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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Os jornais precisam de fotógrafos?

Por José Afonso da Silva Junior

Alex Garcia/Chicago Tribune/DivulgaçãoAlex Garcia/Chicago Tribune/Divulgação

O noticiário especializado em jornalismo e fotografia foi pego de surpresa, no dia 1º de junho de 2013, com uma notícia inusitada: o jornal americano Chicago Sun-Times demitiu toda sua equipe de fotógrafos e atribuiu aos repórteres de texto a responsabilidade de fotografar e filmar suas reportagens. De um modo direto, a medida colocou 28 profissionais de fotografia, alguns veteranos, com mais de 20 anos de profissão, na rua e, indiretamente, atingiu mais 40 jornais de bairro afiliados ao grupo.

Surpresa? Ou coragem de assumir de modo tão duro o cenário de polivalência que habita a convergência tecnológica? Em tempos de aparelhos capazes de fotografar, redigir, acessar a internet, ativar redes sociais e até telefonar, surge o raciocínio distorcido de que, se o dispositivo é multimídia, o usuário que o opera também o é. Isso se agrava ainda mais quando temos um pensamento tecnologicamente determinista que dita as mudanças a partir do cenário tecnológico, e não do conjunto de saberes específicos que orientam uma determinada profissão.

O óbvio parece, nesse caso, não ter sido percebido, ou foi deliberadamente ignorado. Uma equipe de fotógrafos, mais que operadores de sistemas e rotinas para a produção de imagens sobre o cotidiano, possui a habilidade de contar histórias com imagens, desenvolvendo para isso, um conjunto de saberes específicos vinculados à compreensão visual da notícia e seu impacto na sociedade. Saber se mover, entender o que está em jogo em determinada situação, cultivar fontes, enfim, um fotorrepórter, antes de ser um fotógrafo, é um jornalista que opera a câmera e a cadeia de produção de imagens.
Antes que esse texto possa parecer defesa de reserva de mercado, a ressalva a ser feita é inverter a situação: imaginemos se o fardo de assumir uma função a mais (algo que os repórteres de texto no caso receberam “de presente”, diga-se de passagem) fosse dos fotógrafos e, de uma dia para outro, eles tivessem que assumir a função de redigir as notícias? Como reagiria a comunidade de repórteres e redatores?

A justificativa para uma opção de travestir repórteres em fotógrafos está baseada numa ordem financeira, em que os departamentos de fotografia dos jornais sempre foram estruturas caras e onerosas, e pelo fato de, contemporaneamente, muitas das imagens mais vistas ou acessadas pertencerem a circuitos de vigilância, câmeras de celulares ou amadoras, produzidas pelos leitores e cidadãos comuns. Em um mundo de hipervigilância e hipervisibilidade, é óbvio que o fluxo de imagens produzidas por câmeras onipresentes vai compor o horizonte visual da construção da realidade em forma de notícia.

Em um mundo onde são produzidas milhões de imagens por dia, a fotografia numa visão estreita e míope, é apenas mais um conteúdo digital que é embalado ao redor do texto. Raciocínio direto: o que acontece com toda mercadoria que passa a existir em excesso?

Mas, ao falarmos de fotografia do dia a dia, feita de modo vernacular, estamos tratando de algo muito diferente da fotografia de imprensa e de notícia. Querer transportar o que acontece no geral para o específico de uma profissão é uma nítida falsificação, que só pode ser compreendida pelo viés econômico, pelo total descompromisso com qualidade editorial, e por largas parcelas de falta de respeito.

A crise precipitada no Chicago Sun-Times ocorre no choque entre o excesso de fontes produzindo imagens, levando a uma brutal queda do poder de negociação dos fotógrafos dentro das dinâmicas dos jornais, por espaço de trabalho e também remuneração. Assim, os canais de operação outrora estáveis hoje se afunilam e se deslocam de lugar, física e simbolicamente, de produção, saindo de temas mais densos e que exigem maiores aportes de cobertura.

É sintomático deste quadro também a produção do conjunto de imagens que se destinam mais ao acompanhamento de celebridades, do entretenimento e do sensacionalismo. Ou seja, assuntos que demandam uma formação de repertório, custo e problematização de baixo nível. Ao seu modo, há profissionais que também engoliram o caramelo envenenado do “óbvio eficiente”, conceito forjado pelo fotógrafo Hélio Campos Melo. Nele, a imagem não perdeu sua competência, perdeu a sua eficiência, porque só se faz o “óbvio eficiente”, ou seja, uma imagem mais pobre, sabendo que ela vai alcançar o maior número de pessoas, num universo dado. O difícil é fazer uma foto que leve a pensar um pouco mais, que reflita sobre o que está feito.

A questão pontual é que, se temos o excesso de imagens digitais, há a contrapartida da possibilidade de termos um fotojornalista em 200, 250 ocasiões de cobertura por ano, cobrindo pautas de modo sistemático, regular e capaz de gerar boas imagens. Na contraparte, um repórter-cidadão faz uma ou duas fotos, com sorte, sob o ponto de vista de noticiabilidade, jornalisticamente boas. Portanto, fora dos aspectos puramente econômicos e de gestão, não há competição. São posturas e conhecimentos diferentes diante dos fatos. Se houver dúvida quanto a isso, faço o desafio a qualquer editor de jornal: proponha aos seus leitores ficar de plantão, à noite, debaixo de chuva, sem hora para voltar pra casa, para obter uma imagem relevante e veja se ele topa sair do conforto de casa para encarar esse tipo de empreitada.

Lembrando um editor amigo que sempre falava que “todo dia tem jornal”, a questão posta à mesa parece clara: há um cenário que pede um reposicionamento de práticas, que agregue e filtre a enxurrada de imagens em que estamos imersos. Mas confundir esse estado de coisas com a necessária desarticulação de equipes de fotojornalistas é um equívoco que cobrará caro à sua adoção.

Porém, o caso do Chicago Sun-Times é um alerta. Não o primeiro. Quem capitaneou essa demissão em massa foi Tim Knight, que já havia feito exatamente a mesma coisa antes, no Newsday(eliminar o departamento de fotografia). Não há surpresa. Sob um ponto de vista cruel, frio e mesquinho, freelancerscustam menos que staff. Com o sinal vermelho aceso, cabe a quem é repórter fotográfico: 1) perceber que os valores editoriais não irão melhorar por si sós; 2) que a fotografia não irá se tornar, nos jornais e de uma hora para outra, algo valorizado. Para essas duas apostas vingarem, é preciso investir em conteúdos, práticas, repertório e criatividade capazes de reoxigenar a cadeia produtiva da fotografia de imprensa. Assim, talvez se encontre a rota de fuga do que surge da triangulação entre a falta de recursos, a falta de modelo de gestão e a falta de respeito. Hora de pensar e agir como o jogo será, e não como era.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

"Não haverá mais espaço para o cinismo da imparcialidade", diz Jornalismo Wando

Via Bruno Perdigão

Por Camila Demario

Seguido por nomes conhecidos do jornalismo como Xico Sá, Bob Fernandes e Fred Melo Paiva – e também do entretenimento, como Maurício Meirelles, do “CQC”, o autor do perfil @JornalismoWando no Twitter tem feito sucesso entre profissionais de comunicação com suas críticas ao “jornalismo-fofurinha, estilo Sandra Annenberg, em que o jornalista ri, chora, se emociona e se envolve com a notícia como se estivesse num programa de auditório”.

