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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O BERÇO DA BOSSA NOVA

Por Flávia Ribeiro

Fotos Eduardo Zappia






Nos fim dos anos 1950 e ao longo dos 1960, quatro bares localizados em uma travessa sem saída na Rua Duvivier, em Copacabana, concentravam shows da nata da então incipiente bossa nova. No Ma Griffe, Little Club, Bacará e Bottle’s Bar apresentaram-se Elis Regina, Nara Leão, Baden Powell, Sérgio Mendes, Leny Andrade e muitos outros. Na época, o lugar era chamado de Beco das Garrafas, pois moradores dos prédios vizinhos lançavam das ditas cujas para acabar com o burburinho provocado pelos assíduos frequentadores. Abandonado por décadas, o local está de volta, depois de um projeto de revitalização capitaneado pela cantora e produtora Amanda Bravo e com investimentos da Heineken.

Filha do músico Durval Ferreira, coautor de clássicos da bossa nova como Estamos Aí e Tristeza de Nós Dois, Amanda decidiu realizar o sonho do pai, morto em 2007, e pôs de pé os planos de transformar o Beco das Garrafas novamente em um lugar relevante para a cena musical carioca. “Aquele foi um ambiente fértil, que ajudou a revolucionar a MPB. Meu pai e um sócio, Sérgio De Martino, tentaram revivê-lo no fim da década de 80, mas a ideia não foi para a frente. Há pouco mais de um ano, liguei para o Sérgio. Transformamos o Bottle’s e o Bacará em um só espaço e abrimos no último réveillon”, conta ela.




Por uma feliz coincidência, a Heineken havia incluído o Rio de Janeiro em sua campanha global, Cities of the World, com lançamento de garrafas comemorativas e investimento em locais icônicos de seis cidades: além da capital fluminense, Nova York, Xangai, Berlim, Amsterdã e Londres. E o Beco das Garrafas foi o grande escolhido na Cidade Maravilhosa para ser o centro do projeto e passou por uma ampla reforma.




“Queremos resgatar a história da bossa nova e o frescor que a musicalidade brasileira possui. Para isso, nada melhor do que o ponto que foi o berço desse estilo musical”, explica Bernardo Spielmann, diretor de marketing da marca e de patrocínios da cervejaria no Brasil. “O Bottle’s Bar, com o Bacará incorporado a ele, e o Little Club passaram por uma reestruturação completa, preservando o formato original. Foram feitas diversas reformas em alvenaria, aprimoramentos no design e na decoração, sempre respeitando sua rica história.”





A reinauguração foi realizada em setembro, com um show em homenagem a Elis Regina. Desde então, há apresentações de terça a sábado, sempre das 18h às 2h. Já passaram por lá, nessa nova fase, nomes como Victor Biglione, Chico Batera, Carol Saboya, Ricardo Silveira e Patrícia Marx, além de novos talentos, como Júlia Vargas e Suricato. Duas vezes por mês, aos sábados, há ainda o Clubinho, às 16h, com espaço para bandas formadas por crianças e cantores mirins. No cardápio, petiscos como aipim frito, pastéis, casquinha de siri, sanduíches e batata frita. Para beber, cerveja, chope e drinks.





“O lugar é tipicamente carioca, no coração de Copacabana. É despojado, pois qualquer um pode frequentá-lo de bermuda e havaianas”, comenta Amanda, garantindo que nenhum vizinho jogou garrafas desde sua reabertura.

Beco das Garrafas, R. Duvivier, 37, Copacabana, Rio de Janeiro. Couvert artístico entre R$30 e R$50. T 21 2543 2962

http://www.azulmagazine.com.br/v1/?p=8678/bottlesbar.com.br

QUANDO A IDADE É UM MERO DETALHE

Por André Barcinski



Um artista pode ser mais produtivo aos 80 anos do que aos 30? O cantor e compositor canadense Leonard Cohen, recentemente octogenário, prova que sim.

Cohen acaba de lançar Popular Problems, seu segundo álbum em dois anos (o terceiro, se contarmos o ao vivo Live in London), e tem feito as turnês mais longas e de maior sucesso da carreira. Conhecido como um perfeccionista, que leva muito tempo para terminar uma música e chega a passar cinco ou até nove anos entre discos, ele está em sua fase mais produtiva.

E pensar que tudo isso aconteceu por necessidade financeira. Em 2004, se aposentou da música para passar o resto de seus dias num monastério budista na Califórnia, quando descobriu que sua agente havia surrupiado todo seu dinheiro. A solução foi voltar à estrada.

Em 2008, Cohen anunciou sua primeira turnê em 15 anos. E uma coisa misteriosa e inexplicável ocorreu: seu público se multiplicou. De repente, ele não estava mais tocando em pequenos teatros, mas em ginásios lotados com 10 ou 15 mil pessoas. Durante sua ausência, novas gerações passaram a conhecer e amar sua música.

A turnê foi um sucesso estrondoso e rendeu o CD e DVD Live in London. E o compositor não saiu mais da estrada. Em 2012, lançou Old Ideas, seu primeiro disco de estúdio em oito anos. Suas turnês ficavam mais longas e os shows, cada vez mais extensos e emocionantes.

Tive a sorte de ver uma de suas apresentações, no Palacio de Deportes, em Madri. Mais de 14 mil pessoas lotavam o lugar. Cohen e banda tocaram por exatas quatro horas, com um intervalo de 15 minutos no meio para todos recobrarem as forças. Um tour de force comovente, em que artista e público mostraram um afeto mútuo que nunca vi em nenhum outro show.

Até o fim de 2014, ele promete divulgar datas de sua próxima turnê mundial. Vamos torcer para que finalmente inclua o Brasil.

http://www.azulmagazine.com.br/v1/?p=8598