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domingo, 8 de abril de 2012

O voo das borboletas

Texto e sensibilidade no artigo de Ana Mary C. Cavalcante

Por Ana Mary C. Cavalcante

Foto - Edimar Soares



Era uma vez, uma manjedoura de flandres e comidas do lixo. Um rapaz e uma moça com a idade desfigurada e o corpo em fuga. Noites, becos, drogas, aids, polícia. O sono pisoteado pelo chão ou pelo chute, irremediavelmente, duros. Uma menininha que o choro se tornava a única fala, com olhar morto e pelezinha de sapo.

Era uma vez, ao mesmo tempo (porque a história de cada um se encontra e se funde nos sentimentos), uma outra menina. De olhar adestrado e mão estendida. Havia uma mãe (até 20, 21 anos, quando morreu), alguns homens e nenhum pai. À exceção da palavra “mãe”, tudo o que a menina falava eram fomes decoradas. E não sorria – porque o vírus HIV lhe comia os dentes.

Era uma vez negação, desesperança, despedidas.

Contra tudo, uma ressurreição amanheceu para as duas crianças, enquanto pousaram na Casa de Apoio Sol Nascente (Castelão). Como na célebre narrativa de Páscoa, elas venceram a morte - maior - decretada pelos homens. A morte do amor. Ressuscitam da mais profunda solidão.

A menor, que já havia saído do cativeiro de medos e preconceitos ao vencer o vírus da aids no terceiro exame de carga viral (“O caminho das esperanças”. O POVO, 17/4/2011), foi adotada. Outro nome, inteiro – com personalidade, pai, mãe e três irmãos -, lhe batiza a vida nova.

A maior, que nunca desistiu de perguntar por que a tia “não ia buscar logo ela no abrigo” e se “o juiz já assinou pra ela vir pra casa”, retornou ao convívio da família biológica no dia 30 de março.

Pouco tempo, para grandes mudanças. Seja no Eusébio - onde a menorzinha se expande no triplex com piscina e no coração de todos -, seja na Rosalina – onde a maiorzinha se refaz criança nas brincadeiras com a prima e os vizinhos -, seja no abrigo – onde 12 meninos e meninas esperam decisões judiciais e amorosas e a vez de voar do casulo. É preciso reorganizar espaços e entendimentos, explicar saudades e escolhas. “Conversamos sobre isso com as crianças”, diz a assistente social e coordenadora da Casa de Apoio Sol Nascente, Juliana Marcolino, cotidianamente envolvida com restaurações familiares e processos de adoção.

O amor possível
Para o casal de empresários, a quarta gravidez demorou dois anos. O tempo no cadastro nacional de adoção foi maior em expectativas. Tentaram dois irmãos, mas não aconteceu a afinidade. Em 2011, a Vara da Infância e da Juventude do Fórum Clóvis Bevilácqua apresentou-lhes “uma menina de dois anos, com uma doença tratável”, reconstitui o casal.

A descrição trazia um anexo de preocupações e suspeitas. A lista de remédios contra a aids, pregada na cozinha da Casa Sol Nascente, surpreendeu o pai. A neurologista particular assustou a mãe: “A médica ficou impressionada como eu pegava uma criança de abrigo para criar. Ainda tem preconceito”.

Enquanto isso, na mínima casa da comunidade Rosalina, uma jovem tia ensaiava papel de mãe. De sexta a domingo, por um ano, visitou a sobrinha no abrigo, tentando encontrar afetos que esquecera nas obrigações da infância. “Minha mãe me deixava sozinha, com sete anos, cuidando do meu irmão bebê. Eu tinha que fazer o fogo, não tinha fogão, era carvão”, narra-se.

Acabou encontrando, na sobrinha de sete anos, uma certa irmã que existiu antes das drogas e da aids. “Eu tinha uma ligação forte com minha irmã. Foi um pouquinho dela que ficou. E saber que a menina não tem ninguém, então, resolvi ficar com ela”.

Em que pesem as adaptações, a adoção se mostra um amor possível. “Após nosso terceiro filho, sentimos que teria mais espaço... Para minha existência, ela fez um bem muito grande”, emociona-se o empresário.

“Papai”, a propósito, foi a primeira palavra que a menorzinha libertou do silêncio. Hoje uma extensão dos irmãos, ela já repousa no abraço do pai e sonha no beijo da mãe. Era uma vez, reverte o casal, “uma noite escura. A história que quero contar para ela é que ela nasceu no dia em que a conheci”.

