Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O espetáculo e o mito

indicação de Vólia Barreira




Raquel Rolnik é urbanista, autora de relatório da ONU sobre violações aos direitos humanos durante preparativos para as Copas do Mundo e as Olimpíadas.
Na história dos megaeventos esportivos, o propalado legado urbanístico e socioeconômico configura a exceção, não a regra. Muito mais frequentes são os casos em que as populações desassistidas se transformam em vítimas de um processo atropelado de remoção e as contas das cidades mergulham no vermelho.
A urbanista Raquel Rolnik, professora da FAU-USP e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, teve a oportunidade de conhecer in loco os impactos das Olimpíadas e das Copas do Mundo em diversos países. Em março de 2010, apresentou à ONU um relatório com denúncias de violações de direitos humanos e, a partir de então, transformou-se em uma espécie de porta-voz das comunidades atingidas por essas obras no Brasil.
“Os funcionários das prefeituras chegam e pintam as casas com um número, assim como os nazistas faziam na Segunda Guerra Mundial. Você sabe que a sua casa é um alvo, mas não sabe nem quando nem o quê vai acontecer com você”, denuncia a professora. Nesta entrevista, ela explica a origem do mito da bonança associada aos megaeventos e revela os fatores decisivos dos poucos casos em que o legado é inequívoco: transparência e participação.
Há evidências empíricas de que sediar grandes eventos esportivos traz desenvolvimento econômico e social?
Traz ganhos. A discussão é: ganhos para quê? E ganhos para quem? Porque, sim, mobiliza uma enorme quantidade de dinheiro e de investimentos. Não há a menor dúvida de que esses grandes eventos transformaram-se, sobretudo a partir do final dos anos 1980, numa espécie de constituição de branding: uma marca que é vendida associada à marca de uma cidade e de um país. Portanto, todas aquelas empresas que se associam a essa marca também são automaticamente promovidas no mercado internacional. E é uma estratégia bem-sucedida, porque o evento é visto por bilhões de pessoas, uma oportunidade única para se comunicar com essa audiência ou com esse público consumidor. É disso que se trata: de corporações e grandes negócios, um grande evento de marketing e de marcas associadas a ele.
Claro que, dependendo da cidade, do contexto e do país, eventualmente esses momentos são utilizados também para realizar projetos que beneficiam não só as pessoas que vão usufruir do evento naquele momento, mas também outras pessoas a longo prazo. Basicamente, Barcelona ficou notabilizada por utilizar os Jogos Olímpicos para implementar um projeto de renovação urbanística e se recolocar no cenário internacional de cidades em um momento em que a gente vivia um processo muito radical de reestruturação produtiva com a globalização. Barcelona era uma cidade industrial e portuária e estava perdendo completamente o seu lugar, porque esse lugar da indústria não estava mais se sustentando economicamente. Ao mesmo tempo, a gente também vive nesse momento a grande era dos reajustes estruturais, da retirada do governo central e dos grandes investimentos públicos. As cidades começam a entrar num jogo de autopromoção no cenário internacional para atrair investimentos externos e promover uma reengenharia da sua base econômica.
Quando se discute o legado desses eventos, sempre se menciona Barcelona-92. Há algo que se compare na história dos Jogos Olímpicos e das Copas do Mundo?
Barcelona estabeleceu uma espécie de paradigma de que os Jogos sempre se associam a um legado de transformação urbanística. Mas os projetos de intervenção urbanística não são neutros. Tem beneficiários e tem prejudicados. É importante distinguir as duas coisas.
Quando se conta a história de Barcelona, separa-se a experiência específica dos Jogos Olímpicos da história imediatamente anterior. Para entender Barcelona, é preciso entender que mais de uma década antes (dos Jogos) a cidade ganhou um governo autônomo socialista, num movimento que era importantíssimo para a Catalunha, de afastamento do controle autoritário e centralizado do franquismo. Trata-se de uma luta democrática e popular que durante pelo menos uma década fez um investimento radical na melhoria das condições de vida dos trabalhadores e de suas periferias, investiu na melhoria das condições urbanísticas desses bairros populares, investiu na moradia, aumentou tremendamente o grau de participação popular na gestão da cidade. Então, quando Barcelona desenha o seu projeto olímpico, isso não veio do nada. Não se abriu o céu e caíram as Olimpíadas, como está acontecendo no Brasil. Mesmo assim, houve resistência, houve questionamento, houve luta, houve transformação da pauta de intervenção como consequência dessas lutas e desses questionamentos. Só que ninguém conta essa parte da história. Essa parte da história sumiu.
Então o grande paradigma de legado associado às Olimpíadas só aconteceu porque já existia uma trajetória independente do evento?
Evidentemente. Você pode ver o caso de Londres agora (sede das Olimpíadas de 2012). O projeto de Londres também tem uma história muito mais longa de integração, de intervenção no East End, historicamente a região com condições urbanísticas mais precárias. Além da construção de um grande parque público, a maioria dos equipamentos olímpicos será desmontada e, no seu lugar, vai ter habitação, comércio e serviços, com uma cota de 35% para habitação social subsidiada. E também no caso de Londres houve questionamento, também teve debate público e também o projeto foi transformado em razão disso.
Eu diria que onde já existe um processo público de debate e de intervenção territorial sobre a cidade, as Olimpíadas aparecem como uma oportunidade a mais dentro de um caminho para implantar esse plano. Onde não tem nada, cai do céu um projeto que não tem absolutamente nada a ver. O caso do Brasil é emblemático. As cidades brasileiras passaram, depois da aprovação do Estatuto das Cidades, no ano 2000, a elaborar projeto de plano diretor, de planejamento participativo, pensando no futuro dessas cidades. Esses planos e projetos estão todos na gaveta ou foram rasgados.
O grande projeto olímpico do Rio de Janeiro foi elaborado conjuntamente e quase que diretamente por incorporadores privados que vão lançar um enorme investimento imobiliário na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá, região na qual a intervenção urbanística pelo setor privado já estava acontecendo. Não mudou nada. Ao contrário, reforça a centralidade da Zona Oeste, uma centralidade de classe média, para poucos. É a extensão da Zona Sul. Não é o Rio de Janeiro que mais precisa de uma intervenção urbanística, como os bairros centrais. Tem tudo a ver com processos de valorização privada e muito pouco com o interesse público e uma revisão de tendências, de modo que os elementos perversos que existem no nosso urbanismo precário pudessem ser revertidos.
