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sábado, 9 de fevereiro de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Ainda os paredões...
Por Felipe Araújo
Vivi o Carnaval de Olinda na virada dos anos 1990 para os anos 2000. Foram pelo menos sete edições em que fiquei hospedado no Centro Histórico. Presenciei, portanto, a experiência dos pernambucanos em relação ao controle dos famigerados paredões de som. Em Olinda, pela configuração do sítio urbano, eles não vinham nos reboques ou nos bagageiros de automóveis, mas nas janelas das casas – de onde vomitavam suas músicas cretinas.
Na época, a prefeitura decidiu comprar a brigar para preservar aquilo que é o principal patrimônio da folia olindense: o cortejo e a música das troças e blocos que cortavam as ladeiras da cidade histórica. Ou Olinda acabava com a praga dos paredões ou os paredões acabavam com o Carnaval. Depois de uma forte campanha educativa (que permanece até hoje) e, principalmente, depois da aplicação de rigorosas multas e punições, o poder público conseguiu vencer a briga contra a truculência representada pelas caixas de som. E o melhor: com forte apoio da população.
Hoje, Fortaleza vive o mesmo dilema que Olinda superou há dez anos. Mas, por enquanto, nosso entrecho não é virtuoso. Aqui, a despeito de uma lei municipal que já trata do assunto, os paredões estão não só ganhando a queda de braço, como desmoralizando o poder público. O drama recente registrado no bairro Ellery e o cancelamento de (lindas) festas, como a do Lago do Jacareí na Cidade dos Funcionários, por conta do medo dos moradores em relação aos donos dos paredões, revelam o despreparo e o fastio das instituições com (in)competência para resolver o problema, em especial da Polícia Militar. E mostram como ainda é precária e provinciana nossa relação com o espaço público.
Nas cidades do Interior, essa é uma guerra perdida. Já em relação a Fortaleza, se a Cidade quer manter seu Pré-Carnaval como a festa exuberante que conhecemos e, por tabela, consolidar seu Carnaval, como vem fazendo nos últimos anos, poderá se mirar no exemplo de Olinda.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/02/04/noticiasjornalopiniao,3000364/ainda-os-paredoes.shtml
Vivi o Carnaval de Olinda na virada dos anos 1990 para os anos 2000. Foram pelo menos sete edições em que fiquei hospedado no Centro Histórico. Presenciei, portanto, a experiência dos pernambucanos em relação ao controle dos famigerados paredões de som. Em Olinda, pela configuração do sítio urbano, eles não vinham nos reboques ou nos bagageiros de automóveis, mas nas janelas das casas – de onde vomitavam suas músicas cretinas.
Na época, a prefeitura decidiu comprar a brigar para preservar aquilo que é o principal patrimônio da folia olindense: o cortejo e a música das troças e blocos que cortavam as ladeiras da cidade histórica. Ou Olinda acabava com a praga dos paredões ou os paredões acabavam com o Carnaval. Depois de uma forte campanha educativa (que permanece até hoje) e, principalmente, depois da aplicação de rigorosas multas e punições, o poder público conseguiu vencer a briga contra a truculência representada pelas caixas de som. E o melhor: com forte apoio da população.
Hoje, Fortaleza vive o mesmo dilema que Olinda superou há dez anos. Mas, por enquanto, nosso entrecho não é virtuoso. Aqui, a despeito de uma lei municipal que já trata do assunto, os paredões estão não só ganhando a queda de braço, como desmoralizando o poder público. O drama recente registrado no bairro Ellery e o cancelamento de (lindas) festas, como a do Lago do Jacareí na Cidade dos Funcionários, por conta do medo dos moradores em relação aos donos dos paredões, revelam o despreparo e o fastio das instituições com (in)competência para resolver o problema, em especial da Polícia Militar. E mostram como ainda é precária e provinciana nossa relação com o espaço público.