Na Rosalina, dita-se também outro nascimento. “Quero uma história digna para ela”, firma a tia, cuidando das medicações e consultas da sobrinha. Os exames para monitorar o HIV são uma primeira página: “Ela está muito bem, as células agressivas estão menores. A expectativa é de uma pessoa normal. Ela vai viver até ficar velha!”, une-se a tia. O mais, é céu. Esta é uma versão para o voo das borboletas.

* O POVO não revela o nome das pessoas a pedido dos envolvidos.
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Onde

As crianças estavam abrigadas na Casa Sol Nascente (avenida Alberto Craveiro, 222, Castelão. Telefone: 3469.4437). A casa de apoio para órfãos ou soropositivos integra-se a outras obras assistencias do Condomínio Espiritual Uirapuru

Saiba mais

O Projeto Sol Nascente se desdobra ainda em uma casa alugada para acolhimento de 12 adultos soropositivos, sequelados e apartados pela aids. No dia 30 de janeiro de 2011, com a matéria “Uma casa para recomeçar”, O POVO iniciava a campanha “Segure a minha mão”, para a construção de um local adequado aos pacientes adultos. Com recursos do Estado, informa a coordenadora da instituição, a nova casa já desponta no Condomínio Espiritual Uirapuru e deve ser concluída até julho.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2012/04/07/noticiasjornalfortaleza,2816500/o-voo-das-borboletas.shtml

domingo, 22 de janeiro de 2012

Concentra, Mas Não Sai. Alegria, brilho e disposição

Por Julia Lopes
Fotos Edimar Soares

Fantasiado de alegria, brilho e disposição, o público festejou a primeira noite do bloco Concentra, Mas Não Sai, que tomou a Praça do Ferreira na noite de ontem.


E, como de costume, se dançou suor e cerveja, misturando por ali mascarados, velhinhos e crianças. Todos espalhados pela Praça, sem apertos - o que deixou o entrançado dos dançarinos algo mais eloquente. (Nada parecido com outras festas já queridas pela cidade, como o Pré-Canaval que acontece na Praia de Iracema - e mesmo de anos anteriores do próprio Concentra, ali no Centro).
No Pré-Carnaval celebrado ontem, ficou fácil marcar de encontrar os amigos, de se achar e de dançar puxando pelo braço.

"Acho tão bonito essas alegorias", comentava a feirante Silvia Moura, 46, quietinha num canto da Praça. Mesmo que não estivesse empolgada para dar um passo adentro da folia, ela ficava feliz em observar. Passava por ela uma freira de movimentos lascivos, um Chapolin vendedor de bugingangas, um folião de colar de havaiano.


Poucos metros dali, de braços abertos, cantando a toda voz, ao mesmo tempo em que trotavam compassadamente, os irmãos Pedro e Chico Cardoso reclamavam por Aurora, que não era sincera, ô, ô, ô.


As pequenas Maria Clara e Maria Luiza, as duas de três anos, foram de princesa e fadinha. E como as outras mulheres da família, elas dançavam, sorriam e achavam tudo divertido. "Eu vim com a minha mãe, minha filha, minha prima. É muito massa aqui", comentava uma delas, Socorro Guerra, 57, que também desfila no Carnaval, no Maracatu Rei do Congo. "E nas Bruxas, e no Bloco Doido é tu", dizia de novo, tentando abafar o barulho da banda de cima do palco montado.

Um dos organizadores do bloco atentou para a ausência das barracas fixas que antes vendiam bebidas e comidas. Os banheiros químicos formavam filas, mas o entorno parecia estar protegido dos descuidados. Táxis eram poucos, e não foi necessário conter o trânsito - ele praticamente não existia.

CURTI

MISTURA
Ao contrário da frase feita que repreende a origem diversificada dos foliões, o Concentra fica ainda mais divertido por ter um público de várias cores, idade e classe social. É na mistura que ele se fortalece.

QUEM LEVOU ISOPOR
Alguns foliões foram precavidos e levaram eles sua própria bebida. O gasto é menor e o conforto maior.

FANTASIAS
Muitos foliões brincaram de fantasias feitas por eles mesmos, com muitobrilho e movimento. Já os adereços femininos faziam a cabeça das mais discretas

NÃO CURTI

POUCOS AMBULANTES
Para cerveja, água ou refrigerante, era preciso dar uma voltinha pela Praça do Ferreira e procurar pelos ambulantes

VIDA INDIGNA
Na Praça moram pessoas esquecidas pelo poder público. Alguns deles com filhos crianças, sem condições mínimas de sobrevivência.