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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O léxico do golpe


Por Nirlando Beirão

Verbetes que traduzem o assalto ao poder – e à linguagem



Alternância do poder

É um instrumento democrático que você aspira quando – e só quando – o adversário está no governo. Quando seus apaniguados mandam, aí você passa a defender a “continuidade” em nome da “governabilidade” e das “reformas”. Neste caso, a alternância atrapalharia o aperfeiçoamento democrático.

Em São Paulo, a alternância do poder é especialmente execrada. Os paulistas preferem perpetuar um mesmo grupo político, como na época da República de polainas e cartola. Enquanto isso, clamam pela alternância do poder... na Venezuela (leia o verbete).

Aparelhamento do Estado
Os adversários são os que aparelham o Estado. O governo que você defende, não: ele procede a nomeações sérias, republicanas, de figuras de notório saber, superior competência e reputação ilibada (mesmo se processados criminalmente). Em teoria, o partido no poder nomeia para os cargos de confiança pessoas... de sua confiança.

Mas esse princípio não vale para os adversários, sempre acusados de irem com muita sede ao pote. Se aquele diretor da estatal nomeado por você ou pelos seus for pego mais tarde com a mão na botija, é um caso de cooptação estimulado pelo clima corrupto instaurado por seus adversários.

Corrupção

Prática entranhada nos governos dos outros – e felizmente reprimida ferozmente pelo Judiciário aliado da gente. Infelizmente, a corrupção às vezes ganha fatos comprovados e nomes ilustres de aliados seus. Mas não se preocupe. O Judiciário vai fazer vistas grossas, o doutor Gilmar Mendes está aí para zagueirar as injúrias gratuitas e infundadas.

E a mídia amiga estará a postos para jogar esse tipo de acusação para debaixo do tapete. A corrupção no Brasil foi inventada pelo partido adversário, uma organizaçãocriminosa que assaltou os cofres públicos. Se alguma dúvida insidiosa pairar sobre algum correligionário nosso, é só ir ao programa gratuito de tevê e dizer “eu errei”. E tudo ficará como está.

Corruptores

Sem eles não existe corrupção. Eventualmente (ou frequentemente) financiaram candidaturas amigas. Portanto, é melhor fazer como os justiceiros do Paraná: isso não vem ao caso.

Bolsa Família


Instrumento do Estado inchado, assistencialista e paternalista para manter politicamente subjugados os miseráveis que não se dispõem a trabalhar. Perpetua a miséria e a vagabundagem com os recursos dos impostos – aqueles poucos, bem entendido, que não são sonegados pelos ricos.

Criado e mantido pelos governos petistas, o Bolsa Família explica as sucessivas vitórias do PT nas urnas analfabetas. Projeto especialmente amaldiçoado pela classe média antes ascendente, a qual, no entanto, paga alegremente os juros escorchantes cobrados no cartão de crédito.

Cara nova

É aquele político que finge que não é político. “Cara nova” designa figuras que estão há anos, ou décadas, nos bastidores ou mesmo no proscênio da atividade política, em geral aproveitando-se da promiscuidade escancarada entre empresários e agentes públicos, mas que simulam não ter nada a ver “com isso que está aí”.

Ao abrir a boca, exprimem ideias anteriores à Revolução Francesa com a desfaçatez de quem se diz sintonizado com o dernier cri da modernidade e da tecnologia. Como os “caras novas” fingem ser o que não são, o eleitor pode ter dificuldade de perceber de imediato a falsidade.

Judiciário

Partido político não registrado oficialmente na Justiça Eleitoral, mas que atua em blocoa favor das causas mais truculentas e reacionárias. Seus mais altos representantes envergam um uniforme sombrio que, no entanto, não lhes tolhe os gestos de uma teatralidade sempre narcisista. Em esferas inferiores faz sucesso a camicia nera dos tempos do Duce.

O jargão obscuro com que se exprimem reforça o esprit de corps da turma, que faz política se fazendo de apolítica. A corporação dos intocáveis dissemina o ódio e critica omundo, mas fica furiosa, e leva aos tribunais, quem ouse criticá-la.

