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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Woman is the nigger of the world - Lennon e Yoko


Woman Is The Nigger Of The World (Lennone Yoko)

Woman is the nigger of the world
Yes she is
Think about it
Woman is the nigger of the world
Think about it
Do something about it

We make her paint her face and dance
If she won't be a slave, we say that she don't love us
If she's real, we say she's trying to be a man
While putting her down we pretend that she's above us
Woman is the nigger of the world
Yes she is
If you don't believe me
Take a look at the one you're with
Woman is the slave of the slaves
Oh yeah, better scream about it

We make her bear and raise our children
And then we leave her flat for being a fat old mother hen
We tell her home is the only place she should be
Then we complain that she's too unworldly to be our friend

Woman is the nigger of the world
Yes she is
If you don't believe me, take a look at the one you're with
Woman is the slave to the slaves
Yeah, alright

We insult her every day on TV
And wonder why she has no guts or confidence
When she's young we kill her will to be free
While telling her not to be so smart we put her down for being
so dumb

Woman is the nigger of the world
Yes she is
If you don't believe me, take a look at the one you're with
Woman is the slave to the slaves
Yes she is
If you don't believe me, you better scream about it

We make her paint her face and dance (x7)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Acabou chorare


Por Alberto Villas

Caetano exilado em Londres derramava melancolia num vinil perguntando “cadê o meu sol dourado, cadê as coisas do meu país?” Gil, também em Londres, gravava no Chappell’s Studios um disco em inglês com apenas duas palavras em português: Tão e triste. Por aqui, no país tropical, Gal, mulher fa-tal, cantava: “Tô cansada/E você também/Vou sair sem abrir a porta/E não voltar nunca mais”.

No Rio, o ex-deputado Rubens Paiva, cassado em 1968, era preso em sua casa. Depois sumiria para nunca mais. Carlos Lamarca caia morto com cinco tiros no grande sertão da Bahia, mais precisamente num lugar chamado Pintada. A censura podava o filme “Como era gostoso o meu francês” porque onde já se viu índio nu na tela do cinema? Enquanto isso, o Edifício Andraus em São Paulo ardia em chamas. Era 1971.

O mundo girava. Bangladesh se descolava do Paquistão e o povo sofrido de Bengala ganhava um concerto by George Harrison. Os astronautas americanos passeavam na lua enquanto os cosmonautas soviéticos Patsaiev, Volkov e Dobrovolski morriam sufocados a bordo da Soyus. Louis Armstrong deixava definitivamente esse wonderful world tão sonhado e o Haiti, o pobre do Haiti passava de pai pra filho, de Papa Doc para Baby Doc.


Sem muito dinheiro no bolso e devendo meses de aluguel, cinco novos baianos – Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes e Baby Consuelo, aquela do nariz arrebitado, se mandavam de Copacabana para um sítio em Jacarepaguá batizado de “Cantinho do Vovô”.
Sorry, John Lennon, mas o sonho por aqui ainda não tinha acabado.

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros.


Fora do eixo e nadando contra a corrente, os Novos Baianos se instalaram ali no meio do mato armando cabanas em cada um dos cômodos da casa. Bilhetes foram espalhados pelas paredes porque era preciso organizar o movimento. Um cozinhava o feijão, outro lavava a louça, um terceiro enxugava. Enquanto um cuidava do banheiro, o outro ia pra roça. O dinheiro que pintava era todo ele jogado dentro de um saco de pano velho apelidado de “mocó”.

A turma foi crescendo, vieram os muitos filhos de Baby e Pepeu, os garotos da Cor do Som, amigos de todo canto e nação. Até um índio boliviano de repente foi morar lá naquele pedaço de terra brasilis.

Era comum tomar banho ao ar livre, ver um novo baiano descascando batatas, outro varrendo o chão, gente pintando e bordando. Ver futebol na televisão era uma paixão que acabou virando o Novos Baianos Futebol Clube, time e disco.

Enquanto eu corria
Assim eu ia
Lhe chamar!
Enquanto corria a barca
Lhe chamar!
Enquanto corria a barca
Lhe chamar!
Enquanto corria a barca.


Nos dias de sol via-se roupas comuns dependuradas e nas noites de viagem, a lua furava o zinco salpicando de estrelas o chão. Lá fora, o Brasil do ame-o ou deixe-o, do Medici ou mude-se, vivia sua repressão enquanto lá no cantinho do vovô era só psicodelismo, curtição e muita criação. De vez em quando o som aumentava, o tempo fechava, a polícia baixava. Um dia a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E o que era doce acabou-se.

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo.


Músicas citadas: If you hold a Stone, One O’Clock last morning 20th april 1970, Movimento dos Barcos, Mistério do Planeta, Preta Pretinha, Chão de estrelas e Acabou Chorare.
Poesia citada: José, de Carlos Drummond de Andrade.


