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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Lugares curiosos

por Márcio Cotrim














Rio das Velhas (MG)

O leitor amigo João Carlos Teixeira da Costa, de Belo Horizonte (MG), traz uma boa curiosidade. Na cidade de Santa Luzia, nas proximidades da capital mineira, corre o rio das Velhas. Num dado ponto dele, era comum aparecerem enxames de abelhas. Os muitos portugueses que por ali passavam frequentemente chamavam o rio, no típico sotaque lusitano, de "rio das avelhas", forma comum de dizer "abelhas" em Portugal. Para chegar a "velhas" foi um pulo, e lá estão elas, as velhas, dando nome ao rio.

Viaduto dos Cabritos (RJ)
Já no Rio de Janeiro, há um logradouro oficializado pela prefeitura com a denominação de viaduto dos Cabritos. Construído na Via Dutra, sobre a avenida Brasil, nas proximidades da fábrica da Ambev em Campo Grande, recebeu o nome de viaduto Engenheiro Oscar Brito, só que o povo logo o abreviou para Viaduto Oscar Brito - que acabou virando "viaduto dos cabritos".

Vila Valqueire (RJ)
Também no Rio, há um bairro chamado Vila Valqueire. Seu nome, originalmente, designava a quinta parte, em alqueires, de um grande loteamento, e como "cinco" em algarismos romanos é V, acabou dando nome a um aprazível recanto da Cidade Maravilhosa...

Ilha de Guaratiba (RJ)
Os cariocas apreciam um lugar chamado Ilha de Guaratiba - que, na verdade, não é ilha. A culpa da confusão é de um gringo que morou lá chamado William e era uma espécie de cocada preta do pedaço, dono de propriedades na região. Mandava em tudo. Como pronunciar o nome do sujeito ficava meio complicado, William virou ilha e as terras dali passaram a pertencer ao "seu" Ilha de Guaratiba, que tal?

Haddock Lobo (SP/RJ)
Você sabe quem foi Haddock Lobo, nome de uma importante rua tanto no bairro da Tijuca, no Rio, como numa travessa da avenida Paulista, em São Paulo? Foi simplesmente o homem que aplicou a primeira anestesia no Brasil.

Sua excelência, o leitor

Por Cristovão Tezza

"Os livros vivem fechados, capa contra capa, esmagados na estante, às vezes durante décadas - é preciso arrancá-los de lá e abri-los  para ver o que têm dentro. [...]
Já o jornal são folhas escancaradas ao mundo , que gritam para ser lidas desde a primeira página. As mãos do texto puxam o leitor pelo colarinho  em cada linha, porque tudo é feito diretamente para ele. O jornal do dia sabe que tem vida curta e ofegante e depende desse arisco, indócil , que segura as páginas amassando-as, dobrando-as, às vezes indiferente, passando adiante, largando no chão cadernos inteiros, às vezes recortando com a tesoura alguma coisa que o agrada ou o anúncio classificado. Súbito diz em voz alta, ao ler uma notícia grave, "Que absurdo!", como quem conversa. O jornal se retalha entre dois, três, quatro leitores, cada um com um caderno, já de olho no outro, enquanto bebem café. Nas salas de espera, o jornal é cruelmente dilacerado. Ao contrário do escritor, que se esconde, o cronista vive numa agitada reunião social entre textos - todos falam em voz alta ao mesmo tempo, disputam ávidos o olhar do leitor, que logo vira a página, e silenciamos no papel. Renascemos amanhã".

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pitel?


Por Sírio Possenti
Os erros de escrita são, em geral, muito reveladores, como já comentei em colunas anteriores e sempre vale a pena repetir, porque temos obsessão excessiva pela grafia correta.

Os dados não param de pipocar. Vêm de todos os lados.

Encontrei por acaso o Pequeno dicionário brasileiro da língua morta, de Alberto Villas (Editora Globo), também colunista do site de CartaCapital. Para quem tem curiosidade em relação a novos sentidos que as palavras de tipo gíria adquirem e logo perdem, é um excelente documento. A revista Língua Portuguesa (nas bancas), em seu número 80, publicou pequena e reveladora resenha do livro.

Mas não vou falar do tema do livro, mas só de uma palavra, “pitel”, que me fez ficar com a pulga atrás da orelha. Originalmente, é um salgadinho, informa o autor (para o Houaiss, é “iguaria saborosa”). Num certo momento, e em certos contextos, significou ‘mulher gostosa’, aprende-se (ou lembra-se) lendo o dicionário. Hoje, diz Villas, em vez de “pitel”, com esse sentido, se diz “delícia” (veja-se Michel Teló). O leitor pode ver que se trata de uma gíria.

Acontece que o Houaiss registra “pitéu”, não “pitel”. A pulga atrás da minha orelha era exatamente por isso: eu só conhecia a grafia com “éu”. Até por isso fui conferir. Eu podia estar seguro, mas completamente errado.

O objetivo não é criticar este ou aquele autor, este ou aquele erro. O objetivo é repetir que só se erra grafia onde se pode, que os erros são quase sempre os mesmos. Em vez de desesperar professores, isso deveria animá-los. Por que? Por que são sempre os mesmos, porque têm boas explicações (a pronúncia de “pitéu” e de “pitel” seria a mesma; especificamente: “l” em final de sílaba soa “u” em quase todo o país). Outra razão para não desesperar: mesmo profissionais erram, e também eles nos lugares esperados.

O bom desse fato é que pode ajudar a ver melhor, com mais objetividade, como é nossa língua, a língua real, a partir da qual fazemos esforços para dominar quase outra: a língua escrita culta.

Lendo, observando as palavras, comparando a escrita de quem está aprendendo com a que está nos livros, aos poucos (mas nem tão devagar assim, se fizermos isso sempre), a escrita também se torna nossa.

http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/pitel/

quinta-feira, 31 de maio de 2012

No princípio era a fome


Metáforas de alimentação como gênese de expressão do povo brasileiro

Por José Paulo Oliveira

Oswald de Andrade definiu o brasileiro como "uma mistura de floresta com escola, um misto de dormenenêqueobichovempegá com equações".
Nosso falar mole e descansado conserva, perante a comida, um respeitoso vínculo, profundo e quase umbilical.