O legado inequívoco é a exceção dentro do histórico de grandes eventos esportivos?
Exatamente. Tem que entender isso no âmbito do que aconteceu no mercado de terras e no mercado imobiliário, com a globalização. O mercado imobiliário internacional passou a ser uma parte fundamental do circuito financeiro. A gente viveu uma “financeirização” do processo de produção de moradia e de cidades. Isso significa – e isso a gente viu com a crise americana – que os ativos imobiliários, mais do que representarem um valor de uso para as cidades, são um ativo financeiro passivo de especulação. Veja o que é Dubai. São operações de abertura de frentes para atração desses capitais financeiros. O megaevento nada mais é que um estande de vendas, fantástico e imediato, ainda por cima associado ao espírito do esporte, da solidariedade entre os povos, do nacionalismo segundo o qual o país vai mostrar ao mundo do que é capaz. Associado a todos esses elementos, é muito mais poderoso.
De onde vem esse mito da bonança socioeconômica associada à Copa do Mundo ou às Olimpíadas?
Se a gente olhar para a história dos grandes Jogos, eles tiveram lá as suas fases. Eles começam a ter muita importância, do ponto de vista cultural e geopolítico, no pós-guerra, quando se tratava de um espaço de conciliação entre as nações. Logo em seguida, no período da Guerra Fria, era muito importante para ver quem ia ganhar. Se eram os Estados Unidos, portanto a visão do livre mercado capitalista, ou se era o bloco soviético, e, posteriormente, a China. Era um encontro de forças, um cenário de reafirmação da Guerra Fria.
As Olimpíadas começam a ser associadas a uma intervenção na cidade nos Jogos de Los Angeles, em 1984, quando se mobiliza pela primeira vez o capital corporativo para fazer investimentos na cidade de forma mais permanente. E, desde então, toma conta. É um espaço basicamente das corporações, mediado pelos comitês olímpicos e comitês organizadores da Copa do Mundo, portanto também dos governos.
E aí, crescentemente, surgem as operações com base no tal do legado e na transformação urbanística. Mas isso, como falei, coincide com dois fenômenos: a diminuição do papel dos Estados para atendimento de demandas urbanísticas e, consequentememte, a entrada do capital privado na gestão; e as cidades competindo na arena internacional globalizada para ver quem capta investimentos de um excedente financeiro que fica pairando sobre o planeta procurando onde se alocar. Os Jogos Olímpicos e as Copas do Mundo abrem um espaço para que esse investimento aconteça, especialmente pelo que carregam também de elementos simbólicos, com a vantagem de ser um ambiente de consenso. Todo mundo gosta, todo mundo acha legal.
É por isso que existe essa expectativa de um legado transformador, quando, na verdade, o saldo convincente para os interesses difusos é raríssimo?
É um espetáculo que mobiliza corações. A mobilização é real. Você não só assiste. Você torce, você sofre, você chora. O evento trabalha com esses sentimentos e por isso é tão consensual. Tudo que se associa ao evento é contaminado por esse mesmo espírito.
Por outro lado, quando você tem uma intervenção física, as pessoas enxergam que alguma coisa foi feita. Em muitos casos, há melhorias. Se você fizer o balanço de ganhos e perdas, a maior parte da população não ganha tanto e muito poucos ganham muito, mas há transformações reais. Na África do Sul, mesmo com todas as limitações, a ligação de corredor exclusivo de ônibus para Soweto muda completamente a vida de quem vive em Soweto. Não é imaginário.
Mas tem efeitos perversos que não são lembrados, que não são tocados. Falando como relatora da ONU para o direito à moradia adequada, e em geral para os direitos humanos: o foco principal dos direitos humanos são os mais vulneráveis. Esses deveriam ser os prioritários e, em geral, são os prejudicados. São os que acabam carreando os efeitos perversos.
Sobre o envolvimento da sociedade civil, mencionado pela senhora como fator preponderante para o sucesso de Barcelona: nós aqui no Brasil ainda temos tempo de fazer isso, considerando o horizonte de 2014?
Já começa por quem formulou o projeto olímpico. Quem participou dele? E do projeto das cidades para a Copa? Esses projetos são definidos a portas fechadas entre os agentes políticos e as corporações envolvidas com a produção do evento. Ponto. Tudo o que nós construímos no Brasil de participação popular, de conselhos, de planejamento participativo, está sendo completamente deixado de lado no momento de definição das obras para a Copa e para as Olimpíadas.
A senhora vê diferença na forma de condução desses processos entre países centrais e os menos desenvolvidos?
Uma coisa é você fazer uma grande operação de renovação urbanística quando um grau básico de urbanidade já foi conquistado, como era o caso de Barcelona, ou como é o caso de Londres. Drante 50 anos, Londres fez uma política muito forte de investimento em habitação social, com 30% de todos os empreendimentos obrigatoriamente produzindo habitação popular, e por isso conseguiu praticamente zerar as condições precárias de moradia.
Outra coisa é a situação do Brasil, ou de Nova Délhi, na Índia, onde aconteceram os Commonwealth Games. Parece-me que, no nosso caso, esse tal legado deveria ser totalmente dirigido para constituir esse grau básico de urbanidade ou pelo menos ir na sua direção. Mas não. O que a gente viu é que as pessoas que moravam em condições precárias foram simplesmente expulsas, suas casas destruídas e nenhuma alternativa apresentada. E nós estamos repetindo aqui no Rio de Janeiro, neste momento, a mesma coisa. Em outras cidades brasileiras também. É assim: “Aqui vai ter um estádio? Ah, beleza, vamos saindo, vamos tirando tudo fora”, sem respeitar os direitos dessas pessoas e sem equacionar devidamente as alternativas.
Segundo o seu relatório, os impactos quanto a moradia se repetem, sobretudo nos países menos desenvolvidos, em razão da urbanização precária?
Exatamente. Os impactos se repetem e são mais graves. Mas isso aconteceu em Atenas também.
Essa nova tendência de sediar a Copa do Mundo em países periféricos diz alguma coisa sobre a FIFA (Federação Internacional de Futebol)?
A Fifa vai aonde está o dinheiro. Eu pude testemunhar isso ao preparar um relatório sobre os megaeventos e o direito à moradia e apresentá-lo à ONU. Eu me dirigi, como relatora, ao Comitê Olímpico Internacional e à Fifa para poder discutir com eles, ver como é que eles tratavam essa questão. Eram denúncias que eu recebia sistematicamente de expulsões forçadas em massa, tanto em Pequim como em Nova Délhi, como em vários lugares da África do Sul. E com o COI eu consegui estabelecer uma conversa, entender como é o processo, começar uma interlocução. A Fifa nem sequer me respondeu.