Nas cidades do Interior, essa é uma guerra perdida. Já em relação a Fortaleza, se a Cidade quer manter seu Pré-Carnaval como a festa exuberante que conhecemos e, por tabela, consolidar seu Carnaval, como vem fazendo nos últimos anos, poderá se mirar no exemplo de Olinda.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/02/04/noticiasjornalopiniao,3000364/ainda-os-paredoes.shtml
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O ritmo da profissionalização
Por Ana Mary C. Cavalcante
Estrutura ou repasse financeiro, manter a espontaneidade ou estabelecer regras, patrocínios privados ou capital intelectual. A palavra “profissionalização”, como alcançou o Réveillon a partir de 2005, indica muitos sentidos – e desafios - quando se aproxima do Carnaval de Fortaleza.
“A profissionalização é viável, sim. Mas o trabalho da Prefeitura (de conquista do público, apoio aos barracões e divulgação) deveria ser melhor para atrair a iniciativa privada. Falta investimento”, aponta Eduardo Medeiros, da diretoria da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Estado do Ceará.
“Não existe o investimento. Não temos as condições necessárias para melhorar nossa qualidade”, ratifica Francisco José, presidente do Maracatu Rei de Paus. “Quem mantém o maracatu é a família: minha mãe, eu, meu irmão. Só em uma roupa dá quase R$ 4 mil em plumas e pedras”, cita.
Ele considera que “a Prefeitura não tem que manter, mas poderia ajudar com as leis de incentivo, não deixar a gente depender só do edital. Podemos fazer um grande Carnaval, se a gente conseguir grandes patrocinadores, capitaneados pela Prefeitura”. O secretário de Cultura de Fortaleza dialoga: “Para 2014, é um desafio colocar o Carnaval na Lei Rouanet. A Lei é um mecanismo facilitador que a Prefeitura ainda não cogitou fazer”.
Magela Lima considera que a profissionalização do Carnaval “é um desafio para Fortaleza” porque “o Carnaval é um mecanismo interessante para a gente pensar essa possibilidade de relação do fortalezense com a Cidade”. Além disso, ele atenta, não há um “caminho único de profissionalização... Não é, necessariamente, ter um CNPJ, um departamento financeiro, mas entender que o Carnaval tem custos que precisam ser viabilizados de alguma maneira. Os próprios blocos vão sinalizando para onde a Prefeitura deve atuar”.
“Não temos essa pretensão de profissionalização. O que temos conversado com o poder público é sobre serviços e não sobre recursos”, fala Danilo Patrício, um dos organizadores do bloco Sanatório Geral. O bloco se concentra, domingo e terça-feira de Carnaval, na Praça da Gentilândia e quer permanecer “um grupo de amigos que se organiza no bairro. Não temos a ideia de um Carnaval de multidão”.
Para preservar a espontaneidade, explica Danilo, o Sanatório optou, “desde 2009, pela campanha o folião é quem bota o bloco na rua. Não recebemos nenhum centavo do poder público e nem de patrocinador”. O bloco vende produtos de marca própria, faz festas e bingos se precisar. “Não somos profissionais, não vivemos disso. Queremos continuar com nosso espírito de folião e o poder público tem que estar aberto para entender essas diferenças geográficas e de trajetória de cada bloco”, conclui.
Patrocínio
A alternativa tem dado certo. Tanto quanto o patrocínio privado, para o bloco Unidos da Cachorra. “A gente tenta atrair esses patrocinadores através do nome que o bloco adquiriu na Cidade. Não foi algo programado. Começou com uma brincadeira e acabou crescendo. E a gente teve que organizar, tomou outras proporções”, conta Fernando Bustamante, um dos diretores do grupo.
