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sexta-feira, 13 de setembro de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
O livro leva ao ridículo a nossa burguesia arrivista
por Alfredo Bosi
"Cotia, 23 de fevereiro de 2012
Caro Mino Carta,
[Captatio benevolentiae pela demora destas linhas. Passado infelizmente um tempo turvado por longo pós-operatório, dispus daquelas horas de leitura, intervalo feliz entre os cuidados de que é feito o cotidiano. Foi só então que pude ler os originais do seu livro.]
Balanço de uma vida, diz o bilhete com que me chegou este retrato agônico da vida pública brasileira. Nascido em 1936, fui contemporâneo dos sucessos narrados. Mas, lido este Brasil, vejo pessoas e acontecimentos à luz de outro olhar. Mais intenso, quase ofuscante, não raro cruel. No começo da leitura pareceu-me que a ferinidade vinha de uma visada mais aguda e ácida que a do comum dos mortais. Mas não, não era só isso. Era a própria realidade que se revelava na sua crueza. Crueza cruel, com o perdão do pleonasmo. Retratar o nosso homo politicus é lidar com o nauseante: que galeria de patifes talvez superada apenas pela dos jornalistas! Aqui o narrador pôs o dedo na ferida, mas, em vez de sangue fresco, o que jorrou foi pus. Lembra, de longe, a fauna satirizada por Lima Barreto nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas tão deteriorada que desafia qualquer hipótese progressista em relação à história da nossa espécie.
A caricatura expõe traços obsessivos. O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsch colado ao granfinismo paulista e figurado pelo ponto de vista de um anarco-sindicalista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. Afinal, “nel mondo non c’è che volgo”, palavra de Maquiavel ajustada à semicultura dos políticos e jornalistas que não cessam de nos infelicitar. Farpas lançadas contra as veleidades gastronômicas e as indumentárias dos figurantes valem como portraits de uma classe sem classe.
No entanto, há clareiras neste carrascal. Quem diria que o enigmático Golbery conseguisse passar quase incólume pela malha apertada de um juiz invariavelmente democrático e progressista, que é o nosso narrador? Pois passa; é o olhar humanizado por uma longa experiência da fragilidade humana que o valia, e é capaz de compensar a triste astúcia do maquiador de golpes com a melancolia do jogador derrotado em um momento digno do seu destino. (Terei entendido bem?)
E há a figura imponente do chevalier sans peur et sans reproche, Raymundo Faoro. Não conheci o privilégio de tê-lo como confrade, mas a honra de tê-lo como eleitor. Um voto que ainda me surpreende e comove. E há os que ajudam a matizar o quadro sinistro: Ulysses, Montoro, Severo Gomes, mas são tão poucos… E a imagem de Lula, que apesar dos pesares, resiste galhardamente.
No tecido que remata o livro, sinto em Paulo alguém que me dá vontade de abraçar fraternalmente.
Mas é já tempo de reconhecer, ao longo de cada página, uma voz amarga, ainda que animosa. É a voz que fundou o Jornal da República, e que se desenha, em corpo inteiro, na tocante autobiografia do jornalista intimorato, homem digno de outro jornalista, que o gerou e instruiu.
Obrigado e o abraço amigo do
Alfredo Bosi"
"Cotia, 23 de fevereiro de 2012
Caro Mino Carta,
[Captatio benevolentiae pela demora destas linhas. Passado infelizmente um tempo turvado por longo pós-operatório, dispus daquelas horas de leitura, intervalo feliz entre os cuidados de que é feito o cotidiano. Foi só então que pude ler os originais do seu livro.]
Balanço de uma vida, diz o bilhete com que me chegou este retrato agônico da vida pública brasileira. Nascido em 1936, fui contemporâneo dos sucessos narrados. Mas, lido este Brasil, vejo pessoas e acontecimentos à luz de outro olhar. Mais intenso, quase ofuscante, não raro cruel. No começo da leitura pareceu-me que a ferinidade vinha de uma visada mais aguda e ácida que a do comum dos mortais. Mas não, não era só isso. Era a própria realidade que se revelava na sua crueza. Crueza cruel, com o perdão do pleonasmo. Retratar o nosso homo politicus é lidar com o nauseante: que galeria de patifes talvez superada apenas pela dos jornalistas! Aqui o narrador pôs o dedo na ferida, mas, em vez de sangue fresco, o que jorrou foi pus. Lembra, de longe, a fauna satirizada por Lima Barreto nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas tão deteriorada que desafia qualquer hipótese progressista em relação à história da nossa espécie.
Sempre desconfiei dos colunistas de nossos jornalões. Agora vejo estampada em negrito a sua venalidade, a completa expressão da covardia e do oportunismo. A exceção luminosa de Cláudio Abramo brilha, de raro em raro, servindo apenas para que o leitor entreveja o negrume da malta. Que figura organicamente lastimável esse Abukir (pouco importa se figura à clef, ou não), que atravessa o livro de ponta a ponta e só teve um momento fugaz de autoconsciência nas páginas finais! Aí o autor acertou em cheio dando a palavra, entre cínica e confessional, a esse títere do sistema trabalhado em terceira pessoa ao longo do texto. No final, as personagens, quase sempre meros tipos sociais, tem a oportunidade de se converterem em pessoas. Não todas, é bem verdade, pois o tipo é inerente ao gênero satírico da escrita. E qual o desígnio do seu texto? Levar ao ridículo a nossa burguesia arrivista e puni-la metodicamente, mas sem nenhuma esperança de corrigi-la. Já não daria mais para crer no ridendo castigat mores? Parece que não. Tudo ficou opaco, tudo mercadoria subindo ao primeiro plano, tudo status dentro de cada carreira profissional.
A caricatura expõe traços obsessivos. O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsch colado ao granfinismo paulista e figurado pelo ponto de vista de um anarco-sindicalista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. Afinal, “nel mondo non c’è che volgo”, palavra de Maquiavel ajustada à semicultura dos políticos e jornalistas que não cessam de nos infelicitar. Farpas lançadas contra as veleidades gastronômicas e as indumentárias dos figurantes valem como portraits de uma classe sem classe.
No entanto, há clareiras neste carrascal. Quem diria que o enigmático Golbery conseguisse passar quase incólume pela malha apertada de um juiz invariavelmente democrático e progressista, que é o nosso narrador? Pois passa; é o olhar humanizado por uma longa experiência da fragilidade humana que o valia, e é capaz de compensar a triste astúcia do maquiador de golpes com a melancolia do jogador derrotado em um momento digno do seu destino. (Terei entendido bem?)
E há a figura imponente do chevalier sans peur et sans reproche, Raymundo Faoro. Não conheci o privilégio de tê-lo como confrade, mas a honra de tê-lo como eleitor. Um voto que ainda me surpreende e comove. E há os que ajudam a matizar o quadro sinistro: Ulysses, Montoro, Severo Gomes, mas são tão poucos… E a imagem de Lula, que apesar dos pesares, resiste galhardamente.
No tecido que remata o livro, sinto em Paulo alguém que me dá vontade de abraçar fraternalmente.
Mas é já tempo de reconhecer, ao longo de cada página, uma voz amarga, ainda que animosa. É a voz que fundou o Jornal da República, e que se desenha, em corpo inteiro, na tocante autobiografia do jornalista intimorato, homem digno de outro jornalista, que o gerou e instruiu.
Obrigado e o abraço amigo do
Alfredo Bosi"
http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-livro-leva-ao-ridiculo-a-nossa-burguesia-arrivista/
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
RICARDO SETTI
Por Marcus Vinicius
Nem o reino mineral, como diz Mino Carta, acredita que um jornalista como Ricardo Setti, tenha errado ao publicar uma fotomontagem com Lula.
É óbvio que um ex- (diretor, redator-chefe de várias publicações brasileiras) e editor das memórias do ex-presidente FHC, teria que saber do que se tratava e de que serveria aos seus propósitos. (não é assim a teoria do domínio do fato).
Este jornalista hoje é blogueiro da tal revista, e no tal blog publicou a foto.
A foto original foi feita no dia 22 de fevereiro de 2009, no Sambódromo, no Rio, e mostra Lula, dona Marisa, Neguinho da Beija-Flor e a mulher, Elaine Reis (Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República).

