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terça-feira, 28 de abril de 2015

Strange Fruit

 Escrito por David Margolick


Conforme Billie Holiday contou depois, um único gesto de um cliente de um clube noturno de Nova York chamado Café Society mudou a história da música norte- -americana naquela noite do começo de 1939, a noite em que ela cantou “Strange Fruit” pela primeira vez.
O Café Society era a única boate de Nova York realmente integrada, um lugar que servia pessoas progressistas e de mente aberta. Mas Holiday lembraria que mesmo ali ela teve medo de cantar sua nova mú- sica, uma canção que atacava de frente o ódio racial numa época em que nem se sonhava com a música de protesto, e se arrependeu – pelo menos momentaneamente – ao cantá-la pela primeira vez. “Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei”, escreveu em sua autobiografia. “Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente. De repente todo mundo estava aplaudindo.”
O aplauso ficou mais forte e um pouco menos hesitante à medida que “Strange Fruit” foi se transformando primeiro num ritual cotidiano para Holiday, depois em uma de suas gravações de maior sucesso, depois em uma de suas marcas registradas, pelo menos nos lugares onde era seguro cantá-la. Isso porque ao longo da curta vida de Holiday – ela morreu em 1959, aos 44 anos – a can- ção viveu numa espécie de quarentena artística: podia viajar, mas só para certos lugares. E, nos quarenta anos posteriores à sua morte, as plateias continuaram a aplaudir, a respeitar e a se comover com essa balada perturbadora, única na obra de Holiday e no repertório da música norte-americana, que deixou sua marca em gerações de autores, músicos e outros ouvintes, brancos e negros, nos Estados Unidos e por todo o mundo.
O famoso compositor E. Y. “Yip” Harburg chamou “Strange Fruit” de “documento histórico”. O falecido crí- tico de jazz Leonard Feather uma vez disse que “Strange Fruit” era “o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo”. Para Bobby Short, a canção era “muito, muito fundamental”, um modo de trazer essa tragédia que era o linchamento da imprensa negra para a consciência branca. “Quando se pensa no Sul e em leis segregacionistas, naturalmente se pensa nessa canção, não em ‘We Shall Overcome’”, disse Studs Terkel. Ahmet Ertegun, o lendário produtor musical, chamou “Strange Fruit” – que Holiday cantou pela primeira vez dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu lugar a um branco num ônibus em Montgomery, no Alabama –, de “uma declaração de guerra” e “o começo do movimento pelos direitos civis”.
Holiday cantou a música inúmeras vezes em seus últimos vinte anos de vida. Muitas coisas sobre ela – sua aparência, sua saúde, sua vida pessoal, o som de sua voz – pareciam loucamente instáveis nessa época. Embora estivesse morrendo por causa da heroína e do álcool, ela teve também grandes momentos de triunfo. Mas quer a tivessem ouvido em disco, na rádio (onde era tocada de vez em quando por hesitantes djs negros ou djs brancos de alma negra) ou cantada ao vivo por Holiday ou por outra pessoa, todos que se deparavam com “Strange Fruit” ficavam com a música gravada na memória. Muitos passaram anos sem ouví-la, mas ainda hoje sabem recitar a letra de cor. “A não ser pela letra de ‘America the Beautiful’”, relembra Feenie Ziner, uma professora aposentada e escritora, “não sei se existe outra música ou outra cantora de que eu me lembre tão intensamente sessenta anos depois.” Por quê? Porque, como diz Ziner: “Billie Holiday nos deixava arrasados” quando a cantava. Fãs da música não dizem que gostam dela – como se pode realmente gostar de uma música sobre um tema desses? – mas reconhecem seu impacto duradouro. Creditam à mú- sica seu despertar para a realidade do preconceito racial e para o poder transformador e redentor da arte. O que quer que tenham feito, protestado em Selma, participado da marcha de Washington ou passado a vida como ativistas sociais, muitos dizem que foi ouvir “Strange Fruit” que desencadeou o processo. “Será que a empatia pelos injustiçados do mundo teria me atraído para os mesmos planos de carreira se nunca tivesse ouvido Billie Holiday? Duvido”, disse George Sinclair, um sulista que passou a vida trabalhando com os pobres e desfavorecidos. “Billie Holiday pode não ter acendido o estopim, mas inquestionavelmente alimentou a chama.”
