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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Marchando como Margaridas


Por Sarah Luiza Moreira

Tive a oportunidade de participar da Marcha das Margaridas 2011,a maior ação de massa das trabalhadoras rurais, do campo e da floresta,que aconteceu em Brasília entre os dias 16 e 17 de agosto, com o lema “2011 razões para marchar por Desenvolvimento Sustentável com Justiça, Autonomia, Igualdade e Liberdade”.

Éramos cerca de 70.000 mulheres, vindas de todos os 27 estados do Brasil. Brancas, negras, jovens, idosas, rurais, mas também urbanas, índias, quilombolas. A diversidade de caras, formas, cores é, sem dúvida, uma das características mais interessantes desse movimento que se propõe a mobilizar, articular e propor políticas públicas não apenas para as agricultoras, mas para uma sociedade brasileira sem pobreza, sem fome, sem preconceito, sem violência.


A plataforma de reivindicações debatidas pelas mulheres e norteadora da pauta entregue ao governo federal teve como eixos: biodiversidade e democratização dos recursos naturais; terra, água e agroecologia; soberania e segurança alimentar e nutricional; autonomia econômica, trabalho, emprego e renda; saúde pública e direitos reprodutivos; educação não-sexista, sexualidade e violência; democracia, poder e participação política.

Foram dois dias intensos:na primeira manhã, oficinas e painéis onde esses eixos foram debatidos, assim como o lançamento da Campanha contra os Agrotóxicos, com a apresentação do Documentário “O veneno está na mesa”, de Silvio Tender. Na tarde do primeiro dia aconteceu a abertura oficial da Marcha das Margaridas 2011 com a presença de representantes da Contag – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - e dez organizações parceiras, com uma emocionante homenagem à Elizabeth Teixeira, 82 anos, líder camponesa que sofreu, com sua família (é viúva de João Pedro Teixeira, dirigente da Liga Camponesa de Sapé/PB) muitas ameaças e perseguições de latifundiários. Durante todo o encontro tivemos a diversa e representativa Mostra Nacional da Produção das Margaridas de todo o Brasil, além de exibições de filmes.

Mas o momento alto foi a marcha do Parque da Cidade até a Esplanada dos Ministérios, 6 quilômetros mostrando para o Brasil as reivindicações das mulheres, em toda sua diversidade e irreverência, com tantas cores, sons e muita alegria. Muitas se emocionaram ao ver tanta gente unida por uma mesma causa, marchando por igualdade, justiça e liberdade; ao ver tantas mulheres deixando suas famílias, suas casas, suas trabalhos por acreditar na importância de lutarmos por uma outra sociedade. Ao fim da marcha, em frente ao congresso, foi realizado um ato público, onde a Contag e as várias organizações parceiras falaram sobre as reivindicações que nos levaram até lá. O encerramento da Marcha das Margaridas 2011 teve a presença da presidenta Dilma, que entregou a Carmen Foro, secretária de mulheres da Contag, o caderno de resposta do governo federal à pauta entregue pela organização.

Depois do retorno e do descanso, sentimos a necessidade de avaliar os resultados dessa ação.

Com relação às políticas públicas conquistadas após negociações com o governo federal e apresentadas em um caderno de resposta entregue pela presidenta Dilma na cerimônia de encerramento da Marcha das margaridas considero alguns temas como a violência e a saúde das mulheres não receberam a atenção mereciam: as propostas foram poucas e pontuais como a implantação de 10 centros de referência da/o trabalhador/a; de 10 unidades móveis para atendimento a situações de violência; 16 unidades básicas de saúde fluviais.

As medidas anunciadas mais significativas estão relacionadas com a assistência técnica, crédito, comercialização: ampliação do limite de comercialização de cada agricultor/a com o PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar (de R$9,6 mil para R$20 mil); ampliação do Crédito Apoio Mulher de R$2,4mil para R$3 mil com desembolso não mais em duas, mas em apenas uma parcela; garantia de 30% dos recursos do PRONAF– Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar disponibilizados para as mulheres. Tivemos ainda a ampliação da titulação conjunta da terra também no Programa Nacional de Crédito Fundiário, que ainda era apenas no nome do homem.

Várias propostas de ações me pareceram vagas, mas é verdade que o caderno de pautas, mesmo com uma interessante reflexão política, também apresentou reivindicações pouco objetivas. Ainda assim, acho que o fato de este movimento ter aberto um canal de negociações com o governo foi importante, tanto para rever pontos onde a proposta apresentada não foram as esperadas quanto para acompanhar a construção de campanhas, diagnósticos ou grupos de trabalhos previstos.

De forma geral, considero que as medidas apresentadas pelo governo em resposta a essa ação ficaram aquém das expectativas frente ao tamanho do movimento e a quantidade de pessoas envolvidas, considerando que éramos cerca de 70 mil mulheres nas ruas, mas com uma quantidade muito maior de pessoas envolvidas e participantes na organização e na construção coletiva das pautas. Foi importante a abertura do governo ao diálogo, mas ele ainda precisa mostrar com ações mais substantivas e estruturantes o que os discursos prometeram, numa perspectiva de um modelo de desenvolvimento de fato sustentável.
Para além da questão das políticas públicas, a Marcha das Margaridas representou para mim uma ação onde as mulheres saem da sua cansativa rotina, de suas casas, das suas ainda consideradas obrigações para pensarem sobre suas vidas, sobre a vida das mulheres em suas comunidades, em suas cidades, em seu pais, e até mesmo no mundo, e concluírem que esse não é o mundo que elas querem.

