Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador escravidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escravidão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A linguagem do trauma

por Gilson Iannini



Não é de bom tom começar um texto com uma citação longa. Mas há certas coisas que precisam ser ditas, mesmo fora do tom. O parágrafo que se segue é uma citação. Mas não vou usar aspas, nem recuar o texto. Vou me apropriar dele, como se fosse meu, mesmo não sendo.

Diz-se que os sobreviventes que voltavam – e voltam – dos campos não tinham nada para contar, que quanto mais seu testemunho era autêntico, tantos menos conseguiam comunicar o que haviam vivido. Como se eles mesmos fossem os primeiros a serem assaltados por uma dúvida sobre a realidade do que lhes tinha acontecido – se não teriam, por acaso, trocado um pesadelo por um acontecimento real. Eles sabiam – e sabem – que em Auschwitz ou em Omarska não tinham se tornado mais sábios ou mais profundos, nem melhores, mais humanos ou mais benévolos diante dos confrontos do homem, saíram deles, ao contrário, despidos, esvaziados, desorientados. E não tinham vontade de falar sobre isso. Tomadas as devidas distâncias, essa sensação de suspeita nos confrontos com o próprio testemunho vale, de algum modo, também para nós. Parece que nada, no que vivemos nesses anos, nos autoriza a falar. A suspeita nos confrontos com as suas próprias palavras se produz todas as vezes que a distinção entre o público e o privado perde seu sentido.

Parece que o texto fala da realidade brasileira recente, onde as certezas acerca do que estamos vivendo parecem se dissolver no ar. Mas o trecho acima, extraído do texto “Neste exílio – Diário italiano 1992-94”, foi publicado por Giorgio Agamben como uma espécie de epílogo ao seu livro Meios sem fim e descrevia seu próprio estupor diante da crise italiana, ainda no rescaldo da operação “mãos limpas”. O que nos autoriza a falar, a escrever, a tomar publicamente a palavra?

Atônito com o ressurgimento meio difuso, meio artificial e também meio anacrônico de um sentimento de nostalgia em relação à ditadura civil-militar nos cartazes e nas palavras de ordem de algumas manifestações ocorridas recentemente no Brasil e disseminadas nas redes sociais, decidi perguntar a colegas psicanalistas (em um dos casos, um intelectual marcado pela psicanálise) como entender esse quadro. Minha sensação era de espanto. Quando menino e depois, em minha juventude, sempre me intrigava a seguinte questão: quem eram os apoiadores da brutal ditadura militar brasileira? Naquele tempo, a tese, quase banal, de que uma parcela expressiva da classe média teria apoiado fervorosamente o golpe me parecia meio metafísica.

Eu, que nasci em 1969, sempre suspeitei que essa tese fosse verdadeira, mas nunca consegui individualizar, dotar de imagem ou de nome esse ou aquele indivíduo. Para mim, os entusiastas do regime nunca tiveram rosto. Confesso que essa questão era para mim um enigma. O vizinho do primeiro andar, que usa óculos escuros estilo coronel? Aquele tio durão? Os pais daquele colega de turma? A beata da primeira fila na missa de domingo? Tudo me parecia distante e improvável. Como se o meu bairro, o meu círculo de amizades ou a minha família estivessem protegidos desse tipo, que, no entanto, estatisticamente deveria estar mais próximo do que gostaria. Mas eles continuavam, para mim, sem rosto. Como lembra Agamben, “o rosto é o ser irreparavelmente exposto do homem, e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto nessa abertura”. E continua: “o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Pois aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para o político é a tragicomédia da verdade na qual ele há sempre cai e para a qual deve encontrar uma solução”.

Nas conturbadas eleições do ano passado, esse enigma se desfez por completo para mim. Como se caísse o último véu de ilusão que convenientemente me protegia de uma verdade mais insuportável e mais próxima de mim. De uma hora para outra, os nostálgicos da ditadura mostraram o rosto, fizeram cartazes e gritaram nas ruas, em alto e bom som. Queriam a volta da “ordem”, queriam o verde-e-amarelo contra o vermelho. Não estou discutindo se as razões de uma certa insatisfação com a política atual eram legítimas ou não. Havia e continua havendo muitos motivos de insatisfação, sempre a depender, claro, do lugar de onde se olha. O que me intrigava era o ódio. Era o quantum afetivo que acompanhava as declarações, os proferimentos. Não parecia possível analisar apenas o discurso, os argumentos. Trata-se de outra coisa, de posições afetivas extremamente enraizadas em nossa forma de vida.