E, no entanto, “Strange Fruit”, tanto como música quanto como fenômeno histórico, é surpreendentemente desconhecida hoje. Sem dúvida em grande parte por seu tema, a canção não é um dos muitos clássicos de Holiday sempre tocados nas estações de rádio ou nos alto-falantes de restaurantes, como “God Bless the Child”, “Lover Man”, “Miss Brown to You” ou “I Cover the Waterfront”. É uma anomalia, tanto dentro como fora da obra de Holiday.
“Strange Fruit” escapa a qualquer categorização musical fácil e se esgueirou por entre as fissuras do estudo acadêmico. É artística demais para ser música folk, politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz.
Com certeza nenhuma canção na história dos Estados Unidos representa tamanha garantia de silenciar uma plateia ou gerar tanto desconforto. Joe Segal, que lidera há cinquenta anos o Jazz Showcase de Chicago, o segundo clube de jazz mais antigo dos Estados Unidos, ainda não consegue ouvir a música quando ela toca na rádio. “É muito dura”, ele me disse. “Não consigo aguentá-la.”
Lançada em 1939 – mesmo ano de …E o vento levou, um filme repleto de condescendência com os negros e com os artistas negros, e na mesma época em que “A-Tisket, A-Tasket”, de Ella Fitzgerald, era o que se esperava de cantoras negras –, “Strange Fruit” “devolve o elemento de protesto e resistência ao centro da cultura musical negra contemporânea”, escreveu Angela Davis em Blues Legacies and Black Feminism [Legados do Blues e Feminismo Negro]. Mais de setenta anos depois de ter sido cantada pela primeira vez, músicos de jazz ainda falam da música com uma mistura de estupefação e medo. “Quando Holiday a gravou, era mais que revolucionária”, disse o baterista Max Roach. “Ela expressou um sentimento que todos nós, negros, sentíamos. Ninguém falava daquilo. Ela se transformou em um dos guerreiros, essa linda mulher que sabia cantar e fazer você se emocionar. Tornou-se a voz dos negros, e eles a adoravam.” Quando a canção apareceu, a maioria das rádios a considerou provocante demais para ir ao ar; até hoje, mesmo os djs mais progressistas só a tocam de vez em quando. “É muito intensa, e eu quero divertir as pessoas”, disse Michael Bourne, que apresenta um dos programas de jazz mais populares de Nova York. Quem toca a música o faz quase hesitante (“é como esfregar o nariz das pessoas na própria merda”, disse Mal Waldron, pianista que acompanhou Holiday em seus últimos anos de vida), e muitas vezes só quando são obrigados; às vezes, ela é simplesmente pesada demais.
Poucos anos atrás, a revista britânica Q considerou “Strange Fruit” uma das “dez músicas que realmente mudaram o mundo”. Como qualquer ato revolucionário, a canção encontrou grande resistência num primeiro momento. Holiday e o cantor folk negro Josh White, que começou a cantá-la poucos anos depois de Holiday fazê-lo pela primeira vez, eram atacados, às vezes fisicamente, por clientes irados das boates – crackers,1 como Holiday os chamava. A Columbia Records, gravadora de Holiday no final dos anos 30, se recusou a gravar a música. E como acontece com atos revolucionários, a canção deu origem à sua própria cota de mitos, nenhum mais duradouro do que a declaração de Holiday, muitas vezes citada, de que ela própria escreveu ou encomendou a música. “Strange Fruit” foi um divisor de águas, elogiado por uns, execrado por outros, na evolução de Holiday de exuberante cantora de jazz para chanteuse da dor amorosa e da solidão. Assim que Holiday a acrescentou ao seu repertório, parte da tristeza da música parece ter se colado à ela; à medida que ia se deteriorando fisicamente, a música assumia nova pungência e imediatismo. O crítico de jazz Ralph J. Gleason chegou a vê-la como uma metáfora da vida de Holiday. “Ela só era feliz de fato quando cantava”, ele escreveu uma vez. “O resto do tempo ela era uma espécie de encarnação da canção ‘Strange Fruit’, pendurada não em um álamo, mas nos braços da vida em si.”
À sua maneira, “Strange Fruit” pode até ter acelerado o declínio de Holiday. Certamente, uma música que forçou uma nação a confrontar seus impulsos sombrios, uma música que ofendia grande parte do país, não lhe conquistou nenhum amigo influente que pudesse lhe dar uma mãozinha à medida que ela mergulhava no abuso de drogas e se envolvia em cada vez mais encrencas com a lei. “Fiz uma porção de inimigos, sim”, ela disse à revista Down Beat em 1947, logo depois de ter sido presa por uso de drogas na Filadélfia. “Cantar aquilo [‘Strange Fruit’] não me ajudou em nada. Eu estava cantando no Earle [Theater, na Filadélfia], e me fizeram parar.” William Dufty, o coautor da autobiografia de Holiday, tem certeza de que Holiday se apropriava de “Strange Fruit” porque sentia que a música só lhe trouxera dissabores – chegando ao ponto de fazê-la ser convocada por investigadores federais anticomunistas.
