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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Conversões - Luis Fernando Verissimo

o texto é de 2013. 
Com as devidas adaptações, atualíssimo. 
Dedico a todos e todas, que foram de esquerda e hoje chafurdam na lama da direita.

"Para quem ainda se considera de esquerda, apesar das desilusões e de um coração combalido, o rancor dos convertidos tem seu lado positivo. Mostra que a esquerda ainda existe, logo chateia. Ou chateia, logo existe."


Luis Fernando Veríssimo


Ninguém é mais direitista do que um ex-esquerdista. Talvez porque a desilusão com as promessas nunca realizadas da esquerda se misture com a necessidade do novo direitista de exorcizar seu passado, de se autopunir pela sua ingenuidade. Para repudiar o que era, o ex-esquerdista precisa arrasar o que era. Como está também arrasando o seu passado, a sua juventude e o tempo que perdeu acreditando em coisas como igualdade, solidariedade e a redenção da humanidade, não admira que sua crítica à esquerda seja tão ácida. Está lamentando a si mesmo, o que só aumenta sua raiva.


O adágio, tão repetido, segundo o qual quem não é de esquerda até uma certa idade não tem coração e quem não é de direita depois não tem cérebro, equipara a migração da esquerda para a direita como uma conquista da sabedoria. Idealismo, crença em justiça social etc. seriam coisas que iríamos largando pelo caminho rumo à maturidade, junto com outras baboseiras juvenis. Não se tem notícia de uma migração ao contrário, de direitistas que voltam a ser esquerdistas, até como uma forma de recuperar a juventude. E esquerdistas que continuam esquerdistas apesar de já terem idade para se darem conta do engano são alvos prioritários do escárnio dos convertidos. Ainda têm coração, os inocentes.

Os neoconservadores que levaram a política externa americana a sucessivos desastres nos últimos anos têm este nome porque muitos deles foram trotskistas na juventude. Abandonaram o internacionalismo trotskista e inauguraram o ultranacionalismo do “século americano”, e continuam influentes, mesmo sob o governo do Obama. Os ex-trotskistas odeiam o que foram um dia, e seu conservadorismo ativo é uma forma de expiação. Caso notório de conversão foi a do escritor John dos Passos, ex-comunista e autor de alguns livros memoráveis de crítica social, que acabou seus dias quase como uma caricatura de direitista americano, com bandeira na frente da casa e tudo.


Para quem ainda se considera de esquerda, apesar das desilusões e de um coração combalido, o rancor dos convertidos tem seu lado positivo. Mostra que a esquerda ainda existe, logo chateia. Ou chateia, logo existe.

Luis Fernando Verissimo


https://oglobo.globo.com/opiniao/conversoes-9102739

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A política dos selfies vista mais a fundo

Por Roberto Félix



O governador Cid Gomes anunciou ontem, através de sua conta pessoal no facebook, que a Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará – ETICE implementará a Rede Wifi na Arena Castelão. A rede irá atender com qualidade 25 mil acessos simultâneos por meio de uma banda de 80 gigabytes por segundo, conectada por fibra óptica à antiga Gigafor, hoje conhecida como Cinturão Digital do Ceará.

A matriz de responsabilidades estabelecida pelo Comitê Organizador Local da Copa determinava que a implementação da Rede Wifi nas Arenas ficaria a cargo das Operadoras de Telefonia Oi, Claro, TIM e Vivo. Entretanto, faltando apenas 8 dias para o início do Mundial, o impasse persistia. Segundo às Operadoras, as empresas Administradoras das Arenas dificultavam ou até mesmo inviabilizavam o processo. A Secretaria Especial da Copa do Ceará desmentiu, informando que nunca houve contato por parte de qualquer Operadora para viabilizar a Rede Wifi no Castelão.

Ontem, o governador veio a público, informar que bateu o martelo e vai resolver este impasse. Como poderá ele fazer isto em um ínfimo espaço de tempo?

Solução

A ETICE licitou em 11 de março de 2013 equipamentos para construção de redes sem fio dentro do governo do Estado. A Ata de Registro de Preço 0001/2013 tem todos os equipamentos necessários para construir a Rede Wifi prometida para o Castelão. A Ata de Registro de Preço está disponível para consulta no site http://www.etice.ce.gov.br/index.php/redes-sem-fio-wlan . Já existe na Arena Castelão a conexão com o Cinturão Digital do Ceará (https://www.youtube.com/watch?v=pdRsRBQxoT0), portanto a infraestrutura básica para Rede Wifi já está encaminhada.

Quais os custos envolvidos?

O presidente da ETICE, Prof. Fernando Carvalho, informou que serão instalados 300 Pontos de Acesso (AP's) em toda Arena. Em 2013, foram licitados 4.751 unidades deste produto, ao custo unitário de R$ 2.531,89. O valor é superior ao de um ponto de acesso sem fio residencial, posto que é um equipamento que precisa ter alto poder de processamento para suportar grande fluxo de dados, assim como tratar congestionamentos e colisões na rede. Além disto, os equipamentos serão adquiridos com 5 anos de garantia na modalidade onsite e com nível de serviço de 24 horas, isto é, caso qualquer produto venha dar problema, a empresa contratada deverá consertá-lo ou substituí-lo por um novo, no local onde está instalado, em no máximo 24 horas a contar da abertura do reparo.

Outro equipamento necessário é o Controlador para Ponto de Acesso. Cada unidade é capaz de gerenciar até 100 AP's. Como a ETICE instalará 300 AP's, então serão necessários 03 Controladores, cujo custo unitário é de R$ 23.032,43 com a mesma garantia e nível de serviço dos AP's. Para finalizar, é necessário o Software de Gerenciamento Centralizado cujo custo é de R$ 31.135,08.

Numa soma simples, concluimos que o custo com os Pontos de Acesso será de R$ 759.567,00, Controladores será de R$ 69.097,29 e Software de Gerenciamento R$ 31.135,08. Totalizando assim, um investimento de R$ 859.799,37 num sistema que será legado para Arena Castelão após a Copa. Foi desconsiderado aqui o custo com cabeamento de rede para interligar os Pontos de Acesso aos Controladores, visto que a Arena Castelão foi dotada de rede de dados interna no projeto da reforma.

Tráfego de dados gerado

Outro custo a se considerar é o volume de dados trafegados. O governo já possui contrato com empresas que operam o backbone de dados governamental, interconectando o Cinturão Digital do Ceará à Internet. Ressalte-se que no momento que a rede de dados será utilizada pela Arena, o governo estará sob ponto facultativo, portanto não impactará na qualidade do acesso governamental à internet.

Considerações finais

Por fim, serão 25 mil acessos simultâneos à internet providos pela Rede Wifi do governo. Porém vale a reflexão: estamos indo ao Estádio para ver o jogo da Copa ou apenas para usar o Wifi? Além disso, as Redes de Dados das Operadoras Oi, Claro, TIM e Vivo, estarão reforçadas com a instalação de antenas extras nas proximidades do Castelão. Desta maneira, as Operadoras terão capacidade de suportar 43 mil acessos simultâneos. Se somarmos com os 25 mil providos pelo governo, teremos um total de 68 mil dispositivos conectados, quantidade superior a lotação máxima daquela Arena.