Os saudosos da ditadura surgiam com rosto, endereço e voz. E eles estavam muito mais próximos do que gostaríamos de acreditar. Talvez fosse um vizinho, um parente, um colega. É evidente que uma análise desse fato social merece um estudo amplo, que requer o olhar do cientista político, do antropólogo, do teórico da comunicação, entre outros. Mas o que me interessava era outra coisa. Tudo aquilo me parecia um grande retorno do recalcado. Como se o verniz cultural que nos encobre em nosso contato cotidiano de repente se desprendesse, como aquela casquinha de tinta podre que arrancamos com as unhas na parede úmida. Num célebre artigo sobre a guerra, Freud afirma que o conflito desnuda as camadas de cultura que se depositaram nos homens pelo processo civilizatório e “faz vir à tona o homem primitivo em nós”. Algo desse tipo me interessava. A virulência e o ódio que se manifestaram nos discursos e nos gritos eram absolutamente aterradores. E ainda estamos escutando os ecos dessa gritaria, agora sob as vestes pseudojurídicas do “impeachment”, sentença que antecede o crime. Não por acaso, busca-se o crime depois de decidida a sentença, como num conto de Kafka.


Alguma coisa parece ter irrompido no frágil tecido social brasileiro. Como se esse tecido nunca tivesse realmente costurado, apenas alinhavado. Nossas fraturas históricas vieram de repente à tona, sem pudor, de uma forma escancarada, obscena. Aquilo que é traumático na história brasileira – o extermínio dos índios, a escravidão e a ditadura militar – não cessa de produzir efeitos sintomáticos.


Gilson Iannini é psicanalista, doutor em filosofia, professor da UFOP e editor da coleção “Obras incompletas”, de Sigmund Freud (Ed. Autêntica)

http://revistacult.uol.com.br/home/2015/03/a-linguagem-do-trauma/

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Taiguara - Levante do Borel



Levante do Borel (Taiguara)

Olha palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina
Que veio lá da Guiné
Mas existe... {Refrão}

Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia
Assim gritou a fúria do poeta
Com a dor do negro escravo que tanto sofria...

E hoje, relembrando Castro Alves
O povo desce sambando e cruza os mares
E um afro canto banto nos devolve...
A luta que nasceu com Zumbi dos Palmares

Oiá, Zumbi... bravo irmão
Deste a própria vida para não trair
Aqueles que lá no Quilombo
Palmaram teus ombros
De um congo fiel

Morto sim!
Escravo não!
Canta tua memória lá da Chácara do Céu
Que a voz operária é a do Borel

Olha a palma, palma, palma...
Olha pé, pé, pé...
Roda, roda, roda, menina
Que veio lá da Guiné
Mas existe..
.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Lincoln e Zé Dirceu

Lincoln

Por Plinio Bortolotti




“O Zé Dirceu tinha feito isso bem rapidinho.” O comentário eu ouvi à saída do filme Lincoln, que conta a história de como foi aprovada a 13ª emenda à Constituição americana - que pôs fim à escravidão - e esse momento na vida do homem que foi seu artífice: o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln.
O comentário do espectador tem a ver com o modo como a emenda foi aprovada; se é justo fazer paralelo com o chamado “mensalão” é outra história.

Em uma das cenas, um dos parlamentares mais radicais - que propunha o fim da escravidão acompanhado do confisco de terras dos fazendeiros do sul para distribuí-las entre os negros -, leva o documento recém-aprovado para casa, entrega-o à sua companheira, uma negra, e lhe diz: “A maior medida do século XIX foi aprovada pela corrupção”.

O filme se passa nas duas semanas em que Lincoln conseguiu sair de uma derrota - o Congresso havia rejeitado a proposta um mês antes - para uma vitória histórica: os mesmos congressistas aprovaram a emenda. Como ele faz para virar os 20 votos que lhe dariam os 2/3 necessários para a aprovação?

