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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

"O acto sexual é para ter filhos - diz ele"

Por Natália Correia


"O acto sexual é para ter filhos - diz ele"

Já que o coito — diz Morgado —
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou — parca ração! —

uma vez. E se a função
faz o órgão — diz o ditado —
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Natália Correia em resposta a João Morgado, deputado da bancada parlamentar do CDS (Portugal), no debate sobre a legalização do aborto, no dia 3 de Abril de 1982.





terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O conservadorismo na Câmara de Fortaleza

por Meiry Coelho

No artigo passado, chamei a atenção para o Projeto de Lei 223/2012, de autoria do atual presidente da Câmara de Fortaleza, que tem como objetivo instituir no calendário oficial da cidade a Marcha pela Vida e Contra o Aborto. É dele também a proposta de transmitir na TV Pública Legislativa missas e cultos, denotando que conduzirá seu mandato por princípios morais e religiosos, negando o caráter laico do Estado brasileiro e da Constituição Federal.

O PL 223/2012, por exemplo, resulta da articulação de grupos conservadores e está tramitando na Câmara Municipal de forma privada, sem permitir o acompanhamento da sociedade civil.
Não há informação na Procuradoria Municipal e o site da Câmara não permite o acompanhamento do projeto.

É inegável o interesse do Movimento Provida e dos grupos conservadores entranhados na cena política municipal no trabalho da Comissão Especial para a Reforma do Código Penal Brasileiro, especificamente no que concerne ao artigo 128 de descriminalização dos casos de interrupção da gravidez que “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação, quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade”.

Embora compreenda a proposta como tímida, é, sem dúvida, um avanço, exigindo do prefeito de Fortaleza o apoio ao debate e o imediato veto ao PL 223/2012. Apoiar esta marcha é reforçar o grau de hipocrisia com o qual o aborto é tratado no Brasil, pois a grande maioria das/dos brasileiras/os já viveu e compartilhou alguma situação envolvendo a decisão ou o apoio a uma mulher que realizou o aborto. O que fica patente é a existência de uma dupla moral, a que marcha e condena o aborto, e a outra tolerante quando o assunto está no âmbito privado. Ao Município cabe combater a mortalidade materna, normatizar e qualificar o serviço público de saúde para melhor conhecer e atender as mulheres quando abortam, jamais a criminalização ou o apoio à perseguição feita por grupos conservadores e religiosos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nota da Marcha Mundial de Mulheres

Via Sarah Luiza

Pela descriminalização e legalização do aborto

Hoje, 11 de novembro de 2012, nós, militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará, fomos ao aterrinho da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE, para mostrarmos a sociedade que também somos a favor da vida. Para mostrarmos nossa indignação à criminalização das mulheres que recorreram à prática do aborto.

Não acreditamos que o aborto é questão de polícia, mas de saúde pública. Ao tratar o aborto como crime, acabamos por contribuir para que milhares de mulheres, em sua maioria negra e pobre, morram.


 Essa hipocrisia dá hemorragia


Tratá-lo como um ato clandestino, preferindo negar a realidade da falta de uma política pública integral de saúde sexual e reprodutiva, tem trazido problemas de saúde física e psicológica para as mulheres, além de risco de morte.
A prática do aborto clandestino é a quinta maior causa de internação hospitalar de mulheres no SUS, responde por 9% das mortes maternas e 25% das causas de esterilidade por problemas tubários. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com seqüelas de aborto.
Tratar as mulheres que por algum motivo acabaram por recorrer à prática do aborto como criminosas não resolverá o problema, pois ao negá-lo continuaremos vendo mulheres sangrando nos corredores dos hospitais sem atendimento, além de serem maltratadas no serviço de saúde pela simples suspeita de terem provocado um aborto.
Não podemos deixar de considerar que na sociedade machista em que vivemos grande parte as mulheres ainda têm pouco autonomia sobre seus corpos, sobre a decisão no uso dos contraceptivos e frente ao desejo da maternidade. Ainda assim são elas que sofrem a acusação de criminosas. Por isso perguntamos “Cadê o homem que engravidou? Porque o crime é da mulher que abortou?”.
Não nos cabe julgar os motivos que fizeram uma mulher buscar o abortamento, nem acreditamos que a questão deva ser tratada a partir de uma perspectiva religiosa. Vivemos em um estado laico que não deve permitir que as religiões definam as leis e se imponham sobre a vida de todas as pessoas.
Precisamos acabar com essa hipocrisia! Muitas mulheres estão morrendo! Defender a vida é defender a legalização do aborto com assistência garantida no Sistema Único de Saúde.
Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto seguro para não morrer!


