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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fortaleza envergonhada

Por Sandra Helena Souza

Imaginei esses dias a principal associação empresarial de qualquer cidade alemã recebendo um palestrante deputado que desembarcado no aeroporto local dissesse publicamente: “nós já vencemos uma vez, fomos derrotados, mas voltaremos” referindo-se ao 3º Reich. Soa absurdo, eu sei. Se mudarmos de continente e colocarmos a sandice no Chile, Uruguai ou mesmo Argentina, países que enfrentaram seus passados de ditadura como recomenda a internacional “Justiça de Transição” para consolidar consensos democráticos nacionais, haverá enorme dificuldade de crer razoavelmente em acontecimento dessa espécie. Mas a realidade costuma superar nossas piores distopias.

O protagonismo político do CIC colocou o Ceará na primeira página do País, o que se costuma chamar “A Era Tasso”, dos empresários “esclarecidos” no poder. Inúmeros trabalhos acadêmicos se referem a uma revolução burguesa tardia entre nós, uma “modernização conservadora” que, não obstante, representou avanços em setores diversos, da economia aos direitos humanos, como de resto em todo o País, desde o período da redemocratização. Os avanços, sociais e político-institucionais, ficaram bem aquém das promessas; negá-los, entretanto, é equívoco crasso.

Mas momentos políticos conturbados como o que vivemos promovem provas a céu aberto onde todos somos testados. E a pergunta fundamental é: o que entendemos por democracia? Ao desembarcar em Fortaleza, depois de proferir as bizarrices de praxe, Jair Bolsonaro bradou: “nós os derrotamos em 64 e vamos derrotá-los de novo”, ovacionado por uma ruidosa claque. Fiquei estupefata ao saber que ele daria uma palestra no CIC sobre “Ética na Política”. Compromissos não me permitiram comparecer. Procurei e soube que não há registro audiovisual algum desse sinistro.

O epíteto de “polêmico” hoje encobre discursos tenebrosos, assim como a ideia mal concebida entre nós de “liberdade de expressão”. Não há pactos consensuais sobre o que significa ao menos Estado de Direito, não só entre manifestantes ignorantes, mas entre uma entidade que já teve peso político determinante. Eu gostaria imensamente de ver a entrevista a que o deputado foi submetido na ocasião. As perguntas da imprensa são todas sobre corrupção, esse nosso encobrimento preferido. Queria ter podido entrevistá-lo. Meu aluno mais negligente faria perguntas consistentes sobre golpe de Estado, torturas e desaparecidos políticos. Sobre misoginia, homofobia e racismo, não seria necessário. Já conhecemos amplamente sua posição.

Esse acontecimento fala mais alto do que os cartazes infames perguntando por que a presidente não foi enforcada no Doi-Codi. Não se trata apenas de malucos nas ruas, mas de uma instituição respeitável que acolhe, a título de “democracia”, a palavra de alguém que estaria disposto, sem reservas, a defender isso hoje mesmo. Com convicção e aplausos. Alguém duvida?

Ética na Política? Bolsonaro? Façam-me o favor. Nada mais que um acinte. Vergonha moral, para nós e para o mundo civilizado.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2015/08/22/noticiasjornaldom,3492090/artigo-fortaleza-envergonhada.shtml

terça-feira, 24 de julho de 2012

Mon Dieu, ministra francesa usa vestido no Parlamento

Cécile Duflot
Por Barbara Ellen


Cécile Duflot, a ministra da Habitação da França, causou comoção ao usar um vestido para falar na Assembleia Nacional (Parlamento). Espere, uma correção. Não foi Duflot que causou comoção, mas sim os ministros homens, que assobiaram e rugiram: “Uau!” De sua parte, Duflot reagiu calmamente, com uma piada seca — “Senhoras e senhores, obviamente mais senhores que senhoras” — antes de continuar seu discurso. Mais tarde ela disse: “Já trabalhei na construção civil e nunca vi nada parecido. Isso revela algo sobre alguns deputados. Penso nas mulheres deles”. Sim, as pobres esposas, casadas com o que parecem ser “les troglodytes sérieux”, mas esse não é o fim da história.

