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terça-feira, 7 de agosto de 2012

O maniqueísmo de um julgamento pobre

por Ricardo Cascais

Um dia desses Otto Lara Resende, uma das poucas cabeças livres desse País que escreve para jornais, disse estar cansado desse mundo maniqueísta, onde tudo e todos, para efeitos de publicação, têm que ter um carimbo. Bonito ou feio, bom ou mau, como se a vida e os seres humanos, fossem simples assim. Maniqueísta e simplificado, para facilitar o entendimento dos que compram opinião, que é muito diferente do que comprar informação. E fica assim, ou você esta alinhado com o politicamente correto, ou não tem vez. Eu, por exemplo, ainda nem sei se aceito casamentos homossexuais, mas não tenho nem coragem de falar das minhas dúvidas, com medo de ser linchado.

Assisto ao julgamento do século no STF, ouço o Procurador geral, os advogados, mas fico na dúvida se realmente está mais empolgante do que era Leopoldo Heitor na tribuna, se está mais interessante do que o julgamento do Doca Street, no caso Angela Diniz. Pode ser.

A cobertura da imprensa está pré-definida e as opiniões, como parece que os votos, tambem já estão carimbados.

A mídia já decidiu, ou os ministros condenam os mensaleiros, ou a mídia condena o Supremo.

O Presidente FHC, do alto do seu prêmio de um milhão de dólares, já disse que se convenceu que todos têm que ser condenados, pelo que ele ouviu do Procurador geral, esquecido da compra de votos da sua reeleição, aquela que deu na renúncia do Ronie Von, não o cantor, mas o Santiago. Esqueceu que o seu Zé Dirceu atendia pelo nome de Sergio Motta e que o seu Procurador engavetava tudo, inclusive isso.

Do outro lado Lula manda publicar a oportuna pesquisa que mostra que ele ou Dilma ganham fácil de quem vier pela frente, sabedor que mais forte que o poder só a perspectiva de poder. Nada mais próprio na véspera de um julgamento como esse.

O ilustre Procurador, com seu discurso sem graça, que parecia discurso de formatura de colegial citando Chico Buarque, jura que se convenceu que foi o Dirceu que fez tudo, mas não fala como se convenceu que o Lula não sabia de nada.

Hipocrisia por hipocrisia, a verdade é que o advogado do Dirceu nem gastou todo o tempo, para nos dar saudade dos grandes tribunos. Nem precisava. Quem defendeu melhor o Dirceu foi mesmo o Procurador, que declarou, repetiu e enfatizou que não tem provas, só o testemunho do Roberto Jeferson. Ora, a valer esse raciocínio, chama o Marconi Perillo, que disse lá atrás que o Lula sabia, se bem que agora ele já deve estar muito arrependido do que falou. O que o Procurador quer nos dizer é que se pode condenar como assassino, num homicídio, alguém que não estava na cena do crime, ou dos autos, porque há uma testemunha que assim o diz, ainda que sem provas. IN DUBIO, PRO REU. IN DELÚBIO,PRO DIRCEU.

Eu ate já acredito que foi mesmo o maquiavelico Zé Dirceu quem indicou Gurgel para procurador-geral. Ele já conhecia seu grau de competência.

Mas continuo na dúvida, se Gurgel disse que era entre quatro paredes, de dentro do palácio, que a trama foi urdida, e se ele tem essa convicção mesmo afirmando não ter provas, como pode saber que o chefe da quadrilha estava no quarto andar, onde fica a Casa Civil, e não no terceiro, onde Lula reinou soberano por oito anos???

Não consta dos autos nem uma escutinha telefônica para tirar a duvida? E se Jefferson dissesse como o Marconi, que o Lula sabia, será que o probo procurador pediria com a mesma convicção a condenação do ex-presidente? Será que ele teria essa coragem? E porque nenhum advogado, nem nenhum ministro do Supremo, perguntou isso a ele

Seria o mesmo que Carlos Lacerda acusar Tancredo, o então ministro da justiça, e não Getúlio Vargas, pelo crime da rua Toneleros. Convenhamos, Lacerda ia mais direto ao assunto, era mais corajoso e mais lógico que o Jô Soares de Brasília. Se os Americanos tivessem um Gurgel teriam evitado o impeachement do Nixon e condenado um chefe da Casa Civil que nenhum de nós sabe o nome.

Leio os jornais, desesperançado, e não vejo ninguém falando que o relator desse processo, que pediu sua nomeação para Frei Beto num fortuito encontro de aeroporto, deseja presidir o Supremo como justiceiro para depois ser o primeiro presidente negro da nossa história, uma espécie de Obama sem Michelle. E ninguém fala que o atual presidente da nossa suprema corte fez uma exposição de suas poesias no hall do STF, dando as suas rimas pobres pelo menos a leitura obrigatória de seus súditos, para agora aventurar-se numa possível eleição para Senador pelo Sergipe.

Vaidades, vaidades. Enquanto isso, alguns apavorados ministros de verdade tentam entender as provas exigidas no devido processo legal, com um olho nos autos e o outro nas ruas, nesse teatro de encenações duvidosas.

Teria sido mais simples, Dirceu ter recebido o doutor Antonio Fernado de Souza,pois se é verdade o chá de cadeira, poderá ser o mais caro da história do Pais.

E a Globo, que com essa cobertura queria derrubar as olimpíadas da Record, já percebeu que a audiência dessa novela de mau gosto está longe disso.

Como sabe Otto Lara Resende, ninguém é tão bom ou tão mau quanto parece, ninguém tem toda a razão, e se o mundo maniqueísta já é chato, imagina o maniqueísmo misturado com a hipocrisia dos midiáticos, na voz de oradores monocórdios, sem estilo e sem emoção, de acusadores sem convicção e de defensores sem a indignação dos inocentes.

O Direito fica menor sem doutrinas, os processos sem as provas, as tribunas sem oradores, a justiça sem a isenção própria da Deusa que, de olhos vendados, basta-se do que esta no interior das peças ,cega aos interesses externos das circunstâncias.

Ricardo Cascais é uma eminência parda da política brasileira

domingo, 14 de novembro de 2010

Otto Lara Resende

Crônica publicada na antiga Folha de São Paulo, que não tem nada a ver com a de hoje.


Vista cansada
Otto Lara Resende



Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.


Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.


Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.


Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

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Otto Lara Resende nasceu no dia 1°. de maio de 1922, numa casa na Rua da Matola, 9, em São João del Rei, Minas Gerais. Deixa o jornalismo aos 70 anos e, logo em seguida, a vida. Internado para uma operação sem importância, falece inesperadamente aos 28 de dezembro de 1992, segundo os médicos de "embolia pulmonar" mas, segundo a família, de infecção hospitalar.

Bibliografia:


O lado humano (contos, 1952)
Boca do inferno (contos, 1957 e 1998)
O retrato na gaveta (contos, 1962)
O braço direito (romance, 1964)
A cilada (conto, 1965, publicado em "Os sete pecados capitais)
- As pompas do mundo (contos, 1975)
O elo partido e outras histórias (contos, 1991)
Bom dia para nascer (Crônicas na Folha de S. Paulo, 1993)
O príncipe e o sabiá e outros perfis (História, 1994)
A testemunha silenciosa (Novelas, 1995).