Crédito:Reprodução

Perfil do Jornalismo Wando no Twitter

Apesar de já ter revelado sua identidade em uma entrevista em 2011, ano em que criou o perfil, João prefere hoje ser descrito apenas como um “morador de 33 anos da zona norte de São Paulo”. Ao contrário do que muitos dos seus seguidores pensam, João não é jornalista, mas tem interesse por debates políticos e sociais, como diz em entrevista exclusiva dada à IMPRENSA. Confira:

IMPRENSA - Quando o personagem foi criado e qual foi a motivação? Por quê o nome Wando?
JORNALISMO WANDO - Criei o @JornalismoWando em meados de 2011. Começou com uma brincadeira no Twitter sobre jornalistas fofos que paparicam os entrevistados, que evitam incomodar. Então o Jotabê Medeiros [jornalista do O Estado de S. Paulo] criou a hashtag #JornalismoWando, uma referência a esse grande artista popular, o cantor Wando, que com seu jeitinho sedutor e "querido" conquistou milhares de fãs. Foi a partir daí que começou a palhaçada toda. No mesmo dia criei o perfil e muita gente seguiu.

Como é sua rotina de trabalho? É formado? Como surgiu interesse pelo jornalismo?
Meu interesse pelo jornalismo vem do meu interesse pelos debates políticos e sociais. Não sou jornalista.

Você parece ser uma pessoa bastante influente no meio. As suas fontes já o conheciam ou aumentaram com a identificação com o personagem no Twitter? Muita gente o confunde com jornalista?
Pareço tão influente assim, é? Então estou enganando bem (risos). O Wando fez muitos amigos do meio e, às vezes, a gente fica sabendo de algumas coisas. Sempre cai um "offzinho" nas DMs e é por isso que há muitas pessoas que acham que sou algum jornalista se aproveitando do anonimato para proteger a imagem profissional.

Qual sua relação com os jornalistas? Já foi processado, recebeu ameaça?
Tem os que gostam, os que ignoram e os que bloqueiam. Tomo muito cuidado para não ser processado, mas já houve ameaças sim. Nada que uma conversa ao pé do ouvido com o Wando não resolva.

O que é, na prática, o “jornalismo Wando” praticado pelos profissionais e veículos atualmente? Essa forma de jornalismo cresceu nas últimas décadas?
Jornalismo Wando é esse pretenso jornalismo imparcial, como se isso fosse possível. É o jornalismo que trata a notícia com um produto a ser vendido e não um fato a ser dissecado, analisado e criticado. É aquele jornalismo mais centrado na forma que no conteúdo, em que o jornalista tem que apelar pra uma manchete babaca ou um infográfico inútil pra dar aquela colorida na matéria.
É também aquele jornalismo-fofurinha, estilo Sandra Annenberg, em que o jornalista ri, chora, se emociona e se envolve com a notícia como se estivesse num programa de auditório. Você viu a cobertura da visita do papa? Quem não é católico teve que aturar o jornalismo Wando apostólico romano 24h por dia. Os jornalistas da televisão estavam visivelmente emocionados com a visita do Santo Padre. A Leilane Neubarth só faltou ajoelhar no estúdio da GloboNews. Inacreditável.

Como foi o convite do Yahoo!? Tem contrato com número de posts, remuneração, é uma fonte de renda?
Habemus contratus.

O tumblr “Sou reaça, mas tô na moda” também é seu, mas a última atualização é de maio. Perdeu interesse ou falta tempo?
Falta tempo, quem sabe mais pra frente não volto a atualizar. Os reaças da moda se multiplicam numa velocidade impressionante e eu não estou dando conta. Se alguém quiser me ajudar a atualizá-lo, pago bem em cubo cards.

A crítica feita em seus textos tem a ver com a aproximação do jornalismo com o entretenimento?
Sim, principalmente na televisão, onde os dois estão cada vez mais próximos. Quantos jornalistas que já abandonaram a profissão para apresentar programas de entretenimento? Britto Jr, Pedro Bial, Tiago Leifert, Fátima Bernardes e vários outros. O Leifert abandonou também, porque aquilo que ele faz no "Globo Esporte" está mais pra "Caldeirão do Huck" do que jornalismo. E ainda alguns têm coragem de chamar aquela micagem que ele faz de revolução. O Celso Zucatelli, por exemplo, que apresentava o "Jornal da Cultura", hoje ensina receitas nas manhãs da Record. Não é coincidência. Parece que cada vez mais tem jornalista formado querendo ser rostinho bonito na televisão. Não é o que eu entendo por jornalismo. Não quero parecer tão ranzinza, acho que há espaço pra tudo e todos. O problema é que essa babaquice está virando a regra.

Quais jornalistas/veículos você – e seu personagem – acha que faz bom jornalismo?
Tirando a revista Veja, que não faz ideia do que seja jornalismo, há bons e maus exemplos em todos os veículos de imprensa. Difícil criticar ou elogiar em bloco. O maior problema da imprensa é o monopólio dos empresários de mídia. É aquela velha história: meia dúzia de famílias milionárias comanda o mercado da informação, formam monopólios, concentram poder e jogam com os 3 poderes. Não há nenhuma regulação no setor como há em todos as atividades da economia, o que é um absurdo. E só a democratização da mídia desconcentrará o mercado, trará novos atores, aumentará a concorrência e melhorará a qualidade do jornalismo.

A última “polêmica” sobre jornalismo no Twitter tem sido o Mídia Ninja, que divide opiniões entre os profissionais. Você já criticou a falta de transparência do grupo no perfil do Wando. Assistiu o "Roda Viva" O que acha do jornalismo feito pelo grupo?
Acho interessante a ideia e o formato do Mídia Ninja, mas acho que estão completamente equivocados politicamente. Foram entrevistar Eduardo Paes, por exemplo, e foram massacrados pela retórica do político profissional. Saíram pequenininhos da entrevista e só levantaram a bola para o prefeito. Acho importante que eles não se colocam como imparciais e admitem estarem fazendo política. Só acho que estão fazendo do jeito errado. Para o Mídia Ninja agora é interessante que haja protesto todos os dias, tanto que eles sempre incentivam nas suas transmissões. Aí a coisa complica.
Assisti ao "Roda Vida" e achei que eles foram muito bem e falaram verdades que nunca foram faladas ali. Mas o Capilé, mais uma vez, não conseguiu ser transparente com as questões financeiras do Fora do Eixo, apesar da sua retórica de político profissional. E eu gostaria de saber melhor com funciona a estrutura financeira, ainda mais porque acho que a vaidade política do Capilé supera esse espírito coletivista. Conheço muita gente que trabalhou com ele e sei que a coisa não é tão romântica assim. Acho que existe uma necessidade de se buscar um protagonismo pelo protagonismo.

Por quanto tempo pretende levar o personagem? Espera dar alguma contribuição?
Caramba, nunca pensei nisso. Sei lá, vou “lewando”.

Assim como o Wando, o jornalismo morreu? Sim/não, por quê?
Não morreu, mas está passando por uma profunda transformação e ninguém sabe muito bem onde vai dar. Mas uma coisa é certa: não haverá mais espaço para o cinismo da imparcialidade. Quem quiser sobreviver no mercado vai ter que ser cada vez mais transparente. Porque o cara escreve um texto cheio de falsidade no jornal e no mesmo dia já tem um blog desmascarando tudo.

Pretende levar o personagem para outras plataformas, como livro, por exemplo?
Nunca pensei nisso, mas realmente daria pra escrever um livro com as peripécias do Wandinho. Ele já cantou e encantou muita celebridade, jornalista, político.

sexta-feira, 8 de março de 2013

As carpideiras se calam

Por Luciano Martins Costa

Passadas as primeiras 24 horas da morte de Hugo Chávez, a imprensa brasileira abre suas caixas de ferramentas e começa a expor o que realmente pensam seus dirigentes sobre o controverso líder do movimento bolivariano.

