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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

HISTÓRIAS QUE LAÍS CONTA - 9


A vida como ela é! (2)


Laís Barreira
A vida nos traz coisas inusitadas; uma dessas foi o casamento de uma de minhas filhas (na década de 70) com o filho de um militar de alta patente, de orientação política totalmente oposta à nossa.

Na sua juventude, esse militar, quando foi delegado de Ordem Política e Social em Fortaleza, chegou a prender algumas vezes o meu marido Américo, também jovem, por “insubordinação” e “práticas subversivas”.

No início do namoro nós vivíamos sob a ditadura dos militares; o presidente naquela época era o General Médici (Governo Emílio Garrastazu Médici 1969-1974, um dos mais duros e repressivos dos governos militares) e havia muita censura a rádios e jornais, perseguição política, tortura e morte de presos políticos (o período do governo Médici ficou conhecido como “anos de chumbo” e foi a época de maior repressão e censura à jornais, revistas, livros, peças de teatro, músicas e outras  formas de expressão artística); foi um tempo de insegurança e medo, o Américo havia sido preso no início do golpe militar (1964) e ainda estava com os seus direitos políticos cassados e eu, ainda ressabiada com tudo que havíamos passado, não me sentia confortável com aquela aproximação e dizia à minha filha quando o jovem chegava lá em casa: “a partir de agora não se fala de política; cuidado, que até as paredes têm ouvidos”.
Porém, como sempre foi nossa característica, nunca proibimos o namoro.

Com o passar do tempo, ele foi se aproximando de toda a família, ganhando nossa confiança e amizade e se revelou um admirador do Américo, passando a ser seu discípulo no municipalismo e fiel e sincero amigo até o fim da vida do meu marido. Um dos episódios engraçados deu-se no dia do casamento dos dois.

Durante a cerimônia de casamento na igreja, um amigo nosso, que estava sentado ao lado de convidados da família do noivo, ouviu o seguinte comentário a respeito do sogro de minha filha: “o Góes tem um azar danado com os filhos, primeiro casou uma filha com um guerrilheiro palestino e agora o filho se casa com a filha de um comunista!”.

Apesar das diferenças ideológicas, as duas famílias acabaram se entrosando, mantiveram um bom relacionamento e essa história acabou virando uma piada engraçada.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira.)






quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Histórias que Laís conta – 7

Laís Barreira
A mágoa inesquecível



“Mô chefe jogou minhas coisas tudo, pela janela”, falou tristemente, com seu sotaque alemão carregado e engraçado, o nosso amigo Fred.
Namorado da amiga Lurdinha, que estava hospedada na casa da minha mãe, Fred era um dos alemães da pequena colônia que vivia em Fortaleza e, naquele dia todos nós sentimos o significado de estar em guerra com outro país.

Era o ano de 1942, quase no fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que nós chamávamos de “Grande Guerra”.

O Presidente Getúlio Vargas simpatizava com o Eixo formado pela Alemanha, Japão e Itália, porém acabou entrando na guerra e lutando junto aos adversários destes, os países aliados; a gota d’água foram os bombardeios de vários navios brasileiros por submarinos italianos e alemães.
Aqueles episódios indignaram a população e em todos os estados houve represália a emigrantes estrangeiros, mesmo aqueles que já viviam no Brasil muito antes da guerra.
Em Fortaleza teve um “quebra-quebra” em várias lojas pertencentes a alemães, italianos e japoneses.

Lembro bem do episódio da Casa Veneza, de um italiano, uma das sapatarias mais chiques da cidade, que ficava na Rua Floriano Peixoto. Os manifestantes invadiram a loja e jogaram os sapatos no meio da rua.
Outras lojas também foram depredadas e algumas foram até incendiadas pelo povo revoltado contra o Eixo dominado por Hitler, entre elas as lojas Pernambucanas, da família Lundgren, a padaria de um espanhol e a loja de flores da família Fujita que se chamava “Jardim Japonês”.
Os alemães, principalmente, eram olhados “meio de lado” pela população de Fortaleza, mas nós mantivemos nossas amizades e nunca os tratamos mal.