Nem o reino mineral, como diz Mino Carta, acredita que um jornalista como Ricardo Setti, tenha errado ao publicar uma fotomontagem com Lula.
É óbvio que um ex- (diretor, redator-chefe de várias publicações brasileiras) e editor das memórias do ex-presidente FHC, teria que saber do que se tratava e de que serveria aos seus propósitos. (não é assim a teoria do domínio do fato).
Este jornalista hoje é blogueiro da tal revista, e no tal blog publicou a foto.
A foto original foi feita no dia 22 de fevereiro de 2009, no Sambódromo, no Rio, e mostra Lula, dona Marisa, Neguinho da Beija-Flor e a mulher, Elaine Reis (Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República).
sábado, 29 de setembro de 2012
A obsessão da mídia
Por Mino Carta
Por que Lula se tornou a obsessão da mídia nativa? Por que tanta raiva armada contra o ex-presidente? Primeiro é o ódio de classe, cevado há décadas, excitado pelo operário metido a sebo, tanto mais no país da casa-grande e da senzala. Onde já se viu topete tamanho? Se me permitem, Lula é personagem de Émile Zola, assim como José Serra está nas páginas de Honoré de Balzac. O sequioso da emergência que chegou lá.
Dez anos depois. No fim de setembro de 2002, jornalões e revistões enxergavam Lula como se vê acima. E o operário ganhou as eleições…
Depois vem a verdade factual, a popularidade de Lula, avassaladora. E vem o confronto com os tempos de Presidência tucana, e o triste fim de Fernando Henrique Cardoso, o esquecido, no Brasil e no mundo. Assim respondem os meus meditativos botões às perguntas acima. E as respostas geram outra pergunta.
Por que a mídia nativa, intérprete da casa-grande, goza ainda de prestígio até junto a quem ataca diária e obsessivamente se seus candidatos perdem os embates eleitorais decisivos?Memento 2002, 2006, 2010. Mesmo agora, véspera dos pleitos municipais, as coisas não estão bem paradas para os preferidos de jornalões e revistões. Será que o jornalismo brasileiro dos dias de hoje faz apostas erradas? Defende o indefensável?
Na semana passada publiquei os números da verba publicitária governista distribuída entre as empresas midiáticas. Mais de 50 milhões para a Globo. Para nós, pouco mais de 100 mil reais. E sempre há quem apareça para nos definir como “chapa-branca”… E a Editora Abril, então? Na compra de livros didáticos, fica com a parte do leão em um negócio imponente que em 2012 já lhe assegurou a entrada de 300 milhões. Pode-se imaginar o que seus livros ensinam. Enquanto isso, a Petrobras acaba de cancelar um contrato de 11 milhões que estava para ser fechado com a casa do Murdoch brasileiro. Vem a calhar, a confirmar-lhe tradições e intentos, a última capa da sua querida Veja, ponta de lança na estratégia da guerra contra Lula.
A revista de Policarpo Jr., parceiro de Carlinhos Cachoeira em algumas empreitadas, produz esta semana mais uma obra-prima de antijornalismo. Formula acusações gravíssimas contra Lula sem esclarecer quem as faz (Marcos Valério ou seus pretensos apaniguados?), mas nome algum é citado, e o advogado do publicitário mineiro desmente a publicação murdoquiana. Ricardo Noblat (porta-voz de Veja?) informa no seu blog que a Abril vai divulgar o áudio de uma entrevista com Valério, e horas depois comunica que Policarpo Jr. convenceu a direção da Abril a deixar para lá, ao menos por ora.
Quanta ponderação, por parte de Policarpo… Suas relações com Cachoeira CartaCapitalprovou com documentos tão irrefutáveis quanto inúteis: a CPI não vai convocá-lo para depor, como seria digno de um país democrático, porque o solerte presidente-executivo abriliano foi ter com o vice-presidente da República para lembrá-lo de que se Veja for julgada, todos os demais da mídia nativa entram na dança.
Este específico enredo prova as dificuldades de governar o país da casa-grande e da senzala. É preciso recorrer a alianças que funcionam como a bola de ferro atada aos pés do convicto e padecer como vice o representante de um partido pronto a ceder diante das pressões da Abril. E da Globo, como CartaCapital relatou ao longo da cobertura da CPI do Cachoeira. Resta o fato: a mídia nativa é bem menos poderosa do que os graúdos supõem, inclusive os do próprio governo.
Uma exceção talvez seja São Paulo, com sua capital dos shoppings milionários, da maior frota de helicópteros do mundo depois de Nova York, de favelas monstruosas a rodear os bairros endinheirados, de mil homicídios anuais (5 mil no estado). Refiro-me à cidade e ao estado mais reacionários do Brasil. Aqui tudo pode acontecer. De todo modo, os senhores, de um lado e do outro, caem na mesma esparrela dos jornalistas que os apoiam ou os denigrem. Os jornalistas e seus patrões, na certeza da ignorância da plateia, acabaram por assumir o nível mental que atribuem a seus leitores, ouvintes e assistentes. Os graúdos apoiados agarram-se em fio desencapado, os ofendidos temem um poder em vias de extinção. E não percebem que a tentativa de demonizar Lula consegue é endeusá-lo.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Jornalista, Como Os Ginecologistas Segundo Nelson Rodrigues, Deveria Ser Um Santo, Um São Francisco De Assis
Por Paulo Nogueira
Jornalista, como os ginecologistas segundo Nelson Rodrigues, deveria ser um santo, um São Francisco de Assis. Andar de sandálias, ter vida reta, fazer voto de pobreza e servir ao público. Falar com os passarinhos, eventualmente.
Só que não somos São Francisco.
Mas podemos ser razoavelmente bons, se nos empenharmos para isso. Se fizermos uma espécie de ginástica interior. É possível diminuir a distância que nos separa de São Francisco.
Sempre que montei equipes, me preocupei com caráter, tanto quanto com competência. Errei no julgamento, algumas vezes. Na maior parte, acertei. É o que interessa.
Em minha carreira, o maior exemplo do oposto da santidade que conheci numa redação foi Mario Sergio Conti. Nunca vi um jornalista tão ruim – mau, maldoso, quero dizer – quanto ele.
Como é tecnicamente bom, e como caráter não é coisa muto cobrada na imprensa brasileira, Mario fez uma carreira que o levou a cargos de destaque. Chegou a diretor da Veja. A ascensão de Mario acabou sendo um problema para o caráter, em geral, do jornalismo brasileiro. Porque ele, com poder, acabaria gerando iguais. Maus gostam de maus. Maus promovem maus. Maus se reproduzem. Não são apenas os bons que lideram por exemplo. Os maus também.
O ápice da maldade de Mario foi quando escreveu, na Veja, que era ruim derrubar árvores para imprimir livros como os de Caio Fernando Abreu. Ele tinha alguma diferença pessoal com Caio Fernando, e fez o que fez. Na gestão de Mario, João Gilberto era tratado como Deus, por ordem sua, e Caetano Veloso como demônio. E alguma questão pessoal que ele teve com Otavio Frias Filho o levou a proibir os editores da Veja São Paulo de escrever, na seção cultural da revista, o nome dele na resenha de sua peça, Rancor. Era uma peça sem autor, na Vejinha.
Nas escolas de jornalismo, Mario serviria como um antiexemplo formidável.
Garotos, prestem atenção nisso. Prestaram? Agora façam o contrário.
A maldade de Mario, sob controle enquanto ele era mais um numa redação de muitos, se revelaria espetacularmente quando ele sucedeu JR Guzzo na direção da Veja. “Não sou bom para fazer sucessor”, me disse, certa vez, rindo, Guzzo. Mario, como soldado numa redação, seria um problema pequeno. Como general, virou um problema grande.
Guzzo achou que conhecia Mario, mas não conhecia. Uma das maiores lições de sabedoria que recebi foi numa conversa que tive, aos 20 e poucos anos, com Sérgio Pompeu, um gigante moral. Sérgio foi diretor da Veja ao lado de Guzzo, e depois virou secretário editorial da Abril. Ele trabalhara sob meu pai na Folha, e fui conversar com ele para ver se eu poderia fazer um estágio na Abril, em abril de 1980.