Que pena ver a França com uma Assembleia Nacional cheia do tipo de imbecis que não conseguem se conter quando uma ministra se ergue diante deles usando um vestido. “Uau!” Realmente? O que é isso, Confissões de uma Ministra Francesa? Cinquenta Tons de Risca-de-giz? O vestido de Duflot não era sequer uma coisa provocativa como o de Jessica Rabbit: justo, sinuoso, talvez com uma fenda até a coxa, com o próximo projeto de lei enfiado na liga. Era um modelo floral recatado — algo que você poderia imaginar [a apresentadora de TV britânica] Kirstie Allsopp usando no casamento de sua terceira melhor amiga. Se isso é tudo o que é preciso para deixar os políticos perigosamente excitados, que os céus ajudem a França — na próxima vez eles entrarão em êxtase ao ver o tornozelo das moças.

Duflot diz que nem todos os homens são assim, e ela prefere pensar em “homens feministas”. Sim. Mas por que as mulheres políticas deveriam se endurecer tanto para esse tipo de terrível pantomima redutiva? Duflot ficou famosa por usar jeans em uma reunião de gabinete, mas foi necessário um vestido para expor a grosseria oportunista do poder político predominantemente masculino. Jacques Myard disse que os assobios de lobos foram apenas um tributo à beleza de Duflot. Para Patrick Balkany, a ministra provavelmente usou o vestido “para que não escutássemos o que ela dizia”.

Não é de surpreender que esses dois, e muitos outros que assobiaram, fizeram olhares lascivos e rugiram, estão no partido de oposição União por um Movimento Popular (UMP) de direita. O que eles fizeram não foi apreciação, ou mesmo uma piada, foi fria estratégia política — usar o gênero de uma mulher contra ela.

Escrevi anteriormente sobre como as mulheres políticas não podem vencer quando sua aparência está em jogo. Arrumadas demais, elas são rejeitadas como dondocas, desesperadas, ou ambos; de menos, são condenadas como monstras assexuadas que desistiram de si mesmas. É o destino da mulher política ser vista e não ouvida. Ou, de todo modo, muito mais vista (julgada, objetificada, zombada) do que consegue ser ouvida.

No entanto, qualquer político, homem ou mulher, não é nada se não for ouvido adequadamente. O que transforma em zombaria o raciocínio segundo o qual talvez essas mulheres apreciem incidentes como esse, porque lhes dão uma condição de mártires feministas e destacam seus perfis.

Na realidade, esses eventos fatalmente prejudicam a mulher envolvida, enfraquecendo sua mensagem e desperdiçando seu ímpeto. Depois da Assembleia Nacional, ninguém comentou o que Duflot realmente disse, apenas seu vestido florido. Um caso clássico de “política interrompida”.

É uma questão que continua surgindo: esse é o modo padrão do homem político, sexista-juvenil? Existem “homens feministas” suficientes para fazer diferença? Na verdade, talvez esse incidente seja apenas mais um indicador da preocupação maior de se as mulheres podem esperar um tratamento completamente igualitário na política.

Do que aconteceu na França ao terrível e revelador “acalme-se, querida” de David Cameron para a trabalhista Angela Eagle, parece haver uma tendência desconcertante de mandar as mulheres se calarem assim que tentam abrir a boca.

Desta vez foi um vestido, mas na verdade poderia ser qualquer coisa — a ponto de nunca ter a ver com o que uma mulher disse, mas com a rapidez e eficiência dos “rapazes” para silenciá-la antes que pudesse falar.
http://www.cartacapital.com.br/internacional/mon-dieu-ministra-francesa-usa-vestido-no-parlamento/

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conselho Nacional de Justiça pune Juiz

 A notícia abaixo onde o CNJ afasta juiz por dois anos, contém algumas pérolas.

