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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Sem partido, sem direitos

Sandra Helena de Souza*

Hoje candidatos a uma tão sonhada vaga nas universidades públicas brasileiras estarão fazendo suas provas de redação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Todos que somos professores sabemos como anda sofrível a capacidade de argumentação textual de nossos alunos universitários. Eu costumo pedir pequenos ensaios de duas laudas no mínimo nas minhas avaliações parciais, o que sempre provoca pequeno tremor nas turmas. ‘O que é ensaio, professora¿’ Eu: uma redação do Enem melhorada. ‘Não entendi’. Eu: vocês terão de desenvolver um tema, escolhido entre aqueles que discutimos, introduzindo os pontos dignos de nota, argumentando sob as perspectivas distintas de tratá-los e esboçando algumas possíveis conclusões, com a diferença que farão em casa, tendo acesso aos diversos textos para consulta.

Se for verdade que descobrimos o que pensamos ao ouvirmos o que dizemos, isso ainda mais, ao lermos o que escrevemos. ‘Então tenho que dar minha opinião, professora¿’. Sim, mas dentro de certas balizas formais e de conteúdo, não é um vale-tudo; lembrem-se de que ‘ponto de vista’ é justamente a vista a partir de um ponto. Esse ponto pode estar enevoado, falseado, prejudicado, obsoleto. É para isso que dialogamos, pensamos, escrevemos: para nos conhecermos, examinarmos e melhorarmos.

A Cartilha do Participante Enem, documento que estabelece os critérios de correção da prova discursiva, considera o desrespeito aos direitos humanos um dos itens que podem levar à nota zero, a saber, a defesa de tortura, mutilação, execução sumária e qualquer forma de “justiça com as próprias mãos”, isto é, sem a intervenção de instituições sociais devidamente autorizadas. Também ferem os direitos humanos, segundo as regras do Enem, a incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica e a explicitação de qualquer forma de discurso de ódio voltado contra grupos sociais específicos. Isso quer dizer que se espera que ao final de 12 anos de escolaridade formal a juventude brasileira tenha assumido os valores humanistas, seculares e iluministas. Civilizados, modernos.

Uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) determinou a suspensão dessa regra, decisão tomada em caráter de urgência a pedido da Associação Escola Sem Partido. A entidade diz que a regra é uma “punição no expressar de opinião”. “Ninguém é obrigado a dizer o que não pensa para poder ter acesso às universidades”. Uau. Dentro dessa baliza as últimas redações que tiveram o feminismo e o combate à intolerância como tema deveriam bem julgar textos com apologia à servidão feminina e perseguição às religiões de matriz africana, desde que bem escritas. E a universidade em sequência não deveria tomar ‘partido’ por nenhum dos lados. Durma-se.

Não espanta que haja quem faça esse tipo de pedido. São os mesmos que tremem diante de Paulo Freire e do perigo que ele representa para seus obscuros propósitos. Espanta que haja justiça togada para assenti-lo. Estamos diante de uma desfaçatez inaudita. Uma falácia que esconde que a liberdade de expressão é resultado da luta pelo conjunto de valores que agora se quer justamente derrotar. Hipócritas.

E já aparecem aqueles para quem essa é mais uma ‘polêmica’. Não, amigos, isso é apenas um erro. Gravíssimo. Vergonhoso.

*Professora de Filosofia da Unifor, membro do Instituto Latino Americano de Estudos sobre Direito, Política e Democracia (ILAEDPD)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A tristeza é senhora

 por Sandra Helena de Souza
Sandra Helena


Eu gostaria de ser de algum partido de esquerda como amiúde me acusam os adversários de debate. Se o fosse, estaria agora pragmaticamente envolvida no pleito municipal, dando por favas contadas o ‘impeachment’ e fazendo as contas de como retornar ao poder em futuro próximo, encontrando desculpas rotas para justificar minha ausência ou nula presença na dura luta contra o golpe; ou às voltas com alianças estapafúrdias com golpistas em nome de sabe-se lá o quê.

Mas não sou e, como eu, tantos e tantas militantes das boas causas país afora, estamos tomados por uma tristeza assombrosa que percorre dias e noites insones e faz nos arrastarmos como zumbis, cumprindo as tarefas do cotidiano sem paixão, acometidos de melancolia política. De uns tempos para cá, ficou cada vez mais claro que esses difíceis dias de consumação do golpe chegariam e teríamos de atravessá-los, mas nem toda preparação foi suficiente para evitar-me as lágrimas teimosas que me acompanham no carro na ida e volta do trabalho.

É claro que não há saída política que não passe pelas urnas, mas também é claríssimo que não há como negar o tom de farsa das eleições vindouras. Simplesmente não há mais normalidade democrática no País e todo o esforço para lustrar o processo com a aparência do jurídico perfeito não resiste a uma ou duas perguntas bem formuladas. Em ambientes acadêmicos como o meu, a omissão e o silêncio atordoante diante do crime político de lesa-democracia põem a nu toda a vanidade do conhecimento desacoplado dos valores civilizatórios fundamentais. Os defensores da Escola sem Partido já podem ir se considerando com meia-partida ganha.