Fortaleza, 11 de novembro de 2012.

Marcha Mundial das Mulheres - Ceará

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A questão do aborto

Por Drauzio Varela

Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ele. Como consequência, milhões de adolescentes e mães de família que engravidaram sem querer recorrem ao abortamento clandestino, anualmente.

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

A natureza clandestina do procedimento dificulta a procura por socorro médico, logo que a febre se instala. Nessa situação, a insegurança da paciente em relação à atitude da família, o medo das perguntas no hospital, dos comentários da vizinhança e a própria ignorância a respeito da gravidade do quadro colaboram para que o tratamento não seja instituído com a urgência que o caso requer.

A septicemia resultante da presença de restos infectados na cavidade uterina é causa de morte frequente entre as mulheres brasileiras em idade fértil. Para ter ideia, embora os números sejam difíceis de estimar, se contarmos apenas os casos de adolescentes atendidas pelo SUS para tratamento das complicações de abortamentos no período de 1993 a 1998, o número ultrapassou 50 mil. Entre elas, 3.000 meninas de dez a quatorze anos.

Embora cada um de nós tenha posição pessoal a respeito do aborto, é possível caracterizar três linhas mestras do pensamento coletivo em relação ao tema.

Há os que são contra a interrupção da gravidez em qualquer fase, porque imaginam que a alma se instale no momento em que o espermatozoide penetrou no óvulo. Segundo eles, a partir desse estágio microscópico, o produto conceptual deve ser sagrado. Interromper seu desenvolvimento aos dez dias da concepção constituiria crime tão grave quanto tirar a vida de alguém aos 30 anos depois do nascimento. Para os que pensam assim, a mulher grávida é responsável pelo estado em que se encontra e deve arcar com as consequências de trazer o filho ao mundo, não importa em que circunstâncias.

No segundo grupo, predomina o raciocínio biológico segundo o qual o feto, até a 12ª semana de gestação, é portador de um sistema nervoso tão primitivo que não existe possibilidade de apresentar o mínimo resquício de atividade mental ou consciência. Para eles, abortamentos praticados até os três meses de gravidez deveriam ser autorizados, pela mesma razão que as leis permitem a retirada do coração de um doador acidentado cujo cérebro se tornou incapaz de recuperar a consciência.

Finalmente, o terceiro grupo atribui à fragilidade da condição humana e à habilidade da natureza em esconder das mulheres o momento da ovulação, a necessidade de adotar uma atitude pragmática: se os abortamentos acontecerão de qualquer maneira, proibidos ou não, melhor que sejam realizados por médicos, bem no início da gravidez.

Conciliar posições díspares como essas é tarefa impossível. A simples menção do assunto provoca reações tão emocionais quanto imobilizantes. Então, alheios à tragédia das mulheres que morrem no campo e nas periferias das cidades brasileiras, optamos por deixar tudo como está. E não se fala mais no assunto.

A questão do aborto está mal posta. Não é verdade que alguns sejam a favor e outros contrários a ele. Todos são contra esse tipo de solução, principalmente os milhões de mulheres que se submetem a ela anualmente por não enxergarem alternativa. É lógico que o ideal seria instruí-las para jamais engravidarem sem desejá-lo, mas a natureza humana é mais complexa: até médicas ginecologistas ficam grávidas sem querer.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e
encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente.

Dia pela Descriminalização do Aborto na América Latina e no Caribe.