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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
“A arquitetura ainda me convoca com toda a força”, diz Oscar Niemeyer
por Bruno Yataka Saito
Segundo relatos da história, Napoleão teria dito que, dentro da imponente catedral de Chartres, um dos principais exemplos da arquitetura medieval, até os ateus se sentiam desconfortáveis. Nascido em 15 de dezembro de 1907, Oscar Niemeyer não teve a chance de contradizer pessoalmente o imperador francês (1769-1821) sobre a atmosfera proporcionada por uma igreja.
Para este arquiteto ateu “desde muito cedo”, igrejas nunca o fizeram cogitar a possibilidade de existência de Deus. Suas convicções, no entanto, não o impedem de projetar várias construções ligadas ao sagrrado.
O livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, que será lançado amanhã (dia 23), reúne imagens e desenhos dessas 16 obras (executadas de fato ou não), como a Catedral de Brasília, o templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Paricatuba, PA) e a famosa Igreja da Pampulha (Belo Horizonte, MG).
Segundo relatos da história, Napoleão teria dito que, dentro da imponente catedral de Chartres, um dos principais exemplos da arquitetura medieval, até os ateus se sentiam desconfortáveis. Nascido em 15 de dezembro de 1907, Oscar Niemeyer não teve a chance de contradizer pessoalmente o imperador francês (1769-1821) sobre a atmosfera proporcionada por uma igreja.
Para este arquiteto ateu “desde muito cedo”, igrejas nunca o fizeram cogitar a possibilidade de existência de Deus. Suas convicções, no entanto, não o impedem de projetar várias construções ligadas ao sagrrado.
O livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, que será lançado amanhã (dia 23), reúne imagens e desenhos dessas 16 obras (executadas de fato ou não), como a Catedral de Brasília, o templo da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Paricatuba, PA) e a famosa Igreja da Pampulha (Belo Horizonte, MG).
Inaugurada em 1943, a construção em Minas Gerais causou certo desconforto local à época devido, entre outros fatores, às suas formas inovadoras. Em Pampulha, Niemeyer mostrou as diretrizes de seu trabalho posterior. Forma e estrutura são um elemento apenas, em que o concreto revela-se plasticamente flexível, resultando em uma construção ousada e sinuosa para a época. Durante anos os cultos foram proibidos na Igreja da Pampulha.
Aos 103 anos, Niemeyer é uma das principais referências de Brasil para o mundo, admirado não apenas por arquitetos e não apenas pela idade. Este carioca é de uma época anterior a iPhone, internet e televisão, de um tempo em que o homem ainda não tinha chegado à Lua e que duas guerras mundiais encontraram espaço para explodir. Viu as turbulências do Brasil, Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek, ditaduras e Fernando Collor, mas continuou firme na sua crença no PT.
“Vivemos um momento importante. Não posso avaliar se este seria o mais promissor de nossa história... Tenho a certeza de que houve avanços sociais relevantes graças ao empenho do presidente Lula”, afirma Niemeyer.
Se levarmos em conta o benefício da aposentadoria por idade, aos 65 anos para os homens, faz 38 anos que Niemeyer trabalha a mais, já que descarta a possibilidade de parar. As ideias e os pensamentos seguem contínuos, como mostra nesta entrevista exclusiva ao Valor.
Aos 103 anos, Niemeyer é uma das principais referências de Brasil para o mundo, admirado não apenas por arquitetos e não apenas pela idade. Este carioca é de uma época anterior a iPhone, internet e televisão, de um tempo em que o homem ainda não tinha chegado à Lua e que duas guerras mundiais encontraram espaço para explodir. Viu as turbulências do Brasil, Getulio Vargas, Juscelino Kubitschek, ditaduras e Fernando Collor, mas continuou firme na sua crença no PT.
“Vivemos um momento importante. Não posso avaliar se este seria o mais promissor de nossa história... Tenho a certeza de que houve avanços sociais relevantes graças ao empenho do presidente Lula”, afirma Niemeyer.