Em todos os jornais e nos blogs de revistas semanais de informação, entram em cena os autores do discurso radical que transforma o debate político em uma arena de “vale-tudo”.

O funeral ainda não acabou, mas os pittbulls da mídia não podem esperar: então, de um dia para o outro muda-se completamente o discurso sobre o falecido, as carpideiras enxugam as lágrimas e tudo volta à rotina.

Em blog assinado por um devotado e veterano jornalista, Hugo Chávez é chamado de “bolívar-de-hospício”.

Uma coluna geralmente dedicada à política nacional se aventura em campo ignoto para afirmar que Hugo Chávez “desestruturou a economia, jogou o país nas trevas do atraso institucional”. O texto afirma que o líder venezuelano atuou “dentro da lógica torta de que é necessário aniquilar a democracia para poder proporcionar uma vida melhor a quem precisa”.

Em outro jornal, a coluna faz um exercício de futurologia e prevê o fim da herança bolivariana: “Como ocorreu com o peronismo na Argentina e com o Partido Colorado no Paraguai, os herdeiros do chavismo tendem a se multiplicar – e guerrear entre si”, pontifica, misturando elementos históricos heterogêneos e até mesmo incompatíveis.

Aqui e ali, pipocam afirmações de que o chavismo tem prazo de validade curto, e um ou outro articulista repete como convicção uma impossibilidade aritmética, afirmando que a moeda venezuelana foi desvalorizada em 992% durante o governo Chávez.

Esse número, uma bobagem redonda, foi publicado inicialmente pelo economista Moisés Naím, no Financial Times, e virou uma espécie de verdade assumida pelos inimigos do chavismo, repetida por aí sem maiores reflexões.

O economista Mark Weisbrot, que escreve para o New York Times e o britânico The Guardian, e mais recentemente tem seus artigos publicados pela Folha de S. Paulo, dedica a Naím o “prêmio de erro numérico”, observando que o máximo que uma moeda pode ser desvalorizada é 100%, no ponto em que cada unidade seria trocada por zero dólares.

Caixa de ferramentas

O mais recente artigo de Mark Weisbrot sobre o governo de Hugo Chávez foi publicado originalmente na segunda-feira (13/03), no Guardian, antes da morte do dirigente venezuelano (ver http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/mar/03/venezuela-devaluation-doom-mongers), com título em inglês que poderia ser traduzido por “Os profetas do apocalipse da desvalorização venezuelana”.

A tradução publicada nesta quinta-feira (07/03) na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo é: “O céu não desabou na Venezuela”. Trata-se de um resumo, por questão de espaço, do título dado na edição do Huffington Post, que em português seria: “O céu não desabou depois que a Venezuela desvalorizou sua moeda”.

Na versão da Folha (ver http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/97246-o-ceu-nao-desabou-na-venezuela.shtml), que não contém uma série de críticas de Weisbrot ao viés dado pela imprensa internacional às notícias sobre o governo de Hugo Chávez, foi cortada a frase que se refere ao uso de “lógica distorcida” nas análises sobre a economia venezuelana.

Como toda a imprensa brasileira se baseia homogeneamente no material produzido principalmente por agências americanas, para rechear suas editorias internacionais, fica fácil reconhecer a origem das opiniões que emite.

Andando a cabresto da imprensa hegemônica nos Estados Unidos, articulistas brasileiros repetem a bobagem segundo a qual uma moeda pode ser desvalorizada em mais do que 100%.

No cenário de radicalismo que caracteriza o debate político e econômico na América Latina, fica claro o papel da imprensa ao lançar mão da “lógica distorcida” para impor uma opinião hegemônica na qual Hugo Chávez só pode ser descrito como um “louco de hospício”, um “palhaço”, um “ditador”, e por aí vai.

A verdadeira personalidade do líder venezuelano e o real valor de seu legado nunca serão conhecidos pelos cidadãos que apenas leem os principais jornais e revistas e assistem os noticiários majoritários na televisão.

Por isso, soava estranho que na quarta-feira, dia seguinte à morte de Hugo Chávez, os jornais parecessem tão compassivos em relação a ele.

Nesta quinta, ao abrir a caixa de ferramentas e exibir todo seu arsenal de preconceitos e manipulação, a imprensa brasileira volta ao normal.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/radios/view/gt_gt_as_carpideiras_se_calam_lt_br_gt_gt_gt_caixa_de_ferramentas

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A cassação de Carlomano Marques

Editorial O POVO

A cassação do deputado Carlomano Marques (PMDB) pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE), em decorrência de uma ação impetrada pelo Ministério Público (MP), tendo por base matéria do O POVO, publicada na edição de 21 de setembro de 2010, levou o parlamentar à tribuna do plenário da Assembleia Legislativa, ontem, para proferir impropérios contra o jornal e o repórter, procurando desqualificá-los, na vã tentativa de oferecer uma resposta que pudesse se contrapor ao veredicto da Justiça.

Para a opinião pública não há dificuldade em identificar quem cumpriu com o próprio dever: se o jornal, ao expor objetivamente um fato delituoso; se o MP, ao ir em socorro da sociedade e do ordenamento jurídico; ou se um parlamentar que, no afã de eleger-se, apelou para métodos ilícitos e condenáveis, segundo considerou a Justiça.

Para o cidadão a percepção e o monitoramento das ações dos agentes públicos – inclusive da imprensa – são cada vez mais agudos, à medida que avança o processo de consolidação da democracia e de ampliação da consciência política. A imprensa livre é um dos instrumentos postos nas mãos do cidadão para exercer essa tarefa, não só difundindo a informação, mas exercendo igualmente a fiscalização do poder.

Assumir esse compromisso profissional (que é o da imprensa livre em geral) significa estar sujeito a ataques e retaliações de quem se vê flagrado em situações injustificáveis, prejudiciais ao interesse público. Não foi diferente desta vez, quando O POVO expôs, não uma opinião, mas um fato concreto. Ao Ministério Público e à Justiça coube o juízo final sobre esse fato, ao encontrar nele elementos suficientes para qualificá-lo como ilícito. E, assim, julgá-lo e puni-lo.

Não será retaliando O POVO com suspeições caluniosas que o deputado se livrará de prestar contas de seus atos à opinião pública. E, ao contrário do que imagina Carlomano Marques, não recuaremos no propósito de combater o que for contra o interesse público. Não nos deixaremos intimidar, agora, como nunca o fizemos, desde 1928, quando surgimos para enfrentar as poderosas oligarquias de então e prenunciar os novos tempos de maior exigência republicana.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/12/05/noticiasjornalopiniao,2965934/2012-0512op-qua-editorial-ss.shtml

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O caso Fantástico-UFRJ e o papel do CNJ


Por Luis Nassif

O produto notícia sempre explorou a escandalização como um de seus maiores fatores de venda. Não se trata propriamente de serviço público, mas de uma operação comercial, que visa vender mais, atrair mais leitores/espectadores e, em alguns casos, pressionar anunciantes ou tomar partido em disputas empresariais ou políticas.

O escândalo é um produto jornalístico é, como tal, tratado como marketing, da mesma forma que qualquer produto de consumo. E os ingredientes centrais desse marketing são a ampliação de verdadeira dimensão, “esquentar” a notícia, como se diz no jargão jornalístico.

***

Em geral, tende-se a analisar a imprensa apenas como contraponto ao Estado, como representante da opinião pública.