O “Seu” Vicente Cunto e seu primo José, italianos que moravam aqui há muito tempo eram nossos vizinhos, donos de uma loja de tecidos e alfaiataria chamada A Formosa Cearense e eram boa gente.  
O Brasil declarou guerra aos países do Eixo, mas, quando enviou os soldados para a luta nós já imaginávamos que a guerra estava próxima do fim; a Alemanha e seus parceiros estavam perdendo algumas batalhas importantes e as notícias do rádio informavam o avanço das tropas aliadas.
Em junho de 1944 os oficiais da FEB (Força Expedicionária Brasileira) embarcaram para a Itália; nesse dia houve uma grande comemoração na Praça do Ferreira, uma alegre multidão se concentrou no centro da cidade, para se despedir e desejar boa sorte aos soldados.
Foi um dia inesquecível!
Houve desfile de carros abertos pelas ruas do centro e nós saímos a pé, em passeata, até a praça, eufóricos com aquele acontecimento que era esperado por todos e protelado pelo governo apesar das pressões (em agosto de 1942 o governo do Presidente Getúlio Vargas declara guerra à Alemanha e à Itália, porém as tropas só foram enviadas para a Itália em junho de 1944).
Em meados de agosto de 1945 esperávamos a declaração do fim da guerra a qualquer momento e, quando finalmente a notícia chegou, transmitida por todas as estações de rádio, eu estava em casa; nessa época eu já tinha quatro filhos, todos pequenos.

A princípio não me animei muito pra ir, o Américo não havia voltado pra casa, eu não tinha companhia e nem com quem deixar as crianças.
Mas, quando as rádios começaram a dar notícias das centenas de pessoas chegando à Praça 
do Ferreira, do clima de euforia e animação, fiquei louca para estar lá comemorando com todo mundo.
Mas, o Américo não deu notícia nem voltou em casa. Do trabalho foi direto para a praça comemorar com os amigos.
Só depois soube dos detalhes, da multidão que se reuniu lá, da alegria e da vibração que contagiou as pessoas e percebi que perdi a comemoração de um dia histórico para toda a humanidade.
Senti uma grande frustração e uma mágoa do Américo, por não ter ido me buscar, que nunca esqueci.

(História narrada por Laís Barreira, aos 100 anos e transcrita por Vólia Barreira).

Nota
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era formada por uma Divisão de Infantaria, uma Esquadrilha de Reconhecimento e um Esquadrão de Caças. Mais de 25.000 homens e mulheres participaram da Campanha da Itália em suas duas últimas fases.  Seu lema "A cobra está fumando", era uma alusão irônica ao que se afirmava à época de sua formação, que seria "Mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil participar da guerra na Europa".

O Esquadrão de Caças da FAB (Força Aérea Brasileira) adotou o grito de guerra “Senta a Pua” que era uma expressão nordestina muito usada nos anos 40. 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Carta para Helena


Fortaleza, maio de 2016.


Minha pequena Helena,


Antes de abrires teus olhinhos pra ver o mundo, já nos acende um sentimento novo no coração.
És a primeira das nossas melhores expectativas!

Viverás em um planeta muito bonito e, por vezes, encherás teus olhos com tanta beleza.
Porém, esse mundo em que vivemos, não tem sido acolhedor com os seres que ele abriga.

O planeta terra, onde a gente vive, é formado por muitos rios, pelos mares, pelas florestas e montanhas que chamamos de natureza e, aqui moram muitos animais, uns bem grandes e outros tão pequeninos que cabem dentro da tua mãozinha.

Muitas pessoas que vivem aqui na terra, estão se esquecendo de cuidar da natureza e de todos os seres vivos.

Algumas palavras que aprenderás, como intolerância, egoísmo, ganância, individualismo, preconceito, têm muita responsabilidade por isso tudo.

Neste ano de 2016, do teu nascimento, o nosso país, o Brasil, está passando por um período de muitas ameaças.
A mais grave delas é a uma palavra que se chama democracia.

