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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nota da Marcha Mundial de Mulheres

Via Sarah Luiza

Pela descriminalização e legalização do aborto

Hoje, 11 de novembro de 2012, nós, militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará, fomos ao aterrinho da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE, para mostrarmos a sociedade que também somos a favor da vida. Para mostrarmos nossa indignação à criminalização das mulheres que recorreram à prática do aborto.

Não acreditamos que o aborto é questão de polícia, mas de saúde pública. Ao tratar o aborto como crime, acabamos por contribuir para que milhares de mulheres, em sua maioria negra e pobre, morram.


 Essa hipocrisia dá hemorragia


Tratá-lo como um ato clandestino, preferindo negar a realidade da falta de uma política pública integral de saúde sexual e reprodutiva, tem trazido problemas de saúde física e psicológica para as mulheres, além de risco de morte.
A prática do aborto clandestino é a quinta maior causa de internação hospitalar de mulheres no SUS, responde por 9% das mortes maternas e 25% das causas de esterilidade por problemas tubários. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com seqüelas de aborto.
Tratar as mulheres que por algum motivo acabaram por recorrer à prática do aborto como criminosas não resolverá o problema, pois ao negá-lo continuaremos vendo mulheres sangrando nos corredores dos hospitais sem atendimento, além de serem maltratadas no serviço de saúde pela simples suspeita de terem provocado um aborto.
Não podemos deixar de considerar que na sociedade machista em que vivemos grande parte as mulheres ainda têm pouco autonomia sobre seus corpos, sobre a decisão no uso dos contraceptivos e frente ao desejo da maternidade. Ainda assim são elas que sofrem a acusação de criminosas. Por isso perguntamos “Cadê o homem que engravidou? Porque o crime é da mulher que abortou?”.
Não nos cabe julgar os motivos que fizeram uma mulher buscar o abortamento, nem acreditamos que a questão deva ser tratada a partir de uma perspectiva religiosa. Vivemos em um estado laico que não deve permitir que as religiões definam as leis e se imponham sobre a vida de todas as pessoas.
Precisamos acabar com essa hipocrisia! Muitas mulheres estão morrendo! Defender a vida é defender a legalização do aborto com assistência garantida no Sistema Único de Saúde.
Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto seguro para não morrer!


Fortaleza, 11 de novembro de 2012.

Marcha Mundial das Mulheres - Ceará

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Diálogos das vaginas

Por Sarah Luiza Souza Moreira

Prefiro diálogos a monólogos. Pensar e falar sozinha sempre me pareceu mais difícil. Mas conheci um diálogo que falou com muitas, com várias, de todas: “Os Monólogos da Vagina”, de Eve Ensler.

Quando li pela primeira vez o título do livro, o primeiro pensamento que me veio à cabeça, devo admitir, foi: pra que nos expor dessa forma? Ao lê-lo, entendi: expor exatamente para não esconder, para mostrar que ela (a vagina, isso mesmo) existe, que ela é importante, para não mais fingir que ela não existe. Mas preciso explicar como cheguei a essa conclusão.

Já no prefácio de Glória Steinem, onde ela se remete a uma geração do “lá embaixo”, me perguntei: será que essa geração já passou? Será que ainda não é assim que tratamos no cotidiano as partes íntimas das mulheres? Como vejo nossos órgãos sendo tratados? E as próprias questões foram me dando indícios das respostas: sempre temos uma forma indireta, discreta, sutil para falar do corpo, da vagina das mulheres.

Lembrei-me, então, de momentos que tive com alguns grupos de agricultoras rurais no Semiárido do Ceará, em 2012, onde conversávamos sobre violência contra as mulheres. As participantes tinham desde 25 até 60 anos, filhas, mães, avós. É sintomático perceber como que, através do tema, acabávamos por falar de sexo. O objetivo nem era tratarmos sobre sexo, mas ao falarmos sobre a importância do desejo mútuo para que a relação sexual fosse prazerosa, parecia que estávamos dizendo algo absurdo, algo muito distante do real. Algumas até perguntavam, para entender do que eu estava falando, “e você é casada?”, “Não pode ser...”, pensavam.

