad al-Shammary tenta se livrar da acusação de insulto ao Islã e invoca o direito natural à liberdade de expressão. Culpada por ter criticado quem usa barba e os vaidosos que se julgam ungidos pelos céus e têm a mão beijada pelos semelhantes. Ou pelas ovelhas?

http://www.cartacapital.com.br/revista/826/o-refugio-de-donnafugata-115.html

terça-feira, 22 de abril de 2014

Não apenas a voz

Por Vladimir Safatle

Há algumas edições, eu havia apresentado a ideia de que a esquerda precisa pensar um novo paradigma de governo. Boa parte dos impasses da administração atual pode ser colocada na conta da ausência completa de criatividade política e de experiências de governo mais próximas da afirmação da soberania popular. Experiências trocadas por um tom canhestro de gestão, mistura de cálculo partidário e fetiche por PowerPoint.

Por um lado, de nada adianta tentar escapar do problema relativo ao significado de governar, pois a população não quer apenas nossa revolta. Ela quer a garantia de sabermos como transformar demandas em resultados. A pior coisa a fazer aqui é, no entanto, acreditar que as decisões “técnicas” do Estado pedem um corpo de tecnocratas e burocratas que, por algum milagre gerado no momento da criação, teriam mais condições para decidir do que aqueles realmente envolvidos nos processos.

Essa mentalidade técnico-dirigista é uma das maiores fontes de catástrofes políticas e, nesse ponto, tanto petistas (em especial este último governo capitaneado pela “gerente” Dilma Rousseff) quanto tucanos são indiscerníveis. Tanto a esquerda quanto a direita foram bastante pródigas em dirigismos das mais variadas formas.

Por isso, gostaria de explorar um pouco mais a ideia de governar não ser “dirigir”, mas “garantir as condições para que os cidadãos dirijam a si mesmos, governem a si mesmos”. Isso pode parecer mais um desses slogans vazios com cheiro de state mission de ONG. Podemos, porém, dar mais clareza e concretude a tal ideia.

Um dos pressupostos mais absurdos da política atual é a crença de que os diretamente envolvidos em processos não são capazes de ter as melhores respostas para os problemas gerados no interior desses mesmos processos. Por exemplo, apesar de um infindável número de reformas educacionais decididas por burocratas que há décadas não pisam em uma sala de aula e “ideias geniais e revolucionárias” saídas da cabeça de consultores internacionais pagos a preço de ouro, a educação nacional apresenta níveis de qualidade deploráveis. Há um ritual bizarro de expiação periódica quando os dados do Pisa são apresentados e os brasileiros lutam para ocupar a última posição.

Por que acreditar que ministérios e secretarias da Educação deveriam impor planos? Por que não modificar radicalmente o processo decisório e dar aos realmente envolvidos, ou seja, os professores e profissionais da educação, a condição de discutir e decidir o que deve ser feito? Ninguém melhor do que um professor que passa horas todos os dias em sala de aula para saber o que funciona e o que não funciona, o que significa educar e suas dificuldades. É absurdo crer, por exemplo, que algum consultor ou funcionário teria mais conhecimento técnico sobre educação do que os próprios professores. Eis uma arrogância gerencial que esconde apenas um desejo mal disfarçado de controle e poder.

Sendo assim, o processo decisório poderia ser feito por meio da implementação de conselhos de professores com poder deliberativo (e não apenas com poder consultivo e meramente decorativo). Caberia ao Estado simplesmente garantir o bom funcionamento de tais conselhos, bloqueando aqueles que tentam se servir de lobbies econômicos e outros fatores de dominação, e implementar suas decisões. Ou seja, a verdadeira democracia é aquela cujas decisões técnicas do Estado são tomadas por quem será afetado por tais decisões.

Tal princípio poderia ser implementado em toda e qualquer área da gestão pública. Isso significa que, em uma democracia direta, os poderes Executivo e Legislativo paulatinamente abrem mão de seu monopólio administrativo para funcionarem, cada vez mais, como aparelhos de implementação de decisões tomadas diretamente pela soberania popular. Essa transformação política, que implica uma normalização cotidiana dos mecanismos de manifestação da soberania popular, assim como a pulverização das instâncias decisórias, é a condição prévia para toda e qualquer renovação.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sou do CEM 03 de Tabatinga

por Gabriel Guilherme
Via Socialista Morena
UPDATE: Olhem abaixo o texto de um aluno de Kubitschek que está circulando no Facebook e julguem vocês mesmos o nível de educação que ele está transmitindo. E como sua incitação ao pensamento FUNCIONOU. Faço questão de colocar na íntegra:
“Olá pessoal. Sou um dos alunos do CEM 03 de Taguatinga, onde a prova foi aplicada. E queria dizer que é extremamente divertido ver a reação do público controlado pela mídia. Pessoas abaixo dizendo que ele é um cretino, babaca, só tem o diploma na parede… Que “esse é o motivo da educação estar tão ruim”.

Acontece que esta foi uma das 12 questões da prova bimestral de filosofia, onde o professor colocou esta questão (nº 11) por motivos que ele mesmo explicou na entrevista.

