Por Marcus Vinicius
Melhor disco de 2014 - via APCA.
Encarnado de Juçara Marçal.
A Dora Moreira e Darwin Marinho.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Vou danado pra Carente
Via Dora Moreira
PUNHAL DE PRATA é um projeto dos músicos Alessandra Leão (PE) e Rafa Barreto (SP) que revisita a obra de Alceu Valença, lançada na década de 70, em meio à psicodelia do cenário Udigrudi pernambucano. O repertório foi montado à partir de quatro dos cinco discos lançados naquela década: Quadrafônico (Alceu Valença & Geraldo Azevedo, 1972), Molhado de Suor (1974), Vivo! (1976) e Espelho Cristalino (1977).
FICHA TÉCNICA:
Vou Danado pra Catende - Alceu Valença e Ascenso Ferreira
Direção Musical - Alessandra Leão e Rafa Barreto
Arranjo e execussão:
Alessandra Leão (voz)
Rafa Barreto (guitarra)
Caçapa (guitarra)
Missionário José (baixo)
Guilherme Kastrup (bateria)
Imagens e Edição - Thiago Duarte
Gravação e Mixagem - Estúdio Sabiá por Guilherme Destro "Guime"
Masterização - Mosh Estúdio por Guilherme Destro "Guime"
REALIZAÇÃO:
Garganta Records
Mosh Filmes
Estúdio Sabiá
PUNHAL DE PRATA é um projeto dos músicos Alessandra Leão (PE) e Rafa Barreto (SP) que revisita a obra de Alceu Valença, lançada na década de 70, em meio à psicodelia do cenário Udigrudi pernambucano. O repertório foi montado à partir de quatro dos cinco discos lançados naquela década: Quadrafônico (Alceu Valença & Geraldo Azevedo, 1972), Molhado de Suor (1974), Vivo! (1976) e Espelho Cristalino (1977).
FICHA TÉCNICA:
Vou Danado pra Catende - Alceu Valença e Ascenso Ferreira
Direção Musical - Alessandra Leão e Rafa Barreto
Arranjo e execussão:
Alessandra Leão (voz)
Rafa Barreto (guitarra)
Caçapa (guitarra)
Missionário José (baixo)
Guilherme Kastrup (bateria)
Imagens e Edição - Thiago Duarte
Gravação e Mixagem - Estúdio Sabiá por Guilherme Destro "Guime"
Masterização - Mosh Estúdio por Guilherme Destro "Guime"
REALIZAÇÃO:
Garganta Records
Mosh Filmes
Estúdio Sabiá
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
O cartaz, o preço os tocadores......Grande Baile Mambembe
O cartaz, o preço, os tocadores, o lugar.... corram ao baile do Mambembe...sem Dora.
"Ontem,
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.”
Mário Gomes do Maracatu: o poeta do sapato, divindade encarnada da explosão da linguagem, entrou na Domingos Olimpio e pôs todo o cordão na contramão. É a nossa loucura mais íntima, o mais lúcido e lírico alencarino, disposto a devorar todas as borboletas e arrotar os versos mais lúcidos do Norte-Nordeste nessa noite de carnaval.
texto e ilustração do Yuri Leonardo
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"Ontem,
Ao meio- dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.”
Mário Gomes do Maracatu: o poeta do sapato, divindade encarnada da explosão da linguagem, entrou na Domingos Olimpio e pôs todo o cordão na contramão. É a nossa loucura mais íntima, o mais lúcido e lírico alencarino, disposto a devorar todas as borboletas e arrotar os versos mais lúcidos do Norte-Nordeste nessa noite de carnaval.
texto e ilustração do Yuri Leonardo
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Luxo da Aldeia, num sábado de janeiro... (3)
Por Dora Moreira
Torci meu joelho em muito pré-carnaval, mas sempre que a dor e a agonia apertavam, eu pensava que tinha valido a pena. Sempre vale a pena, mas nunca valeu tanto quanto ontem (18/01). Não só pelo Moraes Moreira em si, mas por tudo que representa ele estar ali, dizendo que há três anos já escutava falar de uns meninos que faziam um carnaval de rua em Fortaleza.