Depois de um ciclo inicial de popularidade, “Strange Fruit” caiu em desuso por muitos anos, vítima do conservadorismo de uma era, do idealismo e da esperança de outra e da desilusão de uma terceira. Josh White e Nina Simone estão entre os poucos artistas que a cantaram nos anos 50 e 60. Mas recentemente muitos outros músicos, de Sting a Dee Dee Bridgewater, de Tori Amos a Cassandra Wilson, do ub40 ao Siouxsie and the Banshees, gravaram “Strange Fruit”. Cada gravação é um ato de coragem, dado o domínio permanente de Holiday sobre a música. (Isso talvez não se aplique ao 101 Strings, que gravou uma versão orquestral.) Sidney Bechet fez uma versão instrumental logo depois da gravação de Holiday; mesmo sem a letra, a gravadora Victor preferiu não lançá-la por muitos anos.
Hoje a música aparece em muitos lugares. Leon Litwack, historiador da Guerra Civil e dos períodos de Reconstru- ção, vencedor do prêmio Pulitzer, usa-a em suas aulas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Stephen Bright a cita em “Pena de morte: raça, pobreza e desvantagem”, um curso que dá nas escolas de direito de Harvard, Yale e Emory. Don Ricco, um professor de Novato, na Califórnia, a toca para os alunos da oitava série quando estão estudando a Guerra Civil; enquanto repassam a dura saga das relações inter-raciais norte-americanas, eles aprendem também a força das metáforas. “Strange Fruit” é o que Mickey Rourke inexplicavelmente coloca no toca-discos para seduzir Kim Basinger em 9 ½ semanas de amor (como era de se imaginar, a música não funciona nem um pouco para criar um clima romântico). O juiz de uma corte de apelação federal a citou alguns anos atrás para demonstrar que a execução por enforcamento era inerentemente “cruel e desumana”. A música foi proibida nas rádios da África do Sul durante a era do apartheid. Khalid Abdul Muhammad, notório discípulo antissemita de Louis Farrakhan e organizador da Passeata de um Milhão de Homens,2 citou-a em discursos de ataque ao racismo contra negros nos Estados Unidos, aparentemente sem saber que a canção foi escrita por um professor judeu branco de Nova York.
O tal professor, Abel Meeropol, que escrevia sob o pseudônimo de Lewis Allan, não criou a canção para Holiday: vários outros, inclusive a esposa de Meeropol, Anne, a haviam cantado antes dela. E, no entanto, Holiday se apossou tão completamente de “Strange Fruit” que Meeropol – hoje mais conhecido por ter adotado os órfãos de Ethel e Julius Rosenberg após a execução dos pais deles do que por seus milhares de outros poemas e canções – passou metade da vida, a partir do momento em que a canção ficou famosa, a lembrar às pessoas que ela era realmente criação sua, e apenas sua.
Nem sempre funcionou: ninguém parecia aceitar que uma canção tão potente pudesse vir de uma fonte tão prosaica. Vários artigos atrelavam Meeropol a uma grande variedade de supostos colaboradores. Uma revista francesa o descreveu como diretor de uma escola para negros em algum lugar às margens do Mississípi. “Um certo Lewis Allen [sic] é citado como autor de ‘Strange Fruit’, mas ele compôs letra e música?”, escreveu o compositor e memorialista Ned Rorem, devoto apaixonado de Holiday, no New York Times em 1995, nove anos depois da morte de Meeropol. “Aliás, quem era ele mesmo? Ele era negro?” (Para os organizadores de uma homenagem a compositores negros no Museu de Belas Artes da Virgínia em 1999 a resposta era sim, pois eles incluíram “Strange Fruit” no programa.)
De certa forma, Meeropol selou seu próprio destino, seu status de nota de rodapé histórica, quando resolveu levar a canção para Billie Holiday: ela, mais do que qualquer outra artista, poderia torná-la efetivamente sua. “Quando você ouve Billie cantando, é quase como uma fita cassete da autobiografia dela”, disse Tony Bennett, que qualificou “Strange Fruit” como “magnífica”. “Ela não cantava nada que não tivesse vivido.”
Trecho do livro Strange Fruit, de David Margolick, publicado pela Cosac Naify
http://www.suplementopernambuco.com.br/suplemento/1398-strange-fruit.html