Quando a licitação dos equipamentos sem fio foi feita, ao final de 2012 para o início de 2013, não se poderia prever que as Operadoras não iriam implementar a Rede Wifi. Então não se pode alegar que o governo fez esta licitação pensando nesta hipótese, contudo se assim tiver feito, mais um ponto para o Governo que previu este cenário em seu planejamento.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Obama e Raúl Castro trocam aperto de mãos no funeral de Mandela

Por Stella Mapenzauswa e David Dolan
JOHANESBURGO, 10 Dez (Reuters) - Os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, trocaram um aperto de mãos nesta terça-feira durante a cerimônia póstuma em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, deixando de lado por alguns instantes um conflito que dura mais de meio século.
Seguindo o legado de conciliação deixado por Mandela, Raúl sorriu ao receber o cumprimento de Obama a caminho do palanque, onde o presidente norte-americano fez um inflamado discurso homenageando o primeiro presidente negro da África do Sul, que morreu na quinta-feira, aos 95 anos.
Dançando e cantando, dezenas de milhares de pessoas suportaram uma chuva torrencial de várias horas no estádio Soccer City, em Johanesburgo, enquanto cerca de 90 dignitários mundiais lotavam o palanque.
A multidão vibrou quando Obama assumiu seu assento, num forte contraste com a vaia destinada ao presidente sul-africano, Jacob Zuma, um líder marcado por escândalos, cuja fraqueza ficou ainda mais visível nesta semana de comparações com Mandela.
O polêmico líder do vizinho Zimbábue, Robert Mugabe, também foi muito aplaudido.
A presidente Dilma Rousseff, um dos seis chefes de Estado escolhidos para discursar na cerimônia, disse que a luta de Mandela pela liberdade e justiça transcendeu as fronteiras da África do Sul e inspirou a luta no Brasil e na América do Sul.
Em sua fala, Obama recriminou líderes que se apressaram em demonstrar solidariedade com a luta de Mandela contra a opressão e a injustiça, ao mesmo tempo em que não permitiam liberdades nos seus próprios países.
"Há muitos de nós que abraçamos alegremente o legado de reconciliação racial deixado por Madiba (nome de Mandela por seu clã), mas resistem apaixonadamente até mesmo a reformas modestas que desafiassem a pobreza crônica e a crescente desigualdade", afirmou.
"Há muitos líderes mundiais que declaram solidariedade à luta de Madiba pela liberdade, mas não toleram a dissidência da seu próprio povo", acrescentou Obama, que, assim como Mandela, também é o primeiro negro a governar seu país.
As relações entre Cuba e os Estados Unidos estão congeladas desde logo depois da Revolução de 1959, liderada por Fidel Castro, irmão de Raúl. Há mais de meio século Washington mantém um bloqueio econômico ao regime comunista de Havana.
(Reportagem adicional de Steve Holland)

Um aperto de mão


quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Monsanto e o negócio com sementes transgênicas

"Queremos apenas um rótulo", gritam os manifestantes que marcham em direção à Casa Branca. "Oitenta por cento dos alimentos num supermercado são produzidos com ingredientes geneticamente modificados. Mas essa informação não consta [nas embalagens]", reclama Megan Westgate, chefe do projeto NONGMO e uma das organizadoras da manifestação em Washington.

Nos Estados Unidos, alimentos produzidos a partir de "organismos geneticamente modificados" – GMO, na sigla em inglês – não precisam trazer essa informação na embalagem.

A caminhada para a Casa Branca e a subsequente manifestação nos arredores do Parque Lafayette são o ponto alto da marcha Rigth2Know – "direito de saber", em português. Um dos participantes é o alemão Joseph Wilhelm, fundador da rede orgânica Rapunzel. Ele já organizou duas marchas contra os transgênicos na Alemanha. "Fiz todo o caminho de Nova York a Washington a pé", diz, orgulhoso, ao tirar os sapatos.

Monsanto como símbolo
O ativista alemão Wilhelm é um dos críticos da Monsanto

Na verdade, Wilhelm gostaria que a marcha tivesse um outro destino: a sede da Monsanto em Saint Louis, no estado do Missouri. Para ele, a empresa é "o símbolo do desenvolvimento de sementes geneticamente manipuladas". Mas uma marcha até St. Louis chamaria pouca atenção para a questão da rotulagem dos alimentos transgênicos.

A centenária Monsanto foi refundada em 1997 como empresa agrícola. A história dela remonta a 1901. Ao seu passado pertence, entre outras coisas, a fabricação do agente laranja, o famigerado herbicida utilizado pelos militares americanos durante a Guerra do Vietnã. O agente laranja é considerado responsável por graves problemas de saúde de soldados americanos e vietnamitas.

Hoje a Monsanto se apresenta como empresa que desenvolve e vende apenas sementes e produtos agrícolas. Entre eles estão sementes de milho e de algodão resistentes a pragas, lançadas no mercado nos anos 1990.

No caso dessas sementes, "a própria planta produz o veneno", diz Wilhelm. Quando a planta é utilizada para alimentar animais, que, por sua vez, são usados como alimentos por seres humanos, "ingere-se o veneno junto", afirma. A carne de animais alimentados com produtos transgênicos não é rotulada na maioria dos países.

Outro tipo de produto são sementes, por exemplo de colza ou de soja, resistentes aos herbicidas da Monsanto, como o amplamente difundido Roundup. Esse herbicida mata todas as plantas do local onde é aplicado, exceto aquelas geneticamente modificadas pela Monsanto para serem resistentes a ele.

A Monsanto afirma que as sementes transgênicas não são prejudiciais à saúde. "Antes de serem colocadas no mercado, plantas biologicamente modificadas precisam ser submetidas a mais testes e exames do que outros produtos agrícolas" nos Estados Unidos, diz o porta-voz da Monsanto Europa, Mark Buckingham.

Preocupação com a saúde
Protesto contra alimentos transgênicos em Washington

Nem todos têm a mesma opinião. "Quando vejo o sistema regulatório para plantas geneticamente modificadas, acredito que seja insuficiente", considera Bill Freese, do Centro para Segurança Alimentar, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que defende a agricultura sustentável.

Quando se modifica geneticamente uma planta, cria-se uma mutação, explica Freese. "A partir daí podem surgir defeitos: menor valor nutricional, toxinas em quantidade maior do que as naturalmente presentes, em quantidades pequenas e inofensivas, na planta ou até toxinas completamente novas."

Um grande problema dos transgênicos, na sua opinião, são as alergias. Devido à falta de informação nos rótulos dos alimentos, o consumidor não tem como saber posteriormente o que pode ter causado uma reação alérgica.

O presidente do Instituto Millennium de Washington, Hans Rudolf Herren, também alerta para problemas de saúde provenientes de plantas geneticamente modificadas, especialmente porque, ao contrário das promessas de empresas como a Monsanto, em longo prazo cada vez mais veneno é necessário, afirma.

"Já não basta pulverizar uma vez, pulveriza-se duas vezes e com um verdadeiro coquetel de herbicidas", diz. Segundo ele, isso ocorre porque as ervas daninhas se tornam resistentes ao veneno. Herren as chama de "super ervas daninhas".

Arma contra a fome

A favor das sementes geneticamente modificadas usa-se muitas vezes o argumento da luta contra a fome. "Modificações genéticas oferecem a agricultores e consumidores uma ampla gama de possibilidades, impossíveis de serem alcançadas com outros meios", diz Buckingham. Ele cita como exemplo a Índia, afirmando que a colheita de arroz aumentou de 300 quilos por hectare em 2002 para 524 quilos por hectare em 2009.

A ativista indiana Vandana Shiva, vencedora do Prêmio Nobel Alternativo, também participou dos protestos em Washington. Ela luta há anos contra a Monsanto e menciona o relatório O rei dos GMOs está nu, publicado por sua organização Navdanya International em outubro deste ano.

Segundo o documento, a Monsanto prometeria aos agricultores na Índia colheitas muito mais altas do que as citadas por Buckingham e não conseguiria manter essa promessa. Shiva diz que as sementes geneticamente modificadas não aumentaram as colheitas e que a afirmação de que menos químicos são necessários não é verdade.

Acusações em massa

As críticas concentram-se sobre a Monsanto, porque, segundo Shiva, "95% das sementes de algodão são controladas pela empresa, que possui contratos de licenciamento com 60 empresas de sementes indianas". A própria Monsanto não divulga dados sobre a sua participação em mercados fora dos EUA.