Ora, no universo da opinião pública há um sem-número de personagens: o Estado, os grandes interesses econômicos, os partidos políticos, os demais poderes da República e, principalmente, o cidadão, o indivíduo, frágil, vulnerável em relação aos poderes maiores.

É para este cidadão que deveria se voltar a olhar da Justiça. No entanto, sua única forma de defesa, hoje em dia, são as redes sociais, jamais o Judiciário.

***

Na semana retrasada o programa “Fantástico” anunciou uma matéria bombástica contra a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Falava-se em desvio de dinheiro, lançavam-se suspeitas de enriquecimento ilícito e por aí afora.

Das redes sociais veio o alerta de que estariam cometendo um “assassinato de reputação”. A matéria foi suspensa e transferida para domingo passado, agora com um cuidado jornalístico maior.

***

E aí se entra em um dos muitos recursos de manipulação de escândalos utilizados atemporalmente pela mídia: a confusão intencional entre problemas administrativos e desvio de recursos. Ou o superdimensionamento de pequenas infrações, tratadas como se fossem grandes crimes contra a ordem pública.

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De acordo com o site do Fantástico, há 4 anos a UFRJ começou a ser investigada pelo Ministério Público Federal (MPF) – que provavelmente encaminhou ao programa o inquérito sigiloso – e pela AGU (Advocacia Geral da União).

Tirando toda a retórica, o caso fica resumido a isto:

1. A UFRJ firmou convênio com o Banco do Brasil que, em troca da administração das contas, pagaria uma quantia anual à instituição. De 2005 a 2009. Segundo o MPF, deveria ter havido licitação. Mas era um banco público e uma instituição pública.

2. O dinheiro foi repassado para uma fundação, e não para o orçamento da Universidade e não foi incluído no SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal). Aí se tem uma irregularidade administrativa, sim. Mas, na própria matéria, especialistas atestam que quase todas as universidades procedem assim, para não cair no emaranhado burocrático da administração pública. De dois anos para cá mudou a legislação. A matéria reconhece que o contrato com o BB é anterior. Sem escândalo.

***

O contrato com o BB envolveu a quantia de 43.520.000 de reais em cinco anos.

Os “escândalos”

Identificaram-se, concretamente, as seguintes irregularidades: 1. Um professor utilizou notas frias para justificar despesas (10.083,00 reais). 2. Outro professor recebeu através de uma empresa dele a quantia de 27 mil reais. 3. Contratação de uma empresa para fornecer agendas para a UFRJ (27 mil reais). 4. A concessão de dois restaurantes. 5. o pagamento de 264 mil reais a uma empresa que fornecia coquetéis e lanches.

“Esquentando” o escândalo

A nota da UFRJ mostra que a empresa que emitiu a nota não havia desaparecido, mas apenas mudado de endereço. O reitor recebeu o “Fantástico” e apresentou um balanço do que foi feito com o dinheiro do BB: seminários, congressos e recepções, na manutenção e reformas de prédios, na construção de restaurantes. Em vez de focar nas obras que foram realizadas com os recursos, deu-se destaque para as que não foram.

O vazamento do MPF

O “Fantástico” recebeu o inquérito antes dos indiciados. Com isso, ficou com o poder de julgar e condenar sete pessoas perante dezenas de milhões de telespectadores. As ressalvas às denúncias só foram entendidas por um diminuto número de espectadores, que sabem diferenciar problemas administrativos de malversação graúda de dinheiro. Mesmo com os cuidados da reportagem, perante a opinião pública estão todos condenados.

O papel do CNJ – 1

E aí se entra nessa escandalosa iniciativa do Ministro Ayres Britto, de criar uma comissão permanente, no âmbito do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), para garantir a grande mídia contra as ações propostas pelas vítimas. A comissão será composta por integrantes do poder judiciário e por representantes de órgãos de mídia. Não se cogitou sequer de defensores das vítimas de pequenos e grandes crimes.

O papel do CNJ – 2

Quando Ministro do STF, Ayres Britto, a pretexto de acabar com a Lei de Imprensa, deixou um vácuo jurídico que prejudicou fundamentalmente o direito de resposta. Agiu exclusivamente com o propósito de agradar a mídia, principalmente depois que espocaram denúncias sobre o uso do seu nome por seu próprio genro, em ações que passavam pelo STF e pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Coincidentemente, as denúncias sumiram do noticiário

O cidadão desprotegido

Tem-se, agora, o ensaio de uma briga de gigantes. De um lado, Congresso Nacional, partidos políticos; de outro, o Executivo; na terceira ponta, MPF, STF e mídia. E onde fica o cidadão comum? Em nenhum momento, Ayres Britto – ou o próprio STF – pensou no cidadão comum. Este continua à mercê de um Judiciário que entende a mídia com olhos do governante norte-americano do século 18. Muitos assassinatos ainda serão cometidos.


domingo, 23 de setembro de 2012

Mais um: Celso Bandeira de Mello desmente revista Veja

Por Simone de Moraes
Nota da tal revista


O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello desmentiu nota publicada
na edição 2.287 da revista Veja informando que ele estaria redigindo
um manifesto criticando a atuação dos ministros do STF no julgamento
do mensalão.

Leia a declaração de Celso Antônio Bandeira de Mello.

"Uma notícia deslavadamente falsa publicada por um
semanário intitulado “Veja” diz que eu estaria a redigir
um manifesto criticando a atuação de Ministros do
Supremo Tribunal Federal no julgamento da ação que
a imprensa batizou de mensalão e sobremais que neste
documento seria pedido que aquela Corte procedesse
de modo “democrático”, “conduzido apenas de acordo
com os autos” e “com respeito à presunção de inocência
dos réus”.
Não tomei conhecimento imediato da notícia, pois a recebi
tardiamente, por informação que me foi transmitida, já que,
como é compreensível, não leio publicações às quais não
atribuo a menor credibilidade.
No caso, chega a ser disparatada a informação inverídica,
pois não teria sentido concitar justamente os encarregados
de afirmar a ordem jurídica do País, a respeitarem noções
tão rudimentares que os estudantes de Direito, desde o
início do Curso, já a conhecem, quais as de que “o mundo
do juiz é o mundo dos autos” – e não o da Imprensa – e
que é com base neles que se julga e que,  ademais, em
todo o mundo civilizado existe a “presunção de inocência
dos réus”.
É esta a razão pela qual, sabidamente, indiciados não são
apenados em função de meras conjecturas, de suposições
ou de simples indícios, mas tão somente quando existirem
provas certas de que procederam culposa ou dolosamente
contra o Direito, conforme o caso. Pretender dizer isto em
um manifesto aos Ministros do Supremo Tribunal Federal
seria até mesmo desrespeitoso e atrevido, por implicar
suposição de que eles ignoram o óbvio ou que são capazes
de afrontar noções jurídicas comezinhas. Nenhum
profissional do Direito experimentado, com muitos anos de
profissão, cometeria tal dislate. É claro que isto pode passar
desapercebido a um leigo ao preparar noticiário, mas não
convém que fique sem um cabal desmentido, para que os
leitores não sejam enganados em sua boa-fé."

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/celso-bandeira-de-mello-desmente
-revista-veja?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

terça-feira, 31 de julho de 2012

O julgamento na imprensa

Jânio de Freitas
por Jânio de Freitas

Se há contra os réus indução de animosidade, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações

O julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal é desnecessário. Entre a insinuação mal disfarçada e a condenação explícita, a massa de reportagens e comentários lançados agora, sobre o mensalão, contém uma evidência condenatória que equivale à dispensa dos magistrados e das leis a que devem servir os seus saberes.

