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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Encontro em São Paulo reúne feministas de cinco continentes

Por Maíra Kubík Mano

No ano passado, a Turquia, até então reconhecida mundialmente pela preservação do secularismo, introduziu o ensino religioso nas escolas públicas. Aos poucos, tem também diminuído a oferta de vagas em colégios considerados laicos.

“Isso traz a segregação entre os sexos e acaba limitando as garotas ao lerem o Corão”, lamenta a líder feminista Yildiz Temurtukan. De acordo com dados divulgados por uma organização de professores, apenas 360 mil estudantes conseguiram se matricular para cursar o Ensino Médio tradicional no próximo período letivo. O restante, cerca de 700 mil, terá de frequentar instituições que privilegiam o estudo do Corão.

Para Yildiz, não é à toa que na última década o índice de feminicídio no país aumentou 14 vezes. “Tudo isso é provocado pelos representantes do governo. Eles declaram abertamente que mulheres e homens não são iguais e nem poderão ser”, relata.

Foto: João Sinclair

“Mas as mulheres estão na linha de frente das lutas, nas ruas, nos parques, nos fóruns. Estão comprometidas a não se subordinarem ao fascismo islâmico”, anima-se. E é essa experiência de resistência e o cotidiano da Turquia que Yildiz espera compartilhar ao desembarcar no Brasil para o 9º Encontro Internacional da Marcha Mundial de Mulheres (MMM).

Junto com ela, outras 1.600 participantes se reunirão a partir de hoje no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP). “É uma porta aberta por onde passam todas as análises internacionais, lutas e alternativas. É um espaço que nos faz sentir mais forte contra os nossos inimigos”, define Yildiz.

Em 31 de agosto, elas farão um ato pelas ruas da capital paulista para “reafirmar o feminismo como projeto para mudar o mundo”.

Perspectivas

A MMM começou sua atuação em 2000, quando mulheres de 159 países se uniram em uma grande campanha contra a pobreza e a violência. Desde então, a cada cinco anos, a MMM tem organizado mobilizações globais. A próxima, que acontecerá em 2015, será discutida no encontro do Brasil.

“Uma das questões colocadas para nós hoje é o debate das alternativas. Há uma expectativa grande das participantes por acreditarmos que a América Latina tem possibilidades diferentes de ação”, defende Nalu Faria, coordenadora da SOF (Sempreviva Organização Feminista).

“Há um discurso de igualdade, que toca muito no tema da paridade, e dá a ideia de que a questão é a participação das mulheres. Mas não foca na transformação dos espaços de poder e de participação”, afirma. “Uma questão fundamental é o aporte do feminismo, é pilharmos o conceito de política e de economia, questionando o traço patriarcal e androcêntrico de nossa sociedade de considerar como público, político e econômico só aquilo que está dentro das representações do que é o mundo masculino”.

Patriarcado

Sem dúvida, uma das palavras mais ditas e ouvidas no encontro será “patriarcado”. “Temos trabalhado muito em compreender quais são os mecanismos de atuação do modelo patriarcal em relação às opressões. Esse patriarcado existe quando olhamos para o controle sobre o corpo, a sexualidade e o trabalho das mulheres. É um elemento permanente. E qual é realmente a diferença entre a exigência da burca de um lado e a banalização do corpo nu de outro?”, indaga Nalu.

Para Yildiz, “desde o começo da revolução industrial as mulheres têm lutado para serem aceitas como iguais aos homens, para serem aceitas como seres humanos plenos. Apesar de todo o discurso mainstream de gênero, a situação em geral tem piorado. A razão para a resistência aos direitos das mulheres ser tão forte é que o capitalismo é um sistema baseado em desigualdades de gênero. O patriarcado constituiu o terreno invisível para as relações capitalistas visíveis. Na história do capitalismo não há era sem patriarcado e parece que a ideologia do livre-mercado não pode sobreviver sem a exploração e a opressão das mulheres”.

A turca afirma que “não é coincidência que todos os tipos de violência contra mulheres e garotas têm crescido, de estupros coletivos a feminicídios, de violência doméstica a assédio sexual no trabalho. É porque as mulheres estão clamando por sua autonomia, não apenas econômica, mas sobre seus corpos e vidas, de uma maneira organizada ou individualmente. E como nós estamos reclamando nosso lugar no mundo, estamos sujeitas a mais violência, seja do Estado ou dos homens”.

Mas há esperança: para ela, enquanto há 20 anos discutia-se a obrigatoriedade moral da virgindade, hoje é possível falar abertamente sobre assuntos considerados privados, como casamento, aborto e violência doméstica. “E as mulheres têm declarado que não vão aceitar qualquer regra sobre suas vidas e corpos”.

“Queremos dar visibilidade à força das mulheres em construir alternativas nos processos de resistência”, completa Nalu.

http://mairakubik.cartacapital.com.br/2013/08/26/encontro-em-sao-paulo-reune-feministas-de-cinco-continentes/

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Enfrentando a violência contra as mulheres


Esta cartilha trata da violência doméstica e familiar contra as mulheres. Nela vocês irão encontrar informações importantes sobre a Lei que poderão ser utilizadas para o fortalecimento do enfrentamento à violência contra as mulheres.

