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quarta-feira, 28 de março de 2012

CORDEL - AS ARMADILHAS DAS CISTERNAS DE PLÁSTICO

Rogaciano Oliveira
Por Rogaciano Oliveira
rogacianoo@gmail.com


AS ARMADILHAS DAS CISTERNAS DE PLÁSTICO

Conviver no semi-árido
Com paz e dignidade,
Água, terra e alimento
Uma vida de verdade
Sem pobreza e sem miséria
Uma outra realidade.

Durante quase dez anos
Tem sido essa a missão
Da ASA que demonstrou
Que a articulação
Por uma vida mais digna
Transformou a região.

A Articulação no
Semi-Árido brasileiro
ASA, como é conhecida
Com um programa pioneiro
Conviver no semi-árido
Objetivo primeiro.

A construção de cisternas
De placas, uma novidade
Que permite acumular
Uma água de qualidade
Para que cada família
Tenha mais dignidade.

Uma importante estratégia
Pra conviver no sertão
Da água que vem da chuva
Fazer a captação
Numa cisterna de placas
Guardar para outra estação.

Tornou-se política pública
Pelo governo, adotada
Essa tecnologia
Foi logo disseminada
Meio milhão de cisternas
Com água acumulada.

E a cisterna calçadão
Outra tecnologia
Que permite a população
De uma forma mais sadia
Segurança alimentar
Respeito e autonomia.

A Asa vem construindo
Quase quatrocentos mil
Cisternas de placas que
Vem transformando o perfil
E revolucionando o
Semi-Árido do Brasil.

Com a cisterna em casa
Mulheres têm atitude
Bebendo água potável
E as crianças com saúde
Sem andar quase uma légua
Prá pegar água em açude.

A estratégia da ASA
Não é só a construção
Das cisternas, mas também
Um Programa de Formação
E Mobilização Social
Prá conviver no sertão.

As famílias no processo
Tem todo envolvimento
Pedreiros, capacitados
Ganhando conhecimento
E toda a comunidade
Com seu empoderamento. 

Sem esquecer a gestão
E o controle social
Dos recursos hídricos, que
É coisa essencial
Lembrando que a água é
Um recurso natural.

Esse trabalho da ASA
Teve reconhecimento
Do ex-presidente Lula
Que com seu desprendimento
Premiou este programa
Pelo seu merecimento. 

Porém, esta experiência
Está hoje ameaçada
Pela cisterna de plástico
De PVC fabricada
Por uma empresa privada
Que não quer saber de nada.

O programa água para todos
Que Dilma quer implantar
Define que as cisternas
Vai se universalizar
Porém, o processo é outro
Sem o povo participar.

Cisternas serão de plástico
De PVC construída
Fabricada por empresas
De forma não sugerida
A empresa é quem faz tudo
A população excluída.

As técnicas de construção
Uma empresa é quem domina
A família só recebe
Sem participar da sina,
Com os princípios democráticos
Essa prática não combina.

A cisterna de PVC
Sai por um custo elevado
Custa o dobro que o de placas
Além de deixar de lado
Pedreiros, pois o recurso
Para a empresa é repassado.

A experiência comprova:
Essa cisterna é inconstante
Muitas delas derreteram
Duma forma extravagante
Não suportaram o calor
Do nosso sol causticante.

Por isso nós somos contra
As cisternas de PVC
Cujo processo é fechado
Exclui ela, eu e você
Das decisões de empresários
A gente fica à mercê.

O povo sem participar
Famílias sem autonomia
Dependendo das empresas
Pois a tecnologia
Dessas cisternas de plástico
Nega a soberania.

Vamos lutar pra que Dilma
Que é nossa presidenta
Não apóie esse projeto
Que exclui e que concentra
Cisterna antiecológica.
O povo não aguenta.

É lamentável o governo
Descartar a ASA agora
Rompendo essa parceria
Todo processo ignora
Negando uma caminhada
De quase dez anos à fora.

Assim pode se apagar
Da noite para o dia
Exitosa experiência
Que tanta coisa irradia
Participação social,
Respeito e cidadania.

Lutamos pela defesa
De mais participação
As famílias envolvidas
Discutindo a gestão
Dos nossos recursos hídricos
Numa nova dimensão.

Por isso nós somos contra
E devemos protestar
Porque o capitalismo
Só quer é nos explorar
Essas cisternas de plástico
Precisamos rejeitar.

Queremos é construir
Um semi-árido mais justo
Com paz e solidariedade
Para vivermos sem susto
Sem a idéia mesquinha
Do lucro a qualquer custo.

Lutar por água e por vida 
É nossa principal ação 
Que o tema semi-árido 
Esteja na educação 
Difundir as experiências 
De conviver no sertão. 

Se quiser ser sustentável 
Qualquer proposta ativa 
Promove a cidadania 
Com ação educativa, 
Atitude democrática, 
Gestão participativa. 

Conviver no semi-árido 
É possível e é viável 
Com água de qualidade 
E alimento saudável 
Construindo dia-a-dia 
Um planeta sustentável. 

Seguiremos nessa luta
Contra a opressão terrível
Conquistar nossos direitos
É nosso sonho plausível;
Uma nova sociedade,
De justiça e igualdade:
Um outro mundo é possível.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Inversão de valor: quando a cisterna vira mercadoria

Por Verônica Pragana

As cisternas construídas no Semiárido vêm passo-a-passo conquistando a sociedade brasileira e se firmando no país com um indiscutível valor social e político para a vida das famílias. Desde o ano passado, porém, elas passaram a agregar outro valor: o de mercado. Depois que o governo federal decidiu que compraria 300 mil cisternas de plástico no valor unitário de R$ 3.510,00, vender o reservatório virou uma ótima oportunidade de fechar negócios milionários com recursos públicos.
Em depoimento para o site da revista Carta Capital, Amaury Ramos, diretor comercial da Acqualimp, empresa do grupo mexicano Rotoplas, contratada pelo Ministério da Integração Nacional para fabricação de 60 mil cisternas no valor R$ 210 milhões, disse o seguinte: “É um mercado que nos interessa muito e estamos atentos para novos contratos”. O texto abre outra aspa para o diretor: “É o maior programa de compra de sistemas de abastecimento de água no mundo. Nada chega próximo ao volume que o governo pretende comprar”.