Se levarmos em conta o benefício da aposentadoria por idade, aos 65 anos para os homens, faz 38 anos que Niemeyer trabalha a mais, já que descarta a possibilidade de parar. As ideias e os pensamentos seguem contínuos, como mostra nesta entrevista exclusiva ao Valor.
Valor: Nunca cogitou a possibilidade de acreditar em Deus?
Oscar Niemeyer: Eu defini essa minha posição em relação à religião desde muito cedo, apesar das minhas origens familiares católicas. Na introdução que escrevi para o livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, procurei lembrar que na casa dos meus avós maternos em Laranjeiras minha avó organizava missas todos os domingos, a que muita gente assistia. Eram pessoas de muito boa índole, solidárias e generosas, acima de tudo tementes a Deus.
Valor: Qual a diferença entre projetar uma igreja e outros tipos de construções? O fato de a igreja ser um lugar sagrado para seus frequentadores interfere no modo como o sr. idealiza o projeto?
Niemeyer: Sempre apreciei esse tema, procurando responder, com a minha fantasia de arquiteto, a tal identificação que muitos fazem desses templos religiosos como lugares do sagrado. Isso tudo sem que eu tenha alguma crença dessa ordem.
Valor: A sua fé no comunismo nunca se abalou? O sr. acredita que os modelos de esquerda vigentes na Venezuela, em Cuba e na China são eficazes? Niemeyer: Continuo a defender a mensagem básica que é possível reconhecer nos escritos de Marx – a sua confiança no advento de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Aprecio muito a coragem política e a capacidade de resistência ao imperialismo dos EUA de líderes como Fidel – em primeiro lugar – e Chávez... Não sou cientista político; portanto, não posso avaliar “tecnicamente” o grau de eficácia do modelo político adotado na Venezuela e na China.
Valor: O sr. está gostando do governo de Dilma Rousseff ou preferia o governo do Lula? Por quê?
Niemeyer: Estou gostando bastante do governo da presidente Dilma. Acho prematuro fazermos comparações entre este e a gestão de Lula – um líder inconteste do povo brasileiro a quem admiro profundamente.
Valor: Os casos de corrupção que acontecem atualmente e aconteceram no governo abalaram a sua confiança no PT?
Niemeyer: Atenção, há outros partidos ou integrantes de partidos diversos do PT envolvidos em esquemas de corrupção que vêm sendo desmascarados...
Valor: O Brasil está preparado para receber uma Copa do Mundo e uma Olimpíada?
Niemeyer: Acho que sim. É bem verdade que caberá a nossos dirigentes políticos assegurar as condições de realização dos grandes eventos desportivos a terem lugar.
Valor: O sr. pensa em aposentadoria? O que o motiva a continuar trabalhando?
Niemeyer: Que é isso? A arquitetura ainda me convoca, com toda a força, e permanece este meu entusiasmo em prosseguir, realizando esta arquitetura diferente, tão pessoal, que tenho defendido desde o projeto da igrejinha de São Francisco de Assis na Pampulha. Projeto que, aliás, se encontra bem destacado no meu novo livro sobre as igrejas.
Valor: Como o sr. avalia o governo Barack Obama? Acredita que a atual crise econômica nos EUA indica a falência de um modelo?
Niemeyer: Os Estados Unidos enfrentam nova crise – recorrente – que tem marcado a história do capitalismo. É evidente que todo o quadro presente me preocupa... até porque o aprofundamento de tal crise deverá afetar os países emergentes, a exemplo do Brasil.
Valor: Como o ideal comunista do sr. se traduz nos seus projetos?
Niemeyer: Considero que não existe essa conexão de que vocês falam. Mas é evidente que os meus projetos têm por objetivo garantir a todos que visitam as minhas obras – independentemente de sua classe ou status social – um momento de surpresa, que é possível associarem a minha busca permanente da beleza e da invenção. Valores que podem ser apreciados por todo mundo.
http://www.valor.com.br/cultura/982458/%E2%80%9C-arquitetura-ainda-me-convoca-com-toda-forca%E2%80%9D-diz-oscar-niemeyer
Oscar Niemeyer: Eu defini essa minha posição em relação à religião desde muito cedo, apesar das minhas origens familiares católicas. Na introdução que escrevi para o livro “As Igrejas de Oscar Niemeyer”, procurei lembrar que na casa dos meus avós maternos em Laranjeiras minha avó organizava missas todos os domingos, a que muita gente assistia. Eram pessoas de muito boa índole, solidárias e generosas, acima de tudo tementes a Deus.