Torci meu joelho em muito pré-carnaval, mas sempre que a dor e a agonia apertavam, eu pensava que tinha valido a pena. Sempre vale a pena, mas nunca valeu tanto quanto ontem (18/01). Não só pelo Moraes Moreira em si, mas por tudo que representa ele estar ali, dizendo que há três anos já escutava falar de uns meninos que faziam um carnaval de rua em Fortaleza.
Mais do que minha alegria em estar ali também, guardo a cara de "engolindo o choro" do Bruno Perdigão na hora que os balões voavam no ar, ainda no comecinho da noite; o sorriso escancarado (quem diria?) do Mateus Perdigão enquanto o Moraes Moreira recitava Os Novos Baianos e ele esperava pra tocar, acompanhado do ídolo, a música de sua namorada; a instigação do Tiago Porto gritando que 'é um verdadeiro enxame chame chame gente', sem saber o que fazer com tanta euforia.
Eu, que a essa altura já estava sentada às voltas com um saco de gelo, escutava da tia Silvinha a orgulhosa afirmação de que esse monte de gente não tava ali só por causa do Moraes não. Escutava do Seu Marcus, em meio a lagrimas de um e de outro, que nunca pensou que um simples almoço no Benfica poderia dar em tanta coisa.
A gente sabe (faz idéia) da dificuldade que é manter um projeto desse, ano após ano, quebrando cabeça pra descobrir as melhores formas, tomar as melhores decisões, fazer dinheiro render sem abrir mão do que se acredita. E a gente sabe que toda vida que toca Bloco do Susto e todo mundo despenca ou quando Terral 'quebra' e geral entra na quebradeira (fatídica) é um pouquinho de recompensa pra vocês.
Mas ontem parecia que ninguém queria que existisse nem palco, nem platéia: todo mundo se responsabilizava por fazer uma festa bonita, e todo mundo tava doido pra pular. É um sol pra cada um, mas a gente queria era brilhar agarrado. E ao final, o convidado, anfitrião do carnaval democrático, se emocionava com o tamanho da nossa festa e dizia, como que descansado, que agora Fortaleza tinha carnaval de rua.
Pois taí, o carnaval dentro da gente é tão grande que é recompensa até pro Moraes Moreira. E isso, junto com a multidão já gritando o refrão da música lançada semana passada, não tem pareia, já é motivo de existir o suficiente.
Eu, que a essa altura já estava sentada às voltas com um saco de gelo, escutava da tia Silvinha a orgulhosa afirmação de que esse monte de gente não tava ali só por causa do Moraes não. Escutava do Seu Marcus, em meio a lagrimas de um e de outro, que nunca pensou que um simples almoço no Benfica poderia dar em tanta coisa.
A gente sabe (faz idéia) da dificuldade que é manter um projeto desse, ano após ano, quebrando cabeça pra descobrir as melhores formas, tomar as melhores decisões, fazer dinheiro render sem abrir mão do que se acredita. E a gente sabe que toda vida que toca Bloco do Susto e todo mundo despenca ou quando Terral 'quebra' e geral entra na quebradeira (fatídica) é um pouquinho de recompensa pra vocês.
Mas ontem parecia que ninguém queria que existisse nem palco, nem platéia: todo mundo se responsabilizava por fazer uma festa bonita, e todo mundo tava doido pra pular. É um sol pra cada um, mas a gente queria era brilhar agarrado. E ao final, o convidado, anfitrião do carnaval democrático, se emocionava com o tamanho da nossa festa e dizia, como que descansado, que agora Fortaleza tinha carnaval de rua.
Pois taí, o carnaval dentro da gente é tão grande que é recompensa até pro Moraes Moreira. E isso, junto com a multidão já gritando o refrão da música lançada semana passada, não tem pareia, já é motivo de existir o suficiente.
Vamo pro mundo, Bloco Luxo da Aldeia!, que agora a gente já ganhou a benção.
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
"Em mim, a despeito de um dia difícil..."