Eu tinha ouvido falar muito de Elio Gaspari, e perguntei a Sérgio como era ele. “Não sei”, respondeu Sérgio em sua voz mansa, cadenciada. “Só fui chefe dele. Você conhece uma pessoa apenas quando é chefiado por ela.”
Sócrates não falaria coisa mais sábia sobre as relações entre as pessoas na vida corporativa e, também, nas redações. (Em caráter, Sérgio foi sempre uma referência para mim. Acompanhei com tristeza solidária seu declínio pessoal e profissional. Visitei-o várias vezes na casa de repouso em que ele lutava contra problemas mentais, e da qual só sairia morto.)
Como Guzzo – o maior editor de revistas da história da imprensa brasileira, um gênio para entender o que o leitor quer e o que não quer, e um mestre na arte de escrever e reescrever– apenas comandara Mario, não o conhecia. Só viu quem ele era quando o punhal de Mario estava cravado em suas costas, na forma de calúnias que, de tão desonestas e tão infundadas, acabariam depondo não contra a vítima delas, mas contra o autor.
Mais que a competência, em si, tenho para mim que o que abreviou a jornada de Mario na direção da Veja foi a maldade, que recebeu, quando ele chegou ao topo, o acréscimo explosivo de uma arrogância da qual você sentia o cheiro a quilômetros.
A ausência de Mario fez bem para a revista. Seu sucessor, Tales Alvarenga, representou uma limpeza. Tales não devolveu a revista editorialmente à grandeza que tivera durante a gestão de Mino Carta, primeiro, e Guzzo, depois. Mas retirou-a do abismo moral em que Mario a atirara. Cumpriu sua missão.
A faxina teria sido completa se, numa coluna, não tivesse sobrevivido uma invenção de Mario: o colunista Diego Mainardi. Invenção e, mais que isso, alma gêmea.
Mainardi é mau, como Mario. Como polemista, e a exemplo do blogueiro Reinaldo de Azevedo, apresentou todos os defeitos de Paulo Francis – a leviandade, o descompromisso com os fatos na defesa de ideias, o amor a intrigas e calúnias, a megalomania tão antifilosófica — e nenhuma de suas virtudes, como a graça na prosa e a inteligência vivaz.
Se existisse inferno, os dois, Mario e Mainardi, teriam uma eternidade entre as chamas para colocar os assuntos em dia. Lamento, neste caso, que não exista.
Jornalista, repito, deveria ser santo, no mundo ideal.
Não somos.
Mas não precisamos, não podemos e não devemos ser maus como Mario Sergio Conti e Mainardi.
Numa frase famosa, Elio Gaspari, adjunto de Guzzo na Veja nos anos 1980, afirmou que editava textos, e não caracteres.
É um erro.
Não são apenas os textos dos jornalistas que devem ser editados. Também o caráter.
O jornalismo, sem caráter, é apenas um comércio desprezível.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/?p=7730
Jornalista, como os ginecologistas segundo Nelson Rodrigues, deveria ser um santo, um São Francisco de Assis. Andar de sandálias, ter vida reta, fazer voto de pobreza e servir ao público. Falar com os passarinhos, eventualmente.
Só que não somos São Francisco.
Mas podemos ser razoavelmente bons, se nos empenharmos para isso. Se fizermos uma espécie de ginástica interior. É possível diminuir a distância que nos separa de São Francisco.
Sempre que montei equipes, me preocupei com caráter, tanto quanto com competência. Errei no julgamento, algumas vezes. Na maior parte, acertei. É o que interessa.
Em minha carreira, o maior exemplo do oposto da santidade que conheci numa redação foi Mario Sergio Conti. Nunca vi um jornalista tão ruim – mau, maldoso, quero dizer – quanto ele.
Como é tecnicamente bom, e como caráter não é coisa muto cobrada na imprensa brasileira, Mario fez uma carreira que o levou a cargos de destaque. Chegou a diretor da Veja. A ascensão de Mario acabou sendo um problema para o caráter, em geral, do jornalismo brasileiro. Porque ele, com poder, acabaria gerando iguais. Maus gostam de maus. Maus promovem maus. Maus se reproduzem. Não são apenas os bons que lideram por exemplo. Os maus também.
O ápice da maldade de Mario foi quando escreveu, na Veja, que era ruim derrubar árvores para imprimir livros como os de Caio Fernando Abreu. Ele tinha alguma diferença pessoal com Caio Fernando, e fez o que fez. Na gestão de Mario, João Gilberto era tratado como Deus, por ordem sua, e Caetano Veloso como demônio. E alguma questão pessoal que ele teve com Otavio Frias Filho o levou a proibir os editores da Veja São Paulo de escrever, na seção cultural da revista, o nome dele na resenha de sua peça, Rancor. Era uma peça sem autor, na Vejinha.
Nas escolas de jornalismo, Mario serviria como um antiexemplo formidável.
Garotos, prestem atenção nisso. Prestaram? Agora façam o contrário.
A maldade de Mario, sob controle enquanto ele era mais um numa redação de muitos, se revelaria espetacularmente quando ele sucedeu JR Guzzo na direção da Veja. “Não sou bom para fazer sucessor”, me disse, certa vez, rindo, Guzzo. Mario, como soldado numa redação, seria um problema pequeno. Como general, virou um problema grande.
Guzzo achou que conhecia Mario, mas não conhecia. Uma das maiores lições de sabedoria que recebi foi numa conversa que tive, aos 20 e poucos anos, com Sérgio Pompeu, um gigante moral. Sérgio foi diretor da Veja ao lado de Guzzo, e depois virou secretário editorial da Abril. Ele trabalhara sob meu pai na Folha, e fui conversar com ele para ver se eu poderia fazer um estágio na Abril, em abril de 1980.
Eu tinha ouvido falar muito de Elio Gaspari, e perguntei a Sérgio como era ele. “Não sei”, respondeu Sérgio em sua voz mansa, cadenciada. “Só fui chefe dele. Você conhece uma pessoa apenas quando é chefiado por ela.”
Sócrates não falaria coisa mais sábia sobre as relações entre as pessoas na vida corporativa e, também, nas redações. (Em caráter, Sérgio foi sempre uma referência para mim. Acompanhei com tristeza solidária seu declínio pessoal e profissional. Visitei-o várias vezes na casa de repouso em que ele lutava contra problemas mentais, e da qual só sairia morto.)
Como Guzzo – o maior editor de revistas da história da imprensa brasileira, um gênio para entender o que o leitor quer e o que não quer, e um mestre na arte de escrever e reescrever– apenas comandara Mario, não o conhecia. Só viu quem ele era quando o punhal de Mario estava cravado em suas costas, na forma de calúnias que, de tão desonestas e tão infundadas, acabariam depondo não contra a vítima delas, mas contra o autor.
Mais que a competência, em si, tenho para mim que o que abreviou a jornada de Mario na direção da Veja foi a maldade, que recebeu, quando ele chegou ao topo, o acréscimo explosivo de uma arrogância da qual você sentia o cheiro a quilômetros.
A ausência de Mario fez bem para a revista. Seu sucessor, Tales Alvarenga, representou uma limpeza. Tales não devolveu a revista editorialmente à grandeza que tivera durante a gestão de Mino Carta, primeiro, e Guzzo, depois. Mas retirou-a do abismo moral em que Mario a atirara. Cumpriu sua missão.
A faxina teria sido completa se, numa coluna, não tivesse sobrevivido uma invenção de Mario: o colunista Diego Mainardi. Invenção e, mais que isso, alma gêmea.
Mainardi é mau, como Mario. Como polemista, e a exemplo do blogueiro Reinaldo de Azevedo, apresentou todos os defeitos de Paulo Francis – a leviandade, o descompromisso com os fatos na defesa de ideias, o amor a intrigas e calúnias, a megalomania tão antifilosófica — e nenhuma de suas virtudes, como a graça na prosa e a inteligência vivaz.
Se existisse inferno, os dois, Mario e Mainardi, teriam uma eternidade entre as chamas para colocar os assuntos em dia. Lamento, neste caso, que não exista.
Jornalista, repito, deveria ser santo, no mundo ideal.
Não somos.
Mas não precisamos, não podemos e não devemos ser maus como Mario Sergio Conti e Mainardi.