Os trabalhos jornalísticos com esforço de equilíbrio estão em minoria quase comovente.

Na hipótese mais complacente com a imprensa, aí considerados também o rádio e a TV, o sentido e a massa de reportagens e comentários resulta em pressão forte, com duas direções.

Uma, sobre o Supremo. Sobre a liberdade dos magistrados de exercerem sua concepção de justiça, sem influências, inconscientes mesmo, de fatores externos ao julgamento, qualquer que seja.

Essa é a condição que os regimes autoritários negam aos magistrados e a democracia lhes oferece.

Dicotomia que permite pesar e medir o quanto há de apego à democracia em determinados modos de tratar o julgamento do mensalão, seus réus e até o papel da defesa.

O outro rumo da pressão é, claro, a opinião pública que se forma sob as influências do que lhe ofereçam os meios de comunicação.

Se há indução de animosidade contra os réus e os advogados, na hora de um julgamento, a resposta prevista só pode ser a expectativa de condenações a granel e, no resultado alternativo, decepção exaltada. Com a consequência de louvação ou de repulsa à instituição judicial.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, reforça o sentido das reportagens e dos comentários mais numerosos, ao achar que "o mensalão é o maior escândalo da história" -do Brasil, subentende-se.

O procurador-geral há de ter lido, ao menos isso, sobre o escândalo arquitetado pelo brilho agitador de Carlos Lacerda em 1954, que levou à República do Galeão, constituída por oficiais da FAB, e ao golpe iniciado contra Getúlio Vargas e interrompido à custa da vida do presidente.

Foi um escândalo de alegada corrupção que pôs multidões na rua contra Getúlio vivo e as fez retornar à rua, em lágrimas, por Getúlio morto.

Como desdobramento, uma série de tentativas de golpes militares e dois golpes consumados em 1955.

O procurador Roberto Gurgel não precisou ler sobre o escândalo de corrupção que levou multidões à rua contra Fernando Collor e, caso único na República, ao impeachment de um presidente. Nem esse episódio de corrupção foi escândalo maior?

E atenção, para não dizer, depois, que não recebemos a advertência de um certo e incerto historiador, em artigo publicado no Rio: "Vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

Dois inícios de guerra civil em 1930 e 1932, insurreição militar-comunista em 1935, golpe integralista abortado em 1937, levante gaúcho de defesa da legalidade em 1961, dezenas de tentativas e de golpes militares desde a década de 1920.

E agora, à espera do julgamento do mensalão, é que "vivemos um dos momentos mais difíceis da história republicana".

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Deputado pede audiência pública sobre censura da Folha e convida Otavinho pra falar no Congresso

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) propôs na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados (da qual faz parte) a realização de uma audiência pública para debater o que ele chamou de “silêncio da mídia no caso de censura imposta pelo Jornal Folha de São Paulo ao site Falha de S. Paulo”. Pimenta apresentou o requerimento aos demais deputados da comissão e aguarda agora sua avaliação para que, em caso de aprovação, se marque uma data e seja feito os convite para os debatedores. Do lado da Falha o deputado propõe convidar os dois irmãos criadores do site, Lino e Mario Ito Bocchini. Do lado da Folha, ele quer chamar para debater a censura em Brasília Otávio Frais Filho Otávio Frias Filho (dono da Folha ao lado de seu irmão Luís), Sérgio Dávila (diretor de redação do jornal), Taís Gasparian (advogada que criou e assina a peça de censura) e Vinicius Mota (Secretário de Redação da Folha. Confira abaixo a íntegra do requerimento, que também pode ser conferido aqui (uma vez na página, clique em “inteiro teor”):.
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Requer a realização de audiência pública para debater o silêncio da mídia no caso de censura imposto pelo Jornal Folha de S. Paulo ao site www.falhadespaulo.com.br
“Senhor Presidente,

Chique esse requerimento da Falha com timbre né?
Requeiro, nos termos do Art. 24, Inciso III, combinado com o Art. 255, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, sejam convidados: Lino Boccchini; Mario Ito Bocchini, Otávio Frias Filho, proprietário do Jornal Folha de São Paulo; Sérgio Dávila, diretor de redação do Jornal Folha de São Paulo; Taís Gasparian, advogada do Jornal Folha de São Paulo; Vinicius Mota, secretário de redação da Folha de São Paulo.
JUSTIFICATIVA
Em setembro de 2010, os irmãos Mário e Lino Ito Bocchini criaram o blog Falha de S.Paulo, uma paródia ao maior jornal do Brasil, a Folha de São Paulo. O site fazia críticas ácidas ao noticiário da Folha. Após um mês no ar, o jornal entrou na Justiça para censurar o blog, e conseguiu. Além de cassar o endereço na web, a Folha abriu um processo contra os criadores do site, pedindo indenização em dinheiro por danos morais.
O jornal alega “uso indevido de marca”, por causa da semelhança entre os nomes Folha e Falha e porque o logotipo do site era inspirado no do jornal. A censura de um blog, ainda mais seguida de um pedido de indenização, é uma ação judicial inédita no Brasil. Por conta disso, os irmãos Bocchini estão recebendo muita solidariedade de blogueiros e ativistas em defesa da liberdade de expressão de todo país, figuras públicas como o ex-ministro Gilberto Gil gravaram depoimentos condenando a censura e o processo da Folha. No exterior, Julian Assange (criador do Wikileaks), e a organização Repórteres sem Fronteiras, entre outras, já condenaram publicamente a censura. Mesmo assim, no Brasil o assunto continua sendo boicotado por jornais, rádios, TVs e revistas. A própria Folha só noticiou o caso após 4 meses, e mesmo assim porque foi duramente cobrada por sua ombudsman, que por sua vez estava sendo duramente cobrada pela blogosfera há meses.
Portanto, propomos a realização deste debate para, em primeiro lugar, sendo o parlamento um ambiente de participação social e democrático, oportunizarmos que sejam colocados nessa discussão a versão dessas pessoas que não tem acesso à grande mídia, por imposição editoriais, pessoais e econômicas. Além disso, nossa intenção é avançar em direção à discussão de uma prática que vem se constituindo em meio recorrente de alguns grupos de comunicação no Brasil, que é a utilização de mecanismos, que outrora condenavam, de modelos de censura, hoje, praticados justamente pelas mãos de quem diz viver da liberdade de expressão.
Sala da Comissão, em___ de agosto de 2011.
Deputado Paulo Pimenta – PT/RS”

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Taís Gasparian, censora da Folha, assina artigo no jornal defendendo… liberdade de expressão?!


Desculpe a nossa fAlha



A incoerência e o mau-humor da Folha, seus diretores e advogados já são famosos até no exterior. Mas os caras se superam: hoje quem assina um artigo defendendo LIBERDADE DE EXPRESSÃO é ninguém menos que a censora do jornal, a advogada Taís Gasparian, autora da peça jurídica que está entrando para a história do Direito Brasileiro como o primeiro processo de um grande jornal censurando blogueiros independentes, abrindo um terrível jurisprudência contra milhares de pessoas e sites. É isso mesmo que vocês leram. A mesma advogada sócia de um escritório gigante que a mando da Folha tirou a Falha de S.Paulo do ar e ainda cobra dinheiro por “danos morais” de seus criadores, vem falar de suas supostas opiniões sobre liberdade de expressão… A seguir, trechos do artigo de hoje intercalados com trechos da Taís do proceso de censura. Como de hábito, deixamos para você decidir em quem acreditar. Na Falha ou na Folha.
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Taís bonita na foto na Folha
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Taís nos censurando
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Taís botando banca na Folha
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Taís nos cobrando dinheiro por uma paródia. Ah, a moral...
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“... e autora do primeiro processo de censura de um jornal contra um blog”
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Aqui a assinatura na sua obra-prima ANTI-LIBERDADE DE EXPRESSÃO

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Lula no congresso da UNE (2)

Agência Brasil - Gilberto Costa

Goiânia – O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva compareceu ao 52º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) para “matar a saudade”, como disse aos estudantes reunidos em Goiânia. Lula admitiu que “não via a hora de falar no microfone”, e exclamou: “há quanto tempo não faço um discursinho”.