Por Dora Moreira
Há uns quase oito anos, um primo e uns futuros amigos (que me apresentariam a Ladeira da Tia em Olinda) botaram na rua uma angústia em forma de idéia: em uma Fortaleza marcada por (sabe-se lá quantos) cordões de isolamentos, iam fazer um bloco de (pré) carnaval de rua. Mas iam fazer um bloco que nem saia do canto, nem contava com um garboso naipe de metais. E como para bom carnavalesco toda reinvenção é pouca, iam fazer um bloco só com canções, entre famosas e esquecidas, de compositores cearenses.
Sem pretensão de promover um grande 'resgate cultural' ou uma grande 'valorização da cultura popular cearense' e apostando, por outro lado, na recriação em arranjos e formatos, o bloco fez sua tradição e hoje, às 2h da manhã de uma quinta-feira de dezembro todo mundo, entre sóbrios e ébrios, despencou no calçadão de Iracema. Em mim, a despeito de um dia difícil, de coração triste e olhos rasos d'água, o corpo explodia de alegria e decretava: no carnaval de 2014, eu fico.
E é aos meninos do Bloco Luxo da Aldeia que eu agradeço não só pelos incontáveis carnavais do Benfica, mas principalmente por duas certezas que carrego no corpo: Fortaleza é massa e 'é no meio da rua que a gente começa'.
(E parece que, pra nossa sorte, dentro desses meninos passa uma rua onde é carnaval o ano todo.)
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
A cidade cai.
Por Yargo Gurjão e Roger Pires
Via Dora Moreira
Via Dora Moreira
Passo Torto/Passo Elétrico
No Mambembe - Comida e outras artes
Rua dos Tabajaras, 368, Fortaleza
Fortaleza, Setembro de 2013
No Mambembe - Comida e outras artes
Rua dos Tabajaras, 368, Fortaleza
Fortaleza, Setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
A Cidade Cai: Passo Torto pela primeira vez no Nordeste no projeto Arrebentação
Por Dora Moreira
O projeto Arrebentação nasce para dar vazão aos desencontros entre cidades que dividem um espaço só, entre o forte pulsar e a ânsia de crescer. Alimenta-se da arte criada nas oposições silenciosamente travadas entre asfalto e mar, concreto e poesia. O projeto surgiu do pensar e sentir a relação entre as cidades e seus cidadãos, que diariamente se equilibram na corda bamba desses confrontos, abrindo espaço para a produção artística contemporânea que reverbera quaisquer sentimentos que caibam nesses embates.
A primeira edição de Arrebentação, projeto do Mambembe – Comida e Outras Artes, traz pela primeira vez à Fortaleza a alma transbordada em Passo Elétrico, segundo álbum do grupo paulistano Passo Torto. O disco oferece, em uma polifonia de sensações, um passeio pelo caos do mundo que pulsa nas cidades, nas mentes, nas pontas dos dedos e nos nós atados na garganta.
Em Passo Elétrico, o grupo Passo Torto, formado pelos músicos e compositores Rômulo Fróes (voz e violão), Rodrigo Campos (guitarra, cavaquinho e voz), Kiko Dinucci (guitarra e voz) e Marcelo Cabral (baixo acústico e voz), troca o acústico do primeiro disco homônimo, lançado em 2011, pela busca de novas sonoridades com o auxílio das vibrações fortes de guitarras e distorções de pedais, ainda que sem perder as vozes melódicas dos instrumentos. Passo Elétrico, assim como o primeiro álbum, é construído da arquitetura rítmica dos instrumentos de corda e é perpassado pelo incômodo e pelo ruído da transformação desordenada da cidade de São Paulo.
Os ingressos para o show do Passo Torto no Arrebentação #1, no dia 13 de setembro, às 21h, são limitados e já estão à venda no local. O evento ocorrerá no Mambembe – Comida e Outras Artes, espaço instalado na Praia de Iracema desde abril de 2013 e que vem crescendo junto ao público com uma programação artística que passa por shows, exposições e exibições de filmes, além de um restô de culinária contemporânea e um bar festivo.
