via a casa de vidro (http://acasadevidro.com/)
aos que fazem, escutam e curtem música.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Sem CNPJ, com CNPJ
"A noite é boa conselheira" já dizia a vovó. Devem ter sido os conselhos noturnos que fizeram, em menos de 18 horas, os deputados aceitarem a manobra e a quebra de acordo do Cunha, e modificarem seus votos do não ao sim. Volta o financiamento CNPJ que tinha sido abolido na madrugada de quarta 27 de maio.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
A linguagem do trauma
por Gilson Iannini
Diz-se que os sobreviventes que voltavam – e voltam – dos campos não tinham nada para contar, que quanto mais seu testemunho era autêntico, tantos menos conseguiam comunicar o que haviam vivido. Como se eles mesmos fossem os primeiros a serem assaltados por uma dúvida sobre a realidade do que lhes tinha acontecido – se não teriam, por acaso, trocado um pesadelo por um acontecimento real. Eles sabiam – e sabem – que em Auschwitz ou em Omarska não tinham se tornado mais sábios ou mais profundos, nem melhores, mais humanos ou mais benévolos diante dos confrontos do homem, saíram deles, ao contrário, despidos, esvaziados, desorientados. E não tinham vontade de falar sobre isso. Tomadas as devidas distâncias, essa sensação de suspeita nos confrontos com o próprio testemunho vale, de algum modo, também para nós. Parece que nada, no que vivemos nesses anos, nos autoriza a falar. A suspeita nos confrontos com as suas próprias palavras se produz todas as vezes que a distinção entre o público e o privado perde seu sentido.
Parece que o texto fala da realidade brasileira recente, onde as certezas acerca do que estamos vivendo parecem se dissolver no ar. Mas o trecho acima, extraído do texto “Neste exílio – Diário italiano 1992-94”, foi publicado por Giorgio Agamben como uma espécie de epílogo ao seu livro Meios sem fim e descrevia seu próprio estupor diante da crise italiana, ainda no rescaldo da operação “mãos limpas”. O que nos autoriza a falar, a escrever, a tomar publicamente a palavra?
Atônito com o ressurgimento meio difuso, meio artificial e também meio anacrônico de um sentimento de nostalgia em relação à ditadura civil-militar nos cartazes e nas palavras de ordem de algumas manifestações ocorridas recentemente no Brasil e disseminadas nas redes sociais, decidi perguntar a colegas psicanalistas (em um dos casos, um intelectual marcado pela psicanálise) como entender esse quadro. Minha sensação era de espanto. Quando menino e depois, em minha juventude, sempre me intrigava a seguinte questão: quem eram os apoiadores da brutal ditadura militar brasileira? Naquele tempo, a tese, quase banal, de que uma parcela expressiva da classe média teria apoiado fervorosamente o golpe me parecia meio metafísica.
Eu, que nasci em 1969, sempre suspeitei que essa tese fosse verdadeira, mas nunca consegui individualizar, dotar de imagem ou de nome esse ou aquele indivíduo. Para mim, os entusiastas do regime nunca tiveram rosto. Confesso que essa questão era para mim um enigma. O vizinho do primeiro andar, que usa óculos escuros estilo coronel? Aquele tio durão? Os pais daquele colega de turma? A beata da primeira fila na missa de domingo? Tudo me parecia distante e improvável. Como se o meu bairro, o meu círculo de amizades ou a minha família estivessem protegidos desse tipo, que, no entanto, estatisticamente deveria estar mais próximo do que gostaria. Mas eles continuavam, para mim, sem rosto. Como lembra Agamben, “o rosto é o ser irreparavelmente exposto do homem, e, ao mesmo tempo, o seu permanecer oculto nessa abertura”. E continua: “o rosto é o único lugar da comunidade, a única cidade possível. Pois aquilo que, em cada indivíduo singular, abre para o político é a tragicomédia da verdade na qual ele há sempre cai e para a qual deve encontrar uma solução”.
