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segunda-feira, 29 de junho de 2015

A #partidA

por Isabela Fraga

A formação da #partidA, um partido feminista que pretende se embrenhar nas fissuras da política e torná-la democrática de fato. Conversamos com a filósofa Marcia Tiburi, uma das pensadoras do movimento, para entender: faz sentido misturar o feminismo nas práticas de governo tradicionais? Por quê?
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Isabela Fraga - Qual o lugar da #partidA como um partido em meio à crise da representação partidária?

Márcia Tiburi - Eu entendo que existem muitos afetos em jogo na política hoje em dia. E a política sempre foi construída na base de afetos, embora ela apareça para as pessoas como se uma construção puramente lógica, racional e estratégica. É claro que o caráter lógico e estratégico permeia os processos, mas a #partidA surge propondo outro afeto político, na contramão do afeto que sustenta, por exemplo, a estrutura autoritária na qual a gente vive e que faz parte da própria história do Brasil, que tem uma história bastante autoritária, escravocrata e cheia de ditaduras. O afeto que permeia o autoritarismo brasileiro é o ódio, que em certas épocas cresce e aparece com muita força. É o rechaço do outro, a negação do outro, a incapacidade de incluir o outro. Esse ódio sempre esteve latente, e eu acredito até que ele seja de fato estrutural da ordem política conhecida no Brasil e no mundo. Por isso, quando a #partidA surge, é movida por esse afeto "revolucionário" — entre aspas, porque não pretendemos destruir nem colocar uma outra estrutura em cena — digamos assim, trocar um poder por outro. O que eu vejo é que a gente transforma a ideia de partido numa outra coisa, a gente ressignifica a ideia de partido. E colocamos no lugar do termo poder — na história do patriarcado, da dominação masculina — a potência. Certo, vivemos numa crise de representação, mas, para as mulheres, essa crise sempre existiu. As mulheres nunca foram representadas na política. E, junto com as mulheres, todos os grupos oprimidos, toda uma população que deveria ser cidadã e que foi alienada dos seus direitos de cidadania. Chamar de feminismo já quer dizer que não somos tradicionais.

IF - Justificativas de teor moral são muito mencionadas por quem prefere se manter fora da política tradicional, que seria "suja" e corrupta — como você mesma diz algumas vezes. Quais os problemas dessa visão? A #partidA (ou, melhor, as mulheres até agora envolvidas) não vê problemas em sujar as mãos ou não há sujeira de fato?

MT - Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica cujo discurso há muito tempo é: o poder corrompe, o poder é ruim, a política é um campo minado e um lugar terrível para se estar. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem? Serve a quem está no poder. E, no caso, o nome concreto do poder que está em jogo hoje e no qual a #partidA quer intervir é o poder enquanto governo. Por isso nós precisamos da forma "partido". Só que, por ser um partido feminista, ele já não é um partido como os outros — porque um partido feminista não é como os outros. Os valores, as práticas, os direitos desejados pelas mulheres são bastante diferentes dos valores, das práticas e dos modos de existir dos partidos tradicionais. Existem muitas pessoas ligadas à #partidA que convivem com instituições — seja algum partido de fato, universidades, poder judiciário ou a mídia. E essas pessoas não têm medo de viver em instituições. O partido é apenas mais uma instituição que deve nos servir como meio, e não como fim. Nisso, encontramos uma coisa muito bonita da #partidA: a ético-política feminista, um conceito que eu defendo teoricamente. E isso muda tudo, porque assim como as pessoas têm preconceito em relação a partidos, a esse "sujar as mãos", pensam que a forma partido é a forma que fomenta essa corrupção toda. Não precisa ser assim, e é por isso que nós almejamos uma bancada feminista. E almejamos a forma partido, mesmo que nós não venhamos a formalizar formalizar a #partidA — porque é possível que a nossa #partidA se mantenha como movimento, como já é. Pode ser que nós não formalizemos um partido porque talvez nós não precisemos da forma partido burocratizada e inscrita no TRE. Mas o que queremos é funcionar como um partido, pois o nosso movimento quer atingir a governalidade. Assim, propomos radicalmente uma democracia feminista, porque não acreditamos na existência de uma democracia que não contemple uma pauta, um projeto feminista. Gosto de citar a Mary Wollstonecraft, que no século XVIII brigava com Rousseau. Ela falava que o feminismo é uma luta pelos direitos da humanidade. Se a humanidade é de homens e as mulheres participam dela, então está errado. Queremos um feminismo que inclua todas as pessoas e singularidades. É por isso que a gente expande, aumenta, recria o feminismo — uma busca por singularidades, por uma democracia que, como escrevi esses dias, é uma democracia hard, não é a democracia de fachada.

IF - Mas se a #partidA não se transformar num partido formalizado, como intervir no governo?

MT -Uma das ideias que transitam hoje em certos grupos, sobretudo aqui em São Paulo (vamos ver como isso vai se constituir nas outras cidades), é que a gente apoie candidatos de outros partidos. A proposta da #partidA é empoderar mulheres e todos aqueles sujeitos que se reconhecem como mulheres e que desejam fazer política feminista. E também quem que não se diz mulher, mas que é feminista. Acreditamos também no feminismo dos homens — ele é mais complicado e precisa ser mais elaborado, inscrito dentro de um contexto. Hoje, vivemos num contexto de cotas para mulheres. Na nossa #partidA, teremos cotas para homens (risos). Brincando, mas também falando sério: é importante que os sujeitos dos privilégios na nossa cultura atual tenham a experiência das cotas. É provável que a gente não seja um partido formalizado para as próximas eleições. Mas a ideia é que a gente crie uma campanha — na minha cabeça, vamos ter todas as prefeitas do Brasil, as vereadoras etc. A gente quer a eleição, é nesse patamar de luta que a gente vai se inserir.
IF - Para superar a questão da uniformidade necessária ao conceito de partido, Carla Rodrigues, no blog do IMS, propõe que o referencial da partidA seja vazio. Como você entende essa proposta? Como levar isso para a construção do partido neste momento de sua formação?

Márcia Tiburi - foto de Pedro Silveira
MT - Eu entendi que o referencial vazio é um espaço de criação da política. Acho que esse referencial vazio tem a ver com a potência de construção de uma nova história, de um novo — seja histórico, filosófico, do pensamento, político. Estamos construindo uma nova política real, concreta, hard. Então, ao mesmo tempo que a #partidA é um nome de acolhida, ela é um "lançar", o #partiu. Partir rumo a uma aventura, no sentido de uma viagem, de explorar novas terras, o espaço desconhecido. Esse campo da política, tratado hoje em dia como uma selva cheia de monstros, é o espaço que a gente precisa atingir de maneira lendária. Entendo a #partidA como naqueles filmes de aventura, nos quais as pessoas vão para um lugar desconhecido. #partidA já virou o referencial, porque grafamos a hashtag que faz referência ao #partiu, e o A representa uma inversão, uma brincadeira. A gente leva tudo muito a sério, mas é num clima de criação.

