Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política
Mostrando postagens com marcador CD. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CD. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de maio de 2013

As vitrolas não querem calar

Do blog AIDENTU

Cafofo do Marvioli
A paixão pelos velhos bolachões voltou à moda. Um grupo local de colecionadores resiste às modernas tecnologias e cria um clube de apreciadores dos vinis e das agulhas.

“The times they are a-changin’ ”(os tempos estão mudando) já antecipava Bob Dylan em seu terceiro disco no distante ano de 1964. Apesar de toda tecnologia criada até hoje, um grupo de resistentes ignora os icônicos iPods e iPhones, febres no consumo de conteúdo digital cuja loja, a iTunes Store, já contabiliza mais de 25 bilhões de músicas vendidas.

Até meados da década de 90 os vinis reinaram absolutos. A tecnologia do compact disc (CD) havia sido criada com a promessa de qualidade digital, sem chiados ou quaisquer distorções. A migração do formato LP para o CD ocorreu em massa. As fábricas de vinis praticamente faliram ou mudaram suas prensas para os novos disco lasers. A produção de equipamentos para os bolachões foi decaindo, porém, audiófilos e nostálgicos mantêm aquecido um mercado que volta a crescer. Nas lojas de LP usados vários itens são disputados como um troféu, os valores variam entre 1 até exorbitantes 5 mil reais. Tudo regido pela paixão e pela lei da oferta e da procura. Os equipamentos leitores de vinil, as vitrolas ou radiolas, também passaram por uma alta valorização, com preços variando entre 200 a 600 reais.

Marcus Vinícius de Oliveira, 57 anos, agrônomo, é possuidor de uma coleção que alcança a marca de 1.500 discos, todos estes organizados de acordo com o cantor e o estilo. Coleciona também cds, mas ao receber os amigos em casa prefere que estes escolham um bom vinil da prateleira, deixando-os a vontade no comando de sua radiola Gradiente que trabalha com 33, 45 e 78 rotações. A agulha sempre limpa cria uma catarse, conduzida pela música que preenche o ambiente e é brindada com goles do uísque preferido. “Apreciar o disco é interpretar a capa, perceber todos os detalhes e poder se deleitar com os dois lados, ouvindo as músicas sem ter pressa para trocar”. A coleção de fato chama atenção tamanha variedade e raridade de algumas peças.

Marcus acredita na superioridade técnica do vinil, afinal, o CD usa um formato de compressão do áudio que suprime determinados detalhes tidos como inaudíveis pelo ouvido médio humano e não reproduzíveis pelos equipamentos regulares. Apenas um audiófilo, com o ouvido bem treinado e um equipamento de alta fidelidade, pode perceber as diferenças. Porém aqui vale a experiência lúdica de ir ao centro, procurar o LP que interessa nos sebos, negociar com o dono e voltar com o prêmio para casa, já pensando no dia em que convidará os amigos para o sarau de audição do vinil. Essa experiência no formato digital ficou perdida, é muito fácil dispersar-se com uma coletânea de 3 mil arquivos mp3, extensão popular de áudio digital utilizada nos computadores e tocadores de música digital.

O Kukukaya, famosa casa de shows em Fortaleza, promoveu neste sábado, 19 de maio, a 2ª Feira do Vinil, onde os apaixonados pelos bolachões puderam comprar, vender, trocar e principalmente conhecer outros amantes do “ouro negro”. A feira é organizada pelo DJ Alan Morais, DJ residente do Boteco do Arlindo, e tem por missão criar uma agenda fixa para reunir antigos e novos aficionados. Além disso houve a exposição de lojistas com LPs e radiolas. O que o futuro promete para a indústria fonográfica ainda não está claro, mas os vinis sempre terão uma legião de adoradores que nunca os esquecerão.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Suporte: pra que te quero

Por Rogério Lama

Há um episódio do seriado mexicano “Chaves” que mostra o personagem principal vendendo um doce para si próprio. Ele troca freneticamente de lado no balcão, fazendo às vezes de vendedor e cliente, usando a mesma moeda que recebeu da venda para comprar todas as guloseimas, uma a uma. Uma pequena adaptação dessa cena é repetidamente estrelada pela recém centenária Indústria Fonográfica. Na cena, a protagonista usa o mesmo truque Mandrake, só que para vender o mesmo produto várias vezes para o mesmo cliente.