Em países periféricos não seria mais fácil empurrar certa exigências?
Não sei. Eu não fiz uma análise sobre como se deu a relação da Fifa, por exemplo, com o governo da Alemanha para a Copa de 2006. O que eu vi e que achei absolutamente escandaloso foi que a Fifa estabeleceu protocolos com os governo locais da África do Sul. Exigências do tipo: não se podia vender outra marca de cerveja, não apenas dentro dos estádios, mas num raio de quilômetros no entorno dos estádios. Foi estabelecida uma política específica com julgamento sumário no momento em que a pessoa pudesse cometer algum tipo de delito. De tal maneira que a gente pode chamar de estados de exceção e territórios de exceção. Eu não sei se essa é uma tendência no tempo, que foi piorando, ou se é porque se trata dos países emergentes. Mas, de fato, o estado de exceção tem-se ampliado. E, eu não preciso dizer, as denúncias de corrupção em relação à Fifa são notórias.
Em termos de transparência, como a senhora avalia a remoção e o reassentamento de pessoas no Brasil para a Copa e para as Olimpíadas?
É completamente obscuro. Você não consegue encontrar em nenhum lugar, dentro dos projetos formulados pelas cidades, quantas pessoas serão removidas, qual é o valor que está previsto, o que foi apresentado para elas, para onde elas vão. Quando vai haver uma remoção, a comunidade tem de conhecer o projeto, tem o direito de discutir o projeto, tem o direito de apresentar uma alternativa, de estabelecer uma negociação. Tem o direito de ter um organismo independente para a própria comunidade poder acompanhar esse processo, com assistência técnica e jurídica, por exemplo, da universidade.
A senhora está falando da lei brasileira ou internacional?
Eu estou falando dos tratados internacionais sobre o direito à moradia dos quais o Brasil é signatário e que, portanto, são plenamente aplicáveis aqui. Eu tive a oportunidade de visitar comunidades que serão objeto de remoção. As pessoas não sabem de nada, não sabem por que, não sabem quando. Os funcionários da prefeitura chegam e pintam as casas com um número, assim como os nazistas faziam na Segunda Guerra Mundial. Então você sabe que a sua casa é um alvo, mas não sabe nem quando nem o que vai acontecer com você, nem que espaço você tem para conversar. Isso está acontecendo no Morro da Providência (Rio de Janeiro), em Fortaleza, e em outras cidades, sem nenhuma transparência, numa violação clara do que dizem os tratados internacionais sobre a matéria.
Ricardo Teixeira costuma dizer que a CBF (Confederação Brasileira do Futebol) é uma entidade privada, a Copa é um evento privado, aparentemente dando a entender que ninguém tem nada a ver com isso. Como a senhora analisa esse argumento?
A CBF pode ser uma entidade privada, mas nossas cidades são públicas, pelo menos até onde eu entendo o conceito de cidade. A gente não pode simplesmente deixar que as nossas cidades, com o beneplácito e a participação dos nossos governantes, sejam transformadas por pautas definidas por uma entidade privada.
Nos estados e cidades que não costumam receber tanto investimento do governo federal, o gasto com estádios se justifica, eventualmente, pelas transformações urbanísticas associadas?
Essa é outra dimensão: o gasto público. O governo federal não está colocando recursos na construção de estádios, mas governos estaduais estão. Está-se usando subterfúgios e alguns jeitinhos para entrar dinheiro público. É o caso do Atlético Paranaense, cujo estádio vai ser ampliado e reformado com a venda de recursos de potencial construtivo. O potencial construtivo é definido no âmbito do planejamento da cidade, portanto é de propriedade pública. Tem também o próprio investimento e financiamento do BNDES com juros mais leves que os do mercado, o que configura também financiamento público.
A segunda questão é o gasto total. Vale a pena? A gente tem casos de cidades que se endividaram. Olha o que está acontecendo na Grécia. Uma parte tem a ver com o custo das Olimpíadas de Atenas e que não foi pago. Agora está-se discutindo isso na África do Sul. O balanço é vermelho. Eu vi um estudo que fez o mesmo cálculo no caso dos Commonwealth Games, na Índia. E num país que tem uma demanda de investimentos tão importante como o nosso, vale a pena gastar nesse tipo de coisa? Acho que a pergunta é totalmente procedente.
Na sua opinião, o que feriria mais o orgulho dos brasileiros? Um novo Maracanazo ou problemas de organização que pudessem prejudicar a imagem do país?
Tem uma dimensão no campo geopolítico internacional que é uma tensão entre os países emergentes e menos desenvolvidos e Europa e América do Norte. É uma tensão mais ou menos assim: “Ah, esses paisinhos emergentes não sabem organizar nada, são todos corruptos”.
Tem uma pauta muito importante que é a afirmação dos países de que podem, sim, organizar grandes eventos. Isso foi extremamente importante para a África do Sul e é extremamente importante para o Brasil no cenário internacional, porque esses países estão tentando se colocar como contrapeso político numa História de hegemonia do mundo. Não é só de nacionalismo bobo, é também uma tensão real entre países. Quem manda no planeta? Acho que o Brasil está-se colocando numa posição de liderança dos excluídos. Esse componente é também muito importante. Para o cidadão brasileiro, evidentemente, as emoções de ganhar ou perder um jogo são terríveis.Pelo amor de Deus, só falta a gente perder essa final no Maracanã, vai ser muito deprimente. Mas do ponto de vista da geopolítica internacional, o impacto de organizar mal ou bem vai ser mais importante. A questão central é: para quem?
Eu gostaria que a senhora respondesse à sua pergunta. No Brasil, a quem vai beneficiar? Qual a sua expectativa?
Eu tenho grandes dúvidas. Pelo andar da carruagem, esta é uma operação que beneficia algumas grandes corporações e empresas, que vão conseguir vender produtos e serviços, algumas nacionais, outras multinacionais. E vai encher os cofres da Fifa e da CBF e dos seus dirigentes.
Vai ter alguma coisa pontual, algum corredor de ônibus que vai beneficiar a população que não tinha um ônibus bom, alguma reforma de espaço público em que uma parte da população vai encontrar um lugar agradável em cidades que são geralmente desagradáveis, algumas operações sobre assentamentos informais. Mas o centro da agenda, a balança dos ganhos e perdas é que é a questão.
http://pagina22.com.br/index.php/2011/08/o-espetaculo-do-mito/