A ideia – que parece simples para algumas de nós – da necessidade do consentimento das mulheres ou da vontade do casal para uma relação saudável e prazerosa parecia estranha. Muitas comentaram: “Quando eu digo que não quero, que estou com dor de cabeça, ele vai logo dizendo que eu tenho outro”. E elas acabam “cedendo” para agradar aos maridos e não gerar conflitos. Ver o quanto a violência sexual, o estupro, é parte do cotidiano das mulheres, dentro de suas casas, é algo chocante, impactante. Não podemos nos calar.

Não poderia, no entanto, deixar de lembrar que paralelo aos estupros domésticos, ainda vimos, nesse ano, casos absurdos de estupros coletivos, como das jovens que foram estupradas e até mortas pelos próprios “amigos”, como presente de aniversário na Paraíba, e de estupros “corretivos”, que tratam as lésbicas como mulheres que precisam “saber o que é um homem” para se regenerarem. Assustador!

Desejo e prazer, para muitas delas, pareciam palavras ainda sem significado real ou algo que não dizia ou deveria dizer respeito a elas, como algo “que não é coisa de mulher”. Para outras, admitir que gostam de sexo é algo vergonhoso de se admitir, como se isso fosse algo para mulheres vulgares. Isso ficou muito explícito em comentários onde algumas afirmavam, como que em segredo: “Mas tem mulheres que gosta... Absurdo!”, em um posicionamento explicitamente de cunho religioso, onde o sexo ainda é considerado como pecado. Mas expresso também em piadas onde algumas eram citadas, apontadas como “aquele que gosta daquilo”, tornando-se chacota, piada para as demais.

Esses comentários me trouxeram a lembrança de um livro de Mary Del Priori, onde ela se refere ao Brasil colonial como um período do ideal do amor domesticado. Deu-me a sensação de que ainda vivemos um retrato desse ideal, onde não o amor e o sexo ainda são tratados como algo que precisa ser contido, reservado, um serviço. E mais do que isso, algo que legitima o desejo e o prazer apenas para os homens.

“Tal como o Historiador Edward Shorter para a Europa do Antigo Regime, os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar perante o outro. Os maridos deviam mostrar-se dominadores, voluntariosos no exercício da vontade patriarcal, insensíveis e egoístas. As mulheres, por sua vez, apresentavam-se, como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas mulheres como máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais mecânicas e despidas de expressões de afeto. Basta pensar na facilidade com que eram infectadas por doenças venéreas, nos múltiplos partos, na vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei” (PRIORI. Mary Del, 2006, pg.37)

Falar sobre o sexo e o corpo das mulheres ainda gera incômodo, ainda é, em pleno sexo XXI, algo constrangedor. A vergonha se expressa pelo fato de pouco se falar sobre o assunto e, portanto, ser ainda um mistério para muitas. Como nos relatos das mulheres em 1953, no livro “Monólogos da vagina”, ainda hoje, muitas dessas mulheres não conhecem seu próprio corpo, poucas se tocam, se sentem. Falar na vagina, por exemplo, é algo que ainda causa desconforto, estranhamento e até mesmo nojo, como se estivéssemos falando de algo sujo ou que devesse continuar escondido. As risadinhas desconcertadas e os olhares desconfiados pareciam perguntar: Como ela pode falar desse jeito? Será que ela falou mesmo esse nome?