Quando cresceres um pouco mais, vou te explicar o que ela significa e vou te contar que por ela e em defesa dela, muita gente sofreu.

Vou contar a história do teu bisavô Américo e como ele lutou pela democracia.

Infelizmente, nesses tempos, parece que muitas pessoas estão esquecendo-se de usar a palavra respeito.
Esta bela palavra não significa que temos que concordar em tudo com a outra pessoa, mas significa não discriminar ou ofender essa pessoa pelas suas escolhas, seus pensamentos e sua forma de viver.
A falta do respeito esbarra numa palavra muito dura: a intolerância.

Estou torcendo muito para que essa realidade mude logo.
Por isso, minha menina, não poderei te prometer tempos fáceis!

Mas, posso prometer cantar as mais belas canções que aprendi,
Para te fazer dormir e espantar teus medos.
Também prometo mostrar o mundo das histórias, que moram dentro dos livros e que nos ensinam como viajar para lugares muito distantes, com o nosso pensamento.

Num dia de sol, prometo que conhecerás o mar, uma água muito grande, que pode nos levar, de verdade, para quase todos os lugares do mundo.

Eu te darei, pra provar, pitomba e seriguela, frutinhas pequenas que guardam a infância e, vou te deixar se lambuzar de mangas e cajus que deixarão para sempre, em tua língua, o doce, o azedo e o travoso de maravilhosos sabores.
E, nesses dias, prometo que vamos todos virar crianças, com a alegria dos teus risos e das tuas gaiatices.
Tu vais conhecer e conviver com algumas pessoas maravilhosas, que te ensinarão palavras que te farão enxergar além dos horizontes e te abrirão novos caminhos.
E com outras, que tentarão influenciar tuas escolhas.

Mas saiba querida, que caberá somente a ti escolher o teu caminho.

Aprenderás que os caminhos às vezes são planos e cheios de lindas paisagens, e andarás por eles como se fosse um passeio.
E que, às vezes, eles têm curvas cansativas e grandes montanhas que precisarás subir ou contornar, mas, sei que terás a energia e a vontade necessárias para transpor todas as dificuldades.

Porém, não precisas te preocupar com isso agora;
Além do mais, sempre terás pessoas queridas ao teu lado.
Quando não estiveres bem e quando estiveres muito bem.

E saiba que cada uma dessas pessoas será importante na construção de cada pedacinho da tua identidade.
No entanto, nós, essas pessoas ao teu lado, não somos as “sabichonas” que iremos te ensinar tudo e tenho a certeza de uma coisa muito boa:
A nossa garotinha vai nos trazer muitas ideias novas e nos ensinará um pensar e um olhar diferente.

O amor não tem preconceitos e não se mede por nossas ações, nem por nossas escolhas, portanto, sejam quais forem as tuas, o meu lado sempre será o teu lado.
E vou torcer sempre por ti, sobretudo por tua felicidade.

Precisamos falar também de duas palavras que sempre andam juntas: alegria e risada.
Esta tua avó cearense não tem o espírito “moleque”, famoso nessas terras de José de Alencar e de Chico Anísio!
Mas, o humor é fundamental e já me disseram que quem sabe rir de si mesma vê a vida de uma perspectiva diferente e é capaz de torná-la mais leve.
Por isso, ria sempre e ria muito.

Por fim, gostaria de te dizer que dê muita importância a sentimentos como amor, generosidade, justiça, indignação...
Essas palavras são forças transformadoras!

Porém, de todas elas, uma para mim é especial: a palavra ética.

Na nossa família aprendemos o que ela significa e este foi o nosso melhor ensinamento.
A ética é uma palavra pequena, mas é muito grande no significado. Ela nos ensina a viver e conviver com as pessoas e faz com que a gente seja uma pessoa bacana de verdade.
Aprenderás muitas palavras, umas duras, outras doces, que farão de ti a pessoa que serás.
Mas, sobretudo, como disse o ídolo revolucionário Che Guevara, que um dia acreditou que mudaria o mundo:

“Não perca a ternura jamais”!