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


Comida, Bebida e Música em Fortaleza, segundo o Diumtudo (6)

O  Diumtudo fez uma enquete com amigos(as) que gostam de bebida, comida e música. Foram quatro as categorias: 1. Bar, Botequim, 2. Local de boa comida, 3. Local para beber, comer nas altas horas e 4. Local com boa música.
Os indicados nas quatro categorias foram apresentados em postagens anteriores. Os mais indicados serão apresentados nas próximas postagens. 




Algumas observações sobre a enquete:

  • Na categoria altas horas tivemos o menor número de bares indicados e 5 (cinco) amigos(as) não indicaram nenhum bar.
  • Tivemos os seguintes bares indicados em duas categorias: Bar do Arlindo, Bar do Ciço, Boteco, Dona Chica, Alpendre, Flórida, Bar do Vinil, Sabor e Tom, Buoni Amici's e Zug Choperia. 
  • Indicados em três categorias: O Bar do Chaguinha e o Marcão das Ostras.
  • Dentre os(as) amigas(os) que participaram da enquete foram:
      1. Mulheres 12 e homens (20),
      2. Com mais estrada de boemia 14 pessoas, com menos estrada (pero no mucho) 18 pessoas.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O grito das margaridas

Por Paula Thomaz

Elas não usam computadores, iPads, nem trabalham em escritórios de grandes corporações. São mulheres que têm como principal ferramenta de trabalho enxada, bacias, linhas de pesca e vivem da terra e da floresta. Politicamente organizadas, gritam por seus direitos. E se reúnem em Brasília, desde terça-feira 16, para a Marcha das Margaridas. Na 4ª edição do movimento, organizado de boca em boca – entre associações e em visitas em comunidades – a manifestação leva ao Congresso Nacional uma pauta de reivindicações em busca de visibilidade, reconhecimento social e político e de cidadania plena.

O movimento, de acordo com a coordenadora da Marcha, Carmen Foro, traduz o conjunto de desigualdades que a sociedade vive, que acontece com as mulheres de maneira geral, mas com um recorte no campo que mostra uma situação de forma mais agravada. “No campo, por conta do estado brasileiro ter ficado ausente por muito tempo, as mulheres vivem em condição de maior pobreza e de maior falta de acesso às políticas básicas de suas vidas. Seja ela de saúde ou de educação”.


Coordenada pelo Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais composto pela Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) e por 27 Federações (Fetag’s) e mais de 4000 sindicatos, a Marcha das Margaridas se consolidou na luta contra a fome, a pobreza e a violência sexista. Sua agenda política de 2011 tem como lema desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade. São agricultoras familiares, assentadas, quebradeiras de coco, pescadoras, quilombolas, mulheres do campo, das águas e das florestas que formam um mosaico de grande identidade política entre as trabalhadoras rurais.

“Nós temos um preconceito muito grande de pensar que, porque são trabalhadoras rurais, não têm poder de mobilização e consciência política. A consciência vem da prática cotidiana, das dificuldades. E elas acabam entrando para uma discussão extremamente complexa, porque no cotidiano, ela necessita que se defenda uma vida mais saudável, uma produção sem agrotóxico, um agroextrativismo mais consciente da questão da floresta viva. Isso é uma questão de sobrevivência e de sobrevivência vira uma pauta de discussão política. A gente acaba discutindo isso mais no âmbito das universidades ou da mídia, mas elas sentem isso na pele”, diz a socióloga e historiadora especialista em gênero Rosana Schwartz.

A coordenadora da Marcha faz coro dessa afirmação, concluindo que é a partir da realidade que as trabalhadoras rurais fazem uma proposição concreta para a saúde, por exemplo. “À luz dessa realidade nós somos capazes de fazer uma articulação nacional e fazer uma mobilização que tenha uma expressão política. Depois de mais de 500 anos de história do Brasil, nós mulheres e homens elegemos a primeira mulher presidenta da República. Esse é um momento de maior força que nós podemos ter para que questões que parecem naturalizadas, saltem para a prática e para a agenda política do governo de uma mulher. Na verdade esse é o sentido de pressão que nós queremos fazer com a marcha das margaridas”.

Antes de chegar a Brasília, as delegações de mulheres rurais que participam da Marcha das Margaridas se encontraram no meio do caminho, realizando atos políticos nas regiões do Nordeste, Norte-Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, coordenados pelas federações de trabalhadores e trabalhadoras rurais de todo o país.
“Cruzamos estradas, rios e céus do Brasil em marcha para transformar nossas vidas e de outras tantas mulheres”, fala Carmen.
As mobilizações que partiram de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Roraima dão visibilidade à luta da mulheres nessas regiões ao denunciar as diversas formas de exclusão e violência.

As Federações de Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura dos Estados da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Alagoas, Piauí e Sergipe realizaram na tarde de segunda-feira, na cidade de Barreiras, a 853 km de Salvador, um ato político com a presença estimada de 10 mil mulheres.
As representações de nove estados nordestinos vão denunciar a agressão e a invasão do agronegócio nas cidades da região, destacando que em Barreiras é onde se dá uma grande concentração do agronegócio, com ocupação de terras para o plantio de soja.

Além disso, as mulheres denunciam também a violência da qual são vítimas, referindo-se aos conflitos nas áreas quilombolas e aos frequentes assassinatos de lideranças sindicais em seus respectivos Estados.

Por que Margaridas?

A maior mobilização de mulheres trabalhadoras rurais do campo e da floresta do Brasil tem esse nome como uma forma de homenagear a trabalhadora rural e líder sindical Margarida Maria Alves.

Ela é um grande símbolo da luta das mulheres por terra, trabalho, igualdade, justiça e dignidade. Rompeu com padrões tradicionais de gênero ao ocupar por 12 anos a presidência do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, estado da Paraíba. À frente do sindicato fundou o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural. A sua trajetória sindical foi marcada pela luta contra a exploração, pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, contra o analfabetismo e pela reforma agrária. Margarida Alves foi brutalmente assassinada pelos usineiros da Paraíba em 12 de agosto de 1983.

Monarco - 17 de agosto de 1933

Monarco na quadra da Portela, cantando com a Velha Guarda.