IF - Na Suécia, a Feminist Intitiative foi o primeiro partido feminista europeu a conseguir um assento no parlamento. Em maio deste ano, a Inglaterra oficializou seu primeiro partido feminista. Também há partidos feministas na Índia e nas Filipinas. Como a partidA se insere nesse cenário global? Quais as influências e inspirações?

MT - Não teve essa influência direta. Eu sou muito brasileira e muito ligada no que acontece no Brasil. É claro que está todo mundo sentindo uma emoção radical desde 2013, desde os acontecimentos no Egito e na Grécia, tudo isso pegou muito a gente. Mas não há uma influência mais direta e estratégica. A #partidA é bem brasileiro, algo que vai ser construído do nosso jeito.

IF - Num congresso brasileiro de conservadorismo inédito como o de hoje (assim como a população que o elegeu, em sua maior parte contrária à regulação do aborto), no qual pautas retrógradas têm ganhado cada vez mais espaço, como um partido feminista pode ganhar força?

MT - Isso vai acontecer primeiramente em um nível de movimento — as coisas não são de um dia para o outro. E o Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada "BBB" [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-político feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.

IF - Muitos mencionam as disputas internas do feminismo como um problema na formação de uma organização "única". A jornalista Yvonne Roberts disse no The Observer que "Uma aliança política de mulheres seria instável e eventualmente implodiria". Alguns partidos feministas pelo mundo de fato tiveram vidas curtas (como a Austrália, Belarússia e Islândia). Como fazer durar a #partidA no jogo da política tradicional?

MT - Isso precisa ser entendido dentro da história, da circunstância política de cada país. No caso do Brasil, também vamos precisar pensar. Qual a característica do poder patriarcal, do poder enquanto dominação masculina? A permanência no poder. O poder quer mais poder. O nosso poder é potência, é poder para fazer, para transformar — que vai servir à transformação da sociedade. Nesse sentido, se o partido realizar seu projeto e depois deixar de existir, eu não vejo mal algum. Ao mesmo tempo, enquanto as condições históricas que o obrigaram a existir não se transformarem, nós vamos querer continuar existindo. Nosso sonho é uma sociedade em que não exista mais autoritarismo, onde os direitos de todas as pessoas estejam realizados e que a gente não precise mais viver em luta. É claro que isso é uma utopia. Assim, em termos muito práticos, vamos precisar reproduzir nossa metodologia de atuação celular nesta construção da #partidA. Não podemos atuar como partidos atuam, de cima para baixo. Precisamos construir de maneira participativa e criativa as nossas demandas e decisões. Conversar com as pessoas, reconhecer as demandas singulares e coletivas num clima de sinceridade e respeito. Acreditamos de verdade que vamos crescer e avançar com uma operação política diferente, porque é dialógica. Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único — ele sempre foi diverso e complexo. Então não existe um feminismo que tenha mais razão do que o outro. Para mim, o feminismo é essa construção dessa diferença. O pensamento único tende ao autoritarismo, e o feminismo nunca poderia ser um autoritarismo.

IF - E vocês pensam em se identificar com uma esquerda ou com uma direita ou isso não é importante?

MT - Isso é muito importante, tanto quanto é desimportante. Os feminismos e a democracia feminista é uma superação da dicotomia direita-esquerda. Nós somos a superação disso. Como? A direita não reconhece a existência do feminismo. A esquerda também é conservadora perto do feminismo. Por isso eu costumo dizer que o feminismo é ainda mais à esquerda, mas na verdade ele é uma superação dessa dicotomia. Os partidos ainda acreditam que as mulheres possam estar ali na forma de cotas, que elas possam fazer o feminismo da mesma forma subalterna, secundária e inessencial em relação ao que significa a proposta socialista, por exemplo, no caso da esquerda. Então a gente não tem nenhum partido de esquerda que seja feminista. Pois nós teremos uma #partidA feminista de maneira essencial, prioritária e fundamental. E as questões concernentes aos direitos humanos, à solidariedade, à defesa das pautas do campo da esquerda, tudo isso entra no nosso feminismo. Mas numa inversão do jogo, o que é fundamental. Eu sou filiada ao PSOL, adoro as pessoas e as propostas, mas não é suficiente para aquilo que eu penso em termos de política. Em se propor feminista, a #partidA propõe um lugar de protagonismo das mulheres, próprio do feminismo em sua história.

IF - Como têm sido os encontros da #partidA até agora?

MT - Na verdade, ainda estamos no começo das nossas reuniões. Só tivemos três até agora, e o número de pessoas que aparecem nos encontros têm aumentado. As pessoas têm chegado na partidA com muita curiosidade, alegria e muito comprometimento. O desejo de fazer é muito emocionante. Uma coisa muito bonita que tem acontecido é o diálogo entre as gerações: feministas históricas e meninas mais novas que estão começando, é lindo.

http://vozerio.org.br/A-partidA-uma-aventura-feminista

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O maniqueísmo de um julgamento pobre

por Ricardo Cascais

Um dia desses Otto Lara Resende, uma das poucas cabeças livres desse País que escreve para jornais, disse estar cansado desse mundo maniqueísta, onde tudo e todos, para efeitos de publicação, têm que ter um carimbo. Bonito ou feio, bom ou mau, como se a vida e os seres humanos, fossem simples assim. Maniqueísta e simplificado, para facilitar o entendimento dos que compram opinião, que é muito diferente do que comprar informação. E fica assim, ou você esta alinhado com o politicamente correto, ou não tem vez. Eu, por exemplo, ainda nem sei se aceito casamentos homossexuais, mas não tenho nem coragem de falar das minhas dúvidas, com medo de ser linchado.

Assisto ao julgamento do século no STF, ouço o Procurador geral, os advogados, mas fico na dúvida se realmente está mais empolgante do que era Leopoldo Heitor na tribuna, se está mais interessante do que o julgamento do Doca Street, no caso Angela Diniz. Pode ser.

A cobertura da imprensa está pré-definida e as opiniões, como parece que os votos, tambem já estão carimbados.

A mídia já decidiu, ou os ministros condenam os mensaleiros, ou a mídia condena o Supremo.

O Presidente FHC, do alto do seu prêmio de um milhão de dólares, já disse que se convenceu que todos têm que ser condenados, pelo que ele ouviu do Procurador geral, esquecido da compra de votos da sua reeleição, aquela que deu na renúncia do Ronie Von, não o cantor, mas o Santiago. Esqueceu que o seu Zé Dirceu atendia pelo nome de Sergio Motta e que o seu Procurador engavetava tudo, inclusive isso.

Do outro lado Lula manda publicar a oportuna pesquisa que mostra que ele ou Dilma ganham fácil de quem vier pela frente, sabedor que mais forte que o poder só a perspectiva de poder. Nada mais próprio na véspera de um julgamento como esse.

O ilustre Procurador, com seu discurso sem graça, que parecia discurso de formatura de colegial citando Chico Buarque, jura que se convenceu que foi o Dirceu que fez tudo, mas não fala como se convenceu que o Lula não sabia de nada.