Nos Estados Unidos, segundo a Monsanto, a empresa fornece cerca de um terço das sementes de milho e nove de cada dez campos de soja são cultivados com a tecnologia Roundup Ready, da Monsanto e suas licenciadas.
"As colheitas não aumentaram", afirma ativista indiana

Como a semente da Monsanto é patenteada, os agricultores só podem utilizá-la para um plantio. Eles não podem reivindicar o direito de guardar uma parte da colheita como semente para o próximo ano, como se faz na agricultura tradicional. Por terem de comprar sementes caras todos os anos, argumenta Shiva, muito agricultores indianos estão altamente endividados. Ela diz que 250 mil fazendeiros se mataram na Índia por causa de dívidas. "A maioria desses suicídios ocorreu em áreas de cultivo de algodão", diz.

A promessa de Obama

Um estudo do Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês) não conseguiu, porém, identificar uma relação direta entre o cultivo de algodão geneticamente modificado e os suicídios dos agricultores. De acordo com o estudo, houve de fato um aumento da colheita em várias partes da Índia por causa do algodão transgênico. Perdas na colheita – que também foram registradas – foram causadas por secas ou outras condições desfavoráveis.

"Informaremos às pessoas se seus alimentos são geneticamente modificados, pois os norte-americanos devem saber o que estão comprando", prometera o então candidato à presidência dos EUA Barack Obama em 2007. Entretanto, até agora nada aconteceu nesse sentido.

A responsável pela análise e rotulagem de alimentos nos Estados Unidos é a Food and Drug Administration (FDA), mais especificamente o presidente da área de segurança alimentar. Em 2010, Obama designou um novo nome para o cargo: Michael R. Taylor. Um de seus empregos anteriores foi o de vice-presidente de políticas públicas da Monsanto.

Autora: Christina Bergmann (lpf)
Revisão: Alexandre Schossler

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Em Berlim, Lula revela conversas reservadas com líderes mundiais

Por BOB FERNANDES



Em encontro com representantes da social democracia nesta sexta-feira, 07, em Berlim, o ex-presidente Lula revelou detalhes de algumas das suas conversas reservadas com líderes mundiais no tempo em que estava na presidência. Abaixo, relato do que foi dito por Lula:

”Vamos pegar o cara do Irã, que eu participei ativamente. O cara do Irã. Eu saí do Brasil e fui ao Irã. Contra a vontade de todo mundo… da minha companheira Angela Merkel, do companheiro Obama, do companheiro Sarkozy, do companheiro Medvedev, do companheiro…… eu estava convencido que era possível convencer o Irã a assinar o documento que a Agência (Internacional de Energia Atômica) precisava… e eles me diziam assim “Lula, você é um ingênuo, você está acreditando no Ahmadinejad e ele não está falando a verdade…”. Eu falei, “eu sou ingênuo, mas eu acredito na política".

Uma vez, na reunião de Princeton, perguntei:

- Obama, você já conversou com Ahmadinejad?

- Não.

- Sarkozy, você já conversou com Ahmadinejad?

- Não.

- Angela Merkel, você já conversou com Ahmadinejad?

- Não.

- Gordon Brown, você já conversou com Ahmadinejad?

- Não.

- Berlusconi, você já conversou com Ahmadinejad?

- Não.

- Ora, se ninguém tinha conversado com o cara, que diabo de política é essa?

(Gargalhadas e aplausos).

Prosseguiu Lula:

-Antes do Irã, passei em Moscou para conversar com o presidente Medvedev. Chego em Moscou e o presidente Obama tinha ligado para Medvedev:

- Olha, diga para o Lula não ir ao Irã porque ele não vai fazer acordo. Ahmadinejad não cumpre acordo…

Aí, passo no Qatar e o emir do Qatar recebeu um telefonema da secretária de Estado ( EUA) dizendo:

- Olha, diga para o Lula não ir, ele está sendo ingênuo, ele não pode ir porque o Irã não vai.

Eu fui… chegamos no Irã e eu fui conversar com o grande líder Kaminey, fui conversar como presidente do parlamento, e fui conversar com Ahmadinejad e falei com todas as palavras:

- Ahmadinejad, eu estou vindo aqui, os meus amigos estão brigando comigo, (e aí eu citei o nome de cada presidente), a imprensa brasileira está me batendo há uma semana e eu não saio daqui sem uma acordo…

(Risos da plateia)

- Não, mas Lula, você pode sair que eu concordo.

- Olha, tem de escrever. (Risos da plateia) Sabe por que tem de escrever, Ahmadinejad? Sabe o que eles pensam de você? Eles pensam que você é mentiroso e não cumpre a palavra… então, eu só saio daqui com uma documento escrito.

Qual não foi minha surpresa, e quando eu pensei que o conselho de segurança da ONU iria me dar um prêmio de agradecimento (Risos da plateia), eles deram a maior demonstração de ciúme do mundo e ainda assim resolveram punir o Irã. Ainda bem que a imprensa democrática do mundo publicou uma carta, que o presidente Obama tinha me mandado, dizendo quais as condições que eles aceitavam e o Ahmadinejad aceitou exatamente as condições que estava na carta. E ainda assim, eles fizeram retaliações com o Irã, não aceitaram o documento…

Então, o que eu percebi: eu percebi uma coisa que eu vou dizer com a maior sinceridade, eu acho que tem gente no mundo que não quer paz, quem quer paz é o povo. Mas tem quem precisa da discórdia, necessita da discórdia pra poder ser importante, senão, não teria nenhuma explicação a gente não ter paz no Oriente Médio. A mesma ONU que criou o estado de Israel porque não cria o estado Palestino?

(Aplausos da plateia).

Lula iniciou sua fala de 8 minutos dizendo o seguinte:

“Eu queria só lembrar uma coisa. Nós criamos o G-4; Brasil, Alemanha, Japão e índia. O que aconteceu? A Itália não quer que a Alemanha entre no Conselho de Segurança (da ONU). A China não quer que o Japão entre no Conselho de Segurança. Todo mundo defendia que o Brasil deveria entrar, mas não entrou. Ou seja.. dizem que não tem reforma das Nações Unidas porque qual é o país da África que vai entrar?

Olha, vamos ser francos…tem três 54 países na África…você tem três países importantes, grandes, com grande população…. África do Sul, Nigéria e Egito, por que não entra os três? Porque que não entra Brasil e México? Qual é o problema? O problema é que quem tá lá não quer repartir o poder. Essa é a verdade. É muito cômodo do jeito que tá. Então, o Brasil está disposto a se engajar, o Brasil está no Haiti já há bastante tempo.

Se dependesse de mim quando estava na Presidência eu teria retirado o Brasil do Haiti, não tiramos porque o presidente Préval pediu pra gente ficar, e nós ficamos lá e o Brasil presta um grande serviço. O dia que tiver no Haiti um sistema de segurança que diga que o Brasil não precisa ficar mais lá, nós traremos a nossa tropa. Agora, o que não dá é pra gente trabalhar com base em mentiras. Não dá. Ou seja, cadê as armas químicas do Iraque? Cadê? Se contou uma mentira pra humanidade, em toda essa mentira se invadiu um país…o que aconteceu?
 
http://terramagazine.terra.com.br/bobfernandes/blog/2012/12/07/em-berlim-lula-revela-conversas-reservadas-com-lideres-mundiais/

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A derrota de um conservador de Jardim Zoólogico

Por Paulo Moreira Leite

Menos relevante por suas realizações na Casa Branca, Barack Obama merece ser festejado pela capacidade de derrotar Mitt Romney.
Foi uma vitória apertada de verdade, por uma diferença de pouco mais de 1 milhão de votos, embora até folgada do ponto de vista de delegados no Colégio Eleitoral que têm a palavra final na escolha do Presidente dos Estados Unidos.
Numa situação carregada de muitos “poréns” e “mas”, cabe reconhecer que Obama fez menos do que o possível para vencer a quase estagnação econômica norte-americana.
A questão é que, num mundo já em dificuldade para sair da pior crise depois de 1929, a vitória de Romney seria um passo atrás.
Daria ânimo para as lideranças mais retrógradas do planeta.