Mas não é aí onde quero chegar, e sim no fato de que o público, controlado pela mídia, tende a ver somente o que é exposto e julgar indiscriminadamente sem antes avaliar a situação como um todo. Isso entra em um dos assuntos que nos foram explicados pelo professor recentemente, sobre Kohlberg. A matéria dada pelo professor Antônio tratava a respeito da Teoria do Desenvolvimento Moral. Eu não vou explicar isso aqui, pois se acham-se no direito de julgarem um professor de filosofia, creio eu que devem ter conhecimento a respeito do assunto. No entanto, um dos tópicos foi o dilema de Heinz, proposto por Kohlberg. Ele diz que Heinz estava com a esposa doente, e o remédio que a salvaria custava mil dólares. Como não podia comprá-lo do farmacêutico que detinha a fórmula, após esgotadas as tentativas de obtê-lo de modo honesto, roubou-o. Kohlberg pergunta se o marido fez bem ou não em ter roubado, e analisa as respostas dadas, identificando o nível moral do entrevistado através destas. (texto retirado do livro Filosofando, ARRUDA, Maria Lúcia de; e MARTINS, Maria Helena Pires, com adaptações). O que acontece nesta situação é o mesmo. É possível “analisar” as diversas respostas do público em relação à questão da prova e identificar seus níveis morais. “Não devia ter colocado a questão na prova pois é um professor e isso é errado.” (nível convencional, terceiro estágio – pertencimento ao grupo). Quando suas respostas a isso, como adultos, deveriam estar no nível pós-convencional, destacando o conflito entre a ética profissional e o direito que cada pessoa tem de exercer a própria vida, ou no sexto estágio do nível pós-convencional. Mas, infelizmente, como diz Kohlberg, nem todos os adultos atingem este nível, devido à educação e vida que recebem, em condições diferentes.

Se chegou a ler até aqui, gostaria de ressaltar apenas algumas informações importantes sobre o conteúdo da prova. As demais 9 questões da prova tratavam de ética, moral, valores, e níveis de moralidade. Caso tenham alguma dúvida, podem pedir à direção da escola para liberar o resto do conteúdo da prova. Estes conteúdos que citei acima, foram todos tratados e explicados em sala pelo professor, conteúdos que também estão presentes no livro que nos foi dado pela escola e no componente curricular da terceira série do Ensino Médio. Então, para aqueles que gostam de dizer que o professor é incompetente por causa de uma única questão e que não estamos aprendendo nada em sala, saibam que estamos sim aprendendo, e não somente um ou dois alunos, mas a grande maioria.

E, para finalizar, posso dizer que apenas me sinto mal por vocês adultos que ainda se encontram no Estágio Intuitivo ou Simbólico de Piaget. Esse é aquele estágio em que a criança possui uma inteligência egocêntrica, sendo assim ela sente, pensa e age a partir de si mesma e não se coloca no lugar do outro. Digo isso porque, ao invés de avaliarem a situação corretamente, baseado em todo o contexto do ocorrido, simplesmente julgam o professor por sua questão sem avaliar o contexto todo, como se fossem perfeitos ou pudessem fazer melhor. Acontece que, olha só para o que estão fazendo: criticando, atrás de uma tela de computador, usando de argumentos incoerentes, palavras ofensivas e tudo o mais. Acham mesmo que pessoas nesse nível são capacitadas pra julgar a ética e moral dos outros?

Obrigado pela atenção, e BEIJINHO NO OMBRO PRO RECALQUE PASSAR LONGE.
Gabriel Guilherme, 3º G #39 CEM 03 de Taguatinga.
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Kubitschek, o provocador: “a escola pública é tão mal considerada quanto Valesca e o funk”

Via  Cynara Menezes


(O professor Antonio Kubitschek. Foto: Ana Rayssa/Correio Braziliense)
Depois de passar a terça-feira inteirinha dando entrevistas (até perdeu a conta de quantas deu), Antonio Kubitschek decidiu desligar o telefone. Era aniversário da mulher e ele, que nem Facebook tem, decidiu desconectar para se dedicar à família. O professor de filosofia do Centro de Ensino Médio 3, em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, vive dias de celebridade desde que uma prova sua causou furor nas redes sociais: nela, a funkeira Valesca Popozuda aparece como “pensadora contemporânea”.
Choveram, é claro, ataques ao professor e ao colégio da rede distrital onde ensina. Um blogueiro da direita raivosa chegou a decretar o fim da escola pública: “morreu, foi para o ralo. Virou lixo”, espumou. Mas aí veio a explicação de Kubitschek. O professor fizera a questão justamente para provocar o quiproquó que causou. Sua intenção era mostrar de que tipo de carniça se alimentam os urubus da mídia. E eles caíram feito patinhos.
A própria Valesca, bem mais inteligente do que a blogueirada reaça, percebeu de cara a intenção de Kubitschek. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia?”, publicou a cantora em seu Face, atribuindo o escândalo a preconceito com o gênero musical. E ainda tirou onda: “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas, eu já estou pronta, mas PENSADORA CONTEMPORÂNEA ainda não (mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu. “Vou ali ler um Machado de Assis e ir treinando pra quem sabe um dia conseguir ser uma pensadora de elite!” Beijinho no ombro.