E para não dizer que não falei da poesia, deixo-te uns versos, entre tantos, que gosto muito. 

Põe quanto és no mínimo que fazes
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Vou finalizar essa cartinha com uma música que, quando ouço, me faz pegar pelo braço a menina que ainda dança dentro de mim e sair rodopiando com ela.
Quando cresceres, não se esqueça de levar sempre contigo a tua menina que dança!


A menina dança 
– Moraes Moreira e Galvão


Quando eu cheguei tudo tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma
Viro os olhinhos

Só entro no jogo por que
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar
De um lado o olho desaforo
E o que diz o meu nariz arrebitado
Que não levo pra casa
Mas se você vem perto eu vou lá

Eu vou lá

No canto do cisco
No canto do olho a menina dança
Dentro da menina
A menina dança

E se você fecha o olho a menina ainda
Dança dentro da menina
Ela ainda dança
Até o sol raiar
Até o sol raiar
Até dentro de você nascer
Nascer o que há.

Quando eu cheguei tudo tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma
Viro os olhinhos.

Seja bem vinda ao mundo minha querida!

Um beijo da avó que te aguarda,

Vólia.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Américo Barreira: 100 anos de humanismo

Por Gervásio de Paula

Há muitas teorias que tentam explicar a origem da humanidade. De onde viria essa energia que nos faz humanos. Alguns falam que isso remonta ao nascimento de um redentor, chamado Cristo, nos transformando em pessoas mais generosas, mais amorosas. Há, ainda, quem diga que tudo se explica pelo sistema nervoso central e suas ramificações. Outros afirmam que somos influenciados por astros e estrelas que nos acompanham ao longo da vida e nos tornamos o que somos a partir da posição que esses astros ocupam no cosmos.

Eu pessoalmente, sou adepto do materialismo histórico, que afirma sermos frutos do contexto em que estamos inseridos e das pessoas com as quais cruzamos na nossa vida.
Sou fruto dos muitos homens e das muitas mulheres que me atravessaram ao longo do caminho e do legado que eles me trouxeram. Muito do que sou e do que aprendi se deu no contato com essas pessoas e, sem dúvida, uma das mais emblemáticas é o querido Américo Barreira.

Américo Barreira, um dos maiores municipalistas que esse Estado já teve, se vivo fosse, teria 100 anos.

Ele tinha a sabedoria de quem nasce no frio da serra de Baturité, lugar onde o sopro desce gelado no espírito que verseja. Se apresentava porém com a garra do legítimo sertanejo, que sabe o que vale um pedaço de terra perdido nesse chão de meu Deus. Apesar de caboclo, sua verve intelectual e política se manifestou muito cedo, já escrevia aos 12 anos no jornalzinho, a Farpa, se solidarizando com professores que lutavam contra a ação maléfica dos coronéis no Estado.

Aos 17, já discursava em praça pública contra o então presidente Washington Luis. A palavra o procurava, como diria Manoel de Barros. A luta o procurava. Foi estudante de Direito e colocou sua alma e seu verbo a serviço dos muitos. A serviço dos homens e das mulheres que pereciam da delicadeza e da justeza da vida. Só lhes restavam pessoas de grande humanidade como Américo para defender os povos do sertão da sanha dos coronéis.


Américo foi eleito vereador e com sua eleição se inaugura um novo ciclo de municipalismo no Estado do Ceará. Américo funda a primeira Associação dos Municípios e ajuda a fundar o Partido Comunista. Experimenta a mão pesada da Ditadura Militar (1964-1985) e vive o encarceramento. Mas para homens inventores como Américo, não há cárcere que lhe aprisione o espírito. Suas palavras ecoavam nos que se mantinham nas ruas na luta por novos tempos e seu exemplo tirava o casulo das lagartas, como muitos de nós.

Américo me deu asas e me fez político e humano, no mais essencial que essas duas palavras me podem cair. Político, por me fazer acreditar que é na polis, na cidade, no meio das ruas, com as multidões, que se faz história e que se rompe o ciclo vicioso das castas sobre os plebeus.