Crise

A pior crise econômica de todos os tempos é esta aí, provocada por um governo rival, aquele que zerou a dívida externa; ainda que, quando estivemos no poder, chegamos a quebrar o Brasil um punhado de vezes.

E não importa que o empresariado tenha premeditadamente empurrado o País abismoabaixo, com o edificante propósito de derrubar um governo que não descia na goela do “mercado”. O abismo era mais fundo do que se imaginava, mas a gente vai continuar culpando os adversários pela “herança maldita” que não sabemos agora como administrar.

Delação premiada
Ela só tem valor se for vazada cirurgicamente para atingir os nossos concorrentes. Se no meio do lamaçal surgir o nome de um aliado, diga que as revelações são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento ser também um crime, de responsabilidade, inclusive, do ministro da Justiça, caso envolva a Polícia Federal, bem... esqueça.

O STF vai abonar a bandalheira. Delações extraídas no porão da carceragem ficam sempre à espera de que o inimigo dos justiceiros seja citado. Senão a gente dá mais uma prensa no delator, para que ele confesse o que a gente quer.

Desemprego

Promover o desemprego em massa, com demissões no serviço público e no setor privado, é o que prescreve o catecismo do “mercado”. Vilanizar os raros direitos trabalhistas que ainda sobrevivem também faz parte do discurso que culpa pelo desemprego... os trabalhadores.

Vivendo uma realidade paralela, os mãos de tesoura do governo ilegítimo dizem que o desemprego (superior a 13 milhões) está diminuindo. De todo modo, é resultado da “herança maldita” deixada pelos antecessores, de cujo governo os golpistas de hoje faziam parte.

Deus
A julgar pelo que dizem os parlamentares, o Todo--Poderoso está dando expediente integral no Congresso brasileiro. Ele patrocina ações violentas e ilegais e abençoa pilantras notórios. Votou pelo impeachment da presidenta Dilma, reforçando a convicção de que Ele não é brasileiro.

Gestão

É o talismã do “cara nova” (confira o verbete). O “gestor” considera-se um tremendoadministrador, mas sua cartilha é o samba de uma nota só da “austeridade”. Louco por cortar salários, promover demissões em massa e diminuir o investimento público com base na teoria de que Estado mínimo é Estado eficiente.

Em seus surtos de “privatização” a qualquer custo, o “gestor” na verdade pretende é dilapidar o patrimônio público, repassando-o a preço de banana a empresários amigos. Programas sociais, nem pensar. O “gestor” de cashmere tem ojeriza a pobres e trata os indigentes e o


s sem-teto a jatos de água fria em madrugadas geladas. É um genocida em potencial.

Institucional

É a versão pós-golpe de “republicano”, palavra muito em voga para designar, na temporada petista, situações de compromisso político com os piores adversários. “Institucional” foi, segundo a futura procuradora-geral Raquel Dodge, o meeting por ela mantido na calada da noite com quem a indicou, Michel Temer, no Palácio do Jaburu.

Flagrada pelas câmeras, a doutora Dodge afirmou que o ágape girou em torno de questões protocolares para a sua posse. Como nem o rei Luís XIV precisou de tantas minúcias de etiqueta para sua investidura, soou pouco plausível a versão da magistrada. Em seguida, ela corrigiu para “uma conversa institucional”.

Ficou pior ainda: deu a entender que estava indo buscar instruções de como promover a justiça com um sujeito processado por obstrução da Justiça. A língua inglesa tem um dito: “Quando você já está num buraco, pare de cavar”.

Lava Jato Inc.
É o empreendimento comercial do baixo Judiciário de Curitiba, que consiste em negociar palestras no Brasil e no exterior a preços sigilosos, palestras essas que podem incluir temas como o confisco do cachê das palestras de um conferencista concorrente e de muito prestígio.

O confisco acontece por decisão ciumenta, ainda que os valores das palestras doperseguido sejam transparentes e tenham sido declarados ao Fisco.