Na relação com os negócios, o cuidado para não perder o passo da festa popular, contrapõe Fernando, é “poder conservar essa cultura do Carnaval de rua. Tem que manter os mesmos moldes, dos blocos saírem gratuitamente para os foliões”. “A profissionalização não pode ser militarizada. Dentro do Carnaval, tem o privado e o público. Cada bloco tem sua filosofia. Tem público para todo canto e essa descentralização é importante”, reflete o produtor cultural Dilson Pinheiro.A criação de polos carnavalescos, a garantia de segurança e a diversificação da programação, enumera Liège Xavier, proprietária da Free Lancer Produções, atraem públicos e afirmam, ano a ano, o Carnaval de Fortaleza.
Estrutura ou repasse financeiro, manter a espontaneidade ou estabelecer regras, patrocínios privados ou capital intelectual. A palavra “profissionalização”, como alcançou o Réveillon a partir de 2005, indica muitos sentidos – e desafios - quando se aproxima do Carnaval de Fortaleza.
“A profissionalização é viável, sim. Mas o trabalho da Prefeitura (de conquista do público, apoio aos barracões e divulgação) deveria ser melhor para atrair a iniciativa privada. Falta investimento”, aponta Eduardo Medeiros, da diretoria da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Estado do Ceará.
“Não existe o investimento. Não temos as condições necessárias para melhorar nossa qualidade”, ratifica Francisco José, presidente do Maracatu Rei de Paus. “Quem mantém o maracatu é a família: minha mãe, eu, meu irmão. Só em uma roupa dá quase R$ 4 mil em plumas e pedras”, cita.
Ele considera que “a Prefeitura não tem que manter, mas poderia ajudar com as leis de incentivo, não deixar a gente depender só do edital. Podemos fazer um grande Carnaval, se a gente conseguir grandes patrocinadores, capitaneados pela Prefeitura”. O secretário de Cultura de Fortaleza dialoga: “Para 2014, é um desafio colocar o Carnaval na Lei Rouanet. A Lei é um mecanismo facilitador que a Prefeitura ainda não cogitou fazer”.
Magela Lima considera que a profissionalização do Carnaval “é um desafio para Fortaleza” porque “o Carnaval é um mecanismo interessante para a gente pensar essa possibilidade de relação do fortalezense com a Cidade”. Além disso, ele atenta, não há um “caminho único de profissionalização... Não é, necessariamente, ter um CNPJ, um departamento financeiro, mas entender que o Carnaval tem custos que precisam ser viabilizados de alguma maneira. Os próprios blocos vão sinalizando para onde a Prefeitura deve atuar”.
“Não temos essa pretensão de profissionalização. O que temos conversado com o poder público é sobre serviços e não sobre recursos”, fala Danilo Patrício, um dos organizadores do bloco Sanatório Geral. O bloco se concentra, domingo e terça-feira de Carnaval, na Praça da Gentilândia e quer permanecer “um grupo de amigos que se organiza no bairro. Não temos a ideia de um Carnaval de multidão”.
Para preservar a espontaneidade, explica Danilo, o Sanatório optou, “desde 2009, pela campanha o folião é quem bota o bloco na rua. Não recebemos nenhum centavo do poder público e nem de patrocinador”. O bloco vende produtos de marca própria, faz festas e bingos se precisar. “Não somos profissionais, não vivemos disso. Queremos continuar com nosso espírito de folião e o poder público tem que estar aberto para entender essas diferenças geográficas e de trajetória de cada bloco”, conclui.
Patrocínio
A alternativa tem dado certo. Tanto quanto o patrocínio privado, para o bloco Unidos da Cachorra. “A gente tenta atrair esses patrocinadores através do nome que o bloco adquiriu na Cidade. Não foi algo programado. Começou com uma brincadeira e acabou crescendo. E a gente teve que organizar, tomou outras proporções”, conta Fernando Bustamante, um dos diretores do grupo.