Humano, porque apesar da dureza que o sertão se faz em nossa carne, apesar das rachaduras que o coração leva, ele me fez ver que a amorosidade é que constrói a vida e é na beleza dos que precisam de uma mão amiga é que um sujeito pode se orgulhar de suas memórias. Ele era um homem que não envelhecia, como ele mesmo dizia, tinha compromisso com o futuro.

Manoel de Barros diz que é dois seres: o primeiro é fruto do amor de seus pais João e Alice; o segundo e letral, fruto de uma natureza que pensa por imagens.
Eu me arriscaria a dizer que Américo seria não um, nem dois, mas três seres: o primeiro fruto do amor de seus pais, o segundo de natureza intelectual e o terceiro de natureza coração. Américo era, antes de tudo, um homem de grande coração. Tudo que aprendi sobre humanidade e de como deveríamos valorizar e cuidar das pessoas, devo a ele.

http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/coluna/gervasio-de-paula-1.133/materia-1.810772

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ao amigo Américo Barreira

Por Lana Araújo

Ao amigo Américo Barreira,

Quando fui convidada pelo Marcus Vinicius para escrever sobre o Dr. Américo Barreira, fiquei um pouco receosa. Como eu poderia escrever sobre uma figura tão brilhante e tão múltipla? Outras pessoas já o fizeram com muito mais propriedade.

São muitos Américos: o intelectual, o político, o municipalista, o socialista, o idealista, o boêmio, o amigo, o humanista ..., dentre tantos.

Resolvi então escrever sobre as lembranças que tenho quando ele, como vice prefeito e a Maria Luiza Fontenele como prefeita, governaram Fortaleza, no período de 1986 à 1988.

Conheci o Dr. Américo bem antes dessa data, dado minha amizade com suas filhas, Laisinha e Vólia, mas nesse período nossa convivência foi mais intensa, pois ele e o Chico Guedes me convidaram para ser Diretora do Departamento de Fomento e Abastecimento da Prefeitura de Fortaleza.

Lembro que logo no inicio da Administração, houve uma forte pressão por parte da Associação dos Agrônomos pelo fato de eu ser arquiteta. Eles prepararam uma reunião para exigir do Dr. Américo a minha demissão. O Dr. Américo fez um discurso belíssimo derrubando todos os argumentos apresentados e com toda a altivez, própria dos corajosos, que estão com a verdade, informou que não me demitiria, e que, confiança se tem, não se impõe. Calou a todos. Realmente ele tinha muita consideração e grande confiança em mim. Fui nesse sentido uma pessoa privilegiada!

Depois desse episodio começamos a fazer um planejamento para o Departamento, que estava parado, sem projetos e sem função definida, Chamamos então todos os agronomos para conversar e o Dr. Américo expos suas ideias quanto aos Projetos que a nova Administração poderia implementar. Discutimos principalmente os projetos voltados para o desenvolvimento das comunidades carentes, visando à melhoria da renda da população de Fortaleza. Os agrônomos ficaram muito entusiasmados com aquelas ideias e passaram a trabalhar para desenvolver alguns dos projetos propostos e tiveram um importante papel na sua execução.

Desenvolvemos e implantamos vários deles: Cabra Bom, Peixe Gordo, Horta Viva, dentre outros, com resultados muito positivos. O Dr. Américo explicava os projetos para as comunidades. Ele sabia conversar com as pessoas mais simples, as compreendia e se fazia compreender. Ao ouvir o Dr. Américo, nos ficávamos maravilhados, vislumbrando tantas possibilidades. Ele tinha muitas idéias e um grande conhecimento sobre o tema.

Discutimos muito também sobre como fazer uma administração onde a população tivesse realmente uma participação, e onde a parceria pudesse ser desenvolvida.

O Dr. Américo estava muito a frente do seu tempo. Com suas idéias, para uma gestão democrática e seus ideais para um mundo melhor. Aprendi com ele um pouco sobre a importância do Movimento Municipalista, e sobre o valor da democracia. Ele era um verdadeiro democrata.

