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segunda-feira, 29 de maio de 2017

A CASA DA ESCADARIA


POR VÓLIA BARREIRA


A casa da escadaria

A bela escadaria da casa da minha infância
tinha degraus que eu subia em alegre algaravia.

Construída no centro de um terreno elevado
seus sete degraus davam acesso à varanda
encimada pelo amarelo do pé de acácia.

Com os olhos da recordação
vejo-me a subir correndo as escadas, contando os degraus,
como fazia em criança
enquanto nos ouvidos, ainda ressoam os passos do meu pai
escada abaixo,
a caminho de uma imensurável prisão
na madrugada que se eternizou na memória.

Num canto da escada, às escondidas, sinto o coração aos pulos
com a descoberta inusitada do desejo
e das profundas infelicidades dos amores imaturos.

Com os pés pesados feito chumbo
desci os degraus na vez primeira
quando  tive a consciência da nossa finitude
e o fiz, na derradeira,
carregada de  tristeza,
no dia em que a casa se transformou em sentimento .

Em suas paredes ficaram grudadas as minhas memórias
que reconstituem cada vão,
cada mosaico, cada planta do jardim...

Apurando os ouvidos,
ouço os sons de um tempo,
que ainda repercute. 


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Poema premiado no 

1º Concurso Literário da Livraria Escritores do Ceará - Prêmio Milton Dias - Crônica e Poesia - 2017

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A Flor e a Náusea



A Flor e a Náusea
Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Millôr

Trecho de um poema de Millôr, de 1960:

"Ah! ser chato é muito diferente
De suportar um chato
Suportar é quase doloroso
Mas sê-lo
É delicioso!
E o que é melhor, amigo!
Todos os chatos
Evitam tratar comigo."

Gênio, e nem imaginava que um dia ia aparecer o Facebook e os "eu vou bloquear" "bloqueie foi muito"....

Abaixo o bloqueio americano a Cuba.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Objecto - Ary dos santos


 Objecto ( Ary dos santos)

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

"O acto sexual é para ter filhos - diz ele"

Por Natália Correia


"O acto sexual é para ter filhos - diz ele"

Já que o coito — diz Morgado —
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou — parca ração! —

uma vez. E se a função
faz o órgão — diz o ditado —
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

Natália Correia em resposta a João Morgado, deputado da bancada parlamentar do CDS (Portugal), no debate sobre a legalização do aborto, no dia 3 de Abril de 1982.





A defesa do poeta

Por Natália Correia

A defesa do poeta 

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

  • Natália Correia, poetisa, romancista, ensaísta, dramaturga, ficcionista, jornalista, editora, tradutora e política (foi deputada à Assembleia da República), nasceu na Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel, arquipélago dos Açores, em 1923 e morreu em Lisboa em 1993. 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

MEMÓRIA


Memória 
Carlos Drummond  de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Porque hoje é sexta


Ave alegria

Sylvia Orthof

Ave alegria,
Cheia de graça,
 o amor é contigo,
bendita é a risada
e a gargalhada!

Salve a justiça 
e a liberdade!

Salve a verdade, 
a delicadeza
e o pão sobre a mesa!
Abaixo a tristeza!
Ave alegria!

domingo, 8 de julho de 2012

A pausa que refresca

Por Marcus Vinicius

Nestes tempos bicudos e iniciantes é sempre bom reler Machado de Assis. 


Soneto de Natal
Machado de  Assis 

Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

segunda-feira, 18 de junho de 2012

A poesia de José Paulo Paes (19)

Por José Paulo Paes


Pescaria


Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então uma ideia
de usar as minhocas
numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens. 
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A poesia de José Paulo Paes (18)

Por José Paulo Paes

Atenção, detetive


Se você for detetive.
descubra pra mim
que ladrão roubou o cofre
do banco do jardim
e que padre disse amém
para o amendoim.


Se você for detetive,
faça um bom trabalho:
me encontre o dentista
que arrancou o dente de alho
e a vassoura sabida
que deixou a louca varrida.


Se você for detetive, 
um último lembrete:
onde foi que esconderam
as mangas do colete
e quem matou os piolhos
da cabeça do alfinete?


quarta-feira, 25 de abril de 2012

A poesia de José Paulo Paes (16)

Letra Mágica


Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o f por g !


Mas se trocar, no rato,
o r por g
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A poesia de José Paulo Paes (15)



Convite


Poesia
ilustração de Luiz Maia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião


Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar 
se gastam.


As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.


Como a água do rio
que é água sempre nova


Como cada dia
que é sempre um novo dia.


Vamos  brincar de Poesia?




de Poemas para Brincar de José Paulo Paes - Editora Ática - 3ª edição - 1991

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Fortaleza 286 anos (3) por Paula Nei



FORTALEZA [Paula Nei]
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loura desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada,
Na brancura de místicos altares.

Lá, canta em cada ramo um passarinho
Há pipilos de amor em cada ninho
Na solidão dos vastos matagais.

É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado, esplêndido poema
De alegria e beleza universais.


FRANCISCO DE PAULA NEI

Francisco de Paula Ney (Aracati, 2 de fevereiro de 1858 — Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1897) foi um poeta, jornalista que marcou o boêmio Rio de Janeiro dabelle époque. Era amigo de Aluízio Azevedo e Olavo Bilac.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Concentra mas não sai - em poema

Por Rogaciano Oliveira

O Concentra, mas não sai
Com garra e simplicidade
Resgata o carnaval
Histórico de qualidade
Uma festa popular
Que tem legitimidade.

O carnaval é uma festa
Que alegra e que agita;
Pessoas de toda idade
Fazem uma festa bonita
Um momento inesquecível
Pra quem gosta e acredita.


Todo ano o Concentra 
Faz o melhor  pré-carnaval
Concentra, mas não sai     
É um bloco original

Resgata frevo e marchinha
Ritmo tradicional.

O carnaval do Concentra
Arrebata multidões
O Bloco cresceu e foi
Pro mercado dos peões
E este ano na praça
Concentra mais foliões.


Pois como a praça é do povo
Lá na Praça do Ferreira
O Concentra, mas não sai
Chega sem dizer besteira
O carnaval popular
Que tem eira e que tem beira.


As pessoas se concentram
Bebendo com alegria
Brincam, dançam, se divertem
Com graça e com maestria
Mas, ninguém sai para a rua
E nem perde a harmonia.


Este Bloco tem história
O sucesso é conhecido
Em todo pré-carnaval
O Concentra é mais querido
Quem quiser se divertir
Tem espaço garantido.


A FUNCET dá apoio
Porque sabe que é viável
Uma festa popular,
Um desfile responsável
Com Bloco e maracatu
Fazendo para eu e tu
Um carnaval sustentável.


Rogaciano Oliveira
Fortaleza-CE, fevereiro de 2006

Rogaciano Oliveira é poeta popular, cordelista, e técnico do Esplar - Centro de Pesquisa e Assessoria