Hipocrisia por hipocrisia, a verdade é que o advogado do Dirceu nem gastou todo o tempo, para nos dar saudade dos grandes tribunos. Nem precisava. Quem defendeu melhor o Dirceu foi mesmo o Procurador, que declarou, repetiu e enfatizou que não tem provas, só o testemunho do Roberto Jeferson. Ora, a valer esse raciocínio, chama o Marconi Perillo, que disse lá atrás que o Lula sabia, se bem que agora ele já deve estar muito arrependido do que falou. O que o Procurador quer nos dizer é que se pode condenar como assassino, num homicídio, alguém que não estava na cena do crime, ou dos autos, porque há uma testemunha que assim o diz, ainda que sem provas. IN DUBIO, PRO REU. IN DELÚBIO,PRO DIRCEU.

Eu ate já acredito que foi mesmo o maquiavelico Zé Dirceu quem indicou Gurgel para procurador-geral. Ele já conhecia seu grau de competência.

Mas continuo na dúvida, se Gurgel disse que era entre quatro paredes, de dentro do palácio, que a trama foi urdida, e se ele tem essa convicção mesmo afirmando não ter provas, como pode saber que o chefe da quadrilha estava no quarto andar, onde fica a Casa Civil, e não no terceiro, onde Lula reinou soberano por oito anos???

Não consta dos autos nem uma escutinha telefônica para tirar a duvida? E se Jefferson dissesse como o Marconi, que o Lula sabia, será que o probo procurador pediria com a mesma convicção a condenação do ex-presidente? Será que ele teria essa coragem? E porque nenhum advogado, nem nenhum ministro do Supremo, perguntou isso a ele

Seria o mesmo que Carlos Lacerda acusar Tancredo, o então ministro da justiça, e não Getúlio Vargas, pelo crime da rua Toneleros. Convenhamos, Lacerda ia mais direto ao assunto, era mais corajoso e mais lógico que o Jô Soares de Brasília. Se os Americanos tivessem um Gurgel teriam evitado o impeachement do Nixon e condenado um chefe da Casa Civil que nenhum de nós sabe o nome.

Leio os jornais, desesperançado, e não vejo ninguém falando que o relator desse processo, que pediu sua nomeação para Frei Beto num fortuito encontro de aeroporto, deseja presidir o Supremo como justiceiro para depois ser o primeiro presidente negro da nossa história, uma espécie de Obama sem Michelle. E ninguém fala que o atual presidente da nossa suprema corte fez uma exposição de suas poesias no hall do STF, dando as suas rimas pobres pelo menos a leitura obrigatória de seus súditos, para agora aventurar-se numa possível eleição para Senador pelo Sergipe.

Vaidades, vaidades. Enquanto isso, alguns apavorados ministros de verdade tentam entender as provas exigidas no devido processo legal, com um olho nos autos e o outro nas ruas, nesse teatro de encenações duvidosas.

Teria sido mais simples, Dirceu ter recebido o doutor Antonio Fernado de Souza,pois se é verdade o chá de cadeira, poderá ser o mais caro da história do Pais.

E a Globo, que com essa cobertura queria derrubar as olimpíadas da Record, já percebeu que a audiência dessa novela de mau gosto está longe disso.

Como sabe Otto Lara Resende, ninguém é tão bom ou tão mau quanto parece, ninguém tem toda a razão, e se o mundo maniqueísta já é chato, imagina o maniqueísmo misturado com a hipocrisia dos midiáticos, na voz de oradores monocórdios, sem estilo e sem emoção, de acusadores sem convicção e de defensores sem a indignação dos inocentes.

O Direito fica menor sem doutrinas, os processos sem as provas, as tribunas sem oradores, a justiça sem a isenção própria da Deusa que, de olhos vendados, basta-se do que esta no interior das peças ,cega aos interesses externos das circunstâncias.

Ricardo Cascais é uma eminência parda da política brasileira

domingo, 8 de julho de 2012

Os políticos vêm de Marte?

Pro Renato Janine Ribeiro

Uma coisa que me incomoda na discussão política brasileira, especialmente a mais popular: até parece, quando se fala de mazelas e malfeitos, que nada temos a ver com os políticos que nós mesmos elegemos. Parece que eles desembarcaram de Marte. Não nos responsabilizamos pelo que fazem (outra coisa de que não gosto é a dificuldade de respeitar o outro, geralmente tratado, mesmo nas falas de pessoas com educação mais formal, como se fosse idiota ou patife).

Ora, o fato é que daqui a poucos meses completaremos 30 anos de eleições seguidas e livres. Em 1982, os brasileiros puderam eleger governadores de oposição, isto é: puderam votar. O país tinha sido privado do voto livre desde 1965, quando ocorreram, embora tuteladas, as últimas eleições para governador de Estado. Na década de 70, as principais prefeituras, centenas na verdade, se tornaram cargos de nomeação da ditadura. Quase nada restou para o voto. Mas, agora, são já três décadas de escolha livre, cada vez mais limpa, dos governantes. Ninguém decide impostos ou penas de prisão se não tiver sido eleito por nós. 

A democracia de 1985, aliás, foi além da instituída em 1946, porque permitiu o voto do analfabeto, liberou os partidos comunistas e, com o voto eletrônico e a propaganda na TV, fez despencar a fraude e a influência do coronelismo. Então, por que teimamos em renegar nossa responsabilidade na escolha de maus políticos?
Um sinal claro desta atitude é o uso do pronome "eles", na verdade subentendido, nem sequer mencionado. Não dizemos: a prefeitura mudou a mão de direção desta rua. Dizemos: "mudaram" a mão de direção. A ação é como se não tivesse sujeito. Quem fez? Quem mudou? Quem mandou, quem manda? Não sei. "Eles". Mas o pior é que nem digo "eles". Apenas conjugo o verbo: "proibiram", "ordenaram". Abrimos completamente mão da escolha. Não somos nós quem escolhe ou manda. Mas, muito pior que isso: nem sabemos quem manda, quem ordena ou proíbe.

O sujeito oculto oculta o governo e o eleitor
Na verdade, pior ainda: nem fazemos questão de identificar quem manda. Preferimos fingir que é alguém vago, sem identidade. Em tempos passados, usaríamos o agente da passiva, o final "-se": proibiu-se, mandou-se. Ele deixa indeterminado o sujeito. Mas hoje, no Brasil, o "-se" caiu em desuso. No seu lugar, usamos a terceira pessoa do plural - a mais anônima das pessoas do discurso. Eu, tu, você, ele, nós, vós, vocês: todos estes remetem a um nome. São pronomes, estão no lugar do nome. Quando os empregamos, sabemos quem sou eu, quem é você, quem é ele. Mas um "eles" apenas subentendido fica como se não houvesse nada, nem nome próprio, nem pronome em seu lugar, só o verbo, uma ação sem sujeito.
É como se um vazio mandasse em nós. Mas quem é este vazio? É alguém que elegemos. É alguém que escolhemos. Não é um vazio, tem identidade clara e determinada. Por que nos recusamos a aceitar este fato básico? Ficamos assustados com a responsabilidade de sermos nós quem os colocou ali? Quando ouvimos notícias sobre a corrupção, assusta-nos saber que os acusados gozaram de nosso apoio, de nossa fé?