A cartilha é uma realização do Esplar-Centro de Pesquisa e Assessoria e conta com o apoio da Intervita.

Autoras – Magnólia Said e Sarah Luiza.

Informações e contatos – (85) 3252.2410.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Nota da Marcha Mundial de Mulheres

Via Sarah Luiza

Pela descriminalização e legalização do aborto

Hoje, 11 de novembro de 2012, nós, militantes feministas da Marcha Mundial das Mulheres do Ceará, fomos ao aterrinho da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE, para mostrarmos a sociedade que também somos a favor da vida. Para mostrarmos nossa indignação à criminalização das mulheres que recorreram à prática do aborto.

Não acreditamos que o aborto é questão de polícia, mas de saúde pública. Ao tratar o aborto como crime, acabamos por contribuir para que milhares de mulheres, em sua maioria negra e pobre, morram.


 Essa hipocrisia dá hemorragia


Tratá-lo como um ato clandestino, preferindo negar a realidade da falta de uma política pública integral de saúde sexual e reprodutiva, tem trazido problemas de saúde física e psicológica para as mulheres, além de risco de morte.
A prática do aborto clandestino é a quinta maior causa de internação hospitalar de mulheres no SUS, responde por 9% das mortes maternas e 25% das causas de esterilidade por problemas tubários. Cerca de 60% dos leitos de ginecologia no Brasil são ocupados por mulheres com seqüelas de aborto.
Tratar as mulheres que por algum motivo acabaram por recorrer à prática do aborto como criminosas não resolverá o problema, pois ao negá-lo continuaremos vendo mulheres sangrando nos corredores dos hospitais sem atendimento, além de serem maltratadas no serviço de saúde pela simples suspeita de terem provocado um aborto.
Não podemos deixar de considerar que na sociedade machista em que vivemos grande parte as mulheres ainda têm pouco autonomia sobre seus corpos, sobre a decisão no uso dos contraceptivos e frente ao desejo da maternidade. Ainda assim são elas que sofrem a acusação de criminosas. Por isso perguntamos “Cadê o homem que engravidou? Porque o crime é da mulher que abortou?”.
Não nos cabe julgar os motivos que fizeram uma mulher buscar o abortamento, nem acreditamos que a questão deva ser tratada a partir de uma perspectiva religiosa. Vivemos em um estado laico que não deve permitir que as religiões definam as leis e se imponham sobre a vida de todas as pessoas.
Precisamos acabar com essa hipocrisia! Muitas mulheres estão morrendo! Defender a vida é defender a legalização do aborto com assistência garantida no Sistema Único de Saúde.
Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto seguro para não morrer!


Fortaleza, 11 de novembro de 2012.

Marcha Mundial das Mulheres - Ceará

terça-feira, 1 de março de 2011

Mulheres do Mundo

Carta de solidariedade à luta das mulheres do mundo

Elaborada em Dakar, Senegal, ao 11 de Fevereiro de 2011, durante o Forum Social Mundial

Neste ano em que o Forum Social Mundial, depois do Mali em 2006 e do Kenya em 2007, se junta pela 3ª vez aos povos de África, nós, as mulheres de diferentes partes do mundo, reunidas em Dakar, conscientes de que a união das forças poderá com o tempo provocar uma mudança, reafirmamos a nossa solidariedade e admiração pelas lutas das mulheres Senegalesas, das mulheres africanas e de todas mulheres do mundo. As suas lutas, conjuntamente com as lutas de todos os homens e mulheres, reforçam a resistência levada por todo lado contra o sistema capitalista e patriarcal globalizado.

Nos dias de hoje atravessámos sempre as mesmas crises mundiais – econômica, alimentar, ecológica e social – e constatamos com inquietude que essas crises perduram e se aprofundam. Reformulamos aqui a nossa análise segundo a qual essas crises não estão isoladas mas sim são a expressão da crise do modelo caracterizado pela super exploração do trabalho e do meio ambiente, e pela especulação financeira da economia. Por isso, nós as mulheres, continuamos a dizer que é preciso mudar esse modelo de sociedade, este modelo económico, este modelo de produção e de consumo que provoca uma pobreza ainda maior para nossos povos, e em particular para as mulheres.

Nós as mulheres, engajadas ao respeito e à defesa dos princípios de justiça, de paz e de solidariedade, temos necessidade de avançar na criação de alternativas face à essas crises: todavia as respostas paliativas baseadas na lógica do mercado não nos interessam. Não podemos aceitar que as tentativas de manter o sistema atual no seu lugar, sejam feitas a custa das mulheres.

Neste contexto, dizemos não a intolerância e a perseguição da diversidade sexual e às práticas culturais que lesionam a saúde, o corpo e a alma das mulheres.