(reprodução do Face de Valesca, a Pensadora)
Professor da rede pública no Distrito Federal há 19 anos, Kubitschek, 43, é, ao contrário do retrato pintado pelos apressados, um professor bastante conceituado na cidade, admirado por colegas e ex-alunos. Sua intenção era cumprir uma das principais tarefas do educador: estimular o debate entre os jovens. E conseguiu. O blog fez um pequeno pingue-pongue com o professor, que não tem parentesco algum com o presidente Juscelino. O Kubitschek, na verdade, é segundo nome. Uma homenagem do pai dele ao criador de Brasília.

(reprodução do Facebook)
Socialista Morena – Como foi que isso tudo começou?
Antonio Kubitschek – Nós tínhamos organizado uma exposição de fotografias dos alunos da escola, com 1300 fotos feitas pelos estudantes com o tema “Olhares”. Cada turma escolhia o que iria abordar a partir daí e saía fotografando. Avisamos a imprensa toda, porque era algo positivo e as fotos ficaram muito bonitas. Ninguém apareceu. Discutimos isto em classe e chegamos à conclusão que a imprensa só viria à escola em uma situação negativa. Vamos provocar?, disse a eles. Mas eu não podia colocar a imagem da escola em risco, porque ela faz um trabalho decente. Então decidi, de surpresa, sem avisá-los, colocar a questão da Valesca na prova, uma cantora que eu via todo mundo comentando e falando mal. Como eu sabia que os meninos compartilham tudo no Facebook, imaginei que ia haver repercussão, mas achei que fosse só a imprensa local. Nunca imaginei que viraria assunto no país inteiro.
SM – O que você acha do funk?
AK – É uma expressão da sociedade, de uma classe social. Tem gente que gosta e tem gente que não gosta. Particularmente, não é meu estilo de música favorito, não é o que eu coloco para tocar no carro, mas não tenho preconceito.
SM – Você acha mesmo que Valesca é uma pensadora?
AK – Sim. Ela é uma pensadora do funk, do ritmo dela. E algumas coisas que ela coloca têm a ver com a liberdade da mulher. Se as pessoas não concordam com a forma como ela diz isso, é outra história. Segundo Deleuze, aquele que cria um conceito é um pensador. Ela criou um conceito, portanto é uma pensadora, sim.
SM – O principal alvo de sua provocação foi a mídia. Por quê?
AK – A mídia tem um papel importante, que é o de trazer informação. Mas, por outro lado, é parte de um sistema que exige a vendagem, que se aproveita daquilo que pode vender. Ou seja, vive um dilema eterno entre o papel social que tem e o que será vendável. Vejo muitas críticas, por exemplo, a essa imprensa que vive à caça de fofocas sobre a família real, mas a mídia toda age da mesma maneira, só que não de forma assumida. Como se o que faz fosse algo mais sério, e não é. A imprensa de fofocas pelo menos assume que faz o que faz.
SM – Os blogueiros de direita só faltaram te amarrar a um poste virtual…
AK – Essa provocação foi feita exatamente para eles, porque, no fundo, eles têm preconceito com a escola pública. A escola pública é tão mal considerada quanto a Valesca e o funk. Para uma sociedade elitizada, que é quem estes blogueiros representam, ela não é considerada necessária.
SM – E a direção da escola, como reagiu?
AK – A direção me apoiou desde o primeiro momento. A secretaria de Educação, no começo, quando foi cobrada pelos veículos, me procurou pedindo explicações: “O que você vai fazer?” E eu disse: “Vou responder à mídia”. Depois que eu expliquei a proposta, creio que houve uma mudança na opinião pública e a secretaria também me apoiou.
SM – Percebe-se que o primeiro alvo dos que atacam a escola pública é o professor.
AK – E tem cada professor bom! Cada trabalho bem-feito! O que acontece é que o professor não é bom marqueteiro. É o ritmo dele. O professor normalmente pensa: “meu papel é educar, não fazer propaganda do que eu fiz”. Mas é uma categoria fantástica.
SM – Como você avalia a escola pública hoje?
AK – Tem melhorado, mas ainda está muito longe do que é necessário. Os governos precisam investir mais nas condições dos prédios, em segurança. A sociedade também precisa dar apoio, acreditar na escola pública. A classe média coloca seus filhos nas particulares porque elas dão mais oportunidades a seus filhos, mas o dia em que a classe média voltar para a escola pública e passar a cobrar, participar, ela também vai poder oferecer estas oportunidades. Melhorar a remuneração do professor também é importante, até para ele deixar de ouvir a frase: “Você é professor? Coitado!”
SM – Seus alunos também deram entrevistas estes dias, entraram no “circo da mídia”. Como é que você vai fazer para discutir este efeito colateral da provocação?
AK – (Risos) É, não vamos conseguir fugir de debater isso também.
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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Testemunha privilegiada

Por Gabriel Priolli

Amazonense radicado em São Paulo, o advogado Almino Afonso viveu o governo João Goulart do primeiro ao último dia. Foi líder na Câmara do partido do presidente, o PTB, ministro do Trabalho e da Previdência Social, aconselhou Jango em decisões importantes e testemunhou episódios centrais da história do País. Afonso recorda os momentos que antecederam ou se desenvolveram durante o golpe de 1964. Seu depoimento foi gravado no início de fevereiro, para o documentário Jango – Marcado para Cair, produzido por Paulo de Tarso Santos Filho. São observações de quem viveu um dos períodos mais conturbados da vida brasileira, no olho do furacão.