Numa frase famosa, Elio Gaspari, adjunto de Guzzo na Veja nos anos 1980, afirmou que editava textos, e não caracteres.
É um erro.
Não são apenas os textos dos jornalistas que devem ser editados. Também o caráter.
O jornalismo, sem caráter, é apenas um comércio desprezível.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/?p=7730
domingo, 13 de maio de 2012
Eternos Chapa-Branca
Por Mino Carta

Símbolo. Dos serviços prestados à ditadura, à "democracia" de Sarney e ACM, e de FHC, presidente da privataria tucana
O jornal O Globo toma as dores da revista Veja e de seu patrão na edição de terça 8, e determina: “Roberto Civita não é Rupert Murdoch”. Em cena, o espírito corporativo. Manda a tradição do jornalismo pátrio, fiel do pensamento único diante de qualquer risco de mudança.
Desde 2002, todos empenhados em criar problemas para o governo do metalúrgico desabusado e, de dois anos para cá, para a burguesa que lá pelas tantas pegou em armas contra a ditadura, embora nunca as tenha usado. Os barões midiáticos detestam-se cordialmente uns aos outros, mas a ameaça comum, ou o simples temor de que se manifeste, os leva a se unir, automática e compactamente.
Não há necessidade de uma convocação explícita, o toque do alerta alcança com exclusividade os seus ouvidos interiores enquanto ninguém mais o escuta. E entra na liça o jornal da família Marinho para acusar quem acusa o parceiro de jornada, o qual, comovido, transforma o texto global na sua própria peça de defesa, desfraldada no site de Veja. A CPI do Cachoeira em potência encerra perigos em primeiro lugar para a Editora Abril. Nem por isso os demais da mídia nativa estão a salvo, o mal de um pode ser de todos.
O autor do editorial exibe a tranquilidade de Pitágoras na hora de resolver seu teorema, na certeza de ter demolido com sua pena (imortal?) os argumentos de CartaCapital. Arrisca-se, porém, igual a Rui Falcão, de quem se apressa a citar a frase sobre a CPI, vista como a oportunidade “de desmascarar o mensalão”. Com notável candura evoca o Caso Watergate para justificar o chefe da sucursal de Veja em Brasília nas suas notórias andanças com o chefão goiano. Ambos desastrados, o editorialista e o líder petista.
O autor do editorial exibe a tranquilidade de Pitágoras na hora de resolver seu teorema, na certeza de ter demolido com sua pena (imortal?) os argumentos de CartaCapital. Arrisca-se, porém, igual a Rui Falcão, de quem se apressa a citar a frase sobre a CPI, vista como a oportunidade “de desmascarar o mensalão”. Com notável candura evoca o Caso Watergate para justificar o chefe da sucursal de Veja em Brasília nas suas notórias andanças com o chefão goiano. Ambos desastrados, o editorialista e o líder petista.
Abalo-me a observar que a semanal abriliana em nada se parece com o Washington Post, bem como Roberto Civita com Katharine Graham, dona, à época de Watergate, do extraordinário diário da capital americana. Poupo os leitores e os meus pacientes botões de comparações entre a mídia dos Estados Unidos e a do Brasil, mas não deixo de acentuar a abissal diferença entre o diretor de Veja e Ben Bradlee, diretor do Washington Post, e entre Policarpo Jr. e Bob Woodward e Carl Bernstein, autores da série que obrigou Richard Nixon a se demitir antes de sofrer o inevitável impeachment. E ainda entre o Garganta Profunda, agente graduado do FBI, e um bicheiro mafioso.
Recomenda-se um mínimo de apego à verdade factual e ao espírito crítico, embora seja do conhecimento até do mundo mineral a clamorosa ignorância das redações nativas. Vale dizer, de todo modo, que, para não perder o vezo, o editorialista global esquece, entre outras façanhas de Veja, aquele épico momento em que a revista publica o dossiê fornecido por Daniel Dantas sobre as contas no exterior de alguns figurões da República, a começar pelo presidente Lula.
Concentro-me em outras miopias deO Globo. Sem citar CartaCapital, o jornal a inclui entre “os veículos de imprensa chapa-branca, que atuam como linha auxiliar dos setores radicais do PT”. Anotação marginal: os radicais do PT são hoje em dia tão comuns quanto os brontossauros. Talvez fossem anacrônicos nos seus tempos de plena exposição, hoje em dia mudaram de ideia ou sumiram de vez. Há tempo CartaCapital lamenta que o PT tenha assumido no poder as feições dos demais partidos.
Vamos, de todo modo, à vezeira acusação de que somos chapa-branca. Apenas e tão somente porque entendemos que os governos do presidente Lula e da presidenta Dilma são muito mais confiáveis do que seus antecessores? Chapa-branca é a mídia nativa e O Globo cumpre a tarefa com diligência vetusta e comovedora, destaque na opção pelos interesses dos herdeiros da casa-grande, empenhados em manter de pé a senzala até o derradeiro instante possível.
Não é por acaso que 64% dos brasileiros não dispõem de saneamento básico e que 50 mil morrem assassinados anualmente. Ou que os nossos índices de ensino e saúde públicos são dignos dos fundões da África, a par da magnífica colocação do País entre aqueles que pior distribuem a renda. Em compensação, a minoria privilegiada imita a vida dos emires árabes.
Chapa-branca a favor de quem, impávidos senhores da prepotência, da velhacaria, da arrogância, da incompetência, da hipocrisia? Arauto da ditadura, Roberto Marinho fermentou seu poder à sombra dela e fez das Organizações Globo um monstro que assola o Brazil-zil-zil. Seu jornal apoiou o golpe, o golpe dentro do golpe, a repressão feroz. Illo tempore, seu grande amigo chamava-se Armando Falcão.
Chapa-branca a favor de quem, impávidos senhores da prepotência, da velhacaria, da arrogância, da incompetência, da hipocrisia? Arauto da ditadura, Roberto Marinho fermentou seu poder à sombra dela e fez das Organizações Globo um monstro que assola o Brazil-zil-zil. Seu jornal apoiou o golpe, o golpe dentro do golpe, a repressão feroz. Illo tempore, seu grande amigo chamava-se Armando Falcão.
Opositor ferrenho das Diretas Já, rejubilado pelo fracasso da Emenda Dante de Oliveira, seu grande amigo passou a atender pelo nome de Antonio Carlos Magalhães. O doutor Roberto em pessoa manipulou o célebre debate Lula versus Collor, para opor-se a este dois anos depois, cobrador, o presidente caçador de marajás, de pedágios exorbitantes, quando já não havia como segurá-lo depois das claras, circunstanciadas denúncias do motorista Eriberto, publicadas pela revista IstoÉ, dirigida então pelo acima assinado.
Pronta às loas mais desbragadas a Fernando Henrique presidente, com o aval de ACM, a Globo sustentou a reeleição comprada e a privataria tucana, e resistiu à própria falência do País no começo de 1999, após ter apoiado a candidatura de FHC na qualidade de defensor da estabilidade. Não lhe faltaram compensações. Endividada até o chapéu, teve o presente de 800 milhões de reais do BNDES do senhor Reichstul. Haja chapa-branca.
Impossível a comparação entre a chamada “grande imprensa” (eu a enxergo mínima) e o que chama de “linha auxiliar de setores radicais do PT”, conforme definem as primeiras linhas do editorial de O Globo. A questão, de verdade, é muito simples: há jornalismo e jornalismo. Ao contrário destes “grandes”, nós entendemos que a liberdade sozinha, sem o acompanhamento pontual da igualdade, é apenas a do mais forte, ou, se quiserem, do mais rico. É a liberdade do rei leão no coração da selva, seguido a conveniente distância por sua corte de hienas.