Lula reapareceu com seu estilo, alfinetou a oposição e “as elites”, enumerou as conquistas de seu mandato, em especial, na área de educação.

O ex-presidente disse que a imprensa tenta criar animosidade entre ele e Dilma Rousseff ao ressaltar diferenças de estilo de governar. “Não precisa ser especialista para saber que somos diferentes”. Segundo Lula, “o dia em que tiver divergências [com a presidenta], ela vai estar com a razão”.Lula reapareceu com seu estilo, alfinetou a oposição e “as elites”, enumerou as conquistas de seu mandato, em especial, na área de educação.

Lula também criticou parte da imprensa que disse que a UNE promoveu um encontro “chapa branca”, sob o patrocínio de estatais como a Petrobras, Eletrobras, Caixa Econômica Federal, além dos ministérios do Transporte, Turismo, Saúde, Esporte e Educação. A representação estudantil também teve apoio da Prefeitura de Goiânia, do Governo de Goiás e da Confederação Nacional dos Transportes (CNT).

“Na TV tem propaganda de quem?”, perguntou Lula à platéia. “Para eles é democrático, para vocês é chapa branca”, e acrescentou “alguns jornais se acham nacionais, mas os grandes [veículos] de São Paulo não chegam ao ABC”. Segundo Lula, a população sabe que não precisa mais de “intermediários” para ter acesso à informação.

O presidente da UNE, Augusto Chagas, afirmou aos jornalistas que apesar da presença de Lula, do ministro da Educação, Fernando Haddad, e dos cerca de R$ 3 milhões recebidos do governo, “ainda não contabilizados” para fazer o congresso, a entidade mantém a autonomia em relação ao governo. Amanhã a UNE fará uma passeata para que os royalties da exploração do petróleo na camada do pré-sal sejam investidos em educação e atinjam 10% do Produto Interno Bruto (PIB). O governo trabalha com a projeção de 7%.

Em discurso, Haddad defendeu a UNE. “Algumas pessoas acham que é possível comprar consciência com alguns trocados. Estudantes não se vendem por dinheiro nenhum”, elogiou, antes de dizer que tinha “autoridade para participar de cabeça erguida” do congresso porque o governo manteve um canal aberto com os estudantes para conhecer suas reivindicações. Para o ministro quem não se comove com a ascensão de famílias de origem pobre que agora têm filhos na universidade, “tem que ser diretor do Banco Central”.

Apesar de Lula e Haddad serem efusivamente recebidos no congresso pela maioria dos estudantes em Goiânia, houve quem protestasse contra o ex-presidente e contra o atual governo.

Para a estudante de história da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Priscila Guedes, da corrente política Coletivo Vamos à Luta, ligado ao P-SOL, o evento da UNE “serviu para fazer palco para o governo” e nada foi falado sobre o contingenciamento de verbas para a educação, na greve dos servidores das universidades federais, nas universidades públicas novas que não têm bandejão e da falta de sala de aula.

Lula no congresso da UNE

Do Valor online

SÃO PAULO - Há sete meses fora da Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso duro contra a imprensa, há pouco, no 52º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Goiânia (GO). Para uma plateia lotada de estudantes, Lula atacou os meios de comunicação por criarem divergências entre ele e a presidente Dilma Rousseff.

Ao discursar no II Encontro Nacional do ProUni, durante o evento dos estudantes, o ex-presidente comentou uma reportagem que mostrava o financiamento do congresso da UNE por empresas estatais, como a Petrobras, e classificava o encontro de “chapa branca”.

“Quando ligamos a televisão, tem propaganda de quem? Da Petrobras, da Caixa Econômica Federal. Elas financiam tudo. Para eles [empresas de comunicação] isso é democrático. Para vocês [UNE], é chapa branca”, disse Lula.

O tom do discurso do ex-presidente mudou quando o petista começou a reclamar dos meios de comunicação. “Eu tô ficando invocado. Faz seis meses que eu saí da Presidência, mas eles não saem do meu pé”, afirmou.

Em seguida, enumerou o que considera como intrigas feitas pela imprensa. “Primeiro disseram que há diferenças entre mim e Dilma, que somos diferentes. Não precisa ser um especialista para saber que ela é diferente de mim”, ironizou.

“Falaram que divergimos. Eu já disse que, se houver divergência, é ela quem estará certa. Não há divergências. Depois, quando fui a Brasília e tirei uma foto com senadores, disseram que ela era fraca. O babaca que escreveu a matéria nunca deve ter sentado com a Dilma para conversar. Ela pode ter todos os defeitos do mundo, menos ser fraca”, declarou o ex-presidente. “Ninguém que passa três anos na cadeia, sendo barbaramente torturada e é eleita presidente pode ser fraca.”

Lula disse que a maior vingança de Dilma com seus torturadores, durante o regime militar, foi o fato de ter sido eleita presidente. “Agora, ela é a comandante chefe. Deu a volta por cima”, disse. Entre elogios para sua sucessora, o ex-presidente continuou com os ataques à imprensa. “Inventaram também que ela é diferente nas coisas que faz, que eu falava muito. É que eu competia com o que eles falavam e o povo acreditava em mim”, comentou.

O petista disse ainda que meios de comunicação torceram para que a inflação voltasse. “Chegaram a dizer que eu deixei uma herança maldita. A primeira herança maldita é o pré-sal. Tem o Prouni, o PAC 2. Quem sabe é o Minha Casa, Minha Vida 2? O dado concreto é que eles não perceberam que as coisas mudaram no Brasil”.

O ex-presidente disse ainda que a população está se informando “de múltiplas formas” e não só por “aqueles que achavam que formavam a opinião pública”. Os discursos do evento que Lula participou foram transmitidos ao vivo no site da UNE.

(Cristiane Agostine | Valor)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fabricar pretextos


Editorial do GRANMA

A Revolução cubana foi alvo de centenas de campanhas de desinformação, geralmente orquestradas pelo governo norte-americano, com a cumplicidade de aliados europeus e o concurso das poderosas forças e interesses que controlam os empórios da mídia, mas nada conseguiu desviar os cubanos de seus ideais de independência e socialismo, nem confundir os povos do planeta que, apesar de tudo, com sua sabedoria e instinto, descobrem qual a verdade.

São campanhas sem limite político nem ético, que chocam com a força moral de Cuba e somente maculam seus autores.

A manobra mais recente, procedente de seus "várias vezes premiados" informantes, se desfez em 72 horas. Os políticos mentirosos, os meios de imprensa que caluniaram por interesse político e os jornalistas que noticiaram um fato que não existiu, sem tentar fazer uma mínima confirmação, não deveriam ficar impunes. Pelo menos, deveriam confessar o erro e pedir desculpas à família, cujo funeral desrespeitaram.

Curiosamente, todos elem mantêm silêncio sobre o milhão de mortos civis no Iraque e no Afeganistão, que definem como "danos colaterais" e sobre as execuções extrajudiciais com aviões não tripulados em países soberanos.