Na relação com os negócios, o cuidado para não perder o passo da festa popular, contrapõe Fernando, é “poder conservar essa cultura do Carnaval de rua. Tem que manter os mesmos moldes, dos blocos saírem gratuitamente para os foliões”. “A profissionalização não pode ser militarizada. Dentro do Carnaval, tem o privado e o público. Cada bloco tem sua filosofia. Tem público para todo canto e essa descentralização é importante”, reflete o produtor cultural Dilson Pinheiro.A criação de polos carnavalescos, a garantia de segurança e a diversificação da programação, enumera Liège Xavier, proprietária da Free Lancer Produções, atraem públicos e afirmam, ano a ano, o Carnaval de Fortaleza.
Mas, além do fazer, a realidade que abre alas para o futuro dessa festa na Capital demanda “pessoas que saibam refletir porque estão fazendo e para quê estão fazendo”, indica Rachel Gadelha, diretora da Via de Comunicação e Cultura (responsável pelo Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga).
“Não é só organizar um bom Carnaval, mas para aonde estamos indo, qual o lugar do produtor cultural, da iniciativa pública, da iniciativa privada. É preciso ter mais conteúdo, conhecimento, instrumentos”, incita. “É sempre uma batalha muito grande (obter recursos) e precisamos caminhar muito para que a sociedade perceba que a cultura é boa por ela própria. Ainda temos que pensar muito sobre isso”, projeta.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999061/o-ritmo-da-profissionalizacao.shtml
“Não é só organizar um bom Carnaval, mas para aonde estamos indo, qual o lugar do produtor cultural, da iniciativa pública, da iniciativa privada. É preciso ter mais conteúdo, conhecimento, instrumentos”, incita. “É sempre uma batalha muito grande (obter recursos) e precisamos caminhar muito para que a sociedade perceba que a cultura é boa por ela própria. Ainda temos que pensar muito sobre isso”, projeta.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999061/o-ritmo-da-profissionalizacao.shtml
O Carnaval que se tem e o que se quer
Por Felipe Araújo
O saudosismo de muitos repete, ano a ano, não existir mais Carnaval em Fortaleza. A insistência de outros tantos mantém a festa popular nas ruas. A cultura, ventania que é, mistura os dois lados em um redemoinho de convivências e reflexões e pergunta: quando a Cidade vai afirmar o Carnaval?
Sim, porque, enquanto houver povo, há folião. “A festa é transgressão, é a subversão das regras do jogo e a instalação de outro tempo, outra ordem, outro sentido. O Carnaval junta todos estes ingredientes e mais o lado dionisíaco”, descreve o professor Gilmar de Carvalho, em texto para o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Fortaleza tem Carnaval, ainda que custe (a) afirmá-lo. Seja o Carnaval das saudades, seja o do tempo presente; seja o das marchinhas, seja o do maracatu; seja o das baterias, seja o das palmas; seja o do cortejo, seja o das praças e calçadas; seja o dos sujos, seja o dos reis e rainhas; seja o das fantasias, seja ainda o desejado. Carnaval múltiplo e único, na defesa apaixonada dos que brincam.
“A identidade do Carnaval de Fortaleza é ser diverso, é ser vários carnavais. A ideia de ter uma coisa para vender como produto cultural é o principal erro”, entende o professor Danilo Patrício, um dos organizadores do bloco Sanatório Geral (Gentilândia). “Como folião, o Carnaval que eu gosto é o espontâneo, de rua, da brincadeira, da fantasia”, une.
“É a multiplicidade rítmica”, o compositor e carnavalesco Dilson Pinheiro entra na roda. Ele vem de escolas de samba e maracatus, desde 1978, e, há seis anos, concentra o bloco Num Ispaia Sinão Ienchi no Bar da Mocinha (Praia de Iracema). Dali, observa outro espírito carnavalesco que vai ganhando corpo na Capital: “O fortalezense está se fantasiando novamente. É outra coisa interessante que está acontecendo”.
Nas ruas, o Carnaval de Fortaleza segue dois caminhos (ainda) paralelos – que a atual gestão planeja fazê-los se encontrar, em editais comuns a partir de 2014. Um vai pela avenida Domingos Olímpio, nos três dias oficiais do calendário, levando escolas de samba, blocos, cordões e maracatus. O outro se antecipa e se dispersa pelos bairros, acordando o Carnaval quatro fins de semana antes, com marchinhas e batucadas.