Acreditamos também que entregue à propaganda da linha auxiliar da casa-grande, o Brasil não chegaria a ser o País que ele mesmo e sua nação merecem. Nunca me canso de repetir Raymundo Faoro: “Eles querem um País de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo”. No mais, sobra a evidência: Roberto Civita é o Murdoch que este país pode se permitir, além de inventor da lâmpada Skuromatic a convocar as trevas ao meio-dia. Temos de convir que, na mídia brasileira, abundam os usuários deste milagroso objeto.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
A culpa da Itália
Por Mino Carta
Em um ex-primeiro Mundo de lideranças políticas medíocres, Silvio Berlusconi é grande personagem. Tragicômica. Não saberia definir o volume das doses de tragédia e de comédia necessárias à combinação, arrisco-me, porém, a imaginar que Berlusconi nas mãos de um Shakespeare se tornaria sultão perverso, devasso e ridículo, irretocável em todos estes aspectos altamente negativos.
Estamos em condições, isto sim, de medir com precisão, números à disposição, a consistência do mal causado a seu país pelo premier italiano nos últimos quatro meses: o spread, entre os títulos alemães e os da Itália, submetida ao ataque especulativo cada vez mais feroz, não chegava a 350 em julho passado e na quarta 9 de novembro transpôs o umbral da falência ao atingir 553.
Quatro meses resumem 17 anos de berlusconismo, quase duas décadas de desmandos e vulgaridades, de atraso econômico e lassidão moral, de relacionamento suspeito com o crime organizado e de assaltos à Constituição à sombra da ditadura da maioria, o espectro sinistro que conforme Tocqueville sempre ameaça a democracia. Em 17 anos, a Itália de Berlusconi dilapidou brutalmente o prestígio conquistado desde o imediato pós-guerra pela força do trabalho, pelo arrojo empresarial, pela solidez do seu Estado de Direito.
Um país paupérrimo em recursos naturais, dotado de terras férteis em menos da metade da sua superfície, tornou-se um dos mais ricos do mundo, entre eles seu PIB alcançou o quinto lugar. Seria o caso de dizer que o bem-estar, garantido por uma razoável distribuição de renda a despeito das arcaicas diferenças entre Norte e Sul, em parte preservadas, não fez bem à nação peninsular? Ocorre-me, não se espantem, um verso de Dante: chi è causa del suo mal, pianga se stesso. Quem causa o seu mal, chore a si mesmo. Pois é, hoje me dou ao luxo de evocar os gênios.
Está clara a culpa em cartório dos italianos, que elegeram e reelegeram o sultão três vezes. Em um lapso de tempo tão largo, não foram capazes de entender quem é Berlusconi e aonde seria capaz de arrastá-los, em nome dos interesses exclusivamente seus e da sua turma, em detrimento da grei. Os resistentes foram minoria, a oposição não se habilitou a oferecer alternativas convincentes. Agora me soa patética a patriotada dos ofendidos pelo descrédito internacional da Itália. Se a senhora Merkel e o galinho Sarko trocam sorrisinhos quando alguém pergunta se Berlusconi merece confiança, não cabe surpresa e tanto mais indignação.
Nesta moldura, permito-me supor até que o Caso Battisti não teria assumido lamentáveis proporções, precipitadas em primeiro lugar pela ignorância brasileira, caso o governo italiano não fosse o de Berlusconi. Meu queixo não cairia se averiguássemos que, em visita recente ao Brasil e em contato com o então presidente Lula, o premier declinou seu desinteresse pela sorte do terrorista assassino. Naquele momento estava na expectativa do bunga-bunga organizado em algum privilegiado local de São Paulo por Walter Lavitola, lobista e proxeneta, hoje procurado pela polícia e foragido na América Central. Deveria escolher o Brasil, talvez aqui fosse considerado herói da desobediência civil. Certo é que, na gestão do caso o governo de Roma, sua chancelaria e seus representantes diplomáticos foram de extrema tibieza.
Óbvio que este específico exemplo não é relevante em comparação com males maiores, mas nele também se destaca positivamente o presidente da República, Giorgio Napolitano, o mais autorizado a manifestar profunda contrariedade com o desfecho do Caso Battisti e com a situação atual do seu país, e a defender o Estado Democrático de Direito que a Itália é desde a derrubada do fascismo, e continua a ser, a despeito de Berlusconi. Neste momento, o país conta com um honrado, notável presidente, pronto a desempenhar um papel que de certa maneira extrapola das funções constitucionais no justo empenho de estabelecer limites a uma situação tão comprometida.
Observe-se que pela primeira vez na história da república italiana o comunicado destinado a anunciar a próxima renúncia do premier em vez de ser divulgado pelo Palácio do Governo, saiu do Quirinale, sede presidencial. Foi a garantia que Napolitano ofereceu à nação, desafiado pela notória inconfiabilidade de Berlusconi. É de se estranhar que em um regime parlamentarista o presidente da República deixe de se parecer com a rainha da Inglaterra, mas neste momento para a Itália é bom que seja assim. Quanto a Berlusconi, tem lugar garantido no panteão dos grandes vilões. •
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-culpa-da-italia/?autor=42
Em um ex-primeiro Mundo de lideranças políticas medíocres, Silvio Berlusconi é grande personagem. Tragicômica. Não saberia definir o volume das doses de tragédia e de comédia necessárias à combinação, arrisco-me, porém, a imaginar que Berlusconi nas mãos de um Shakespeare se tornaria sultão perverso, devasso e ridículo, irretocável em todos estes aspectos altamente negativos.
Estamos em condições, isto sim, de medir com precisão, números à disposição, a consistência do mal causado a seu país pelo premier italiano nos últimos quatro meses: o spread, entre os títulos alemães e os da Itália, submetida ao ataque especulativo cada vez mais feroz, não chegava a 350 em julho passado e na quarta 9 de novembro transpôs o umbral da falência ao atingir 553.
Quatro meses resumem 17 anos de berlusconismo, quase duas décadas de desmandos e vulgaridades, de atraso econômico e lassidão moral, de relacionamento suspeito com o crime organizado e de assaltos à Constituição à sombra da ditadura da maioria, o espectro sinistro que conforme Tocqueville sempre ameaça a democracia. Em 17 anos, a Itália de Berlusconi dilapidou brutalmente o prestígio conquistado desde o imediato pós-guerra pela força do trabalho, pelo arrojo empresarial, pela solidez do seu Estado de Direito.
Um país paupérrimo em recursos naturais, dotado de terras férteis em menos da metade da sua superfície, tornou-se um dos mais ricos do mundo, entre eles seu PIB alcançou o quinto lugar. Seria o caso de dizer que o bem-estar, garantido por uma razoável distribuição de renda a despeito das arcaicas diferenças entre Norte e Sul, em parte preservadas, não fez bem à nação peninsular? Ocorre-me, não se espantem, um verso de Dante: chi è causa del suo mal, pianga se stesso. Quem causa o seu mal, chore a si mesmo. Pois é, hoje me dou ao luxo de evocar os gênios.
Está clara a culpa em cartório dos italianos, que elegeram e reelegeram o sultão três vezes. Em um lapso de tempo tão largo, não foram capazes de entender quem é Berlusconi e aonde seria capaz de arrastá-los, em nome dos interesses exclusivamente seus e da sua turma, em detrimento da grei. Os resistentes foram minoria, a oposição não se habilitou a oferecer alternativas convincentes. Agora me soa patética a patriotada dos ofendidos pelo descrédito internacional da Itália. Se a senhora Merkel e o galinho Sarko trocam sorrisinhos quando alguém pergunta se Berlusconi merece confiança, não cabe surpresa e tanto mais indignação.
Nesta moldura, permito-me supor até que o Caso Battisti não teria assumido lamentáveis proporções, precipitadas em primeiro lugar pela ignorância brasileira, caso o governo italiano não fosse o de Berlusconi. Meu queixo não cairia se averiguássemos que, em visita recente ao Brasil e em contato com o então presidente Lula, o premier declinou seu desinteresse pela sorte do terrorista assassino. Naquele momento estava na expectativa do bunga-bunga organizado em algum privilegiado local de São Paulo por Walter Lavitola, lobista e proxeneta, hoje procurado pela polícia e foragido na América Central. Deveria escolher o Brasil, talvez aqui fosse considerado herói da desobediência civil. Certo é que, na gestão do caso o governo de Roma, sua chancelaria e seus representantes diplomáticos foram de extrema tibieza.