Vítima da miséria secular, a gente brasileira encontrou nas metáforas ligadas à alimentação uma forma genuína de expressar-se, de representar e recriar o mundo.

Expressões culinárias

Linguagem rica, banquete pra mais de mil talheres.


Se vingança é prato que se come frio, o gostinho da vitória terá de ser saboreado.

Desaforos não devem ser engolidos, pessoas inflexíveis e de temperamento forte são pão, pão, queijo, queijo e gente de má índole é farinha do mesmo saco.

Tua batata tá assando. Perigo iminente! Farinha pouca? Meu pirão primeiro. A mais pura definição do salve-se quem puder.

A situação vai melhorar? Batata: junto com as boas novas vem, no pacote, um angu de caroço.

Enquanto os políticos falam abobrinha  e são tratados a pão de ló, o povo continua comendo o pão que o diabo amassou.

Dá pra pagar as contas? Mamão com açúcar? Que nada... Sobreviver continua osso duro de roer.

Essas e outras tantas expressões, todo brasileiro sabe. Conhecê-las faz parte de nossa educação florestal; desconhecê-las é desentender as motivações que alimentam nossa alma.


Educação culinária


Em um país de tanta abundância e tão pouca oportunidade para tantos, há quem acredite que a nova classe C está destinada a ficar por cima da carne seca e tirar a barriga da miséria. Nem nos causa estranheza que nossos ministros sejam fritados ou a liberação de recursos para a saúde e a educação seja eternamente cozinhada em fogo brando e mantida em banho-maria. Aliás, quem é que não sabe que tudo aqui acaba em pizza?

No Brasil, fast-food e alopatia convivem na boa com a mamadeira, a canjica, os chás de erva-cidreira e erva-doce. Geleia global.
Tudo bem que os americanos tenham o seu "piece of cake", designativo das coisas fáceis de obter. Houve tempo em que eles só souberam da fartura e não sentiram na carne o que é ter de descascar um abacaxi, resolver um pepino, encarar uma batata quente e enfrentar o angu de caroço que é o nosso dia a dia.

Afinal, mesmo em crise, eles ainda ganham em dólar. E comem como poucos...


José Paulo Oliveira é professor, consultor de comunicação e coautor, ao lado de Carlos Alberto Motta, de Como Escrever Melhor (Publifolha, 2000)

domingo, 22 de abril de 2012

O senhor das palavras

Entrevista publicada na Revista Língua, número 1, em 2005

Por Luiz Costa Pereira Júnior e Marco Antonio Araujo
Millôr foi uma vítima da ortografia. Nasceu em 16 de agosto de 1923, no Rio, como Milton Viola Fernandes. Registrada depois (seu aniversário oficial é em 27 de maio de 1924), a certidão de nascimento foi grafada de tal jeito que o t de Milton parece um l seguido por um acento, e o n, um r. Foi assim que, aos 17 anos, Milton soube que seu nome era Millôr. Talvez por revanche, construiu uma carreira de rupturas com o português padrão, com vôos de imaginação lingüística que, a rigor, formam gramática própria. "Não passo um dia sem escrever." Fez de tudo: roteirista, ilustrador, dramaturgo, compositor, ator. Não bastasse, é tradutor de Shakespeare, Pirandello, Racine e outros clássicos em cujos idiomas foi autodidata. Seu raciocínio é tão ágil que as palavras se atropelam na voz gutural e o ar maroto dá um a mais de jovialidade à silhueta magra. Na cobertura em Ipanema, sentado, olha uma jogada do brasileiro Kaká, pela TV. "O futebol é o raro reduto da glória com mérito" Como se uma coisa chamasse outra, fustiga o escritor Paulo Coelho: "Vende muito, mas é merecidamente desprezado porque faz uma merda de literatura" Ligamos rápido o gravador.

Fazer humor é levar a sério as palavras ou brincar com elas?Humor, você tem ou não tem. Pode ser do tipo mais profundo, mais popular, mas tem de ter. Você vai fazendo e, sem querer, a coisa sai engraçada. Dá para perceber quando a construção é forçada. Tenho uma capacidade muito natural de perceber bobagem e destruir a coisa. É o que hoje o pessoal da informática chama de "processar". Você coleta um monte de dados e processa rapidamente, antecipando o movimento da outra pessoa. Às vezes, para dar certo, bastam mudanças simples. Ano passado, o pessoal da televisão me pediu uma saudação para o dia dos namorados. Ia negar o pedido quando me veio o estalo: fiz dois corações bem normais e pus em cima o texto "Dia dos namorados - Eu quero que eles se fodam". A frase grosseiramente ofensiva tornou-se logo carinhosa. Há quem diga que trocadilhos, como os que o tornaram famoso, são uma forma infantil de humor. Na verdade, a frase clássica é "a forma mais baixa de humor". Quem diz isso não sabe o que diz. Um Shakespeare não existe sem trocadilho. Nem Cristo, e é só lembrar o reino que veio depois do "Pedro, tu és pedra". O cristianismo está todo fundado num trocadilho. O trocadilho foi a verdadeira graça de Deus.

Como você começou a fazer tradução?Um tio meu, Antonio Viola, era chefe da gráfica de O Jornal, e me pegou um desenho, levou lá e depois me veio com dinheiro pago por ele. Em 1938, comecei na revista O Cruzeiro. Na época, os quadros eram pobres e todo mundo fazia de tudo. Fui contínuo, armador, ilustrador. E descia até a oficina pra mexer na linotipo [antiga máquina de composição gráfica]. Uma das minhas tarefas era dar conta das tiras em quadrinhos estrangeiras. Levava o dicionário e traduzia as legendas, botava as letras nos balões e isso era uma das dez coisas que eu fazia. Para traduzir um negócio qualquer, ia de 10 a 20 vezes ao dicionário. Aprendi a fazer tradução porque me encomendaram e foi assim desde então.

Como assim?Sempre fui movido por forças exógenas, exteriores. Por minha iniciativa, fiz só uma exposição de desenhos, em 1957, no MAM, e uma peça de teatro em 1963, Flávia, Cabeça, Tronco e Membros. Todo o resto que fiz foi a pedido. O primeiro livro que traduzi foi Dragon Seed, de Pearl S. Buck, com o título A Estirpe do Dragão, em 1942. Nunca me senti tão roubado na vida, pois você traduz 300 páginas por uma mixaria. O livro era assinado por outros. Eu era um "laranja". No teatro, era diferente, a remuneração, tudo era vinculado à bilheteria. Assim, uma peça fracassa, a segunda vai melhor e de repente a terceira compensa todo o esforço.

Como foi seu aprendizado da língua? A escola ajudou ou atrapalhou?
Tive a grande sorte de trabalhar na imprensa com menos de 14 anos, em 1938. Havia deixado de estudar aos 10 [por causa da morte da mãe; o pai perdera quando tinha 1 ano de idade]. No primário, aprendi a gostar de estudar e a ler por causa de uma professora, Isabel Mendes. Nunca esqueci o dia em que ela me ensinou a ver as horas. Eu saía pelos corredores de olho nos relógios. Fiquei espantado em ver que um marcava 8 horas e o seguinte, 8h05. Foi quando percebi aquilo de mais banal na vida, a consciência de que o tempo está sempre à sua frente, faça você o que fizer. Passei dois ou três anos sem estudar. Quando eu ganhei o primeiro dinheiro, fui estudar no Liceu de Artes e Ofícios - curso de cinco a seis anos, que não cheguei a concluir porque já era "famoso" à época - com 20 anos já ganhava o maior salário da imprensa. Portanto, devo ter saído do colégio aos 18 anos. Portanto, tudo o que aprendi foi no primário. Depois de um primário sólido, você pode ser um autodidata. Foi a professora Isabel Mendes quem me ensinou a coisa mais importante em didática - a gostar de estudar.

Gostava de ler nessa época?Não tinha livros em casa. Havia umas novelas da editora Vecchi, folhetins pra cozinheiras e domésticas. Eles mandavam dois ou três exemplares em cada endereço e, se a pessoa gostasse, mandavam cobrar as edições seguintes. Eram títulos muito melodramáticos, como Córsega em Chamas, Fausta Vencida, Nunzio Romanetti, ou policiais. Quando comecei a estudar na cidade, passei a ir com mais freqüência à Biblioteca Nacional. Ficava muito irritado quando havia feriado e a biblioteca fechava, pois ficava sem ler.

Com que língua mais gosta de trabalhar?
Não aprendi línguas até hoje (risos). Gosto de trabalhar com o português, embora inglês seja a que eu mais leio. Nunca tive temor de nada. Deve-se julgar as obras pelo que elas têm de qualidade, não por serem de fulano ou beltrano. Shakespeare fez muita besteira, mas tem três ou quatro obras perfeitas, e Macbeth é uma delas. Traduzi Shakespeare por ser do caralho, mas se me dessem algo ruim para traduzir, dizendo que era um pensamento dele ou de Confúcio, perguntaria se era mesmo dele ou de um completo idiota.

Nunca sentiu dificuldade na tradução por ter sido autodidata em línguas?Ao traduzir, é preciso ter todo rigor e nenhum respeito pelo original. Você pega um Racine, que é em dodecassílabos, mas não entra nessa. No momento em que você se sujeita à rima, está perdido, porque a rima vai conduzir os seus pensamentos. Mas traduzir é sempre divertido. Uma vez fiz a tradução da peça The Sunshine Boys, do Neil Simon, a que dei o título de Os Palhaços de Ouro. Era sobre uma dupla de comediantes à antiga. Eles se odeiam depois de trabalhar juntos por décadas, mas são obrigados a conviver nos palcos. Numa cena, o mais velho dos dois bate à porta, o outro diz: "Enter!" O ator fica imóvel. "Enter! Enter!" E nada. O outro vai lá e pergunta porque ele não entrou. "Estou esperando você dizer coming!, como sempre se fez." Ora, enter e coming são expressões equivalentes em inglês, mas com aplicações diferentes. Por aqui, "entrar" já dá conta do recado. Para dar idéia do contraste que o original pedia, foi preciso dizer em bom português "penetra!"

Na sua opinião, quais as vantagens o português possui em comparação a outras línguas que você conhece?A principal vantagem é a de ser a minha língua. Ninguém fala duas línguas. Essa idéia de um espião que fala múltiplas línguas não passa de mentira. Vai lá no meio do jogo dizer "salamê mingüê, um sorvete colorê..." ou "velho guerreiro". Os modismos da língua, as coisas ocasionais, não são acessíveis a quem não é nativo. Toda pessoa tem habilidade só no seu idioma. Você pode aprender uma, dez, sei lá quantas expressões de outra língua, mas ainda existirão outras mil - como é que se vai fazer? A língua portuguesa tem suas particularidades. Como outras também. Aprendi desde cedo a ter o cuidado de não rimar ao escrever uma frase. Sobretudo em "-ão".

Quais as normas mais loucas ou mais despropositadas da língua portuguesa?
Toda pesquisa de linguagem é perigosa porque tem o caráter de induzir o sentido. Não tenho nenhum carinho especial por gramáticos. Na minha vida inteira sempre fui violento [no ataque às regras do idioma], porque a língua é a falada, a outra é apenas uma forma de você registrar a fala. Se todo mundo erra na crase é a regra da crase que está errada, como aliás está. Se você vai a Portugal, pode até encontrar uma reverberação que indica a crase. Não aqui. Aqui no Brasil a crase não existe.

Mas a fala brasileira é mutante e díspare, cada região tem sua peculiaridade. Como romper regras da língua sem cair no vale-tudo?Se não houver norma não há como transgredir. A língua tem variantes, mas temos de ensinar a escrever o padrão. Quem transgride tem nome ou peito que o faça e arque com as conseqüências. Mas insisto que a escrita é apenas o registro da língua falada. De Machado de Assis pra cá, tudo mudou. A língua alemã fez reforma ortográfica há 50 anos, correta. Aqui, na minha geração, já foram três reformas do gênero, uma mais maluca que a outra. Botaram acento em "boemia", escreveram "xeque" quando toda língua busca lembrar o árabe shaik, insistiram que o certo é "veado" quando o Brasil inteiro pronuncia "viado". Chamar viado de "veado" é coisa de viado. Quando chegaram a tais conclusões? Essas coisas são idiotas e cabe a você aceitar ou não. Veja o caso da crase. A crase, na prática, não existe no português do Brasil. Já vi tábuas de mármore com crase errada. Se todo mundo erra, a crase é quem está errada. Se vamos atribuir crase ao masculino "dar àquele", por que não fazer o mesmo com "dar àlguém"? Não podemos.

Você já escreveu certa vez um texto em "lusitol" e o traduziu para o "brasilol", mostrando o abismo de linguagem que existe entre Portugal e o Brasil. O nosso país caminha para a constituição de uma língua própria?É muito difícil fazer esse tipo de previsão. As influências hoje em dia são tão interativas, tão permutantes, que não sei se o Brasil vai formar uma língua tão diferente de Portugal, porque o inglês também está batendo à porta deles. O mundo inteiro hoje busca aproximação por meio do inglês. É um idioma que teve muita sorte - quando o império britânico começou a decair, surgiu o americano. O inglês tem inúmeras línguas, mas continua inglês. Assim também, há uma língua portuguesa com variantes, dialetos e idioletos.

Mas as diferenças não pesam?Nem sempre é fácil entender um português e há filmes portugueses que só conseguimos ver com legendas. O que acontece é que temos dificuldade de entender o português de Portugal mais pela eufonia e pela prosódia que pelos vocábulos em si mesmos. Não sei se os portugueses passam pelo mesmo problema, mas o fato é que, até os anos 30, todo ator brasileiro imitava sotaque português para ser respeitado e, hoje, nossa influência em Portugal é total. A telenovela entra lá, e não adianta o intelectual português ficar contra, porque o povo acha engraçado o jeito de a gente falar, e termina copiando. Já usam expressões como "estou a dar a volta por cima, o pá!", lá do jeito deles, com sotaque, mas usam.

O estrangeirismo empobrece a língua portuguesa?De maneira nenhuma. Antigamente, tivemos palavras como porta-seios, uma coisa muito feia, que felizmente foi substituída pelo galicismo "sutiã". Toda língua é invadida e, como mulher, fecundada. De vez em quando a nossa leva na bunda, mas nada que, lavada, não fique novinha. Houve tempo em que o galicismo era uma aberração. Não se podia escrever "amante", mas "amásia". Era assustador. Uma vez, era menino, escrevi um conto em que um cara sai pela rua gritando: "Assassinato! Assassinato!" Quiseram que eu colocasse, por respeito à língua, "assassínio", pra evitar o "galicismo"... Quem sai à rua gritando "Assassínio!" é bicha.

Os excessos, como sale, delivery ou 50% off não incomodam a você?O estrangeirismo não me incomoda. É evidente que essa coisa pouco natural de importar outra língua é muito Barra da Tijuca [bairro da elite carioca], é esse negócio de Estátua de Liberdade de gesso colocada na frente da porta. Pode haver a penetração que quiser, mas é preciso fazer as coisas que nos são naturais. O cara que use delivery com as nega dele. Eu, por exemplo, escrevo aquilo que chega até mim, naturalmente. Devo ter sido a primeira pessoa a escrever whisky na forma "uísque". E ficou. Uso "saite" no lugar de site, que já está consagrada. Os portugueses usam "sítio" e é legítimo. A língua é assim, arbitrária. Se dependesse só do meu arbítrio, aí eu faria uma moção pros órgãos oficiais. Não há porquê do Banco do Brasil usar home delivery quando poderia simplesmente fazer "entrega em domicílio". Os órgãos oficiais brasileiros não podem fazer esse tipo de coisa.

Qual o caminho para escrever bem?Escrever bem é expressar-se. Usar sujeito, verbo, predicado e, a partir daí, fazer todas as variações. Não deixo margem a dúvida quando digo "um homem de terno branco atravessava a rua num dia de domingo". Mas jamais escreveria a frase pomposa do Machado de Assis que está lá na Academia [Brasileira de Letras]. Nem improvisada foi, pois estava num poema dele. "A glória que fica eleva, honra e consola". As palavras não têm a menor hierarquia. Quando se diz "a glória que fica" já acabou a frase, já se sabe que é com a ABL, ela está se referindo às glórias literárias. "Eleva" e "honra" são dispensáveis e nem dá para saber o que uma glória consola: da tremedeira das mãos, de doença? Veja, no entanto, um escritor como Camões. Ao se dirigir ao rei Dom Sebastião, o poeta afirma que "a disciplina militar prestante / não se aprende, senhor, na fantasia, / sonhando, imaginando ou estudando, / senão vendo, tratando e pelejando". Repare que ele não diz "tratando, pelejando e vendo" - pois seria o caso de um sujeito que sai na porrada sem pensar. Quem não sabe escrever não cria esse tipo de hierarquia, pouco importa. Quando uma hierarquia não é tão precisa entre as palavras, o sujeito quebra a cara. Nenhuma palavra é gratuita. Um texto, por exemplo, não pode "condenar" algo quando na verdade seu autor pretendia dizer "evitar". Não.

É possível escrever bem sem ler muito?Não!

Mas é possível desenvolver um instinto natural para escrever bem?O instinto pode levar a escrever, mas uma pessoa simplória tende a ter um discurso simplório. Quando escrever, fará um texto simplório. Quanto mais formas de escrita você conhecer, mais habilidade terá em sua própria escrita. Sei que há quem nos desminta. Outro dia, peguei dois volumes de Rubem Braga. Um feito quando ele tinha 25 anos e outro aos 40, já embaixador no Chile. Ambos são de uma precisão, mesmo em 20 linhas. Eu, que não gosto de enfeiar com sinais gráficos o que escrevo, por vezes vejo que as coisas que faço vão ficando complexas e sou obrigado a usar travessão e intercalações para deixar tudo mais claro. Rubem Braga não faz nada disso. É de uma densidade de quem não quer nada.

Quem se expressa bem, falando, no Brasil?
Ninguém que supere o Carlos Lacerda [jornalista e político da antiga UDN, 1914- 1977]. Hoje, falam que um Pedro Simon é um grande orador e eu me escandalizo. A retórica dele é feita de gritos, de berros. Lacerda, não, trazia tudo alinhavado, com uma capacidade de argumentação impressionante. Nem locutores de TV, que lêem tudo mastigado no teleprompter [monitor de caracteres], sabem falar. Você pega o [apresentador do 'Jornal Nacional'] William Bonner, fala "errado" o tempo todo, porque enfatiza as palavras indevidamente ou enfatiza demais a frase. De todos, o [jornalista] Franklin Martins é o melhor, diz tudo de maneira correta. Veja o Carlos Nascimento. A televisão deixa o cara dar palpites, que são no mínimo conservadores, quando não reacionários - e ele nem percebe.

Dos nossos ex-presidentes e do atual - Sarney, FHC e Lula - quem se expressa melhor em português?Que parada! Fernando Henrique diz besteiras o tempo todo. Como um cara inteligente diz que o povo deveria fazer checkup e que tem o pé na cozinha? Teria o pé na África e olhe lá. Ao dizer "pé na cozinha", é pejorativo. Fernando Henrique é empolado demais da conta. Já o Lula diz bobagens do tipo "as mulheres são desaforadas". Diz também sem saber o que está dizendo. Pensa que está elogiando, sendo engraçadinho, mas não tem noção das palavras. Ocorre que ele tem pronúncia até melhor que o FHC, mesmo engolindo palavras. Já Sarney é o Lula em barroco. Escreve um romance débil mental e passa a ser considerado uma revolução nas letras nacionais.

É atribuído a você um texto que circula na internet, uma apologia ao palavrão. Terem acreditado que se tratava de um texto de sua autoria o ofendeu em que medida?É a pior coisa pegarem um texto que não é seu, que você escreveria melhor, e atribuir a você. Já escrevi muito sobre palavrão, e não para fazer gracinha. Em 1978, quando fiz a tradução de A Volta ao Lar, do Harold Pinter, O Globo veio em cima, dizendo que eu inseri palavrões para torná-la picante, comercial ou subversiva. Escrevi um artigo enorme contestando. Tudo que penso sobre o assunto está lá. Não preciso fazer gracinha com a questão. Mas internet é terra de ninguém. Não fiquei ofendido, nem fui lá reclamar. Isso me mata de tédio.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lutas de classe entre as rimas

Por Braulio Tavares


Já falei aqui nestas páginas sobre os conceitos de rima rica e rima pobre. Qualquer manual poético dá explicações sobre esses dois tipos. Minha única ressalva é que ela sugere um preconceito de classe social, e passa, com isso, a ideia falsa de que é preciso deixar de ser pobre e ficar rico de qualquer maneira. Sugere que é preciso evitar a todo custo as rimas pobres e encher o poema de rimas ricas de cima a baixo. Não é bem assim.

Eu chamaria essas rimas de fáceis e difíceis. A rima fácil (ou pobre) exige um mínimo de esforço ou de imaginação. A mais fácil de todas seria rimar uma palavra com ela mesma:

Quando eu estou com saudade
lembro os olhos do meu bem
pois não sei onde ela anda,
não sei se ela me quer bem.
 

Rimar assim é o máximo da preguiça, embora (a poesia é um mundo vasto) deva existir algum exemplo em que isto foi empregado com proveito poético.

O segundo tipo de rima fácil mais à mão é rimar uma palavra com outra palavra derivada dela mesma. Não existe muito mérito poético em rimar "urbano" com "suburbano". O poeta principiante faz isso com frequência, porque depois de escrever a primeira palavra ele começa a remexer as gavetas da memória procurando uma palavra que termine num som parecido, e em geral a primeira que encontra é justamente um derivado da palavra que já tinha.

O propósito da poesia é evitar sempre as rimas pobres e só usar rimas ricas? De jeito nenhum. A rima é um efeito, e como todo efeito deve ser dosado, deve obedecer a uma economia. Quando as rimas começam a chamar excessivamente a atenção, por sua "pobreza" ou sua "riqueza", elas interferem na leitura, mostram que foram colocadas ali ou por preguiça ou por exibicionismo. A rima é uma repetição de sons que dá uma impressão de harmonia, de simetria, às vezes de surpresa (quando a rima surge num lugar inesperado, ou com uma palavra inesperada), mas tudo isso deve ser meio que em segundo plano, porque a rima não é o solista da orquestra, ela apenas faz parte da seção de ritmo. Está ali para acompanhar e enriquecer, não para chamar a atenção sobre si mesma, a não ser em momentos especiais.

Quando usar a rima fácil
Palavras que terminam com o mesmo sufixo são um caso limítrofe de rima fácil. Por mim seu uso não chega a ser um crime, mas se usadas o tempo inteiro comprometem o poeta. O grande vilão neste caso é o conjunto dos advérbios terminados em "mente": atualmente, possivelmente, constantemente, certamente, antigamente...

A lista é grande, mas deve ser acessada com parcimônia. O mesmo se dá com adjetivos que terminam todos da mesma maneira: gracioso, orgulhoso, perigoso, custoso... 

Ou com substantivos de terminação igual: frequên­cia, excelência, insistência, paciência... 

E com formações verbais: derrotado, exaltado, empurrado... andando, falando, pensando...

Rimas assim não exigem criatividade. São rimas que devem servir de argamassa às demais, servir de elenco de apoio, sem chamar muito a atenção para si, ajudando a manter o fluxo. Mas se no meio delas não aparece de vez em quando uma rima um pouco mais difícil, ou rica, o leitor só percebe a presença delas; e, mesmo inconscientemente, torce o nariz para a escassez de inspiração do poeta.


O desafio da rima difícil
A rima difícil ou rica pode vir, por exemplo, quando em vez de rimar dois verbos ("amar" e "cantar"; etc.) rimamos um verbo e um substantivo ("amar" e "luar"). Em lugar de rimar "formosa" (adjetivo) com "gostosa" (adjetivo) podemos rimar com "rosa" ou "prosa" (substantivos). Em vez de rimar "perigo" (substantivo) com "amigo" (substantivo) podemos rimar com "antigo" (adjetivo). Pode parecer um excesso de capricho, mas a verdade é que muitas vezes o poeta vai escrevendo sem ter a mínima ideia do que fazer em seguida, e estabelecer critérios desse tipo podem ajudá-lo a pensar no que dizer no verso seguinte. 

O uso de nomes próprios e comuns
Rimar nomes comuns e nomes próprios também traz uma dose maior de informação e de imprevisibilidade ao poema. Uma coisa é rimar "deserto" com "certo", "coberto"; outra é rimar a mesma palavra com "Roberto".

O desafio, no caso, é o que sempre preside qualquer questão de rima: a palavra está sendo utilizada por causa do seu som, mas deve dar a impressão de que o foi por causa do seu sentido. Além disso, deve dar a impressão de que o poeta rimou involuntariamente (quando é justamente o contrário).  

O exemplo de Augusto dos Anjos
Um tipo de rima difícil, ou rica, que requer certa destreza é quando rimamos uma palavra com os sons de duas ou mais, ou com verbos acompanhados de pronomes oblíquos. Augusto dos Anjos (um dos poetas mais complicados e mais populares da literatura brasileira) era um mestre nesse tipo de rima. Em seus poemas encontramos "língua" rimando com "distingo-a", "estrelas" com "compreendê-las" (em As Cismas do Destino), entre outros achados.


http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12361

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Palavrões Cultos

Via Revista Língua - n° 69


  • Abléptico - Desequilibrado.
  • Acatruzo - Pentelho, chato, amolador.
  • Acataléptico - Vacilante, burro.
  • Anelídeo - Da família das minhocas e sanguessugas.
  • Ancípite - Que tem duas caras, falso, inconstante.
  • Apedeuta - Ignorante
  • Cabrião - Um chato em alto grau.
  • Graveolento - Fedorento.
  • Madraço. Preguiçoso, ocioso, mandrião, vadio. Do árabe matrâ - colchão, lugar onde se atira o corpo. "Isso não vai prá frente porque só tem mandraço aqui."
  • Patego. Simplório, pateta, rústico. Talvez derive de pato. Pronuncia-se patêgo.
  • Ozostômico - Pessoa que tem mau hálito.
  • Vaníloquo - Fala pelos cotovelos e não diz nada.
  • Somítico - Avarento, sovina.
  • Saberete. Pessoa que acha que sabe tudo, que tem a pretensão de saber mais do que os outros e faz questão de demonstrar isso insistentemente.
  • Valdevino - Vive às custas dos outros(as).
  • Presbiofrênico - Inventa histórias sem fundamento.
Fonte - Dicionário Brasileiro dos Insultos (Ateliê Editorial, 2002), de Altair J. Aranha.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cilada.com

por Mark dropped the coin Olive

Ontem estive num "shopping center" para assistir um filme. Para quem nunca visitou um, identifica-se  rapidamente pois ao adentrarmos no recinto encontramos placas de SALE, OFF e, principalmente pelos nomes das lojas, quase todas num idioma que você não conhece. Agora, longe de mim querer proibir este idioma de Shopping. Já teve um deputado que quis proibir por lei, não conseguiu, nem vai conseguir pois, a língua é dinâmica,  aberta e.... triste sina, hoje ele anda em companhias ruralistas defendendo mudanças no código florestal.
Eu gosto de Shopping porque parece um navio. Desses de cruzeiro, imenso, com lojas, restaurantes, cinemas, bares. É uma viagem. E como nunca fiz um cruzeiro ir ao shopping sublima meu desejo.

Mas vamos ao que interessa que é o filme.

Férias, filas imensas nas bilheterias. Meninos e meninas de montão. Além do mais nas terças e quartas o preço é só US$ 7,74. As opções eram (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2), (Transformers: Dark of The Moon), (Winnie the Pooh), (Cars 2), (Kung Fu Panda: The Kaboom of the Doom) e tinha um chamado Cilada.com (http://www.ciladaofilme.com.br/) achei que era o mais moderno pois tinha a ver com internet, e este foi o meu escolhido.  Devo informar que não comprei aquele balde cheio de pipoca mas muitos(as) o fizeram.

Logo no início do filme, um susto. Era um filme em uma lingua estranha, e o pior, sem legenda. Recuperado vi que a língua era o português e que eu entendia tudo o que os(as) artistas diziam. Melhor ainda, mesmo sendo em português o filme em nada ficava a dever aos legendados. E convenhamos, estes são 90-95% do que se mostra nos cinemas.

Aí começou a cair a ficha (sou deste tempo). Quando a ficha cai é doloroso. Comecei a ver coisas que não via antes. E óbvio que o cilada.com parecia um filme estrangeiro, pois me parece que 95% dos filmes que se vê nos cinemas vem de uma unica fábrica - Hollywood, um único país e uma única lingua, o inglês. E o pior, o povo "não diferenciado" que frequenta os shoppings e que deveria saber inglês, lê as legendas. ha ha ha.

Inicio aqui uma campanha "Em Shopping Center ( onde sale e off tudo) os filmes deveriam ser originais, nada de intermediários(as legendas).


Vá ver o Cilada.com, é uma boa comédia romântica. Boa trilha sonora, boa fotografia, bons atores e boas atrizes. Muito melhor que a imensa maioria que vem da indústria monopolista da costa oeste.
E tem mais, algumas cenas lembram os legendados - a do protagonista com um amigo conversando no "teto sacada" de um edifício, o bar excessivamente americano, a televisão no bar com o protagonista vendo uma notícia a seu respeito.
Mas nada é perfeito. E num mar de legendados é sempre bom ver um filme brasileiro.

terça-feira, 15 de março de 2011

Alberto Manguel - A leitura do mundo

do site www.revistalingua.com.br

A leitura do mundo
Ensaísta argentino radicado no Canadá, Alberto Manguel lança novo livro no Brasil e diz que ler é ter memória de uma experiência antes mesmo que ela aconteça

Luiz Costa Pereira Junior

O leitor lê o que quer, o escritor escreve o que pode. A frase de Jorge Luis Borges é usada pelo ensaísta Alberto Manguel como um mantra: porque não se sabe como será interpretado, deve-se escrever como uma extensão da leitura.

No fim do ano, o autor argentino radicado no Canadá veio ao Brasil para a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), divulgarA Biblioteca à Noite e Todos os Homens São Mentirosos (Cia. das Letras). O tema biblioteca lhe é central. Está em A História da Leitura e no Dicionário dos Lugares Imaginários, que cravaram o nome de Manguel no Brasil.

Filho de embaixador, rodou o mundo. Aos 14 anos, ia à casa de Borges ler para o autor já cego. Hoje, cita Borges "ao menos três vezes" por palestra. A citação ajuda o leitor a crer na realidade do texto e a levar a gente a sério, brinca. Agora, escreve um livro de ensaios (O Leitor como Metáfora) e a segunda novela, Um Amigo de Platão, sobre dois homens que travam guerra sobre a verdade. Uma fábula. Afinal, para Manguel, nada é verdadeiro, a não ser o que encontramos nos livros. (O editor foi à Fliporto a convite da organização do evento)

Ler de fato nos melhora?
Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura.

Para Paul Virilio, o símbolo do século 20 foi o arvoredo amado por Goethe, intacto num campo nazista. Um leitor refinado comandara aquela carnificina.
Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter atenção entre duas margens. Há incontáveis exemplos de leituras que conduziram a atos terríveis. O mais anedótico foi o daquele que leu O Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, e entendeu pela leitura que havia de matar John Lennon. Mas há leituras que permitem fazer uso da memória da experiência do mundo. Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar.

Se, como você diz, sabemos que o universo não tem sentido, por que ainda lemos e escrevemos livros?
Em parte, ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e outros criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de experimentá-lo. Se posso imaginar como é pôr a mão na boca de um tigre, sim, vou pôr a mão. A imaginação faz com que inventemos histórias para reter nossa experiência. Para conhecê-las, desenvolvemos a leitura. Lemos e escrevemos para entender a experiência antes de tê-la e para ativar nossa própria experiência, para dizer que essa é a forma que sentimos e entendemos, para que as gerações futuras possam sabê-lo.

Como foi ler para Borges?
Quando ficou cego nos anos 50 ele se deu conta de que precisava dos outros para ler. Pedia a qualquer um, pois não lhe interessava uma leitura interpretativa. Eu trabalhava numa livraria. Um dia, ele me pediu. Era uma leitura sem entonação, que interrompia para entender como o texto foi construído. Sobretudo, queria que eu lesse contos porque voltara a fazê-los, e eles viraram O Informe de Brodie [1970]. Para mim, foi uma experiência mecânica.

E a convivência com ele?
Borges tinha grande senso de humor, mas não era afetuoso no sentido pleno da palavra. Não creio que tivesse amigos. Com Bioy Casares tinha uma relação particular, mas intelectual. Era amável, mas nunca, nunca houve uma conversação pessoal, de me perguntar sobre a vida, meus interesses.

Sua obsessão pelo tema biblioteca veio de Borges?
Sim e não. Tudo meu tem influência dele. Mas meu interesse em livros e bibliotecas começou aos 4 ou 5 anos. Sempre estive rodeado de livros, e desde pequeno ordenava as obras de certa maneira. O benefício de ter conhecido Borges foi ter contato com certos autores e uma forma de pensar a leitura, mas não diria que foi a partir dele que começou meu interesse no tema.

Por que tomou a leitura como objeto de pesquisa?
Não me definiria pesquisador, mas alguém que tenta entender o que faz. Desde os meus 3 ou 4 anos, minha família viajava muito. Não contava com um lugar fixo, sempre meu. Esse lugar, para mim, foi o livro. Lembro de sentir um alívio ao chegar em casa e encontrar num livro o mesmo texto, com a mesma ilustração na mesma página. Essa foi para mim a experiência primária. Aprendi nos livros o que era a amizade, a morte, o amor, antes de conhecê-los na vida de carne e osso.

Quais os livros que considera essenciais?
Mudam todo dia. Os importantes dependem de quem somos quando os escolhemos. Em certo momento, o mais importante pode ser Alice no País das Maravilhas, esta manhã A Divina Comédia, esta tarde não sei o que será. Toda biblioteca é uma autobiografia. A minha é um conjunto de possibilidades de quem sou. Às vezes essa possibilidade coincide com certo título, me dou conta que um título é a pessoa que fui há anos e é como visitar uma memória passada.

Qual é o seu método de pesquisa?
Desordenado e amplo. Quem não sabe precisamente o que procura, busca em muitos lugares e direções, e isso faz com que a pessoa pareça erudita, mas seu trabalho nasce da ignorância mais profunda. Se queria escrever sobre Santo Agostinho, investigava tudo, pois dele nada sabia. Não tenho metodologia, mas curiosidade e uma forma de pensar distraída e associativa. Isso confere certa complexidade à produção de ensaios.

Permite criar ensaios melhores? 
A novelista americana Cynthia Ozick dizia que há duas metodologias para escrever ensaios: uma é recordar o caminho sabendo aonde chegar e a outra é passear pelo bosque, ir à esquerda, à direita, e é melhor nem chegar a alguma parte. Minha tendência é a de passear, pois não tenho a mente rigorosa, mas há ensaístas de uma luminosa claridade, que sabem aonde vão desde o início. Borges, por exemplo. Não creio que se possa falar qual a melhor possibilidade. Só do que dá resultado ou não.

"Ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e os criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de vivê-lo"
Qualquer assunto pode ser tratado dessa forma?
Há ensaios maravilhosos sobre nada. Xavier de Maistre criou [em 1794] um magistral: Viagem ao Redor do meu Quarto. Qualquer tema se presta à interrogação e talvez o ponto de partida seja este: fazer uma pergunta e chegar a uma melhor pergunta.

Como insere seus livros recentes em sua obra?
Quando comecei a escrever, eu o fiz consciente que estava escrevendo como leitor, não como um escritor. Mas nos livros que fiz não sei se há uma progressão, um aumento de complexidade ou um melhor entendimento sobre algo, mas uma abertura de perguntas.

Aonde levam essas perguntas?
Percebi, com Uma História da Leitura, que escrevia um livro com um número específico de capítulos, mas bem poderia ter cem mais. De alguma maneira, o tema da leitura abarca todas as atividades humanas e os conhecimentos possíveis. Quando Borges imaginou uma biblioteca contendo o universo, falava exatamente isso. Ao pensarmos o mundo como livro, como espaço que lemos, a leitura define todas as atividades. Não posso pensar em nenhum tema que não esteja relacionado ou incluído no tema da leitura.

Como vê o modo como é escrito o ensaio hoje?
Não há característica que defina o ensaio em um momento particular. Como gênero, muda em relação não só aos escritores como aos leitores. Um da Grécia antiga não se diferencia tematicamente de um diálogo ou poema filosófico, mas em certo momento há a intenção de tratar um tema de maneira particular, digamos em Plutarco, em Sêneca ou, nos latinos, em Cícero. Essa forma vai se definindo até Montaigne dar ao gênero a palavra "ensaio", como ideia de algo que se está provando, de se tentar algo a partir de uma voz particular. Não é que fosse a primeira vez em que foi feito, isso já existia. Mas Montaigne conscientemente diz ao leitor: "Estou num diálogo com você". Hoje, o ensaísta pode inventar técnicas ou limitar-se às já sabidas, mas faz o mesmo que todo escritor: estabelece um acordo. Não creio que haja um estilo particular no ensaio de nossa época.

Quais problemas a tecnologia coloca ao amante de livros?
A tecnologia é só uma fábrica de instrumentos que usamos de uma maneira ou outra. Quando falamos de problemas estamos na verdade falando da indústria eletrônica que leva à compra de aparatos na sua maior parte inúteis. A indústria distorce a relação entre leitor e texto, impondo instrumentos como razão para a existência do texto. Logo se inventam razões intelectuais para justificar o consumo, mas não há de fato motivo para o qual todos tenham necessidade de comunicação 24 horas todo dia, em toda parte do mundo.

A internet não é a grande biblioteca atual?
Internet não é biblioteca. É um lugar de acumulação de informação. É importante e banal. Numa sinagoga do Cairo medieval havia um tipo de depósito chamado Guenizá, onde era posto tudo o que era escrito. Porque podia conter o nome de Deus, nada era destruído... Havia cartas, documentos importantes, e listas de compras, contas, rascunhos. Com a internet há o mesmo. Em minha biblioteca, encontro a informação que quero, sei seu valor e peso. Mas na rede, em que poderia achar a mesma informação, não sei o contexto, a relação entre um texto e sua fonte.

"Há uma música, uma doçura na língua portuguesa, um sentido de que é um idioma respeitoso, que a mim encanta"


Mas sua função de acervo não seria inegável?
Há sites úteis, mas falta curadoria. Ao se criar a biblioteca de Alexandria, que pretendia ter tudo, o problema era que nenhum leitor poderia fazer uso eficaz de tudo. O que Calímaco, um dos primeiros bibliotecários, fez foi criar catálogos racionais: "nessa temática, estas são as obras importantes". Isso criou os primeiros cânones. Mas trouxe problemas. Implicou um tipo de censura. Se digo que algo é importante, outros não entram na seleção. Toda ordem significa um tipo de exclusão. Então, quando a internet oferece as primeiras seleções não é sequer pelas razões intelectuais que pautaram Calímaco. Há um sistema mecânico, que não tem a ver com a busca intelectual.

A literatura é uma forma de vencer o esquecimento. Há o risco de, na era da internet, voltarmos a esquecer?
Num diálogo de Platão, ele conta ou inventa o mito pelo qual o deus egípcio Tot oferece ao faraó o presente da escrita. O faraó o recusa. Se o aceitasse, os homens não mais recordariam, pois a escrita recordaria por eles. Séculos de literatura mostraram que a literatura serve para fomentar a memória. A acumulação indiscriminada e o mito de que as coisas caem na rede só por um período fazem com que a internet exista só num eterno presente. A história de uma ideia se perde e não há traços nem da correspondência - a maior parte dos e-mails se perde.

Sem data e contexto, desorienta-se o leitor...
No computador, toda versão é apagada, a última é o que fica. Quando Montaigne publica seuEnsaios, leva consigo uma edição para corrigi-la em casa. Depois que morreu, em 1588, o exemplar com as correções seguiu para edição. Está na biblioteca municipal de Bordeaux. Um de seus ensaios famosos é sobre a amizade. Quando fala da amizade com [Etienne de] La Boétie, Montaigne cunhou uma frase famosa: se lhe perguntam por que o queria como amigo, não saberia responder, salvo para dizer que ele era ele e eu era eu. Na edição impressa em vida, a frase era: "Se me perguntam por que o queria, não saberia o que responder", ponto. No exemplar modificado, com tinta negra, Montaigne agregou: "Salvo para dizer que ele era ele". E logo depois, em azul, "e porque eu era eu". Temos aqui a evolução de uma das frases mais comoventes da França, sabendo que primeiro se pensou uma coisa, depois outra e em seguida uma terceira. Hoje teríamos só a frase final, ainda comovente, mas sem história.

Acompanha a literatura brasileira?
Ela parece crescer de sua própria inspiração. A norte-americana é encerrada em si mesma, não conhece o resto do mundo. A brasileira conhece, mas se inspira em si. De Machado de Assis a autores mais recentes, todos parecem inspirados por suas circunstâncias a partir de uma língua que vão criando. Vemos isso em Guimarães Rosa, um fenômeno que não conheço em nenhuma outra língua ou literatura.

Do português, o que mais lhe chama atenção?
Não falo português, que para mim é como ler através de um vidro escuro, mas há uma música, uma doçura, um sentido de que é uma língua respeitosa, que a mim encanta, em particular no uso de "você", de "senhor". Sempre me pareceu uma língua que respeita constantemente o interlocutor, coisa que não se sucede no espanhol, por exemplo, e certamente não com o inglês.