Isto vale para todos. Os eleitores de Fernando Collor, em 1989, e do senador Demóstenes Torres, recentemente, trataram de dizer-se enganados. Recusaram-se a assumir a responsabilidade de terem acreditado no que outros já percebiam não ser bem o que parecia. Sem querer nivelar todos os políticos, temos também que lembrar as acusações que há a alguns filiados do PT. Em qualquer caso, vemos a dificuldade de reconhecer que erramos ao apoiá-los. O anônimo "eles", na verdade, permite que nós nos refugiemos no anonimato. Anônimos queremos ser nós, porque irresponsáveis. O mau político, que abusa do poder a ele conferido pelo voto, encontra um cúmplice no eleitor irresponsável. Um esconde o que fez no mandato. Já o outro esconde que fez o mandato daquele.

A sociedade assim gosta de fazer-se de pura, em face de um poder estatal que seria, repito, marciano. Ele está aí, sabe-se lá por quê. É como se a oposição entre sociedade e Estado, clássica na política, tivesse terminado assim: a sociedade nada tem a ver com o Estado. Ele não foi criado por ela, não beneficia nenhum setor dela. Ele caiu do céu (ou do inferno). Ora, isso é um absurdo. É claro que há classes ou grupos, na sociedade, que têm bala na agulha e por isso podem fazer-se ouvir e atender pelo Estado. Mais que isso, há setores que mandam no Estado. Podemos discutir quais são. Para a esquerda, trata-se do grande capital. Para a direita, quem manda no Estado podem ser funcionários públicos e seus sindicatos. Não tomo posição aqui. Basta-me que comecemos a considerar que o Estado é feito por nós.

Sei que ótimas intenções levam a separar o Estado da sociedade. Um dístico nos ônibus paulistanos, na época de Mário Covas prefeito, dizia: "transporte, direito do cidadão, dever do Estado". Concordo. Mas receio que essa frase leve a pensar que não é o cidadão quem deve mandar no Estado. Não basta o cidadão receber, do Estado, o transporte. O cidadão é quem paga o Estado, quem o constrói, por isso deve decidir o que ele é e faz.

Enquanto não conseguirmos completar este ideal de uma sociedade que se reconhece no seu Estado, poderemos pelo menos começar mexendo nas pessoas do discurso. A boa nova é que estamos usando cada vez menos esse "eles" que não ousa dizer seu nome. Sugiro aboli-lo de vez. Sugiro que paremos todos de dizer "proibiram", "fecharam", "mandaram". Sugiro que comecemos a dar sujeito às ações, a todas as ações: o prefeito, o governador, seja lá quem for. É um pequeno passo para cada um de nós e pode ser um bom avanço para o país.

http://leiturasmarona.blogspot.com.br/2012/07/os-politicos-vem-de-marte.html

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Política de uma nota só

por Vladimir Safatle

Há várias maneiras de despolitizar uma sociedade. A principal delas é impedir a circulação de informações e perspectivas distintas a respeito do modelo de funcionamento da vida social. Há, no entanto, uma forma mais insidiosa. Ela consiste em construir uma espécie de causa genérica capaz de responder por todos os males da sociedade. Qualquer problema que aparecer será sempre remetido à mesma causa, a ser repetida infinitamente como um mantra.

Isto é o que ocorre com o problema da corrupção no Brasil. Todos os males da vida nacional, da educação ao modelo de intervenção estatal, da saúde à escolha sobre a matriz energética, são creditados à corrupção. Dessa forma, não há mais debate político possível, pois o combate à corrupção é a senha para resolver tudo. Em consequência, a política brasileira ficou pobre.

Não se trata aqui de negar que a corrupção seja um problema grave na vida nacional. É, porém, impressionante como dessa discussão nunca se segue nada, nem sequer uma reflexão mais ampla sobre as disfuncionalidades estruturais do sistema político brasileiro, sobre as relações promíscuas entre os grandes conglomerados econômicos e o Estado ou sobre a inexistência da participação popular nas decisões sobre a configuração do poder Judiciário.

Por exemplo, se há algo próprio do Brasil é este espetáculo macabro onde os escândalos de corrupção conseguem, sempre, envolver oposição e governo. O que nos deixa como espectadores desse jogo ridículo no qual um lado tenta jogar o escândalo nas costas do outro, isso quando certos setores da mídia nacional tomam partido e divulgam apenas os males de um dos lados. O chamado mensalão demonstra claramente tal lógica. O esquema de financiamento de campanha que quase derrubou o governo havia sido gestado pelo presidente do principal partido de oposição. Situação e oposição se aproveitaram dos mesmos caminhos escusos, com os mesmos operadores. Não consigo lembrar de nenhum país onde algo parecido tenha ocorrido.

Uma verdadeira indignação teria nos levado a uma profunda reforma política, com financiamento público de campanha, mecanismos para o barateamento dos embates eleitorais, criação de um cadastro de empresas corruptoras que nunca poderão voltar a prestar serviços para o Estado, fim do sigilo fiscal de todos os integrantes de primeiro e segundo escalão das administrações públicas e proibição do governo contratar agências de publicidade (principalmente para fazer campanhas de autopromoção). Nada disso sequer entrou na pauta da opinião pública. Não é de se admirar que todo ano um novo escândalo apareça.

Nas condições atuais, o sistema político brasileiro só funciona sob corrupção. Um deputado não se elege com menos de 5 milhões de reais, o que lhe deixa completamente vulnerável -para lutar pelos interesses escusos de financiadores potenciais de campanha. Isso também ajuda a explicar porque 39% dos parlamentares da atual legislatura declaram-se milionários. Juntos eles têm um patrimônio declarado de 1,454 bilhão de reais. Ou seja, acabamos por ser governados por uma plutocracia, pois só mesmo uma plutocracia poderia financiar campanhas.

Mas como sabemos de antemão que nenhum escândalo de corrupção chegará a colocar em questão as distorções do sistema político brasileiro, ficamos sem a possibilidade de discutir política no sentido forte do termo. Não há mais dis-cussões sobre aprofundamento da participação popular nos processos decisórios, constituição de uma democracia direta, o papel do Estado no desenvolvimento, sobre um modelo econômico realmente competitivo, não entregue aos oligopólios, ou sobre como queremos financiar um sistema de educação pública de qualidade e para todos. Em um momento no qual o Brasil ganha importância no cenário internacional, nossa contribuição para a reinvenção da política em uma era nebulosa no continente europeu e nos Estados Unidos é próxima de zero.

