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terça-feira, 28 de abril de 2015

Por Merecimento

por Karina Buhr

foto Pri Burr
Durante algum tempo só me importava com a sua chegada. Não tinha exatamente um controle de qualidade, era principalmente uma maneira de me manter educada, demônio sedado.
Depois te recebia. Braços abertos bruços.
Você era estilo prêmio semibom, superlombra selfie sexo de si mesmo, ego ótimo, bastante hipervalorizado pelo entorno e eu, a essa altura, parecia embarcar na alta do passe e entendia ter uma sorte plena, pelo meu merecimento, pelo bom comportamento.
No dia a dia não via essa figura, assim, tão atenta a minha figura mesma, mesmo conhecendo direitíssimo, era tão mais fácil me camuflar e me deixar quietinha. Dopada. Fluindo.
Até que tinha algo naquele líquido, aquele veneno no copo, que dava uma náusea que curava um pouco mas não deixava, assim, perfeitamente segura de si a pessoa eu.
E a pessoa você era um monstro, mas por que cargas, eu, minha própria monstra de mim, permitia essa vacilação, perda de horizonte, de chão, essa mesquinhez tosca diária. Por que deixava o veneno meu me corroer e ser o seu adubo?
De cabeça baixa aceitando toda merda e seguindo sem freio na destruição das vontades próprias, na preparação do shape de um jeito estranho, nem bonita ficava pra minha opinião.
Até o sapato usava de outro tipo. O comprimento da saia. Até as palavras regulava. Pensava duas vezes antes do palavrão, antes amigo íntimo e adorado, palavrão bronco, sucesso da língua portuguesa, tradução perfeita, idioma campeão.
E logo eu, que parecia tão, mas tão super dona de mim, pras malfadadas línguas, pra opinião social do meio, pequeno meio.
Grande instrutor de passos, o meio.
Chamava-se machismo.

http://www.suplementopernambuco.com.br/suplemento/75-ineditos.html

Esse texto estará no livro Desperdiçando Rima, que o selo Fábrica 231, da editora Rocco, lança em abril

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Babás de branco e resquício da Casa-Grande

Por Luciana Andrade

Já começo com ressalvas. E nada garante que não serei mal compreendida. Não sou mãe, sei que muitas famílias precisam de ajuda para cuidar das crianças, não há creches nos três turnos, a noção de maternidade varia de mulher para mulher e, na minha modesta opinião, o pai deveria ajudar mais. Todavia, nenhuma dessas razões e o fato de eu não ter conhecimento de causa desautorizam minha indignação com alguns pais que delegam a criação dos filhos para outrem e tratam as babás com pouca escolaridade como serviçais. É disso que estou falando.

Essa semana, o blog com o texto “Viagem levando babás” causou polêmica nas redes sociais. A “patroa” referia-se à funcionária como “um item” e ensinava a lidar com a profissional na hora do almoço ou nos passeios em família, tratando como generosidade o ato de se lembrar da alimentação da babá, por exemplo. Infelizmente, são ideias compartilhadas por muitos. É fácil visualizar exemplos de babás “colocadas no seu lugar”, em diversos graus, nos shoppings e restaurantes.

Nenhuma outra atividade remete de maneira tão forte à herança da sociedade escravocrata. A desigualdade baseada nas antigas noções de sexo e raça se perpetua, assim como a naturalização de alguns registros simbólicos: o quartinho misturado com a área de serviço, as práticas de favor e informalidade, a comida separada, a doação das sobras.

A exigência de dormir no emprego é a negação da possibilidade de uma vida privada para as babás. Uma versão contemporânea de Casa-Grande & Senzala.