Golpe desde a posse

Num certo momento, após a renúncia de Jânio, o presidente João Goulart me telefona de Paris, vindo de Cingapura, no retorno da China. Queria saber como estava o quadro e revela o seguinte: “Eu recebi um telefonema do senador Afonso Arinos e do deputado San Tiago Dantas, informando de que há uma cogitação de, através do parlamentarismo, superar a crise e permitir que eu assuma como chefe de Estado. Qual a sua opinião?”

Eu disse: “Presidente, eu sou parlamentarista por formação doutrinária, mas neste momento é golpe de Estado. E, como golpe, eu não aceito”. Ele disse: “Bem, eu não estou assumindo nenhuma aceitação, mas gostaria que a bancada analisasse”.

No dia seguinte, no gabinete do presidente interino Ranieri Mazzilli, com a presença dos três ministros militares que queriam impedir a posse de Jango, somos convocados. Todos os líderes dos partidos, inclusive eu, um jovem líder do PTB. Eu me vi no dever de relatar o diálogo que tinha tido com o presidente. Ao meu lado estava o líder da UDN na Câmara, coronel Menezes Cortes, que se entusiasmou e transformou a conversa exploratória entre Arinos, San Tiago e Jango numa proposta. A detonação real do parlamentarismo nasce nesse episódio. Menezes Cortes ouve a narrativa que fiz e passa a defender a ideia com entusiasmo.

Eu me mantive na liderança do PTB até o último minuto. A esmagadora maioria do partido votou contra, mas, se a memória não me falha, 15 votaram a favor. Ou porque se consideravam parlamentaristas, ou porque eram mais amigos do presidente. Se Jango aceitou, votavam com ele. Mas o PTB, em sua maioria, ficou contra o parlamentarismo.

Aquilo era um golpe de Estado no sentido mais amplo. A Constituição de 1946 não permitia que uma emenda, alterando a ordem constitucional, fosse votada em clima de choque interno, ou de “convulsão intestina”, essa expressão curiosa.

O inimigo americano

A informação do quanto podia haver, comprovadamente, de participação dos Estados Unidos na articulação de um golpe vem num crescendo. Além daquela batalha campal de dizer que o presidente era comunista, e que influiu enormemente na coesão dos militares, foi a nossa política internacional que realmente passou a chocar os interesses americanos.

Há um momento em que os EUA descem para uma conferência em Punta del Este. Congresso da Organização dos Estados Americanos. O secretário de Estado americano propõe, formalmente, a expulsão de Cuba da OEA. Por quê? Ela tinha passado a ser um órgão comunista. Em nome disso, não podia continuar na OEA.

Quem faz a sustentação excepcional contra isso chama-se San Tiago Dantas. Nosso ministro das Relações Exteriores. Argumenta, demonstra juridicamente. Tudo o que você pode imaginar. E ganha. Os EUA perderam a batalha em Punta del Este. Você pode imaginar, para o orgulho americano, o quanto isso foi?

Há um segundo momento, na crise dos mísseis soviéticos incrustados na costa cubana, apontados em direção à Flórida. John Kennedy manda uma carta que não era um convite, era uma convocação para que o presidente do Brasil apoiasse a posição dos Estados Unidos – e invadíssemos Cuba com eles. Bom, o presidente reúne no seu gabinete. Ele chega com a carta do Kennedy, que tinha recebido do embaixador. Já trazia à mão anotações com a opinião dele. E houve uma tarde admirável de encontro político. Ao término, ficou deliberada a recusa.

Um governo desinformado

Na manhã de 31 de março, quando as tropas do general Olímpio Mourão Filho seguiam em direção ao Rio de Janeiro, desde lá de Juiz de Fora, eu fui à Câmara, em Brasília. A Câmara reunia-se habitualmente pela tarde e, com alguma frequência, à noite. Pela manhã, nunca. Portanto, havia algo estranho. Entrei numa das rodas. “Começou o golpe”, diziam uns. Outros, favoráveis, comemoravam: “Começou a Revolução”. Enfim, revelavam a marcha do general Mourão. Eu não sabia de nada.