Tem-se a impressão de que a contribuição que poderíamos dar já foi dada (programas amplos de transferência de renda e reconstituição do mercado interno). Mesmo a luta contra a desigualdade nunca entrou realmente na pauta e, nesse sentido, nada temos a dizer, já que o Brasil continua a ser o paraíso das grandes fortunas e do consumo conspícuo. Sequer temos imposto sobre herança. Mas os próximos meses da política brasileira serão dominados pelo duodécimo escândalo no qual alguns políticos cairão para a imperfeição da nossa democracia continuar funcionando perfeitamente.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O erro de Marx

 Por Pierre Bourdieu

Certos autores insistiram no fato de que o Parlamento, particularmente o Parlamento inglês, é uma invenção histórica, o que, se refletirmos bem, não tem nada de evidente: é um lugar onde as lutas entre os grupos, os grupos de interesses, as classes, se preferirmos, vão se dar segundo as regras do jogo que faz com que todos os conflitos externos a essas lutas tenham algo de semicriminoso.

A propósito dessa “parlamentarização” da vida política, Marx fazia uma analogia com o teatro: ele via no Parlamento e no parlamentarismo uma espécie de engodo coletivo no qual os cidadãos se deixam lograr; essa espécie de teatro de sombras ocultaria de fato as verdadeiras lutas que estão do lado fora.(1)

Penso que é o erro sistemático de Marx. Já disse isso cem vezes aqui, é sempre o mesmo princípio. A crítica marxista, que não é falsa, torna-se falsa quando esquece de integrar na teoria aquilo contra o qual a teoria é construída.(2)

Não haveria razão de dizer que o Parlamento é um teatro de sombras se as pessoas não acreditassem que ele é algo diferente. E ele não teria nenhum mérito de dizer isso.

Em certo sentido, Marx diminui seus próprios méritos esquecendo que aquilo contra o qual ele afirmou sua teoria sobrevive à sua teoria: o Parlamento pode ser este lugar de debates regulamentados, num sentido um pouco mistificado e mistificador, esta mistificação fazendo parte das condições de funcionamento dos regimes e, em particular, das condições de perpetuação dos regimes que chamamos democráticos.

O Parlamento é, pois, esse lugar de consenso regulado ou de dissenso dentro de certos limites, que pode excluir ao mesmo tempo objetos de dissenso e sobretudo maneiras de exprimir o dissenso. Pessoas que não têm as boas maneiras de expressar o dissenso são excluídas da vida política legítima.

Notas

1. MARX Karl. Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte. Paris: Editions Sociales, 1976 [1852] [no Brasil, O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, Boitempo].

2. Ver BOURDIEU, P. Choses dites [no Brasil, Coisas ditas, Brasiliense].

Este texto é parte do curso dado por Pierre Bourdieu em 12/12/1991 e que faz parte do livro Sur l´État.Tradução de Leneide Duarte-Plon.

http://revistacult.uol.com.br/home/2012/03/o-erro-de-marx/

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

As oportunidades das redes sociais


Por Marcus Vinicius


A nota oficial assinada pelo "povo cearense" e que rolou ontem nas redes sociais é um primor. Ela notifica, determina, convoca, cobra. Enfim muita besteira junta.
Pior que a nota, foi a ação de vários(as) pessoas "responsáveis", "socialistas", "comprometidos(as)", "democratas" que repassaram e compartilharam a nota com os "amigos(as)" dos faces e tuítes, sem o menor senso crítico. Fica o registro.
PS - parece que, se o Governador e a Prefeita(sic) cumpriram o prazo estipulado, e a greve acabou, não serão mais destituídos de seus cargos. Tô correto ou entendi errado?
Vejam a nota:


sábado, 27 de agosto de 2011

Carta às esquerdas

O Roberto Carlos já cantou. "...cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz.. Vou telefonar dizendo que estou quase morrendo de saudade de você... ". Tempos idos. 
Nos últimos tempos passei a colecionar epístolas. É que cada encontro temático ou setorial do campo popular termina com uma. São muitas as cartas. Talvez sejam enviadas a quem de "direito" a espera de respostas.
Abaixo uma cartinha escrita por Boaventura às esquerdas. Não trás novidades mas... é sempre bom saber que tem alguém lembrando  de nós e nos escrevendo.
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Por Boaventura de Sousa Santos

Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante.

Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação?

As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender.

Entretanto, livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação das seguintes ideias.

  • Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo. 
  • Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas. 
  • Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas). 
  • Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente. 
  • Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual há que lutar; o crescimento econômico não é infinito. 
  • Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns da humanidade (como a água e o ar). 
  • Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos que sobressai em todos os inquéritos; este é um patrimônio das esquerdas que estas têm vindo a dilapidar. 
  • Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer, do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas.
  • Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, muitos outros monstros andariam à solta, insaciáveis à cata de anjos indefesos. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca.
Com estas ideias, vão continuar a ser várias as esquerdas, mas já não é provável que se matem umas às outras e é possível que se unam para travar a barbárie que se aproxima.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

terça-feira, 26 de abril de 2011

Democracia e Religião

Por Vladimir Safatle

O Ocidente bloqueou campo político no Oriente Médio e facilitou a ascensão dos fundamentalismos


As reações de setores da opinião pública às revoltas no mundo árabe expõem um belo sistema projetivo. Pois podemos dizer que, muitas vezes, eles acabam por projetar, como se fosse exclusividade do Oriente Médio, problemas que são também nossos. Um exemplo paradigmático aqui é a relação entre política e religião.
Gostamos de acreditar que nossas sociedades ocidentais são sistemas políticos laicos, no interior dos quais a força das crenças religiosas deu lugar à possibilidade de uma confrontação eminentemente política, no mais das vezes técnica e racional. Para nós, isso representaria um ganho dos processos de modernização que ainda não teria sido alcançado pelo mundo árabe. Dessa forma, conservamos o velho esquema da supremacia cultural do Ocidente e de seu pretenso progresso histórico.
No entanto, essa versão é dificilmente sustentável. Primeiro, porque nossas sociedades não conseguiram resolver o problema de sua laicidade. Basta lembrar como a última eleição presidencial no Brasil virou um conflito a respeito de temas ligados à maneira com que dogmas religiosos relativos à família e à procriação interferem na gestão da vida social. Quem esqueceu a maneira com que candidatos à Presidência beijaram imagens de santos? Mas como ignorar que a maioria da população brasileira é católica e tem o direito de expressar suas convicções, fazer-se ouvir no momento de decidir sobre a configuração das leis do Estado? Bem, basta tirarmos a palavra
“católica” e colocarmos a palavra “muçulmana” para repetirmos o mesmo tipo de discurso veiculado por organizações como a Irmandade Muçulmana.
Mas deixemos de lado o Brasil. Lembraria que uma das perguntas tradicionais nos debates televisivos da eleição presidencial norte-americana é exatamente “qual trecho da Bíblia o senhor prefere?”. Lembraria também que a Alemanha é governada por um partido que se diz democrata-
cristão. Certamente os não cristãos não conseguem entender por que devam ser governados por um partido que diz defender os valores cristãos.
Poderíamos tentar contemporizar esse fato dizendo que o cristianismo é totalmente compatível com a democracia. Mas talvez seria mais correto afirmar que a democracia é, simplesmente, indiferente ao cristianismo (ou ao budismo, ao islamismo, ao judaísmo etc.).
O cristianismo, por sua vez, pode ser extremamente excludente, persecutório e intolerante contra aqueles que não comungam seus dogmas.
Devemos lembrar esses pontos para afirmar que a relação entre política e religião está longe de ser uma questão resolvida, tanto no Ocidente quanto no Oriente. O Oriente Médio precisará inventar um meio de equalizar esse problema, da mesma forma que nós também precisamos. Nossas conquistas nesse campo são mais frágeis do que imaginamos.
No entanto, nossa desconfiança em relação ao que se passa atualmente no Oriente Médio talvez venha, em larga medida, do medo que temos do caráter violento do fundamentalismo islâmico. Melhor seria lembrar como tal fundamentalismo é um fenômeno recente. Ele tem, no máximo, 30 anos. Países hoje com grandes contingentes de fundamentalistas, como o Afeganistão, eram, até a década de 1970, animados por lutas políticas laicas.
Nesse sentido, não esqueçamos que tal recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo Ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 1950, o Ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de autodeterminação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é aqui paradigmático.
Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região foram apoiados de maneira irrestrita pelo Ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e “flexível” dos valores ocidentais.
Nesse ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isso que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante nenhum típico de civilizações refratárias ao nosso “choque civilizatório”. Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político. Por isso, podemos esperar que essa nova vaga de revolta política no Oriente Médio permita a reconstrução do campo político e o esvaziamento de tendências fundamentalistas.