Mulheres que assimilaram os novos privilégios subordinam outras mulheres e reproduzem o machismo, que consolidou a inferiorização feminina ligada aos afazeres domésticos. Palavra incômoda, aliás, por lembrar “domesticação”. O uniforme branco só clareia a segregação. Que valores são transmitidos por pais que sequer superaram a ideia de que as babás lhes devem gratidão, são “da família” e não têm direitos profissionais e humanos? Eis uma imensa discussão.


http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/01/17/noticiasjornalopiniao,2989925/babas-de-branco-e-resquicio-da-casa-grande.shtml

Ouvindo Vozes

Por Karina Buhr


1992. Eu tocava tambor e cantava na chamada "nova cena mundial pernambucana".
Era percussionista, ou "percussionista mulher".

2010. Lancei um disco com músicas minhas e, quando vi, virei cantora.
Cantora é um cargo que cai muito bem em uma mulher brasileira. E passei a fazer parte da chamada "nova cena mundial paulista". Zerou tudo. Elixir da juventude.

O Brasil é o país das cantoras. Mas é porque a conta só é feita com elas. Dupla sertaneja, veja bem, tem aos milhares. E ainda é de dois em dois...

No pequeno mundo estabelecido da música criticada, analisada e catalogada, as mulheres estão para os homens como o Nordeste está para o Brasil e o Brasil está para Europa e EUA. O Brasil desse pequeno mundo costuma ficar ali, mais ou menos entre RJ e SP.

Bem comum é ouvir que "o Nordeste traz muita coisa boa para o Brasil". Mistérios geográficos nossos de cada dia. Longe de Onde.

Pra me poupar saliva de caneta, falanges para teclar, você pode ir na loja de discos mais próxima, caso ela não tenha fechado, e perceber que não raro, as mulheres brasileiras, caso cantem, estarão empilhadas em uma única categoria: "cantoras brasileiras".

Os moços estarão lá, devidamente fichados, de acordo com o que diz o mercado das prateleiras. Não vou entrar aqui no julgamento do tal mercado, vou só registrar que ele não canta a individualidades das meninas. E mulher? Desse lado aqui. Setor cantora.

No mesmo balaio, você pode encontrar Maria Rita, Deize Tigrona, Angela Maria, Lurdez da Luz, Maria Alcina, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Preta Gil, Paula Fernandes, Teresa Cristina, Tiê, Maria Bethânia, Wanessa, Issar, Claudia Leite...

Os cavalheiros estarão devidamente separados por estilo musical, como deve ser em prateleira. Fábio Jr . não estará do lado de Otto, junto com Kelvis Duran e Luan Santana. 
Michel Teló não fará par com Paulinho da Viola, Zezé di Camargo, China e Emicida não serão vizinhos.

E existe a ideia de um certo glamour. Pipocam eternas comparações sem sentido e a vibração picuinha-dos-inferno se estabelece jornais afora. Às vezes, lembra concurso de miss. Botam as mina pra competir, como de costume, como na vida real, que dizem que é assim. Não é assim. Só te socam isso goela abaixo. Foie gras. É só fazer as contas de novo, como no caso das duplas sertanejas.

Enquanto isso, ninguém mandou Roberto Carlos ter cuidado porque Thiaguinho Exalta apareceu.

Já com as senhoritas, perdi as contas de quantas vezes li que era pra Gal Costa e Marisa Monte se ligarem, porque fulana tinha surgido.

Em zilhões de matérias por aí, você também verá o balaio de cantoras. Do lado de cá, topa-se fazer, claro, é preciso divulgar o trabalho. Eu mesma estou em várias, a maioria feita por pessoas bem intencionadas, inteligentes e competentes. Mas a fórmula é repetida. Mulher continua existindo como se minoria fosse. Imagina se fosse! Imagina quando é! E assim seguem as damas. Entupidas e com falta de ar.

Será que algum senhor já ouviu numa entrevista "você faz suas músicas sozinho ou com a ajuda de alguém?". Eu, muitas vezes. E vi Pitty dar um piti quando perguntam a ela algo do tipo.

Vem cá, por que danado se referem a mulheres que cantam como "vozes femininas"?