O presidente estava no Rio, no Palácio das Laranjeiras. O senador Artur Virgílio Filho, que era líder do governo no Senado, ligou para ele. Eu fiquei ouvindo na extensão. “Presidente, está aqui o Almino, me contando o quadro que acaba de ouvir, a respeito da marcha do general Mourão. Como vou ter de falar necessariamente sobre esse assunto no Senado, estou lhe telefonando para pedir as suas instruções.” Responde o ilustre presidente João Goulart, ao meio-dia de 31 de março de 64. “Artur, isso tudo é fantasia da oposição. Ficam criando um quadro de alarme para ver se nos tiram do controle da situação. É um absurdo isso.”

Passava por ele o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar. O presidente o interpelou. “General, o senador Artur Virgílio acaba de me dizer alguma coisa sobre uma marcha de revoltosos. O que há disso?” Pergunta ao chefe de sua Casa Militar. Responde o general: “Presidente, não há nada. É um movimento de tropas rotineiro que se dá no Exército. Não há absolutamente nada”. Jango insiste: “General, não há nada?” Ele garante: “Nada, presidente, estou lhe dizendo”. Desligamos.

A Câmara não era mais um fervedouro. Era um comício. Um barulho, uma agitação. Eu entro numa roda e digo o que acabo de ouvir do presidente. Aí o deputado Carlos Murilo me tira da roda.

“Almino, se o presidente João Goulart está dizendo isso como uma forma de suavizar o clima de tensão, eu não sei se isso terá efeito. Agora, se ele está acreditando na verdade do que disse a vocês, está perdido. Porque, desde a madrugada de hoje, Belo Horizonte está em pé de guerra. O governador Magalhães Pinto já assumiu o comando da revolução. Isso é público desde a madrugada.”

Bom, seria injusto, leviano, dizer que o general Assis Brasil tenha de alguma maneira contribuído para um desfecho negativo do nosso governo. Seria uma acusação irresponsável. Mas que ele era de uma incompetência absoluta, isso eu posso dizer. Não saber ao meio-dia de um fato que vinha desde a madrugada é inacreditável. E o pior: o presidente João Goulart só foi formalmente comunicado da marcha do general Mourão às 6 da tarde do dia 31. Por um bilhete do ministro da Justiça, Abelardo Jurema.

Duas cusparadas cívicas

Na casa do deputado Bocayuva Cunha toca o telefone. Era uma das secretárias do senador Auro de Moura Andrade convocando para uma reunião extraordinária do Congresso, reunião conjunta da Câmara e do Senado. À 1h30 da manhã de 2 de abril. Não seria para loas, certamente.

Na hora da sessão, Moura Andrade começa um discursinho horroroso, de poucas linhas, depois publicado em toda parte. “Todo mundo sabe que o senhor presidente da República, já a esta altura,tendo deixado Brasília, na verdade deixou o governo acéfalo. Portanto, eu me sinto no dever de, neste instante, declarar vago o cargo de presidente da República. E que o senhor Ranieri Mazzilli, na qualidade de presidente da Câmara, assuma em caráter interino a Presidência da República. Está encerrada a sessão.”

Aí vou contar duas coisas admiráveis. Tancredo Neves, baixinho, normalmente suave, levantou e disse: “Canalha! Canalha!” Com essa voz! E o deputado Rogê Ferreira, um líder socialista, hercúleo, atlético, vai até a escadinha da mesa. Moura Andrade vinha descendo, cercado de guardas, uma segurança maior que a habitual. O Rogê mete os cotovelos, consegue abrir espaço naquela guarda e dá duas cusparadas no Moura Andrade. Que eu chamo de público, já disse muitas vezes, “duas cusparadas cívicas”.

Imprensa em campanha

Com a exceção honrosa da Última Hora, todos os jornais tiveram uma atitude de bloqueio a respeito do presidente João Goulart. Até para justificar a atitude deles próprios, que tramaram e ajudaram o golpe. Trataram de obscurecer inteiramente tudo quanto pudesse de algum modo significar algo favorável ao presidente. Houve certo instante em que o deputado Bilac Pinto, da UDN, passou a fazer sistematicamente discursos na Câmara, com a acusação de que o presidente estava armando a chamada “Campanha Revolucionária”. Para quem conhecesse o presidente, imaginar ele próprio assumindo uma ação desse tipo era tão fora de propósito. Mas Bilac Pinto insistia.

Estou convencido de que técnicos de ação revolucionária o ensinaram a fazer esses discursos. Não acredito que ele, o jurista que era, sequer soubesse dos dados com que argumentou. Mas o importante é que os principais jornais de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, do Recife, estampavam o assunto nas manchetes. “Deputado Bilac Pinto denuncia o golpe de João Goulart”, “Bilac Pinto mostra onde o presidente está armando a Revolução”.

Todos os jornais, fora a Última Hora. Manchete! Manchete!

Eu diria que foi antidemocrático. Profundamente. Porque, quando você deforma a verdade, você desserve à história e ao País. Isso hoje eu digo da maneira mais clara.

A verdade enjaulada

Vladimir Safátle

A mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, a violência da inexistência. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se trata apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que afirma que nada existiu, que a violência não deixou traços e indignação. Neste exato momento, o Brasil é vítima, mais uma vez, dessa forma mais brutal de violência.