Candeia - 17 de Agosto de 1935

Candeia canta Saudade, dele e Arthur José Poerner



Saudade ( Candeia e Arthur José Poerner)

Saudade dos chorinhos e os chorões
Que entre prismas e bordões
Embriagavam de harmonia os corações
Toda noite era de festa
E se ouviam as serestas pelas ruas
Sob o clarão da Lua
Saudades do famoso Zé com Fome
Um sambista de renome
Que o meu povo não esquece
Saudades de Paulo da Portela
Esta melodia singela
É meu samba, é minha prece
Saudade...

Comida, Bebida e Música em Fortaleza, segundo o Diumtudo (5)

O  Diumtudo fez uma enquete com amigos(as) que gostam de bebida, comida e música. Foram quatro as categorias: 1. Bar, Botequim, 2. Local de boa comida, 3. Local para beber, comer nas altas horas e 4. Local com boa música.
Os locais indicados com boa música:
  • Acervo Imaginário - Rua José Avelino 226 - Centro Dragão do Mar
  • Bar do Arlindo - Rua Carlos Gomes 83 - José Bonifácio
  • Bar do Assis - Rua Adolfo Herbster, 190 - Benfica
  • Bar do Chaguinha - Rua Pe Francisco Pinto, 145 - Benfica 
  • Bar do Papai - Rua Torres Câmara esquina com Monsenhor Bruno 
  • Bebedouro - Rua Norvinda Pires, 22 - Aldeota
  • Buoni Amici's - Centro Dragão do Mar
  • Café Pagliuca - Rua Barbosa de Freitas, 1035 - Aldeota
  • Club Retrô - Rua Pereira Valente, 1520 - Aldeota
  • Dona Chica - Avenida da Universidade
  • Espaço Grill - Av. Paulino Rocha, 1299 - Cajazeiras
  • Flórida - Rua Dom Joaquim, 68 - Praia de Iracema
  • Marcão das Ostras - Rua Professor Carvalho, 2901 - Joaquim Távora 
  • Maria Bonita - Rua Des. Leite Albuquerque, 358 - Aldeota
  • Oxente Oriente - Av. Bezerra de Meneses, 610 - São Gerardo
  • Sabor e Tom - Rua Almeida Prado, 1013 - Cocó
  • Vila Camaleão - Av. Mons. Tabosa, 381 casa 3 - Praia de Iracema
  • Zug Choperia - Rua Barbosa de Freitas, 1035 - Aldeota

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lutas de classe entre as rimas

Por Braulio Tavares


Já falei aqui nestas páginas sobre os conceitos de rima rica e rima pobre. Qualquer manual poético dá explicações sobre esses dois tipos. Minha única ressalva é que ela sugere um preconceito de classe social, e passa, com isso, a ideia falsa de que é preciso deixar de ser pobre e ficar rico de qualquer maneira. Sugere que é preciso evitar a todo custo as rimas pobres e encher o poema de rimas ricas de cima a baixo. Não é bem assim.

Eu chamaria essas rimas de fáceis e difíceis. A rima fácil (ou pobre) exige um mínimo de esforço ou de imaginação. A mais fácil de todas seria rimar uma palavra com ela mesma:

Quando eu estou com saudade
lembro os olhos do meu bem
pois não sei onde ela anda,
não sei se ela me quer bem.
 

Rimar assim é o máximo da preguiça, embora (a poesia é um mundo vasto) deva existir algum exemplo em que isto foi empregado com proveito poético.

O segundo tipo de rima fácil mais à mão é rimar uma palavra com outra palavra derivada dela mesma. Não existe muito mérito poético em rimar "urbano" com "suburbano". O poeta principiante faz isso com frequência, porque depois de escrever a primeira palavra ele começa a remexer as gavetas da memória procurando uma palavra que termine num som parecido, e em geral a primeira que encontra é justamente um derivado da palavra que já tinha.

O propósito da poesia é evitar sempre as rimas pobres e só usar rimas ricas? De jeito nenhum. A rima é um efeito, e como todo efeito deve ser dosado, deve obedecer a uma economia. Quando as rimas começam a chamar excessivamente a atenção, por sua "pobreza" ou sua "riqueza", elas interferem na leitura, mostram que foram colocadas ali ou por preguiça ou por exibicionismo. A rima é uma repetição de sons que dá uma impressão de harmonia, de simetria, às vezes de surpresa (quando a rima surge num lugar inesperado, ou com uma palavra inesperada), mas tudo isso deve ser meio que em segundo plano, porque a rima não é o solista da orquestra, ela apenas faz parte da seção de ritmo. Está ali para acompanhar e enriquecer, não para chamar a atenção sobre si mesma, a não ser em momentos especiais.

Quando usar a rima fácil
Palavras que terminam com o mesmo sufixo são um caso limítrofe de rima fácil. Por mim seu uso não chega a ser um crime, mas se usadas o tempo inteiro comprometem o poeta. O grande vilão neste caso é o conjunto dos advérbios terminados em "mente": atualmente, possivelmente, constantemente, certamente, antigamente...

A lista é grande, mas deve ser acessada com parcimônia. O mesmo se dá com adjetivos que terminam todos da mesma maneira: gracioso, orgulhoso, perigoso, custoso... 

Ou com substantivos de terminação igual: frequên­cia, excelência, insistência, paciência... 

E com formações verbais: derrotado, exaltado, empurrado... andando, falando, pensando...

Rimas assim não exigem criatividade. São rimas que devem servir de argamassa às demais, servir de elenco de apoio, sem chamar muito a atenção para si, ajudando a manter o fluxo. Mas se no meio delas não aparece de vez em quando uma rima um pouco mais difícil, ou rica, o leitor só percebe a presença delas; e, mesmo inconscientemente, torce o nariz para a escassez de inspiração do poeta.


O desafio da rima difícil
A rima difícil ou rica pode vir, por exemplo, quando em vez de rimar dois verbos ("amar" e "cantar"; etc.) rimamos um verbo e um substantivo ("amar" e "luar"). Em lugar de rimar "formosa" (adjetivo) com "gostosa" (adjetivo) podemos rimar com "rosa" ou "prosa" (substantivos). Em vez de rimar "perigo" (substantivo) com "amigo" (substantivo) podemos rimar com "antigo" (adjetivo). Pode parecer um excesso de capricho, mas a verdade é que muitas vezes o poeta vai escrevendo sem ter a mínima ideia do que fazer em seguida, e estabelecer critérios desse tipo podem ajudá-lo a pensar no que dizer no verso seguinte. 