Ajudaria Angela Merkel em sua política de universalizar o Estado mínimo pelo corte de gastos e planos sucessivos de austeridade.
Netanyahou teria suporte completo para iniciar a prometida guerra de lsrael contra o Irã no Oriente Médio.
Residência do maior mercado interno do mundo, um colapso dos EUA jogaria o planeta numa terceira recessão desde 2008. Ou já seria uma depressão? Não sei.

No plano interno, seria uma ofensiva contra o que ainda resta do Estado de Bem-Estar Social criado durante o New Deal. Limitado, com muitas restrições, até o rudimentar plano de saúde de Obama estaria em risco.
Com ideias de um reacionário de jardim zoológico, as propostas econômicas que sustentavam o candidato republicano e seu vice seriam o golpe de misericórdia numa perspectiva de dias melhores no futuro. Não por acaso, foram tratadas com folclore – ainda que perigoso — por analistas como Martin Wolff, editor do Financial Times, que é conservador mas não irresponsável.

Reaganista nostálgico, Romney pretendia cortar benefícios sociais dos pobres e assegurar privilégios aos mais ricos em nome do mercado e da preservação da liberdade individual.
Sim: em sua visão de mundo, a cobrança de impostos é sempre uma forma de opressão. Jamais pode cumprir uma função de redistribuição de renda nem de estimular a criação de empregos e o crescimento. Já receber o salário mais baixo que o mercado pode oferecer é uma forma de liberdade, fruto de escolhas individuais — como não ter estudado na hora certa – ou ter pais que não tiveram “competência pessoal” para deixar uma boa herança para os filhos. Em qualquer caso, o Estado não deve envolver-se nisso.

Neste universo, a população pobre precisa de estímulos para trabalhar e produzir, sem preocupar-se com mordomias como jornada de trabalho, seguro de saúde, garantia de emprego. Como observou o historiador Tony Judt, referindo-se aos pensadores do capitalismo primitivo, quanto mais desesperada a pessoa estiver, mais produtiva ela será — e isso era ótimo, eles diziam. Continua ótimo, dizem os fanáticos do mercado, hoje.
A derrota de Romney foi sim a derrota de ideias conservadoras que não ousam se apresentar às claras. Não foi uma simples opção entre campanhas de publicidade e jogadas de marketing, ainda que cada concorrente tenha levantado perto de US$ 1 bilhão em suas campanhas, o que é um assombro.

O conservadorismo republicano atingiu um padrão tão descarado que estimulou uma divisão nítida entre classes sociais no país.
O New York Times observa que, na eleição, os mais ricos ficaram com Romney e os mais pobres com Obama.

O candidato democrata conseguiu vitórias importantes em estados onde sua política de estímulos e subsídios a preservação e reconstrução de empregos trouxe resultados práticos. A vantagem obtida em Ohio, sempre um local que simboliza os ventos de uma vitória nos EUA, teve relação direta com a defesa dos trabalhadores.

Embora Romney tivesse tentado culpar Obama pela tragédia econômica do país, o eleitor mostrou-se capaz de sutilezas analíticas – diz o jornal – e deixou claro que não esqueceu quem é responsável pela crise.

Pesquisas divulgadas pelo NYT mostram que o cidadão americano apoia medidas que abrem caminho para Obama fazer mais do que realizou até agora. Altar sagrado dos fanáticos do mercado, o déficit público é prioridade para 1 em 10 eleitores, apenas. Para surpresa da turma do impostômetro, 60% são favoráveis ao aumento de impostos – seja para os mais ricos, seja para todos.

Não chega a ser surpresa, num país onde Warren Buffet, bilionário e ídolo nacional, reclama que paga menos imposto do que sua secretaria.
A dúvida é saber até onde Obama pode ir em seu segundo mandato.

(Pegue o link para o editorial do NYT, em ingles: http://www.nytimes.com/2012/11/07/opinion/president-obamas-majority.html?hp&_r=0)

sábado, 3 de novembro de 2012

A esquerda derrotada - entrevista com Slavoj Zizek

Por Gianni Carta

Em recente jantar na Califórnia, o filósofo esloveno Slavoj Zizek levou um acompanhante, um compatriota fumante. O amigo quis fumar um cigarro na varanda. Diante da resposta negativa do anfitrião, o cidadão esloveno ofereceu a opção de fumar na rua, mas o ilustre anfitrião disse que isso “pegaria mal” para sua reputação nas redondezas. Em seguida, o anfitrião ofereceu uma rodada de drogas consideradas “não tão leves” para os convivas, escreve Zizek em seu novo livro, O Ano em Que Sonhamos Perigosamente (Boitempo, 144 págs., R$ 23).
 Drogas são mais perigosas do que fumar, o que está acontecendo neste mundo do politicamente correto?, pergunta Zizek. Ele mesmo responde: “Trata-se de um fenômeno lançado pelo mundo anglo-saxônico e isso tem uma dimensão de classe”. Em miúdos, os mais favorecidos doutrinam. Ao mesmo tempo, delineiam as diferenças entre o exagero de fumar um cigarro, um excesso, não um prazer, e o prazer de tomar uma droga, com moderação, é claro, que supostamente não provoca graves consequências.

O Ano em Que Sonhamos Perigosamente, em fase de lançamento no Brasil, é uma análise dos protestos que reverberaram de Túnis a Atenas em 2011. Para o autor, “embora os protestos sejam positivos, falta um programa”. Alma livre e espontânea, Zizek não prevê o futuro. Mas não deixa de ser iluminado. “Você pode”, diz Zizek, “canibalizar minhas respostas. Qualquer jornalista pode reproduzir o oposto do que eu lhe disse”. Não é o caso a seguir.

CartaCapital: Há diferentes circunstâncias nos protestos de 2011. Mas quais as semelhanças?
Slavoj Zizek: Não vejo semelhanças na patética maneira de ver as coisas da esquerda. Eles dizem que há um desejo de liberdade. A meu ver, todos esses movimentos reagem a diferentes aspectos do capitalismo global. E é por isso que esses movimentos são interessantes. Como sabemos, os liberais ocidentais dizem que os manifestantes mundo afora buscam uma democracia ocidental. Mas eu não acho que esse seja o caso. No Cairo, por exemplo, o objetivo era lutar contra as forças autoritárias. Além disso, não creio que o capitalismo gere uma demanda por uma democracia. Há diferentes tipos de democracias.

CC: Um exemplo seria a China?
SZ: A China é um sistema expansionista e dinâmico como países capitalistas do Ocidente. O sistema chinês é, no entanto, autoritário. O triste recado chinês é o seguinte: o capitalismo global será cada vez menos democrático. Imigrantes, que não estão integrados nas sociedades para as quais migram, são a prova. Em suma, mais capitalismo não resolverá esse problema. O problema é que os protestos de 2011 não oferecem uma resposta. Viajei mundo afora e me perguntei: “O que eles querem?” Não esperava um programa detalhado. Mas tudo o que você escuta dos manifestantes é uma crítica moralista: eles lutam contra a exploração e a corrupção. Querem uma volta de John Maynard Keynes, uma volta do Estado do Bem-Estar Social, controle de bancos, mais dinheiro para a saúde, a segurança e a educação. Ou seja, não há uma alternativa.
 Foto: Griszka Niewiadomski
CC: Mas há diferenças nas demandas dessas distintas revoluções. No seu livro­, o senhor argumenta que no Egito houve sólidas demandas seculares, e, ao mesmo tempo, em Wall Street não houve programa.
SZ: Sim, claro, há diferenças. Mas há semelhanças nessa emergente nação global. Mas, como em Wall Street, as coisas voltam ao normal no Cairo. Mesmo com 1 milhão de egípcios a manifestar na Praça Tahrir, é uma minoria. A maioria das revoluções foram assim. A revolução de outubro de 1917 é um exemplo. Lenin conseguiu o apoio de camponeses insatisfeitos com a Primeira Guerra Mundial, mas não da maioria da população russa. Portanto, não creio que a situação esteja pior atualmente. O problema é que não vejo como transformar os descontentamentos em organizações positivas. Estive na Grécia. Falei com muita gente, e me disseram que querem um capitalismo mais eficiente. Retruquei ser um objetivo difícil. A Grécia não tem uma estrutura para o tipo de capitalismo atual. No Brasil, em contrapartida, houve o Bolsa Família, que deu certo.