Talvez ninguém esperasse que, em 2014, 50 anos após o golpe militar, estaríamos em um embate para saber se, no fim das contas, existiu ou não uma ditadura no País, com todas as suas letras. Era de se esperar que neste momento histórico estivéssemos a ler cartas abertas das Forças Armadas com pedidos de perdão por terem protagonizado um dos momentos mais infames da história brasileira, cartas de desculpas de grupos empresariais que financiaram fartamente casas de torturas e operações de crimes contra a humanidade. Todos esses atores não se veem, no entanto, obrigados a um mínimo mea-culpa.

Há de se perguntar como chegamos a esse ponto. Uma resposta-padrão consiste em dizer que os setores progressistas da sociedade brasileira não tiveram força suficiente para impor aos governos exigências de dever de memória e justiça de transição. A história brasileira recente é, em larga medida, uma história de transformações abortadas.

Já a luta pela anistia foi abortada quando o regime militar conseguiu impor sua própria lei da anistia, que livrava os funcionários de Estado responsáveis por crimes contra a humanidade, isso enquanto ainda deixava na cadeia integrantes da luta armada que participaram de assaltos a bancos e ações com mortes. Àqueles que têm o despudor de afirmar que a lei da anistia foi fruto de acordo nacional, devemos lembrar que a votação que aprovou a referida legislação no Congresso Nacional foi de 206 votos a favor e 201 contrários, sendo os votos favoráveis saídos todos das fileiras do então partido governista (a Arena). Faz parte das ditaduras a criação de uma novilíngua, na qual os termos ganham sentidos contrários. No Brasil, a imposição da sua vontade por meio da coerção é chamada de “acordo”.

Depois, a luta por eleições diretas para presidente da República foi abortada em famosa votação no Congresso, o afastamento de líderes ligados ao regime militar foi abortado com a elevação de José Sarney à Presidência do Brasil, seguido de Fernando Collor. Em todos esses processos não foi a sociedade brasileira que se mostrou fraca, mas o poder que se demonstrou suficientemente astuto para se perpetuar sob o manto da transformação. Falamos de uma ditadura que conseguiu permanecer no governo mesmo depois de seu fim, graças a uma manobra transformista que alçou o então PFL a fiador da República.

Da mesma forma, as Forças Armadas conseguiram criar a ilusão de ser um ator que deveria ser deixado em paz, sob o risco de maiores instabilidades institucionais. Essa lógica levou os primeiros governos realmente pós-ditadura (Fernando Henrique Cardoso e Lula) a nunca adotar uma política efetiva de criminalização da ditadura. Assim, chegamos em 2014 sem um torturador punido, sem um general obrigado a reconhecer a experiência terrível dos anos de chumbo.

Dentro desse quadro desolador, o governo Dilma Rousseff resolveu criar uma Comissão da Verdade, que deve entregar o relatório de suas atividades ainda neste ano. Composta de alguns nomes de inquestionável valor e dedicação, indivíduos com largo histórico de defesa dos direitos humanos e intervenções na mídia em favor de uma política efetiva de memória, a comissão teve condições mínimas de trabalho.

Dos sete integrantes iniciais, ela agora funciona com cinco. Mesmo ao levantar novos dados, principalmente a respeito da repressão no campo e contra indígenas, ela não conseguiu mobilizar a opinião pública, talvez por ter preferido não divulgar parcialmente resultados ou encaminhá-los diretamente às cortes internacionais de Justiça (pois as cortes brasileiras estão açodadas devido à decisão canalha do Supremo Tribunal Federal a respeito da perpetuação das leituras correntes a respeito da lei da anistia). Caso tivesse optado pela ampla divulgação e enviado os resultados às cortes internacionais, uma situação jurídica nova teria sido criada e obrigaria o governo a sair de sua política de minimização de conflitos. Foi graças a uma intervenção exterior, lembremos, que o Chile conseguiu, enfim, começar a enfrentar a brutalidade de seu passado. Se Augusto Pinochet não tivesse sido preso na Inglaterra por causa de um pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, há de se imaginar que o Chile estaria em situação muito diferente.

A Comissão da Verdade brasileira deveria assumir experiências de outras comissões e, ao menos, desenvolver um procedimento parecido àquele aplicado na África do Sul. Nesse caso, antigos funcionários do apartheid tiveram seus crimes perdoados se os confessassem abertamente diante das vítimas ou familiares das vítimas, pedindo publicamente perdão. Certamente, no Brasil, algo dessa natureza teria, neste momento, grande força, certamente muito maior do que aquela que o procedimento demonstrou na própria África do Sul. Pois, entre nós, o verdadeiro problema é interromper, de uma vez por todas, a violência produzida pela tentativa de jogar o sofrimento social do período militar à condição de inexistência.