Liberdade de expressão
É o direito inapelável, intocável e irreversível dos meios de comunicação de exprimir opensamento único de seus proprietários, em consonância com interesses pecuniários e a pauta eleitoral deles. É facultado o direito de mentir e distorcer.

Em temporadas eleitorais, a toada de uma nota só torna-se obsessão, de forma a impedir que vaze para o noticiário algum acorde dissonante por parte da ralé das redações ou dos candidatos do outro lado.

Se alguém denuncia a censura que os patrões impõem às redações – e à verdade factual –, os mandarins da imprensa reagem com total hipocrisia: “Vocês querem me censurar”.
Meritocracia

Doutrina segunda a qual os pobres são pobres porque querem – ou porque lhes faltam qualidades para serem ricos. Já os ricos, ainda que muitos deles aquinhoados por robustas heranças, patrocinam a corrida malthusiana, cuja linha de chegada vai contemplar os mais fortes e determinados.

Uma transposição vulgar desse pensamento é representada pelo programa O Aprendiz, que nos Estados Unidos gestou Donald Trump e aqui no Brasil pariu JoãoDoria Jr.

Opinião pública
Entidade de contornos indefinidos da qual a mídia se apropria indevidamente, dizendo-se sua porta-voz, ainda que, no fundo, nutra o maior desprezo pela opinião do público. Tipo do cabeçalho da Folha de S.Paulo, a qual, sem o menor constrangimento, apregoa: “Um jornal a serviço do Brasil”.

Parlamentarismo

O sistema de governo ideal quando o nosso partido é sistematicamente surrado nas urnas em eleições presidenciais. O parlamentarismo acaba convocando figuras espectrais como o senador José Serra, ávido para levar sua ambição presidencial fracassada por um atalho autoritário.

Políticos
Fauna dotada de grande voracidade que se apresenta, a cada dois anos, em busca de um cargo público que lhe permita saciar essa voracidade. Por uma estranha circunstância, quanto mais facínora for o candidato, maior chance ele terá de se eleger.

Políticos não nascem de geração espontânea, eles são agraciados pelo voto do eleitor, o qual, no dia seguinte à eleição, já nem se lembrará do sujeito em quem votou e irá daí para a frente se eximir do ônus de sua própria e livre escolha. Brasília é o Brasil. Não existe uma política corrupta sem uma sociedade corrupta.

Recuperação econômica
Uma ficção produzida pelo governo ilegítimo e que passa, como uma chanchada sem graça, nas telas dos cadernos de Economia e Mercado dos jornalões cúmplices do golpe.

Velha política

Só os adversários a praticam. Se você não está aliado àquele plutocrata sulista ou ao coronel nordestino, é porque eles decidiram apoiá-lo, não o contrário. A pureza de princípios automaticamente os transformará em “homens de bem”. Não importa que o seu apoiador venha de uma nefanda dinastia baiana de três gerações de políticos suspeitos. Eu sou a renovação, velha política são os outros.os.

Venezuela
É a versão atualizada de “Cuba”. Para se distrair de um país que vai suprimindo os direitos e as liberdades democráticas, o nosso, você começa a apostrofar o país vizinho, acusando-o de suprimir os direitos e as liberdades democráticas.

Com o aval categorizado da Folha, passa a ter o direito de chamar o presidente eleito de “ditador” e de gritar para os esquerdistas: “Vá pra Caracas”. A Venezuela é o que o PT queria fazer do Brasil. Não fez não se sabe bem por que, talvez o cantor Lobão explique. O comunismo morreu, mas o anticomunismo continua a gerar bons negócios.

Já o capitalismo produz tragédias humanas como as do Burundi e do Zimbábue e ditaduras sanguinárias como a Arábia Saudita e o Azerbaijão – mas se Trump e o Estadão apoiam, então está tudo bem.

Lava Jato

Desencadeada a partir da prisão do megadoleiro Alberto Youssef, que já havia sido investigado pelo juiz Sergio Moro e demais xerifes de Curitiba quando do escândalo do Banestado. Como o foco da roubalheira era então o PSDB e aliados, Moro achou que não era o caso.