CC: O que o senhor acha do Bolsa Família?
SZ: O Bolsa Família foi um plano para redistribuir renda no País. Em miúdos, foi um plano para ajudar as pessoas com receitas inferiores.

CC: Quais as suas expectativas, e eis uma pergunta no mínimo difícil, para o mundo?
SZ: Não gosto da maneira como as coisas estão se desenvolvendo. O povo quer mudanças, mas a esquerda não tem opções para ele. O problema é que hoje agremiações de esquerda podem, ao contrário dos velhos tempos, chegar ao poder. Mas a esquerda está confusa.

CC: O senhor diz que essa esquerda tem um problema: ela moraliza.
SZ: Moralizar é sempre um sinal de derrota. Quando você precisa moralizar é porque você tem um problema real. Sempre desconfio de políticos que desconfiam de exploração financeira, especulação e banqueiros não honestos. Mas talvez devamos ser otimistas. A revolução no Egito não poderia ser o começo de algo novo?

CC: No seu livro, o senhor mencionou o discurso, no Cairo em 2009, de Barack Obama. Ele propôs uma solução de dois Estados, Palestina e Israel. Mas o senhor não opina a respeito.
SZ: Obama não é uma pessoa ruim. Esses esquerdistas como o ativista Tariq Ali estão errados sobre Obama. Tudo bem, Obama poderia ter feito mais em um senso radical, mas não pôde. Seu espaço sempre foi limitado. Obama é um político com boas intenções.

CC: Como reage quando críticos dizem que é um esquerdista populista?
SZ: A resposta está no livro Welcome To The Desert, pubicado no Brasil. Em Israel, fui considerado antissemita. E no Cairo me chamaram de propagandista. Fiquei contente. Quando os dois lados atacam é sinal de que você está no caminho certo. Sabe, quando eu era jovem, sonhávamos com um socialismo com rosto humano. Veja, o socialismo não funciona. E nem, acredito, na social-democracia. Portanto, a crise ­econômica de 2008 é uma grande ­derrota da ­esquerda. O motivo? A esquerda não tem opções para a crise.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-esquerda-derrotada/#.UISOtsR-FeR.facebook

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Direto de Philly - Philly de uma Égua

Por Lucas Barros

Acordei com uma ideia fixa: hoje é dia de votar! Só que não pra mim, temporariamente expatriado... Será que eu estaria empolgado assim no Brasil ou meu civismo aumentou só porque não posso votar mesmo? Idem no segundo turno, porque estarei ainda morando na Filadélfia, para onde mudei há cerca de um mês. Até julho do próximo ano ficarei pesquisando e estudando na Universidade da Pensilvânia. Neste período, serei o correspondente exclusivo e gratuito do Diumtudo para assuntos da América do Norte, ideia também exclusiva e gratuita do meu amigo Marvioli. Enviarei relatos de quando em vez – uma espécie de Jorge Não Muito Pontual – sobre diferentes assuntos, por exemplo...... hum... sei lá, depois a gente vê.

Posso começar pelas impressões iniciais do lugar? Posso. A Filadélfia combina ares de metrópole multiétnica moderna, cheia de imigrantes e universitários dos mais variados rincões – principalmente se os rincões forem da China – com os de cidade pequena e antiga, orgulhosa de ser o berço da república, ninho da águia americana.

O núcleo urbano é menor do que Fortaleza, mas a região metropolitana é bem grande e rica. Para quem mora no centro da cidade, como eu, é fácil andar a pé; o trânsito não é tão ruim quanto nas nossas metrópoles e o transporte coletivo é bastante bom (ressalva: ainda não andei na periferia).

Claro, também não faltam problemas. Pra começar, o povo daqui carece de uma boa reforma ortográfica. Eles ainda escrevem farmácia com PH e o nome da cidade tem dois PHs! Inaceitável para quem tanto preza a eficiência. No mais, diz-se que o melhor de Philly é mesmo ser perto de Nova Iorque, menos de duas horas de ônibus. Exagero. Tem muito o que fazer e ver por aqui, além das locações dos filmes do Rocky Balboa.

Filadélfia, em grego, quer dizer literalmente ‘amor fraternal’, explicou-me a Wikipedia. De fato, as pessoas costumam ser simpáticas (mas também não é esse amor todo!). Depois conto se a simpatia sobreviveu ao frio. Cheguei aqui no verão e agora estamos no Fall (outono), época em começam a cair a temperatura, as folhas e o astral dos moradores.

Voltando ao pleito, aqui também tem eleição – e com a campanha na reta final (taí um bom tema para uma próxima reportagem)! O curioso é que a disputa está acirradíssima, mas todo o embate se dá no mundo virtual da TV e da internet. Os discursos e debates são analisados exaustivamente, em geral sem qualquer pretensão de neutralidade ou isenção.

Por exemplo, o canal MSNBC apoia 100% os Democratas, enquanto a Fox News apoia 100% os Republicanos, sem concessões. Já nas ruas não se vê quase nada, nenhum cartaz, nenhum outdoor (digressão: outdoor aqui não chama outdoor e nem shopping center chama shopping center), raros adesivos, raríssimas camisetas. Também não vejo as pessoas discutindo política em lugares públicos. A única movimentação detectável é a dos voluntários convidando as pessoas a se alistarem para votar.

Não obstante, o mais chocante pra mim, vindo do Brasil, é a ausência completa dos carros de som gritando jingles de Obama ou de Mitt Romney. Que alívio.

Lucas Barros - é cearense e professor universitário em São Paulo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A DIREITA AMERICANA. A BRASILEIRA TAMBÉM.

Por Marcus Vinicius

A partir do excelente artigo de Plinio Bortolotti, http://diumtudo-marvioli.blogspot.com.br/2012/09/os-descartaveis-da-america.html publicado no O POVO de hoje, apresentamos a página da Mother Jones com  o vídeo e sua transcrição. O vídeo mostra como lá nos EUA, a direita e seu candidato pensam. Aqui, imagino que as posições e risadas, devem ser as mesmas.
E como sempre a grande imprensa nacional se cala. Aliás, ela representa os interesses da direita, of course.
E nós dando audiência ao JN.

Por David Corn

http://www.motherjones.com/politics/2012/09/watch-full-secret-video-private-romney-fundraiser







Os descartáveis da América

Por Plinio Bortolotti

Para quem ainda acredita que os conceitos de direita e esquerda são coisas do passado, a fala do candidato do Partido Republicano nos Estados Unidos, Mitt Romney, a um grupo de ricaços, doadores de sua campanha, pode soar como um choque.
Para Romney, 47% dos americanos - possíveis eleitores de Barack Obama - votarão na reeleição do presidente por serem "dependentes do governo”, que “não pagam impostos”. São pessoas “que acreditam que são vítimas, que o governo tem a responsabilidade de cuidar delas, que têm direito à assistência de saúde, a comida, a moradia e outras coisas”.

Continuou: “Meu trabalho não é me preocupar com essas pessoas. Nunca vou convencê-las de que devem assumir a responsabilidade e cuidar de suas vidas”. O problema para ele seria convencer cerca de 10% de eleitores
“independentes, racionais e responsáveis” a votar nele, de modo a completar a cota de votos que precisaria para superar o adversário.

Em uma leitura crua, Romney está dizendo que metade da população americana é descartável, que a sorte de milhões de pessoas não lhe diz respeito e nem a seu governo, se um dia ele chegar à presidência.

O critério de cidadania de Romney é o pagamento de impostos (apesar de ser óbvio que os pobres também o paguem - e nos Estados Unidos pagam mais do que os ricos). E, se você não paga imposto, se não é “produtivo”, lata do lixo para você.