Mantêm silêncio sobre o uso da tortura, ocultam a existência de cárceres secretos norte-americanos na Europa, dificultam a investigação dos crimes cometidos em Abu Ghraib e na base naval de Guantánamo, usurpada a Cuba, e dos vôos secretos da CIA com pessoas sequestradas em outros Estados.

Também não se comovem ante a forma brutal em que os governos na Europa descarregam as consequências da crise econômica nos mais pobres e nos imigrantes.

Olham para outro lado quando os desempregados e os estudantes são reprimidos com inusitada violência nessas sociedades opulentas.
Contudo, andam à caça de pretextos para atacar Cuba. E como não os encontram, então os fabricam.

Com grande desvergonha, batalharam por converter uma pancreatite em um assassinato político; uma justificada detenção policial de menos de três horas por alteração da ordem, sem o uso da força, em uma surra mortal; uma pessoa com cadastro policial, condenada a dois anos de prisão por delito comum, num dissidente político, vítima de longa condenação.

O povo compartilha o protesto da família pela campanha fabricada e a indignação dos médicos, praticamente acusados de cumplicidade num homicídio.

O mundo tem exemplos suficientes da vocação humanística dos nossos médicos que, sem pouparem energias e pondo em risco suas vidas, prestam seus serviços em todos os continentes.

O legislador David Rivera, célebre por corrupção eleitoral e por suas campanhas extremistas para eliminar o direito dos cubanos emigrados a viajarem a seu país, que há só umas semanas acusou o presidente Carter de ser "um agente cubano", afirmou sob juramento, no Congresso dos Estados Unidos, que o falecido "foi assassinado a pancadas e cacetadas no parque Vidal de Villa Clara, no domingo passado".

Nem sequer se incomodou em verificar que o homem esteve no parque, antes e depois da breve detenção, quinta-feira, 5 de maio, e não domingo, quando já estava hospitalizado. Não surpreende que minta, mas sim que o faça de maneira tão estúpida.

Um tal Salafranca, parlamentar europeu do Partido Popular, de muitos méritos anticubanos e pró-ianque, que diz que os relatórios sobre os vôos secretos da CIA não oferecem dados adicionais, e fecha os olhos para se abster ante qualquer condenação, afirmou no Parlamento Europeu que a pessoa "morreu depois de sua detenção e surra por parte da polícia cubana".

O jornal El País, da Espanha do Grupo Prisa e as confabulações do PP, publicou um artigo intitulado "Dissidente cubano morre depois de receber uma surra da polícia". O ABC, historicamente a serviço das piores causas, noticiou "Opositor cubano morre após uma surra da polícia castrista". Não lhes interessa confirmar a verdade dos supostos fatos e nem sequer se incomodam em dissimular o conluio com títulos diferentes.

Insolitamente, até o presidente Barack Obama, em Miami e ante uma pergunta da tendenciosa rede Univisón, embora dissesse que faltavam por precisar alguns detalhes, se pronunciou sobre os fatos do parque Vidal que jamais ocorreram.
É curioso que Obama, sempre tão ocupado, possa lembrar o caso de uma pessoa detida num parque cubano, que depois de algum tempo retornou ao lugar.

Contudo, ele não disse coisa alguma e possivelmente nem se lembre do rosto angustiado ou do relato da menina iraquiana Samar Hassan, publicado no jornal The New York Times, em 7 de maio passado, enquanto contava a terrível experiência do assassinato de seus pais por uma patrulha norte-americana, quando retornavam do hospital, após sarar as feridas de seu irmão.

Mas, no caso de Cuba, a pior falta não são as burdas mentiras que dia após dia se fabricam e reproduzem. O imperdoável é que se censurem as grandes verdades e a história dum povo heróico e bloqueado, capaz de atingir o que para a grande maioria da Humanidade ainda é um sonho.

No passado, tentaram isolar a Cuba ou provocar desordens internas para que se produzisse uma intervenção norte-americana. O que pretendem com estas campanhas? Somente denegrir ou algo pior? Será que os que mexem os fios e a seus empreiteiros internos lhes gostaria invocar a "proteção de civis" para bombardear Havana?

Nosso povo não se deixará confundir pelos contrarrevolucionários internos que buscam o pretexto da mídia, com o objetivo de promover um conflito com os Estados Unidos e saberá responder com serenidade e firmeza ante as ações destes mercenários.

Os argumentos da Revolução cubana não se fabricam como as mentiras dos nossos inimigos, se constroem com a dignidade e integridade do nosso povo que aprendeu que a verdade é a arma mais limpa dos homens. 
 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Folha versus Falha

7 janeiro 2011

Pessoal: a disputa Folha X Falha não é pessoal. Mas as empresas têm rosto


Por Lino Bocchini


Poucas coisas irritam mais do que não conseguir falar com uma pessoa de verdade nos serviços telefônicos de operadoras de telefonia, internet, TV a cabo e afins. Entre jornalistas é comum até apelar para as assessorias de imprensa das companhias, tamanho o desespero por não conseguir falar com um gerente, supervisor, encarregado, qualquer um que resolva o problema. Quando começou a polêmica da censura da Folha contra a Falha, eu, meu irmão e metade da blogosfera brasileira ficamos falando sozinhos. Ninguém do lado de lá se manifestou. Um silêncio total na Barão de Limeira ignorou –e segue ignorando– a gritaria coletiva. Nenhuma surpresa, assim são as grandes corporações. Não têm rosto, nem voz. Restam gravações, atendentes mal pagos, impessoalidade.


Cansei de ouvir, de gente de dentro e de fora da Folha, que a decisão de nos processar “não tinha nada a ver com a redação”, e seria “do jurídico”. Mas quem são essas instâncias? Alguém trabalha lá, responde por aquilo, planeja suas ações. Quando você não consegue resolver o problema do seu celular ou da sua TV a cabo, a culpa não é do coitado do atendente nem do departamento X ou Y. A responsabilidade é de quem manda nessa turma toda e bolou esse sistema perverso, feito para que você não fale com quem decide. Aliás, feito pra que você sequer saiba quem decide.


Funciona exatamente assim no caso do processo da Folha. Não é o “departamento jurídico” que assina a ação de 88 páginas que ameaça a mim e a meu irmão. É a advogada Taís Gasparian, que tem nome, sobrenome, registro na OAB e que, na hora de ir para o México, como foi no ano passado, falar em nome da Folha na SIP, a Sociedade Interamericana de Prensa (entidade patronal que supostamente defende a liberdade de expressão) ela representa esse papel com orgulho. Então sinto muito, na hora de protocolar na Justiça um catatau contra uma blog nanico de paródia e pedir dinheiro em indenização para dois irmãos sem ligação com entidade alguma, vai ter que mostrar a cara também.


Quando em um evento sobre Liberdade de Imprensa na TV Cultura eu abordei o editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, ele acabava de dar a quinta entrevista seguida em nome do jornal, falando sobre a sua preocupação pessoal -e da Folha- com o que ele acredita serem movimentos do governo contrários à liberdade de imprensa no Brasil. Justo que ele fale assim institucionalmente, afinal é dele o maior cargo da redação. Logo, é igualmente justo que ele represente a Folha também na hora de responder sobre um caso de censura que mobilizou até a Repórteres sem Fronteiras (maior organização do mundo em defesa da liberdade de expressão) e Julian Assange, criador do WikiLeaks, que condenou o jornal duramente, em entrevista ao Estadão.