Após o show, a noite continua com a festa Arrebentação, com Kiko Dinucci, Darwin marinho (fertinha) e Tiago Porto (Luxo da Aldeia) em uma discotecagem afro-latino-brasileira.
Serviço
Arrebentação #1 – Show do Passo Torto
Data: 13 de setembro
Horário: 21h
Local: Mambembe – Comida e Outras Artes - Rua Tabajaras 368 - Praia de Iracema - Foraleza
Serviço
Arrebentação #1 – Show do Passo Torto
Data: 13 de setembro
Horário: 21h
Local: Mambembe – Comida e Outras Artes - Rua Tabajaras 368 - Praia de Iracema - Foraleza
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Mas não consegui fazer a leitura que todos fizeram.
Via Dora Moreira
Por Yan Boechat
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=636061849755329&set=a.143466532348199.22136.100000545587536&type=1&theater
Por Yan Boechat
Na quinta-feira eu cheguei em casa um pouco depois das 10:30 da noite. Cheguei excitado com o que havia acontecido nas cinco horas anteriores em São Paulo e certo de que a série de protestos iniciado na semana anterior atingira um novo estágio. Pela primeira vez eu vi, naquela noite, as pessoas enfrentando a polícia com paus, pedras e garrafas e se recusando simplesmente a aceitar as imposições das forças de repressão. Não estou me referindo a pequenas barricadas feitas de lixo ou mesmo a estratégia de dispersão e reagrupamento. Estou falando de embate, de ter coragem para chegar lá perto do choque com pedras e garrafas para mostrar que as bombas e as balas de borracha não eram o bastante para intimidá-los.
Mas não consegui fazer a leitura que todos fizeram. Eu sinceramente não cheguei em casa com a sensação de que a Polícia Militar havia passado dos limites, que estava sem controle ou mesmo agindo de uma forma diferente do que se esperava dela. Nos últimos dois dias fiquei aqui questionando minha capacidade como jornalista. Será que a notícia passou diante de mim encilhada em um cavalo branco e eu simplesmente não a vi? Será que estive nos lugares errados? Será que não rodei pela cidade como eu deveria ter rodado? Será, afinal de contas, que eu havia perdido a sensibilidade de perceber o que estava ocorrendo diante de mim?
Tenho feito essas perguntas desde sexta-feira, quando a biruta ideológica que dita os rumos das coberturas jornalísticas na grande imprensa virou abruptamente. Comecei a relembrar os momentos daquelas cinco horas para tentar entender onde eu havia errado. Eu estava exatamente onde tudo começou, como quase todos os jornalistas que acompanhavam a manifestação. Presenciei, a menos de cinco metros, os policiais do Choque atirarem balas de borracha e bombas a esmo na esquina da Consolação com a Maria Antônia. Exatamente ali, eu e um grupo de, não sei, talvez 10 fotógrafos, fomos alvo desses mesmos policias. Atiraram contra nós, jogaram bombas de efeito moral e bombas de gás, uma delas, inclusive, atingiu minha perna. Há um vídeo circulando no Facebook mostrando esse momento.
Quando atravessei a rua e fiquei atrás de um ônibus fotografando, voltaram a mirar em nós, fotógrafos. Ao meu lado, um colega, que agora soube ser da Folha, foi atingido na virilha por uma bala de borracha. Na Augusta, vi os policiais atirarem a esmo nas pessoas. Vi uma senhora que tomou um tiro no pescoço ao sair da igreja. Ali também, ao lado de um das viaturas, ouvi pelo rádio um outro policial explicando que estavam encurralando os manifestantes na Avenida Angélica e que eles agora iam “se foder”.
Lá na Angélica, com o trânsito em direção à Paulista parado, vi os policiais criarem uma chuva de bombas de gás, que caiu sobre as pessoas que estavam em seus carros e nas centenas de manifestantes que desciam a avenida. Lá, também, vi um soldado mirar em um grupo de umas cinco garotas que pareciam ter desistido do protesto e atirar, de perto. Na Rua Sergipe um morador de quase uns cinquenta anos, talvez, pedia calma aos policiais, pedia que parassem com as bombas porque havia muitas pessoas idosas ali. Um dos soldados lhe apontou a escopeta e disse: “Vai dormir antes que sobre pra você”.