Ouvi relatos de mulheres que me emocionaram ao contarem dolorosas histórias de suas vidas (algumas nunca antes contadas); mas que afirmaram que não seriam as mesmas depois da Marcha, pois de alguma forma se libertaram de maridos violentos, de medos, de vergonhas, de imposições.

Todas nós saímos de lá como margaridas. E o que significa se sentir como uma Margarida? Significa se colocar na pele das mulheres rurais, desejar que não apenas elas, mas todas tenhamos uma realidade de fato justa, onde não sejamos violentadas e oprimidas por conta do nosso sexo. Significa não aceitar mais injustiças e desigualdades e lutar em cada recanto de onde viemos e para onde voltamos por igualdade, liberdade, autonomia, conceitos amplos, mas claramente ausentes em nossos cotidianos. É, independente de camisa e de bandeira, ser feministas.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O grito das margaridas

Por Paula Thomaz

Elas não usam computadores, iPads, nem trabalham em escritórios de grandes corporações. São mulheres que têm como principal ferramenta de trabalho enxada, bacias, linhas de pesca e vivem da terra e da floresta. Politicamente organizadas, gritam por seus direitos. E se reúnem em Brasília, desde terça-feira 16, para a Marcha das Margaridas. Na 4ª edição do movimento, organizado de boca em boca – entre associações e em visitas em comunidades – a manifestação leva ao Congresso Nacional uma pauta de reivindicações em busca de visibilidade, reconhecimento social e político e de cidadania plena.

O movimento, de acordo com a coordenadora da Marcha, Carmen Foro, traduz o conjunto de desigualdades que a sociedade vive, que acontece com as mulheres de maneira geral, mas com um recorte no campo que mostra uma situação de forma mais agravada. “No campo, por conta do estado brasileiro ter ficado ausente por muito tempo, as mulheres vivem em condição de maior pobreza e de maior falta de acesso às políticas básicas de suas vidas. Seja ela de saúde ou de educação”.


Coordenada pelo Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais composto pela Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) e por 27 Federações (Fetag’s) e mais de 4000 sindicatos, a Marcha das Margaridas se consolidou na luta contra a fome, a pobreza e a violência sexista. Sua agenda política de 2011 tem como lema desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade. São agricultoras familiares, assentadas, quebradeiras de coco, pescadoras, quilombolas, mulheres do campo, das águas e das florestas que formam um mosaico de grande identidade política entre as trabalhadoras rurais.

“Nós temos um preconceito muito grande de pensar que, porque são trabalhadoras rurais, não têm poder de mobilização e consciência política. A consciência vem da prática cotidiana, das dificuldades. E elas acabam entrando para uma discussão extremamente complexa, porque no cotidiano, ela necessita que se defenda uma vida mais saudável, uma produção sem agrotóxico, um agroextrativismo mais consciente da questão da floresta viva. Isso é uma questão de sobrevivência e de sobrevivência vira uma pauta de discussão política. A gente acaba discutindo isso mais no âmbito das universidades ou da mídia, mas elas sentem isso na pele”, diz a socióloga e historiadora especialista em gênero Rosana Schwartz.

A coordenadora da Marcha faz coro dessa afirmação, concluindo que é a partir da realidade que as trabalhadoras rurais fazem uma proposição concreta para a saúde, por exemplo. “À luz dessa realidade nós somos capazes de fazer uma articulação nacional e fazer uma mobilização que tenha uma expressão política. Depois de mais de 500 anos de história do Brasil, nós mulheres e homens elegemos a primeira mulher presidenta da República. Esse é um momento de maior força que nós podemos ter para que questões que parecem naturalizadas, saltem para a prática e para a agenda política do governo de uma mulher. Na verdade esse é o sentido de pressão que nós queremos fazer com a marcha das margaridas”.

Antes de chegar a Brasília, as delegações de mulheres rurais que participam da Marcha das Margaridas se encontraram no meio do caminho, realizando atos políticos nas regiões do Nordeste, Norte-Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, coordenados pelas federações de trabalhadores e trabalhadoras rurais de todo o país.
“Cruzamos estradas, rios e céus do Brasil em marcha para transformar nossas vidas e de outras tantas mulheres”, fala Carmen.
As mobilizações que partiram de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Roraima dão visibilidade à luta da mulheres nessas regiões ao denunciar as diversas formas de exclusão e violência.

As Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura dos Estados da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Alagoas, Piauí e Sergipe realizaram na tarde de segunda-feira, na cidade de Barreiras, a 853 km de Salvador, um ato político com a presença estimada de 10 mil mulheres.
As representações de nove estados nordestinos vão denunciar a agressão e a invasão do agronegócio nas cidades da região, destacando que em Barreiras é onde se dá uma grande concentração do agronegócio, com ocupação de terras para o plantio de soja.

Além disso, as mulheres denunciam também a violência da qual são vítimas, referindo-se aos conflitos nas áreas quilombolas e aos frequentes assassinatos de lideranças sindicais em seus respectivos Estados.

Por que Margaridas?

A maior mobilização de mulheres trabalhadoras rurais do campo e da floresta do Brasil tem esse nome como uma forma de homenagear a trabalhadora rural e líder sindical Margarida Maria Alves.

Ela é um grande símbolo da luta das mulheres por terra, trabalho, igualdade, justiça e dignidade. Rompeu com padrões tradicionais de gênero ao ocupar por 12 anos a presidência do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, estado da Paraíba. À frente do sindicato fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural. A sua trajetória sindical foi marcada pela luta contra a exploração, pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, contra o analfabetismo e pela reforma agrária. Margarida Alves foi brutalmente assassinada pelos usineiros da Paraíba em 12 de agosto de 1983.