vladimirsafatle@revistacult.com.br

http://revistacult.uol.com.br/home/2011/04/democracia-e-religiao/

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A solidão do Imperador por Marcus Vinicius


Texto de novembro de 2002, a respeito da eleição do senador Tasso Jereissati
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A solidão do Imperador


“A solidão é a percepção de estar isolado de outras
pessoas, da inexistência de um vínculo. Parece ser uma
falta de ligação e, por conseguinte, uma falta de limites.
Mas pode ser tão dolorosa que as pessoas se comprometem
as cegas com um casamento, um emprego ou uma
comunidade, embora descubram que, em meio às
demais, continuam sozinhas.”
Richard Sennett



Eram três os coronéis. Vieram de um tempo de UDN e PSD. Com o golpe militar os três ficaram na ARENA, um dos dois partidos consentidos pela ditadura. Trocavam entre si a governança do Ceará, não sei se por rodízio ou por sorteio. O fato é que, entrava um saia outro e até um dos filhos fora nomeado prefeito de Fortaleza.

1982. Eleições para governador do Estado. O último dos coronéis governador elege um “técnico” chamado Gonzaga, mas conhecido por Totó. Num belo dia de 1985, Fortaleza elege Maria, prefeita pelo PT. (Nestas últimas eleições, esta Maria defendeu o voto nulo.)

Em 1986, novas eleições para governador. O afilhado do último coronel esquece o padrinho e lança candidato, um jovem integrante de um grupo de empresários ditos modernos, filhos de empresários ditos atrasados. Freud explica.

A eleição teve como mote à derrota dos coronéis. À época o jovem empresário aglutinou em torno de sua candidatura uma imensidão de apoios. A aliança passava por intelectuais, esquerdistas, trabalhistas, socialistas e profissionais, ditos liberais. Enfim quase todo mundo.

O PT ficou de fora. Saiu com um padre candidato, era o “governador do povo”. (Hoje esse ex-candidato é pároco na igreja em que o candidato vitorioso ao governo do Estado faz seus atos de contrição).

O jovem empresário foi eleito governador com os votos de Fortaleza e dos grandes municípios do Ceará. Restaram ao PT poucos votos e os chamados “grotões” votaram com um coronel que afirmava: “Eu vou voltar”. (Nesta eleição esse coronel apoiou o maduro empresário ao senado e seu candidato a governador).

Em 1986, inicia-se a era cambeba. Lá se foram 16 anos, 12 dos quais com o jovem/maduro empresário. Tempos de “modernização do estado”, privatizações.

Enfim chegamos a 2002. O maduro empresário se elege senador e seu candidato a governador se elege no segundo turno com 50,04% dos votos.

No calor da hora, finda as apurações, o maduro empresário declara ao Jornal O Povo: “Derrotamos o radicalismo xiita do PT. Derrotamos o fisiologismo atrasado e imoral de Sérgio Machado. Derrotamos o poder econômico (sic) corruptor de Eunício. Derrotamos o projeto de facismo do embuste de Moroni.” Oh! Tempus! Oh! Modus.

Ao invés da declaração ao jornal, o eleito, deveria estar refletindo:
  • Como falar de fisiologismo, de poder econômico e facismo? 
  • Eles fizeram parte do meu projeto, eu convivi com eles.
  • E antes deles os socialistas, comunistas, intelectuais, trabalhistas?
  • Onde estarão eles hoje?
  • Por que agora ao concorrer para o senado, perdi em Fortaleza, para o candidatodo PT?
  • Por que quase perco para a minha afilhada do PPS?
  • Por que derrotei os coronéis e hoje o Coronel e os filhos dos coronéis me apoiam?
C'est la vie.

A partir de 2003, o empresário estará no Senado, estreando no parlamento. Terá de votar, apresentar projetos de lei, fazer pronunciamentos, marcar presença, fazer articulações, negociações, ir e vir a Brasília, enfim, ouvir, falar e o que é pior com a TV Senado no ar, para o bem e para o mal. Será um entre 81 senadores e senadoras.
Triste fim para quem imperou durante 16 anos.

Fortaleza, 2002

Figuram no elenco: Tasso Jereissati, Virgílio Távora, Adauto Bezerra, César Cals, Gonzaga Mota, Padre Haroldo, Lucio Alcântara, Patricia Gomes, Mário Mamede, Maria Luiza, Eunício Oliveira, Sérgio Machado, Moroni Torgan, 


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Blogueiros entrevistam Lula

Atualizado - na integra a entrevista de Lula com blogueiros






Blogueiros brasileiros terão um encontro inédito com o presidente Lula nesta quarta-feira (24/11) no Palácio do Planalto, em Brasília, para uma entrevista coletiva que você poderá acompanhar, ao vivo a partir das 9 horas, aqui no Blog do Planalto. Clique aqui e veja a nossa página especial do encontro. Os nomes dos blogueiros foram escolhidos pela organização do I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, realizado em São Paulo entre os dias 20 e 22 de agosto.
Na página especial da entrevista, é possível incorporar o vídeo da entrevista em sua página/blog pessoal – basta copiar o código e colar no post desejado. E mais do que apenas acompanhar a entrevista ao vivo, você poderá também enviar sua pergunta pelo twitter, utilizando a hashtag #lulablogs. Acompanhe também pelo nosso perfil no twitter, @blogplanalto.
Estão confirmadas a presença dos seguintes blogueiros: Altamiro Borges (Blog do Miro), Altino Machado (Blog do Altino), Conceição Lemes (Vi o Mundo), William Barros (Cloaca News), Eduardo Guimarães (Cidadania), Leandro Fortes (Brasília, Eu Vi), Pierre Lucena (Acerto de Contas), Renato Rovai (Blog do Rovai), Rodrigo Vianna (Escrevinhador) e Túlio Vianna (Blog do Túlio Vianna).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O último dos Coronéis - Adauto Bezerra