Ainda assim, depois de assistir a tudo isso, não cheguei em casa com a sensação de que a Polícia Militar havia exagerado. Hoje, 48 horas depois de um intenso bombardeio de informações, relatos, opiniões e imagens, cheguei a uma conclusão estranha. Acho que não vi notícia passar encilhada porque é assim que conheço a polícia, desde a minha infância, e é isso que sempre esperei e espero dela. Nunca poderia imaginar situação diferente do que houve na quinta-feira.
Sou do subúrbio do Rio de Janeiro, mais especificamente de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Passei parte da minha infância e adolescência lá. Morei também em Duque de Caxias, também baixada Fluminense, e os bairros da Zona Norte Carioca forjaram o jovem que fui. Até hoje conheço pouco o Rio que todo mundo conhece. O da Zona Sul. Lá no subúrbio sempre foi assim. Quer dizer, nunca tive uma escopeta armada com balas de borracha apontada pra minha cara. Mas já tive, algumas vezes, revólveres, pistolas e também escopetas apontados pra mim. Todos eles carregados com munição letal. Em todas as vezes que fui abordado pela polícia, seja no centro do Rio após sair de um show na Lapa, seja voltando pra casa com alguns amigos, nunca houve cordialidade. Nunca houve tratamento digno.
Lá em Nova Iguaçu, onde meu pai mora até hoje, nunca vi muita polícia, na verdade. Os policiais que moram no bairro sempre se encarregaram de fazer a Justiça por ali. Agora mesmo, em 2013, um deles, que foi meu amigo de infância, que jogou bola comigo, é um dos matadores oficiais de lá. Ali ele é o Estado. Investiga, julga e executa. Ali, diferente daqui, tem pena de morte. E todo mundo acha normal. Dia desses, visitando meu pai, ele me contava que havia poucas semanas esse meu amigo havia feito uma “limpa” no bairro, eliminando os pequenos assaltantes que não compreendem que roubar em bairro de pobre é algo que ultrapassa qualquer limite moral até para os amorais. “É a barbárie”, dizia meu pai. “Mas é a única maneira de as coisas se manterem tranquilas”.
Eu não sou um conhecedor da periferia de São Paulo. Fui poucas vezes nas “quebradas” e tenho poucos amigos lá. Desde que me mudei pra cá, há quase 15 anos, cruzei a fronteira que divide “nós” e “eles”. Sou classe média alta, burguesa e até fiquei mais branco. No último senso, o entrevistador não queria aceitar que eu me declarasse pardo, apesar da cor da minha pele mostrar a mestiçagem de índio, negro e europeu da qual sou feito. Não fui mais parado pela polícia e a truculência das forças de segurança só senti nas vezes que fui aos estádios ver o meu glorioso Flamengo ou alguns clássicos paulistas.
Mas, mesmo do lado de “cá”, polícia sempre foi sinônimo disso: de injustiça, de agressão, de repressão, principalmente contra quem está do lado de “lá”. Lá, na periferia, como chamam aqui, ou no subúrbio, como chamamos no Rio, não há bomba de gás lacrimogêneo nem de efeito moral. As balas matam. Só no ano passado 323 pessoas morreram oficialmente em confrontos com a Polícia aqui em São Paulo. No mês de outubro, no auge da guerra entre a PM e o PCC, mais de 170 pessoas foram assassinadas na região metropolitana, boa parte delas por “grupos de extermínio”. Não precisa ir longe. Basta assistir ao programa Polícia 24 Horas, exibido pela TV Bandeirantes, para ter uma idéia de como é a relação dos que vivem do lado de “lá” com a polícia.