Por Merecimento

por Karina Buhr

foto Pri Burr
Durante algum tempo só me importava com a sua chegada. Não tinha exatamente um controle de qualidade, era principalmente uma maneira de me manter educada, demônio sedado.
Depois te recebia. Braços abertos bruços.
Você era estilo prêmio semibom, superlombra selfie sexo de si mesmo, ego ótimo, bastante hipervalorizado pelo entorno e eu, a essa altura, parecia embarcar na alta do passe e entendia ter uma sorte plena, pelo meu merecimento, pelo bom comportamento.
No dia a dia não via essa figura, assim, tão atenta a minha figura mesma, mesmo conhecendo direitíssimo, era tão mais fácil me camuflar e me deixar quietinha. Dopada. Fluindo.
Até que tinha algo naquele líquido, aquele veneno no copo, que dava uma náusea que curava um pouco mas não deixava, assim, perfeitamente segura de si a pessoa eu.
E a pessoa você era um monstro, mas por que cargas, eu, minha própria monstra de mim, permitia essa vacilação, perda de horizonte, de chão, essa mesquinhez tosca diária. Por que deixava o veneno meu me corroer e ser o seu adubo?
De cabeça baixa aceitando toda merda e seguindo sem freio na destruição das vontades próprias, na preparação do shape de um jeito estranho, nem bonita ficava pra minha opinião.
Até o sapato usava de outro tipo. O comprimento da saia. Até as palavras regulava. Pensava duas vezes antes do palavrão, antes amigo íntimo e adorado, palavrão bronco, sucesso da língua portuguesa, tradução perfeita, idioma campeão.
E logo eu, que parecia tão, mas tão super dona de mim, pras malfadadas línguas, pra opinião social do meio, pequeno meio.
Grande instrutor de passos, o meio.
Chamava-se machismo.

http://www.suplementopernambuco.com.br/suplemento/75-ineditos.html

Esse texto estará no livro Desperdiçando Rima, que o selo Fábrica 231, da editora Rocco, lança em abril

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Cabelo e a questão por trás do Romance

por Juan Pablo Villalobos
Janio Santos

Eu sempre tive um problema com meu cabelo. Não gosto do meu cabelo, acabei me resignando a ele, acabei por tolerá-lo, mas a verdade é que não gosto, não.