Óbvio que este específico exemplo não é relevante em comparação com males maiores, mas nele também se destaca positivamente o presidente da República, Giorgio Napolitano, o mais autorizado a manifestar profunda contrariedade com o desfecho do Caso Battisti e com a situação atual do seu país, e a defender o Estado Democrático de Direito que a Itália é desde a derrubada do fascismo, e continua a ser, a despeito de Berlusconi. Neste momento, o país conta com um honrado, notável presidente, pronto a desempenhar um papel que de certa maneira extrapola das funções constitucionais no justo empenho de estabelecer limites a uma situação tão comprometida.
Observe-se que pela primeira vez na história da república italiana o comunicado destinado a anunciar a próxima renúncia do premier em vez de ser divulgado pelo Palácio do Governo, saiu do Quirinale, sede presidencial. Foi a garantia que Napolitano ofereceu à nação, desafiado pela notória inconfiabilidade de Berlusconi. É de se estranhar que em um regime parlamentarista o presidente da República deixe de se parecer com a rainha da Inglaterra, mas neste momento para a Itália é bom que seja assim. Quanto a Berlusconi, tem lugar garantido no panteão dos grandes vilões. •
http://www.cartacapital.com.br/politica/a-culpa-da-italia/?autor=42
sábado, 13 de novembro de 2010
Mino Carta escreve sobre Marcelo Itagiba
A despedida de um jagunço
por Mino Carta, na CartaCapital
Na Câmara Federal, o ex-deputado tucano Marcelo Itagiba, ex-emedebista, ex-policial, deita falação para injuriar alguns jornalistas, precisamente aqueles que atuaram do lado oposto à compacta campanha de ódio a favor de José Serra desencadeada pela mídia nativa. Luiz Carlos Azenha é inepto, Bob Fernandes é mentecapto, mercenário desqualificado. Leandro Fortes, famigerado mitômano. Palmério Doria, profissional da mentira. Paulo Henrique Amorim, crápula. Luis Nassif, estelionatário. Marcelo Auler, hidrófobo. Quanto a mim, sou um velhaco de trajetória venal.
Creio que para os colegas ofendidos as injúrias de Itagiba equivalham a outros tantos reconhecimentos de honradez e qualidade profissional. O acima assinado passará a incluir as definições desse sabujo da tucanagem despenada entre as mais favoráveis que recebeu ao longo da sua vida de jornalista. Uma do colega Nirlando Beirão, companheiro de diversas jornadas: “Nunca o vi vacilar à frente dos poderosos”. A outra do então ditador aposentado João Baptista Figueiredo, pronunciada em 1988: “Ele é um chato que questiona tudo, reescreveria até os Evangelhos, Geisel o detestava, mas não tem rabo preso”.
Meu modelo é nonno Luigi, toscano, pai da minha mãe, falecido aos 56 anos, antes do meu nascimento. Perseguido pelo fascismo, afastado da direção de um diário genovês, esgrimista, desafiava os desafetos para duelos. Sabia ganhar e perder, certa vez foi ferido da ponta da orelha esquerda à base do pescoço, escapou por um triz.
Mas quem ousaria contestar o ex-esbirro- Itagiba, que se permite condenar Paulo Lacerda ou Protógenes Queiroz? Há de ser velhaco e venal quem ao sair da direção de Veja em fevereiro de 1976 teve de inventar os seus empregos porque não existiria barão midiático disposto a lhe oferecer trabalho. E ainda quem nunca deixou de defender a verdade factual e expor desabridamente suas opiniões.
Tenho pena de figuras como a de Marcelo Itagiba, jagunços de um poder no ocaso. Sinto no seu ataque a admirável interpretação do papel de janízaro, a cumprir a ordem do sultão humilhado, incapaz de conter a sede de vingança, o rancor inextinguível contra a vida e o mundo. No seu discurso federal, o porta-voz do ódio levanta casos de muitos anos atrás, todos a convergir em uma única direção. Basta segui-la para entender em nome de quem ele age. Boa pista para mentecaptos, ineptos, mitômanos e assim por diante.
Inclusive para velhacos e venais. Arrisco um palpite: trata-se da mesma personagem que acionou a procuradora Cureau contra CartaCapital.
FALEMOS DE REGULAÇÃO
O ministro Franklin Martins define como “fantasma” a assertiva bastante comum de que a liberdade de imprensa sofre ameaça no Brasil de Lula e Dilma. Também diz que a regulação da mídia é necessidade inadiável. Primeiro: respeita a verdade factual, nunca a mídia nativa foi tão livre de deturpar os fatos como se deu durante a campanha eleitoral. Segundo: o avanço tecnológico justifica plenamente a regulação da comunicação eletrônica, de sorte a adaptar à situação atual leis e regras superadas, ou seja, obsoletas.
O anteprojeto que o ministro pretende aprontar antes do fim do mandato do presidente Lula tratará dessa atualização técnica, sem risco algum para a liberdade de expressão. Temos aqui outro aspecto da questão, e o ministro passa por ele à margem do seminário internacional de Brasília, realizado nesta semana, ao condenar um conflito de interesse insuportável em um país democrático: inúmeros parlamentares são donos de instrumentos midiáticos, de jornais a rádios e tevês, ou contam com os préstimos de laranjas para esconder o verdadeiro proprietário.
No caso, o ministro volta a acertar. Trata-se de permitir outra regulação, a determinar de forma democrática os poderes e os alcances da mídia brasileira. Cabe ao Congresso a aprovação de uma lei que circunscreva claramente o raio de ação dos patrões (é aceitável que alguém seja dono de tudo?) e valorize os profissionais, a resguardá-los da prepotência medieval de serem comandados por um diretor de redação por direito divino.
Perguntava Joana D’Arc na peça de Bernard Shaw: “Quando, ó Deus, esta terra estará em condições de receber os seus santos?” Seria demais esperar pelos santos: bastariam deputados e senadores de boa-fé democrática, conscientes das suas responsabilidades.
por Mino Carta, na CartaCapital
Na Câmara Federal, o ex-deputado tucano Marcelo Itagiba, ex-emedebista, ex-policial, deita falação para injuriar alguns jornalistas, precisamente aqueles que atuaram do lado oposto à compacta campanha de ódio a favor de José Serra desencadeada pela mídia nativa. Luiz Carlos Azenha é inepto, Bob Fernandes é mentecapto, mercenário desqualificado. Leandro Fortes, famigerado mitômano. Palmério Doria, profissional da mentira. Paulo Henrique Amorim, crápula. Luis Nassif, estelionatário. Marcelo Auler, hidrófobo. Quanto a mim, sou um velhaco de trajetória venal.
Creio que para os colegas ofendidos as injúrias de Itagiba equivalham a outros tantos reconhecimentos de honradez e qualidade profissional. O acima assinado passará a incluir as definições desse sabujo da tucanagem despenada entre as mais favoráveis que recebeu ao longo da sua vida de jornalista. Uma do colega Nirlando Beirão, companheiro de diversas jornadas: “Nunca o vi vacilar à frente dos poderosos”. A outra do então ditador aposentado João Baptista Figueiredo, pronunciada em 1988: “Ele é um chato que questiona tudo, reescreveria até os Evangelhos, Geisel o detestava, mas não tem rabo preso”.
Meu modelo é nonno Luigi, toscano, pai da minha mãe, falecido aos 56 anos, antes do meu nascimento. Perseguido pelo fascismo, afastado da direção de um diário genovês, esgrimista, desafiava os desafetos para duelos. Sabia ganhar e perder, certa vez foi ferido da ponta da orelha esquerda à base do pescoço, escapou por um triz.
Mas quem ousaria contestar o ex-esbirro- Itagiba, que se permite condenar Paulo Lacerda ou Protógenes Queiroz? Há de ser velhaco e venal quem ao sair da direção de Veja em fevereiro de 1976 teve de inventar os seus empregos porque não existiria barão midiático disposto a lhe oferecer trabalho. E ainda quem nunca deixou de defender a verdade factual e expor desabridamente suas opiniões.
Tenho pena de figuras como a de Marcelo Itagiba, jagunços de um poder no ocaso. Sinto no seu ataque a admirável interpretação do papel de janízaro, a cumprir a ordem do sultão humilhado, incapaz de conter a sede de vingança, o rancor inextinguível contra a vida e o mundo. No seu discurso federal, o porta-voz do ódio levanta casos de muitos anos atrás, todos a convergir em uma única direção. Basta segui-la para entender em nome de quem ele age. Boa pista para mentecaptos, ineptos, mitômanos e assim por diante.