É claro que existe uma diferença entre o olhar das jovens, das adultas casadas e das idosas: para as idosas o sexo remete a dor, a sofrimento. Elas lembravam e comentavam, quanto às relações sexuais, que foram forçadas, por obrigação, para servir ao marido. Para as adultas casadas, o sexo é visto como uma necessidade para se conservar o casamento, para que os homens não busquem mulheres “lá fora”. Para as jovens solteiras, ainda há a vergonha de admitir o desejo, de se falar das vontades, são cheias de dúvidas, mas também de razões e certezas de que querem ter direito a sentir prazer.

Falamos sim de muitos avanços, de diversas conquistas que as mulheres têm tido nas últimas décadas no campo dos direitos, ampliando sua participação no mercado de trabalho e na política. Mas ouvir essas mulheres falando sobre sua vida pessoal, íntima, me deixou os seguintes questionamentos: quando teremos de fato autonomia sobre nosso corpo? Quando conseguiremos realmente ter prazer e não precisar ter vergonha disso? Quando não mais trará constrangimento falarmos da nossa vagina? Pois é, companheiras, a luta continua. Continuemos em marcha!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Crise econômica pode ampliar desigualdades...


Por Bia Barbosa, via Sarah Luiza

SÃO PAULO - Historicamente, as relações desiguais entre homens e mulheres na sociedade foram sustentadas pela separação e hierarquização do trabalho através do sexo. O trabalho de homens e mulheres é separado entre produtivo e reprodutivo, e é hierarquizado de tal forma que o trabalho produtivo, considerado "masculino", tem maior valor econômico que o reprodutivo, considerado "feminino". Historicamente, também foram relegados às mulheres o trabalho doméstico e de cuidados, não remunerados e excluídos do que se compreende hoje por economia. 

Romper com a divisão sexual do trabalho sempre foi uma luta do movimento feminista. Porém, num cenário de crise capitalista como o atual, colocar este tema no centro do debate é estratégico para combater as desigualdades entre homens e mulheres. Reunidas esta semana num seminário internacional em São Paulo, especialistas do campo da economia feminista de diferentes partes do mundo afirmaram: é urgente construir uma nova dinâmica de relações sociais e desenhar um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana.

"A divisão sexual dos trabalhos profissional e doméstico entre homens e mulheres não é resultado de uma conciliação harmônica entre papéis, mas de relações sociais contraditórias e antagônicas. É reflexo de relações de exploração, opressão e dominação dos homens sobre as mulheres", afirma Helena Hirata, socióloga e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. "Daí a importância de reconceitualizar o trabalho da maneira mais ampliada possível, de ter uma visão ampla de trabalho: profissional e doméstico, remunerado ou não, formal ou não formal. Se excluímos o trabalho doméstico da economia, tornamos invisível grande parte do trabalho das mulheres", explica. 

O tema não é novidade. Apesar do ascenso das mulheres no mercado de trabalho nos últimos 45 anos - incluindo a ultrapassagem dos homens no campo da escolaridade em quase todas as áreas - os trabalhos domésticos e de cuidados permanecem a cargo das mulheres. Na França, por exemplo, uma mulher casada com filhos dedica ao trabalho doméstico 4,36 horas por dia, enquanto os homens destinam apenas 2 horas aos serviços da casa e da família. No Japão, a desigualdade é brutal: mais de 4 horas por dia para as mulheres contra 20 minutos dos homens. No Brasil, a última pesquisa do IBGE mostrou que, em 2009, as brasileiras dedicavam 20 horas semanais ao trabalho doméstico contra 9,5 dos homens.

Segundo as pesquisas, a desigualdade também persiste no mercado de trabalho convencional. Com o aprofudamento da globalização, a precarização do trabalho atingiu mais as mulheres do que os homens do ponto de vista do emprego. "Os empregos femininos criados são vulneráveis, com condições de trabalho precarizado. Lutamos muito para haver trabalho profissional para as mulheres, mas isso reforçou toda uma lógica de trabalho precarizado", disse Helena Hirata. "E as mulheres que saíram de casa para trabalhar o fizeram com o que chamamos de externalização do trabalho doméstico, via delegação das tarefas de cuidar das roupas, da casa e das crianças para outras mulheres. Esta delegação é incrivelmente desenvolvida no Brasil. Em 2010 eram quase 7 milhões de mulheres diaristas", acrescenta.