  •  "A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo (..) Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem" trechos da decisão do juiz punido;
  • "A mulher é obra prima da criação. Acho que Deus só chegou à compreensão que era Deus quando chegou ao molde da primeira mulher” frase do presidente em exercício do CNJ, Carlos Ayres Britto


 http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/11/cnj-afasta-juiz-que-comparou-lei-maria-da-penha-regras-diabolicas.html

09/11/2010 14h27 - Atualizado em 09/11/2010 18h35

CNJ afasta juiz que comparou Lei Maria da Penha a ‘regras diabólicas’

Edílson Rodrigues ficará afastado por pelo menos 2 anos, recebendo salário.
Em 2009, o juiz foi acusado de preconceito contra a mulher.

Débora Santos Do G1, em Brasília
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou nesta terça-feira (9) o afastamento por pelo menos dois anos do juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues, da comarca de Sete Lagoas (MG). Ele foi acusado de usar linguagem discriminatória e preconceituosa em sentenças nas quais considerou inconstitucional a Lei Maria da Penha e de rejeitar pedidos de medidas contra homens que agrediram e ameaçaram suas companheiras.
Na época, Rodrigues atacou a lei em algumas sentenças, classificando-a como um “conjunto de regras diabólicas”. Ainda segundo o juiz, a “desgraça humana” teria começado por causa da mulher.
"A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo (..) Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem", segundo trechos de decisões do juiz.
Rodrigues responde a processo administrativo no CNJ desde setembro do ano passado. Na época, ele negou que tenha havido “excesso de linguagem” e se defendeu da acusação de preconceito.
“Eu não ofendi a parte e nem a quem quer que seja. Eu me insurgi contra uma lei em tese, e mesmo assim, parte dela. Combato um feminismo exagerado, que negligencia a função paterna, que quer igualdade sim, mas fazendo questão de serem mantidas intactas todas as benesses da feminilidade”, afirmou o juiz.
Por 9 votos a 6, os membros do CNJ decidiram colocar o juiz em disponibilidade, sanção pela qual o magistrado é afastado de suas funções por pelo menos 2 anos, recebendo salário proporcional ao tempo de serviço. Só depois desse período ele pode pedir autorização para voltar a atuar.
Julgamento
O relator do caso no CNJ, Marcelo Neves, entendeu que a gravidade das falhas não justificaria a remoção do juiz para outra vara, nem a determinação da aposentadoria compulsória, por não se tratar de crime ou contravenção.
“A visão que o magistrado em causa tem da mulher entra em mortal rota de colisão com a Constituição. O juiz decidiu de costas para a Constituição. A mulher é obra prima da criação. Acho que Deus só chegou à compreensão que era Deus quando chegou ao molde da primeira mulher”, afirmou o presidente em exercício do CNJ, Carlos Ayres Britto.
Apoio ao juiz
A Associação dos Magistrados Mineiros (Amagis) divulgou nesta terça uma nota de apoio ao juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues. “A Associação entende que a decisão não se deu por equidade e continuará ao lado do magistrado, empenhando todos os esforços para o restabelecimento da justiça”, diz a nota.
Na nota, a associação diz que Edilson Rumbelsperger é “um juiz íntegro, competente, dedicado ao Judiciário e à sociedade e respeitado pelos colegas e pelos cidadãos das comarcas nas quais atuou”.

A Amagis ainda afirmou que o juiz “deferiu diversas medidas protetivas com base na Lei Maria da Penha, requeridas por mulheres ameaçadas com violência física, sexual ou psicológica, o que pode ser comprovado nos registros da comarca”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil

http://pedroalexandresanches.blogspot.com/

DOMINGO, OUTUBRO 17, 2010


Há alguns dias, falei no Twitter que estava indo entrevistar uma artista muito especial - para uma reportagem que acaba de ser publicada pelo iG. Era Gal Costa, uma das artistas maisimportantes da história deste Brasil.