Conceitualmente, esta é a característica da direita (no caso, uma direita fascista), a prevalência do individualismo, sem se importar com destino do semelhante: uma espécie de “luta de todos contra todos”. A esquerda, ao contrário, demanda pela igualdade, pela solidariedade, pela distribuição justa das riquezas, pela compaixão com o ser humano.

PS. O vídeo com a fala de Romney foi divulgado pela revista “Mother Jones”, da esquerda americana. Um trabalho de puro jornalismo, pois desnuda o que se esconde por trás do discurso público do candidato republicano. No Brasil, as publicações de esquerda costumam ter muito discurso e pouco jornalismo.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/09/20/noticiasjornalopiniao,2923131/os-descartaveis-da-america.shtml

domingo, 20 de novembro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Queima de arquivo

Por Waldemar Menezes

(trecho da coluna Concidadania - Jornal O POVO )

"A execução de Muammar Kadhafi, segundo é corrente nos meios informados, foi uma operação planejada com muita antecedência. As potências ocidentais não queriam que ele tivesse uma tribuna de onde pudesse falar sobre acertos constrangedores, no passado, com seus atuais carrascos. Quando foram encontrados os arquivos secretos, no seu palácio, revelando as operações conjuntas com serviços de inteligência dos Estados Unidos e países europeus, sua sentença de morte teria sido definida. Não se deveria dar oportunidade para ele revelar tais segredos diante de um Tribunal Penal Internacional. Daí porque os aviões da Otan foram empregados para matá-lo, quando fugia do cerco de seus inimigos num comboio. Caso escapasse, os rebeldes se encarregariam de completar o serviço - como de fato aconteceu. Só que a ação da Otan foi totalmente ilegal. Aliás, toda a sua intervenção, nos moldes em que se deu, violou os limites do mandato recebido do Conselho de Segurança da ONU. O cinismo e o descaramento, já observados no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão (vide a morte e o desaparecimento do cadáver de Osama Bin Laden) repetiram-se agora, na justificativa da operação contra o dirigente líbio.

Agora que Kadhafi foi acolhido (quer se queira ou não) no panteão dos mártires da causa árabe, se transformará, provavelmente, numa grande força simbólica a alimentar a luta dos que são movidos pela defesa do interesse nacional. Muito pior (do ponto de vista moral) do que o primitivismo de seu regime é o escândalo de se flagrar um Estado que se diz democrático e civilizado, como os EUA, torturando prisioneiros, instalando prisões clandestinas, bombardeando populações civis e liberando seu serviço secreto para assassinar desafetos (chefes de estado, lideranças políticas e comunitárias estrangeiras) sem que seus dirigentes sejam julgados por crimes contra a humanidade, como, aliás, pede a Anistia Internacional. Por que deixar de acentuar também que a Líbia apresentava o mais alto IDH da África (sem que isso absolva os crimes do regime derrubado)?"

Para ler a coluna Concidadania:

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quem matou o facínora ?

Por Celso Amorim


Naquele que viria a ser o seu último grande western, John Ford conta a história de um velho senador, Rance Stoddard (encarnado por James Stewart), que, acompanhado da esposa, Hallie (Vera Miles), viaja rumo a uma cidadezinha do Oeste americano para poder prestar a última homenagem a um velho amigo, recém-falecido, Tom Doniphon (John Wayne).


O filme logo nos transpõe, em um longo flash-back, para um período já distante, em que o então jovem advogado e futuro senador Stoddard, um tipo suave e urbano, chega ao vilarejo e conhece a bela Hallie, com quem viria mais tarde a se casar, mas que na época era a paquera de Tom, um sujeito rude, mas de bom caráter.

A rivalidade pela mocinha entre o brando e intelectualizado (para os padrões locais, bem entendido) Stewart e o caubói machão, vivido por Wayne, é sempre um subtema do filme, mas o verdadeiro enredo gira em torno da prepotência de um malfeitor que domina a cidade, Liberty (!) Valance.

Em razão de peripécias várias, em que questões de representação popular e liberdade de imprensa estão, de algum modo, envolvidas, o pacato Rance Stoddard é levado a um duelo com o violento Liberty. A cidade aguarda, aterrorizada, a morte certa do bom moço. Mas, miraculosamente, é ele quem mata o bandido e liberta os habitantes de um agente do mal.

Voltando à época atual, um velho jornalista (que fora ele próprio agredido e humilhado pelo bandido) conta a um foca a verdadeira versão. Não fora o mocinho da fita, mas o grosseiro, ainda que de boa índole, Tom (Os Brutos Também Amam, como filosoficamente afirmou o título em português de outro western famoso) quem, num misto de amor e desprendimento, além é claro de um sentido de defesa do bem comum, abatera o facínora. E o fizera escondido.

Diante da revelação inesperada, o jovem repórter, com seu zelo profissional pela verdade e a pureza da idade, pergunta se o público não teria o direito de conhecer os fatos tais como ocorreram, ainda que isso viesse a empanar o brilho da carreira do bem-sucedido senador, cujos primeiros passos estiveram ligados à improvável façanha. Ao que seu experiente colega responde, com proficiência paternal: “No Velho Oeste, há uma regra: quando o fato vira lenda, publique-se a lenda”.

O clássico de John Ford é uma metáfora quase perfeita de vários dos aspectos que cercaram a morte do arquiterrorista Osama bin Laden. Talvez a principal diferença seja a de que o personagem vivido por Lee Marvin (cuja curiosa alcunha era “liberdade”) estava armado e chegou a sacar do revólver. Entre os paralelos, o que mais salta aos olhos é a convicção de que a verdadeira justiça dispensa as formalidades de um julgamento.

Os bons e os justos sabem que o são, nasceram com essas virtudes, e o seu julgamento não falha: sabem também onde está o bem e onde está o mal. Não padecem de dúvidas hamletianas sobre a complexidade da existência humana. Rance Stoddard não o fez, mas poderia perfeitamente dizer depois de ter matado o facínora Valance (segundo ele cria, naquele momento): “Justice is done”. Ou, justiça foi feita. Seguramente foi esse o pensamento de todos os habitantes da cidadezinha de uma região onde não havia lugar para a ambiguidade moral (ou para uma “moral da ambiguidade”, como diria Simone de Beauvoir).

Tampouco deixa de chamar a atenção de quem acompanhou as reações iniciais ao momentoso feito, a questão, colocada de maneira talvez mais sutil, sobre quem foi o verdadeiro autor da façanha: o urbano, suave e pacifista presidente atual ou seu antecessor, cujo estilo e ideias, digamos assim, estavam mais próximos (até em razão de sua origem) do Velho Oeste. Quem foi o responsável pelo início da caçada, quem determinou ou aprovou os procedimentos ampliados ou aprimorados (enhanced) de investigação? E quem foi que disse, em tom de quem sabe perseguir uma causa justa, “nós o arrancaremos de sua toca” (we will smoke him out).

Tudo isso parece irrelevante quando o secretário-geral da ONU sacramenta do alto de sua autoridade moral de representante da Comunidade das Nações a ideia de que a justiça foi feita. Se for assim, pode alguém ingenuamente perguntar-se: para que tantos tribunais internacionais, tantos conselhos e comissões, já que a justiça pode ser obtida de forma tão mais simples e barata?

Em suma, para que relatores especiais sobre execução sumária, quando na verdade quem determina se um ato foi uma execução sumária ou a efetivação da justiça (natural, divina?) é seu próprio autor? Não entremos na discussão sobre a legalidade das ações recentes, à luz da Carta da ONU, da integridade territorial dos Estados ou das resoluções do Conselho de Segurança.

Supor que o direito à legítima defesa, para legitimar um ato praticado dez anos depois do que deu origem à reação, é esticar a corda um pouco demais. Como também é zombar da inteligência mesmo dos mais tolos e ingênuos sustentar que uma pessoa vivendo isolada do mundo, com algumas mulheres e filhos (e aparentemente se deleitando com filmes pornográficos), sem telefone ou internet, continuava a controlar a elaboração e execução de ações terroristas de alguma envergadura.