O jornal O Povo, em suas páginas azuis que lembra as páginas amarelas de uma certa revista, publicou excelente entrevista com o último dos coronéis da política cearense - Adauto Bezerra. Para além da boa vontade do entrevistador, cabe ressaltar o trabalho da dupla de entrevistadores: Demitri Tulio e Claudio Ribeiro.
Excelentes jornalistas. Demitri extrapola o jornalismo e veleja nas águas da memória e da ficção. Seu último lançamento "Filha de coelha, girafa é" é um barato.
Mas voltando a entrevista, transcrevo algumas das declarações do coronel:
  • OP – Eu falo da semelhança entre vocês quatro (Adauto e Humberto e Ciro e Cid) em relação à trajetória política. 
    Adauto – Mas vamos observar o comportamento de um e de outro. Nós somos irmãos quase siameses. Eles às vezes distoam. Você não vê que o Ciro é mais língua solta, mais conversador, mais atirado, violento não, mas ele não engole muito não. Ao passo que o Cid é calmo, tranquilo, sereno, ouve muito, fala pouco. É o comportamento de cada um, é da pessoa, você não pode obscurecer.
  • OP – O senhor aceita essa crítica? (Clientelismo)
    Adauto – Eu fiz, eu fiz. É autocrítica. Agora vamos raciocinar. Você é um prefeito, mora a 400 km, chega a Fortaleza e quer falar com o governador. Pediu audiência? Não. É barrado e não entra. Mas é prefeito, vai atender a comunidade dele, ao município. Não pode, “procure o secretário fulano”. Eu nunca fiz isso, mandava entrar. Podia atrasar, ficava esperando, mas eu atendia. Ele nunca vinha só, com dois ou três vereadores, para mostrar que tinha prestígio e que o governador iria atendê-lo. E todos pediam um empregozinho. Era a professora, o delegado, servente, vigia, essas coisas. Sempre atendia todos eles. O Tasso fez uma inovação. “Eu sou administrador, cada prefeito cuide de sua administração e eu vou fazer a minha”. Ficou meio distante. Se isolou. Não sei se é temperamento. O meu, gosto de estar no meio do povo. Mas sei que ele dispõe de mais tempo para trabalhar, produzir. Mas a equipe tá pra isso. Vamos reconhecer, ele foi um bom governador. Foi um bom senador. Não posso deixar de reconhecer.
  • OP – O senhor votou nele?
    Adauto – A minha idade... (Risos) Eu fui dispensado.
  • OP – Mas o senhor nunca votou nele?
    Adauto – Não. Era outro partido.
  • OP – O Tasso perdeu para o presidente Lula?
    Adauto – Foi.
  • OP – O senhor chegou a manter contato com o Tasso, mais recentemente?
    Adauto – Não telefonei porque poderia até pensar “o Adauto me telefonar na hora da minha derrota?”, “será que é vingança do Adauto dizer isso, porque eu o derrotei?”. Não se trata disso. Olha o que eu falei, grande governador, grande senador. Acho que não era a hora da substituição dele. Ele ainda tem muito o que fazer. Chegou a hora de descer a escada.
  • OP – Se o senhor tivesse votado nessa eleição, teria sido nele? (Cid Gomes)
    Adauto – Com toda certeza. Quer ver o telegrama que eu mandei pra ele? (Pede à secretária que traga o telegrama. Quando o gravador é religado, começa contando uma história ocorrida em sua sala). Veio um deputado aqui, tive pena dele. Ô baixinho pra trabalhar.
  • OP – Quem é?
    Adauto – Heitor Férrer (deputado estadual reeleito, do PDT). Esse rapaz chegou aqui com um pacotinho de santinhos na mão. Um por um entregando. “Mas Heitor, o que é isso?”. “Minha campanha é essa, não tenho dinheiro, não tenho nada. Tudo que consegui até agora foram R$ 12 mil. Aí fui e dei uma ajuda pra ele. Esse menino pulou (levanta as mãos), “coronel, o senhor me salvou”. Ainda ontem ele esteve aqui, mas é um rapaz sério, um bom deputado. Ele é de oposição, mas não é por oposição. Ele dá o fato. ]
  • OP – Quem mais o senhor ajudou nessa eleição, coronel?
    Adauto - O meu sobrinho José Arnon (deputado federal reeleito, do PTB). 
  • OP – O Cid veio pedir ajuda?
    Adauto – Não.
  • OP – O Lúcio Alcântara veio?
    Adauto – Estou meio distante dele. Não veio, não.
  • OP – O Marcos Cals também nem apareceu?
    Adauto – Quero muito bem àquele rapaz. 
  • OP – O senhor o viu ainda pequeno.
    Adauto – Sim. Deveria ter sido preparado para ser o candidato, mas o pegaram de última hora e jogaram dentro do rio que só tinha piranha. (Exibe o telegrama enviado a três candidatos e pede que seja lido). 
  • OP – O senhor disse que não ligou para o Tasso porque poderia soar como indelicadeza ou ser mal interpretado. Quando o senhor foi acusado de fazer parte das “forças do atraso” (na campanha para o governo, em 1986), como se sentiu?
    Adauto – Era o Ciro, era o mais cáustico sobre isso. O Tasso também usou. Eu aguardei.
  • OP – O senhor preferiu ouvir calado?
    Adauto – Eu aguardei (faz uma pausa) e esperei o tempo passar. Mas um dia, lá no meu apartamento, chega lá o Ciro. Foi pedir para eu fazer parte do apoio ao irmão dele, o Cid. “Vou apoiar”. Na primeira eleição do Cid (ao governo estadual, em 2006). 
  • OP – Qual foi sua reação?
    Adauto – “Vou apoiar, vou trabalhar. Rapaz muito bom”. E trabalhei muito.
  • OP – Essa foi a resposta que o senhor deu?
    Adauto – “Vou trabalhar”. Eu não guardo ressentimento de nada. A vida é curta, você tem que pensar no melhor, fazer o bem. Vou ficar com rancor e ódio? Aquilo faz mal a mim.
  • OP – Quando o senhor encontrou com o Ciro, que lhe pediu apoio na primeira eleição do Cid para governador, o senhor lembrou a ele que tinha sido chamado de força do atraso? Ou ele próprio chegou a pedir desculpas ao senhor?
    Adauto – Não, nunca pediu desculpas.
  • OP – Teve algum momento em que o senhor teve vontade, não só nesse episódio mas qualquer outro, de revidar, com esse ou aquele político?
    Adauto – A única coisa que eu e meu irmão temos um pouco de diferença é o temperamento. Ele me chama de “irmã Paula”, porque tudo que vem aqui eu procuro ajudar. Ele não. Eu não fui atrás dele, ele veio à minha procura, vamos ter um espírito mais elevado.
  • P – O que a gente não perguntou que o senhor acha que deveria ter sido perguntado?