Para a equatoriana Magdalena Leon, da Rede Latino-americana Mulheres Transformando a Economia (REMTE), o próprio modelo capitalista se encarregou de tornar as mulheres visíveis e de instrumentalizá-las para sua sustentação, com a multiplicação de trabalhos. "Durante o ajuste neoliberal, por exemplo, quando o que estava em jogo era a mercantilização da vida, as mulheres desenvolveram estratégias de sobrevivência, afirmando nosso papel como permanentes geradoras de meios de vida e condições de subsistência, que vão além do dinheiro", relata. "Nós, feministas, recuperamos princípios de uma outra economia: a reciprocidade, solidariedade e complementariedade, em vez da concorrência e eliminação do outro", conta.

Agora, num novo cenário de crise capitalista, o risco de ampliação da desigualdade entre homens e mulheres crescer no mundo do trabalho é enorme, avaliam as feministas. Seja porque as mulheres já ocupam os trabalhos mais precarizados, que tendem a se ampliar; seja porque a retirada do Estado de serviços essenciais redundará em mais trabalho para as mulheres. 

"O objetivo é reduzir o que se considera necessário para garantir as condições de vida dos trabalhadores, que custam muito. Então o Estado transfere e privatiza serviços públicos", critica Antonella Picchio, da Universidade de Módena, na Itália. Para ela, o tempo e o trabalho das mulheres são utilizados como se fossem recursos inesgotáveis para sustentar o atual modelo econômico da sociedade.

"O problema do trabalho não pago é central para as mulheres. Ele é usado para fazer com que os recursos monetários distribuídos com o trabalho pago bastem para sustentar a casa, porque outros - no caso as mulheres - trabalham sem receber. É um problema claro. O sistema descarrega nas famílias uma tensão grande acerca dos recursos necessários para a vida e usa as mulheres para o trabalho doméstico e de cuidados", explica Antonella, para quem o trabalho não pago está no centro do conflito da questão produtiva, distributiva e política contemporânea.

Estado cuidador
Para enfrentar as desigualdades entre homens e mulheres no mundo do trabalho, é necessário, na avaliação das especialistas presentes ao seminário, transformar a atual divisão sexual do trabalho no que diz respeito ao trabalho doméstico e cobrar o Estado sua responsabilidade com o trabalho de cuidados. "O cuidado não é uma atitude de preocupação e solicitude com o outro, mas é também um trabalho concreto, material", afirma Helena Hirata. "Temos que construir um Estado que é cuidador, responsável e participativo. Não podemos pensar no bem estar como algo que se dará natualmente", acrescenta Antonella Picchio.

Na agenda política de alguns países, o trabalho de cuidados já em sendo redefinido como um fluxo de ações com resultados materiais substantivos para a vida. A CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão das Nações Unidas, já afirma em seus documentos que o cuidado de pessoas dependentes deve ser compartilhado entre o Estado e as famílias. "É uma agenda que aos poucos começa a ser consenso entre líderes políticos da região. Estamos em momento de inflexões, de reflexões e redefinições de relações", analisa Magdalena Leon. "Mas esta crise está andando em grande velocidade e é uma das maiores. E se as mulheres não lutarem por outra política, serão sacrificadas", conclui Antonella.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20817

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Bar Ideal


Por Rogério Lama 

Sob um olhar minimalista, como seria o bar ideal?
Já se perguntou que essência move a pessoa a sair de casa (ou não voltar pra ela) pra se manter num lugar cheio de desconhecidos, imerso em azulada fumaça de cigarros e investindo seus parcos sono e dinheiro?
Não serei cínico e advogar pelos caseiros. Amo os bares, assim como a maior parte daqueles que se interessaram pelo título do texto e decidiram prosseguir com ele.