As recentes revelações no julgamento do Senado, com a testemunha de acusação revelando que formulou a peça que ele mesmo julgou, apenas conferem ao teatro do absurdo mais um toque burlesco. Nada mais parece capaz de reverter o infortúnio pessoal de Dilma Rousseff, cassada de seu mandato legítimo, tornada inelegível e impedida de exercer quaisquer funções públicas por anos, um feito do qual nos envergonharemos e muitos daqueles que hoje já começam a se mostrar ‘surpresos’ com as medidas tomadas pelo conglomerado que tomou de assalto o poder terão razões de sobra para suas pantomimas de ocasião.

Nossa democracia nem conseguiu tornar-se balzaquiana. A minha geração nascida sob a mais violenta das ditaduras não se imaginou viver um golpe em tão curto espaço de tempo. Fosse apenas Dilma a apeada como foi o caso Collor e poderíamos, sem incômodo, fazer coro às inúmeras críticas à sua persona política. Mas é também um projeto de país, construído desde a redemocratização aos trancos e barrancos, desmoronando, diante de nós, o futuro de milhões e milhões de jovens novamente comprometido, a criminalização da política em ponto ômega, as esquerdas atônitas e aquém de seu papel, a hipocrisia, o ressentimento, o ódio, o autoritarismo de volta.

Os inimigos estão no poder. É hora de admitir isso e reinventar a luta. Para que o futuro não tarde 21 anos. Vida longa a Dilma Rousseff.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2016/08/27/noticiasjornaldom,3653317/artigo-a-tristeza-e-senhora.shtml

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Quem dera ser um hub

por Sandra Helena de Souza

Em tempos de acirramento feroz dos ânimos políticos, parece impossível encontrar alguma causa comum. O mantra ‘contra a corrupção’ sofre de desgaste crônico por variados motivos e mais divide que congrega. Além do mais, ser ‘contra’ não entusiasma tanto como ser a favor: a diferença entre luta reativa e criativa. Entre nós, no entanto, o milagre se viu nas capas dos jornais a partir de fina orquestração do governador Camilo Santana. Juntaram-se todos, nesse caso quase todos mesmo, desde o governador coronel dos tempos autoritários, o empresário, o político, prefeito, sociedade civil organizada, todos os partidos à exceção da extrema esquerda, mídia, todos. Nada parecido desde a luta pelas diretas.

Aliados, adversários e mesmo inimigos, todos perfilados atrás do governador, que assim demonstrou que o impossível tem endereço: o aeroporto. ‘Todos unidos pelo Hub da TAM’. “Unidos somos mais fortes. Precisamos fazer uma grande campanha aqui no Ceará para que possamos trazer esse empreendimento para nosso estado”, disse o governador na tentativa de sensibilizar os cearenses.

Consolidar a vocação turística e fortalecer a economia de serviços era então o que podia nos unir a todos. Como demoramos tanto a descobrir?

Os números dos Mapas da Violência e o recente IHA (Índice de Homicídios na Adolescência) têm afirmado repetidamente que são os jovens de camadas sociais mais vulneráveis as maiores vítimas da violência que se alastra pelo País. O levantamento feito pelo Programa de Redução da Violência Letal (PRVL do Governo Federal, em parceria com a Unicef, o Observatório de Favelas e o Laboratório de Análise de Violência da UERJ) mostra Fortaleza como a capital que tem o maior índice de homicídios entre jovens (9,9 por mil). O prognóstico é tenebroso: Fortaleza perderá 2.988
jovens de 12 a 18 anos mantidas as condições atuais.

Por seu turno, a justiça interdita centros de ressocialização de adolescentes em conflito com a lei e constata crise aguda no monitoramento de medidas socioeducativas em meio aberto. A crise econômica serve para justificar cortes orçamentários - que de resto sempre ocorreram mesmo em tempos de vacas gordas - que atingem em cheio as políticas de proteção social. Fala-se em redução de maioridade penal e chega-se mesmo a considerar razoável que se impeça a frequência da juventude pobre em praias e shoppings. A esmagadora maioria dos crimes de homicídio cometidos contra esses jovens, por outros jovens ou policiais, nem mesmo chegam a ser investigados. ‘Deixa morrer’.