É fantasma, é? Deviam usar também "vozes masculinas" ou deixar disso de uma vez. Largar desse eterno vexame.

Ah! Gatas, parem, de uma vez por todas, de chamar outra mulher de fulano de saias! Mesmo que seja um fulano bem fodão. Assim a gente não progride.

Elke Maravilha, quando ouviu de um apresentador de TV "você é uma das mulheres que eu mais admiro, disse "eu não sou mulher, eu sou gente", na maior das elegâncias.

Elke disse tudo, e eu não me demorarei mais.

(da coluna de Karina Buhr- revista da Livraria Cultura)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Reforma do Código Penal ameaça direitos das mulheres

 Por Daniele Silveira.

O projeto de reforma do Código Penal (PLS 236/2012) tem levantado polêmicas sobre as mudanças nas punições de crimes relacionados à violência contra a mulher. No texto proposto, por exemplo, os casos de violência doméstica podem ter a pena máxima reduzida de três para um ano, além de o prazo prescricional ser alterado de oito para quatro anos.

A integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF), Sônia Coelho, defende que as alterações representam um retrocesso, pois mesmo com a atual legislação as mulheres ainda sofrem com a impunidade.

“A Lei Maria da Penha recentemente já passou por um processo de julgamento no Supremo Tribunal, confirmando a sua constitucionalidade e que, portanto, não deveria ter volta atrás como penas alternativas, porque isso já se mostrou totalmente ineficiente para lidar com a situação da violência contra a mulher.”

O estudo “Mapa da Violência 2012”, realizado pelo Instituto Sangari, revelou que 91 mil mulheres foram assassinadas no país entre os anos de 1980 e 2010.

Sônia também destaca que outros pontos importantes não estão contemplados no novo Código.

“As questões de estupro coletivo, como teve agora recentemente estupro coletivo na Paraíba. A questão dos estupros corretivos contra as mulheres lésbicas, que não aparece nada nesse sentido. Então, tem várias questões que precisavam ser revistas, como coloca e tipifica melhor.”

A atual legislação foi sancionada em 1940, pelo então presidente Getúlio Vargas. Para a elaboração da reforma foi escolhida uma Comissão Especial de Juristas, que deve apresentar propostas de modernização à lei. Emendas ao texto do novo Código Penal poderão ser apresentadas até o dia 5 de outubro.

http://radioagencianp.com.br/11086-reforma-do-codigo-penal-ameaca-direitos-das-mulheres

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

SÃO QUATRO, PODERIAM SER MAIS

Por Marcus Vinicius

O texto abaixo foi escrito em 2006. 
"São quatro mulheres vitoriosas. 
Maria Luísa, Luíza Erundina, Luizianne Lins e Heloísa Helena.

 Todas de esquerda, todas lutadoras. Todas tornaram-se referências em seus partidos a despeito do patriarcado existente neles. Todas enfrentaram toda carga de preconceitos inerente a uma sociedade machista e porque não dizer misógina.

Ser mulher, ser de esquerda, ousar e enfrentar homens em partidos de esquerda e além disso sair vitoriosas não é pouca coisa.

Maria Luisa
Vamos de Maria. 
Em 1985, disputando as eleições para prefeitura de Fortaleza, conseguiu vencer de uma só vez Paes de Andrade e Lucio Alcântara (não existia segundo turno). Se as agressões e desqualificações já estavam presentes na campanha imagina depois de eleita. De louca varrida a devassa, irresponsável, estérica, ameaça a sagrada família, além de ser des(des)casada. E, máximo de ousadia, colocar como seus colaboradores dois ex-maridos. Foi a primeira Prefeita eleita pelo PT. Governou tendo como oposição sistemática e violenta o maior grupo de comunicação do Ceará. 