Passamos pela vida perseguindo o amor, o emprego... e o bar ideal.

O bar ideal segue uma única premissa: todos têm de se sentir bem. Não é tão simples quanto parece. O bem estar não pode estar restrito ao ébrio falastrão com dedo em riste a pedir e mentir.
O garçom tem de se sentir honrado no sacro exercício de manter aceso o elo entre o freezer e o copo. E tem também que molhar o bico, caso isso lhe fizer bem. Aliás, alguns anseios do ébrio só podem ser decodificados por outro em semelhante status.

O vizinho do bar ideal também tem de querer essa vizinhança. Deve aguardar ansiosamente pelas 19:03:57hs*, que é quando o bar abre as portas. Cantarola, molhando o braço do sofá com o suor do copo, aquele samba que há tempos não se toca.
O dono do bar também tem de se sentir bem. Não por minar o dinheiro dos bêbados. Tem de estar realizado por ser dono de um lugar cheio de gente feliz, que não pensou noutro lugar para estar que não no seu bar. E o dono também tem que beber. Só a leveza da embriaguez permite o orquestrar de tantos fatores que mantêm ideal o bar ideal.

Acontece que, de tanto buscar o bar ideal, foi ele que me encontrou. Entre prédios e ventilado pela brisa de Copacabana numa minúscula rua sem saída, acabei sucumbindo ao alçapão do Bip Bip.

O Bip Bip é o bar ideal e atestar isso não tarda mais que alguns minutos. Lá, todos se sentem bem e integrados. O lugar é minúsculo e só cabem cinco mesas, onde quatro delas são de exclusivo uso dos músicos, que se revezam nas cadeiras. Lá conheci um chileno que esperou paciente a sua vez de sentar à mesa e desfilar magistralmente quase todos os Afro-Sambas de Baden/Vinícius acompanhado por um pandeirista fantasiado de anjo de minissaia. Sambas antigos e nunca gravados também ecoam nas estreitas paredes do Bip Bip, e quem não conhece a letra espera a hora do “Laiá Laiá”. Um outro violonista, de cabelo prateado, dorme de pinho na mão até ser carregado pelo filho pra casa.


Ainda que pessoas felizes sejam espaçosas, no Bip Bip só se canta baixinho. Palmas? Só estalando os dedos, afinal, os clientes que não cabem no bar estão nos apartamentos que se acotovelam no seu entorno, e as vezes, adormecem antes que o bar.
Garçom não existe no Bip Bip. Quem quiser que se sirva, bastando apenas informar ao dono do bar. Ele anota tudo num calhamaço de folhas presas sob sua taça de vinho, que é abastecida pelos clientes que dividem com ele a quinta e última mesa do bar, que conta ainda com vasilhas empilhadas e uma caixa de garrafa de uísque para moedas, além de um pedaço grande de pão.

Alfredinho rege esse espaço há quatro décadas e é tão querido que suas grosserias acabam entrando para o folclore do bairro. Quando o bar não vai bem, os clientes arregaçam as mangas e não medem esforços para levantá-lo. Todo aquele que vai lá, acaba carregando um pouquinho da responsabilidade de mantê-lo.
Esse bar quarentão precisou até de um livro para guardar uma parcela de suas incríveis histórias. Desde como foi adquirido até as histórias de João Pinel, o louco de estimação do bar. Tudo contado pelos clientes.
Saí de lá com medo de não voltar mais ao bar ideal. O Rio é longe e o Alfredinho pode em breve querer descansar da nossa cara.