Creio ser útil partilhar um fato pessoal. Depois de escrever um artigo a respeito da tendência de negação predominante em parte de nossa historiografia recente, com seu desejo de apagar os traços da ditadura, recebi uma mensagem singela de alguém que dizia que a ditadura não existiu para ele, cidadão ordeiro e trabalhador. Ela existiu apenas para os indivíduos que queriam transformar este país em uma nova União Soviética. Eu diria que ele tem razão. De fato, a ditadura não existiu para ele, pois esse senhor, como vários outros, fez parte da ditadura. Não haveria ditadura sem cidadãos como este, que hoje não temem em demonstrar claramente suas escolhas.

Não há ditadura sem um conjunto de “carrascos voluntários”, que, mesmo não trabalhando diretamente nos aparatos repressivos, atua indiretamente no suporte e na reprodução das justificativas de suas ações. Há de se apontar para os carrascos voluntários da ditadura brasileira. Por isso, o País nunca conseguirá encerrar o legado ditatorial sem um processo de culpabilização coletiva. Quem votou na Arena foi um carrasco voluntário da ditadura e há de se tratar tais indivíduos dessa forma. Muito mais gente deveria estar no banco dos réus. Pois devemos lembrar, mais uma vez: só há perdão quando há, do outro lado, reconhecimento do crime. Você não pode perdoar o que não existiu. Então, se para certas parcelas da população, a ditadura não existiu, não há razão alguma para perdoá-los. O Brasil segue e seguirá em conflito, como quem vive uma história em suspenso.

Jornalismo golpista

Por Juremir Machado da Silva

No Brasil, 1964 pode ser descrito como o ano da imprensa colaboracionista. Os intelectuais jornalistas traíram o compromisso com a verdade e com a independência por desinformação, conservadorismo e ideologia. Alberto Dines, Antonio Callado e Carlos Heitor Cony ajudaram a derrubar Jango. O poeta Carlos Drummond de Andrade sujou as mãos com algumas mal traçadas crônicas destinadas, pós-golpe, a chutar cachorro morto. Em 1954, a mesma imprensa havia empurrado Getúlio Vargas ao suicídio. Nas únicas três vezes em que o Brasil teve governos do centro para a esquerda – 1951-1954, 1961-1964 e 2003 até hoje –, a mídia aliou-se aos mais conservadores ao agitar os mesmos espantalhos: corrupção, anarquia, desgoverno, aparelhamento do Estado, tentações comunistas e outras ficções mais ou menos inverossímeis.

Em 1964, João Goulart, fervido no caldo borbulhante da Guerra Fria, enfrentou a ira moralista de veículos como o Correio da Manhã,Jornal do Brasil, O Globo, O Estado de S. Paulo,Folha de S.Paulo, Tribuna da Imprensa, O Dia e dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. A queda de Jango começou a se definir em 13 de março, uma sexta-feira. O presidente cometeu o pecado de abraçar a reforma agrária e de encampar as refinarias de petróleo. A reação conservadora pôs nas ruas as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Consumado o golpe, o diretor de O Estado de S. Paulo, Julio de Mesquita, não se constrangeu em publicar, em 12 de abril de 1964, o “roteiro da revolução”, que ajudara a preparar com auxílio do professor Vicente Rao, em 1962.

O patriarca da imprensa golpista clamava pelo fechamento do Congresso Nacional e das assembleias legislativas. “Há mais ou menos dois anos, o Dr. Júlio de Mesquita Filho, instado por altas patentes das Forças Armadas a dar a sua opinião sobre o que se deveria fazer caso fosse vitoriosa a conspiração que então já se iniciara contra o regime do Sr. João Goulart, enviou-lhes em resposta a seguinte carta...” Sugeria a suspensão do habeas corpus, um expurgo no Judiciário e a extinção dos mandatos dos prefeitos e governadores. A solução “democrática” contra o governo de Jango seria uma junta militar instalada no poder por, no mínimo, cinco anos.

A “Mensagem ao Congresso”, enviada por Jango em 15 de março, detonou o horror na imprensa golpista. O confronto com os marinheiros reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, em 25 de março, deu nova e poderosa munição para o golpismo midiático: as Forças Armadas estariam minadas pela indisciplina. Os marinheiros da base da hierarquia tinham reivindicações subversivas, entre elas... o direito ao casamento. A mídia considerava tudo isso muito radical. Em 30 de março, Jango compareceu ao encontro dos sargentos no Automóvel Clube do Rio. Foi a senha para o autodenominado “vaca fardada”, o general Olympio Mourão Filho, dar o seu coice mortal, marchando com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio. A mídia exultou.

O golpe partiu de Minas sob a liderança civil do governador Magalhães Pinto. Alberto Dines, hoje decano dos críticos de mídia e pregador de moral e cívica no seu Observatório da Imprensa, brindou o governador, no livro que organizou e publicou ainda em 1964 para tecer loas ao golpismo – Os Idos de Março e a Queda em Abril –, com o mais alto elogio disponível na época, um cumprimento aos colhões do pacato golpista: “Enfim, apareceu um homem para dar o primeiro passo. Este homem é o mais tranquilo, o mais sereno de todos os que estão na cena política. Magalhães Pinto, sem muitos arroubos, redimiu os brasileiros da pecha de impotentes”.