Mas já que a Operação Lava Jato passou a visar a Petrobras, os governos do PT e seus aliados, ela foi em frente, com o estardalhaço da mídia, vazamentos seletivos e prisões escolhidas a dedo.

Cumprida sua função de derrubar, aliado a um Congresso caricato, uma presidenta que jamais foi citada pelas acusações arrancadas nos porões, e de colocar no poder uma quadrilha beneficiada por propinas e malas de dinheiro, mas que nunca será incomodada pelos justiceiros, eles se dedicam agora à segunda missão política: evitar que Lula seja candidato em 2018. Até aqui têm ido bem nesse propósito.

Manifestações e protestos
Quando se trata de greves de trabalhadores e protestos a favor de direitos das minorias, devem ser chamados de “baderna” – distúrbios que incomodam o cidadão e a rotina das metrópoles e tendem a desandar em “vandalismo”, ainda que a polícia provoque e atire primeiro.

Manifestações ordeiras são, em contrapartida, aquelas, vestidas de canarinho, que desencadearam uma violência institucional e que agora clamam nas ruas pela intervenção das Forças Armadas.

Pedaladas fiscais

São ajustes orçamentários que os governantes utilizam, alocando recursos com certa destinação para outra. Por exemplo, assegurar que os programas sociais continuarão a ser abastecidos com verbas quando o caixa anda minguado.

O Poder Executivo, em todos os níveis, usa esse expediente no Brasil, mas só uma pessoa acabou punida a pretexto das tais pedaladas – muito alardeadas, mas pouco entendidas. De todo modo, como a acusada foi a presidenta Dilma, tratava-se de um crime hediondo.

Se os nossos aliados são flagrados negociando roubalheiras na calada da noite, não passam de leves e desculpáveis contravenções.

Populista

É o rótulo destinado àqueles que cometem a irresponsabilidade de pensar nos pobres – criaturas descartáveis no xadrez da alta política. Os populistas põem em risco a estabilidade econômica e enfurecem os cânones do “mercado”, muito pouco propensos a pensar o País para além da “meritocracia” (veja o verbete).

Os populistas são, em geral, de esquerda. Os de direita, do tipo Jair Bolsonaro, a gente acaba agasalhando se for conveniente.

https://www.cartacapital.com.br/revista/967/o-lexico-do-golpe

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Jessé Souza: “A classe média é feita de imbecil pela elite”

Por Sergio Lirio

Em agosto, o sociólogo Jessé Souza lança novo livro, A Elite do Atraso – da Escravidão à Lava Jato. De certa forma, a obra compõe uma trilogia, ao lado de A Tolice da Inteligência Brasileira, de 2015, e de A Ralé Brasileira, de 2009, um esforço de repensar a formação do País.
Neste novo estudo, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada aprofunda sua crítica à tese do patrimonialismo como origem de nossas mazelas e localiza na escravidão os genes de uma sociedade “sem culpa e remorso, que humilha e mata os pobres”. A mídia, a Justiça e a intelectualidade, de maneira quase unânime, afirma Souza na entrevista a seguir, estão a serviço dos donos do poder e se irmanam no objetivo de manter o povo em um estado permanente de letargia. A classe média, acrescenta, não percebe como é usada. “É feita de imbecil” pela elite.