O primeiro é mais antigo. “Pode-se pensar no ano de 1936, como da constituição do bloco Prova de Fogo e do maracatu Az de Ouro. Era uma espécie de institucionalização da festa nos espaços públicos”, sinaliza Gilmar de Carvalho. Já o Pré-Carnaval é mais novo. O marco é a formação da banda Periquito da Madame, em 1980, assinala Dilson Pinheiro que defende: “Temos que acabar com essa palavra ‘Pré-Carnaval’ e fazer um Carnaval maior em Fortaleza”.
Mas não é fácil abolir fronteiras, mesmo as carnavalescas. “Carnaval de rua é o maracatu, os blocos, como As bruxas, os cordões”, identifica Francisco José, presidente do maracatu Rei de Paus – 59 anos de fundação. Para ele, que recebeu a tradição dos pais, “o corso antigo se configurou com os blocos e as agremiações carnavalescas, resistindo à mídia, à internet”.
Também Raimundo Praxedes, presidente do maracatu Nação Baobá, destaca “o domingo (de desfiles) do maracatu” como o “retrato do Carnaval” de Fortaleza. “Quando todo mundo procura fazer a coisa mais bonita, diferente. Existem 13 maracatus (na Capital). E é diferente de todos: do Recife, de Maceió”, completa.
Festa popular por natureza, cabe em mil e um olhares. “É o Carnaval do folião (Pré) e o Carnaval do espectador (oficial). Fazem parte da Cidade, mas são segmentos diferentes, cada qual com suas necessidades”, distingue Eduardo Medeiros, da diretoria da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Estado do Ceará. Na opinião de Liège Xavier, proprietária da Free Lancer Produções, Fortaleza encontrou “um formato interessante” de se carnavalizar, desdobrando-se em Pré-Carnaval, shows no Aterrinho da Praia de Iracema e os tradicionais desfiles na avenida Domingos Olímpio.
De um ou de tantos modos, o Carnaval que se faça e se recrie “tem que permanecer uma festa democrática, para o povo”, advoga Fernando Bustamante, mestre de bateria e um dos diretores do bloco Unidos da Cachorra (Praia de Iracema). E, adiante, “o Carnaval de Fortaleza é o que consegue vencer esse medo que a gente tem da rua. É atrevido, consegue romper com as coisas que estão dadas e parecem cristalizadas. É o Carnaval que desafia essa recusa da cidade aos seus espaços públicos”, projeta Magela Lima, secretário de Cultura de Fortaleza.
O saudosismo de muitos repete, ano a ano, não existir mais Carnaval em Fortaleza. A insistência de outros tantos mantém a festa popular nas ruas. A cultura, ventania que é, mistura os dois lados em um redemoinho de convivências e reflexões e pergunta: quando a Cidade vai afirmar o Carnaval?
Sim, porque, enquanto houver povo, há folião. “A festa é transgressão, é a subversão das regras do jogo e a instalação de outro tempo, outra ordem, outro sentido. O Carnaval junta todos estes ingredientes e mais o lado dionisíaco”, descreve o professor Gilmar de Carvalho, em texto para o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Fortaleza tem Carnaval, ainda que custe (a) afirmá-lo. Seja o Carnaval das saudades, seja o do tempo presente; seja o das marchinhas, seja o do maracatu; seja o das baterias, seja o das palmas; seja o do cortejo, seja o das praças e calçadas; seja o dos sujos, seja o dos reis e rainhas; seja o das fantasias, seja ainda o desejado. Carnaval múltiplo e único, na defesa apaixonada dos que brincam.