Luísa Erundina
Luísa Erundina, também enfrentou agressões e desqualificações, preconceitos. Como uma nordestina, poderia ser eleita para governar a maior cidade da América do Sul, São Paulo. Como no meio dos "quatrocentões conservadores e reacionários" a "tia" Paraibana poderia governar. Governou. No campo da moral, nem se fala, a tradicional família paulistana, foi pra cima com tudo.

Luizianne Lins
Mais de uma década se passou e novamente uma mulher, livre, ousada, desafiou a burocracia do partido e saiu vitoriosa na indicação do PT para a prefeitura de Fortaleza. Tempos difíceis, grande parte dos(as) filiados(as) do partido, que perdeu a convenção (por pouco, mas perdeu) resolveu apoiar outro candidato numa explícita violação das regras do jogo. 
Mas naquele tempo, os princípios e regras deixaram de fazer parte do ideário de muitos(as). 
Luizianne Lins enfrentou a campanha eleitoral, outra vez com ataques e agressões no campo moral. (Objetivamente os ataques no campo moral só se fez e se faz contra mulheres). Misóginia.
Do campo comportamental ao político as agressões se repetem-  louca, irresponsável, destruidora de lares(sic), aventureira - e muito mais.
Mas, a loura teve garra, foi ao segundo turno e venceu as eleições derrotando de uma só vez - Inácio Arruda, Patricia Gomes, Cambraia e Moroni. Até então quatro valorosos quadros. 

Heloísa Helena
Agora a bola da vez é Heloísa Helena. Esta senadora por Alagoas, explusa do PT, funda um partido o PSOL, nascido de base parlamentar oriunda do PT,  e sai candidata à presidência da República. 
Ousa ser a primeira mulher a disputar de verdade a Presidência ( e aqui, enciclopedistas de plantão, não vale lembrar que outra já disputou. O campo a que me refiro é outro).
De novo as agressões e desqualificações se repetem - "aquela louca varrida", "estérica", a que usa farda branca, irresponsável, a que dormiu com o inimigo - sempre no campo pessoal e da velha moral. A novidade é que, agora escuto agressões de pessoas que outrora se incomodavam e com razão com às agressões sofridas pela Luizianne.

O que os representantes da moral burguesa (incluindo a esquerda) ficam putos e incomodados é que estas mulheres romperam o cerco, enfrentaram a "dona moral", derrotaram máquinas burocráticas, são vitoriosas e estão além das cotas (necessárias e nem sempre cumpridas pelos partidos, inclusive os de esquerda) pois cada uma vale mais do que os 30% do que burocraticamente os partidos aplicam. 

Eles estiveram e estão no olho do furacão, fazendo o bom embate.

São mulheres vitoriosas pessoal e politícamente. Isso irrita, mas como irrita,  principalmente aos(as) que perderam o bonde da história."

Fortaleza, agosto de 2006

PS - Hoje Maria Luisa milita no Movimento Crítica Radical, Erundina é Deputada Federal pelo PSB de São Paulo, Luizianne é Prefeita de Fortaleza e Heloísa Helena é vereadora de Maceió, Alagoas

terça-feira, 24 de julho de 2012

Mon Dieu, ministra francesa usa vestido no Parlamento

Cécile Duflot
Por Barbara Ellen


Cécile Duflot, a ministra da Habitação da França, causou comoção ao usar um vestido para falar na Assembleia Nacional (Parlamento). Espere, uma correção. Não foi Duflot que causou comoção, mas sim os ministros homens, que assobiaram e rugiram: “Uau!” De sua parte, Duflot reagiu calmamente, com uma piada seca — “Senhoras e senhores, obviamente mais senhores que senhoras” — antes de continuar seu discurso. Mais tarde ela disse: “Já trabalhei na construção civil e nunca vi nada parecido. Isso revela algo sobre alguns deputados. Penso nas mulheres deles”. Sim, as pobres esposas, casadas com o que parecem ser “les troglodytes sérieux”, mas esse não é o fim da história.