O Correio da Manhã deveria constar no livro dos recordes como o mais rápido caso de arrependimento da história do jornalismo. Em 31 de março e 1º de abril de 1964, golpeava furiosamente. No editorial “Basta!”, decretava: “O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta”. De quê? “Basta de farsa. Basta da guerra psicológica que o próprio governo desencadeou com o objetivo de convulsionar o país e levar avante a sua política continuísta. Basta de demagogia para que, realmente, se possam fazer as reformas de base”.

O jornal iludia-se como uma senhora de classe média desinformada: “Queremos as reformas de base votadas pelo Congresso. Queremos a intocabilidade das liberdades democráticas. Queremos a realização das eleições em 1965. A nação não admite nem golpe nem contragolpe”. No editorial “Fora!”, saiu do armário: “Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: 'Saia!”' Veredicto: “João Goulart iniciou a sedição no país”. E mais: “A nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor”. Como poderia de um golpe vir um “legítimo sucessor”? Mistérios do jornalismo: “Hoje, como ontem, queremos preservar a Constituição. O Sr. João Goulart deve entregar o Governo ao seu sucessor porque não pode mais governar o País”.

Os grandes jornais paulistas e cariocas atolaram-se com o mesmo entusiasmo. Apoiaram o golpe e a ditadura. AFolha de S.Paulo ficou famosa por emprestar suas caminhonetes para a Operação Bandeirantes transportar “subversivos” para o tronco. Em 22 de setembro de 1971, o jornal de Octavio Frias tecia em editorial o seu mais ditirâmbico elogio ao pior momento da ditadura: "Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social, realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama".

Esse apoio explícito da Folha de S.Paulo ao governo de Emílio Garrastazu Médici ganha nesse editorial um tom de confissão apaixonada: “Um país, enfim, de onde a subversão – que se alimenta do ódio e cultiva a violência – está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear”. Em 2009, a Folha de S.Paulo chamou a ditadura de “ditabranda”. O arrependimento nunca chegou.

O Globo, em editorial de 2 de abril de 1964, notabilizou-se pela bajulação surrealista: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem”. Em 7 de outubro de 1984, nos 20 anos do regime, Roberto Marinho reincidiu: “Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Só 49 anos depois do golpe, O Globo publicaria uma retratação contraditória e pouco convincente. Assim foi com outro representante do jornalismo carioca. Em 31 de março de 1973, o Jornal do Brasil comemorava: “Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer”.

Em 2 de abril de 1964, a Tribuna da Imprensa deu em manchete uma lição do mau jornalismo que sempre a distinguiu: “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas”.

Se os jornais apoiaram o golpe e a ditadura, muitos intelectuais jornalistas marcharam na linha de frente do golpismo. Cony, que logo percebeu o tamanho da encrenca e passou a criticar o novo regime, admitiu ter participado da confecção dos editoriais “Basta” e “Fora” do Correio da Manhã: “Minha participação limitou-se a cortar um parágrafo e acrescentar uma pequena frase”. Quanta modéstia retrospectiva! Para Cony, João Goulart era um “homem completamente despreparado para qualquer cargo público, fraco, pusilânime e, sobretudo, raiando os extensos limites do analfabetismo”.

Dines vomitaria uma das maiores asneiras da época: “É preciso muita convicção para não se enredar pelo glamour de uma façanha esquerdista. Quem tem coragem para dizer que aqueles marinheiros, que arriscaram a vida com aquele motim por uma causa tão distante e abstrata, como reformas de base, eram oportunistas e agitadores”. Entre as causas distantes e abstratas defendidas naqueles tempos estavam o direito ao casamento e ao voto para os analfabetos. Em 1968, depois do AI-5, em discurso numa formatura, Dines criticou a censura. Enrolou-se com os velhos amigos. O Serviço Nacional de Informações forneceu-lhe um atestado de bons antecedentes descoberto pelo pesquisador Álvaro Larangeira: “Sempre se manifestou contrário ao regime comunista. Colaborou com o governo revolucionário, escrevendo livro sobre a revolução e orientou feitura de cadernos para difundir objetivos da revolução”. Não foi denunciado. Perdoou-se o deslize.

Callado faz de Jango um bêbado, incompetente e inculto, casado com uma mulher fútil, e com um vício terrível, “o de aumentar o salário mínimo”. O futuro escritor atrapalhava-se com as palavras: “A Presidência da República foi transformada numa espécie de grande Ministério do Trabalho, com a preocupação constante do salário mínimo”. Chafurdava na maledicência: “Ao que se sabe, muitos cirurgiões lhe garantiram, através dos anos, que poderia corrigir o defeito que tem na perna esquerda. Mas o horror à ideia de dor física fez com que Jango jamais considerasse a sério o conselho. Talvez por isso tenha cometido o seu suicídio indolor na Páscoa”. Raízes de certo jornalismo de nossos dias.

Juremir Machado da Silva é jornalista e autor de 1964, Golpe Midiático-Civil-Militar

http://www.cartacapital.com.br/revista/793/jornalismo-golpista-1057.html