“A identidade do Carnaval de Fortaleza é ser diverso, é ser vários carnavais. A ideia de ter uma coisa para vender como produto cultural é o principal erro”, entende o professor Danilo Patrício, um dos organizadores do bloco Sanatório Geral (Gentilândia). “Como folião, o Carnaval que eu gosto é o espontâneo, de rua, da brincadeira, da fantasia”, une.
“É a multiplicidade rítmica”, o compositor e carnavalesco Dilson Pinheiro entra na roda. Ele vem de escolas de samba e maracatus, desde 1978, e, há seis anos, concentra o bloco Num Ispaia Sinão Ienchi no Bar da Mocinha (Praia de Iracema). Dali, observa outro espírito carnavalesco que vai ganhando corpo na Capital: “O fortalezense está se fantasiando novamente. É outra coisa interessante que está acontecendo”.
Nas ruas, o Carnaval de Fortaleza segue dois caminhos (ainda) paralelos – que a atual gestão planeja fazê-los se encontrar, em editais comuns a partir de 2014. Um vai pela avenida Domingos Olímpio, nos três dias oficiais do calendário, levando escolas de samba, blocos, cordões e maracatus. O outro se antecipa e se dispersa pelos bairros, acordando o Carnaval quatro fins de semana antes, com marchinhas e batucadas.
O primeiro é mais antigo. “Pode-se pensar no ano de 1936, como da constituição do bloco Prova de Fogo e do maracatu Az de Ouro. Era uma espécie de institucionalização da festa nos espaços públicos”, sinaliza Gilmar de Carvalho. Já o Pré-Carnaval é mais novo. O marco é a formação da banda Periquito da Madame, em 1980, assinala Dilson Pinheiro que defende: “Temos que acabar com essa palavra ‘Pré-Carnaval’ e fazer um Carnaval maior em Fortaleza”.
Mas não é fácil abolir fronteiras, mesmo as carnavalescas. “Carnaval de rua é o maracatu, os blocos, como As bruxas, os cordões”, identifica Francisco José, presidente do maracatu Rei de Paus – 59 anos de fundação. Para ele, que recebeu a tradição dos pais, “o corso antigo se configurou com os blocos e as agremiações carnavalescas, resistindo à mídia, à internet”.
Também Raimundo Praxedes, presidente do maracatu Nação Baobá, destaca “o domingo (de desfiles) do maracatu” como o “retrato do Carnaval” de Fortaleza. “Quando todo mundo procura fazer a coisa mais bonita, diferente. Existem 13 maracatus (na Capital). E é diferente de todos: do Recife, de Maceió”, completa.
Festa popular por natureza, cabe em mil e um olhares. “É o Carnaval do folião (Pré) e o Carnaval do espectador (oficial). Fazem parte da Cidade, mas são segmentos diferentes, cada qual com suas necessidades”, distingue Eduardo Medeiros, da diretoria da Associação Cultural das Entidades Carnavalescas do Estado do Ceará. Na opinião de Liège Xavier, proprietária da Free Lancer Produções, Fortaleza encontrou “um formato interessante” de se carnavalizar, desdobrando-se em Pré-Carnaval, shows no Aterrinho da Praia de Iracema e os tradicionais desfiles na avenida Domingos Olímpio.
De um ou de tantos modos, o Carnaval que se faça e se recrie “tem que permanecer uma festa democrática, para o povo”, advoga Fernando Bustamante, mestre de bateria e um dos diretores do bloco Unidos da Cachorra (Praia de Iracema). E, adiante, “o Carnaval de Fortaleza é o que consegue vencer esse medo que a gente tem da rua. É atrevido, consegue romper com as coisas que estão dadas e parecem cristalizadas. É o Carnaval que desafia essa recusa da cidade aos seus espaços públicos”, projeta Magela Lima, secretário de Cultura de Fortaleza.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999063/o-carnaval-que-se-tem-e-o-que-se-quer.shtml
Editais e mudanças em 2014
Por Ana Mary C. Cavalcante
“A primeira grande mudança da Prefeitura é essa compreensão de que não vão ser mais dois eventos, serão um evento só”, planeja o secretário de Cultura de Fortaleza, Magela Lima, para o Carnaval de 2014. O secretário quer aproveitar a elaboração do Plano Plurianual de Fortaleza, este ano, para incluir o apoio financeiro ao Pré-Carnaval e ao Carnaval oficial em uma única rubrica orçamentária.