CartaCapital: impeachment de Dilma Rousseff, afirma o senhor, foi mais uma prova do pacto antipopular histórico que vigora no Brasil. Pode explicar?
Jessé Souza: A construção desse pacto se dá logo a partir da libertação dos escravos, em 1888. A uma ínfima elite econômica se une uma classe, que podemos chamar de média, detentora do conhecimento tido como legítimo e prestigioso. Ela também compõe a casta de privilegiados. São juízes, jornalistas, professores universitários. O capital econômico e o cultural serão as forças de reprodução do sistema no Brasil.
Em outra ponta, temos uma classe trabalhadora precarizada, próxima dos herdeiros da escravidão, secularmente abandonados. Eles se reproduzem aos trancos e barrancos, formam uma espécie de família desestruturada, sem acesso à educação formal. É majoritariamente negra, mas não só. Aos negros libertos juntaram-se, mais tarde, os migrantes nordestinos. Essa classe desprotegida herda o ódio e o desprezo antes destinados aos escravos. E pode ser identificada pela carência de acesso a serviços e direitos. Sua função na sociedade é vender a energia muscular, como animais. É ao mesmo tempo explorada e odiada.
CC: A sociedade brasileira foi forjada à sombra da escravidão, é isso?
JS: Exatamente. Muito se fala sobre a escravidão e pouco se reflete a respeito. A escravidão é tratada como um “nome” e não como um “conceito científico” que cria relações sociais muito específicas. Atribuiu-se muitas de nossas características à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma Justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força, para acumular capital, como acontece até hoje, e humilhar e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana.
CC: Um modelo que se perpetua, anota o senhor no novo livro.
JS: Sim. Como essa herança nunca foi refletida e criticada, continua sob outras máscaras. O ódio aos pobres é tão intenso que qualquer melhora na miséria gera reação violenta, apoiada pela mídia. E o tipo de rapina econômica de curto prazo que também reflete o mesmo padrão do escravismo. 
CC: Como isso influencia a interpretação do Brasil?
JS: A recusa em confrontar o passado escravista gera uma incompreensão sobre o Brasil moderno. Incluo no problema de interpretação da realidade a tese do patrimonialismo, que tanto a direita quanto a esquerda, colonizada intelectualmente pela direita, adoram. O conceito de patrimonialismo serve para encobrir os interesses organizados no chamado mercado. Estigmatiza a política e o Estado, os “corruptos”, e estimula em contraponto a ideia de que o mercado é um poço de virtudes.

"O ódio aos pobres é intenso"