A certa altura da entrevista, Gal contou um episódio que não vou detalhar aqui (estará nos links acima), sobre uma briga em que se envolveu no trânsito, no auge do frêmito tropicalista, 1968, 1969, não sei exatamente. Ornada com o cabelo black power e o figurino exuberante da época, Gal (que afirma ser exímia motorista) entrou em conflito com um homem que, a partir de um gesto (obsceno) dela, desceu do carro, perseguiu a cantora, deu um tapa na cara dela e arrematou: "Ponha-se no seu lugar de mulher!".

Era 1968, 1969.

Como já cantou à mesma época outro tropicalista (negro, por vezes black power), muita coisa sucedeu daquele tempo pra cá. O Brasil aconteceu, é o maior, que é que há?

Hoje é 2010. Vivemos num outro século, no qual descendentes de árabes proclamam que não somos racistas, neodefensores (defensores?) dos direitos humanos denunciam o advento da "heterofobia", neopregadores antiaborto brotam dos esgotos, neofeministas (feministas?) vencem eleições defendendo a integridade física das mulheres contra candidatos (negros) que já praticaram violência contra mulheres. Não somos mais misóginos. Em uma mulher como Gal Costa não bateríamos nem com uma for. Agredir Dilma Rousseff?, Marina Silva?, nem pensar!

Mas aí acontece uma campanha eleitoral e de repente minhas vistas ficam turvas.

Na televisão, vejo a cervejaria Brahma fazer gracinha com o fato consumado (fato?, consumado?) de que homens (machos, daqueles que coçam o saco) gostam muito mais de futebol (e de outros homens) - e de cerveja, é óbvio - do que de mulheres.

Na "grande" mídia, leio uma famosa e formosa atriz convocando esses mesmos machos (que gostam de coçar o saco) a arrasar Dilma Rousseff nas urnas, quiçá violentamente.

No Twitter, por fim e não menos chocante, ouço um chapa dizer que viu "uma patricinha imbecil" fazer "uma conversão tão estúpida com sua Pajero que merecia uma surra". Uma surra, entendeu? Um chapa esclarecido, percebeu? É 2010, e há gente disposta, ao menos retoricamente, a fazer com uma "patricinha estúpida" o mesmo que velhos pitbulls faziam com Gal Costa em 1969, 1968.

O monstro da misoginia mudou de cara, mudou mil caras, mas ele segue habitando o mesmo pântano em que sempre morou, e está disposto a arreganhar os dentes diante do primeiro indício de se sentir ameaçado. O monstro da misoginia odeia o sexo feminino mais que tudo na vida dele (talvez odeie ainda mais o sexo masculino, mas essa é outra parte do assunto) - e o monstro da misoginia, por ter mil caras, ocorre em forma de homem heterossexual, de mulher heterossexual, de homossexuais em geral, de minorias sexuais as mais variadas. Ocorre em todos os formatos, cores e tamanhos.

No início de 2010, homens e mulheres elegeram Marcelo Dourado o herói (ignorante, tosco, misógino, homofóbico) do Big Brother Brasil. Em outubro de 2010, mulheres (e homens) tomam, nas ruas brasileiras em campanha ensandecida, o mesmo tapa na cara que Gal tomou em 1968, 1969, multiplicado por milhões.

O monstro da misoginia tem mil faces - às vezes se disfarça de bicho-papão da homofobia, outras de dragão da xenofobia, depois de jaguadarte do racismo. O mostro de mil caras é um torturador nato, manja tudo de choque elétrico, pau-de-arara, telefone, bastão introduzido na vagina e/ou no ânus de quem ele diz mais detestar (há sempre algo de sexual no ódio do monstro de mil caras).

O jaguadarte que venceu a Alice de Lewis Carroll (mas foi vencido pela Alice de Tim Burton) é pedófilo, mas nunca ninguém vai ficar sabendo disso. Misturando-se com a paisagem de cada ocasião, ele se traveste de fanático religioso, beata castiça, padre ou pastor que usa e abusa de Deus para cuspir no mundo seus ódios internos e segredos guardados. Ele é a favor da vida, desde que não seja a vida da mãe que acabou de abortar um pedaço de si própria - o jaguadarte é sempre, sempre, sempre misógino.