O martírio pelo qual passa o colecionista musical parece não ter fim. Depois de consumirem os mesmos títulos em Lp e K7 nas décadas de 70 e 80 em nome da portabilidade e terem sido dissuadidos do valor de seus acervos no final da década de 1980, tudo em nome da vantagem do som puro e cristalino, eis que novamente o disco de vinil surge dentre as nuvens, como um deus que veio salvar os ouvintes da experiência paupérrima de apreciação através dos arquivos digitais. 
Sim, a cara de pau e o desespero de mãos dadas desconhecem fronteiras. E o maior descalabro desse cenário, é o festival de opiniões “embasadas” que se disseminam como virais pela grande rede alicerçando qualquer discussão de bar. Segundo algumas delas, você que pôde ouvir o Paêbiru de Zé Ramalho e Lula Côrtes sem desembolsar uma garoupa sequer, (atenção: sua audição foi comprometida. Há uma perda de informações no arquivo digital. Um “achatamento” do som.) “Existe uma compressão na onda sonora que impedirá você de ouvir o 2º Estudo para Violão de Villa Lobos na faixa “Harpa dos Ares”. 



Portanto, não espalhe por ai que ouviu esse disco. Você marcou gol com a mão. Sua salvação é que as gravadoras já têm a solução para o fosso aberto no seu conhecimento: o relançamento da obra em disco de vinil 180g, com todos os ruídos de estática a que você tem direito. Sim, um dos poucos pontos fracos do longplay virou uma virtude. 

Outra razão acordada entre alguns “especialistas” é que a experiência estética através dos arquivos digitais é severamente prejudicada pela falta de capas e encartes. É um argumento que desqualifica toda música gravada até 1940, período em que surgiram as primeiras capas de discos. Tiro no pé. Sem desmerecer nomes como Egeu Laus e Elifas Andreato que criaram um capítulo a parte na história da arte brasileira com suas capas de discos, a música ainda seria a mesma sem eles. 
Em 2004, Athur Dapieve escreveu em sua coluna no O Globo que:


“Enquanto existirem pessoas, ouvidos, arte, vida, os terráqueos continuarão a comprar novas versões do “Álbum Branco”, dos Beatles(...) Nada é definitivo: todos, ouvintes e suportes sonoros, encontram-se sempre na iminência de passar deste para melhor...”


O dilema sobre a legitimidade da audição musical não é novo. No início do século XX o compositor John Philip de Souza foi um dos primeiros a preconizar a morte da música. Sentenciou que com o advento das músicas gravadas, o ofício de artista da música chegaria ao fim. Que razão haveriam de existir, se agora poderíamos escutar a mesma música sempre que quiséssemos? E que função teriam os cafés e teatros? Ambos eram espaços frequentados para a apreciação artística. Para Souza, a função social e aglutinadora da música estava seriamente ameaçada. Havia ainda outra questão embutida ali. A fidelidade do som (nesse aspecto seu argumento era muito pertinente). Como absorver de forma plena a intenção artística do músico em gravações tão aquém da sonoridade obtida pela audição in loco? Para qualquer purista que se prezasse, o futuro era sombrio e pessimista. Estava decretado o fim da música antes mesmo dela surgir como conhecemos. 

Curioso como em meio à discussão sobre o tamanho da capa, formato da onda e taxas de compressão, pouco se discute o caráter agregador da música. Claro que não. Quanto mais individual for a experiência de audição, maior é a possibilidade de se vender mais cópias. Afinal, todo disco traz nalgum lugar da contracapa: “É proibido reproduzir publicamente esta obra”.

Como podemos então defender o disco de vinil em detrimento dos formatos digitais? Numa perspectiva mais purista, ambas são formas de encaixotamento e degradação da arte. Penso nos cantadores repentistas. Que sentido faz dentro de um estúdio, se sua arte é construída justamente a partir da sua reação ao ambiente? O suporte não nos traz muita coisa além de um arremedo da arte original. A função do formato deveria ser a de simples abrigo da memória artística, e não a arte em si.

Outra coisa que li de especialistas é que o individualismo do fone de ouvido havia arruinado a forma como experimentamos a música. Que ninguém mais conversava sobre música. Dentre exemplos que pululam todos os dias na internet, gosto muito de citar um cidadão de codinome KingCake. Em 2010 ele disponibilizou num blog, o áudio de mais de 100 álbuns da extinta gravadora de jazz Xanadu Records. Um verdadeiro tesouro. Desconheço uma forma mais desapegada de dialogar e difundir conhecimento. As obras estão lá há um clique, com um campo para você escrever um comentário e iniciar uma discussão sobre o disco com outras pessoas do mundo.



Longe de mim fazer coro contra os acervos. Para mim todo colecionista é um herói em luta perene e ingrata. O que me parece inadmissível é colocar recortes de plástico e papel acima do conteúdo que guardam.

Assisti em meados de 2008 uma apresentação do compositor Moska, que comentou impressionado o fato de ter visto um vídeo dele no youtube, cantando uma música que iria entrar em seu próximo disco. Ele fez uma pausa, deu de ombros e disse: “Finalmente a música está livre!”.

Parece que John Phillip de Souza pode finalmente descansar.