Só no ano passado, centenas de famílias perderam pais, irmãos, filhos, gente querida, que para nós, do lado de “cá”, são só números, mas que do lado de lá são muito importantes. Há quem afirme que só conseguimos sentir compaixão por aqueles que nos são semelhantes. Isso explicaria porque os alemães massacraram com tanta crueldade os judeus, porque a comunidade internacional permitiu o genocídio de Ruanda ou porque os europeus escravizaram os negros e os tratavam como animais. Explica também, eu acho, a comoção que sentimos ao ver jovens encurralados tomando tiros de borracha e não conseguimos expressar tamanha revolta ao saber que centenas de jovens foram mortos nas periferias sem terem feito nada, absolutamente nada, para serem sumariamente executados.
Não sei, talvez eu esteja buscando explicações por eu não ter conseguido ver o que todos viram. Pode ser. E não estou, de maneira alguma, querendo dizer que as pessoas que foram agredidas pela polícia merecem menos solidariedade, respeito e civilidade. Mas eu espero genuinamente que os do lado de “lá” se unam aos do lado de “cá” na segunda-feira com a demanda para que nós tentemos, ao menos, nos enxergar como iguais e, se isso não for possível, que ao menos o Estado o faça. Por bem ou por mal.
Mas não consegui fazer a leitura que todos fizeram. Eu sinceramente não cheguei em casa com a sensação de que a Polícia Militar havia passado dos limites, que estava sem controle ou mesmo agindo de uma forma diferente do que se esperava dela. Nos últimos dois dias fiquei aqui questionando minha capacidade como jornalista. Será que a notícia passou diante de mim encilhada em um cavalo branco e eu simplesmente não a vi? Será que estive nos lugares errados? Será que não rodei pela cidade como eu deveria ter rodado? Será, afinal de contas, que eu havia perdido a sensibilidade de perceber o que estava ocorrendo diante de mim?
Tenho feito essas perguntas desde sexta-feira, quando a biruta ideológica que dita os rumos das coberturas jornalísticas na grande imprensa virou abruptamente. Comecei a relembrar os momentos daquelas cinco horas para tentar entender onde eu havia errado. Eu estava exatamente onde tudo começou, como quase todos os jornalistas que acompanhavam a manifestação. Presenciei, a menos de cinco metros, os policiais do Choque atirarem balas de borracha e bombas a esmo na esquina da Consolação com a Maria Antônia. Exatamente ali, eu e um grupo de, não sei, talvez 10 fotógrafos, fomos alvo desses mesmos policias. Atiraram contra nós, jogaram bombas de efeito moral e bombas de gás, uma delas, inclusive, atingiu minha perna. Há um vídeo circulando no Facebook mostrando esse momento.
Quando atravessei a rua e fiquei atrás de um ônibus fotografando, voltaram a mirar em nós, fotógrafos. Ao meu lado, um colega, que agora soube ser da Folha, foi atingido na virilha por uma bala de borracha. Na Augusta, vi os policiais atirarem a esmo nas pessoas. Vi uma senhora que tomou um tiro no pescoço ao sair da igreja. Ali também, ao lado de um das viaturas, ouvi pelo rádio um outro policial explicando que estavam encurralando os manifestantes na Avenida Angélica e que eles agora iam “se foder”.
Lá na Angélica, com o trânsito em direção à Paulista parado, vi os policiais criarem uma chuva de bombas de gás, que caiu sobre as pessoas que estavam em seus carros e nas centenas de manifestantes que desciam a avenida. Lá, também, vi um soldado mirar em um grupo de umas cinco garotas que pareciam ter desistido do protesto e atirar, de perto. Na Rua Sergipe um morador de quase uns cinquenta anos, talvez, pedia calma aos policiais, pedia que parassem com as bombas porque havia muitas pessoas idosas ali. Um dos soldados lhe apontou a escopeta e disse: “Vai dormir antes que sobre pra você”.
Ainda assim, depois de assistir a tudo isso, não cheguei em casa com a sensação de que a Polícia Militar havia exagerado. Hoje, 48 horas depois de um intenso bombardeio de informações, relatos, opiniões e imagens, cheguei a uma conclusão estranha. Acho que não vi notícia passar encilhada porque é assim que conheço a polícia, desde a minha infância, e é isso que sempre esperei e espero dela. Nunca poderia imaginar situação diferente do que houve na quinta-feira.