Nessa época, participei muito também do Convívio familiar do Dr. Américo e da D. Laís. Em sua casa, os domingos eram uma festa ! Todos os filhos e netos iam almoçar com eles. Fazia-se uma grande roda na varanda, todos comendo e bebendo antes do almoço e conversando muito. Discutia-se tudo: política, música, e os mais diversos assuntos.

A figura central era do Dr. Américo. Anfitrião inigualável, mesa farta, conversador nato, um bom ouvinte, recebia todos em sua casa com alegria, e nessas ocasiões, ele, um orador brilhante, sempre nos falava de suas idéias e projetos, transmitindo seus conhecimentos com clareza e de forma didática. As horas corriam muito rápido.

As vezes quando eu chegava mais cedo, entrava pelo gabinete e sempre o encontrava com uma lupa lendo ou escrevendo. Ele também gostava de ouvir musica , tendo uma predileção pela musica Viagem do João de Aquino e Paulo Cezar Pinheiro. Sempre que escuto essa musica lembro dele. Quando certa vez levei umas musicas gravadas pelo Fagner para a Laisinha ouvir , ele chegou perto de mim na sala e me disse qual a musica que ele tinha gostado mais. Não lembro o nome , mas sei que falava de uma saia de mulher que se arrastava na areia..

Lembro de muitos políticos que por lá apareciam solicitando sua opinião, sua ajuda. Não eram só os políticos de esquerda, mas de partidos diversos. O Dr. Américo, homem integro e tolerante, a todos recebia com respeito e disposto a ajudar.

Nessas rodas de conversa em sua casa, me marcou uma frase sua: “velho é quem não tem compromisso com o futuro”. O Dr. Américo era muito jovem, e nos deixou cedo demais! Não só sua família ficou órfã. Órfão também, ficaram seus amigos e admiradores como eu.

Deixo aqui meu abraço para D. Laís e todos os seus filhos e agradeço pela oportunidade que me foi dada, de poder homenagear esse grande homem, digno de todas as honrarias.

Saudades...

Américo Barreira - 100 anos


Américo barreira - Um homem para lembrar.

Por Vólia Barreira

1964. Ditadura Militar. A tensão e o medo cercavam a nossa casa. Eu, criança, ouvia conversas entrecortadas: “não vou fugir”, “se vierem me prender me encontrarão em minha casa!”. E foi assim que numa madrugada de abril, testemunhamos aterrorizados o exército, armado de metralhadora, prender nosso pai sob a acusação de ser um perigoso comunista. Era Américo Barreira. Nossa família ficou indelevelmente marcada pela truculência desse episódio.

No seu centenário, em 11 de fevereiro de 2014, lembro sua trajetória pontuada de lutas em defesa da democracia e da igualdade social, o humanista e educador, o municipalista e o boêmio romântico, de choro fácil. Iniciou sua militância política nos grêmios estudantis. Nos anos 40 ingressa no partido comunista, quando participou de memoráveis campanhas nacionais e foi eleito vereador de Fortaleza. Militante municipalista, liderou o movimento em defesa do município como estrutura fundamental da Federação. Organizou congressos e seminários Brasil afora dando importantes contribuições para essa causa.

Ajudou a construir o Partido dos Trabalhadores no Ceará e assumiu a primeira candidatura do partido ao governo estadual, em 1982. Também pelo PT, foi eleito vice-prefeito de Fortaleza, levando para a chapa de Maria Luiza Fontenele sua respeitabilidade de homem público, reconhecido por sua integridade ética e moral. Lembrar Américo Barreira é lembrar também do humanista e educador, particularmente o professor de história do Brasil, atividade que exerceu com orgulho e senso crítico, conquistando respeito e admiração dos alunos.