Ao ver o noticiário sobre o ato de lançamento da campanha pelo hub, não consegui ficar indiferente ao extremo apelo simbólico das fotografias. Não é todo dia que se consegue reunir a nata da política e economia local em torno de uma pauta. Todos os antagonismos momentaneamente suspensos. Fiquei a pensar em todos os jovens que tombam miseravelmente e não viverão para ver o hangar da TAM. Sonhei com aquelas expressivas lideranças todas unidas pela infância e adolescência pobre do Estado. É pedir demais?
O governador já provou que pode. E quem pode o mais, não pode o menos?

http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2015/09/26/noticiasjornaldom,3510362/quem-dera-ser-um-hub.shtml

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fortaleza envergonhada

Por Sandra Helena Souza

Imaginei esses dias a principal associação empresarial de qualquer cidade alemã recebendo um palestrante deputado que desembarcado no aeroporto local dissesse publicamente: “nós já vencemos uma vez, fomos derrotados, mas voltaremos” referindo-se ao 3º Reich. Soa absurdo, eu sei. Se mudarmos de continente e colocarmos a sandice no Chile, Uruguai ou mesmo Argentina, países que enfrentaram seus passados de ditadura como recomenda a internacional “Justiça de Transição” para consolidar consensos democráticos nacionais, haverá enorme dificuldade de crer razoavelmente em acontecimento dessa espécie. Mas a realidade costuma superar nossas piores distopias.

O protagonismo político do CIC colocou o Ceará na primeira página do País, o que se costuma chamar “A Era Tasso”, dos empresários “esclarecidos” no poder. Inúmeros trabalhos acadêmicos se referem a uma revolução burguesa tardia entre nós, uma “modernização conservadora” que, não obstante, representou avanços em setores diversos, da economia aos direitos humanos, como de resto em todo o País, desde o período da redemocratização. Os avanços, sociais e político-institucionais, ficaram bem aquém das promessas; negá-los, entretanto, é equívoco crasso.

Mas momentos políticos conturbados como o que vivemos promovem provas a céu aberto onde todos somos testados. E a pergunta fundamental é: o que entendemos por democracia? Ao desembarcar em Fortaleza, depois de proferir as bizarrices de praxe, Jair Bolsonaro bradou: “nós os derrotamos em 64 e vamos derrotá-los de novo”, ovacionado por uma ruidosa claque. Fiquei estupefata ao saber que ele daria uma palestra no CIC sobre “Ética na Política”. Compromissos não me permitiram comparecer. Procurei e soube que não há registro audiovisual algum desse sinistro.

O epíteto de “polêmico” hoje encobre discursos tenebrosos, assim como a ideia mal concebida entre nós de “liberdade de expressão”. Não há pactos consensuais sobre o que significa ao menos Estado de Direito, não só entre manifestantes ignorantes, mas entre uma entidade que já teve peso político determinante. Eu gostaria imensamente de ver a entrevista a que o deputado foi submetido na ocasião. As perguntas da imprensa são todas sobre corrupção, esse nosso encobrimento preferido. Queria ter podido entrevistá-lo. Meu aluno mais negligente faria perguntas consistentes sobre golpe de Estado, torturas e desaparecidos políticos. Sobre misoginia, homofobia e racismo, não seria necessário. Já conhecemos amplamente sua posição.

Esse acontecimento fala mais alto do que os cartazes infames perguntando por que a presidente não foi enforcada no Doi-Codi. Não se trata apenas de malucos nas ruas, mas de uma instituição respeitável que acolhe, a título de “democracia”, a palavra de alguém que estaria disposto, sem reservas, a defender isso hoje mesmo. Com convicção e aplausos. Alguém duvida?

Ética na Política? Bolsonaro? Façam-me o favor. Nada mais que um acinte. Vergonha moral, para nós e para o mundo civilizado.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2015/08/22/noticiasjornaldom,3492090/artigo-fortaleza-envergonhada.shtml

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A vida não é justa

por Sandra Helena de Souza

Tomei conhecimento do delicioso livro da juíza Andréa Pachá por ocasião do seu lançamento em 2012, através de matérias e entrevistas que a autora concedeu em diversos veículos, impressos e televisivos. O título provocador não me deixou indiferente. Por uma série de razões adiei a compra do livro, dentre elas as atribulações de uma vida típica de professora e também o receio de ver meus próprios dramas relativizados. Alguns entre nós temos certa predileção, apego mesmo aos próprios danos, acreditando que atravessá-los sem autopiedade é a única saída. Faço parte desse time de malucos.

Nesse intervalo, participei de dois seminários promovidos por jovens alunas do curso de Psicologia da Unifor, cujo tema era o amor. No primeiro, em 2013, onde os convidados palestrantes fomos reunidos por perspectivas epistêmicas, e onde eu representava, vejam que pretensão das meninas, a ‘visão filosófica’ do amor, aproveitei para fazer uma catarse pública de meus demônios nessa matéria lendo um de meus artigos publicados nessa sessão, no ano de 2012, um dos mais comentados e compartilhados, de título ‘O Nosso Amor de Ontem’, onde eu me despedia, ainda sem disso ter plena consciência, de um grande amor que se exauria de modo irreversível. Na ocasião, afirmando que me dirigia às ‘vítimas’ do amor, levei a imensa plateia às lágrimas, com voz embargada e tomada de forte emoção. Isso me valeu um segundo convite para edição do mesmo evento agora em 2014, quando fiz a plateia rir das diatribes de quem já se considerava uma ‘sobrevivente’ do amor, disposta a dar lições, vejam que pretensão, para as jovens gerações, que ainda serão elas mesmas talhadas por essa experiência ímpar e tão decisiva que é o (des)enlace amoroso. Nesse dia também criei arestas pueris e desnecessárias.