Cisterna construída pela comunidade
Cisternas construída pela comunidade

A possibilidade de garantir a sua parcela na fabricação das outras 240 mil cisternas vem atiçando também as empresas nacionais. A FortLev, por exemplo, desde outubro do ano passado vem doando reservatórios, com as mesmas especificações indicadas pelo governo federal, nas comunidades rurais do Semiárido e garantindo a divulgação da ação.

Em janeiro passado, o site da empresa Comunique-se, que atua no ramo de comunicação empresarial, noticiou a doação de 20 cisternas da FortLev para a comunidade indígena Xucuru, no sertão pernambucano, dois meses depois de fazer outra doação para as famílias do povoado de São José, localizado no município de Capim Grosso, na Bahia. “A previsão da empresa é expandir o projeto, atendendo a mais municípios em todo o Brasil durante 2012 como parte de seus programas na área social”, anuncia o texto publicado no site da Comunique-se.

Além dos fabricantes dos reservatórios, os benefícios se estendem também para outros ramos, como o petroquímico. A Braskem, maior indústria deste setor das Américas e produtora de itens de plástico, é citada no texto de Clara Roman no site da Carta Capital como fornecedora de matéria-prima para a fabricação das cisternas da Acqualimp.

Ao se tornar uma oportunidade de negócio com lucro vultoso, o valor real das cisternas se desvirtua e mostra-se incompatível com as oportunidades de efetivas mudanças no cotidiano de milhares de pessoas do Semiárido brasileiro. Mas, como vivemos numa sociedade na qual a lógica de mercado geralmente prevalece sobre as demais necessidades socioambientais, transformar a cisterna em moeda é um fato - digamos assim - um tanto aceitável.

Apurando o olhar para a situação, não é difícil perceber que o que se configura é uma nova versão da indústria da seca. E esse processo exclui a população de participar da construção de soluções para seus problemas, desvalorizando seu conhecimento e privilegiando pessoas e/ou grupos que não são as famílias agricultoras do Semiárido.

“O desejo e a decisão do Governo Federal de levar água potável na perspectiva da universalização às famílias esparsas do Semiarido, é uma decisão politica e estratégica nunca antes vista e de altíssimo significado. Contudo, avaliamos equivocada a opção de fazê-lo reeditando aspectos dos processos de combata à seca, sob a alegação de fazê-lo com mais rapidez. Meses a mais ou a menos, não justificam este posicionamento”, opina o coordenador executivo da Articulação no Semi-Árido (ASA) pela Bahia, Naidison Baptista.

Quando as organizações da sociedade civil que formam a ASA se contrapõem às cisternas de plástico é porque elas, que conhecem de perto a história política, econômica, social e cultural da região, têm consciência de que primar simplesmente pelo prazo significa perder um processo rico e complexo de construção de cidadãos e cidadãs. Um processo com uma força enorme que revigora o tecido social, valorizando as pessoas no local de sua moradia e contribuindo com a elevação da sua autoestima através do resgate e respeito ao seu universo cultural.

Nos processos de democratização do acesso à água, desencandeados pela sociedade civil organizada através da ASA, foram envolvidas mais de 370 mil famílias, 12 mil pedreiros, cerca de cinco mil organizações da sociedade civil e centenas de estabelecimentos comerciais locais.

Todas estas pessoas e organizações se tornaram protagonistas de um desenvolvimento gerado de dentro para fora, capaz de possibilitar significativas mudanças nas suas vidas e das comunidades às quais pertencem. Através das cisternas, se alcançam outras conquistas cidadãs, como a organização comunitária, a geração de renda, a dinamizacão das economias locais e a valorização das relações econômicas, culturais e sociais da própria região.

Enquanto sociedade, a pergunta que precisamos fazer é: qual o modelo que queremos fortalecer – aquele de uma sociedade pautada em oportunidades de lucro a todo custo, cuja lógica do mercado é que irá determinar as decisões? Ou de uma sociedade baseada em valores como a busca da autonomia, do crescimento endógeno, da partilha da água e das riquezas? Queremos alimentar processos de dependência ou de protagonismo de pessoas e comunidades?

As cisternas de placas de cimento construídas com a participação das famílias possibilitam a construção de cidadania para quem as têm no quintal de casa. O acesso à água de qualidade passa a ser um direito conquistado. O processo, que se materializa com a cisterna, representa a gestação de outro modelo de sociedade numa região que sempre foi massacrada pelos interesses escusos de pessoas e grupos sem compromisso com o bem comum.

E as consequências desta mudança local se esparramam muito além dos limites do território do Semiárido, alcançando também quem vive em grandes centros urbanos de outras regiões do país. E sabe por quê? Porque permitir condições efetivas de construção de cidadania é enfrentar a miséria pela causa.
http://www.asabrasil.org.br/Portal/Informacoes.asp?COD_NOTICIA=7215

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Solução ou armadilha ?

Por ASA

A Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) é uma rede formada por cerca de 750 organizações da sociedade civil que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência com a região semiárida. Sua missão é fortalecer a sociedade civil na construção de processos participativos para o desenvolvimento sustentável e a convivência com o Semiárido referenciados em valores culturais e de justiça social.