É lembrar, por fim, do homem generoso e solidário, que até o fim de sua vida, aos 79 anos, manteve as portas de sua casa abertas aos muitos amigos, que desfrutavam de sua conversa inteligente, seu espírito gozador e sua mesa farta. De herança, nos legou um grande exemplo de caráter e dignidade e o orgulho de termos partilhado de sua profícua vida, motivo pelo qual comemoramos, junto com nossa mãe, Laís, lúcida e jovial aos 97 anos, esse dia especial.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/02/11/noticiasjornalopiniao,3204881/americo-barreira-u2013-um-homem-para-lembrar.shtml

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

LAÍS QUE AMAVA AMÉRICO

Por Audifax Rios

Em meio aos cartões de Natal chegados no final do ano passado, uma mensagem com fotos e poemas que muito nos emocionou, mexeu com tempo e vida, puxou pela memória, reeditou lembranças. Era a participação das noventa e cinco primaveras (secas e invernos) de Dona Laís Aires Barreira, viúva do mestre Américo Barreira, mãe dos amigos Júnior, Nanan, Vólia, Olenka, Laisinha, Ivelise e Euclides. No verso, o recado do neto Tádzio assim arrematado: “De tudo fará para que o bem comum prossiga / E o porvir seja melhor que o tempo ido”. Tradução do pensamento de Dona Laís e confirmação das palavras de Américo: “Vou manter o meu compromisso com o futuro enquanto as pernas me levarem e a cabeça funcionar razoavelmente”.
Ilustração de Audifax Rios

Laís Aires esteve com Américo, solidária, até o último instante. A companheira, a mãe, a sombra da grande mulher. Laís, filha de Euclides Aires e Eliza, ele, destacado funcionário da firma Conrado Cabral & Cia, Grão Mestre de Loja Maçônica e presidente da Câmara Municipal.

Quando da morte de Américo (19 de novembro de 1993), seu irmão, o escritor e amigo Luciano Barreira, autor de Os Cassacos entre outros libelos, prestou carinhosa homenagem ao mano em forma de livro, (Américo Barreira - o mágico itinerário da liberdade), para o qual criamos capa e ilustrações. Constava de biografia, registro iconográfico, depoimentos e um caderno intitulado: Américo crítico, irônico e bem humorado. Onde o autor pinta um cidadão alegre e jovial através de histórias verdadeiras que passariam ao domínio do folclore com suas inevitáveis deturpações não fossem os conhecidos critérios de Luciano Barreira para com temas da maior seriedade. Mais tarde o jornalista Gervásio de Paula traçou perfil semelhante do grande municipalista.

Esta última parte do livro contém a narrativa de um causo no qual Dona Laís tem participação importante, pois motivo do incidente que deu margem para Américo externar seu pensamento dentro dos tenebrosos cárceres da ditadura militar. Tentaremos resumir aqui o Banquete comunista do Lano. Então: Preso no 23-BC, Américo recebia comida caseira preparada pela zelosa Laís, conforme o combinado. Certa vez a boia chegou em quantidade maior e qualidade melhor que a costumeira, sobra de um aniversário familiar.

A fartura não passou pelo crivo do oficial de plantão que pegou a deixa para fazer uma preleção diante dos presos e de seus subordinados. E soltou o verbo, taxou a alimentação enviada por Dona Laís de banquete comunista dando uma aula de civismo a sargentos cabos e soldados, salientando que ali havia alimento inviável até pra militar, imagine para o povo. Ao final perguntou: “O que é que o senhor acha disso, Dr. Américo?”. A velha raposa não deixou passar a oportunidade e usou de sua melhor arma: Explicou que a mulher e os filhos só queriam, com o ato, dar uma demonstração de solidariedade aos que ali mofavam privados da liberdade.

E que todos, até os militares, tinham direito de, ao menos, comer dignamente. O oficial cortou o barato: “Dr. Américo, pare, o senhor já falou demais”. Um capitão que assistia à distância, no dia seguinte, reuniu os presos políticos e alguns militares e proferiu breve oração desculpando-se pelo incidente, situando-o como caso isolado. Encerrando, disse da honra de ter sido aluno de Américo no Colégio Farias Brito.

Dona Laís nunca imaginou que seus quitutes fossem gerar uma revolução de quartel. Mas sabia, todas as suas interferências pesavam no desencadeamento do processo defendido pelo marido. Mesmo depois de não mais se encontrar entre nós. Como disse a filha Vólia no poema concebido para o pai, Saudade: “Pois tu és muito maior que o tempo / E já tens outro caminho a seguir”.