Era hora de ler o livro. Fiquei encantada. Vi que de fato nossas dores nunca são tão assombrosas, ou as piores. O buraco sempre pode ser maior nesse mundão de desentendimentos, incompreensões, e, sobretudo deslealdades afetivas.. Só que, na condição de juíza da vara de família, a autora que tem por profissão solucionar dramas terríveis, e outros nem tanto, conseguiu, de modo despretensioso, aquilo que eu tentara sem muito sucesso: proporcionar uma paidea amorosa-familiar às avessas, e sem oferecer lições, apresenta de modo leve e quase jocoso, uma ‘etnografia de corações partidos’, entre casais e pais e filhos.

Para minha honra e júbilo, o juiz Leonardo Resende Martins, diretor do Foro da Justiça Federal do Ceará, me fez convite irrecusável: participar como debatedora da palestra de Andréa Pachá, amanhã à tarde, sobre seu magnífico livro. Sim, eu concordo com ela: ‘a vida não é justa’. A natureza também não é. Mas não podemos abdicar da coragem da verdade sobre isso. E nunca desistir de sobreviver às injustiças com dignidade e certa alegria. E oferecermos para as jovens gerações um pouco daquilo que aprendemos sobre a humanidade em nós. Pode sim fazer diferença para os egóticos corações partidos.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2014/08/13/noticiasjornalopiniao,3297220/a-vida-nao-e-justa.shtml

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Democracia: curva perigosa à direita

por Sandra Helena de Souza

“Destruir utensílios urbanos e emporcalhar prédios públicos é antissocial. Quebrar porta de banco como “agressão ao capitalismo” é imbecilidade. Mas não é provável que os autores de tais façanhas sejam capazes de perceber que não produziram efeito algum, além da mera destruição. Mas quando voltam a sua cretinice feroz contra alheios indefesos e, ainda pior, já subjugados pela vida, aí essas bestas de cara escondida ou descoberta se tornam revoltantes. Por mim, são indefensáveis. O que quer que lhes aconteça é problema estritamente seu. Nada tem a ver com democracia ou com direitos humanos. Poderiam ser levados para a cadeia ou o hospital metidos em uma caçamba de lixo.”

Aturdida, li esse texto em voz alta numa intervenção durante o excelente seminário promovido pela Justiça Federal do Ceará intitulado Direito de Manifestação: Possibilidades e Limites. Coordenado pelo juiz federal Leonardo Martins, diretor do Foro, o original encontro reuniu em dia inteiro filósofos, juristas, manifestantes, ativistas e trabalhadores da segurança pública, policiais militares e civis, o coronel PM diretor-geral da AESP, o então delegado-geral da Polícia Civil e um procurador da República.

Durante um dia inteiro pudemos refletir, aprender, reviver o clima de conflito das ruas nos momentos mais acalorados dos debates. Uma conclusão se impôs: a discussão sobre o direito de manifestação, na visão dos órgãos de segurança, dos tribunais, dos manifestantes, longe de significar entrave, nos coloca no mesmo patamar das democracias mais consolidadas do mundo. A discussão, apenas ela, bem-entendido.

A julgar pela cobertura da grande mídia sobre os desdobramentos das pontuais manifestações que continuam nas ruas, enfrentamos uma situação de encruzilhada: recrudescem cenas de violência e arbítrio, por parte dos órgãos de segurança do Estado, mas também por parte de movimentos de ativistas que afirmam o direito de resistir, e também agir, com violência nas reivindicações. O secretário da Segurança do Rio de Janeiro, José Beltrame, sexta última em Fortaleza, falou da ‘surpresa’ da polícia carioca com a disposição e preparo dos manifestantes para suportar a ação policial, mas também encurralar as forças do Estado.

O modo como o mundialmente conhecido Black Bloc incorporou-se ao levante brasileiro tornou ainda mais visível a já cotidiana violência policial na sociedade, mas também trouxe à superfície a intolerância proto-fascista de vastos setores da sociedade, mesmo entre as esquerdas. Por outro lado, os jovens mascarados demonstram pouca capacidade de sair do isolamento em que se meteram na disputa simbólico-política, e erram tremendamente ao ‘brincar de ditadura’, demonstrando ignorância indesculpável sobre a história de seu próprio país.