O mesmo acontece com os irmãos Frias, Otávio e Luís, os dois principais nomes do Grupo Folha. Afinal, a empresa é deles. Otávio, que responde mais pelo lado editorial, infelizmente (ou felizmente) tem que ser cobrado também pelas decisões polêmicas de sua empresa. Da mesma forma que o dono da padaria que você vai todo dia tem que ser cobrado se te vender um requeijão vencido. Da mesma forma que o alto executivo de uma operadora de TV a cabo deveria ser cobrado pelas dores de cabeça que causa a você e a sua família.


Falo tudo isso porque gostaria sinceramente de deixar muito claro a todos que estão acompanhando essa disputa, mas principalmente às pessoas que trabalham na Folha, que não tenho nenhuma raiva pessoal de ninguém. A queda de braço não é contra o Otávio, o Sérgio, a Taís, a ombudsman Susana Singer ou a colunista Eliane Cantanhêde. É contra a empresa que eles representam. Dar nome aos bois, contudo, deixa as coisas mais claras, a conversa sai da zona de conforto. Cai o véu institucional que deixa tudo impessoal e as pessoas físicas acabam sendo obrigadas a tomar posição, o que acho bastante saudável.


Não quero e não vou –mesmo– ficar choramingando, mas confesso que não tem sido nada fácil. Tenho dezenas de amigos e conhecidos em comum com cada uma dessas pessoas. Já ouvi de muita gente nas últimas semanas que eu não deveria citar nominalmente ou brincar com fulano ou sicrana, porque ele(a) é “gente boa”, culto(a), tem bom papo, é bacana… acredito que talvez sejam mesmo.


(Abre parênteses: caso Folha X Falha à parte, não é estranho que sempre digam que o executivo Y é suuper gente boa, que a herdeira X é no fundo uma óótima pessoa e o figurão N é bacana dee verdade e, mesmo com todo mundo sendo tãão legal, o mundo esteja tão lascado? Fecha parênteses).


Trabalho há quase 20 anos como jornalista, já passei pela Abril, pelo próprio Grupo Folha, assessorias de imprensa pública e privada, e tantos outros lugares. Enfim, tenho quase 40 anos, uma carreira razoável e família pra sustentar. Não sou um “moleque”, como algumas vezes têm me chamado. Mas isso não me impede de ser bem-humorado e ter um pouco de ousadia –ainda bem.


Por fim, achei bom reforçar que, obviamente, ninguém é “bom” ou “mau”, isso é coisa de novela, de Hollywood. Só que não tem jeito. Não dá pra você assumir o principal cargo do maior jornal do país, por exemplo, e não querer que junto venha algum ônus. Não dá pra ficar dizendo que é tudo culpa “do jurídico” e jogar a questão no colo de departamentos e entidades abstratas, tirando o seu da reta. Essa história de corporações sem rosto não ajuda a ninguém, a não ser aos rostos que aparecem nas reuniões internas de final de ano na hora de partilhar os lucros que eles conseguiram em cima de você.


http://desculpeanossafalha.com.br/pessoal-nao-e-pessoal-mas-as-empresas-tem-rosto-sim/

sábado, 13 de novembro de 2010

Mino Carta escreve sobre Marcelo Itagiba

A despedida de um jagunço

por Mino Carta, na CartaCapital

Na Câmara Federal, o ex-deputado tucano Marcelo Itagiba, ex-emedebista, ex-policial, deita falação para injuriar alguns jornalistas, precisamente aqueles que atuaram do lado oposto à compacta campanha de ódio a favor de José Serra desencadeada pela mídia nativa. Luiz Carlos Azenha é inepto, Bob Fernandes é mentecapto, mercenário desqualificado. Leandro Fortes, famigerado mitômano. Palmério Doria, profissional da mentira. Paulo Henrique Amorim, crápula. Luis Nassif, estelionatário. Marcelo Auler, hidrófobo. Quanto a mim, sou um velhaco de trajetória venal.

Creio que para os colegas ofendidos as injúrias de Itagiba equivalham a outros tantos reconhecimentos de honradez e qualidade profissional. O acima assinado passará a incluir as definições desse sabujo da tucanagem despenada entre as mais favoráveis que recebeu ao longo da sua vida de jornalista. Uma do colega Nirlando Beirão, companheiro de diversas jornadas: “Nunca o vi vacilar à frente dos poderosos”. A outra do então ditador aposentado João Baptista Figueiredo, pronunciada em 1988: “Ele é um chato que questiona tudo, reescreveria até os Evangelhos, Geisel o detestava, mas não tem rabo preso”.

Meu modelo é nonno Luigi, toscano, pai da minha mãe, falecido aos 56 anos, antes do meu nascimento. Perseguido pelo fascismo, afastado da direção de um diário genovês, esgrimista, desafiava os desafetos para duelos. Sabia ganhar e perder, certa vez foi ferido da ponta da orelha esquerda à base do pescoço, escapou por um triz.

Mas quem ousaria contestar o ex-esbirro- Itagiba, que se permite condenar Paulo Lacerda ou Protógenes Queiroz? Há de ser velhaco e venal quem ao sair da direção de Veja em fevereiro de 1976 teve de inventar os seus empregos porque não existiria barão midiático disposto a lhe oferecer trabalho. E ainda quem nunca deixou de defender a verdade factual e expor desabridamente suas opiniões.

Tenho pena de figuras como a de Marcelo Itagiba, jagunços de um poder no ocaso. Sinto no seu ataque a admirável interpretação do papel de janízaro, a cumprir a ordem do sultão humilhado, incapaz de conter a sede de vingança, o rancor inextinguível contra a vida e o mundo. No seu discurso federal, o porta-voz do ódio levanta casos de muitos anos atrás, todos a convergir em uma única direção. Basta segui-la para entender em nome de quem ele age. Boa pista para mentecaptos, ineptos, mitômanos e assim por diante.

Inclusive para velhacos e venais. Arrisco um palpite: trata-se da mesma personagem que acionou a procuradora Cureau contra CartaCapital.

FALEMOS DE REGULAÇÃO

O ministro Franklin Martins define como “fantasma” a assertiva bastante comum de que a liberdade de imprensa sofre ameaça no Brasil de Lula e Dilma. Também diz que a regulação da mídia é necessidade inadiável. Primeiro: respeita a verdade factual, nunca a mídia nativa foi tão livre de deturpar os fatos como se deu durante a campanha eleitoral. Segundo: o avanço tecnológico justifica plenamente a regulação da comunicação eletrônica, de sorte a adaptar à situação atual leis e regras superadas, ou seja, obsoletas.

O anteprojeto que o ministro pretende aprontar antes do fim do mandato do presidente Lula tratará dessa atualização técnica, sem risco algum para a liberdade de expressão. Temos aqui outro aspecto da questão, e o ministro passa por ele à margem do seminário internacional de Brasília, realizado nesta semana, ao condenar um conflito de interesse insuportável em um país democrático: inúmeros parlamentares são donos de instrumentos midiáticos, de jornais a rádios e tevês, ou contam com os préstimos de laranjas para esconder o verdadeiro proprietário.

No caso, o ministro volta a acertar. Trata-se de permitir outra regulação, a determinar de forma democrática os poderes e os alcances da mídia brasileira. Cabe ao Congresso a aprovação de uma lei que circunscreva claramente o raio de ação dos patrões (é aceitável que alguém seja dono de tudo?) e valorize os profissionais, a resguardá-los da prepotência medieval de serem comandados por um diretor de redação por direito divino.

Perguntava Joana D’Arc na peça de Bernard Shaw: “Quando, ó Deus, esta terra estará em condições de receber os seus santos?” Seria demais esperar pelos santos: bastariam deputados e senadores de boa-fé democrática, conscientes das suas responsabilidades.