“Se eu conseguir liberar todo o dinheiro em um período só, consigo que o Carnaval seja melhor porque vai ter um tempo maior de utilização do recurso”, credita Magela. Os recursos que, comumente, são liberados a uma ou duas semanas da festa seriam disponibilizados até um mês antes, exemplifica o gestor. E os valores seriam calculados de acordo com o número de apresentações (dias de saída): “Um bloco que deseja fazer seis saídas: faz quatro no (período do) Pré e duas no Carnaval. Vai ganhar diferente de quem quer sair só as do Pré”.
Ao transformar os dois editais – de apoio ao Pré e ao Carnaval, hoje, distintos – em um, o secretário de Cultura intenciona ainda criar a categoria “blocos de primeira saída”: grupos que não tenham a obrigação de desfilar mais de uma vez.
Magela Lima considera a política de editais “um instrumento absolutamente democrático e importante”. E deve mantê-la, mas com alterações, reforça: “Tem que está sendo, constantemente, avaliado. Os editais, como estão hoje, são muito nefastos porque criam um ambiente de competição além do necessário. É um clima de guerra absurdo para se inserir dentro do edital”.
“A primeira grande mudança da Prefeitura é essa compreensão de que não vão ser mais dois eventos, serão um evento só”, planeja o secretário de Cultura de Fortaleza, Magela Lima, para o Carnaval de 2014. O secretário quer aproveitar a elaboração do Plano Plurianual de Fortaleza, este ano, para incluir o apoio financeiro ao Pré-Carnaval e ao Carnaval oficial em uma única rubrica orçamentária.
“Se eu conseguir liberar todo o dinheiro em um período só, consigo que o Carnaval seja melhor porque vai ter um tempo maior de utilização do recurso”, credita Magela. Os recursos que, comumente, são liberados a uma ou duas semanas da festa seriam disponibilizados até um mês antes, exemplifica o gestor. E os valores seriam calculados de acordo com o número de apresentações (dias de saída): “Um bloco que deseja fazer seis saídas: faz quatro no (período do) Pré e duas no Carnaval. Vai ganhar diferente de quem quer sair só as do Pré”.
Ao transformar os dois editais – de apoio ao Pré e ao Carnaval, hoje, distintos – em um, o secretário de Cultura intenciona ainda criar a categoria “blocos de primeira saída”: grupos que não tenham a obrigação de desfilar mais de uma vez.
Magela Lima considera a política de editais “um instrumento absolutamente democrático e importante”. E deve mantê-la, mas com alterações, reforça: “Tem que está sendo, constantemente, avaliado. Os editais, como estão hoje, são muito nefastos porque criam um ambiente de competição além do necessário. É um clima de guerra absurdo para se inserir dentro do edital”.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999090/editais-e-mudancas-em-2014.shtml
O bloco dos contra e a turma a favor
Por Ana Mary C. Cavalcante
As mudanças para o Carnaval de 2014, já anunciadas e em planejamento pela nova gestão cultural do município, desafiam carnavalescos e produtores culturais a pensar e repensar o Carnaval que se tem e aquele que se quer. “A gente tem que se relacionar com as agremiações de forma mais antecipada. Imagino que, juntando as duas coisas, Pré e Carnaval, consiga ver o que funciona em um e em outro e fazer essa ponte”, propõe o secretário Magela Lima.
A turma a favor da fusão dos editais acredita que nenhuma das festas terá prejuízo, porque “cada qual tem sua especificidade” – concordam carnavalescos ouvidos pelo O POVO. E, com a união, deve-se ganhar mais tempo de Carnaval e uma “diversificação de ritmos”, concorda o produtor cultural Dilson Pinheiro. “O Réveillon poderia ser um marco: o Carnaval de Fortaleza começaria no primeiro minuto do ano e iria até a data oficial”, sugere.