Sou do subúrbio do Rio de Janeiro, mais especificamente de Nova Iguaçu, baixada fluminense. Passei parte da minha infância e adolescência lá. Morei também em Duque de Caxias, também baixada Fluminense, e os bairros da Zona Norte Carioca forjaram o jovem que fui. Até hoje conheço pouco o Rio que todo mundo conhece. O da Zona Sul. Lá no subúrbio sempre foi assim. Quer dizer, nunca tive uma escopeta armada com balas de borracha apontada pra minha cara. Mas já tive, algumas vezes, revólveres, pistolas e também escopetas apontados pra mim. Todos eles carregados com munição letal. Em todas as vezes que fui abordado pela polícia, seja no centro do Rio após sair de um show na Lapa, seja voltando pra casa com alguns amigos, nunca houve cordialidade. Nunca houve tratamento digno.
Lá em Nova Iguaçu, onde meu pai mora até hoje, nunca vi muita polícia, na verdade. Os policiais que moram no bairro sempre se encarregaram de fazer a Justiça por ali. Agora mesmo, em 2013, um deles, que foi meu amigo de infância, que jogou bola comigo, é um dos matadores oficiais de lá. Ali ele é o Estado. Investiga, julga e executa. Ali, diferente daqui, tem pena de morte. E todo mundo acha normal. Dia desses, visitando meu pai, ele me contava que havia poucas semanas esse meu amigo havia feito uma “limpa” no bairro, eliminando os pequenos assaltantes que não compreendem que roubar em bairro de pobre é algo que ultrapassa qualquer limite moral até para os amorais. “É a barbárie”, dizia meu pai. “Mas é a única maneira de as coisas se manterem tranquilas”.
Eu não sou um conhecedor da periferia de São Paulo. Fui poucas vezes nas “quebradas” e tenho poucos amigos lá. Desde que me mudei pra cá, há quase 15 anos, cruzei a fronteira que divide “nós” e “eles”. Sou classe média alta, burguesa e até fiquei mais branco. No último senso, o entrevistador não queria aceitar que eu me declarasse pardo, apesar da cor da minha pele mostrar a mestiçagem de índio, negro e europeu da qual sou feito. Não fui mais parado pela polícia e a truculência das forças de segurança só senti nas vezes que fui aos estádios ver o meu glorioso Flamengo ou alguns clássicos paulistas.
Mas, mesmo do lado de “cá”, polícia sempre foi sinônimo disso: de injustiça, de agressão, de repressão, principalmente contra quem está do lado de “lá”. Lá, na periferia, como chamam aqui, ou no subúrbio, como chamamos no Rio, não há bomba de gás lacrimogêneo nem de efeito moral. As balas matam. Só no ano passado 323 pessoas morreram oficialmente em confrontos com a Polícia aqui em São Paulo. No mês de outubro, no auge da guerra entre a PM e o PCC, mais de 170 pessoas foram assassinadas na região metropolitana, boa parte delas por “grupos de extermínio”. Não precisa ir longe. Basta assistir ao programa Polícia 24 Horas, exibido pela TV Bandeirantes, para ter uma idéia de como é a relação dos que vivem do lado de “lá” com a polícia.
Só no ano passado, centenas de famílias perderam pais, irmãos, filhos, gente querida, que para nós, do lado de “cá”, são só números, mas que do lado de lá são muito importantes. Há quem afirme que só conseguimos sentir compaixão por aqueles que nos são semelhantes. Isso explicaria porque os alemães massacraram com tanta crueldade os judeus, porque a comunidade internacional permitiu o genocídio de Ruanda ou porque os europeus escravizaram os negros e os tratavam como animais. Explica também, eu acho, a comoção que sentimos ao ver jovens encurralados tomando tiros de borracha e não conseguimos expressar tamanha revolta ao saber que centenas de jovens foram mortos nas periferias sem terem feito nada, absolutamente nada, para serem sumariamente executados.