O uso de nomes próprios e comuns
Rimar nomes comuns e nomes próprios também traz uma dose maior de informação e de imprevisibilidade ao poema. Uma coisa é rimar "deserto" com "certo", "coberto"; outra é rimar a mesma palavra com "Roberto".

O desafio, no caso, é o que sempre preside qualquer questão de rima: a palavra está sendo utilizada por causa do seu som, mas deve dar a impressão de que o foi por causa do seu sentido. Além disso, deve dar a impressão de que o poeta rimou involuntariamente (quando é justamente o contrário).  

O exemplo de Augusto dos Anjos
Um tipo de rima difícil, ou rica, que requer certa destreza é quando rimamos uma palavra com os sons de duas ou mais, ou com verbos acompanhados de pronomes oblíquos. Augusto dos Anjos (um dos poetas mais complicados e mais populares da literatura brasileira) era um mestre nesse tipo de rima. Em seus poemas encontramos "língua" rimando com "distingo-a", "estrelas" com "compreendê-las" (em As Cismas do Destino), entre outros achados.


http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12361

Aurora Melancólica

Por Pedro Alexandre Sanches

Novo Chico Buarque traz letras tristes e mulheres malvadas.

Já faz uns 13 anos que ouvir um disco novo de Chico Buarque é tarefa penosa. Desde As Cidades (1998), as poucas canções inéditas que ele apresenta são quase sempre tristes, dolorosamente tristes. O novo e conciso Chico (dez músicas em 31 minutos) não é diferente, e soa até mais profundo na melancolia, à medida que traz para a canção a atmosfera entre sufocante e absurda dos romances que passou a lançar em 1991.

Os jogos de espelhos entre identidades esburacadas aparecem, por exemplo, na segunda faixa, Rubato, em que três compositores digladiam-se, cada um roubando a estrofe do outro e transformando a musa da canção de Aurora em Amora em Teodora. O tema volta espelhado na penúltima faixa, Barafunda, num ardil cruel que esfumaça memórias: Era Aurora/ não, era Aurélia/ ou era Ariela/ não lembro agora. Salve este samba antes que o esquecimento/ baixe seu manto, seu manto cinzento. A conclusão vem soluçante e sabedora de ser uma gota em colossal oceano.

A tristeza é mote interdito de Sem Você 2, em que outro compositor dá continuidade a Sem Você, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, lançada por Lenita Bruno e por Sylvia Telles em 1959, quando a bossa nova ainda se permitia chafurdar na fossa de termos como “desespero”, “solidão”, “sofrimento”. A versão de Chico é menos dramática, mas a sombra dos pais ausentes está toda lá.

Menos antigo que a bossa de Tom e Vinicius é o afro-samba de João Bosco, retomado na parceria e dueto Sinhá, cuja última estrofe (também a última do CD) diz muito sobre Chico Buarque. A letra engenhosa, sobre um escravo punido por admirar sinhá despida, flagra uma figura malvada de mulher, figura recorrente neste CD de um autor muito amado pelas mulheres.

Muito se repete, com certo gosto, que Chico fez A Banda em 1966 e nunca mais quis voltar a cantá-la. Mas Rubato evoca de longe A Banda, como há ecos de Construção e Cotidiano (1971) em Querido Diário. Rubato não tem a ingenuidade de A Banda, assim como o tom engajado das canções de 1971 foi, este sim, banido da obra de Chico há quase 20 anos. Mas Aurora, Amora, Teodora, Aurélia, Amélia estão, todas elas, escondidas, atocaiadas, ali dentro de Chico.

Centro sem poluição visual (em Sobral)

Por Daniela Nogueira

Sobral continua com o trabalho de preservação do patrimônio do município. De acordo com a Secretaria da Cultura e Turismo, a fiação aérea do centro histórico será substituída pela fiação subterrânea. E isso inclui todo tipo de fiação – elétrica ou telefônica. Segundo o secretário, Campelo Costa, a obra é cara. O serviço deve custar cerca de R$ 2 milhões.

Ele analisa que o excesso de fiação visível provoca um distúrbio enorme na aparência do patrimônio. “É uma interferência muito grande. Vamos trabalhar com novas parcerias, restabelecer uma nova limpeza para que as pessoas tenham outra leitura da cidade ao deparar com os edifícios de importância histórica”, analisa.


O trecho que ganhará a fiação subterrânea inclui pontos turísticos e bem conhecidos do município, como o Boulevard do Arco, a avenida Dom José, a Praça São João e arredores, a Coluna da Hora, as ruas do Largo do Rosário passando pela Praça de Cuba e chegando até a igreja matriz. A licitação para o serviço já foi feita, mas uma das empresas concorrentes entrou com recurso e espera-se agora o fim do processo.

Além disso, em Sobral, foram retiradas todas as placas, equipamentos de alumínio e outros tipos de sinalização que escondiam as fachadas ou prejudicavam, de alguma forma, a visão ao edifício que é tombado, provocando interferência. De acordo com a Secretaria da Cultura e Turismo, não houve conflito, por mais que tenha havido resistência por parte de alguns proprietários.

Conforme o secretário, tudo foi resolvido com diálogo. “As pessoas resistem a qualquer tipo de mudança. Mas estabelecemos diálogo, de forma tranquila”, conta Campelo Costa. Ele cita que foram custeadas pela Secretaria a repintura e a reinstalação dos toldos dos estabelecimentos comerciais, além dos reparos nas fachadas. “Isso caracterizou um período de uma relação muito cordial com os comerciantes”, avalia.

Campelo destaca que, com isso, quem ganha é a cidade. Ele acrescenta que o objetivo inicial não é atrair o turista, mas preservar o ambiente cultural da região. “A primeira questão está relacionada com a qualidade da cidade. A primeira conquista é essa. Não podemos perder de vista as questões que a gente defende, como integridade, limpeza, paisagem urbana. A poluição visual não é benéfica. Esses são os objetivos. A cidade fica mais bonita, mais limpa, mais atraente”, conclui ele. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Divina Missão - Orquestra Lunar

Elas são excelentes. O disco está maravilhoso. Neste vídeo Áurea Martins canta o samba de Dona Ivone Lara e Bruno Castro - Divina Missão.