Valor: Qual a diferença entre projetar uma igreja e outros tipos de construções? O fato de a igreja ser um lugar sagrado para seus frequentadores interfere no modo como o sr. idealiza o projeto?
Niemeyer: Sempre apreciei esse tema, procurando responder, com a minha fantasia de arquiteto, a tal identificação que muitos fazem desses templos religiosos como lugares do sagrado. Isso tudo sem que eu tenha alguma crença dessa ordem.
Valor: A sua fé no comunismo nunca se abalou? O sr. acredita que os modelos de esquerda vigentes na Venezuela, em Cuba e na China são eficazes? Niemeyer: Continuo a defender a mensagem básica que é possível reconhecer nos escritos de Marx – a sua confiança no advento de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Aprecio muito a coragem política e a capacidade de resistência ao imperialismo dos EUA de líderes como Fidel – em primeiro lugar – e Chávez... Não sou cientista político; portanto, não posso avaliar “tecnicamente” o grau de eficácia do modelo político adotado na Venezuela e na China.
Valor: O sr. está gostando do governo de Dilma Rousseff ou preferia o governo do Lula? Por quê?
Niemeyer: Estou gostando bastante do governo da presidente Dilma. Acho prematuro fazermos comparações entre este e a gestão de Lula – um líder inconteste do povo brasileiro a quem admiro profundamente.
Valor: Os casos de corrupção que acontecem atualmente e aconteceram no governo abalaram a sua confiança no PT?
Niemeyer: Atenção, há outros partidos ou integrantes de partidos diversos do PT envolvidos em esquemas de corrupção que vêm sendo desmascarados...
Valor: O Brasil está preparado para receber uma Copa do Mundo e uma Olimpíada?
Niemeyer: Acho que sim. É bem verdade que caberá a nossos dirigentes políticos assegurar as condições de realização dos grandes eventos desportivos a terem lugar.
Valor: O sr. pensa em aposentadoria? O que o motiva a continuar trabalhando?
Niemeyer: Que é isso? A arquitetura ainda me convoca, com toda a força, e permanece este meu entusiasmo em prosseguir, realizando esta arquitetura diferente, tão pessoal, que tenho defendido desde o projeto da igrejinha de São Francisco de Assis na Pampulha. Projeto que, aliás, se encontra bem destacado no meu novo livro sobre as igrejas.
Valor: Como o sr. avalia o governo Barack Obama? Acredita que a atual crise econômica nos EUA indica a falência de um modelo?
Niemeyer: Os Estados Unidos enfrentam nova crise – recorrente – que tem marcado a história do capitalismo. É evidente que todo o quadro presente me preocupa... até porque o aprofundamento de tal crise deverá afetar os países emergentes, a exemplo do Brasil.
Valor: Como o ideal comunista do sr. se traduz nos seus projetos?
Niemeyer: Considero que não existe essa conexão de que vocês falam. Mas é evidente que os meus projetos têm por objetivo garantir a todos que visitam as minhas obras – independentemente de sua classe ou status social – um momento de surpresa, que é possível associarem a minha busca permanente da beleza e da invenção. Valores que podem ser apreciados por todo mundo.
http://www.valor.com.br/cultura/982458/%E2%80%9C-arquitetura-ainda-me-convoca-com-toda-forca%E2%80%9D-diz-oscar-niemeyer
terça-feira, 24 de maio de 2011
A Bíblia e os gays - Frei Betto
(Via Alessandro)
É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.
No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as "pessoas diferenciadas"...).
Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).
No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela "despenalização universal da homossexualidade".
A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.
Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.
São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.
A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que "quem ama conhece a Deus" (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).
Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?
Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os "eunucos de nascença" (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.
Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão; e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?
Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.
FREI BETTO é escritor.
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