Já o bloco dos contra questiona a própria política de editais. “Dependendo da banca, pode ser favorável para um e não para outros. Por que não ter uma entidade séria, que receba esse recurso (e faça o repasse), como no Rio de Janeiro? A Prefeitura não é para gerir Carnaval”, avalia Francisco José, presidente do Maracatu Rei de Paus.
Para ele, também a união entre Pré e Carnaval “não funciona”: “Não se pode juntar uma situação que são coisas distintas. O Pré são pessoas que estão naquele momento. E, no Carnaval, vão para Guaramiranga, para o sítio... Têm outro pensamento de Carnaval”.
Raimundo Praxedes, presidente do maracatu Nação Baobá, pede cautela nas mudanças: “Tem que repensar porque pode ser um estouro ou um ato negativo, uma divisão de público. Esse Carnaval da Praia de Iracema (shows) prejudica o da (avenida) Domingos Olímpio. Quando dá 11 horas (noite), começa a esvaziar (a avenida)”. Por outro lado, Praxedes reconhece os editais como “o ponto (de apoio financeiro) mais forte que o maracatu encontra”.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999998/o-bloco-dos-contra-e-a-turma-a-favor.shtml
As mudanças para o Carnaval de 2014, já anunciadas e em planejamento pela nova gestão cultural do município, desafiam carnavalescos e produtores culturais a pensar e repensar o Carnaval que se tem e aquele que se quer. “A gente tem que se relacionar com as agremiações de forma mais antecipada. Imagino que, juntando as duas coisas, Pré e Carnaval, consiga ver o que funciona em um e em outro e fazer essa ponte”, propõe o secretário Magela Lima.
A turma a favor da fusão dos editais acredita que nenhuma das festas terá prejuízo, porque “cada qual tem sua especificidade” – concordam carnavalescos ouvidos pelo O POVO. E, com a união, deve-se ganhar mais tempo de Carnaval e uma “diversificação de ritmos”, concorda o produtor cultural Dilson Pinheiro. “O Réveillon poderia ser um marco: o Carnaval de Fortaleza começaria no primeiro minuto do ano e iria até a data oficial”, sugere.
Já o bloco dos contra questiona a própria política de editais. “Dependendo da banca, pode ser favorável para um e não para outros. Por que não ter uma entidade séria, que receba esse recurso (e faça o repasse), como no Rio de Janeiro? A Prefeitura não é para gerir Carnaval”, avalia Francisco José, presidente do Maracatu Rei de Paus.
Para ele, também a união entre Pré e Carnaval “não funciona”: “Não se pode juntar uma situação que são coisas distintas. O Pré são pessoas que estão naquele momento. E, no Carnaval, vão para Guaramiranga, para o sítio... Têm outro pensamento de Carnaval”.
Raimundo Praxedes, presidente do maracatu Nação Baobá, pede cautela nas mudanças: “Tem que repensar porque pode ser um estouro ou um ato negativo, uma divisão de público. Esse Carnaval da Praia de Iracema (shows) prejudica o da (avenida) Domingos Olímpio. Quando dá 11 horas (noite), começa a esvaziar (a avenida)”. Por outro lado, Praxedes reconhece os editais como “o ponto (de apoio financeiro) mais forte que o maracatu encontra”.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/02/02/noticiasjornalvidaearte,2999998/o-bloco-dos-contra-e-a-turma-a-favor.shtml
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Em BELÉM - FILHOS DE GLANDE
SERVIÇO
O Filhos de Glande sairá às 16h00 na Cidade VelhaDia 3 de fevereiro, domingo.
Concentração: A partir das 12hs no Hang Burguer ( Av. Tamandaré) com a Feijoada do Filhos de Glande.
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