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

John Lennon e Yoko Ono por Pedro Alexandre Sanches


Por causa da mulher



Discos de John Lennon são reeditados 30 anos após sua morte. Mas falta destacar
a presença de Yoko Ono no trabalho do artista pós-Beatles.
Ela era uma bruxa. Ele era um menino que vivia sob a guarda da bruxa. O menino era um dos homens mais famosos do mundo. A bruxa era apenas uma bruxa. O mínimo que a bruxa fez para desmoralizar toda a humanidade foi separar o menino de outros três meninos que formavam com ele um conjunto chamado The Beatles. A fábula do intenso casal formado por John Lennon (1940-1980) e Yoko Ono (hoje, com 77 anos) foi contada inúmeras vezes com essa entonação, e a brincadeira de mocinho e bandida não tem hora para acabar.
No ano em que John faria 70 anos, a filial brasileira da gravadora EMI o homenageia pela enésima vez com uma reedição especial da coleção completa de canções criadas pelo artista entre a separação dos Beatles, em 1970, e seu assassinato, dez anos depois. Foram oito álbuns, três deles assinados em dupla por John & Yoko (inclusive um póstumo, de 1984). Mas a presença de Yoko neles é apenas um detalhe, a acreditar no modo como a história costuma ser contada.
No mesmo intervalo, a esposa de -John concebeu cinco discos por conta própria (um deles, de 1974, cancelado e só reconstituído e publicado em 1997). O mundo se interessou por eles muito menos do que pelos LPs do marido, e o Brasil menos ainda. Não há nenhum título-solo dela em catálogo por aqui.
A “bruxa” nasceu no Japão e migrou para os Estados Unidos, na esteira do bombardeio de seu país natal pela futura pátria adotiva. Em Nova York, desenvolveu- carreira de artista plástica conceitual, ligada ao movimento Fluxus. O “menino” britânico havia sido estudante de arte antes de virar mito vivo do pop-rock, e também por isso a personalidade vanguardista de Yoko o fascinou. A história que ambos contaram, juntos e separados, é muito mais fascinante e complexa que o surrado brinquedo maniqueísta de índia e caubói.
Com Yoko, John a princípio mergulhou em experimentalismos, em três discos inaudíveis, mas que o ajudavam a se distanciar do pop “goma de mascar” dos Beatles. Two Virgins (1968), Living with the Lions e Wedding Album (1969) eram só barulheira e provocação. Recém-casados, eles transformaram a lua de mel em performance. Convocaram a imprensa para compartilhar os bed-ins em que discorriam sobre temas tão óbvios quanto indigestos para a sociedade, como paz mundial, liberdade sexual- e igualdade racial. O primeiro passo pós-Beatles foi a construção de dois discos gêmeos, ambos embalados com a mesma foto de capa, do casal repousando embaixo de uma árvore.
John Lennon/Plastic Ono Band era o disco do “herói”, pop, melodioso, repleto de mensagens iradas sobre orfandade (Mother), guerra de classes sociais (Working Class Hero) e rebelião antirreligiosa (God).  Não acredito em i-ching/ não acredito na Bíblia/ (…) não acredito nos Beatles/ só acredito em mim/ em Yoko e eu, desafiava God.
Yoko Ono/Plastic Ono Band era o disco da “vilã”, barulhento, vazio de letras e repleto de guinchos, tosses e gemidos. “Empurrei um carrinho de bebê vazio por toda a cidade”, repetia à exaustão em Greenfield Morning I Pushed an Empty Baby Carriage All Over the City, em alusão aos abortos que fizera e à filha Kyoko, nascida em 1963 e tirada dela pelo pai, sob a justificativa do uso de drogas por Yoko e John.
A cruzada pacifista rendeu a John seu ápice como artista-solo, com o álbum Imagine (1971). À parte a faixa-título, era um disco dominado pela raiva, a mesma que Yoko expelia, de modo bem mais cru, em Fly, outro álbum (duplo, desta vez) forrado de gritos e ruídos corporais.
John, em How Do You Sleep?, expurgava sem meias palavras seus ressentimentos em relação ao ex-parceiro Paul McCartney: tinham razão quando disseram que você estava morto/ () a única coisa que você fez foi Yesterday/ (…) um rosto bonito pode durar um ano ou dois. Yoko, por sua vez, endereçava (res)sentimentos sombrios ao marido, em Mrs. Lennon: o marido John estendeu a mão para sua esposa/ e de repente ele descobre que não tem mãos.