Certamente, ninguém, salvo os familiares mais próximos e alguns fanáticos, vai chorar a morte de Bin Laden. “O mundo tornou-se um lugar melhor com seu desaparecimento”, poderá alegar-se, o que de resto é verdade em relação a muitas outras pessoas, que nem por isso são abatidas sumariamente.

O que está em jogo são procedimentos de justiça interna e internacional, aquilo que os anglo-saxões chamam de due process. Com tantas outras situações no mundo, em que o vilão pode ser posto para correr (ou morrer), há razões para temer que o dito comum no faroeste sobre ladrões de gado passe a ser uma norma não escrita do Direito Internacional: “Enforque-se o cara, depois deem a ele um julgamento justo”.

Neste caso, aliás, a julgar pelo segredo em torno das fotos e a liberação altamente seletiva das informações, nem mesmo esse tipo de justiça póstuma deve ser esperada.


Celso Amorim

Celso Amorim é ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula. Formado em 1965 pelo Instituto Rio Branco, fez pós-graduação em Relações Internacionais na Academia Diplomática de Viena, em 1967. Entre inúmeros outros cargos públicos, Amorim foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco entre 1993 e 1995. Depois, no governo Fernando Henrique, assumiu a Chefia da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e em seguida foi o chefe da missão brasileira na Organização Mundial do Comércio. Em 2001, foi embaixador em Londres.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fabricar pretextos


Editorial do GRANMA

A Revolução cubana foi alvo de centenas de campanhas de desinformação, geralmente orquestradas pelo governo norte-americano, com a cumplicidade de aliados europeus e o concurso das poderosas forças e interesses que controlam os empórios da mídia, mas nada conseguiu desviar os cubanos de seus ideais de independência e socialismo, nem confundir os povos do planeta que, apesar de tudo, com sua sabedoria e instinto, descobrem qual a verdade.

São campanhas sem limite político nem ético, que chocam com a força moral de Cuba e somente maculam seus autores.

A manobra mais recente, procedente de seus "várias vezes premiados" informantes, se desfez em 72 horas. Os políticos mentirosos, os meios de imprensa que caluniaram por interesse político e os jornalistas que noticiaram um fato que não existiu, sem tentar fazer uma mínima confirmação, não deveriam ficar impunes. Pelo menos, deveriam confessar o erro e pedir desculpas à família, cujo funeral desrespeitaram.

Curiosamente, todos elem mantêm silêncio sobre o milhão de mortos civis no Iraque e no Afeganistão, que definem como "danos colaterais" e sobre as execuções extrajudiciais com aviões não tripulados em países soberanos.

Mantêm silêncio sobre o uso da tortura, ocultam a existência de cárceres secretos norte-americanos na Europa, dificultam a investigação dos crimes cometidos em Abu Ghraib e na base naval de Guantánamo, usurpada a Cuba, e dos vôos secretos da CIA com pessoas sequestradas em outros Estados.

Também não se comovem ante a forma brutal em que os governos na Europa descarregam as consequências da crise econômica nos mais pobres e nos imigrantes.

Olham para outro lado quando os desempregados e os estudantes são reprimidos com inusitada violência nessas sociedades opulentas.
Contudo, andam à caça de pretextos para atacar Cuba. E como não os encontram, então os fabricam.

Com grande desvergonha, batalharam por converter uma pancreatite em um assassinato político; uma justificada detenção policial de menos de três horas por alteração da ordem, sem o uso da força, em uma surra mortal; uma pessoa com cadastro policial, condenada a dois anos de prisão por delito comum, num dissidente político, vítima de longa condenação.

O povo compartilha o protesto da família pela campanha fabricada e a indignação dos médicos, praticamente acusados de cumplicidade num homicídio.

O mundo tem exemplos suficientes da vocação humanística dos nossos médicos que, sem pouparem energias e pondo em risco suas vidas, prestam seus serviços em todos os continentes.

O legislador David Rivera, célebre por corrupção eleitoral e por suas campanhas extremistas para eliminar o direito dos cubanos emigrados a viajarem a seu país, que há só umas semanas acusou o presidente Carter de ser "um agente cubano", afirmou sob juramento, no Congresso dos Estados Unidos, que o falecido "foi assassinado a pancadas e cacetadas no parque Vidal de Villa Clara, no domingo passado".

Nem sequer se incomodou em verificar que o homem esteve no parque, antes e depois da breve detenção, quinta-feira, 5 de maio, e não domingo, quando já estava hospitalizado. Não surpreende que minta, mas sim que o faça de maneira tão estúpida.

Um tal Salafranca, parlamentar europeu do Partido Popular, de muitos méritos anticubanos e pró-ianque, que diz que os relatórios sobre os vôos secretos da CIA não oferecem dados adicionais, e fecha os olhos para se abster ante qualquer condenação, afirmou no Parlamento Europeu que a pessoa "morreu depois de sua detenção e surra por parte da polícia cubana".

O jornal El País, da Espanha do Grupo Prisa e as confabulações do PP, publicou um artigo intitulado "Dissidente cubano morre depois de receber uma surra da polícia". O ABC, historicamente a serviço das piores causas, noticiou "Opositor cubano morre após uma surra da polícia castrista". Não lhes interessa confirmar a verdade dos supostos fatos e nem sequer se incomodam em dissimular o conluio com títulos diferentes.

Insolitamente, até o presidente Barack Obama, em Miami e ante uma pergunta da tendenciosa rede Univisón, embora dissesse que faltavam por precisar alguns detalhes, se pronunciou sobre os fatos do parque Vidal que jamais ocorreram.
É curioso que Obama, sempre tão ocupado, possa lembrar o caso de uma pessoa detida num parque cubano, que depois de algum tempo retornou ao lugar.

Contudo, ele não disse coisa alguma e possivelmente nem se lembre do rosto angustiado ou do relato da menina iraquiana Samar Hassan, publicado no jornal The New York Times, em 7 de maio passado, enquanto contava a terrível experiência do assassinato de seus pais por uma patrulha norte-americana, quando retornavam do hospital, após sarar as feridas de seu irmão.

Mas, no caso de Cuba, a pior falta não são as burdas mentiras que dia após dia se fabricam e reproduzem. O imperdoável é que se censurem as grandes verdades e a história dum povo heróico e bloqueado, capaz de atingir o que para a grande maioria da Humanidade ainda é um sonho.

No passado, tentaram isolar a Cuba ou provocar desordens internas para que se produzisse uma intervenção norte-americana. O que pretendem com estas campanhas? Somente denegrir ou algo pior? Será que os que mexem os fios e a seus empreiteiros internos lhes gostaria invocar a "proteção de civis" para bombardear Havana?

Nosso povo não se deixará confundir pelos contrarrevolucionários internos que buscam o pretexto da mídia, com o objetivo de promover um conflito com os Estados Unidos e saberá responder com serenidade e firmeza ante as ações destes mercenários.

Os argumentos da Revolução cubana não se fabricam como as mentiras dos nossos inimigos, se constroem com a dignidade e integridade do nosso povo que aprendeu que a verdade é a arma mais limpa dos homens. 
 

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Rosas de maio e de sangue

Por Aldir Blanc

Sabe aquele pessoal que toma a saideira no Sopão, da Pereira Nunes, não consegue dormir, e parte pra rondar o Momo, de manhã cedo? Já fui da turma. Soube que, no assassinato de Osama bin Laden, pintou uma certa confusão. É natural. A rapaziada ainda estava meio zonza, não havia tomado a vitamina de ovo e caracu, nem pingado fogo paulista — tem mel — na média, etc., etc.

A moçada estava lavando a serpentina quando espocaram as primeiras notícias:

Osama explodiu Osaka!

Obama matou o Obina!

Obina nasceu no Alabama!

Obama atacou a Brahma!

Osama de tanga em Copacabana!

O vice do Obama vai ser o Carvana!

Um bonobo traçou a Madonna!

