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terça-feira, 30 de maio de 2017

A CADELA VIRA-LATA

Por Vólia Barreira

Era uma cadela vira-lata e magra de dar dó. Chegou lá em casa de repente, vindo sabe-se lá de onde, com o rabo entre as pernas, arrastando um barrigão enorme e com uma cara de fome de vários dias. Não parecia ser jovem, tinha um ar cansado de quem já havia parido várias vezes.

Nós, crianças, ficamos com pena daquele animal que parecia tão sofrido, com aquele jeito humilde de cão sem dono, carregando com visível esforço o enorme barrigão.
Estava longe de ser uma cadela bonita, seu pelo amarelado era meio ralo, tinha o focinho muito comprido e andava sempre com o rabo entre as pernas. Era como se ela estivesse na iminência de apanhar, o que, aliás, deve ter acontecido muito por aí, nas suas andanças pela vida. Deixamos que ela se alojasse num canto do quintal, com a cumplicidade daquela que cuidara de mim desde que nasci, a quem meu irmão apelidou de “Pedinha”; ela acobertava todas as nossas traquinagens, pois mamãe não podia nem sonhar com aquela “presepada”. 

Todo dia nós lhe levávamos um prato com restos de comida e ela foi ficando por ali enquanto aguardava mais uma ninhada. Sua “casa” era próxima ao pé de seriguela do nosso quintal, onde ficávamos encarapitados a “mangar” da pobre cadela.
Pedinha, que vivia há anos lá em casa, não gostava daquele “cão sarnento” como ela dizia, no entanto, era ela quem lhe preparava todos os dias o prato de comida e a tigela d'água.

Essa cachorra parece uma geringonça! dizia ela.
Para nós era mais um motivo de gozação; quando a pobre cadela, toda desengonçada, balançando os peitos caídos, vinha cheirar suas pernas, quem sabe atrás de comida ou, quem sabe, apenas para agradecer a atenção que nunca teve, ela lhe tascava um “sai pra lá geringonça”!
E assim, nós a batizamos oficialmente de Geringonça.

Pouco tempo depois a cadela já parecia outra. Mais gorda, mais disposta, até menos feia.

Num dia qualquer desse tempo, que já se tornara uma rotina e perdera a graça, tão acostumados estávamos com a “Geringonça”, eis que ela amanhece parida.
Foi um alvoroço! Uma ninhada de cachorrinhos, todos amarelados como a mãe, uns mais clarinhos, outros mais escuros. Cinco ao todo e todos querendo mamar ao mesmo tempo nos peitos murchos da cadela.

Nosso pai foi categórico: - “nada de ficar com essa cachorrada em casa. Tratem de dar os filhotes”.

Então aconteceu uma coisa insólita, que nunca havíamos visto antes e nosso pai nos explicou mais tarde ter sido essa, a única forma que o animal encontrara de defender uma parte da ninhada, pois sabia que não teria leite suficiente para alimentar a todos.
Todas as manhãs nós dávamos pela falta de um ou dois filhotes, que encontrávamos no terreno baldio ao lado da nossa casa, separado apenas por uma cerca de arame farpado.
Nós os levávamos de volta para a mãe e tornávamos a encontrá-los lá no dia seguinte.
A princípio pensávamos que os filhotes fugiam e não sabiam mais voltar, mas isso era inexplicável, pois os bichinhos mal abriam os olhos e nem se firmavam direito nas patas.

Como sempre, foi a minha preciosa Pedinha quem descobriu o “mistério”. A própria Geringonça os levava pendurados pelo cangote e os abandonava. Provavelmente ela escolhera aqueles que tinham mais condição de sobreviver. Lembro-me que uns dois chegaram a morrer e os outros nós distribuímos com a meninada da vizinhança. Não ficamos com nenhum.

Naquela época já tínhamos em casa outro cachorro, criado desde novinho, um cachorro bonito e macho (que a nossa mãe não gostava de cadela porque vivia no cio), não de raça pura, mas, “meio raceado” como dizia meu irmão, o dono oficial do cão.

Um belo dia, já sem nenhum filhote e refeita do parto e da amamentação, a nossa Geringonça sumiu, exatamente como chegou às nossas vidas, mansamente, sem alarde (nunca a ouvimos latir, ao contrário do nosso cão, que latia à noite ao menor ruído nos arredores da casa).
Foi embora sem se despedir e nunca mais a vimos pelas vizinhanças.
Certamente ela aportou na nossa casa apenas para ter suas crias e se restabelecer, sem intenção de ficar.
Como uma cadela de rua, que era provavelmente ela não se acostumaria a ter um dono (ou vários).
Não achamos que ela tenha sido mal agradecida, de alguma forma compreendemos que ela nos agradecera com seu olhar meloso e manso de quem não veio ao mundo para perturbar ninguém, apenas para ser livre.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

A CASA DA ESCADARIA


POR VÓLIA BARREIRA


A casa da escadaria

A bela escadaria da casa da minha infância
tinha degraus que eu subia em alegre algaravia.

Construída no centro de um terreno elevado
seus sete degraus davam acesso à varanda
encimada pelo amarelo do pé de acácia.

Com os olhos da recordação
vejo-me a subir correndo as escadas, contando os degraus,
como fazia em criança
enquanto nos ouvidos, ainda ressoam os passos do meu pai
escada abaixo,
a caminho de uma imensurável prisão
na madrugada que se eternizou na memória.

Num canto da escada, às escondidas, sinto o coração aos pulos
com a descoberta inusitada do desejo
e das profundas infelicidades dos amores imaturos.

Com os pés pesados feito chumbo
desci os degraus na vez primeira
quando  tive a consciência da nossa finitude
e o fiz, na derradeira,
carregada de  tristeza,
no dia em que a casa se transformou em sentimento .

Em suas paredes ficaram grudadas as minhas memórias
que reconstituem cada vão,
cada mosaico, cada planta do jardim...

Apurando os ouvidos,
ouço os sons de um tempo,
que ainda repercute. 


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Poema premiado no 

1º Concurso Literário da Livraria Escritores do Ceará - Prêmio Milton Dias - Crônica e Poesia - 2017