Que pena ver a França com uma Assembleia Nacional cheia do tipo de imbecis que não conseguem se conter quando uma ministra se ergue diante deles usando um vestido. “Uau!” Realmente? O que é isso, Confissões de uma Ministra Francesa? Cinquenta Tons de Risca-de-giz? O vestido de Duflot não era sequer uma coisa provocativa como o de Jessica Rabbit: justo, sinuoso, talvez com uma fenda até a coxa, com o próximo projeto de lei enfiado na liga. Era um modelo floral recatado — algo que você poderia imaginar [a apresentadora de TV britânica] Kirstie Allsopp usando no casamento de sua terceira melhor amiga. Se isso é tudo o que é preciso para deixar os políticos perigosamente excitados, que os céus ajudem a França — na próxima vez eles entrarão em êxtase ao ver o tornozelo das moças.

Duflot diz que nem todos os homens são assim, e ela prefere pensar em “homens feministas”. Sim. Mas por que as mulheres políticas deveriam se endurecer tanto para esse tipo de terrível pantomima redutiva? Duflot ficou famosa por usar jeans em uma reunião de gabinete, mas foi necessário um vestido para expor a grosseria oportunista do poder político predominantemente masculino. Jacques Myard disse que os assobios de lobos foram apenas um tributo à beleza de Duflot. Para Patrick Balkany, a ministra provavelmente usou o vestido “para que não escutássemos o que ela dizia”.

Não é de surpreender que esses dois, e muitos outros que assobiaram, fizeram olhares lascivos e rugiram, estão no partido de oposição União por um Movimento Popular (UMP) de direita. O que eles fizeram não foi apreciação, ou mesmo uma piada, foi fria estratégia política — usar o gênero de uma mulher contra ela.

Escrevi anteriormente sobre como as mulheres políticas não podem vencer quando sua aparência está em jogo. Arrumadas demais, elas são rejeitadas como dondocas, desesperadas, ou ambos; de menos, são condenadas como monstras assexuadas que desistiram de si mesmas. É o destino da mulher política ser vista e não ouvida. Ou, de todo modo, muito mais vista (julgada, objetificada, zombada) do que consegue ser ouvida.

No entanto, qualquer político, homem ou mulher, não é nada se não for ouvido adequadamente. O que transforma em zombaria o raciocínio segundo o qual talvez essas mulheres apreciem incidentes como esse, porque lhes dão uma condição de mártires feministas e destacam seus perfis.

Na realidade, esses eventos fatalmente prejudicam a mulher envolvida, enfraquecendo sua mensagem e desperdiçando seu ímpeto. Depois da Assembleia Nacional, ninguém comentou o que Duflot realmente disse, apenas seu vestido florido. Um caso clássico de “política interrompida”.

É uma questão que continua surgindo: esse é o modo padrão do homem político, sexista-juvenil? Existem “homens feministas” suficientes para fazer diferença? Na verdade, talvez esse incidente seja apenas mais um indicador da preocupação maior de se as mulheres podem esperar um tratamento completamente igualitário na política.

Do que aconteceu na França ao terrível e revelador “acalme-se, querida” de David Cameron para a trabalhista Angela Eagle, parece haver uma tendência desconcertante de mandar as mulheres se calarem assim que tentam abrir a boca.

Desta vez foi um vestido, mas na verdade poderia ser qualquer coisa — a ponto de nunca ter a ver com o que uma mulher disse, mas com a rapidez e eficiência dos “rapazes” para silenciá-la antes que pudesse falar.
http://www.cartacapital.com.br/internacional/mon-dieu-ministra-francesa-usa-vestido-no-parlamento/

sexta-feira, 9 de março de 2012

... mas quem paga a conta?