Há poucos dias, disse a brava psicanalista Maria Rita Kehl, em entrevista à revista "CartaCapital": "A ONG Católicas pelo Direito de Decidir me convidou para debater, e elas pensam assim: a criminalização do aborto é uma questão contra a liberdade sexual da mulher, ponto. Não pode usar camisinha, porque a Igreja também é contra. Então é uma questão de dizer: sexo só dentro do casamento e só para ter filho. É isso, que não está escrito assim, mas é o que está dito. Se não pode usar preservativo, não pode evitar filho, não pode nem evitar infecções, epidemias como o HIV que mata milhões na África, que 'a favor da vida' é esse?".

Mas, ora, se é preciso ceder à pauta do monstro de mil caras e começar pelo beabá, façamos: todo bebê é concebido por uma mulher em associação com um homem. Todo aborto é feito por uma mulher com a participação (e/ou omissão) de pelo menos um homem. Bebês abortados são utilizados para demonizar e inculcar toneladas de culpa nas mentes femininas - exclusivamente das mentes femininas, como se os homens não participassem da concepção e do nascimento, ou do aborto. O abominável homem das florestas demoniza o aborto, mas não é porque queira defender a vida - ele quer é atentar contra ela, por intermédio do controle dos corpos (e das mentes) das mulheres.

Os homens da cervejaria Brahma que gostam mais de cerveja e de futebol que de mulher são os homens que não assumem o pedaço de gente que injetam no corpo de "suas" mulheres - e preferem ir ao futebol com uma cervejinha na mão a acompanhá-las até a clínica clandestina de abortos.

O dragão da misoginia (ele é macho, mas por vezes se disfarça sob o apelido de Mônica, Sônia ou, mais exótico, Weslian) não quer que ninguém saiba disto, mas todo ser humano carrega sua cota de responsabilidade pelos abortos que a humanidade comete, os físicos, ou políticos e os ecológicos. A mulher arranca um pedaço do seu corpo. O homem se omite, nos mais variados estágios: não assume o bebê, rotula de "vaca", "vagabunda", "puta" e "exploradora" a mulher que abortou, vez ou outra assassina e retalha o corpo da mulher que pariu. No mínimo, simula que o assunto não é com ele.

O religioso celibatário, que para todos os efeitos nunca entrou no corpo de uma mulher (embora tenha saído de um, de uma) nem nunca concebeu nenhum bebê (e quantas mulheres do padre e quantos rebentos-bastardos-errantes de religiosos há por aí, Nossa Senhora Desaparecida!), tenta enlouquecidamente controlar o corpo feminino e a mente feminina, demonizando a mulher que abortou, supostamente sozinha. O monstro de mil caras da misoginia adora o disfarece da batina do padre, do hábito da freira, da bíblia do pastor.

O(a) homossexual, frequentemente misógino(a), sente-se, ele(a) próprio(a), um aborto.

O dragão da homofobia é irmão gêmeo da garatuja da misoginia, e os homossexuais são, por sinal, tanto quanto as mulheres, espezinhados e refugados por diversas religiões, mesmo por sobre a evidência simplória de que TODO homosseuxal (exceto os de proveta) foi concebido por uma relação sexual, heterossexual - por um homem (geralmente homofóbico) e por uma mulher (muitas vezes misógina). Diariamente, heterossexuais concebem homossexuais, apenas para no futuro abandoná-los à deriva.

Se esses homossexuais ficarem mais propensos ao suicídio e levarem a cabo o desespero, religiosos pisarão em seus caixões, vociferando feito cães raivosos contra o "pecado" do suicídio, a infâmia da sodomia, o horror ateu do amor homossexual. Para todos os efeitos, nenhum religioso jamais tocou sexualmente o corpo de outro homem - nem o corpo de um menino (ou menina) que, menos forte do que ele, não conseguiria jamais contar lá fora o que se passou nas alcovas de território "sagrado". A cruzada antiaborto e anticasamento gay jamais aceita o desafio de debater a pedofilia e o abuso sexual.

