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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Nu, de botas - Antonio Prata

Por Marcus Vinicius

Recomendação - pra quem tem de 25 a 40 anos ou é pai ou mãe de "jovens" de 25 a 40 anos. Um bom livro de Antonio Prata.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Abaixo, a ironia

por Antonio Prata


Domingo passado, escrevi aqui uma crônica em que satirizava o discurso mais raivoso da direita brasileira. Muita gente não entendeu: alguns se chocaram pensando que eu de fato acreditava que o problema do país era a suposta supremacia de negros, homossexuais, feministas, índios e o "poderosíssimo lobby dos antropólogos"; outros me chocaram, cumprimentando-me pela coragem (!) de apontar os verdadeiros culpados por nosso atraso. Volto ao tema para que não haja risco algum de eu estar reforçando as ideias nefastas que tentei ridicularizar.

Uma sátira é uma caricatura. Escolhemos certos traços de uma obra e produzimos outra, exagerando tais características. Narizes aparecem desproporcionalmente grandes, orelhas podem ser maiores que a cabeça, um bigode talvez chegue até o chão. É como se puséssemos uma lupa nos defeitos do original, a fim de expô-los.

Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante. No país bisonho do meu texto, José Maria Marin e o pastor Marco Feliciano eram de esquerda, os brancos estavam escanteados por negros, que ocupavam a direção das empresas, as mesas do Fasano e os assentos de primeira classe dos aviões. O Brasil (segundo maior exportador de soja do mundo) não era, na crônica, uma potência agrícola, por culpa das reservas indígenas. No fim, me levantava contra "as bichas" e "o crioléu". O texto não estava suficientemente descolado da realidade para que todos percebessem a impossibilidade de ser literal?

Talvez, infelizmente, não: fui menos grosseiro, violento e delirante na sátira do que muitos têm sido a sério. Poucos dias antes da crônica ser publicada, um vereador afirmou em discurso que os mendigos deveriam virar "ração pra peixe". Com esse pano de fundo, ser "apenas" racista, machista, homo e demofóbico pode não soar absurdo. Quem se chocou achou o personagem equivocado, mas plausível. Quem me cumprimentou achou minha "análise" perfeitamente coerente. Ora, só dá para concordar com o texto se você acreditar que as cotas criaram uma elite negra e oprimiram os brancos, acabando com a "meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral", se achar que os 20 anos de ditadura foram "20 anos de paz" e que é legítimo e bem-vindo levantar-se contra "as bichas" e "o crioléu".

Em "Hanna e Suas Irmãs", do Woody Allen, Lee, uma das irmãs, é casada com um intelectual rabugento chamado Frederick. Lá pelas tantas, o personagem assiste a um documentário sobre Auschwitz, em que o narrador indaga "como isso foi possível?". Frederick bufa e resmunga: "A pergunta não é essa! Do jeito que as pessoas são, a pergunta é: como não acontece mais vezes?". Esta semana, diante dos e-mails elogiosos que recebi, a fala me voltou algumas vezes à memória: "Como não acontece mais vezes?". Vontade é o que não falta, por aí --e, infelizmente, não estou sendo irônico.

sábado, 9 de junho de 2012

Adeus, Ivan e muito obrigada.

O Fanho – Ivan Lessa

Agora falando de saudades: saudades mesmo eu tenho de pastel e fanho. Pastel de queijo aqui não tem,
fanho não é a mesma coisa. Fanho bom é aquele bem mal humorado, agressivo. Fanho acha que a humanidade está por fora, que tudo isso é uma safadeza enorme pra cima dele que, afinal de contas, não tem nada com isso e é, no fundo, um bom sujeito. É o que ele diz. Mas diz criando caso.Fanho briga, dá com a mão em cima da mesa e diz: “eu sou um profissional, pomba!” E repete: “Profissional”.Fanho vive dizendo que é profissional: “tenho 20 anos de rádio, boto qualquer programa no ar, manjo tudo, ta?” E diz muito palavrão. Palavrão fica horrendo na boca de fanho. É sempre sobre a gente que tá falando com ele. Nunca sobre a vida ou os outros por aí. É com a gente, nós, os não-fanhos. Agora tem um troço: fanho você pode chamar de fanho que ele não se aborrece. “Que é que há, ô,Fanho, tudo bem?” Ele responde, meio desaforado, mas responde. É que ele é assim mesmo. Fanho conhece todos os truques de todas as repartições. Documento, atestado, não fica 24 horas preso numa mesa de seção. Ele vai e quebra o galho. É um profissional, pomba!
   
Tem um fanho aqui onde eu trabalho. Melhor: uma fanha. Não tem nome de fanha. Chama-se Audrey. Também não tem cara de Audrey. É servente na Cantina. Muito preocupada, sempre, mas delicada. Chama a gente de luv, de dear. Não é, evidentemente uma profissional.

(Pasquim, antologia. Vol.1 – 1969 a 1971 - Ed.Desiderata 2006)

Ivan Pinheiro Themudo Lessa
Nasceu em São Paulo a 9 de maio de 1935 e faleceu em Londres a 9 de junho de 2012
Era filho do escritor Orígenes Lessa
Editor e um dos colaboradores do Pasquim, tinha no jornal a coluna GipGip Nheco Nheco; também no Pasquim criou juntamente com Jaguar o ratinho Sig (referência a Sigmund Freud).

Escreveu:
Os Garotos da Fuzarca (1986,contos)
Ivan Vê o Mundo (1999, crônicas)
O Luar e a Rainha (2005, crônicas)

http://www.livroerrante.blogspot.com.br/2012/06/adeus-ivan-e-muito-obrigada.html