Por Ronildo Mastroianni

Amigas

Ronildo Mastroianni
O 8 de março é comemorado no mundo, o Dia Internacional da Mulher, ou seja dos 365 dias do ano, 364 são do homem;

As mulheres só tiveram o direito de votar, de fato, ainda que, por concessão do governo de Getúlio Vargas em 1932: detalhe só as casadas e que tivessem permissão dos maridos. Em 1946 a mulher de passou a efetivamente exercer o direito de votar igualmente os homens vinham fazendo desde 1532, essa conta é fácil, são 400 anos;

No Brasil, após 122 anos de homens se reversando na presidência da República, uma mulher assumiu esse cargo. Foram 34 homens anteriores a Dilma Rousseff.
Será que os outros homens presidentes eram tão competentes e as mulheres necessitaram de quase um século e meio para construir essa competência?

A agricultura foi inventada pela mulheres a aproximadamente 9 mil anos, porém quem recebe maiores estímulos e créditos para o exercício dessa atividade são os homens em qualquer parte desse Brasil e na maioria dos países do mundo.

As Forças Armadas do Brasil existem oficialmente desde 1808, porém somente em 1943, mais de um século depois as mulheres puderam ingressaram no Exército Brasileiro. Mesmo assim, permanecem em cargos de "cuidadoras ou socorristas" por que será isso? Porque os grandes cargos e patentes só ficam para os homens?

O dia 15 de outubro de 1827 foi consagrado à educadora Santa Teresa de Ávila, porém somente em 1947, 120 anos após a instituição desse dia, ocorreu a primeira comemoração efetivamente dedicada a essa categoria, e a partir de então passou a ser o Dia do Professor e não o Dia da Professora ou Educadora... fala sério!

A primeira Faculdade de Medicina foi criada em 1808, pelo príncipe regente D. João VI, porém sete décadas depois, ou mais de meio século depois ocorreu a primeira matricula de uma mulher na faculdade de medicina, foi a gaúcha Ermelina Lopes Vasconcelos...

A Ordem dos Advogados do Brasil, cujo nome inicial era Instituto dos Advogados do Brasil, existe desde 1843, porém, somente no inicio do século XX as mulheres passaram a ingressar na OAB, as pioneiras foram Myrthes de Campos e Leonilda Daltro, isso há mais de um século depois...

Ainda hoje, as mulheres recebem um salário menor que os homens para assumir o mesmo cargo e as mesmas responsabilidades...

Hoje o tempo de atendimento no serviço de saúde pública é menor para as mulheres negras, se comparado com o mesmo tipo de atendimento para as mulheres brancas;

Ainda hoje as principais vítimas da violência que ocorrem dentro das casas, ou seja a violência doméstica, são as mulheres as crianças e os idosos/as...

Ainda hoje, prioritariamente, a responsabilidade de fazer a alimentação da família, limpar, lavar cozinhar e cuidar dos idosos/as dentro da família, são atribuições colocadas para as mulheres...

Ainda hoje, a cada ano cresce o número de mulheres violentadas e mortas no Ceará, em 2009 houve aumento de 46% comparado 2008; em 2010 o aumento foi de 12% comparado a 2009, em 2011 segue o no mesmo ritmo...
Os motivos são espetaculares: intolerância, ciúme, possessão, agressividade, machismo!

Bem, acho que de fato devemos comemorar o dia 8 de março, como um dia de luta, um dia de superação sim!;

Para os homens está tudo muito bem obrigado, porque tudo, absolutamente tudo é construído a partir do referencial masculino.

Como não cumprimentei com a palavra amigos no início dessa mensagem, é bem provável que alguém não tenha gostado e talvez não tenha chegado a ler o conteúdo dessa mensagem...

Pra finalizar: Que todos e todas, principalmente as mulheres, possam vivenciar o cotidiano de uma forma crítica, de como são vistas dentro dessa sociedade "moderna" que usa os artifícios do capitalismo e do patriarcalismo para perpetuar o que historicamente vendo estruturando as desigualdades de classe, raça e gênero, obviamente em níveis diferenciados, porém recorrente em todas os canto e sociedades do mundo.

Essa sim seria a maior revolução que poderíamos ter.