Sinhá (João Bosco/Chico Buarque)


Por Alfredo Pessoa

É a segunda parceria de Bosco e Chico. Antes apenas o registro de "Mano a Mano" (Chico, 1984). A peculiaridade da canção afro-escravista é que ela é quase toda tocada com três dedos (polegar, indicador e médio) e o escravo que nega ter seduzido Sinhá, para não ser castigado, ao final se entrega e diz que enfeitiçou Sinhá. Chico talvez tenha se inspirado na obra pós-abolição “O Neguinho e a Madame” (Noel Rosa de Oliveira). Como diria Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala (1933), o mestiço é o melhor, embora Chico não tenha chegado no fruto do amor entre o escravo e a Sinhá.

P.S. Veja João Bosco executando esta música e Chico cantando em www.chicobastidores.com.br



Sinhá (João Bosco-Chico Buarque)


Cm* Fm6* Bm(5M) Cm* Fm6*
Bm(5M) Cm(5M) Cm* Fm6* Bm(5M)
Cm* Cm*/A C#* G7* Cm*
Bb6* D7*/A Fm6*/Ab G7* Cm*

                                       Fm6*        Cm*
Se a dona se banhou. Eu não estava lá
D7*/A          Gm7*       D7*/A    Bm(5M)
Por Deus Nosso Senhor. Eu não olhei Sinhá
                    Cm* Fm6*              Cm*
Estava lá na roça. Sou de olhar ninguém
     D7*/A        Gm*/Bb D7*/A      Bm(5M)
Não tenho mais cobiça. Nem enxergo bem
                                  Ab6*                  G7* Cm*
Para que me pôr no tronco. Para que me aleijar
                     Gm7*                 C* Fm6*
Eu juro a vosmecê. Que nunca vi Sinhá
                          Bb4(7)*/F           Bb7* Cm/D#
Por que me faz tão mal . Com olhos tão azuis
           Cm         C#6*   Bm(5M) (Cm*
Me benzo com o sinal. Da santa cruz
Bb6* D7*/A Fm6*/Ab G7* Cm*)
                                           Fm6*     Cm*
Eu só cheguei no açude. Atrás da sabiá
D7*/A          Gm7*     D7*/A   Bm(5M)
Olhava o arvoredo. Eu não olhei Sinhá
                        Cm*     Fm6*          Cm*
Se a dona se despiu. Eu já andava além
D7*/A     Gm*/Bb    D7*/A       Bm(5M)
Estava na moenda. Estava para Xerém      
                            Ab6*               G7* Cm*
Por que talhar meu corpo. Eu não olhei Sinhá
                              Gm7*                 C* Fm6*
Para que que vosmincê. Meus olhos vai furar
                     Bb4(7)*/F          Bb7* Cm/D#
Eu choro em iorubá. Mas oro por Jesus
          Cm             C#6*     Bm(5M) (C7M C7M/G)
Para que que vassuncê. Me tira a luz
                          Em/B     A4(7)               Dm4*
E assim vai se encerrar. O conto de um cantor
                         G7/B           F#º        Cº
Com voz do pelourinho. E ares de senhor
                      C7M             B7(13)  E7
Cantor atormentado. Herdeiro sarará
          A7*        Dm7(#9)        D#º(b13)             Em7(#9)
Do nome e do renome. De um feroz senhor de engenho
                 Fm6*              Cm*                   Cm(5M)
E das mandingas de um escravo. Que no engenho
         Ab6*  G7* (Cm* Bb6* D7*/A Fm6*/Ab G7* Cm*)
Enfeitiçou Sin---há

Cm* = X310XX
Fm6* = 1X01XX
Bm(5M) = 7X00XX
Cm(5M) = X311XX
Cm*/A = 5310XX
C#* = X431XX
G7* = 3X34XX
Bb6* = 6X00XX
D7*/A = 5X45XX
Fm6*/Ab = 4X35XX
Gm7* = 3X33XX
Gm*/Bb = 6X53XX
Ab6* = 4X35XX
C* = X320XX
Bb4(7)*/F = X868XX
Bb7* = 6X67XX
Cm/D# = X6(10)88X
Cm = 8X(10)88X
C#6* = 9X8(10)XX
C7M = X32000
C7M/G = 33200X
Em/B = X2200X
A4(7) = X0203X
Dm4* = X530XX
G7/B = X2303X
F#º = 23121X
Cº = X34242
B7(13) = X2X244
E7 = 02X130
A7* = 5X56XX
Dm7(#9) = X5356X
D#º(b13) = X6X577
Em7(#9) = X7578X

Dicas para aumentar o seu prazer na "hora do chá"

Via Helena Mattos, do blog do Marcelo Katsuki





- Chá não combina com barulho. Silêncio, ou no máximo uma música suave ao fundo.
- Não deixe a água ferver, pois pode queimar as folhas e comprometer o sabor e o aroma. Se isso acontecer, aguarde alguns minutos para que a temperatura da água abaixe e fique entre 60 ºC e 90 ºC.
- Comece com chás leves de ervas ou frutas. Infusões aromatizadas e chás puros vêm depois.
- Para conseguir sabor mais intenso, aumente a quantidade de chá, nunca o tempo de infusão.
- Infusão: para chá verde um minuto e meio. Chá preto, dois a três minutos.
- Tampe o bule durante a infusão para condensar o aroma da erva.
- Evite adoçar, mas se necessário, prefira o açúcar ao adoçante.
- Xícaras de porcelana mantém a temperatura e não interferem no sabor.
- O hábito de colocar leite veio dos britânicos e é indicado apenas para os chás mais concentrados.
- Armazene as ervas em local fresco e sem luz. Nunca em potes de vidro, pois a exposição à luz comprometeria o aroma.
- O saquinho de chá é extremamente prático, mas seu conteúdo perde as características com mais rapidez.
- O prazo máximo de validade de um chá é geralmente de três anos

http://marcelokatsuki.folha.blog.uol.com.br/arch2006-09-01_2006-09-30.html

Minhas Madrugadas


Minhas Madrugadas ( Paulinho da Viola e Candeia)
Vou pelas minhas madrugadas a cantar
Esquecer o que passou
Trago a face marcada
Cada ruga no meu rosto
Simboliza um desgosto
Quero encontrar em vão o que perdi
Só resta saudade
Não tenho paz
E a mocidade
Que não volta mais
Quantos lábios beijei
Quantas mãos afaguei
Só restou saudade no meu coração
Hoje fitando o espelho
Eu vi meus olhos vermelhos
Compreendi que a vida
Que eu vivi foi ilusão

Diante da dor dos outros

Por Magela Lima 


A ensaísta norte-americana Susan Sontag, num de seus últimos títulos, olha o pavor em torno do ataque às torres gêmeas do World Trade Center e conclui que a memória e a sensibilidade na contemporaneidade deixam de ser episódicas para ser imagéticas. Assim, a gente deixaria de lembrar ou atentar os fatos por eles mesmos e passaria a deslocá-los no tempo ou identificá-los pela força de suas imagens. Na verdade, ela não diz nada de novo. Hiroshima e Nagasaki já tinham sinalizado para isso. A queda do muro de Berlim também.