Não sei, talvez eu esteja buscando explicações por eu não ter conseguido ver o que todos viram. Pode ser. E não estou, de maneira alguma, querendo dizer que as pessoas que foram agredidas pela polícia merecem menos solidariedade, respeito e civilidade. Mas eu espero genuinamente que os do lado de “lá” se unam aos do lado de “cá” na segunda-feira com a demanda para que nós tentemos, ao menos, nos enxergar como iguais e, se isso não for possível, que ao menos o Estado o faça. Por bem ou por mal.
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terça-feira, 18 de junho de 2013
Carta Aberta aos reaças: "Mas se não abrir comigo, não vou"
Não, não tem só um lado, não é uma insatisfação só e a gente não vai fazer protesto sem baderna e nem vai assinar impeachment da presidenta pra vocês colocarem a extrema direita na presidência.
Globo, a gente não tá lutando "contra corrupção, superfaturamento e outros problemas do Brasil", e Jabor, você não tem desculpas a pedir, a gente discorda.
0,20 centavos exclui mais uma parcela da população do transporte público e a tarifa tem que baixar sim.
Ah, Paulo Vilhena, o que aconteceu na Paulista acontece na favela todo dia, não foi inédito e vocês tavam todos de olhos fechados até a truculência da PM bater na porta (ou na repórter) de vocês. E agora, a gente vai lutar pela desmilitarização da PM ou vai fazer foto de olho roxo até a poeira baixar?
Eu tô no mundo por um transporte público de qualidade, pela distribuição de renda, pelo direito à moradia, pela desmilitarização da polícia. Eu tô na rua porque se a gente quer mudança, tem que sair da zona de conforto, tem que olhar no olho e não ter medo. Mentira. Eu tô na rua faz é tempo porque eu gosto. De rua, de gente, de carnaval, de manifestação. E não me apavoro, porque eu teria pavor de ter medo da minha cidade. Tô na rua com um monte de gente. Anarquistas, psolistas, petistas, hippies. Uma galera.
Ninguém tava até anteontem trancado no sofá fingindo que não era com a gente e só quem dormia tranquilo aqui era vocês. A gente tem muito o que melhorar e essa provavelmente não é a revolução, mas vocês não vão, de novo, fazer a revolução antes que o povo a faça.
Se quiser mudar e vir pra rua, vem, vai ser massa. Mas vem viver a rua, não vem esvaziando nem despolitizando o que já tá confuso. Se for amanhã, não é pra falar de medo e pavor. E se vier com história de redução da maioridade penal vai levar chulipa.
Ah, Paulo Vilhena, o que aconteceu na Paulista acontece na favela todo dia, não foi inédito e vocês tavam todos de olhos fechados até a truculência da PM bater na porta (ou na repórter) de vocês. E agora, a gente vai lutar pela desmilitarização da PM ou vai fazer foto de olho roxo até a poeira baixar?
Eu tô no mundo por um transporte público de qualidade, pela distribuição de renda, pelo direito à moradia, pela desmilitarização da polícia. Eu tô na rua porque se a gente quer mudança, tem que sair da zona de conforto, tem que olhar no olho e não ter medo. Mentira. Eu tô na rua faz é tempo porque eu gosto. De rua, de gente, de carnaval, de manifestação. E não me apavoro, porque eu teria pavor de ter medo da minha cidade. Tô na rua com um monte de gente. Anarquistas, psolistas, petistas, hippies. Uma galera.
Ninguém tava até anteontem trancado no sofá fingindo que não era com a gente e só quem dormia tranquilo aqui era vocês. A gente tem muito o que melhorar e essa provavelmente não é a revolução, mas vocês não vão, de novo, fazer a revolução antes que o povo a faça.
Se quiser mudar e vir pra rua, vem, vai ser massa. Mas vem viver a rua, não vem esvaziando nem despolitizando o que já tá confuso. Se for amanhã, não é pra falar de medo e pavor. E se vier com história de redução da maioridade penal vai levar chulipa.
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