Laís comemorou em dezembro 95 anos de vida. Os últimos 18, sem Américo. A obra do municipalista, humaníssimo e coerente, porém, ainda norteia este fim de estrada. O exemplo de sua dignidade ilumina a trilha de todos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não se aprende para saber...

Artigo do Jornalista Gervásio de Paula no Diário do Nordeste de 11 de Agosto de 2010

Não se aprende para saber...

Como a pauta diária da mídia brasileira atual é entrevistar candidatos, em particular aqueles que almejam ser eleitos para os cargos executivos - saber de suas linhas programáticas, de seus planos sócio-econômicos para aquilo que propõem - relembro aqui do grande municipalista brasileiro, saudoso jornalista, sociólogo e educador Américo Barreira, alguns tópicos fundamentais e atuais para a vivência eleitoral, sobre a Educação de que tanto se fala.

Partindo-se do blá-blá-blá dos mais diversos candidatos, sobre o que pretendem fazer nas áreas de Educação, Saúde e Segurança, se forem eleitos, o professor Américo Barreira dizia - onde estivesse, para quem quisesse ouvir - que "a Educação reflete o sistema a que serve". "É feita para sustentá-lo. Porquanto, aquele que desejar saber como vai a Educação no Brasil precisa conhecer antes a situação do regime, do sistema político-administrativo".

Segundo ele, na medida em que ela mina, elevando o nível de consciência política do povo, desarticula o regime. Passa a não existir o pseudo projeto oficioso da Educação. "Se existe plano é de não Educação, da não intromissão da Educação nos rumos do sistema, que é conservador, reacionário, ao qual a verdadeira Educação não pode servir", assinalou.

Para o municipalista, o que se faz, por exemplo, com a universidade, é desmoralizá-la, transformando-a numa ponte para algum ensino privado de péssima qualidade. No ensino médio, o que se criou de "inovação", por um período, foi o cursinho, uma espécie de supermercado da Educação Média no Brasil.

Para o educador Américo Barreira, a inexistência de mercado de trabalho para absorver a juventude era uma grande preocupação do socialismo. "Uma jovem sai com um diploma do curso médio e é obrigada a passar dois anos num cursinho para poder ter acesso à universidade. Lá, passa cinco ou seis anos, sai doutora e vai ter que ser motorista de táxi, balconista de supermercado ou outra casa comercial, para viver.

Viver não. Escapar. Porque o conceito de viver é viver decentemente, com salário digno, capaz de suprir suas necessidades fundamentais. É uma situação para não criar expectativa de mudança na sociedade", tonifica Américo Barreira.

Américo conhecia muito bem a realidade da criança do Interior e de alguns bairros da periferia dos grandes centros urbanos, que só vão à escola para matar a fome com a merenda escolar. Tentava transformar o ensino público, que sempre esteve dissociado da realidade e "altamente seletivo". A maioria dos jovens da zona rural não chega à 8ª série, não lhe ensinam nada sobre a sua realidade, sequer o ajudam a perceber como vive mal, que para viver melhor é preciso mudar muita coisa, a começar pelo processo obsoleto de produção. Se uma professora do interior disser que é preciso dar terra a quem não tem, certamente perderá o emprego. É um sistema tão arcaico como o sistema dominante.

O visionário Américo Barreira falava, nos idos de 1984, que "no Brasil de hoje o que domina é o interesse multinacional. Qualquer dia desses teremos a multinacional da medicina, a multinacional do remédio, a multinacional da previdência social e por aí vai", preconizou. "Tem-se de mudar o sistema vigente. O povo brasileiro terá de fazê-lo. E não é negócio de homem, de salvador", esclarecia. Pode até trazer Jesus Cristo para "resolver" e ele vai ser crucificado outra vez. A função da escola é, sem dúvida, preparar para a vida. Mas subentende-se uma vida melhor, com perspectivas mais amplas. Não se aprende para saber. Aprende-se para fazer".