Dedico, " O bar Ideal"  aos meus companheiros Damasceno, Dedé, Deysa, Falcão, Marcus Feitosa, Marvioli, Sarah e Wagner, que fazem da mesa de bar, meu divã.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A BAGACEIRA - SIBA

VIA SARAH LUÍZA



A bagaceira
(Siba)

Dei uma pirueta
Pulei do portão pra fora
Depois soltei meu grito
Orvaiô rachou se tora
Na rua eu faço passo
Da canela fazer nó
Se o pé formar um calo
Pulo de uma perna só

E avise ao pessoal
Que eu não estou normal

Pode acabar-se o mundo
que eu vou brincar carnaval

Não quero fantasia
Vou me vestir como der
Num dia eu melo a cara
Num outro eu vou de mulher
Pra enganar a fome
Não quero espeto da praça
Dou um chupão no Gellys
E o tira-gosto é cachaça

E eu não fico legal
Com água mineral

Pode acabar-se o mundo
que eu vou brincar meu carnaval

Já no primeiro gole
Vou ficando carrancudo
Viro um bebo valente
Que  não aguenta cascudo
Chama'ro um camburão
Pra acabar com a brincadeira
Porém, só não adianta
Me prender na quarta-feira

Senhor policial,
Reserve um chá de pau

Pode acabar-se o mundo
que eu vou brincar carnaval

No fim da bagaceira
Minha vista escureceu
Se alguém souber meu nome
Diga pra mim, quem sou eu
Vou dormir na calçada
Abraçado a um cachorro
Pra uma alma cebosa
Me levar carteira e gorro

E ainda se dar mal
Pois não tenho um real

Pode acabar-se o mundo
que eu vou brincar carnaval

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Marchando como Margaridas


Por Sarah Luiza Moreira

Tive a oportunidade de participar da Marcha das Margaridas 2011,a maior ação de massa das trabalhadoras rurais, do campo e da floresta,que aconteceu em Brasília entre os dias 16 e 17 de agosto, com o lema “2011 razões para marchar por Desenvolvimento Sustentável com Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade”.

Éramos cerca de 70.000 mulheres, vindas de todos os 27 estados do Brasil. Brancas, negras, jovens, idosas, rurais, mas também urbanas, índias, quilombolas. A diversidade de caras, formas, cores é, sem dúvida, uma das características mais interessantes desse movimento que se propõe a mobilizar, articular e propor políticas públicas não apenas para as agricultoras, mas para uma sociedade brasileira sem pobreza, sem fome, sem preconceito, sem violência.


A plataforma de reivindicações debatidas pelas mulheres e norteadora da pauta entregue ao governo federal teve como eixos: biodiversidade e democratização dos recursos naturais; terra, água e agroecologia; soberania e segurança alimentar e nutricional; autonomia econômica, trabalho, emprego e renda; saúde pública e direitos reprodutivos; educação não-sexista, sexualidade e violência; democracia, poder e participação política.

Foram dois dias intensos:na primeira manhã, oficinas e painéis onde esses eixos foram debatidos, assim como o lançamento da Campanha contra os Agrotóxicos, com a apresentação do Documentário “O veneno está na mesa”, de Silvio Tender. Na tarde do primeiro dia aconteceu a abertura oficial da Marcha das Margaridas 2011 com a presença de representantes da Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - e dez organizações parceiras, com uma emocionante homenagem à Elizabeth Teixeira, 82 anos, líder camponesa que sofreu, com sua família (é viúva de João Pedro Teixeira, dirigente da Liga Camponesa de Sapé/PB) muitas ameaças e perseguições de latifundiários. Durante todo o encontro tivemos a diversa e representativa Mostra Nacional da Produção das Margaridas de todo o Brasil, além de exibições de filmes.