Viria então o primeiro e mais bem–sucedido esforço conjunto. Some Time in New York (1972) era um legítimo álbum de protesto, no qual o casal abraçava radicalmente a militância política contra o racismo e o sexismo. Na abertura, John abraçava por Yoko o ataque à misoginia. Se ela não age como escrava, dizemos que não nos ama/ se é verdadeira, dizemos que está tentando ser um homem, afirmava Woman Is the Nigger of the World, que espelhava de propósito (des)igualdade de gênero e de sexo. Se não acredita em mim, olhe a mulher que está com você, desferia o golpe final. Yoko vinha em seguida com Sister o Sisters, uma conclamação à união feminina: Irmãs, irmãs/ vamos nos levantar agora mesmo/ nunca é tarde demais para começar do começo. O disco seguia nessa pegada, como um diálogo entre marido e esposa.
Sete anos mais velha que seu “menino”, a mulher evidenciava a superioridade- intelectual e conceitual sobre ele na faixa Born in a Prison, que a sociedade- adoradora dos Beatles e de seu espólio não estava preparada para enfrentar: Um espelho torna-se lâmina quando se quebra. Quem não olha para dentro de si fica tentado a agredir o outro, ela queria dizer. Em Milk and Honey, disco preparado por Yoko em 1984 com sobras de estúdio da dupla, o “menino” admite que não compreendeu a lição. Sempre que olho no espelho/ não vejo ninguém, ele canta em I Don’t Wanna Face It.
As canções de protesto de Some Time in New York fortaleceram a mulher, que conceberia em 1973 os trabalhos mais importantes de sua carreira musical, o duplo (e em parte experimental) Approximately Infinite Universe e o ferozmente feminista (e sutilmente pop) Feeling the Space. Enquanto isso, John lançava Mind Games, no qual inventava um país- imaginário, Nutopia, sem territórios, passaportes ou leis. O manifesto pró-Nutopia vinha assinado pelo casal: John Ono Lennon e Yoko Ono Lennon.
Na enxurrada de composições de Yoko, ela chamava para si, em Want My Love to Rest Tonight, responsabilidades pelo machismo: Irmãs, não culpem demais o meu homem/ (…) ele foi educado por nós, mulheres/ (…) ele foi ensinado pela mãe a nunca confiar em garotas/ foi ensinado pelo pai a nunca derramar lágrimas. Em Woman of Salem, atraía para si, enfim, o rótulo de “bruxa”: “Bruxas devem ser enforcadas”. Em Woman Power, assumia o levante feminista: Você sabe que algum dia terá de pagar, homem?/ (…) não se iluda, eu sou a presidente, está ouvindo?
Em What a Bastard the World Is, voltava-se contra o cônjuge (seu tolo/ seu porco/ bastardo/ escória do mundo) e contra o sexo oposto em geral (todas nós vivemos à mercê da sociedade de homens/ que pensam que os desejos deles são nossas necessidades). Em Men, Men, Men, brincava de tratar homens como objetos, e concluía: “Você pode sair da caixa agora”. Ouvida pela única vez naqueles discos, a voz de John trazia a última palavra: “Sim, querida”.
A partir daí, o casal se separaria por um ano e meio. O disco A Story, de Yoko, seria gravado e arquivado. Uma das faixas chamava-se Yes, I’m a Witch (Sim, eu sou uma bruxa/ Sim, eu sou uma puta). Outra era She Gets Down on Her Knees (Ela se ajoelha para subir na vida/ é a única coisa que ela faz bem). John ainda lançaria Walls and Bridges (1974) e um LP de covers de clássicos do rock (Rock’n’Roll, 1975). Reatados, conservariam cinco anos de silêncio musical. E fariam um acordo de inversão de papéis: Yoko cuidaria dos negócios de John, e ele ficaria em casa, criando o filho único de ambos, Sean, nascido em 1975.
A volta em dupla, com Double Fantasy (1980), tornava público o desgaste do casal e indicava: De algum modo os fios se cruzaram/ a comunicação se perdeu”, lastimava-se John em I’m Losing You. Yoko não parecia melhor. Estou sangrando por dentro, afirmava na de resto luminosa Kiss Kiss Kiss. Em Beautiful Boys, distribuía conselhos algo fantasmagóricos a seus dois meninos, o de 4 anos e o de 40: Não tenham medo de ir ao inferno e voltar.
Quando John foi assassinado à porta do edifício Dakota, trazia consigo a gravação que o casal finalizara naquele dia. Era Walking on Thin Ice, de Yoko. Andando em gelo fino/ eu pago o preço, dizia a formidável canção pop que ela só lançaria em 1981, e que, como de praxe, a maioria absoluta do mundo deixaria de ouvir. Após a morte do marido, Yoko lançou dois discos dominados por sentimentos de dor, depressão, culpa. A partir de Starpeace (1985), retomou enfoques mais otimistas, reaproximou-se das artes plásticas, influenciou artistas mais jovens como Beck, Peaches e Cat Power.
Mantém-se produtiva e, neste 2010, lançou o álbum Between My Head and the Sky, que a maioria do mundo não ouviu nem o Brasil se interessou em lançar. Você não as ouve cantando canções/ você não as vê vivendo a vida, Yoko Ono referia-se às mulheres em Woman Power, 37 anos atrás. Você pode não crer em bruxas, mas que elas existem, existem. E vivem a vida, e cantam, e compõem.