Inclusive para velhacos e venais. Arrisco um palpite: trata-se da mesma personagem que acionou a procuradora Cureau contra CartaCapital.
FALEMOS DE REGULAÇÃO
O ministro Franklin Martins define como “fantasma” a assertiva bastante comum de que a liberdade de imprensa sofre ameaça no Brasil de Lula e Dilma. Também diz que a regulação da mídia é necessidade inadiável. Primeiro: respeita a verdade factual, nunca a mídia nativa foi tão livre de deturpar os fatos como se deu durante a campanha eleitoral. Segundo: o avanço tecnológico justifica plenamente a regulação da comunicação eletrônica, de sorte a adaptar à situação atual leis e regras superadas, ou seja, obsoletas.
O anteprojeto que o ministro pretende aprontar antes do fim do mandato do presidente Lula tratará dessa atualização técnica, sem risco algum para a liberdade de expressão. Temos aqui outro aspecto da questão, e o ministro passa por ele à margem do seminário internacional de Brasília, realizado nesta semana, ao condenar um conflito de interesse insuportável em um país democrático: inúmeros parlamentares são donos de instrumentos midiáticos, de jornais a rádios e tevês, ou contam com os préstimos de laranjas para esconder o verdadeiro proprietário.
No caso, o ministro volta a acertar. Trata-se de permitir outra regulação, a determinar de forma democrática os poderes e os alcances da mídia brasileira. Cabe ao Congresso a aprovação de uma lei que circunscreva claramente o raio de ação dos patrões (é aceitável que alguém seja dono de tudo?) e valorize os profissionais, a resguardá-los da prepotência medieval de serem comandados por um diretor de redação por direito divino.
Perguntava Joana D’Arc na peça de Bernard Shaw: “Quando, ó Deus, esta terra estará em condições de receber os seus santos?” Seria demais esperar pelos santos: bastariam deputados e senadores de boa-fé democrática, conscientes das suas responsabilidades.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A carta de Mino Carta
São Paulo, 20 de setembro de 2010.
Excelentíssima Senhora Vice-Procuradora Geral Eleitoral
Acuso o recebimento do ofício de número 335/10-SC, expedido nos autos do procedimento PA/PGR 1.00.000.010796/2010-33 e, tempestiva e respeitosamente, passo a expor o que se segue.
Para melhor atender ao ofício requisitório de relação nominal de contratos de publicidade celebrados entre o Governo Federal e a Editora Confiança Ltda. - revista CartaCapital -, tomamos a iniciativa e a cautela de consultar, por meio de repórter da nossa sucursal de Brasília, os autos do procedimento geradores da determinação de Vossa Excelência. Verificamos tratar-se de denúncia anônima, baseada em meras e afrontosas ilações, ou seja, conjecturas sem apoio em elementos a conferir lastro de suficiência.
Permito-me observar que a transparência é princípio insubstituível a nortear esta publicação, iniciada em 1994 e sob minha responsabilidade. Nunca nos recusamos, portanto, dentro da legalidade, a apresentar nossos contratos e aceitar auditorias e perícias voltadas a revelar a ética que nos orienta. Não podemos, no entanto, aceitar uma denúncia anônima, que, como já decidiu o Supremo Tribunal Federal ao interpretar o artigo 5º, inciso IV, da Constituição da República ("é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato"), afronta o Estado democrático de Direito e por esta razão é indigna de acolhimento ou defesa e desprovida da qualidade jurídica documental.
A propósito do tema, ao apreciar o inquérito número 1.957-PR em sessão plenária realizada em 11 de maio de 2005, o STF decidiu, sobre o valor jurídico da denúncia anônima, só caber apurar a acusação dotada de um mínimo de idoneidade e amparada em outros elementos que permitam "apurar a sua verossimilhança, ou a sua veracidade".
Se esse órgão ministerial, apesar do exposto acima, delibera apresentar a requisição referida nesta missiva, seria antes de tudo necessário, nos termos do art. 2º da Lei nº 9.784/1999, esclarecer e indicar os motivos da mesma, justificação esta que se encontra, me apresso a sublinhar, ausente da aludida requisição.
Cabe ainda ressaltar que todos os contratos firmados pela Administração Pública federal com a Editora Confiança, em atenção ao art. 37 da Constituição Federal, foram devidamente publicados em Diário Oficial da União e nas informações disponibilizadas na internet e, portanto, estão disponíveis à V. Excia.
Por último, esclarecemos que o levantamento de dados referido na requisição desse órgão implicará em uma auditoria nos arquivos dessa editora quanto aos exercícios de 2009 e 2010. Evidentemente, essas providências não cabem em um exíguo prazo de 5 dias, mas demandam meses de trabalho. Desse modo, se justificada adequadamente a realização de um tal esforço, indagamos ainda sobre a responsabilidade pelos custos correspondentes.
Ausente os pressupostos que justifiquem a instauração da investigação, requeremos o seu arquivamento. E mais ainda, identificado o autor da denúncia ainda mantido sob anonimato, ou no caso desta Procuradoria entender pela existência de indícios a dar suporte à odiosa voz que nos carimba de "imprensa chapa-branca", nos colocamos à disposição para prestar as informações e abrir nossos arquivos e sigilos bancários e fiscais, observados, sempre e invariavelmente, os preceitos legais aplicáveis.
Atenciosamente,
MINO CARTA
Diretor de redação e sócio majoritário
Editora Confiança Ltda
Editora Confiança Ltda
quinta-feira, 3 de abril de 2008
O SILÊNCIO E A CALÚNIA
Mino Carta
O silêncio e a calúnia
Pergunto aos leitores: em qual país democrático e civilizado a saída de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da importância do iG seria ignorada pelo resto da mídia? Na imprensa, a notícia só mereceu uma lacônica nota na Folha de S.Paulo, no vídeo o registro pela TV Senado de um discurso do senador Inácio Arruda, do PCdoB do Ceará, a lamentar o episódio e solidarizar-se com Amorim.
E o episódio não somente é muito grave, mas também altamente representativo da prepotência dos senhores, acobertados pelos seus sabujos midiáticos. O espetáculo da tartufaria não é surpreendente. Não cabe espanto, sequer um leve assomo de perplexidade. Tudo normal, na Terra brasilis, tão distante, tadinha, da contemporaneidade do mundo. Porque não há país democrático e civilizado onde o abrupto afastamento de um profissional tão honrado e competente quanto Amorim não teria repercussão na mídia, imediata e profunda.
Não faltaria a busca das razões que levaram o iG a agir de forma tão violenta, ao tirar Conversa Afiada do ar sem aviso prévio, ao lacrar o computador do jornalista e enxotar o pessoal da equipe da sede do portal. Bastaria este comportamento para justificar a repulsa da categoria em peso e a investigação dos interesses envolvidos, necessariamente graúdos.
Pelo contrário, ouviu-se clangoroso silêncio, quase a insinuar que, se a mídia não o noticia, o fato não aconteceu. Que diria Hannah Arendt ao verificar que no Brasil há cada vez menos "homens dispostos a dizer o que acontece e que acontece porque é", de sorte a garantir "a sobrevivência humana"?
Pois o fato se deu, e não se exigem esforços mentais einsteinianos para entender que os donos do iG (Brasil Telecom, Fundos e Daniel Dantas) decidiram abandonar Amorim ao seu destino. Não é difícil também enxergar como pano de fundo o projeto de fundir Brasil Telecom com Oi, a ser executado com o apoio do BNDES, e portanto do governo federal, a configurar mais um clássico do capitalismo sem risco de marca tipicamente brasileira.
Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato tão chocante com a indignação midiática que, recentemente, submergiu a campanha de ações movidas em juízo por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o êxito empresarial da Iurd. Não está claro até o momento se o Altíssimo acudiu o bispo Macedo e seus prosélitos, mas é certo que, se o fez, ou o fizer, terá de enfrentar a ira da mídia nativa.
Foi um coro de manifestações a favor da liberdade de expressão ameaçada, um rosário de editoriais candentes, de colunas vitriólicas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associação dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A mídia verde-amarela não hesita em defendê-la, quando lhe convém. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, não lhe convém.