Justiças, igualdade e efetivação de direitos para todas, para todos.
E aí: vamos comemorar! Mas quem paga essa conta?

Ronildo Mastroianni é Agroecologista e Agrônomo do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conselho Nacional de Justiça pune Juiz

 A notícia abaixo onde o CNJ afasta juiz por dois anos, contém algumas pérolas.

  •  "A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo (..) Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem" trechos da decisão do juiz punido;
  • "A mulher é obra prima da criação. Acho que Deus só chegou à compreensão que era Deus quando chegou ao molde da primeira mulher” frase do presidente em exercício do CNJ, Carlos Ayres Britto


 http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/11/cnj-afasta-juiz-que-comparou-lei-maria-da-penha-regras-diabolicas.html

09/11/2010 14h27 - Atualizado em 09/11/2010 18h35

CNJ afasta juiz que comparou Lei Maria da Penha a ‘regras diabólicas’

Edílson Rodrigues ficará afastado por pelo menos 2 anos, recebendo salário.
Em 2009, o juiz foi acusado de preconceito contra a mulher.

Débora Santos Do G1, em Brasília
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou nesta terça-feira (9) o afastamento por pelo menos dois anos do juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues, da comarca de Sete Lagoas (MG). Ele foi acusado de usar linguagem discriminatória e preconceituosa em sentenças nas quais considerou inconstitucional a Lei Maria da Penha e de rejeitar pedidos de medidas contra homens que agrediram e ameaçaram suas companheiras.
Na época, Rodrigues atacou a lei em algumas sentenças, classificando-a como um “conjunto de regras diabólicas”. Ainda segundo o juiz, a “desgraça humana” teria começado por causa da mulher.
"A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo (..) Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher. Todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem", segundo trechos de decisões do juiz.
Rodrigues responde a processo administrativo no CNJ desde setembro do ano passado. Na época, ele negou que tenha havido “excesso de linguagem” e se defendeu da acusação de preconceito.
“Eu não ofendi a parte e nem a quem quer que seja. Eu me insurgi contra uma lei em tese, e mesmo assim, parte dela. Combato um feminismo exagerado, que negligencia a função paterna, que quer igualdade sim, mas fazendo questão de serem mantidas intactas todas as benesses da feminilidade”, afirmou o juiz.
Por 9 votos a 6, os membros do CNJ decidiram colocar o juiz em disponibilidade, sanção pela qual o magistrado é afastado de suas funções por pelo menos 2 anos, recebendo salário proporcional ao tempo de serviço. Só depois desse período ele pode pedir autorização para voltar a atuar.
Julgamento
O relator do caso no CNJ, Marcelo Neves, entendeu que a gravidade das falhas não justificaria a remoção do juiz para outra vara, nem a determinação da aposentadoria compulsória, por não se tratar de crime ou contravenção.
“A visão que o magistrado em causa tem da mulher entra em mortal rota de colisão com a Constituição. O juiz decidiu de costas para a Constituição. A mulher é obra prima da criação. Acho que Deus só chegou à compreensão que era Deus quando chegou ao molde da primeira mulher”, afirmou o presidente em exercício do CNJ, Carlos Ayres Britto.
Apoio ao juiz
A Associação dos Magistrados Mineiros (Amagis) divulgou nesta terça uma nota de apoio ao juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues. “A Associação entende que a decisão não se deu por equidade e continuará ao lado do magistrado, empenhando todos os esforços para o restabelecimento da justiça”, diz a nota.
Na nota, a associação diz que Edilson Rumbelsperger é “um juiz íntegro, competente, dedicado ao Judiciário e à sociedade e respeitado pelos colegas e pelos cidadãos das comarcas nas quais atuou”.

A Amagis ainda afirmou que o juiz “deferiu diversas medidas protetivas com base na Lei Maria da Penha, requeridas por mulheres ameaçadas com violência física, sexual ou psicológica, o que pode ser comprovado nos registros da comarca”.