CC: O moralismo seletivo de certos setores não exprime mais um ódio de classe do que a aversão à corrupção?
JS: Sim. Uma parte privilegiada da sociedade passou a se sentir ameaçada pela pequena ascensão econômica desses grupos historicamente abandonados. Esse sentimento se expressava na irritação com a presença de pobres em shopping centers e nos aeroportos, que, segundo essa elite, tinham se tornado rodoviárias.
A irritação aumentou quando os pobres passaram a frequentar as universidades. Por quê? A partir desse momento, investiu-se contra uma das bases do poder de uma das alas que compõem o pacto antipopular, o acesso privilegiado, quase exclusivo, ao conhecimento formal considerado legítimo. Esse incômodo, até pouco tempo atrás, só podia ser compartilhado em uma roda de amigos. Não era de bom tom criticar a melhora de vida dos mais pobres.
CC: Como o moralismo entra em cena?
JS: O moralismo seletivo tem servido para atingir os principais agentes dessa pequena ascensão social, Lula e o PT. São o alvo da ira em um sistema político montado para ser corrompido, não por indivíduos, mas pelo mercado. São os grandes oligopólios e o sistema financeiro que mandam no País e que promovem a verdadeira corrupção, quantitativamente muito maior do que essa merreca exposta pela Lava Jato. O procurador-geral, Rodrigo Janot, comemora a devolução de 1 bilhão de reais aos cofres públicos com a operação. Só em juros e isenções fiscais o Brasil perde mil vezes mais.
CC: Esse pacto antipopular pode ser rompido? O fato de os antigos representantes políticos dessa elite terem se tornado alvo da Lava Jato não fragiliza essa relação, ao menos neste momento?
JS: Sem um pensamento articulado e novo, não. A única saída seria explicitar o papel da elite, que prospera no saque, na rapina. A classe média é feita de imbecil. Existe uma elite que a explora. Basta se pensar no custo da saúde pública. Por que é tão cara? Porque o sistema financeiro se apropriou dela. O custo da escola privada, da alimentação. A classe média está com a corda no pescoço, pois sustenta uma ínfima minoria de privilegiados, que enforca todo o resto da sociedade. A base da corrupção é uma elite econômica que compra a mídia, a Justiça, a política, e mantém o povo em um estado permanente de imbecilidade.
CC: Qual a diferença entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos?
JS: Não há tanta diferença. Nos Estados Unidos, a parte não escravocrata dominou a porção escravocrata. No Brasil, isso jamais aconteceu. Ou seja, aqui é ainda pior. Os Estados Unidos não são, porém, exemplares. Por conta da escravidão, são extremamente desiguais e violentos. Em países de passado escravocrata, não se vê a prática da cidadania. Um pensador importante, Norbert Elias, explica a civilização europeia a partir da ruptura com a escravidão. É simples. Sem que se considere o outro humano, não se carrega culpa ou remorso. No Brasil atual prospera uma sociedade sem culpa e sem remorso, que humilha e mata os pobres. 
CC: Algum dia a sociedade brasileira terá consciência das profundas desigualdades e suas consequências?
JS: Acho difícil. Com a mídia que temos, desregulada e a serviço do dinheiro, e a falta de um padrão de comparação para quem recebe as notícias, fica muito complicado. É ridícula a nossa televisão. Aqui você tem programas de debates com convidados que falam a mesma coisa. Isso não existe em nenhum país minimamente civilizado. É difícil criar um processo de aprendizado.
CC: O senhor acredita em eleições em 2018?
JS: Com a nossa elite, a nossa mídia, a nossa Justiça, tudo é possível. O principal fator de coesão da elite é o ódio aos pobres. Os políticos, por sua vez, viraram símbolo da rapinagem. Eles roubam mesmo, ao menos em grande parte, mas, em analogia com o narcotráfico, não passam de “aviõezinhos”. Os donos da boca de fumo são o sistema financeiro e os oligopólios. São estes que assaltam o País em grandes proporções. E somos cegos em relação a esse aspecto. A privatização do Estado é montada por esses grandes grupos. Não conseguimos perceber a atuação do chamado mercado. Fomos imbecilizados por essa mídia, que é paga pelos agentes desse mercado. Somos induzidos a acreditar que o poder público só se contrapõe aos indivíduos e não a esses interesses corporativos organizados. O poder real consegue ficar invisível no País.
CC: O quanto as manifestações de junho de 2013, iniciadas com os protestos contra o reajuste das tarifas de ônibus em São Paulo, criaram o ambiente para a atual crise política?
JS: Desde o início aquelas manifestações me pareceram suspeitas. Quem estava nas ruas não era o povo, era gente que sistematicamente votava contra o projeto do PT, contra a inclusão social. Comandada pela Rede Globo, a mídia logrou construir uma espécie de soberania virtual. Não existe alternativa à soberania popular. Só ela serve como base de qualquer poder legítimo. Essa mídia venal, que nunca foi emancipadora, montou um teatro, uma farsa de proporções gigantescas, em torno dessa soberania virtual.

CC: Mas aquelas manifestações foram iniciadas por um grupo supostamente ligado a ideias progressistas...
JS: Só no início. A mídia, especialmente a Rede Globo, se sentiu ameaçada no começo daqueles protestos. E qual foi a reação? Os meios de comunicação chamaram o seu povo para as ruas. Assistimos ao retorno da família, propriedade e tradição. Os mesmos “valores” que justificaram as passeatas a favor do golpe nos anos 60, empunhados pelos mesmos grupos que antes hostilizavam Getúlio Vargas. Esse pacto antipopular sempre buscou tornar suspeito qualquer representante das classes populares que pudesse ser levado pelo voto ao comando do Estado. Não por acaso, todos os líderes populares que chegaram ao poder foram destituídos por meio de golpes. 



terça-feira, 31 de julho de 2012

O julgamento na imprensa

Jânio de Freitas
por Jânio de Freitas

Se há contra os réus indução de animosidade, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações

O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que "o mensalão é o maior escândalo da história" -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: "Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que "vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".