Uma brasileira candidata a presidente tem sido apedrejada em praça pública, acusada de todos os vilipêndios - "abortista!", "lésbica!", "corrupta!", "bígama!", "assexuada!", "homofóbica!", "terrorista!", "assassina!", "inimiga da ditadura civil-militar!"... 99,99% de seus não-eleitores nem sequer suspeitam (ou será que fingem que não, qual cabeças de um monstro de milhões de bocas arreganhadas?) que são misógino(a)s praticantes, do dia da concepção até a noite que morrerão.

Nalgum momento da década de 1970, essa mulher foi "barbaramente torturada" por aquela ditadura, como ela mesma já atirou no rosto liso de um político do partido que se autobatizou DEM, tantando se travestir de "democratas", mas aproximando-se em ato falho freudiano do "demo". José Serra é do bem (ou do dem, do DEM, do demo?). À fogueira, quem deve ser remetida é a BRUXA que espelha nela todas as nossas mazelas e algumas mais.

Talvez ela seja uma ou algumas ou muitas daquelas coisas que os apedrejadores a acusam de ser. Talvez nem seja.

(A propósito, aqui no Brasil artistas empenham prestígio ligando para Lula quando querem evitar o apedrejamento de uma mulher iraniana, mas não exibem nem longinquamente a mesma indignação quando o apedrejamento é na esquina ao lado, ou dentro da própria casa. Aqui e agora, onde há fumaça, não há fogo - no máximo há fogo-de-palha. Como cantava Gal Costa em 1968, 1969, atenção, menina, precisa ter olhos firmes para esta escuridão. Porque tudo é perigoso. Tudo é divino. Maravilhoso. É preciso estar atenta e forte. Não temos tempo de temer a morte.)

Talvez Dilma seja uma ou algumas ou várias das coisas de que os apedrejadores a acusam de ser. Mas não é só ela. Eu também sou. Você também é (mesmo que seu nome seja Reinaldo Azevedo ou Otavio Frias Filho). Um mundo onde os indivíduos não encaram e menos ainda enfrentam suas próprias idiossincrasias e suas próprias responsabilidades é o mundo de indivíduos que vão buscar "abrigo" nos diversos fanatismos religiosos (ou no fanatismo ateu, futebolístico, musical, televisivo, jornalístico, cinéfilo, corruptor, ladrão, matador-de-aluguel, acumulador de dinheiro - tanto faz).

O desafio que aguarda Dilma Rousseff é gigantesco. Assim como Weslian Roriz, Mônica Serra e Soninha Francine despontam como paradigmas lastimáveis da submissão feminina aos humores machistas e misóginos de "seus" homens, maridos, patrões e chefes, cá entre nós, o mesmo perigo ronda a própria Dilma Rousseff, em relação a Luiz Inácio Lula da Silva. A postura e a atitude que ela tiver ao cabo deste magnífico (embora escabroso) segundo turno norteará seu futuro de independência (ou não) em relação ao(s) seu(s) mentor(es). E em relação a nós. E a ela mesma, Alice brasileira de 2010, acima de qualquer outro indivíduo.

Eu votarei em Dilma Rousseff, com o mais profundo dos meus entusiasmos e das minhas convicções. E aposto todas as minhas fichas em que, ao cabo de tanta luta, tanto esforço, tanto sangue, tantas lágrimas, teremos o, ou melhor, A presidente da república mais INDEPENDENTE da história deste país. E saberemos honrar a independência dela com a nossa própria, como já começamos a fazer em relação ao seu antecessor.

Abolição de escravatura é um negócio formidável, que não tem retorno. Ao futuro (e obrigado, dona Gal, pela bela, triste e violenta história que a senhora desenterrou de seu armário de ossos, e que a ajudou a ser quem é como artista; não se canse nunca, por favor, dona Gal, nós precisamos de você).