Em meu primeiro romance, Festa no covil, o protagonista é um menino que tem fobia a cabelo, que acha que o cabelo é um cadáver que as pessoas carregam por cima da cabeça. Em meu segundo romance, Se vivêssemos em um lugar normal, há um personagem que tem o cabelo como o meu: confuso. Ele se chama “agente Cabeleira”. Também escrevi vários contos com personagens de cabelos esquisitos e fiz uma entrevista ao Neymar só para escrever um artigo sobre seu cabelo, um texto que acabei titulando: “Que cabelo é esse, Neymar?”.

Faz dois anos que moro no Brasil e as pessoas começam a se acostumar a este fato. Ou seja, eles começam a me cobrar: você vai escrever um dia um romance situado no Brasil?
Há um mês fui cortar o cabelo com minha cabeleireira em Sousas, um distrito de Campinas, com ares de cidadezinha do interior. Quando cheguei, a cabeleireira me mostrou a mão esquerda dela desde longe: tinha fraturado um dedo. Entrei em pânico, tem poucas coisas que odeio mais na vida que procurar um novo cabeleireiro. Era uma quinta-feira e na sexta eu tinha o lançamento de Se vivêssemos em um lugar normal em São Paulo. Meu cabelo estava desastroso. Pensei: e agora? Eu não posso ir a meu lançamento com esse cabelo, de jeito nenhum! Minha cabeleireira queria me tranquilizar:

— Eu posso cortar seu cabelo, sim.

— Você está trabalhando assim?

— Tô, sim.

Olhei para ela, para os olhos dela, olhei para a mão e pensei: mas que classe de país é esse? Não tem um sistema de proteção social e laboral para minha cabeleireira ficar em casa fazendo fisioterapia? Além disso, como é que ia ficar meu cabelo? Quis fugir, não era razoável me arriscar, mas minha culpa de classe foi maior: não tive coração de abandonar minha cabeleireira e deixá-la sem meu dinheiro.

Dez minutos mais tarde, senti um ligeiro golpe na minha cabeça: era um pedaço de um dedo de minha cabeleireira.
— Me leva ao posto de saúde! — gritou minha cabeleireira.

Chegamos ao posto de saúde e me lembrei do romance de Rodrigo de Souza Leão, Todos os cachorros são azuis, que eu traduzi para o espanhol: “Havia tanta gente, que se eu dissesse que o Maracanã em dia de jogo do Flamengo estava ali não seria nenhum eufemismo”.

Mas não se esqueçam da verdadeira tragédia: eu estava ali, acompanhando minha cabeleireira, com a metade direita do cabelo cortado e a metade esquerda intacta.

Enquanto esperávamos, eu pensava em um romance brasileiro, em um possível romance brasileiro sobre uma cabeleireira que tem que trabalhar com um dedo fraturado e acaba cortando outro dedo fora. Logo no posto de saúde, como sempre acontece no Brasil, aconteceria algum absurdo ainda maior e o enredo iria se complicando a cada vez mais.
Mas por que sempre acabo pensando em romances políticos?

Eu estava verdadeiramente preocupado por minha cabeleireira, mas ficava de olho no relógio: cinco e meia eu vazo, pensei, preciso procurar outro cabeleireiro.

Imagina ir no meu lançamento em Sampa com esse cabelo. Vão pensar que sou um excêntrico. Que faço isso para chamar a atenção. Ou pior: que sou idiota.

Eu falei para vocês: tenho um problema com meu cabelo.

Meus romances sempre começam com uma questão mal resolvida, com um conflito, com um trauma. A origem é autobiográfica. Essa questão se insere em um contexto social e político e só então penso no enredo: na ficção.

Se eu tivesse que estabelecer uma fórmula diria que meus romances estão construídos com 10% de material autobiográfico, 10% de material histórico e 90% de ficção. Não soma 100%? Hmmmm....

Eu fico superempolgado só de pensar no que poderia fazer com esse pedaço de dedo de minha cabeleireira em um romance.
Mas por enquanto a abandonei na fila do posto de saúde.