O texto lido por mim foi aplaudido com entusiasmo por parte da plateia. Eu esperava vaias. Janio de Freitas (sim, o autor) lhe representa nessa matéria? Imagina na Copa.
Maus sinais.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/10/02/noticiasjornalopiniao,3139515/democracia-curva-perigosa-a-direita.shtml

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Fortaleza não é para os fracos

por Sandra Helena de Souza

A nota oficial do Governo do Estado reconhecendo problemas com “humildade” e considerando “bem-vinda a iniciativa dessa fração da sociedade fortalezense” deu um upgrade nas já calorosíssimas discussões, entre entusiastas e críticos nas redes sociais, sobre o ‘Fortaleza Apavorada’, de onde transcrevo reflexão de um simpatizante que, a meu ver, exprime a alma do movimento. É uma sincera resposta, provocante e articulada, a uma pergunta comum. Leia:

“Se um ladrão roubasse a casa da vizinha, você iria à delegacia informar o crime? Provavelmente, não. E se alguém estacionasse o carro na vaga da sua vizinha, você iria reclamar no apartamento da síndica no lugar dela? Duvido muito. Do mesmo modo, a primeira pessoa de quem se espera uma reclamação contra a educação defasada que o Estado oferece é o aluno da escola pública. Por que o aluno do 7 de Setembro, Ari de Sá ou Farias Brito iria às ruas lutar por melhorias na educação, se ele já desfruta de um excelente ensino. Então, veja como é simples: quem não tem terra é a favor da reforma agrária? Sim. Latifundiários também serão? Evidente que não.
Logo, a sua interessante indagação (“Por que não existe uma manifestação dessa magnitude por melhorias na educação?”) deveria ser feita aos moradores do Parque São Miguel, Cristo Redentor, Conjunto Palmeiras, Santa Filomena, Parque Santa Rosa, Bom Jardim etc. São eles os UTENTES da educação pública, não nós. Podemos até ir às ruas, em solidariedade a essas pessoas, mas estaríamos lutando por uma causa que PREPONDERANTEMENTE é mais deles do que nossa. Agora, quando roubam, matam ou sequestram alguém da nossa família, vamos às ruas pedir segurança sim. Não temos o dever de saber se o Pirambu está passando por problemas de insegurança, afinal, não moro lá e não frequento esse bairro. Apenas um morador de lá teria legitimidade para reivindicar algo dessa natureza, o que faz nascer a figura do líder comunitário.

A classe média não tem o dever moral de ir às ruas lutar para corrigir a injustiça do mundo. Violência sempre existiu em áreas de risco e a classe média sempre soube disso, apenas não se engajou em movimentos ativistas para solucionar os problemas do mundo. A partir do momento em que essa mesma violência é hipertrofiada o suficiente para repelir turistas, ao ponto de migrar das favelas para os nossos lares, o problema passa a ser nosso também. Em suma: enquanto a violência estiver confinada em morros e favelas, a preocupação é dos nossos governantes, da polícia e dos moradores dessas regiões. O nosso é apenas votar corretamente, para que os governantes ajudem essas pessoas. A partir do momento em que chega na nossa casa, passa a ser NOSSO, da polícia e dos governantes. Lembra do exemplo da vizinha?”

Fim da citação, do silêncio e da hipocrisia da cordialidade na cidade desigual. O movimento, legítimo, já tem um mérito ímpar: pôr a nu a que fração você pertence ou quer pertencer. E, sobretudo, a que jamais pertencerá. Bem-vindos à cidade real.

Sandra Helena de Souza

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os olhos de Kadhafi


Por Sandra Helena de Souza

Tentei escapar desse tema, mas ando acossada pela morte e a coincidência desse texto público no dia dos mortos me obriga a enfrentá-lo.

O que nos faz humanos? Você pensa que é humano? Então, sinceramente, o que sentiu vendo o assassinato/linchamento de Kadhafi? E quando soube/viu que ele foi abusado sexualmente antes de morrer? Costuma-se dizer que o tratamento digno dado aos criminosos a quem nossos mais arcaicos instintos recomendam a crueldade é sinal claro da civilidade que se impõe contra a barbárie, ainda que repousando sobre ela. Foi assim que aprendi, foi assim que me constituí e isso não por minha própria conta, mas pelos mais nobres valores herdados da assim chamada civilização ocidental, de matriz judaico-cristã.

O iluminismo laicizou as melhores pretensões das grandes religiões mundiais e as tornou princípios soberanos, consolidando o que nos acostumamos a chamar de humanidade, em sentido pleno, no afã de nos destacarmos da animalidade infra-humana. Sinceramente, como muitos, acreditei nisso. Por isso não consigo me livrar das apavorantes imagens a que fomos expostos, e continuamos sendo, à exaustão do assassinato festivo de um ser humano.

Não preciso mais falar dos aspectos políticos que envolvem essa morte. Importa-me mais compreender o que somos, ao reagirmos tão docilmente diante disso, quando bem sabemos o que está em jogo. Aqui em nosso Estado, recebemos a oferta diária pela televisão de corpos mutilados, afogados, decompostos, torturados, associados aos gritos lancinantes de parentes, tudo isso apresentado como ornamento da liberdade de expressão e de garantia de direitos. Expressões pérfidas, perversas, de engravatados travestidos de defensores da cidadania e intrépidos guardiões da ordem pública. Uma mentira torpe, uma ilegalidade, uma hipocrisia empresarial de resultados funestos, que cinicamente aceitamos. Mas somos bem seletivos nessa aceitação. Designamos para alguns dentre nós essa condição de párias, completamente excluídos das mais ínfimas noções de dignidade.