Mas o momento alto foi a marcha do Parque da Cidade até a Esplanada dos Ministérios, 6 quilômetros mostrando para o Brasil as reivindicações das mulheres, em toda sua diversidade e irreverência, com tantas cores, sons e muita alegria. Muitas se emocionaram ao ver tanta gente unida por uma mesma causa, marchando por igualdade, justiça e liberdade; ao ver tantas mulheres deixando suas famílias, suas casas, suas trabalhos por acreditar na importância de lutarmos por uma outra sociedade. Ao fim da marcha, em frente ao congresso, foi realizado um ato público, onde a Contag e as várias organizações parceiras falaram sobre as reivindicações que nos levaram até lá. O encerramento da Marcha das Margaridas 2011 teve a presença da presidenta Dilma, que entregou a Carmen Foro, secretária de mulheres da Contag, o caderno de resposta do governo federal à pauta entregue pela organização.

Depois do retorno e do descanso, sentimos a necessidade de avaliar os resultados dessa ação.

Com relação às políticas públicas conquistadas após negociações com o governo federal e apresentadas em um caderno de resposta entregue pela presidenta Dilma na cerimônia de encerramento da Marcha das margaridas considero alguns temas como a violência e a saúde das mulheres não receberam a atenção mereciam: as propostas foram poucas e pontuais como a implantação de 10 centros de referência da/o trabalhador/a; de 10 unidades móveis para atendimento a situações de violência; 16 unidades básicas de saúde fluviais.

As medidas anunciadas mais significativas estão relacionadas com a assistência técnica, crédito, comercialização: ampliação do limite de comercialização de cada agricultor/a com o PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar (de R$9,6 mil para R$20 mil); ampliação do Crédito Apoio Mulher de R$2,4mil para R$3 mil com desembolso não mais em duas, mas em apenas uma parcela; garantia de 30% dos recursos do PRONAF– Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar disponibilizados para as mulheres. Tivemos ainda a ampliação da titulação conjunta da terra também no Programa Nacional de Crédito Fundiário, que ainda era apenas no nome do homem.

Várias propostas de ações me pareceram vagas, mas é verdade que o caderno de pautas, mesmo com uma interessante reflexão política, também apresentou reivindicações pouco objetivas. Ainda assim, acho que o fato de este movimento ter aberto um canal de negociações com o governo foi importante, tanto para rever pontos onde a proposta apresentada não foram as esperadas quanto para acompanhar a construção de campanhas, diagnósticos ou grupos de trabalhos previstos.

De forma geral, considero que as medidas apresentadas pelo governo em resposta a essa ação ficaram aquém das expectativas frente ao tamanho do movimento e a quantidade de pessoas envolvidas, considerando que éramos cerca de 70 mil mulheres nas ruas, mas com uma quantidade muito maior de pessoas envolvidas e participantes na organização e na construção coletiva das pautas. Foi importante a abertura do governo ao diálogo, mas ele ainda precisa mostrar com ações mais substantivas e estruturantes o que os discursos prometeram, numa perspectiva de um modelo de desenvolvimento de fato sustentável.
Para além da questão das políticas públicas, a Marcha das Margaridas representou para mim uma ação onde as mulheres saem da sua cansativa rotina, de suas casas, das suas ainda consideradas obrigações para pensarem sobre suas vidas, sobre a vida das mulheres em suas comunidades, em suas cidades, em seu pais, e até mesmo no mundo, e concluírem que esse não é o mundo que elas querem.

Ouvi relatos de mulheres que me emocionaram ao contarem dolorosas histórias de suas vidas (algumas nunca antes contadas); mas que afirmaram que não seriam as mesmas depois da Marcha, pois de alguma forma se libertaram de maridos violentos, de medos, de vergonhas, de imposições.

Todas nós saímos de lá como margaridas. E o que significa se sentir como uma Margarida? Significa se colocar na pele das mulheres rurais, desejar que não apenas elas, mas todas tenhamos uma realidade de fato justa, onde não sejamos violentadas e oprimidas por conta do nosso sexo. Significa não aceitar mais injustiças e desigualdades e lutar em cada recanto de onde viemos e para onde voltamos por igualdade, liberdade, autonomia, conceitos amplos, mas claramente ausentes em nossos cotidianos. É, independente de camisa e de bandeira, ser feministas.