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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

UM VELHO CASO

Por Sírio Possenti


Estava bisbilhotando jornais quando me deparei com o anúncio da reedição de livros de Ana Maria Machado. São obras que se valem da estrutura de contos de fadas para dar recados “novos” a leitores infantis ou adolescentes, diz a matéria. A autora diz que sugere nesses livros comportamentos que também sugeria a seus filhos, do tipo “não precisa fazer certas a coisas só porque os outros acham certo” etc., mesmo que sejam pais e professores.

Ao pé da reportagem, dois trechos. Em um deles se lê que “(…na biblioteca) tinha um monte de livros e computador com acesso à internet”. Em outro trecho, que “havia fotos do príncipe bocejando e artigos falando mal dele”.

Decidi comentar de novo essa dupla de verbos (ter / haver). Seu tratamento “escolar” é um sintoma de como se trata a língua, mais especificamente a questão de sua mudança no decorrer da história.

Se Ana Maria Machado usa “ter”, como no exemplo, por que um estudante não pode usar ou por que deve assinalar como correta as alternativas com “haver” e como erradas as estruturas com “ter”? Só porque está escrito num livro meio besta e desatualizado?

Dei uma olhada em alguns livros desses que fornecem regras, para ver o que diziam sobre o caso. Sacconi (Não erre mais) diz que “ter” substitui “haver” de forma espontânea na língua falada. Na escrita, convém usar “haver”. Não manda, mas não libera. Quem elabora provas ou corrige textos com base nessa teoria, assinala mais erros do que devia.

Em vez de a divisão ser língua escrita ou falada, um critério melhor é dividir entre textos mais informais e mais formais (de fato, “haver” é muuuuito formal).

O Manual de redação e estilo do Estadão é mais rigoroso. “Haver” é que significa existir, e não “ter”, diz a regra (são erradas frases como “Hoje tem Palmeiras x São Paulo”).

Deveríamos nos convencer que o que o manual do Estadão está errado. O sentido das palavras é o que ele tem nos discursos reais. Quem é que não acha que o sentido de “haver” e de “ter” é o mesmo em “tinha muita gente” e “havia muita gente”?

Quem quer defender uma forma antiga deve usar argumentos que não sejam baseados no sentido, mas em opções de estilo. Até porque uma consulta mínima a qualquer fonte razoável mostra que “haver” já teve o sentido de “ter”, isto é, de “possuir”, de “ter posses”. Com o tempo, perdeu esta acepção e passou a função apresentacional, que, atualmente, é assumida em grande medida pelo verbo “ter”. “Haver”, hoje, é um auxiliar. Também é pouco empregado nessa função.

Aliás, a questão das análises erradas é uma verdadeira praga. Em O Português do dia-a-dia (escrevia-se assim quando o livro foi publicado), Sérgio Duarte Nogueira,  diz que “ter” no sentido de “existir” é aceitável em textos menos formais (é aceitável ou ocorre com bastante frequência?) e outras banalidades sobre “haver”, afirma que “haviam”, “houveram” e “haverão” são formas corretas quando usadas em casos em que o verbo não é sinônimo de “existir” ou de “ocorrer”. Os exemplos: “Os sindicalistas haviam aceitado a proposta”, “eles haverão de conseguir a medalha”. Mas, na verdade, nesses casos, “haver” é auxiliar. Era o que ele deveria ter explicado.

A dica de Ana Maria Machado deveria valer nesse caso: usar o verbo que queremos…

Aliás, é o que ela mesma fez (também usou “haver”, pois é óbvio que este verbo não deve ser proibido…), e o que fizeram Drummond (Tinha uma pedra no meio do caminho) e Chico (Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu).

http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog/2012/08/23/um-velho-caso/

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pitel?


Por Sírio Possenti
Os erros de escrita são, em geral, muito reveladores, como já comentei em colunas anteriores e sempre vale a pena repetir, porque temos obsessão excessiva pela grafia correta.

Os dados não param de pipocar. Vêm de todos os lados.

Encontrei por acaso o Pequeno dicionário brasileiro da língua morta, de Alberto Villas (Editora Globo), também colunista do site de CartaCapital. Para quem tem curiosidade em relação a novos sentidos que as palavras de tipo gíria adquirem e logo perdem, é um excelente documento. A revista Língua Portuguesa (nas bancas), em seu número 80, publicou pequena e reveladora resenha do livro.

Mas não vou falar do tema do livro, mas só de uma palavra, “pitel”, que me fez ficar com a pulga atrás da orelha. Originalmente, é um salgadinho, informa o autor (para o Houaiss, é “iguaria saborosa”). Num certo momento, e em certos contextos, significou ‘mulher gostosa’, aprende-se (ou lembra-se) lendo o dicionário. Hoje, diz Villas, em vez de “pitel”, com esse sentido, se diz “delícia” (veja-se Michel Teló). O leitor pode ver que se trata de uma gíria.

Acontece que o Houaiss registra “pitéu”, não “pitel”. A pulga atrás da minha orelha era exatamente por isso: eu só conhecia a grafia com “éu”. Até por isso fui conferir. Eu podia estar seguro, mas completamente errado.

O objetivo não é criticar este ou aquele autor, este ou aquele erro. O objetivo é repetir que só se erra grafia onde se pode, que os erros são quase sempre os mesmos. Em vez de desesperar professores, isso deveria animá-los. Por que? Por que são sempre os mesmos, porque têm boas explicações (a pronúncia de “pitéu” e de “pitel” seria a mesma; especificamente: “l” em final de sílaba soa “u” em quase todo o país). Outra razão para não desesperar: mesmo profissionais erram, e também eles nos lugares esperados.

O bom desse fato é que pode ajudar a ver melhor, com mais objetividade, como é nossa língua, a língua real, a partir da qual fazemos esforços para dominar quase outra: a língua escrita culta.

Lendo, observando as palavras, comparando a escrita de quem está aprendendo com a que está nos livros, aos poucos (mas nem tão devagar assim, se fizermos isso sempre), a escrita também se torna nossa.

http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/pitel/