A morte de Kadhafi, ao vivo, foi uma espécie de programa policial em clímax, em escala global. Já estamos anestesiados. Mas assim como os olhos mortos do Che, a reza interrompida pela corda no pescoço de Saddam Hussein, o espetáculo obscuro da morte de Bin Laden, cena filtrada pelos olhos da cúpula americana, são os olhos aterrorizados de Kadhafi que me interrogam, sem cessar. Fomos expostos sem peias a uma cena primária. Adultos, crianças, todos. Uma cena que não nos deixa espaço para a salvífica elaboração da imaginação e construção de narrativas, assim como podemos fazê-lo em relação aos mortos das torres gêmeas. Ali fomos poupados, em nome da “dignidade humana” e da esperança. Que pureza.

Você que me lê deve acreditar-se ao abrigo dessa podridão tornada entretenimento, catártico, pois portador de direitos e cidadão de bem. Pois sim. Volto então a perguntar: o que você sentiu ao ver aquelas imagens se é mesmo que sentiu algo. Responda diante de seu espelho, e não espere por Deus, o que nunca responde. O trabalho é nosso, apenas nosso. Os mortos agradecem.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/11/02/noticiaopiniaojornal,2327020/os-olhos-de-kadhafi.shtml

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A juíza, o comandante, o professor

por Sandra Helena de Sousa

É difícil lecionar ética. Para chegar a bom termo, temos que partir de uma deseducação de nossa moralidade de primeira ordem, aquela que herdamos e diante da qual não parece haver opção fora de seus quadros de valores, frequentemente condensados em maniqueísmos toscos, do tipo “do bem” e “do mal”.

Disciplinas de ética na universidade estão amiúde voltadas para a deontologia das profissões: manuais de conduta, de deveres e prerrogativas que oferecem um marco regulatório quase sempre definido pelos pares. Uma ética prática. Mas sempre há o espaço inicial para as questões propriamente filosóficas, da meta-ética e da ética normativa, voltadas a discutir teorias da natureza humana, teoria de valores, relação com política e religião (somos livres? o que é consciência moral e como desenvolvê-la? o que são virtudes? o que é felicidade? o que é Justiça? o que é boa ação? que é bem-comum? o que é bom senso? caráter é inato ou adquirido? é bom porque deus ordena ou ele ordena porque é bom? os ideais são factíveis? há valores universais, ou tudo é relativo? etc., etc.). É quando as discussões indicam com precisão como o exercício da crítica anda em declínio entre nós, e também o quanto é preciso insistir.

Ouço muito a seguinte admoestação: “professora, mas se eu fizer isso perco o emprego” ou “ele agiu assim ou assado porque teve medo”, ou “mas não dá para ser diferente, as coisas não mudam”. Ouço isso de jovens que ainda não estão sendo acossados diretamente pelas pressões e a quem caberia sonhar e ousar outros mundos possíveis. Uma resignação antecipada e bem urdida. Quando lemos juntos Kant, na aurora do iluminismo, afirmar que “é tão cômodo ser menor, e não ter a coragem de fazer uso público de seu próprio entendimento” sinto o incômodo: depõem as armas sem nem terem tentado e sabem disso.

Mas a realidade invade a sala de modo devastador. A morte da juíza Patrícia Soares, sua trajetória profissional, seu destemor e seu sacrifício não por uma causa revolucionária, mas pelo rigoroso cumprimento do dever e da lei que todos afirmamos aceitar é um dos eventos que nos revolve de modo cataclísmico. O ideal “inatingível” da heroína moral, veiculado simbolicamente de modo ambíguo. “Mulher admirável” ou “Mulher insana” que brincou com o fogo de uma das corporações mais violentas que produzimos e sustentamos? Não precisei escolher filmes para ilustrar a figura da consciência moral elevada que age, não só a despeito do risco do desemprego, mas da própria vida. Mas eis que vem dessa corporação lição de honestidade moral pública inquestionável, exemplar: o comandante geral da PM carioca, Mário Sérgio, pede exoneração. O acusado de mentor intelectual do assassinato da juíza é um seu par e subordinado, promovido por ele recentemente. Assunção de responsabilidade, rara e preciosa.

Aí, ao ver o professor arrastado pelos cabelos e socado nas costas por um oficial PM, na Assembleia, pensei nos alunos, no País, em minha geração, nos políticos que elegi, em nossa indignação bem-comportada, em nossa falta de coragem moral. Pobre professor, não desanime, acredite, a luta realmente continua. E é cada vez mais dura.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/10/05/noticiaopiniaojornal,2310224/a-juiza-o-comandante-o-professor.shtml

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O criminoso cordial


Por Sandra Helena de Souza

Em artigo semanal, neste jornal, Leonardo Boff escreveu: “Cabe a Deus julgar a subjetividade do assassino da escola de estudantes. A nós cabe condenar o que é objetivo e saber localizá-lo no âmbito da condição humana”. É um belo texto que nos remete ao assassino que dorme em cada um de nós, entrega a Deus o que lhe cabe e nos põe diante da tarefa propriamente humana de enfrentar o “Trabalho do Negativo”. Vamos lá.