Condenámos todas violências feitas às mulheres, em particular os “femicídios”, o tráfico de mulheres, a prostituição forçada, as violências físicas, o assédio sexual, as mutilações genitais, os casamentos prematuros, os casamentos forçados, o estupro, o estupro utilizado como arma sistemática de guerra, e a impunidade daqueles que cometem esses actos de horror contra as mulheres.

Dizemos não ainda, àquela sociedade que viola os direitos das mulheres não lhes permitindo o acesso aos recursos, à terra, ao crédito, ao emprego em condições dignas, onde o capital para se reproduzir torna precários os empregos das mulheres.

Condenamos o açambarcamento e a colonização das terras das camponesas e dos camponeses, quaisquer que sejam as formas, pelos Estados ou por empresas transnacionais, e condenamos as culturas transgênicas, que prejudicam a biodiversidade e a vida.
Dizemos não à corrida armamentista e nuclear, que é feita em detrimento do investimento dos estados nos programas sociais, sanitários e educativos.

Condenamos a sociedade que nega às mulheres o acesso ao conhecimento e à educação, onde as mulheres são marginalisadas e discriminadas na tomada de decisões.

Dizemos não aos conflitos armados e às guerras e as ocupações. Dizemos SIM a paz justa para os povos oprimidos.

Face a tudo isso, propomos reforçar nossas lutas para que os nossos países tenham sua soberania econômica, política e cultural face às instituições financeiras internacionais.


Queremos a anulação das dívidas externas e ilegítimas e uma auditoria cidadã que permita aos povos de obterem reparação: as mulheres não devem nada, elas são as primeiras credoras das dívidas externas. Pedimos também aplicação efetiva da taxa Tobin.

Revindicamos a soberania alimentar dos povos e o consumo de produtos locais, a utilização de nossas sementes tradicionais, e acesso das mulheres à terra e aos recursos produtivos.

Queremos um mundo onde os homens e as mulheres tenham os mesmos direitos, as mesmas oportunidades no acesso ao conhecimento, à escolarização, à alfabetização e à educação e às tomadas de decisões, e os mesmos direitos ao trabalho e ao salário justo.

Pretendemos um mundo onde os Estados invistam na saúde das mulheres e dos nossos filhos, em particular na saúde materna.

Pedimos a ratificação e aplicação efetiva de todas as convenções internacionais, em particular a convenção 156 e a convenção 183 da OIT.

Queremos a democratização da comunicação e do acesso à informação.

Estamos solidárias com as mulheres palestinas por um Estado Palestino democrático, independente, soberano, Jerusalém como a capital, e o regresso dos refugiados de acordo com a resolução 194 das Nações Unidas.

Estámos solidárias com as mulheres de Casamance pelo regressso à paz.
Estámos a favor da luta dos povos na Tunísia e no Egipto pela democracia.
Com as mulheres da República Democrática do Congo  pelo fim do conflito.
Com as mulheres Curdas, por uma sociedade democrática, ecológica, livre e igualitária entre as mulheres e os homens, e onde exista o direito de utilisar a sua língua materna na educação.
Estámos solidárias com o direito à autodeterminação das mulheres Saharaui, em conformidade com a resolução das Nações Unidas, e por encontrar uma solução pacífica segundo a Carta do Forum Social Magrebino.
Estámos solidárias com todas mulheres vítimas de catastrofes naturais, como Haïti, o Brasil, o Paquistão, Australia...
Estámos solidárias com os milhões de mulheres e crianças refugiadas e deslocadas. Apelamos o regresso à sua terra e à liberdade de circulação.

Propómos a criação de redes de alertas e de informações para as mulheres que se encontram em zonas de conflito ou ocupação. 
Propomos o dia 30 de Março como o dia de solidariedade internacional com o povo Palestino e chamamos ao boicote dos produtos provenientes de ocupantes israelitas. Apelamos à realização de um Forum internacional de solidariedade pela luta do povo Palestino em 2012.
Reconhecemos todos os esforços de todas as mulheres do mundo e nos identificamos com as suas reivindicações: O que lhe passa a uma de nós,  passa-nos a nós todas. 
É por isso que devemos lutar todas juntas.
Dakar, ao 11 de Fevereiro de 2011
Organizações Assinantes:
A Marcha Mundial das Mulheres
La Via Campesina
A Federação Democrática Internacional das Mulheres (FDIM)
Articulação Feminista MARCOSUR
IFWF -International Free Women Foudation
WILDAF – Senegal (Women in Law and Development in Africa)
AWID
CADTM- (Comité pela Anulação da Divida do Terceiro Mundo)
WIDE
Organização Continental Latino-Américana dos Estudantes (OCLAE)
UBM – União Brasileira das Mulheres
CEBRAPAZ
CTB
CUT (Brasil)
AMB- Articulação de Mulheres Brasileiras
Democratic Women Freedom Movement “DOKH”
Kurdish Women Peace Office
Women Center UTAMARA
Coordinacion de Mujeres del Paraguay CMP
Isis International
La Red de Mujeres de AMARC (AMARC-RIM/AMARC-RIF/AMARC-WIN).