Mourinho que vá pra Bafana-Bafana!

Até que um limão da casa e algumas Originais deixaram tudo claro-turvo: O Obama conseguira matar o Osama. Ufa!



Incrível. A Casa Branca não consegue tramar, durante 10 anos, um assassinato sem se contradizer. Primeira versão: “Obama estava armado e reagiu.” No dia seguinte: “Obama estava desarmado e levou, ao reagir (cuspindo?), um tiro no peito e um no rosto.”

Por que Osama não foi preso? Seria julgado e as promessas de campanha de seu quase xará pareceriam mais verdadeiras. Queimaram o arquivo Obama para que ele não falasse sobre a corrupção entre o governo Baby Bush e a família Bin Laden. O jornalista Willian J. Dobson, do “Washington Post”, escreveu: “Se ex-funcionários do alto escalão egípcio fossem obrigados a se defender durante um tribunal internacional, qual seria a probabilidade de manterem em segredo informações (sobre) o mandante dos crimes, principalmente em se tratando daqueles cometidos para atender aos interesses americanos?” Ou seja, Mubarak corre o risco de aparecer “suicidado”. Foi prática comum em nossa ignóbil ditadura.

Os levantes continuam na Síria. Assad, que é um aloíta (seita dentro da xiita), pode massacrar, usando tanques, insurgentes desarmados em várias cidades. A pergunta que não quer calar é: por que a capital de Assad, Damasco, não é bombardeada como Trípoli? A pergunta envolve a maior encrenca. O Hezbollah está, coberto pela Síria, no Líbano, atacando Israel, que, por sua vez, tem como líder um notório corrupto chamado Bibi...

Sobre o Bahrein, declarou Noam Chomsky à revista “Caros Amigos”: “Em relação ao Bahrein o que preocupa (...) é a Arábia Saudita. Teme-se que um levante xiita — que são maioria da população — se estenda ao leste da Arábia Saudita. Portanto nada pode acontecer lá.” Resumindo: insurgentes no Bahrein e na Arábia Saudita? Pau neles, com total consentimento dos Estados Unidos.

Hillária Clinton, secretária de Estado interessante, proclamou que na operação contra Bin Laden viveu os 38 minutos mais intensos de sua vida, muito melhores de que toda a atividade sexual com Bill.

Kadafi pode ser um “louco assassino”. Como devemos chamar os que incineraram seus três netos? O problema é que o Ocidente usa ditadores a seu bel-prazer, com um incrível cinismo, e os descarta quando não são mais úteis.

Patética a lamúria de Kadafi: “Cadê o meu amigo Berlusconi?” Ora, Kadafi, que pergunta idiota! Berlusca já mandou ampliar a casa de praia para receber as refugiadas menores de idade. Serão muito bem tratadas e a única obrigação delas será participar, com a presença de Ronaldinho Gaúcho, da folclórica dança do Bunga-Bunga. A filha do ítalo-bandido, namorada do jogador Pato, já o proibiu defrequentar o pagode:

— O ganso desse Pato é da minha marreca e galinha nenhuma tasca!

Sábio mesmo foi o sujeito que disse:

— Tinha medo de Osama e tenho medo de quem o matou.

Na verdade, o fim de Osama bin Laden é puro Nelson Rodrigues, sem gelo: mais cedo ou mais tarde, todo mundo é traído.

Inclusive nós, os que acreditamos. Num discurso, Obama foi aclamado ao proferir as palavras “os Estados Unidos não torturam”. Seu diretor da CIA e futuro secretário de Defesa, Leon Panetta, vulgo “Panettone”, admitiu que informações valiosas foram obtidas por métodos reforçados de interrogatório, o eufemismo americano para tortura.

Gore Vidal nos preveniu: não vai mudar nada. O governo do negro Obama passaria em brancas nuvens, não fosse o sangue vermelho de um terrorista.

ALDIR BLANC é compositor.

http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/o-globo/2011/05/08/rosas-de-maio-e-de-sangue-artigo-aldir-blanc

sábado, 7 de maio de 2011

O ASSASSINATO DE OSAMA BIN LADEN


Por Fidel Castro

 Os que se encarregam desses temas sabem que, em 11 de setembro de 2001, nosso povo ficou solidário com o dos Estados Unidos e ofereceu a modesta cooperação que no campo da saúde podíamos oferecer às vítimas do brutal atentado às Torres Gêmeas de Nova Iorque.

Também oferecemos de imediato as pistas aéreas do nosso país para os aviões norte-americanos que não tivessem onde aterrar, por causa do caos reinante nas primeiras horas após aquele golpe.

É conhecida a posição histórica da Revolução Cubana que sempre se opôs às ações que colocassem em perigo a vida de civis.

Partidários decididos da luta armada contra a tirania de Batista; éramos, no entanto, opostos por princípios a todo ato terrorista que ocasionasse a morte de pessoas inocentes. Tal conduta, mantida ao longo de mais de meio século, outorga-nos o direito de expressar um ponto de vista sobre o delicado tema.

Em um ato público maciço realizado na Cidade Esportiva expressei naquele dia a convicção de que o terrorismo internacional jamais seria resolvido mediante a violência e a guerra.
Na verdade, ele foi durante anos amigo dos Estados Unidos que o treinou militarmente, e foi adversário da URSS e do socialismo, mas quaisquer que fossem os atos atribuídos a Bin Laden, o assassinato de um ser humano desarmado e rodeado de familiares constitui um fato aborrecível. Aparentemente foi isso o que fez o governo da nação mais poderosa que jamais existiu.

O discurso elaborado com esmero por Obama para anunciar a morte de Bin Laden afirma: “…sabemos que as piores imagens são aquelas que foram invisíveis para o mundo. O assento vazio na mesa. As crianças que foram forçadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai. Os pais que nunca voltarão a sentir o abraço de um filho. Cerca de 3 000 cidadãos marcharam longe de nós, deixando um enorme buraco em nossos corações”.

Esse parágrafo encerra uma dramática verdade, mas não pode impedir que as pessoas honestas se lembrem das guerras injustas desatadas pelos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, das centenas de milhares de crianças que foram obrigadas a crescerem sem sua mãe ou seu pai, e aos pais que nunca voltariam a sentir o abraço de um filho.

Milhões de cidadãos marcharam longe de seus povos no Iraque, no Afeganistão, no Vietnã, Laos, no Camboja, Cuba e noutros muitos países do mundo.

Da mente de centenas de milhões de pessoas também não se apagaram as horríveis imagens de seres humanos que em Guantánamo, território ocupado de Cuba, desfilam silenciosamente submetidos durante meses e inclusive anos a insofríveis e enlouquecedoras torturas; são pessoas seqüestradas e transportadas a cárceres secretos com a cumplicidade hipócrita de sociedades supostamente civilizadas.

Obama não tem forma de ocultar que Osama foi executado na presença dos seus filos e esposas, agora em poder das autoridades do Paquistão, um país muçulmano de quase 200 milhões de habitantes, cujas leis têm sido violadas, sua dignidade nacional ofendida, e suas tradições religiosas ultrajadas.

Como impedirá agora que as mulheres e os filhos da pessoa executada sem Lei nem julgamento expliquem o acontecido, e as imagens sejam transmitidas ao mundo?

Em 28 de janeiro de 2002, o jornalista da CBS Dan Rather, difundiu por essa emissora de televisão que a 10 de setembro de 2001, um dia antes dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, Osama Bin Laden foi submetido a uma diálise do rim em um hospital militar do Paquistão. 
Não estava em condições de ocultar-se e proteger-se em profundas cavernas.
Assassiná-lo e enviá-lo às profundezas do mar demonstra temor e insegurança, tornam-no em uma personagem muito mais perigosa.

A própria opinião pública dos Estados Unidos, após a euforia inicial, terminará criticando os métodos que, em vez de proteger os cidadãos, terminam multiplicando os sentimentos de ódio e vingança contra eles.

Fidel Castro Ruz
4 de maio de 2011
20h34.