Em 30 de março último, assisti estupefata ao Conexão Repórter no SBT, do jornalista Roberto Cabrini sobre a memória de um agente da repressão. Este, um conterrâneo nosso de Brejo Santo, José Lucena Leal, atualmente advogado e morador de Porto Velho (RO), que também foi advogado de defesa do acusado de assassinar Chico Mendes no Acre.

Diante das câmeras e muito à vontade contou com detalhes, e sem demonstrar nenhum arrependimento ou vergonha, as sessões de tortura de que participou ativamente, bem como execuções a sangue frio de
opositores ao regime, já devidamente dominados. 

Registrou um ligeiro mal-estar ao referir-se à morte de uma jovem de 17 anos no Araguaia, menos pela idade e mais pela coragem dela ao negar-se a revelar a identidade: “guerrilheira não tem nome”, ela teria dito antes de levar um tiro na testa do major Curió, segundo depoimento. Referiu-se à tortura como crueldade excessiva, chegou a tergiversar sobre sua necessidade, mas mostrou-se inabalável em sua convicção de ter prestado um relevante serviço à Pátria.

Dorme bem, não tem pesadelos, não escuta os gritos. Enfim, faria de novo se cresse necessário e se, agora digo eu, fosse para isso convocado por uma autoridade legitimada por suas crenças. Julguei que o programa poria em chamas o noticiário nacional, descartado o caráter preparatório da novela “Amor e Revolução” que estrearia dias depois.

Ledo engano. Salvo manifestações dos envolvidos, as vítimas diretas da repressão, fez-se um silêncio ensurdecedor. Nada de análises sobre mentes criminosas, reflexões antropológicas, psico-sociológicas, políticas, etc. Quem viu, viu. Ficou como um relato banal aquilo que em mim provocou horror.

O que antes se negava, por vergonha ou medo de punição, agora se confessa às claras e não sem certa ironia declara: “mas por que tanto alvoroço se todos sabem que a tortura até hoje é praticada por todas as polícias militares e civis do país?” Nenhuma interpelação a essa desconcertante afirmação. Ninguém se incomodou. Nada de discursos inflamados nos parlamentos, comandos policiais indignados, jornalistas enfurecidos. Nada.

Nos anos 60, o experimento Milgram confirmou que se pode acordar e até tornar cômico o assassino que repousa sob nossa boa-consciência de homens de bem. Basta uma autoridade convincente. Wellington Menezes foi-se, livrando-nos da difícil tarefa de julgá-lo com justiça. Já Lucena Leal, como seus comparsas, passeia tranquilo e bonachão entre nós com a subjetividade intacta, criando corvos que podem despertar para nos arrancar os olhos, sempre bem fechados quando nos convém. O que Deus tem mesmo a ver com isso, não?

Sandra Helena de Souza -Professora de Filosofia e Ética da Universidade de Fortaleza
sandraelena@uol.com.br


quinta-feira, 24 de março de 2011

César e sua mulher

Por - Sandra Helena de Souza - Professora de Filosofia e Ética da Universidade de Fortaleza -  souza.sandraelena@gmail.com




Por volta de 60 a.C um escândalo ocorrido em Roma envolveu o homem mais poderoso do mundo, Julio César, sua mulher Pompeia e um nobre pretendente, Clódio. O caso chegou aos tribunais e o próprio César teve de prestar esclarecimentos já que se punha em suspeição a honra de sua mulher.

Ele admitiu publicamente que não a considerava responsável pela investida de que era alvo e a julgou inocente. Clódio foi absolvido, mas Pompeia não se livrou do ostracismo e do repúdio de César.

Quando indagado quanto à aparente contradição de sua conduta, ao defender a mulher no tribunal e condená-la em casa, ele teria afirmado: “Não basta que a mulher de César seja honrada, é preciso que sequer seja suspeita”.

Essa frase varou os séculos como um vaticínio e encontrou em Maquiavel o rigor científico para decifrá-la, na famosa carta a Lourenço de Médici. Trata-se da moralidade específica da esfera do poder: o privilégio de governar custa um preço que pagam imperadores, reis, príncipes, governadores, quaisquer homens que detenham poder institucional sobre outros e queiram destes estima e obediência respeitosa. Sua vida privada é pública, não por opção, mas por condição mesma do poder de governar.

Nada mais privado que as escolhas eróticas. Ao longo do tempo, homens e mulheres do poder tiveram de aceitar a lei, casando-se contra sua vontade e afetos ou mantendo-se castos em nome da manutenção de seu poder.

Nas circunstâncias da cultura das moralidades, governantes são o exemplo óptimum de como os homens comuns devem agir em caso de conflito insuperável de interesses. No calor da campanha presidencial, o candidato Obama declarou: “já traí e também fui traído”. Tentava imunizar-se contra o puritanismo da sociedade americana. Ante a invasão de sua privacidade a ofereceu de bandeja neutralizando escândalos presumíveis.