Sontag, porém, flagra um momento de ápice. Fico pensando eu, onde foi parar a nossa capacidade de indignação. Se a memória e a sensibilidade demandam grandes catástrofes, o que dizer da revolta? É nisso que penso, por exemplo, quando sou forçado a me deparar com um escândalo como esse envolvendo uma verba destinada para a construção de banheiros populares aqui no Ceará. Definitivamente, a gente perdeu o respeito diante da dor dos outros. Tirar algo de quem já não tem é tão escabroso que deveria ser coagido, reprimido e punido como muito mais vigor.

O dicionário recomenda classificar como furto uma ação indevida de apropriação sem uso da violência. Já assalto seria um roubo com uso da força. A mim, me faltam palavras para classificar esse desvio vergonhoso de verba de tão violento que ele é. Subtrair de uma parcela da população, carente de tudo, o direito de uma melhoria nas condições sanitárias do seu cotidiano é algo só comparável a roubar dinheiro de merenda escolar ou destinado a compra de remédios para vítimas de doenças crônicas. É um absurdo.

Um banheiro, por mais modesto que seja, na vida modesta de uma pessoa qualquer, é algo que promove uma mudança extraordinária. Além de agregar uma perspectiva de higiene pessoal, muda substancialmente a condição coletiva, pública. Não é firula, é qualidade de vida, é saúde. Quem não enxerga isso certamente não é capaz de ver o mundo para além do próprio umbigo. Ou, o que é pior: do próprio bolso. É inaceitável imaginar que, em pleno século XXI, a gente ainda conviva com necessidades tão básicas sendo subjugadas a interesses tão escusos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Os Filhos de João - O Admiravel Mundo Novo Baiano

Vá assistir filhos de João - O Admirável Mundo Novo baiano está em cartaz no Unibanco do Dragão do Mar - Fortaleza - as 18 horas. 

Palavrões Cultos

Via Revista Língua - n° 69


  • Abléptico - Desequilibrado.
  • Acatruzo - Pentelho, chato, amolador.
  • Acataléptico - Vacilante, burro.
  • Anelídeo - Da família das minhocas e sanguessugas.
  • Ancípite - Que tem duas caras, falso, inconstante.
  • Apedeuta - Ignorante
  • Cabrião - Um chato em alto grau.
  • Graveolento - Fedorento.
  • Madraço. Preguiçoso, ocioso, mandrião, vadio. Do árabe matrâ - colchão, lugar onde se atira o corpo. "Isso não vai prá frente porque só tem mandraço aqui."
  • Patego. Simplório, pateta, rústico. Talvez derive de pato. Pronuncia-se patêgo.
  • Ozostômico - Pessoa que tem mau hálito.
  • Vaníloquo - Fala pelos cotovelos e não diz nada.
  • Somítico - Avarento, sovina.
  • Saberete. Pessoa que acha que sabe tudo, que tem a pretensão de saber mais do que os outros e faz questão de demonstrar isso insistentemente.
  • Valdevino - Vive às custas dos outros(as).
  • Presbiofrênico - Inventa histórias sem fundamento.
Fonte - Dicionário Brasileiro dos Insultos (Ateliê Editorial, 2002), de Altair J. Aranha.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sandy e Amy


Por José Pedro Goulart

foto AgNews
Voltei. O quê, você nem percebeu que eu havia saído? Pois é, 
estive no resguardo, certo estão os ursos que hibernam. Por mim o inverno podia ser cancelado. Enquanto estive fora daqui muita chuva rolou por debaixo da ponte; a Amy Winehouse morreu, a Sandy ressuscitou.

As personalidades quanto mais esquisitas ficam ainda mais atraentes. No caso da Amy havia talento envolvido. Houve choro porque ela morreu jovem e houve resmungos porque ela não se cuidou; tomou todas, cavou a própria cova. Ao mesmo tempo a rapaziada colocou bebida na calçada da casa dela como tributo, uma ironia; mais ou menos como atirar anestésicos na calçada do Michael Jackson.

Cada país com sua devassa. No Brasil, temos a Sandy. Ela é da mesma profissão da Amy, e assim como Amy, fez propaganda de cerveja, mas ao contrário da inglesa, que engolia, Sandy cuspia - achava a bebida muito amarga. E ainda agora disse que é possível ter prazer anal, disse isso na Playboy, revista que como se sabe não traz músicas para tocar no violão, (acho que a Sandy não sabia disso). Amy, cá estivesse entre os vivos, riria da polêmica dizendo: "Deve ser possível ter prazer anal, eu nunca soube porque prazer anal de bêbado não tem dono". Mas Amy se foi. Ficaram o Júnior, a Sandy, o Chitãozinho e o único favorecido nisso tudo: o marido da Sandy. Todos boquiabertos com a declaração da ex-namoradinha do Brasil, afinal a ideia da devassa era pra ser só de mentirinha.

Das coisas difíceis da vida, uma das mais é ser coerente. Atração e reprovação andam lado a lado. Acho que é por isso que os fãs da Amy depositaram garrafas de bebida na calçada dela, sinal de respeito. Reconheceram na cantora um uma espécie de "licença artística de trocar os pés pelas mãos, viver uma vida intensa e breve, ao contrário dos caretas e suas existências longevas e ordinárias".

No final da vida, Amy Winehouse vinha produzindo sucessivas imagens onde aparecia cambaleante e insegura, exibindo um olhar amedrontado. Aparentemente tentando se segurar naquilo que a fez subir num palco pela primeira vez, a sintonia entre alma e corpo, e o manifesto através da musica. Um artista é um trapezista sem rede de proteção.
Espio por uma fresta da minha caverna e imagino que a Sandy desconfia disso, e talvez sinta que sem rede de proteção não dá. Mas seria legal que ao menos ela tivesse "o tipo de prazer que disse ser possível" - qualquer prazer é saúde.