    Adauto – Esta é uma pergunta muito boa (risos). O que eu me esqueci? (mais risos) Olha, a vida é muito curta. Você pensa que 84 anos... eles se passaram sem eu sentir que passaram. E o que me resta é muito pouco, então... olhe para o vizinho, veja o que pode estar faltando, dê uma ajuda. Se ele caiu, dê a mão. Nossa mesa tem tudo, a dele pode não ter nada, então porque não vou dar um pouco da comida pra ele? Humildade. Ninguém pode ser arrogante, prepotente. Porque as coisas acontecem. Quando você menos espera pode estar em cima de uma cama, desenganado, a qualquer hora pode desaparecer e o que você leva? Será que leva? A vida termina aqui? E a outra? Fernando Pessoa já dizia: a vida é uma grande reta, mas lá na frente é uma curva. O corpo fica na curva e o espírito continua. Para onde é que vai?
  • OP – Qual o melhor governador do Ceará?
    Adauto – O melhor em todos os tempos foi Virgílio Távora. Isso marca. Era competente, inteligente, trabalhador, honesto, mas de uma antipatia a toda prova. 
  • OP – Há o folclore que o senhor e ele tinham rusgas nos bastidores.
    Adauto – Não, nunca briguei com ele.
  • OP – Mas tinha alguma faísca?
    Adauto – Ele tinha ciúmes. O Virgílio não admitia ninguém crescer. Ele gostava que todo mundo ficasse ali bajulando, dizendo que ele era maior, que ele tinha um metro e 90 (centímetros). Porcaria deste tamanho (risos). Não é por aí. Ele tinha tanta confiança em mim... Uma vez dona Luíza (Távora, ex-primeira dama) foi muito irreverente. Como vocês chamam aquela roupa que bota por cima do pijama, da camisola?
  • OP – Robe?
    Adauto – Ela gritou: “por que fecham a porta? Que direito vocês têm? Escondido aí pra quê?” (simula um grito dela. Em seguida imita a voz grave e lenta de Virgílio) “Luíza?” Sabe por que ele fechou a porta? Já estava com câncer. Era para me pedir: “Adauto, não sei quanto tempo, mas queria que você cuidasse do Carlos Virgílio. Ele está exagerando” (Era o filho de VT, ex-deputado federal, que morreu em 19 de novembro de 2000, em Teresina). 
  • OP – Coronel, tenho curiosidade num assunto bastante delicado para sua família. 
    Adauto – Não, tudo bem.
  • OP – É a sobre a morte de sua sobrinha Ana Amélia (executiva assassinada no Paraguai, em agosto de 2002). O episódio foi fatalidade, foi tentativa de sequestro, foi armação? Houve algo mais além do que veio a público?
    Adauto – As Polícias do Paraguai e daqui apuraram. Mas chegaram à conclusão que quiseram parar o carro para roubar. Tentativa de assalto. Quando meteram o tiro, era para o carro parar e fazer o assalto, mas acertou a menina.
  • OP – A família mesmo aceitou como fatalidade?
    Adauto – Fatalidade.
  • OP – A família contratou alguém para investigar lá?
    Adauto – Se tem sabido quem era, cabôco tinha morrido. Tinha. Trazia pra cá, ia fazer o enterro bonito dele. 
  • OP – Alguém pensou em sequestro, mas outro também descartou logo.
    Adauto – Eu sou muito amigo do Mainha (Ildefonso Maia Cunha, condenado por homicídios no Ceará, que hoje cumpre pena em regime aberto). Muito amigo, não, eu conheço o Mainha. Nos apertos ele vem aqui. 
  • OP – Vem aqui?
    Adauto – Vem aqui ou vai em Guaramiranga. Ou manda a mulher. Não é muito melhor se ter uma fonte de informação como o Mainha, do que ter um inimigo como o Mainha? Sabe como ele se identifica (à secretária)? Professor Diógenes.
  • O POVO – O senhor tem feito caridade?
    Adauto - Hoje tenho três atividades que me tomam o dia. Começo na Santa Casa. Às 7h30min eu tô lá. Todo dia. Na Santa Casa eu sou o mordomo (gestor das contas). A parte de enfermaria, doente, gente que chega de cirurgia, UTI, doente, tudo é comigo. Segundo, é aos sábados e domingos. Eu tenho um centro de tratamento de dependentes químicos. É no limite entre Messejana e Eusébio. Comprei duas quadras, fiz as casinhas, tem piscina, área de exercícios, médico, fisioterapeuta, tem tudo. 
  • OP - Quantos atende?
    Adauto - São 45. Às vezes muda pra mais. O principal é o crack. É o que derruba, chega lá já no final, terminal. Chega, bota pra dormir, desintoxicar, 45 dias, começam a andar, exercícios, suar, correr.
  • OP - Por que o senhor decidiu fazer isso? 
    Adauto - Porque eu já tenho 84 anos. O que me resta é bem pouquinho. Se eu não fizer isso, o que eu deixo aqui? O projeto já tem 14 anos. Eu e o doutor Luis Teixeira. Era uma casa com três quartos, com área e nada mais. Depois vi não ser possível continuar vendo a mocidade no crack, em tudo. Começavam sempre com a maconha e o álcool, depois... 
  • OP - E a Santa Casa, como está de finanças? 
    Adauto - Graças a Deus, tá bem. Nós temos compromissos a pagar, mas dívidas atrasadas, nenhum centavo. Tudo pago.
  • OP - É mesmo? Limparam esse débito quando? Era uma dívida eterna. 
    Adauto - Ela está saneada há um ano e oito meses. Reescalonamos a dívida em 50 pagamentos. Podíamos pagar isso. A Caixa Econômica concordou.
  • OP - Ainda tem ajuda pela conta de luz? 
    Adauto - Tem. Há uma empresa no Espírito Santo que contratamos. Aí a ajuda já vem embutida na despesa do consumo de energia. Você autoriza qualquer valor. Isso nos dá por mês, R$ 510 mil, R$ 520 mil.
  • OP - Qual a despesa mensal da Santa Casa? 
    Adauto - Só de pessoal dá uns R$ 700 mil.
  • OP - E o resto vocês cobrem como? 
    Adauto - Tem o cemitério São João Batista, que dá uns R$ 90 mil, R$ 100 mil por mês. Tem doações. Essas mercadorias apreendidas, a gente recebe, vira leilão. Em cada caminhão, no leilão a gente apura R$ 1,2 milhão. Aí vai indo. E tem o SUS. Cada cirurgia, se é de alto risco é um pouco mais. Se é simples é quase nada. 
  • OP - Quanto a Santa Casa está pagando de dívida parcelada? 
    Adauto - Uns R$ 80 mil. Isso me enche tanto a vida.
A íntegra da da entrevista no link abaixo:

http://www.opovo.com.br/app/opovo/paginas-azuis/2010/10/25/noticiapaginasazuisjornal,2056403/confira-a-integra-da-entrevista.shtml