Quem sabe um dia escreva um romance no qual meu penteado seja o resultado dos problemas estruturais e das injustiças do Brasil.


http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/2-bastidores/1006-o-cabelo-e-a-questao-por-tras-do-romance.html

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O melhor conselheiro do autor: a gaveta

Por Luis Vilela
Karina Freitas

Naquela tarde, que longe vai no tempo, o adolescente de 13 anos, depois de anotar no seu diário que escrevera uma redação e um pequeno conto, acrescentou: “Agradeço a Deus por estar tão inspirado.” Sua inspiração, pelo visto, continuou, pois ele, que já começara a publicar, em jornais estudantis, aos 14 publicava, pela primeira vez, um conto num dos jornais da cidade, e aos 15 passou a colaborar com o principal jornal, nele publicando crônicas e contos.

Mas já então, por experiência própria e depois de ter lido alguns dos maiores autores da literatura mundial, além de suas biografias, cartas e diários, o jovem escritor sabia que para ser um dia um grande escritor a inspiração somente não bastava, era preciso outra coisa tão importante quanto ela, ou até mais: a transpiração. Foi nessa ocasião que leu, em algum lugar, o dito de que o gênio era um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração.

O escritor ficou moço, publicou seu primeiro livro, depois outros, foi premiado, traduzido, adaptado e chegou aos 70 anos. Se a inspiração continua com ele, não posso garantir, mas a transpiração, esta sim, continua. Hoje como ontem, e como sempre ao longo desse percurso de mais de meio século, as páginas, escritas primeiro à mão, ao serem relidas, cobrem-se de rabiscos. São alterações, cortes, acréscimos — tantos rabiscos, que o próprio autor, que os fez, tem as vezes, depois, dificuldade em entendê-los.

O texto é então datilografado. (Sim, você leu certo, é datilografado mesmo; ainda uso, e gosto de usar, essa coisa antiga chamada máquina de escrever.) E aí, nova leitura, com novas alterações, cortes e acréscimos, que, em certos momentos, parecem que nunca terão fim, que a obra, seja ela um conto de uma página ou um romance de trezentas, jamais estará terminada.

Nesse processo, quando começo a recuperar hoje o que ontem risquei, e a novamente riscá-lo amanhã, e a não saber, depois de amanhã, se o mantenho ou não, é hora de afastar-me do texto e entregá-lo ao que chamo de o melhor conselheiro de um escritor: a gaveta. É pôr o texto na gaveta e lá deixá-lo por semanas, meses e às vezes até anos.

Com o texto de novo na mesa de trabalho, depois que as novas alterações são feitas, eu o mando a um digitador. Quando ele volta, começa o teste da leitura em voz alta. Leio o texto de ponta a ponta em voz alta — não para outra pessoa, mas para mim mesmo. Aliás, a simples proximidade de outra pessoa tornaria a leitura inviável. O teste é infalível. Não há frase mal-escrita que a ele resista.

Segue-se então o que é o último teste: a leitura de pé, sentado e deitado. Dele falei uma vez em público; a informação circulou no meio literário e virou folclore a meu respeito. Mas é verdade, eu faço mesmo isso. É que em cada uma das três posições a visão que se tem do texto é diferente, o que só pode ajudar a melhorá-lo.

Pois, meus amigos, não contente com o meu método, e prosseguindo na minha incansável busca da perfeição, pretendo ir mais longe ainda: ler o texto de cabeça para baixo. Não, não é o texto que ficaria de cabeça para baixo: é o autor mesmo. É o autor que ficaria, como nós, mineiros, dizemos, plantando bananeira. Não será fácil,eu sei, mas... Enfim, tudo pela arte!

E assim, por fim, o texto vai para o jornal, a revista, ou a editora, definitivamente pronto. Definitivamente? Bom, não exageremos, pois, quando há uma republicação ou, no caso de um livro, quando vêm as provas — benditas provas —, a gente acaba dando com algo que nos havia escapado. O que pode acontecer ainda numa 2.ª edição. Talvez numa 3.ª. Numa 4.ª. Numa... Ufa!