Chamou seu chefe de gabinete e mandou que negociasse os cargos no seu segundo governo com os parlamentares que perderam a eleição - e estariam “sem emprego” brevemente. Para fazer o serviço, digamos, pouco republicano, foi contratada uma turma de operadores -mostrada de forma um tanto cômica -, instruída a não citar o nome de Lincoln. O presidente lançou-se às negociações abertas, na tentativa de convencer os recalcitrantes e acalmar os radicais. Usou a sedução (era bom nisso), ameaças e trapaças, no que também saía-se muito bem.

Olhando o passado, quem ousaria criticar Lincoln por fazer o que fez, em plena guerra civil que dilacerava o país? Mirando o futuro, o que dirá a velha senhora, a História, sobre Lula, Zé Dirceu e o PT?

Resta perguntar: será que a política foi e será sempre assim? O filme mostra políticos dispostos a vender a alma. Por sua vez, Lincoln aparece como um homem isento de ambições particulares, exceto a maior de todas: deixar seu nome na história da humanidade, o que, sem dúvida, conseguiu.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/02/14/noticiasjornalopiniao,3005499/lincoln-e-ze-dirceu.shtml

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Lincoln e o passarinho

Por Marcus Vinicius

Depois de cutucado, o passarinho que me falou sobre o filme Lincoln (ver post de ontem http://diumtudo-marvioli.blogspot.com.br/2013/01/lincoln-emenda-e-ap-470.html ) complementa a análise..


" O tema de maior interesse do filme é a complexidade da Política com P maiúsculo, ilustrando:
  • a dinâmica das negociações e a diferença entre o que ocorre nos bastidores e aos olhos do público - sem moralismo.
  • a dificuldade de mudar o status quo num regime democrático.
  • os dilemas decisórios enfrentados pelo líder político. Dilemas estratégicos (ex: "melhor momento para apresentar o projeto de lei") e dilemas ético/morais ("quais meios empregar para assegurar o número de votos necessário").
  • as sutilezas do processo de convencimento de seres humanos por outros seres humanos, navegando entre as dicotomias razão x emoção; interesse x convicção; coragem x conservadorismo; medo x ousadia, etc.
"Lincoln" pode gerar ótimas discussões sobre as teorias da política desde Maquiavel.
Diferença entre Política Ideal e Política Real.
Qual é o "limite da irresponsabilidade"?
Também ótimas discussões sobre as dificuldades, a beleza e os limites da democracia, um jogo intrinsecamente humano e necessariamente "impuro", "imperfeito" e "sujo". É preciso entender o que significam estas palavras e isto não é óbvio. 

Questão de fundo: é possível melhorar o sistema? Como?

Idem sobre o sentido de "fidelidade partidária" e, mais importante, sobre os mecanismos fundamentais da política em geral e da democracia em particular: o acordo; a concessão; a negociação.
Exemplo: a difícil e histórica negociação do líder (Lincoln) com a ala "radical" do seu partido; o abandono do "ideal" pelo "possível"; o apoio do político "radical" (entre aspas porque radical tem diferentes significados em diferentes contextos) a posições "moderadas" antes inaceitáveis.

Não foram poucos os desvios de conduta da turma do presidente. Lincoln deveria ter sido processado? Sua imagem de herói deve ser revista (deveria ele ser impedido depois de morto)?
Ou seria Lincoln um herói maquiavélico, condenado pelos meios, mas absolvido pelos fins? Estas não são apenas questões morais. Respeitam também ao significado de Estado de Direito e suas instituições.
Ao cabo e ao fim, o filme é simpático ao protagonista, condescendente e solidário com suas escolhas difíceis, talvez porque a força da causa (incontestável nos dias correntes), do mito (e do morto) domine outras considerações.
Maquiavelismo seletivo?
Para além do caso específico, a mensagem bem poderia ser: 
a (sempre odiada) política é uma merda, mas, às vezes, funciona."

assinado: Passarinho

Serviço:
A emenda 13 que aboliu a escravidão nos EUA:

"Emenda XIII
'Seção 1'
Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.
'Seção 2'
O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias"

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Zambi - Edu Lobo e Gianfrancesco Guanieri



Zambi (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri)

É Zambi no açoite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer, ei!
Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
É a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de viver, ê
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-zumba, ei, ei, ei, vai fugir
Vai lutar, tui, tui, tui, tui, com Zambi
E Zambi, gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui
Mesmo chão

Vem filho meu
Meu capitão
Ganga-zumba
Liberdade
Liberdade
Liberdade
Vem meu filho

É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí
Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi