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quarta-feira, 17 de maio de 2017
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Esplar
Por Lena Leão
O Esplar lançou seu livro!
Mas, tem histórias e profissionais bons o suficiente pra lançar uma biblioteca.
Experiências lindas, pessoas raras, conquistas, resgates, mudanças são marcantes na trajetória dessa instituição cearense que ousa viver e resiste há mais de 40 anos.
E essa história é muito diferenciada pela coragem de ser uma ferrenha defensora da agroecologia; de apostar todas as suas cartas no feminismo; por querer incansavelmente entender e explorar o potencial do semiárido, pesquisando alternativas para conviver com as irregularidades do nosso clima sejam as secas sejam as cheias que sempre penalizam nosso sertão; por enxergar as crianças já como seres capazes não só de mudar, mas de melhorar o futuro, respeitando o (ante)passado...
Quem conhece o Esplar conhece o exemplo de que "sonho que se sonha junto é realidade". E eu faço parte deste sonho.
O Esplar lançou seu livro!
Mas, tem histórias e profissionais bons o suficiente pra lançar uma biblioteca.
Experiências lindas, pessoas raras, conquistas, resgates, mudanças são marcantes na trajetória dessa instituição cearense que ousa viver e resiste há mais de 40 anos.
E essa história é muito diferenciada pela coragem de ser uma ferrenha defensora da agroecologia; de apostar todas as suas cartas no feminismo; por querer incansavelmente entender e explorar o potencial do semiárido, pesquisando alternativas para conviver com as irregularidades do nosso clima sejam as secas sejam as cheias que sempre penalizam nosso sertão; por enxergar as crianças já como seres capazes não só de mudar, mas de melhorar o futuro, respeitando o (ante)passado...
Quem conhece o Esplar conhece o exemplo de que "sonho que se sonha junto é realidade". E eu faço parte deste sonho.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
A #partidA
por Isabela Fraga
A formação da #partidA, um partido feminista que pretende se embrenhar nas fissuras da política e torná-la democrática de fato. Conversamos com a filósofa Marcia Tiburi, uma das pensadoras do movimento, para entender: faz sentido misturar o feminismo nas práticas de governo tradicionais? Por quê?
@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@
Isabela Fraga - Qual o lugar da #partidA como um partido em meio à crise da representação partidária?
Márcia Tiburi - Eu entendo que existem muitos afetos em jogo na política hoje em dia. E a política sempre foi construída na base de afetos, embora ela apareça para as pessoas como se uma construção puramente lógica, racional e estratégica. É claro que o caráter lógico e estratégico permeia os processos, mas a #partidA surge propondo outro afeto político, na contramão do afeto que sustenta, por exemplo, a estrutura autoritária na qual a gente vive e que faz parte da própria história do Brasil, que tem uma história bastante autoritária, escravocrata e cheia de ditaduras. O afeto que permeia o autoritarismo brasileiro é o ódio, que em certas épocas cresce e aparece com muita força. É o rechaço do outro, a negação do outro, a incapacidade de incluir o outro. Esse ódio sempre esteve latente, e eu acredito até que ele seja de fato estrutural da ordem política conhecida no Brasil e no mundo. Por isso, quando a #partidA surge, é movida por esse afeto "revolucionário" — entre aspas, porque não pretendemos destruir nem colocar uma outra estrutura em cena — digamos assim, trocar um poder por outro. O que eu vejo é que a gente transforma a ideia de partido numa outra coisa, a gente ressignifica a ideia de partido. E colocamos no lugar do termo poder — na história do patriarcado, da dominação masculina — a potência. Certo, vivemos numa crise de representação, mas, para as mulheres, essa crise sempre existiu. As mulheres nunca foram representadas na política. E, junto com as mulheres, todos os grupos oprimidos, toda uma população que deveria ser cidadã e que foi alienada dos seus direitos de cidadania. Chamar de feminismo já quer dizer que não somos tradicionais.
IF - Justificativas de teor moral são muito mencionadas por quem prefere se manter fora da política tradicional, que seria "suja" e corrupta — como você mesma diz algumas vezes. Quais os problemas dessa visão? A #partidA (ou, melhor, as mulheres até agora envolvidas) não vê problemas em sujar as mãos ou não há sujeira de fato?
MT - Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica cujo discurso há muito tempo é: o poder corrompe, o poder é ruim, a política é um campo minado e um lugar terrível para se estar. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem? Serve a quem está no poder. E, no caso, o nome concreto do poder que está em jogo hoje e no qual a #partidA quer intervir é o poder enquanto governo. Por isso nós precisamos da forma "partido". Só que, por ser um partido feminista, ele já não é um partido como os outros — porque um partido feminista não é como os outros. Os valores, as práticas, os direitos desejados pelas mulheres são bastante diferentes dos valores, das práticas e dos modos de existir dos partidos tradicionais. Existem muitas pessoas ligadas à #partidA que convivem com instituições — seja algum partido de fato, universidades, poder judiciário ou a mídia. E essas pessoas não têm medo de viver em instituições. O partido é apenas mais uma instituição que deve nos servir como meio, e não como fim. Nisso, encontramos uma coisa muito bonita da #partidA: a ético-política feminista, um conceito que eu defendo teoricamente. E isso muda tudo, porque assim como as pessoas têm preconceito em relação a partidos, a esse "sujar as mãos", pensam que a forma partido é a forma que fomenta essa corrupção toda. Não precisa ser assim, e é por isso que nós almejamos uma bancada feminista. E almejamos a forma partido, mesmo que nós não venhamos a formalizar formalizar a #partidA — porque é possível que a nossa #partidA se mantenha como movimento, como já é. Pode ser que nós não formalizemos um partido porque talvez nós não precisemos da forma partido burocratizada e inscrita no TRE. Mas o que queremos é funcionar como um partido, pois o nosso movimento quer atingir a governalidade. Assim, propomos radicalmente uma democracia feminista, porque não acreditamos na existência de uma democracia que não contemple uma pauta, um projeto feminista. Gosto de citar a Mary Wollstonecraft, que no século XVIII brigava com Rousseau. Ela falava que o feminismo é uma luta pelos direitos da humanidade. Se a humanidade é de homens e as mulheres participam dela, então está errado. Queremos um feminismo que inclua todas as pessoas e singularidades. É por isso que a gente expande, aumenta, recria o feminismo — uma busca por singularidades, por uma democracia que, como escrevi esses dias, é uma democracia hard, não é a democracia de fachada.
IF - Mas se a #partidA não se transformar num partido formalizado, como intervir no governo?
MT -Uma das ideias que transitam hoje em certos grupos, sobretudo aqui em São Paulo (vamos ver como isso vai se constituir nas outras cidades), é que a gente apoie candidatos de outros partidos. A proposta da #partidA é empoderar mulheres e todos aqueles sujeitos que se reconhecem como mulheres e que desejam fazer política feminista. E também quem que não se diz mulher, mas que é feminista. Acreditamos também no feminismo dos homens — ele é mais complicado e precisa ser mais elaborado, inscrito dentro de um contexto. Hoje, vivemos num contexto de cotas para mulheres. Na nossa #partidA, teremos cotas para homens (risos). Brincando, mas também falando sério: é importante que os sujeitos dos privilégios na nossa cultura atual tenham a experiência das cotas. É provável que a gente não seja um partido formalizado para as próximas eleições. Mas a ideia é que a gente crie uma campanha — na minha cabeça, vamos ter todas as prefeitas do Brasil, as vereadoras etc. A gente quer a eleição, é nesse patamar de luta que a gente vai se inserir.
IF - Para superar a questão da uniformidade necessária ao conceito de partido, Carla Rodrigues, no blog do IMS, propõe que o referencial da partidA seja vazio. Como você entende essa proposta? Como levar isso para a construção do partido neste momento de sua formação?
MT - Eu entendi que o referencial vazio é um espaço de criação da política. Acho que esse referencial vazio tem a ver com a potência de construção de uma nova história, de um novo — seja histórico, filosófico, do pensamento, político. Estamos construindo uma nova política real, concreta, hard. Então, ao mesmo tempo que a #partidA é um nome de acolhida, ela é um "lançar", o #partiu. Partir rumo a uma aventura, no sentido de uma viagem, de explorar novas terras, o espaço desconhecido. Esse campo da política, tratado hoje em dia como uma selva cheia de monstros, é o espaço que a gente precisa atingir de maneira lendária. Entendo a #partidA como naqueles filmes de aventura, nos quais as pessoas vão para um lugar desconhecido. #partidA já virou o referencial, porque grafamos a hashtag que faz referência ao #partiu, e o A representa uma inversão, uma brincadeira. A gente leva tudo muito a sério, mas é num clima de criação.
IF - Na Suécia, a Feminist Intitiative foi o primeiro partido feminista europeu a conseguir um assento no parlamento. Em maio deste ano, a Inglaterra oficializou seu primeiro partido feminista. Também há partidos feministas na Índia e nas Filipinas. Como a partidA se insere nesse cenário global? Quais as influências e inspirações?
MT - Não teve essa influência direta. Eu sou muito brasileira e muito ligada no que acontece no Brasil. É claro que está todo mundo sentindo uma emoção radical desde 2013, desde os acontecimentos no Egito e na Grécia, tudo isso pegou muito a gente. Mas não há uma influência mais direta e estratégica. A #partidA é bem brasileiro, algo que vai ser construído do nosso jeito.
IF - Num congresso brasileiro de conservadorismo inédito como o de hoje (assim como a população que o elegeu, em sua maior parte contrária à regulação do aborto), no qual pautas retrógradas têm ganhado cada vez mais espaço, como um partido feminista pode ganhar força?
MT - Isso vai acontecer primeiramente em um nível de movimento — as coisas não são de um dia para o outro. E o Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada "BBB" [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-político feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.
IF - Muitos mencionam as disputas internas do feminismo como um problema na formação de uma organização "única". A jornalista Yvonne Roberts disse no The Observer que "Uma aliança política de mulheres seria instável e eventualmente implodiria". Alguns partidos feministas pelo mundo de fato tiveram vidas curtas (como a Austrália, Belarússia e Islândia). Como fazer durar a #partidA no jogo da política tradicional?
MT - Isso precisa ser entendido dentro da história, da circunstância política de cada país. No caso do Brasil, também vamos precisar pensar. Qual a característica do poder patriarcal, do poder enquanto dominação masculina? A permanência no poder. O poder quer mais poder. O nosso poder é potência, é poder para fazer, para transformar — que vai servir à transformação da sociedade. Nesse sentido, se o partido realizar seu projeto e depois deixar de existir, eu não vejo mal algum. Ao mesmo tempo, enquanto as condições históricas que o obrigaram a existir não se transformarem, nós vamos querer continuar existindo. Nosso sonho é uma sociedade em que não exista mais autoritarismo, onde os direitos de todas as pessoas estejam realizados e que a gente não precise mais viver em luta. É claro que isso é uma utopia. Assim, em termos muito práticos, vamos precisar reproduzir nossa metodologia de atuação celular nesta construção da #partidA. Não podemos atuar como partidos atuam, de cima para baixo. Precisamos construir de maneira participativa e criativa as nossas demandas e decisões. Conversar com as pessoas, reconhecer as demandas singulares e coletivas num clima de sinceridade e respeito. Acreditamos de verdade que vamos crescer e avançar com uma operação política diferente, porque é dialógica. Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único — ele sempre foi diverso e complexo. Então não existe um feminismo que tenha mais razão do que o outro. Para mim, o feminismo é essa construção dessa diferença. O pensamento único tende ao autoritarismo, e o feminismo nunca poderia ser um autoritarismo.
IF - E vocês pensam em se identificar com uma esquerda ou com uma direita ou isso não é importante?
MT - Isso é muito importante, tanto quanto é desimportante. Os feminismos e a democracia feminista é uma superação da dicotomia direita-esquerda. Nós somos a superação disso. Como? A direita não reconhece a existência do feminismo. A esquerda também é conservadora perto do feminismo. Por isso eu costumo dizer que o feminismo é ainda mais à esquerda, mas na verdade ele é uma superação dessa dicotomia. Os partidos ainda acreditam que as mulheres possam estar ali na forma de cotas, que elas possam fazer o feminismo da mesma forma subalterna, secundária e inessencial em relação ao que significa a proposta socialista, por exemplo, no caso da esquerda. Então a gente não tem nenhum partido de esquerda que seja feminista. Pois nós teremos uma #partidA feminista de maneira essencial, prioritária e fundamental. E as questões concernentes aos direitos humanos, à solidariedade, à defesa das pautas do campo da esquerda, tudo isso entra no nosso feminismo. Mas numa inversão do jogo, o que é fundamental. Eu sou filiada ao PSOL, adoro as pessoas e as propostas, mas não é suficiente para aquilo que eu penso em termos de política. Em se propor feminista, a #partidA propõe um lugar de protagonismo das mulheres, próprio do feminismo em sua história.
IF - Como têm sido os encontros da #partidA até agora?
MT - Na verdade, ainda estamos no começo das nossas reuniões. Só tivemos três até agora, e o número de pessoas que aparecem nos encontros têm aumentado. As pessoas têm chegado na partidA com muita curiosidade, alegria e muito comprometimento. O desejo de fazer é muito emocionante. Uma coisa muito bonita que tem acontecido é o diálogo entre as gerações: feministas históricas e meninas mais novas que estão começando, é lindo.
http://vozerio.org.br/A-partidA-uma-aventura-feminista
A formação da #partidA, um partido feminista que pretende se embrenhar nas fissuras da política e torná-la democrática de fato. Conversamos com a filósofa Marcia Tiburi, uma das pensadoras do movimento, para entender: faz sentido misturar o feminismo nas práticas de governo tradicionais? Por quê?
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Isabela Fraga - Qual o lugar da #partidA como um partido em meio à crise da representação partidária?
Márcia Tiburi - Eu entendo que existem muitos afetos em jogo na política hoje em dia. E a política sempre foi construída na base de afetos, embora ela apareça para as pessoas como se uma construção puramente lógica, racional e estratégica. É claro que o caráter lógico e estratégico permeia os processos, mas a #partidA surge propondo outro afeto político, na contramão do afeto que sustenta, por exemplo, a estrutura autoritária na qual a gente vive e que faz parte da própria história do Brasil, que tem uma história bastante autoritária, escravocrata e cheia de ditaduras. O afeto que permeia o autoritarismo brasileiro é o ódio, que em certas épocas cresce e aparece com muita força. É o rechaço do outro, a negação do outro, a incapacidade de incluir o outro. Esse ódio sempre esteve latente, e eu acredito até que ele seja de fato estrutural da ordem política conhecida no Brasil e no mundo. Por isso, quando a #partidA surge, é movida por esse afeto "revolucionário" — entre aspas, porque não pretendemos destruir nem colocar uma outra estrutura em cena — digamos assim, trocar um poder por outro. O que eu vejo é que a gente transforma a ideia de partido numa outra coisa, a gente ressignifica a ideia de partido. E colocamos no lugar do termo poder — na história do patriarcado, da dominação masculina — a potência. Certo, vivemos numa crise de representação, mas, para as mulheres, essa crise sempre existiu. As mulheres nunca foram representadas na política. E, junto com as mulheres, todos os grupos oprimidos, toda uma população que deveria ser cidadã e que foi alienada dos seus direitos de cidadania. Chamar de feminismo já quer dizer que não somos tradicionais.
IF - Justificativas de teor moral são muito mencionadas por quem prefere se manter fora da política tradicional, que seria "suja" e corrupta — como você mesma diz algumas vezes. Quais os problemas dessa visão? A #partidA (ou, melhor, as mulheres até agora envolvidas) não vê problemas em sujar as mãos ou não há sujeira de fato?
MT - Criou-se no Brasil uma cultura antipolítica cujo discurso há muito tempo é: o poder corrompe, o poder é ruim, a política é um campo minado e um lugar terrível para se estar. Associamos a política à corrupção, à sujeira, ao mal. Essa ideia de política serve a quem? Serve a quem está no poder. E, no caso, o nome concreto do poder que está em jogo hoje e no qual a #partidA quer intervir é o poder enquanto governo. Por isso nós precisamos da forma "partido". Só que, por ser um partido feminista, ele já não é um partido como os outros — porque um partido feminista não é como os outros. Os valores, as práticas, os direitos desejados pelas mulheres são bastante diferentes dos valores, das práticas e dos modos de existir dos partidos tradicionais. Existem muitas pessoas ligadas à #partidA que convivem com instituições — seja algum partido de fato, universidades, poder judiciário ou a mídia. E essas pessoas não têm medo de viver em instituições. O partido é apenas mais uma instituição que deve nos servir como meio, e não como fim. Nisso, encontramos uma coisa muito bonita da #partidA: a ético-política feminista, um conceito que eu defendo teoricamente. E isso muda tudo, porque assim como as pessoas têm preconceito em relação a partidos, a esse "sujar as mãos", pensam que a forma partido é a forma que fomenta essa corrupção toda. Não precisa ser assim, e é por isso que nós almejamos uma bancada feminista. E almejamos a forma partido, mesmo que nós não venhamos a formalizar formalizar a #partidA — porque é possível que a nossa #partidA se mantenha como movimento, como já é. Pode ser que nós não formalizemos um partido porque talvez nós não precisemos da forma partido burocratizada e inscrita no TRE. Mas o que queremos é funcionar como um partido, pois o nosso movimento quer atingir a governalidade. Assim, propomos radicalmente uma democracia feminista, porque não acreditamos na existência de uma democracia que não contemple uma pauta, um projeto feminista. Gosto de citar a Mary Wollstonecraft, que no século XVIII brigava com Rousseau. Ela falava que o feminismo é uma luta pelos direitos da humanidade. Se a humanidade é de homens e as mulheres participam dela, então está errado. Queremos um feminismo que inclua todas as pessoas e singularidades. É por isso que a gente expande, aumenta, recria o feminismo — uma busca por singularidades, por uma democracia que, como escrevi esses dias, é uma democracia hard, não é a democracia de fachada.
IF - Mas se a #partidA não se transformar num partido formalizado, como intervir no governo?
MT -Uma das ideias que transitam hoje em certos grupos, sobretudo aqui em São Paulo (vamos ver como isso vai se constituir nas outras cidades), é que a gente apoie candidatos de outros partidos. A proposta da #partidA é empoderar mulheres e todos aqueles sujeitos que se reconhecem como mulheres e que desejam fazer política feminista. E também quem que não se diz mulher, mas que é feminista. Acreditamos também no feminismo dos homens — ele é mais complicado e precisa ser mais elaborado, inscrito dentro de um contexto. Hoje, vivemos num contexto de cotas para mulheres. Na nossa #partidA, teremos cotas para homens (risos). Brincando, mas também falando sério: é importante que os sujeitos dos privilégios na nossa cultura atual tenham a experiência das cotas. É provável que a gente não seja um partido formalizado para as próximas eleições. Mas a ideia é que a gente crie uma campanha — na minha cabeça, vamos ter todas as prefeitas do Brasil, as vereadoras etc. A gente quer a eleição, é nesse patamar de luta que a gente vai se inserir.
IF - Para superar a questão da uniformidade necessária ao conceito de partido, Carla Rodrigues, no blog do IMS, propõe que o referencial da partidA seja vazio. Como você entende essa proposta? Como levar isso para a construção do partido neste momento de sua formação?
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| Márcia Tiburi - foto de Pedro Silveira |
IF - Na Suécia, a Feminist Intitiative foi o primeiro partido feminista europeu a conseguir um assento no parlamento. Em maio deste ano, a Inglaterra oficializou seu primeiro partido feminista. Também há partidos feministas na Índia e nas Filipinas. Como a partidA se insere nesse cenário global? Quais as influências e inspirações?
MT - Não teve essa influência direta. Eu sou muito brasileira e muito ligada no que acontece no Brasil. É claro que está todo mundo sentindo uma emoção radical desde 2013, desde os acontecimentos no Egito e na Grécia, tudo isso pegou muito a gente. Mas não há uma influência mais direta e estratégica. A #partidA é bem brasileiro, algo que vai ser construído do nosso jeito.
IF - Num congresso brasileiro de conservadorismo inédito como o de hoje (assim como a população que o elegeu, em sua maior parte contrária à regulação do aborto), no qual pautas retrógradas têm ganhado cada vez mais espaço, como um partido feminista pode ganhar força?
MT - Isso vai acontecer primeiramente em um nível de movimento — as coisas não são de um dia para o outro. E o Brasil precisa de uma bancada feminista forte, é por isso que vamos lutar. A bancada que temos hoje não é possível, não é justa, não é decente. Não é possível aceitar a política como ela está colocada ali. Essa bancada "BBB" [bancada do Boi, da Bíblia e da Bala] não faz sentido no nosso país. Esperamos que a nossa ético-político feminista seja tão forte e acolha de tal maneira os anseios e as potências brasileiras que a gente possa mudar justamente esse cenário. Os atores desse cenário precisam ser outros.
IF - Muitos mencionam as disputas internas do feminismo como um problema na formação de uma organização "única". A jornalista Yvonne Roberts disse no The Observer que "Uma aliança política de mulheres seria instável e eventualmente implodiria". Alguns partidos feministas pelo mundo de fato tiveram vidas curtas (como a Austrália, Belarússia e Islândia). Como fazer durar a #partidA no jogo da política tradicional?
MT - Isso precisa ser entendido dentro da história, da circunstância política de cada país. No caso do Brasil, também vamos precisar pensar. Qual a característica do poder patriarcal, do poder enquanto dominação masculina? A permanência no poder. O poder quer mais poder. O nosso poder é potência, é poder para fazer, para transformar — que vai servir à transformação da sociedade. Nesse sentido, se o partido realizar seu projeto e depois deixar de existir, eu não vejo mal algum. Ao mesmo tempo, enquanto as condições históricas que o obrigaram a existir não se transformarem, nós vamos querer continuar existindo. Nosso sonho é uma sociedade em que não exista mais autoritarismo, onde os direitos de todas as pessoas estejam realizados e que a gente não precise mais viver em luta. É claro que isso é uma utopia. Assim, em termos muito práticos, vamos precisar reproduzir nossa metodologia de atuação celular nesta construção da #partidA. Não podemos atuar como partidos atuam, de cima para baixo. Precisamos construir de maneira participativa e criativa as nossas demandas e decisões. Conversar com as pessoas, reconhecer as demandas singulares e coletivas num clima de sinceridade e respeito. Acreditamos de verdade que vamos crescer e avançar com uma operação política diferente, porque é dialógica. Existe uma afetividade que move todos os feminismos, mas não existe um feminismo como pensamento único — ele sempre foi diverso e complexo. Então não existe um feminismo que tenha mais razão do que o outro. Para mim, o feminismo é essa construção dessa diferença. O pensamento único tende ao autoritarismo, e o feminismo nunca poderia ser um autoritarismo.
IF - E vocês pensam em se identificar com uma esquerda ou com uma direita ou isso não é importante?
MT - Isso é muito importante, tanto quanto é desimportante. Os feminismos e a democracia feminista é uma superação da dicotomia direita-esquerda. Nós somos a superação disso. Como? A direita não reconhece a existência do feminismo. A esquerda também é conservadora perto do feminismo. Por isso eu costumo dizer que o feminismo é ainda mais à esquerda, mas na verdade ele é uma superação dessa dicotomia. Os partidos ainda acreditam que as mulheres possam estar ali na forma de cotas, que elas possam fazer o feminismo da mesma forma subalterna, secundária e inessencial em relação ao que significa a proposta socialista, por exemplo, no caso da esquerda. Então a gente não tem nenhum partido de esquerda que seja feminista. Pois nós teremos uma #partidA feminista de maneira essencial, prioritária e fundamental. E as questões concernentes aos direitos humanos, à solidariedade, à defesa das pautas do campo da esquerda, tudo isso entra no nosso feminismo. Mas numa inversão do jogo, o que é fundamental. Eu sou filiada ao PSOL, adoro as pessoas e as propostas, mas não é suficiente para aquilo que eu penso em termos de política. Em se propor feminista, a #partidA propõe um lugar de protagonismo das mulheres, próprio do feminismo em sua história.
IF - Como têm sido os encontros da #partidA até agora?
MT - Na verdade, ainda estamos no começo das nossas reuniões. Só tivemos três até agora, e o número de pessoas que aparecem nos encontros têm aumentado. As pessoas têm chegado na partidA com muita curiosidade, alegria e muito comprometimento. O desejo de fazer é muito emocionante. Uma coisa muito bonita que tem acontecido é o diálogo entre as gerações: feministas históricas e meninas mais novas que estão começando, é lindo.
http://vozerio.org.br/A-partidA-uma-aventura-feminista
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Documentário revela que grupo feminista Femen era controlado por um homem
Por Lorena Robinson
No dia 4 de setembro, o Festival de Veneza foi berço de uma (nova) polêmica: a cineasta australiana Kitty Green, de 28 anos, passou 17 semanas viajando com o grupo “neofeminista” e extremista Femen, filmando mais de 100 protestos pela Europa e documentando, além deles, interações íntimas e pessoais com duas das mais conhecidas integrantes ucranianas, Sasha e Inna Shevchenko. A polêmica, no entanto, não se dá pela forma de protesto direcionada pelo grupo como “sextremismo” – estratégia já conhecida e revirada (quiçá aclamada) pela mídia, que sempre pareceu nutrir, por esse movimento em especial, um interesse destoante; e sim por conta de uma revelação que causou alarde nas esferas feministas: Kitty, no primeiro longa a mostrar os bastidores do grupo ucraniano, revelou que Viktor Svyatsky, outrora tido como consultor do Femen, seria na verdade um dos criadores e antigos líderes de todo o movimento.
O longa, com viés documentarista, reforça a impressão que a maioria das feministas tem sobre o Femen: um movimento profunda e essencialmente controverso, seja em suas bases ideológicas ou causas por ele abarcadas. Em “Ukraine Is Not a Brothel” (A Ucrânia Não É um Bordel), Svyatsky afirma que a razão de ter sido responsável pela organização do grupo foi que (sic) “Essas garotas são fracas.” Uma das integrantes citadas, Inna Shevchenko, admitiu o paradoxo criado quando existe um homem liderando um movimento feminino e alegou que (sic) “As mulheres começaram a se reunir e havia vários homens no nosso círculo. O problema é que ele sentiu que precisava de mais espaço, porque é um homem. E homens precisam ter o poder.”
Viktor Svyatsky, retrato por Kitty como um homem manipulador e agressivo, se recusou, inicialmente, a aparecer no filme. Sasha, outra integrante, afirma: “Foi bom tê-lo em nossas vidas para sabermos como os homens podem ser grandes canalhas. Mantemos Viktor em nossas memórias para ficarmos mais fortes”.
Por conta do escândalo oriundo das alegações polêmicas do documentário, Inna publicou uma resposta aos jornalistas, críticos e simpatizantes do movimento no The Guardian. Sem negar o papel crucial de Viktor na formação do grupo, Inna tenta esclarecer:
“O Femen foi fundado por um grupo de jovens estudantes femininas em uma cultura na qual homens falam e mulheres somente escutam. Na qual os homens decidem e as mulheres aceitam suas decisões. Na qual homens dominam e as mulheres aceitam a dominação. E isso explica porque Svyatski tornou-se o líder do Femen. Por que e como ele poderia fazer isso? Porque ele era um homem. A história retrata no filme – pelo próprio Svyatski – evidencia nada menos que o patriarcado. Ele é o sexismo, a dominação masculina e a opressão contra as mulheres, personificado.”
O Femen surgiu na Ucrânia por volta do ano de 2008, visando combater o turismo sexual crescente na Europa, abrangendo causas como exploração, tráfico sexual e prostituição – que apresentavam índices cada vez mais alarmantes na Ucrânia. O Femen surgiu com a proposta do “neofeminismo”, uma reformulação mais extremista do feminismo clássico, visando repercussão e visibilidade. Como estratégia, o Femen propôs uma inovadora mudança que tornar-se-ia a marca definitiva do grupo: o topless. Apropriando-se da nudez, as integrantes alegavam almejar a desestruturação do corpo feminino como objeto sexual (usado constantemente pela sociedade patriarcal) para a construção da figura do corpo, dos seios, como forma de luta. Usando os conceitos patriarcais a seu favor, as integrantes pretendiam garantir a atenção midiática e trazer interesse imediato para suas causas, através de uma visibilidade que os movimentos do “feminismo clássico” não obtinham.
Entre as feministas, o Femen gerou indecisões e polêmicas. Não pelo uso da nudez, como alguns esperariam (a nudez é utilizada por diversas feministas, vide Marcha das Vadias), mas pelas ideologias conflituosas e pela suposta auto-promoção das ativistas em detrimento de movimentos feministas mais estruturados e embasados. As integrantes do Femen, por sua vez, costumam adentrar uma polêmica atrás da outra: desde supostos patrocínios diretos às integrantes, a manifestações consideradas anti-islâmicas (no “Topless Jihad”, as meninas protestaram em frente a mesquitas e a uma embaixada tunisiana, com dizeres como “Fuck Islamism”, incentivando as mulheres islâmicas a abandonarem seus costumes – atitude tida por alguns como perceptivelmente imperialista).
Uma das principais críticas refere-se a presença de conceitos machistas e patriarcais dentro de suas ideologias: por muitos é propagado que as integrantes do Femen só admitem moças bonitas, para angariar mais visibilidade e despertar mais interesse para a causa. Segundo ex-integrantes, existe até mesmo um limite de peso, e o Femen opta sempre por ativistas ‘lindas’ na linha de frente por questões de marketing. Nota-se que as moças da linha de frente sempre obedecem a um padrão de beleza europeu.

A vinda do Femen para o Brasil, por sua vez, foi especialmente polêmica. A ‘líder’ do movimento, Sara Winter, foi alvo de diversas críticas feministas. Após aparecer em programas de TV e dar entrevistas, centrando toda a imagem do Femen em sua figura unitária e pessoal, Sara foi acusada de ter aderido ao nazismo, anos atrás, após encontrarem na rede fotos e comentários antigos da moça.
Depois de muitos conflitos, a sede Ucraniana retirou o direito da líder brasileira de usar o nome Femen, a palavra sextremismo e os símbolos do movimento (como o logotipo e a coroa de flores). Não satisfeita, Sara fez alegações alarmantes sobre o Femen Internacional:
“O Femen Ucrânia funciona como uma empresa ou uma agência de marketing. Não é um movimento social. Elas já podem ter tido boas e reais intenções, mas hoje em dia é tudo completamente corrupto”.
Em relação aos padrões de beleza propagados pelo Femen, foi divulgada uma conversa pela Internet entre Sara e Inna Shevchenko, na qual Inna revela a preocupação com a forma das ativistas: “(O protesto) da embaixada russa não ficou sexy porque as calcinhas eram pequenas e as meninas aparentavam estar mais gordas do que são na vida real. Preste atenção nisso”, escreveu a ucraniana.
Sara responde à mídia afirmando que a atitude do movimento ucraniano é “extremamente machista e reforça a sociedade patriarcal”, e complementa denunciando que questiona a origem do dinheiro do Femen Internacional, pois viu muitas meninas “ostentando bens” e acredita-se que algumas ganhem cerca de 20 mil dólares por mês – dinheiro que não seria possível arrecadar somente com a venda de produtos Femen, como camisetas e ‘boobsprints’.
Com “Ukraine Is Not a Brothel”, o Femen ucraniano abre portas para uma nova contestação a respeito de sua contradição ideológica. Um movimento feminista fundado e liderado por um homem aponta para uma origem já perniciosa; o Femen, desde sua origem, não como movimento social – mas sim como puro marketing. Um movimento feminista que pregou, desde seu inicio, a representatividade feminina, mas começou deixando que “os homens falassem enquanto as mulheres permaneciam silenciadas”, segundo a própria Inna, não aponta para uma desenvoltura ideal de luta política contra o patriarcado. Deu voz ao opressor – que sempre pretendeu afirmar-se e sobrepor-se as moças e suas causas, como foi descrito Viktor -, permitindo que a liderança deixasse de ser de quem realmente sabia como deveria lutar e porque deveria lutar, visto que a voz da mulher contra a opressão é a voz que deve ser ouvida: é ela quem está sofrendo, é ela – e somente ela – quem sente na pele os reflexos da sociedade patriarcal que as meninas do Femen planejavam desestruturar. Se o Femen for realmente o que se suspeita, só podemos lamentar pelo retrocesso e desfavor à toda causa feminista.
http://literatortura.com/2013/09/documentario-revela-grupo-feminista-femen-era-controlado-homem/#.Ui4Jj9LUkb1
No dia 4 de setembro, o Festival de Veneza foi berço de uma (nova) polêmica: a cineasta australiana Kitty Green, de 28 anos, passou 17 semanas viajando com o grupo “neofeminista” e extremista Femen, filmando mais de 100 protestos pela Europa e documentando, além deles, interações íntimas e pessoais com duas das mais conhecidas integrantes ucranianas, Sasha e Inna Shevchenko. A polêmica, no entanto, não se dá pela forma de protesto direcionada pelo grupo como “sextremismo” – estratégia já conhecida e revirada (quiçá aclamada) pela mídia, que sempre pareceu nutrir, por esse movimento em especial, um interesse destoante; e sim por conta de uma revelação que causou alarde nas esferas feministas: Kitty, no primeiro longa a mostrar os bastidores do grupo ucraniano, revelou que Viktor Svyatsky, outrora tido como consultor do Femen, seria na verdade um dos criadores e antigos líderes de todo o movimento.
O longa, com viés documentarista, reforça a impressão que a maioria das feministas tem sobre o Femen: um movimento profunda e essencialmente controverso, seja em suas bases ideológicas ou causas por ele abarcadas. Em “Ukraine Is Not a Brothel” (A Ucrânia Não É um Bordel), Svyatsky afirma que a razão de ter sido responsável pela organização do grupo foi que (sic) “Essas garotas são fracas.” Uma das integrantes citadas, Inna Shevchenko, admitiu o paradoxo criado quando existe um homem liderando um movimento feminino e alegou que (sic) “As mulheres começaram a se reunir e havia vários homens no nosso círculo. O problema é que ele sentiu que precisava de mais espaço, porque é um homem. E homens precisam ter o poder.”
Viktor Svyatsky, retrato por Kitty como um homem manipulador e agressivo, se recusou, inicialmente, a aparecer no filme. Sasha, outra integrante, afirma: “Foi bom tê-lo em nossas vidas para sabermos como os homens podem ser grandes canalhas. Mantemos Viktor em nossas memórias para ficarmos mais fortes”.
Por conta do escândalo oriundo das alegações polêmicas do documentário, Inna publicou uma resposta aos jornalistas, críticos e simpatizantes do movimento no The Guardian. Sem negar o papel crucial de Viktor na formação do grupo, Inna tenta esclarecer:
“O Femen foi fundado por um grupo de jovens estudantes femininas em uma cultura na qual homens falam e mulheres somente escutam. Na qual os homens decidem e as mulheres aceitam suas decisões. Na qual homens dominam e as mulheres aceitam a dominação. E isso explica porque Svyatski tornou-se o líder do Femen. Por que e como ele poderia fazer isso? Porque ele era um homem. A história retrata no filme – pelo próprio Svyatski – evidencia nada menos que o patriarcado. Ele é o sexismo, a dominação masculina e a opressão contra as mulheres, personificado.”
O Femen surgiu na Ucrânia por volta do ano de 2008, visando combater o turismo sexual crescente na Europa, abrangendo causas como exploração, tráfico sexual e prostituição – que apresentavam índices cada vez mais alarmantes na Ucrânia. O Femen surgiu com a proposta do “neofeminismo”, uma reformulação mais extremista do feminismo clássico, visando repercussão e visibilidade. Como estratégia, o Femen propôs uma inovadora mudança que tornar-se-ia a marca definitiva do grupo: o topless. Apropriando-se da nudez, as integrantes alegavam almejar a desestruturação do corpo feminino como objeto sexual (usado constantemente pela sociedade patriarcal) para a construção da figura do corpo, dos seios, como forma de luta. Usando os conceitos patriarcais a seu favor, as integrantes pretendiam garantir a atenção midiática e trazer interesse imediato para suas causas, através de uma visibilidade que os movimentos do “feminismo clássico” não obtinham.
Entre as feministas, o Femen gerou indecisões e polêmicas. Não pelo uso da nudez, como alguns esperariam (a nudez é utilizada por diversas feministas, vide Marcha das Vadias), mas pelas ideologias conflituosas e pela suposta auto-promoção das ativistas em detrimento de movimentos feministas mais estruturados e embasados. As integrantes do Femen, por sua vez, costumam adentrar uma polêmica atrás da outra: desde supostos patrocínios diretos às integrantes, a manifestações consideradas anti-islâmicas (no “Topless Jihad”, as meninas protestaram em frente a mesquitas e a uma embaixada tunisiana, com dizeres como “Fuck Islamism”, incentivando as mulheres islâmicas a abandonarem seus costumes – atitude tida por alguns como perceptivelmente imperialista).
Uma das principais críticas refere-se a presença de conceitos machistas e patriarcais dentro de suas ideologias: por muitos é propagado que as integrantes do Femen só admitem moças bonitas, para angariar mais visibilidade e despertar mais interesse para a causa. Segundo ex-integrantes, existe até mesmo um limite de peso, e o Femen opta sempre por ativistas ‘lindas’ na linha de frente por questões de marketing. Nota-se que as moças da linha de frente sempre obedecem a um padrão de beleza europeu.

A vinda do Femen para o Brasil, por sua vez, foi especialmente polêmica. A ‘líder’ do movimento, Sara Winter, foi alvo de diversas críticas feministas. Após aparecer em programas de TV e dar entrevistas, centrando toda a imagem do Femen em sua figura unitária e pessoal, Sara foi acusada de ter aderido ao nazismo, anos atrás, após encontrarem na rede fotos e comentários antigos da moça.
Depois de muitos conflitos, a sede Ucraniana retirou o direito da líder brasileira de usar o nome Femen, a palavra sextremismo e os símbolos do movimento (como o logotipo e a coroa de flores). Não satisfeita, Sara fez alegações alarmantes sobre o Femen Internacional:
“O Femen Ucrânia funciona como uma empresa ou uma agência de marketing. Não é um movimento social. Elas já podem ter tido boas e reais intenções, mas hoje em dia é tudo completamente corrupto”.
Em relação aos padrões de beleza propagados pelo Femen, foi divulgada uma conversa pela Internet entre Sara e Inna Shevchenko, na qual Inna revela a preocupação com a forma das ativistas: “(O protesto) da embaixada russa não ficou sexy porque as calcinhas eram pequenas e as meninas aparentavam estar mais gordas do que são na vida real. Preste atenção nisso”, escreveu a ucraniana.
Sara responde à mídia afirmando que a atitude do movimento ucraniano é “extremamente machista e reforça a sociedade patriarcal”, e complementa denunciando que questiona a origem do dinheiro do Femen Internacional, pois viu muitas meninas “ostentando bens” e acredita-se que algumas ganhem cerca de 20 mil dólares por mês – dinheiro que não seria possível arrecadar somente com a venda de produtos Femen, como camisetas e ‘boobsprints’.
Com “Ukraine Is Not a Brothel”, o Femen ucraniano abre portas para uma nova contestação a respeito de sua contradição ideológica. Um movimento feminista fundado e liderado por um homem aponta para uma origem já perniciosa; o Femen, desde sua origem, não como movimento social – mas sim como puro marketing. Um movimento feminista que pregou, desde seu inicio, a representatividade feminina, mas começou deixando que “os homens falassem enquanto as mulheres permaneciam silenciadas”, segundo a própria Inna, não aponta para uma desenvoltura ideal de luta política contra o patriarcado. Deu voz ao opressor – que sempre pretendeu afirmar-se e sobrepor-se as moças e suas causas, como foi descrito Viktor -, permitindo que a liderança deixasse de ser de quem realmente sabia como deveria lutar e porque deveria lutar, visto que a voz da mulher contra a opressão é a voz que deve ser ouvida: é ela quem está sofrendo, é ela – e somente ela – quem sente na pele os reflexos da sociedade patriarcal que as meninas do Femen planejavam desestruturar. Se o Femen for realmente o que se suspeita, só podemos lamentar pelo retrocesso e desfavor à toda causa feminista.
http://literatortura.com/2013/09/documentario-revela-grupo-feminista-femen-era-controlado-homem/#.Ui4Jj9LUkb1
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Encontro em São Paulo reúne feministas de cinco continentes
Por Maíra Kubík Mano
No ano passado, a Turquia, até então reconhecida mundialmente pela preservação do secularismo, introduziu o ensino religioso nas escolas públicas. Aos poucos, tem também diminuído a oferta de vagas em colégios considerados laicos.
“Isso traz a segregação entre os sexos e acaba limitando as garotas ao lerem o Corão”, lamenta a líder feminista Yildiz Temurtukan. De acordo com dados divulgados por uma organização de professores, apenas 360 mil estudantes conseguiram se matricular para cursar o Ensino Médio tradicional no próximo período letivo. O restante, cerca de 700 mil, terá de frequentar instituições que privilegiam o estudo do Corão.
Para Yildiz, não é à toa que na última década o índice de feminicídio no país aumentou 14 vezes. “Tudo isso é provocado pelos representantes do governo. Eles declaram abertamente que mulheres e homens não são iguais e nem poderão ser”, relata.
“Mas as mulheres estão na linha de frente das lutas, nas ruas, nos parques, nos fóruns. Estão comprometidas a não se subordinarem ao fascismo islâmico”, anima-se. E é essa experiência de resistência e o cotidiano da Turquia que Yildiz espera compartilhar ao desembarcar no Brasil para o 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial de Mulheres (MMM).
Junto com ela, outras 1.600 participantes se reunirão a partir de hoje no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). “É uma porta aberta por onde passam todas as análises internacionais, lutas e alternativas. É um espaço que nos faz sentir mais forte contra os nossos inimigos”, define Yildiz.
Em 31 de agosto, elas farão um ato pelas ruas da capital paulista para “reafirmar o feminismo como projeto para mudar o mundo”.
Perspectivas
A MMM começou sua atuação em 2000, quando mulheres de 159 países se uniram em uma grande campanha contra a pobreza e a violência. Desde então, a cada cinco anos, a MMM tem organizado mobilizações globais. A próxima, que acontecerá em 2015, será discutida no encontro do Brasil.
“Uma das questões colocadas para nós hoje é o debate das alternativas. Há uma expectativa grande das participantes por acreditarmos que a América Latina tem possibilidades diferentes de ação”, defende Nalu Faria, coordenadora da SOF (Sempreviva Organização Feminista).
“Há um discurso de igualdade, que toca muito no tema da paridade, e dá a ideia de que a questão é a participação das mulheres. Mas não foca na transformação dos espaços de poder e de participação”, afirma. “Uma questão fundamental é o aporte do feminismo, é pilharmos o conceito de política e de economia, questionando o traço patriarcal e androcêntrico de nossa sociedade de considerar como público, político e econômico só aquilo que está dentro das representações do que é o mundo masculino”.
Patriarcado
Sem dúvida, uma das palavras mais ditas e ouvidas no encontro será “patriarcado”. “Temos trabalhado muito em compreender quais são os mecanismos de atuação do modelo patriarcal em relação às opressões. Esse patriarcado existe quando olhamos para o controle sobre o corpo, a sexualidade e o trabalho das mulheres. É um elemento permanente. E qual é realmente a diferença entre a exigência da burca de um lado e a banalização do corpo nu de outro?”, indaga Nalu.
Para Yildiz, “desde o começo da revolução industrial as mulheres têm lutado para serem aceitas como iguais aos homens, para serem aceitas como seres humanos plenos. Apesar de todo o discurso mainstream de gênero, a situação em geral tem piorado. A razão para a resistência aos direitos das mulheres ser tão forte é que o capitalismo é um sistema baseado em desigualdades de gênero. O patriarcado constituiu o terreno invisível para as relações capitalistas visíveis. Na história do capitalismo não há era sem patriarcado e parece que a ideologia do livre-mercado não pode sobreviver sem a exploração e a opressão das mulheres”.
A turca afirma que “não é coincidência que todos os tipos de violência contra mulheres e garotas têm crescido, de estupros coletivos a feminicídios, de violência doméstica a assédio sexual no trabalho. É porque as mulheres estão clamando por sua autonomia, não apenas econômica, mas sobre seus corpos e vidas, de uma maneira organizada ou individualmente. E como nós estamos reclamando nosso lugar no mundo, estamos sujeitas a mais violência, seja do Estado ou dos homens”.
Mas há esperança: para ela, enquanto há 20 anos discutia-se a obrigatoriedade moral da virgindade, hoje é possível falar abertamente sobre assuntos considerados privados, como casamento, aborto e violência doméstica. “E as mulheres têm declarado que não vão aceitar qualquer regra sobre suas vidas e corpos”.
“Queremos dar visibilidade à força das mulheres em construir alternativas nos processos de resistência”, completa Nalu.
http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/08/26/encontro-em-sao-paulo-reune-feministas-de-cinco-continentes/
No ano passado, a Turquia, até então reconhecida mundialmente pela preservação do secularismo, introduziu o ensino religioso nas escolas públicas. Aos poucos, tem também diminuído a oferta de vagas em colégios considerados laicos.
“Isso traz a segregação entre os sexos e acaba limitando as garotas ao lerem o Corão”, lamenta a líder feminista Yildiz Temurtukan. De acordo com dados divulgados por uma organização de professores, apenas 360 mil estudantes conseguiram se matricular para cursar o Ensino Médio tradicional no próximo período letivo. O restante, cerca de 700 mil, terá de frequentar instituições que privilegiam o estudo do Corão.
Para Yildiz, não é à toa que na última década o índice de feminicídio no país aumentou 14 vezes. “Tudo isso é provocado pelos representantes do governo. Eles declaram abertamente que mulheres e homens não são iguais e nem poderão ser”, relata.
| Foto: João Sinclair |
Junto com ela, outras 1.600 participantes se reunirão a partir de hoje no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). “É uma porta aberta por onde passam todas as análises internacionais, lutas e alternativas. É um espaço que nos faz sentir mais forte contra os nossos inimigos”, define Yildiz.
Em 31 de agosto, elas farão um ato pelas ruas da capital paulista para “reafirmar o feminismo como projeto para mudar o mundo”.
Perspectivas
A MMM começou sua atuação em 2000, quando mulheres de 159 países se uniram em uma grande campanha contra a pobreza e a violência. Desde então, a cada cinco anos, a MMM tem organizado mobilizações globais. A próxima, que acontecerá em 2015, será discutida no encontro do Brasil.
“Uma das questões colocadas para nós hoje é o debate das alternativas. Há uma expectativa grande das participantes por acreditarmos que a América Latina tem possibilidades diferentes de ação”, defende Nalu Faria, coordenadora da SOF (Sempreviva Organização Feminista).
“Há um discurso de igualdade, que toca muito no tema da paridade, e dá a ideia de que a questão é a participação das mulheres. Mas não foca na transformação dos espaços de poder e de participação”, afirma. “Uma questão fundamental é o aporte do feminismo, é pilharmos o conceito de política e de economia, questionando o traço patriarcal e androcêntrico de nossa sociedade de considerar como público, político e econômico só aquilo que está dentro das representações do que é o mundo masculino”.
Patriarcado
Sem dúvida, uma das palavras mais ditas e ouvidas no encontro será “patriarcado”. “Temos trabalhado muito em compreender quais são os mecanismos de atuação do modelo patriarcal em relação às opressões. Esse patriarcado existe quando olhamos para o controle sobre o corpo, a sexualidade e o trabalho das mulheres. É um elemento permanente. E qual é realmente a diferença entre a exigência da burca de um lado e a banalização do corpo nu de outro?”, indaga Nalu.
Para Yildiz, “desde o começo da revolução industrial as mulheres têm lutado para serem aceitas como iguais aos homens, para serem aceitas como seres humanos plenos. Apesar de todo o discurso mainstream de gênero, a situação em geral tem piorado. A razão para a resistência aos direitos das mulheres ser tão forte é que o capitalismo é um sistema baseado em desigualdades de gênero. O patriarcado constituiu o terreno invisível para as relações capitalistas visíveis. Na história do capitalismo não há era sem patriarcado e parece que a ideologia do livre-mercado não pode sobreviver sem a exploração e a opressão das mulheres”.
A turca afirma que “não é coincidência que todos os tipos de violência contra mulheres e garotas têm crescido, de estupros coletivos a feminicídios, de violência doméstica a assédio sexual no trabalho. É porque as mulheres estão clamando por sua autonomia, não apenas econômica, mas sobre seus corpos e vidas, de uma maneira organizada ou individualmente. E como nós estamos reclamando nosso lugar no mundo, estamos sujeitas a mais violência, seja do Estado ou dos homens”.
Mas há esperança: para ela, enquanto há 20 anos discutia-se a obrigatoriedade moral da virgindade, hoje é possível falar abertamente sobre assuntos considerados privados, como casamento, aborto e violência doméstica. “E as mulheres têm declarado que não vão aceitar qualquer regra sobre suas vidas e corpos”.
“Queremos dar visibilidade à força das mulheres em construir alternativas nos processos de resistência”, completa Nalu.
http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/08/26/encontro-em-sao-paulo-reune-feministas-de-cinco-continentes/
quarta-feira, 24 de julho de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Babás de branco e resquício da Casa-Grande
Por Luciana Andrade
Já começo com ressalvas. E nada garante que não serei mal compreendida. Não sou mãe, sei que muitas famílias precisam de ajuda para cuidar das crianças, não há creches nos três turnos, a noção de maternidade varia de mulher para mulher e, na minha modesta opinião, o pai deveria ajudar mais. Todavia, nenhuma dessas razões e o fato de eu não ter conhecimento de causa desautorizam minha indignação com alguns pais que delegam a criação dos filhos para outrem e tratam as babás com pouca escolaridade como serviçais. É disso que estou falando.
Essa semana, o blog com o texto “Viagem levando babás” causou polêmica nas redes sociais. A “patroa” referia-se à funcionária como “um item” e ensinava a lidar com a profissional na hora do almoço ou nos passeios em família, tratando como generosidade o ato de se lembrar da alimentação da babá, por exemplo. Infelizmente, são ideias compartilhadas por muitos. É fácil visualizar exemplos de babás “colocadas no seu lugar”, em diversos graus, nos shoppings e restaurantes.
Nenhuma outra atividade remete de maneira tão forte à herança da sociedade escravocrata. A desigualdade baseada nas antigas noções de sexo e raça se perpetua, assim como a naturalização de alguns registros simbólicos: o quartinho misturado com a área de serviço, as práticas de favor e informalidade, a comida separada, a doação das sobras.
A exigência de dormir no emprego é a negação da possibilidade de uma vida privada para as babás. Uma versão contemporânea de Casa-Grande & Senzala.
Mulheres que assimilaram os novos privilégios subordinam outras mulheres e reproduzem o machismo, que consolidou a inferiorização feminina ligada aos afazeres domésticos. Palavra incômoda, aliás, por lembrar “domesticação”. O uniforme branco só clareia a segregação. Que valores são transmitidos por pais que sequer superaram a ideia de que as babás lhes devem gratidão, são “da família” e não têm direitos profissionais e humanos? Eis uma imensa discussão.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/01/17/noticiasjornalopiniao,2989925/babas-de-branco-e-resquicio-da-casa-grande.shtml
Já começo com ressalvas. E nada garante que não serei mal compreendida. Não sou mãe, sei que muitas famílias precisam de ajuda para cuidar das crianças, não há creches nos três turnos, a noção de maternidade varia de mulher para mulher e, na minha modesta opinião, o pai deveria ajudar mais. Todavia, nenhuma dessas razões e o fato de eu não ter conhecimento de causa desautorizam minha indignação com alguns pais que delegam a criação dos filhos para outrem e tratam as babás com pouca escolaridade como serviçais. É disso que estou falando.
Essa semana, o blog com o texto “Viagem levando babás” causou polêmica nas redes sociais. A “patroa” referia-se à funcionária como “um item” e ensinava a lidar com a profissional na hora do almoço ou nos passeios em família, tratando como generosidade o ato de se lembrar da alimentação da babá, por exemplo. Infelizmente, são ideias compartilhadas por muitos. É fácil visualizar exemplos de babás “colocadas no seu lugar”, em diversos graus, nos shoppings e restaurantes.
Nenhuma outra atividade remete de maneira tão forte à herança da sociedade escravocrata. A desigualdade baseada nas antigas noções de sexo e raça se perpetua, assim como a naturalização de alguns registros simbólicos: o quartinho misturado com a área de serviço, as práticas de favor e informalidade, a comida separada, a doação das sobras.
A exigência de dormir no emprego é a negação da possibilidade de uma vida privada para as babás. Uma versão contemporânea de Casa-Grande & Senzala.
Mulheres que assimilaram os novos privilégios subordinam outras mulheres e reproduzem o machismo, que consolidou a inferiorização feminina ligada aos afazeres domésticos. Palavra incômoda, aliás, por lembrar “domesticação”. O uniforme branco só clareia a segregação. Que valores são transmitidos por pais que sequer superaram a ideia de que as babás lhes devem gratidão, são “da família” e não têm direitos profissionais e humanos? Eis uma imensa discussão.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/01/17/noticiasjornalopiniao,2989925/babas-de-branco-e-resquicio-da-casa-grande.shtml
Ouvindo Vozes
Por Karina Buhr
2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...
No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.
Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.
Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".
Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.
No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...
Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.
Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.
Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.
Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.
Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.
Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?
É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.
Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.
Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.
Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.
1992. Eu tocava tambor e cantava na chamada "nova cena mundial pernambucana".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".
2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
Cantora é um cargo que cai muito bem em uma mulher brasileira. E passei a fazer parte da chamada "nova cena mundial paulista". Zerou tudo. Elixir da juventude.
O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...
No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.
Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.
Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".
Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.
No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...
Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.
E existe a ideia de um certo glamour. Pipocam eternas comparações sem sentido e a vibração picuinha-dos-inferno se estabelece jornais afora. Às vezes, lembra concurso de miss. Botam as mina pra competir, como de costume, como na vida real, que dizem que é assim. Não é assim. Só te socam isso goela abaixo. Foie gras. É só fazer as contas de novo, como no caso das duplas sertanejas.
Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.
Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.
Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.
Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.
Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?
É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.
Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.
Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.
Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.
(da coluna de Karina Buhr- revista da Livraria Cultura)
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Nota da Marcha Mundial de Mulheres
Via Sarah Luiza
Pela descriminalização e legalização do aborto
Hoje, 11 de novembro de 2012, nós, militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará, fomos ao aterrinho da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE, para mostrarmos a sociedade que também somos a favor da vida. Para mostrarmos nossa indignação à criminalização das mulheres que recorreram à prática do aborto.
Não acreditamos que o aborto é questão de polícia, mas de saúde pública. Ao tratar o aborto como crime, acabamos por contribuir para que milhares de mulheres, em sua maioria negra e pobre, morram.
Tratá-lo como um ato clandestino, preferindo negar a realidade da falta de uma política pública integral de saúde sexual e reprodutiva, tem trazido problemas de saúde física e psicológica para as mulheres, além de risco de morte.
A prática do aborto clandestino é a quinta maior causa de internação hospitalar de mulheres no SUS, responde por 9% das mortes maternas e 25% das causas de esterilidade por problemas tubários. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com seqüelas de aborto.
Tratar as mulheres que por algum motivo acabaram por recorrer à prática do aborto como criminosas não resolverá o problema, pois ao negá-lo continuaremos vendo mulheres sangrando nos corredores dos hospitais sem atendimento, além de serem maltratadas no serviço de saúde pela simples suspeita de terem provocado um aborto.
Não podemos deixar de considerar que na sociedade machista em que vivemos grande parte as mulheres ainda têm pouco autonomia sobre seus corpos, sobre a decisão no uso dos contraceptivos e frente ao desejo da maternidade. Ainda assim são elas que sofrem a acusação de criminosas. Por isso perguntamos “Cadê o homem que engravidou? Porque o crime é da mulher que abortou?”.
Não nos cabe julgar os motivos que fizeram uma mulher buscar o abortamento, nem acreditamos que a questão deva ser tratada a partir de uma perspectiva religiosa. Vivemos em um estado laico que não deve permitir que as religiões definam as leis e se imponham sobre a vida de todas as pessoas.
Precisamos acabar com essa hipocrisia! Muitas mulheres estão morrendo! Defender a vida é defender a legalização do aborto com assistência garantida no Sistema Único de Saúde.
Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto seguro para não morrer!
Pela descriminalização e legalização do aborto
Hoje, 11 de novembro de 2012, nós, militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará, fomos ao aterrinho da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE, para mostrarmos a sociedade que também somos a favor da vida. Para mostrarmos nossa indignação à criminalização das mulheres que recorreram à prática do aborto.
Não acreditamos que o aborto é questão de polícia, mas de saúde pública. Ao tratar o aborto como crime, acabamos por contribuir para que milhares de mulheres, em sua maioria negra e pobre, morram.
Essa hipocrisia dá hemorragia
Tratá-lo como um ato clandestino, preferindo negar a realidade da falta de uma política pública integral de saúde sexual e reprodutiva, tem trazido problemas de saúde física e psicológica para as mulheres, além de risco de morte.
A prática do aborto clandestino é a quinta maior causa de internação hospitalar de mulheres no SUS, responde por 9% das mortes maternas e 25% das causas de esterilidade por problemas tubários. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com seqüelas de aborto.
Tratar as mulheres que por algum motivo acabaram por recorrer à prática do aborto como criminosas não resolverá o problema, pois ao negá-lo continuaremos vendo mulheres sangrando nos corredores dos hospitais sem atendimento, além de serem maltratadas no serviço de saúde pela simples suspeita de terem provocado um aborto.
Não podemos deixar de considerar que na sociedade machista em que vivemos grande parte as mulheres ainda têm pouco autonomia sobre seus corpos, sobre a decisão no uso dos contraceptivos e frente ao desejo da maternidade. Ainda assim são elas que sofrem a acusação de criminosas. Por isso perguntamos “Cadê o homem que engravidou? Porque o crime é da mulher que abortou?”.
Não nos cabe julgar os motivos que fizeram uma mulher buscar o abortamento, nem acreditamos que a questão deva ser tratada a partir de uma perspectiva religiosa. Vivemos em um estado laico que não deve permitir que as religiões definam as leis e se imponham sobre a vida de todas as pessoas.
Precisamos acabar com essa hipocrisia! Muitas mulheres estão morrendo! Defender a vida é defender a legalização do aborto com assistência garantida no Sistema Único de Saúde.
Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto seguro para não morrer!
Fortaleza, 11 de novembro de 2012.
Marcha Mundial das Mulheres - Ceará
Marcha Mundial das Mulheres - Ceará
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Diálogos das vaginas
Por Sarah Luiza Souza Moreira
Prefiro diálogos a monólogos. Pensar e falar sozinha sempre me pareceu mais difícil. Mas conheci um diálogo que falou com muitas, com várias, de todas: “Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler.
Quando li pela primeira vez o título do livro, o primeiro pensamento que me veio à cabeça, devo admitir, foi: pra que nos expor dessa forma? Ao lê-lo, entendi: expor exatamente para não esconder, para mostrar que ela (a vagina, isso mesmo) existe, que ela é importante, para não mais fingir que ela não existe. Mas preciso explicar como cheguei a essa conclusão.
Já no prefácio de Glória Steinem, onde ela se remete a uma geração do “lá embaixo”, me perguntei: será que essa geração já passou? Será que ainda não é assim que tratamos no cotidiano as partes íntimas das mulheres? Como vejo nossos órgãos sendo tratados? E as próprias questões foram me dando indícios das respostas: sempre temos uma forma indireta, discreta, sutil para falar do corpo, da vagina das mulheres.
Lembrei-me, então, de momentos que tive com alguns grupos de agricultoras rurais no Semiárido do Ceará, em 2012, onde conversávamos sobre violência contra as mulheres. As participantes tinham desde 25 até 60 anos, filhas, mães, avós. É sintomático perceber como que, através do tema, acabávamos por falar de sexo. O objetivo nem era tratarmos sobre sexo, mas ao falarmos sobre a importância do desejo mútuo para que a relação sexual fosse prazerosa, parecia que estávamos dizendo algo absurdo, algo muito distante do real. Algumas até perguntavam, para entender do que eu estava falando, “e você é casada?”, “Não pode ser...”, pensavam.
A ideia – que parece simples para algumas de nós – da necessidade do consentimento das mulheres ou da vontade do casal para uma relação saudável e prazerosa parecia estranha. Muitas comentaram: “Quando eu digo que não quero, que estou com dor de cabeça, ele vai logo dizendo que eu tenho outro”. E elas acabam “cedendo” para agradar aos maridos e não gerar conflitos. Ver o quanto a violência sexual, o estupro, é parte do cotidiano das mulheres, dentro de suas casas, é algo chocante, impactante. Não podemos nos calar.
Não poderia, no entanto, deixar de lembrar que paralelo aos estupros domésticos, ainda vimos, nesse ano, casos absurdos de estupros coletivos, como das jovens que foram estupradas e até mortas pelos próprios “amigos”, como presente de aniversário na Paraíba, e de estupros “corretivos”, que tratam as lésbicas como mulheres que precisam “saber o que é um homem” para se regenerarem. Assustador!
Desejo e prazer, para muitas delas, pareciam palavras ainda sem significado real ou algo que não dizia ou deveria dizer respeito a elas, como algo “que não é coisa de mulher”. Para outras, admitir que gostam de sexo é algo vergonhoso de se admitir, como se isso fosse algo para mulheres vulgares. Isso ficou muito explícito em comentários onde algumas afirmavam, como que em segredo: “Mas tem mulheres que gosta... Absurdo!”, em um posicionamento explicitamente de cunho religioso, onde o sexo ainda é considerado como pecado. Mas expresso também em piadas onde algumas eram citadas, apontadas como “aquele que gosta daquilo”, tornando-se chacota, piada para as demais.
Esses comentários me trouxeram a lembrança de um livro de Mary Del Priori, onde ela se refere ao Brasil colonial como um período do ideal do amor domesticado. Deu-me a sensação de que ainda vivemos um retrato desse ideal, onde não o amor e o sexo ainda são tratados como algo que precisa ser contido, reservado, um serviço. E mais do que isso, algo que legitima o desejo e o prazer apenas para os homens.
“Tal como o Historiador Edward Shorter para a Europa do Antigo Regime, os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar perante o outro. Os maridos deviam mostrar-se dominadores, voluntariosos no exercício da vontade patriarcal, insensíveis e egoístas. As mulheres, por sua vez, apresentavam-se, como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas mulheres como máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais mecânicas e despidas de expressões de afeto. Basta pensar na facilidade com que eram infectadas por doenças venéreas, nos múltiplos partos, na vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei” (PRIORI. Mary Del, 2006, pg.37)
Falar sobre o sexo e o corpo das mulheres ainda gera incômodo, ainda é, em pleno sexo XXI, algo constrangedor. A vergonha se expressa pelo fato de pouco se falar sobre o assunto e, portanto, ser ainda um mistério para muitas. Como nos relatos das mulheres em 1953, no livro “Monólogos da vagina”, ainda hoje, muitas dessas mulheres não conhecem seu próprio corpo, poucas se tocam, se sentem. Falar na vagina, por exemplo, é algo que ainda causa desconforto, estranhamento e até mesmo nojo, como se estivéssemos falando de algo sujo ou que devesse continuar escondido. As risadinhas desconcertadas e os olhares desconfiados pareciam perguntar: Como ela pode falar desse jeito? Será que ela falou mesmo esse nome?
É claro que existe uma diferença entre o olhar das jovens, das adultas casadas e das idosas: para as idosas o sexo remete a dor, a sofrimento. Elas lembravam e comentavam, quanto às relações sexuais, que foram forçadas, por obrigação, para servir ao marido. Para as adultas casadas, o sexo é visto como uma necessidade para se conservar o casamento, para que os homens não busquem mulheres “lá fora”. Para as jovens solteiras, ainda há a vergonha de admitir o desejo, de se falar das vontades, são cheias de dúvidas, mas também de razões e certezas de que querem ter direito a sentir prazer.
Falamos sim de muitos avanços, de diversas conquistas que as mulheres têm tido nas últimas décadas no campo dos direitos, ampliando sua participação no mercado de trabalho e na política. Mas ouvir essas mulheres falando sobre sua vida pessoal, íntima, me deixou os seguintes questionamentos: quando teremos de fato autonomia sobre nosso corpo? Quando conseguiremos realmente ter prazer e não precisar ter vergonha disso? Quando não mais trará constrangimento falarmos da nossa vagina? Pois é, companheiras, a luta continua. Continuemos em marcha!
Prefiro diálogos a monólogos. Pensar e falar sozinha sempre me pareceu mais difícil. Mas conheci um diálogo que falou com muitas, com várias, de todas: “Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler.
Quando li pela primeira vez o título do livro, o primeiro pensamento que me veio à cabeça, devo admitir, foi: pra que nos expor dessa forma? Ao lê-lo, entendi: expor exatamente para não esconder, para mostrar que ela (a vagina, isso mesmo) existe, que ela é importante, para não mais fingir que ela não existe. Mas preciso explicar como cheguei a essa conclusão.
Já no prefácio de Glória Steinem, onde ela se remete a uma geração do “lá embaixo”, me perguntei: será que essa geração já passou? Será que ainda não é assim que tratamos no cotidiano as partes íntimas das mulheres? Como vejo nossos órgãos sendo tratados? E as próprias questões foram me dando indícios das respostas: sempre temos uma forma indireta, discreta, sutil para falar do corpo, da vagina das mulheres.
Lembrei-me, então, de momentos que tive com alguns grupos de agricultoras rurais no Semiárido do Ceará, em 2012, onde conversávamos sobre violência contra as mulheres. As participantes tinham desde 25 até 60 anos, filhas, mães, avós. É sintomático perceber como que, através do tema, acabávamos por falar de sexo. O objetivo nem era tratarmos sobre sexo, mas ao falarmos sobre a importância do desejo mútuo para que a relação sexual fosse prazerosa, parecia que estávamos dizendo algo absurdo, algo muito distante do real. Algumas até perguntavam, para entender do que eu estava falando, “e você é casada?”, “Não pode ser...”, pensavam.
A ideia – que parece simples para algumas de nós – da necessidade do consentimento das mulheres ou da vontade do casal para uma relação saudável e prazerosa parecia estranha. Muitas comentaram: “Quando eu digo que não quero, que estou com dor de cabeça, ele vai logo dizendo que eu tenho outro”. E elas acabam “cedendo” para agradar aos maridos e não gerar conflitos. Ver o quanto a violência sexual, o estupro, é parte do cotidiano das mulheres, dentro de suas casas, é algo chocante, impactante. Não podemos nos calar.
Não poderia, no entanto, deixar de lembrar que paralelo aos estupros domésticos, ainda vimos, nesse ano, casos absurdos de estupros coletivos, como das jovens que foram estupradas e até mortas pelos próprios “amigos”, como presente de aniversário na Paraíba, e de estupros “corretivos”, que tratam as lésbicas como mulheres que precisam “saber o que é um homem” para se regenerarem. Assustador!
Desejo e prazer, para muitas delas, pareciam palavras ainda sem significado real ou algo que não dizia ou deveria dizer respeito a elas, como algo “que não é coisa de mulher”. Para outras, admitir que gostam de sexo é algo vergonhoso de se admitir, como se isso fosse algo para mulheres vulgares. Isso ficou muito explícito em comentários onde algumas afirmavam, como que em segredo: “Mas tem mulheres que gosta... Absurdo!”, em um posicionamento explicitamente de cunho religioso, onde o sexo ainda é considerado como pecado. Mas expresso também em piadas onde algumas eram citadas, apontadas como “aquele que gosta daquilo”, tornando-se chacota, piada para as demais.
Esses comentários me trouxeram a lembrança de um livro de Mary Del Priori, onde ela se refere ao Brasil colonial como um período do ideal do amor domesticado. Deu-me a sensação de que ainda vivemos um retrato desse ideal, onde não o amor e o sexo ainda são tratados como algo que precisa ser contido, reservado, um serviço. E mais do que isso, algo que legitima o desejo e o prazer apenas para os homens.
“Tal como o Historiador Edward Shorter para a Europa do Antigo Regime, os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar perante o outro. Os maridos deviam mostrar-se dominadores, voluntariosos no exercício da vontade patriarcal, insensíveis e egoístas. As mulheres, por sua vez, apresentavam-se, como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas mulheres como máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais mecânicas e despidas de expressões de afeto. Basta pensar na facilidade com que eram infectadas por doenças venéreas, nos múltiplos partos, na vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei” (PRIORI. Mary Del, 2006, pg.37)
Falar sobre o sexo e o corpo das mulheres ainda gera incômodo, ainda é, em pleno sexo XXI, algo constrangedor. A vergonha se expressa pelo fato de pouco se falar sobre o assunto e, portanto, ser ainda um mistério para muitas. Como nos relatos das mulheres em 1953, no livro “Monólogos da vagina”, ainda hoje, muitas dessas mulheres não conhecem seu próprio corpo, poucas se tocam, se sentem. Falar na vagina, por exemplo, é algo que ainda causa desconforto, estranhamento e até mesmo nojo, como se estivéssemos falando de algo sujo ou que devesse continuar escondido. As risadinhas desconcertadas e os olhares desconfiados pareciam perguntar: Como ela pode falar desse jeito? Será que ela falou mesmo esse nome?
É claro que existe uma diferença entre o olhar das jovens, das adultas casadas e das idosas: para as idosas o sexo remete a dor, a sofrimento. Elas lembravam e comentavam, quanto às relações sexuais, que foram forçadas, por obrigação, para servir ao marido. Para as adultas casadas, o sexo é visto como uma necessidade para se conservar o casamento, para que os homens não busquem mulheres “lá fora”. Para as jovens solteiras, ainda há a vergonha de admitir o desejo, de se falar das vontades, são cheias de dúvidas, mas também de razões e certezas de que querem ter direito a sentir prazer.
Falamos sim de muitos avanços, de diversas conquistas que as mulheres têm tido nas últimas décadas no campo dos direitos, ampliando sua participação no mercado de trabalho e na política. Mas ouvir essas mulheres falando sobre sua vida pessoal, íntima, me deixou os seguintes questionamentos: quando teremos de fato autonomia sobre nosso corpo? Quando conseguiremos realmente ter prazer e não precisar ter vergonha disso? Quando não mais trará constrangimento falarmos da nossa vagina? Pois é, companheiras, a luta continua. Continuemos em marcha!
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Crise econômica pode ampliar desigualdades...
Por Bia Barbosa, via Sarah Luiza
SÃO PAULO - Historicamente, as relações desiguais entre homens e mulheres na sociedade foram sustentadas pela separação e hierarquização do trabalho através do sexo. O trabalho de homens e mulheres é separado entre produtivo e reprodutivo, e é hierarquizado de tal forma que o trabalho produtivo, considerado "masculino", tem maior valor econômico que o reprodutivo, considerado "feminino". Historicamente, também foram relegados às mulheres o trabalho doméstico e de cuidados, não remunerados e excluídos do que se compreende hoje por economia.Romper com a divisão sexual do trabalho sempre foi uma luta do movimento feminista. Porém, num cenário de crise capitalista como o atual, colocar este tema no centro do debate é estratégico para combater as desigualdades entre homens e mulheres. Reunidas esta semana num seminário internacional em São Paulo, especialistas do campo da economia feminista de diferentes partes do mundo afirmaram: é urgente construir uma nova dinâmica de relações sociais e desenhar um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana.
"A divisão sexual dos trabalhos profissional e doméstico entre homens e mulheres não é resultado de uma conciliação harmônica entre papéis, mas de relações sociais contraditórias e antagônicas. É reflexo de relações de exploração, opressão e dominação dos homens sobre as mulheres", afirma Helena Hirata, socióloga e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. "Daí a importância de reconceitualizar o trabalho da maneira mais ampliada possível, de ter uma visão ampla de trabalho: profissional e doméstico, remunerado ou não, formal ou não formal. Se excluímos o trabalho doméstico da economia, tornamos invisível grande parte do trabalho das mulheres", explica.
O tema não é novidade. Apesar do ascenso das mulheres no mercado de trabalho nos últimos 45 anos - incluindo a ultrapassagem dos homens no campo da escolaridade em quase todas as áreas - os trabalhos domésticos e de cuidados permanecem a cargo das mulheres. Na França, por exemplo, uma mulher casada com filhos dedica ao trabalho doméstico 4,36 horas por dia, enquanto os homens destinam apenas 2 horas aos serviços da casa e da família. No Japão, a desigualdade é brutal: mais de 4 horas por dia para as mulheres contra 20 minutos dos homens. No Brasil, a última pesquisa do IBGE mostrou que, em 2009, as brasileiras dedicavam 20 horas semanais ao trabalho doméstico contra 9,5 dos homens.
Segundo as pesquisas, a desigualdade também persiste no mercado de trabalho convencional. Com o aprofudamento da globalização, a precarização do trabalho atingiu mais as mulheres do que os homens do ponto de vista do emprego. "Os empregos femininos criados são vulneráveis, com condições de trabalho precarizado. Lutamos muito para haver trabalho profissional para as mulheres, mas isso reforçou toda uma lógica de trabalho precarizado", disse Helena Hirata. "E as mulheres que saíram de casa para trabalhar o fizeram com o que chamamos de externalização do trabalho doméstico, via delegação das tarefas de cuidar das roupas, da casa e das crianças para outras mulheres. Esta delegação é incrivelmente desenvolvida no Brasil. Em 2010 eram quase 7 milhões de mulheres diaristas", acrescenta.
Para a equatoriana Magdalena Leon, da Rede Latino-americana Mulheres Transformando a Economia (REMTE), o próprio modelo capitalista se encarregou de tornar as mulheres visíveis e de instrumentalizá-las para sua sustentação, com a multiplicação de trabalhos. "Durante o ajuste neoliberal, por exemplo, quando o que estava em jogo era a mercantilização da vida, as mulheres desenvolveram estratégias de sobrevivência, afirmando nosso papel como permanentes geradoras de meios de vida e condições de subsistência, que vão além do dinheiro", relata. "Nós, feministas, recuperamos princípios de uma outra economia: a reciprocidade, solidariedade e complementariedade, em vez da concorrência e eliminação do outro", conta.
Agora, num novo cenário de crise capitalista, o risco de ampliação da desigualdade entre homens e mulheres crescer no mundo do trabalho é enorme, avaliam as feministas. Seja porque as mulheres já ocupam os trabalhos mais precarizados, que tendem a se ampliar; seja porque a retirada do Estado de serviços essenciais redundará em mais trabalho para as mulheres.
"O objetivo é reduzir o que se considera necessário para garantir as condições de vida dos trabalhadores, que custam muito. Então o Estado transfere e privatiza serviços públicos", critica Antonella Picchio, da Universidade de Módena, na Itália. Para ela, o tempo e o trabalho das mulheres são utilizados como se fossem recursos inesgotáveis para sustentar o atual modelo econômico da sociedade.
"O problema do trabalho não pago é central para as mulheres. Ele é usado para fazer com que os recursos monetários distribuídos com o trabalho pago bastem para sustentar a casa, porque outros - no caso as mulheres - trabalham sem receber. É um problema claro. O sistema descarrega nas famílias uma tensão grande acerca dos recursos necessários para a vida e usa as mulheres para o trabalho doméstico e de cuidados", explica Antonella, para quem o trabalho não pago está no centro do conflito da questão produtiva, distributiva e política contemporânea.
Estado cuidador
Para enfrentar as desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho, é necessário, na avaliação das especialistas presentes ao seminário, transformar a atual divisão sexual do trabalho no que diz respeito ao trabalho doméstico e cobrar o Estado sua responsabilidade com o trabalho de cuidados. "O cuidado não é uma atitude de preocupação e solicitude com o outro, mas é também um trabalho concreto, material", afirma Helena Hirata. "Temos que construir um Estado que é cuidador, responsável e participativo. Não podemos pensar no bem estar como algo que se dará natualmente", acrescenta Antonella Picchio.
Na agenda política de alguns países, o trabalho de cuidados já em sendo redefinido como um fluxo de ações com resultados materiais substantivos para a vida. A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão das Nações Unidas, já afirma em seus documentos que o cuidado de pessoas dependentes deve ser compartilhado entre o Estado e as famílias. "É uma agenda que aos poucos começa a ser consenso entre líderes políticos da região. Estamos em momento de inflexões, de reflexões e redefinições de relações", analisa Magdalena Leon. "Mas esta crise está andando em grande velocidade e é uma das maiores. E se as mulheres não lutarem por outra política, serão sacrificadas", conclui Antonella.
http://www.cartamaior.com.br/
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Dilma empossa nova gestão do Consea na terça
A presidenta Dilma Rousseff dará posse na próxima terça-feira (17) à nova gestão do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). A antropóloga Maria Emília Pacheco será a primeira mulher a presidir o conselho.
A solenidade está prevista para as 15 horas no Salão Oeste do Palácio do Planalto, em Brasília, com a presença da presidenta Dilma, ministros de Estado, diversas autoridades e convidados.
Na oportunidade também serão empossados os novos conselheiros titulares e suplentes para o biênio 2012/2013.
Na última reunião plenária do Consea, realizada na semana passada, os conselheiros escolheram o nome de Maria Emília para indicação à presidenta Dilma, a quem cabe a nomeação.
Perfil – Maria Emília nasceu em Leopoldina (MG) em 1948, é formada em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social de Juiz de Fora (MG) e possui mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Ela integra a Federação de Órgãos de Assistência Social e Educacional (Fase), o Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).
Maria Emília integrou a equipe que implantou o Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (Inan) em Minas Gerais. É anistiada política desde maio de 2009. Ela é conselheira do Consea desde 2004.
Serviço
Posse da Nova Gestão do Consea
Dia: 17 de abril (terça-feira)
Horário: 15 horas
Local: Salão Oeste, Palácio do Planalto, Brasília (DF)
Informações para imprensa
Ascom/Consea
(61) 3411 3349 – 9321 0198 Fonte: Ascom/Consea
segunda-feira, 26 de março de 2012
quinta-feira, 16 de junho de 2011
A mulher machista
Por Cynara Menezes
O escritor Nelson Rodrigues tinha uma vizinha velha, gorda, patusca e cheia de varizes que era a maior inimiga da revolução feminista. À janela ou sentada em sua cadeira dobrável na calçada, cismava com as jovens mulheres em mutação. A dona-de-casa que arranjava emprego fora? Imoral. A mocinha que ia à praia pela primeira vez com um maiô duas peças? Indecente. A odalisca que mostrava o umbigo no carnaval? Ah, essa aí então é melhor nem comentar.
Pois eu pensava que a vizinha gorda e cheia de varizes do Nelson Rodrigues tinha morrido. Que nada! Um outro vizinho do anjo pornográfico, também jornalista, achou que a patusca levava jeito para as letras. E não é que a velha virou colunista de jornal? Entusiasmada com a vida nova, deu uma guaribada no visual, esticou a cara e fez lipoaspiração. Parou até de andar com as pernas envoltas em gaze para disfarçar as veias inchadas, corrigidas na mesa de cirurgia.
A vizinha de Nelson, porém, continua cheia de varizes –na alma. A chegada de uma mulher à presidência da República deixou-a furibunda. “Que espeto!” Segundo ela, todo mundo está careca de saber que a mulher pode até ser igual ao homem em algumas profissões, mas jamais na vida pública. Homens são profissionais da política; mulheres são amadoras, diz a vizinha patusca. A mulher por natureza é frágil, e sempre vai precisar do auxílio do homem, vaticina a velha gorda e varicosa. Além do mais, considerou que não havia nenhum sentido em celebrações. “Como assim primeira mulher no comando? Esqueceram da Princesa Isabel?”
Cada ministra escolhida pela presidenta mereceu um muxoxo da vizinha de Nelson Rodrigues. Miriam Belchior? “Machona que nem a Dilma”. Maria do Rosário? “Falta pulso”. Luiza Bairros? “Só foi escolhida porque é negra”. Iriny Lopes? “Irrelevante”. Ana de Hollanda? “Ah, se não fosse irmã de Chico…” Gleisi Hoffmann? “Bonita, parece uma normalista. Ou a Barbie”. Ideli Salvatti? “Histérica e descompensada”. E para que, afinal, colocar tanta mulher no ministério, se homens são infinitamente melhor preparados? “Até por ser uma representante legítima do gênero”, disfarçou a matrona, “torço para que dê certo, mas acreditar, eu não acredito”.
A vizinha gorda e cheia de varizes de Nelson Rodrigues não quer nem saber do que aconteceu no Chile, onde a presidente Michelle Bachelet governou o país com metade dos ministros do sexo feminino, além de 15 subsecretárias de Estado mulheres. Bachelet terminou seu mandato com 70% da aprovação dos chilenos e só não foi reeleita porque não existe reeleição por lá. “Mas não fez o sucessor”, desdenha a patusca. Bem a propósito, a única similar chilena da velha gorda e cheia de varizes de Nelson veio para o Brasil para se casar com um político da elite paulista.
A velha patusca também não é mais viúva. Casou-se com um colega de jornal, colunista que nem ela, o Políbio Pompeu, senhor de sobrancelhas ásperas e eriçadas como as cerdas bravas do javali e que cultiva um enorme cravo negro nas dobras do pescoço. Pompeu adora dizer, a propósito da presidenta, que “as mulheres descasadas são seres infelizes”, ao que a vizinha gorda e cheia de varizes de Nelson Rodrigues bate na perna, dá uma gargalhada e comenta: “Batata!”
A vizinha de Nelson passou pelo feminismo, mas entendeu tudo errado. Deixou de cuidar da casa, entregou os filhos a uma babá e se orgulha de não saber fritar um ovo. Mas, embora trabalhe no mesmo jornal e praticamente na mesma função que Políbio, seu salário é 20% menor do que o marido, o que ambos consideram perfeitamente natural. A velha patusca, gorda e cheia de varizes acha que o homem merece mesmo ganhar melhor do que a mulher, porque é mais racional e menos emotivo. Sem falar que não tem TPM.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-mulher-machista
O escritor Nelson Rodrigues tinha uma vizinha velha, gorda, patusca e cheia de varizes que era a maior inimiga da revolução feminista. À janela ou sentada em sua cadeira dobrável na calçada, cismava com as jovens mulheres em mutação. A dona-de-casa que arranjava emprego fora? Imoral. A mocinha que ia à praia pela primeira vez com um maiô duas peças? Indecente. A odalisca que mostrava o umbigo no carnaval? Ah, essa aí então é melhor nem comentar.
Pois eu pensava que a vizinha gorda e cheia de varizes do Nelson Rodrigues tinha morrido. Que nada! Um outro vizinho do anjo pornográfico, também jornalista, achou que a patusca levava jeito para as letras. E não é que a velha virou colunista de jornal? Entusiasmada com a vida nova, deu uma guaribada no visual, esticou a cara e fez lipoaspiração. Parou até de andar com as pernas envoltas em gaze para disfarçar as veias inchadas, corrigidas na mesa de cirurgia.
A vizinha de Nelson, porém, continua cheia de varizes –na alma. A chegada de uma mulher à presidência da República deixou-a furibunda. “Que espeto!” Segundo ela, todo mundo está careca de saber que a mulher pode até ser igual ao homem em algumas profissões, mas jamais na vida pública. Homens são profissionais da política; mulheres são amadoras, diz a vizinha patusca. A mulher por natureza é frágil, e sempre vai precisar do auxílio do homem, vaticina a velha gorda e varicosa. Além do mais, considerou que não havia nenhum sentido em celebrações. “Como assim primeira mulher no comando? Esqueceram da Princesa Isabel?”
Cada ministra escolhida pela presidenta mereceu um muxoxo da vizinha de Nelson Rodrigues. Miriam Belchior? “Machona que nem a Dilma”. Maria do Rosário? “Falta pulso”. Luiza Bairros? “Só foi escolhida porque é negra”. Iriny Lopes? “Irrelevante”. Ana de Hollanda? “Ah, se não fosse irmã de Chico…” Gleisi Hoffmann? “Bonita, parece uma normalista. Ou a Barbie”. Ideli Salvatti? “Histérica e descompensada”. E para que, afinal, colocar tanta mulher no ministério, se homens são infinitamente melhor preparados? “Até por ser uma representante legítima do gênero”, disfarçou a matrona, “torço para que dê certo, mas acreditar, eu não acredito”.
A vizinha gorda e cheia de varizes de Nelson Rodrigues não quer nem saber do que aconteceu no Chile, onde a presidente Michelle Bachelet governou o país com metade dos ministros do sexo feminino, além de 15 subsecretárias de Estado mulheres. Bachelet terminou seu mandato com 70% da aprovação dos chilenos e só não foi reeleita porque não existe reeleição por lá. “Mas não fez o sucessor”, desdenha a patusca. Bem a propósito, a única similar chilena da velha gorda e cheia de varizes de Nelson veio para o Brasil para se casar com um político da elite paulista.
A velha patusca também não é mais viúva. Casou-se com um colega de jornal, colunista que nem ela, o Políbio Pompeu, senhor de sobrancelhas ásperas e eriçadas como as cerdas bravas do javali e que cultiva um enorme cravo negro nas dobras do pescoço. Pompeu adora dizer, a propósito da presidenta, que “as mulheres descasadas são seres infelizes”, ao que a vizinha gorda e cheia de varizes de Nelson Rodrigues bate na perna, dá uma gargalhada e comenta: “Batata!”
A vizinha de Nelson passou pelo feminismo, mas entendeu tudo errado. Deixou de cuidar da casa, entregou os filhos a uma babá e se orgulha de não saber fritar um ovo. Mas, embora trabalhe no mesmo jornal e praticamente na mesma função que Políbio, seu salário é 20% menor do que o marido, o que ambos consideram perfeitamente natural. A velha patusca, gorda e cheia de varizes acha que o homem merece mesmo ganhar melhor do que a mulher, porque é mais racional e menos emotivo. Sem falar que não tem TPM.
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-mulher-machista
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