Depois de tudo isso,vejam vocês, depois de tudo isso vem um cidadão que havia lido pela primeira vez um livro meu e, impressionado com a fluência, a clareza e a simplicidade do texto — para resumir os comentários dele feitos na hora —, candidamente me pergunta: “Você senta e tudo aquilo vai saindo?”

Sentar e tudo aquilo ir saindo, respondi, eu sabia era de outra coisa, não de escrever...

Pois é...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Uma verdadeira tempestade de lugares-comuns



Escrito por Raimundo Carrero


Flaubert já se preocupava muito com os lugares-comuns e as frases feitas dos escritores. Chegou a escrever um dicionário enumerando as frases repetidas à exaustão pelos franceses. Entre nós, Fernando Sabino fez o mesmo. Ainda assim, sob a alegação de que escrever é um dom, mas um dom que não precisa ser aperfeiçoado, continuamos a escrever frases que, em outras circunstâncias, seriam completamente abandonadas. Senão vejamos:

1 - Tenho uma ideia na cabeça
Nada mais bobo. Ideias só existem na cabeça. Basta escrever “Tenho uma ideia”. Não será nos ombros nem nos braços, todos entendem claramente.

2 - O craque jogou muito bem enquanto esteve em campo
Claro. “Enquanto esteve em campo” é abuso. Fora do campo ele não joga. Substituído, não participa da partida, é obvio, portanto, não merece análise.

3 - Depois da solenidade foi servido coquetel aos presentes
E os ausentes não puderam beber nem comer. Que tal cortar?

4 - Atirou no amigo
Amigo não atira no outro. Nunca escreva isso. Jamais.

5 - Está correndo atrás do prejuízo
Imagina se encontra. Bobagem ilimitada.

6 - A chuva que caiu ontem
Chuva não sobe nunca. Por favor, esqueça.

7 - Mulher, via de regra, é romântica
Via de regra? Que barbaridade é esta? Nunca escreva esta bobagem. Refaça agora, urgentemente.

8 - Numa manhã ensolarada
Lugar-comum horrível. Pare agora.

9 - A mulher caiu nos braços do marido
Nunca, jamais. Se você quer ser escritor com frases assim, esqueça.

10 - Astro rei... lábios vermelhos... lua de prata
Nem pense. Mude de atividade.

11 - Premido pelas circunstâncias
Esqueça, esqueça... isso não se faz... Apague e desista...

Este é apenas um exemplo muito rápido daquilo que encontramos em alguns livros, em alguns textos que causam surpresa. É preciso estar atento, todo cuidado é pouco para que você não aceite esse tipo de inspiração. Com certeza, não é inspiração, mas cópia do muito medíocre que vai se repetindo, repetindo, e formando a má literatura que contamina muitos escritores, sobretudo os iniciantes. Expressões como essas não passam numa oficina de criação literária, porque o professor estará sempre atento. O trabalho não acaba aí. Muita coisa ainda precisa ser dita...

12 - O profeta foi acompanhado por uma grande multidão
No Novo testamento esta frase aparece com frequência. Deve ser erro dos tradutores. Multidão é o coletivo de muita gente. Por que jornalistas e escritores gostam tanto dessa redundância?

13 - Aonde você está?
Aonde é para movimento e onde para lugares fixos. Imagine uma pessoa explicando aonde está...

14 - em vida, O escritor publicou apenas um livro...
É claro, ninguém publica depois de morto. Há livros póstumos. Respeito. Minha posição, porém, é de descrença...Tudo bem. Um autor, porém, não publica depois que morre. Os espíritas acreditam que sim. Mas é algo espírita...

É assim que as oficinas procuram desenvolver o processo criativo, ao lado dos estudos de técnicas dos autores mais sofisticados e imprescindíveis. Por isso é fundamental a presença de um professor com grande experiência na arte de escrever romances, novelas e contos, isto é, com experiência de fazer, de montar e remontar histórias, desde as mais simples às mais complexas.

http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/16-raimundo-carrero/606-uma-verdadeira-tempestade-de-lugares-comuns.html