Recordo episódio similar que me diz respeito. A minha saída de Veja em fevereiro de 1976. Vai às livrarias na segunda 31, lançado em Curitiba, um livro de memórias de Karlos Rischbieter, presidente da Caixa Econômica Federal no começo do governo do ditador de plantão Ernesto Geisel, depois transferido para a presidência do Banco do Brasil e enfim ministro da Fazenda de outro plantonista, João Batista Figueiredo. Ficou por um ano, saiu contestando as políticas que a ditadura pretendia levar adiante.
Escreve Rischbieter em um dos capítulos:
"No começo de 1975 deu entrada na Caixa um pedido de financiamento do Grupo Abril. O pedido era de um financiamento que equivalia a 50 milhões de dólares, para consolidação de várias dívidas, em grande parte em moeda estrangeira. O pedido foi analisado pelo pessoal competente, recebeu parecer positivo e foi aprovado pela diretoria. Mas faltava a aprovação do Governo. E Armando Falcão, ministro da Justiça e guardião dos "valores revolucionários" vetou o financiamento com o argumento de que a Veja, carro-chefe das publicações do grupo, e que tinha como diretor Mino Carta, era sistematicamente antigoverno. Em seu livro autobiográfico, O Castelo de Âmbar, Mino conta com detalhes o episódio que culminou com sua saída do Grupo Abril. Eu tentei, no meio da discussão, convencer o general Golbery a assumir o controle da situação e convencer o presidente a vetar o veto do ministro da Justiça. Mas foi em vão. O empréstimo só foi aprovado quando Mino Carta deixou a Veja no começo de 1976".
In illo tempore colegas de profissão também silenciaram, com exceção do jornal do sindicato paulista. Em compensação, alguns insinuavam, quando não afirmavam, que eu prestava serviço ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, quem sabe em troca de vantagens financeiras. Tempos depois, em 1979, Figueiredo no poder, um célebre jornalista escreveu um texto na Folha de S.Paulo intitulado "De João a Mino, os donos do poder". João Figueiredo, está claro. Apresentava-se ali a seguinte tese: "Lá na outra ponta do bonapartismo, em versão microscópica e virulenta, está o jornalista Mino Carta, mini-representante do mandonismo local, que apoderou-se da abertura política concebida e instrumentada pelo general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e aparente protetor, para pontificar sobre o que é certo ou errado".
Vinte anos depois, em 1999, outro jornalista de larga nomeada escreveu um livro para recuperar o tempo perdido e disse que eu fui demitido da Veja. Nada disso, esta é a versão do patrão. Eu me demiti, para não ter de levar as moedas da Editora Abril, e não seriam trinta dinheiros. Mas, desde a eleição de Lula em 2002, há quem sustente, periódica e inexoravelmente, que CartaCapital está a serviço do governo.
O silêncio e a calúnia
Pergunto aos leitores: em qual país democrático e civilizado a saída de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da importância do iG seria ignorada pelo resto da mídia? Na imprensa, a notícia só mereceu uma lacônica nota na Folha de S.Paulo, no vídeo o registro pela TV Senado de um discurso do senador Inácio Arruda, do PCdoB do Ceará, a lamentar o episódio e solidarizar-se com Amorim.
E o episódio não somente é muito grave, mas também altamente representativo da prepotência dos senhores, acobertados pelos seus sabujos midiáticos. O espetáculo da tartufaria não é surpreendente. Não cabe espanto, sequer um leve assomo de perplexidade. Tudo normal, na Terra brasilis, tão distante, tadinha, da contemporaneidade do mundo. Porque não há país democrático e civilizado onde o abrupto afastamento de um profissional tão honrado e competente quanto Amorim não teria repercussão na mídia, imediata e profunda.
Não faltaria a busca das razões que levaram o iG a agir de forma tão violenta, ao tirar Conversa Afiada do ar sem aviso prévio, ao lacrar o computador do jornalista e enxotar o pessoal da equipe da sede do portal. Bastaria este comportamento para justificar a repulsa da categoria em peso e a investigação dos interesses envolvidos, necessariamente graúdos.
Pelo contrário, ouviu-se clangoroso silêncio, quase a insinuar que, se a mídia não o noticia, o fato não aconteceu. Que diria Hannah Arendt ao verificar que no Brasil há cada vez menos "homens dispostos a dizer o que acontece e que acontece porque é", de sorte a garantir "a sobrevivência humana"?
Pois o fato se deu, e não se exigem esforços mentais einsteinianos para entender que os donos do iG (Brasil Telecom, Fundos e Daniel Dantas) decidiram abandonar Amorim ao seu destino. Não é difícil também enxergar como pano de fundo o projeto de fundir Brasil Telecom com Oi, a ser executado com o apoio do BNDES, e portanto do governo federal, a configurar mais um clássico do capitalismo sem risco de marca tipicamente brasileira.
Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato tão chocante com a indignação midiática que, recentemente, submergiu a campanha de ações movidas em juízo por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o êxito empresarial da Iurd. Não está claro até o momento se o Altíssimo acudiu o bispo Macedo e seus prosélitos, mas é certo que, se o fez, ou o fizer, terá de enfrentar a ira da mídia nativa.
Foi um coro de manifestações a favor da liberdade de expressão ameaçada, um rosário de editoriais candentes, de colunas vitriólicas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associação dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A mídia verde-amarela não hesita em defendê-la, quando lhe convém. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, não lhe convém.
Recordo episódio similar que me diz respeito. A minha saída de Veja em fevereiro de 1976. Vai às livrarias na segunda 31, lançado em Curitiba, um livro de memórias de Karlos Rischbieter, presidente da Caixa Econômica Federal no começo do governo do ditador de plantão Ernesto Geisel, depois transferido para a presidência do Banco do Brasil e enfim ministro da Fazenda de outro plantonista, João Batista Figueiredo. Ficou por um ano, saiu contestando as políticas que a ditadura pretendia levar adiante.
Escreve Rischbieter em um dos capítulos:
"No começo de 1975 deu entrada na Caixa um pedido de financiamento do Grupo Abril. O pedido era de um financiamento que equivalia a 50 milhões de dólares, para consolidação de várias dívidas, em grande parte em moeda estrangeira. O pedido foi analisado pelo pessoal competente, recebeu parecer positivo e foi aprovado pela diretoria. Mas faltava a aprovação do Governo. E Armando Falcão, ministro da Justiça e guardião dos "valores revolucionários" vetou o financiamento com o argumento de que a Veja, carro-chefe das publicações do grupo, e que tinha como diretor Mino Carta, era sistematicamente antigoverno. Em seu livro autobiográfico, O Castelo de Âmbar, Mino conta com detalhes o episódio que culminou com sua saída do Grupo Abril. Eu tentei, no meio da discussão, convencer o general Golbery a assumir o controle da situação e convencer o presidente a vetar o veto do ministro da Justiça. Mas foi em vão. O empréstimo só foi aprovado quando Mino Carta deixou a Veja no começo de 1976".
In illo tempore colegas de profissão também silenciaram, com exceção do jornal do sindicato paulista. Em compensação, alguns insinuavam, quando não afirmavam, que eu prestava serviço ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, quem sabe em troca de vantagens financeiras. Tempos depois, em 1979, Figueiredo no poder, um célebre jornalista escreveu um texto na Folha de S.Paulo intitulado "De João a Mino, os donos do poder". João Figueiredo, está claro. Apresentava-se ali a seguinte tese: "Lá na outra ponta do bonapartismo, em versão microscópica e virulenta, está o jornalista Mino Carta, mini-representante do mandonismo local, que apoderou-se da abertura política concebida e instrumentada pelo general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e aparente protetor, para pontificar sobre o que é certo ou errado".
Vinte anos depois, em 1999, outro jornalista de larga nomeada escreveu um livro para recuperar o tempo perdido e disse que eu fui demitido da Veja. Nada disso, esta é a versão do patrão. Eu me demiti, para não ter de levar as moedas da Editora Abril, e não seriam trinta dinheiros. Mas, desde a eleição de Lula em 2002, há quem sustente, periódica e inexoravelmente, que CartaCapital está a serviço do governo.
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