Há culturas em que a incompetência administrativa leva os governantes ao suicídio, mesmo que eles não tenham sido diretamente responsáveis pelos desmandos. Enfim, o poder exige uma resposta que o homem comum não é obrigado a dar se não quiser. Não se trata de parecer honesto/ilibado sem sê-lo, como muitos gostam de entender a frase imperial, mas sim de apesar de sê-lo estar sob obrigação constante de parecê-lo, eliminando suspeições que o poriam na condição de piada de salão.

Isso me veio à mente a propósito do episódio do jatinho Grendene e das férias do governador. Em nossa cultura não é certamente o affaire erótico que põe dúvidas sobre a honestidade do poder. Isso é coisa de norte-americano.

Nosso Clódio é outro: o trânsito cruzado que leva de vícios públicos a benefícios privados e vice-versa. O silêncio do governador sobre o que ele diz ser sua vida privada, de cidadão comum em férias, cabe bem em quem não goza de suas prerrogativas, mas não resiste a um exame acurado de ética pública. Ele certamente sabe disso. E sabe mais.

Acontece que em democracia, César somos todos nós. Nossa Assembleia decidiu quem somos. E o preço que aceitamos pagar, em conjunto. Afinal como disse o outro: a César o que é de César.

Publicado em O POVO - dia 23 de março de 2011

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aos (meus) verdes anos - Sandra Helena de Souza

Em um dos emails dirigidos a minha lista pessoal, depois de defender meu voto em Dilma Rousseff, eu afirmava torcer sinceramente pelo segundo turno. Isso se deu há 15 dias. No domingo da eleição, pude me por à prova no confronto direto entre lucidez, coração e vísceras. Estas venceram na maior parte do tempo e me peguei urrando de felicidade quando havia a possibilidade de definição no primeiro turno. 


Mas a realidade seguiu seu curso próprio e tive que segui-la em minha própria espreita. A complexidade do novo desenho político saído das urnas é de tal magnitude que nem cabe nesse espaço nem no tempo adequado para considerá-la. Compartilho então uma breve exortação àqueles que fazem a parte mais nobre do fator Marina: deixo de lado, por hora, as questões morais e religiosas que sua candidatura evoca para reconhecer o forte apelo entre a juventude classe média universitária e militante, notadamente aquela mais "outsider", alternativa, natureba, "ioguin", "ongueira" e já descrente da vida político-partidária. Só isso já bastaria: o reaquecimento da juventude.

A biografia de Marina e sua "elegância discreta" decantada por Caetano não podem mesmo ser desprezadas. Agora redesperta, a novíssima geração tem a oportunidade de tomar as rédeas de um país cuja democracia contínua tem exatamente sua bela e tenra idade, 20 e poucos anos. Para mim, não é pouca coisa, "filhote da ditadura" que sou, na expressão eternizada por Brizola, nas eleições de 89.

Esses "filhotes da democracia" ainda verde (com licença do trocadilho) verão a democracia brasileira amadurecer a partir de suas escolhas e omissões. É neles que aposto, pois os votos dos religiosos, dos (i)moralistas, da esquerda madura desencantada ou ressentida com o petismo/lulismo, daqueles que foram a Marina pelo fator anti-Dilma (sobre o qual pouco se fala), já estão decididos mesmo antes do resultado do pleito, e com todo o direito.

Aposto nos jovens pois quero crer que não se deixarão levar por argumentos morais conservadores, por credos religiosos que exijam dos adversários que renunciem a suas convicções pessoais para abraçar uma profissão de fé. Não aceitarão a hipocrisia oportunista do medo de enfrentar temas controversos como o aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Dedicarão esse mês para se inteirar dos projetos em confronto, pois não se tratam mais de
promessas ao vento e sim de experiências com resultados claros.

Discutirão que Brasil eles receberam e o que querem para seus filhos e netos. Lerão o PNDH-3 e procurarão saber o que foram as Conferências Nacionais. Discutirão continuidades e rupturas entre as duas experiências de governo que ora disputam. Temos a chance histórica de ver o debate que postergamos.

Não, não quero a lucidez cética que me atingiu em cheio ao ver o discurso de Serra no domingo: ele se compromete com a democracia e a liberdade de expressão. Isso não está em disputa e ele sabe. Nem Dilma ter que agradecer a Deus. Ele não tem nada a ver com isso. Consenso (possível?), continuidade (do que?), mudança (para onde?), maioria (de quem, para que?). São as perguntas que devemos, os jovens e os nem tanto, querer respondidas. Sim, aqui é o coração. É o coração que fala e atende ao poeta: parou de pensar, deixou o pensar na cabeça. Como nos tempos idos, o coração está na boca e na ponta dos dedos.

Sandra Helena de Souza - Professora de Filosofia e Ética da Universidade de Fortaleza