Nas conturbadas eleições do ano passado, esse enigma se desfez por completo para mim. Como se caísse o último véu de ilusão que convenientemente me protegia de uma verdade mais insuportável e mais próxima de mim. De uma hora para outra, os nostálgicos da ditadura mostraram o rosto, fizeram cartazes e gritaram nas ruas, em alto e bom som. Queriam a volta da “ordem”, queriam o verde-e-amarelo contra o vermelho. Não estou discutindo se as razões de uma certa insatisfação com a política atual eram legítimas ou não. Havia e continua havendo muitos motivos de insatisfação, sempre a depender, claro, do lugar de onde se olha. O que me intrigava era o ódio. Era o quantum afetivo que acompanhava as declarações, os proferimentos. Não parecia possível analisar apenas o discurso, os argumentos. Trata-se de outra coisa, de posições afetivas extremamente enraizadas em nossa forma de vida.
Os saudosos da ditadura surgiam com rosto, endereço e voz. E eles estavam muito mais próximos do que gostaríamos de acreditar. Talvez fosse um vizinho, um parente, um colega. É evidente que uma análise desse fato social merece um estudo amplo, que requer o olhar do cientista político, do antropólogo, do teórico da comunicação, entre outros. Mas o que me interessava era outra coisa. Tudo aquilo me parecia um grande retorno do recalcado. Como se o verniz cultural que nos encobre em nosso contato cotidiano de repente se desprendesse, como aquela casquinha de tinta podre que arrancamos com as unhas na parede úmida. Num célebre artigo sobre a guerra, Freud afirma que o conflito desnuda as camadas de cultura que se depositaram nos homens pelo processo civilizatório e “faz vir à tona o homem primitivo em nós”. Algo desse tipo me interessava. A virulência e o ódio que se manifestaram nos discursos e nos gritos eram absolutamente aterradores. E ainda estamos escutando os ecos dessa gritaria, agora sob as vestes pseudojurídicas do “impeachment”, sentença que antecede o crime. Não por acaso, busca-se o crime depois de decidida a sentença, como num conto de Kafka.
Gilson Iannini é psicanalista, doutor em filosofia, professor da UFOP e editor da coleção “Obras incompletas”, de Sigmund Freud (Ed. Autêntica)
http://revistacult.uol.com.br/home/2015/03/a-linguagem-do-trauma/
“A RAZÃO NÃO ADERE AO ERRO TOTAL”
(CARTA ABERTA DE DESAGRAVO FACE AO REPUGNANTE TEXTO DE REINALDO AZEVEDO PUBLICADO NO BLOG DA VEJA, EM 28/04/2015)
“Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele. Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos.”
Provérbios 26:4-5
O sábio poeta hebreu dá um conselho ambíguo. Devemos ou não responder ao tolo? Há na resposta um risco intrínseco. A arena de debate do tolo situa-se no campo da irracionalidade, da ignorância, da vaidade e, por vezes, do ódio. Posta-se o tolo em sítio distante da razoabilidade, do bom senso, da ponderação. Então, o conselho: não desça a essa arena jamais. Logo, não responda ao tolo segundo a sua estultícia. Mas, em aparente contradição, ensina o sábio: não deixe o tolo sem resposta para que não passe por sábio.
Considerado esse paradoxo, é que externo publicamente meu mais veemente repúdio ao que o Sr. Reinaldo Azevedo escreveu em sua lastimável coluna, no blog da Revista Veja, intitulado “Esta vai para o Senado”.
O senhor Reinaldo Azevedo que, nada lê muito além de orelhas de livros, busca ávido entre escritos jurídicos algum texto que lhe sirva de pretexto para atacar a indicação do professor Luiz Edson Fachin ao Supremo Tribunal Federal.
Este pretenso jornalista valeu-se de um livro de minha autoria, resultado de tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, para tentar agredir e infamar a imagem do professor Fachin.
Somente quem não leu o livro, como Reinaldo Azevedo, é que pode fazer a absurda assertiva de que há, na tese, uma defesa da poligamia e, concomitantemente, um ataque à família formada pelo casamento. O autor não subscreve esse disparate e, muito menos, o ilustre professor que prefaciou o livro.
O “blogueiro” da revista Veja promoveu distorção rasteira e fraudulenta de um complexo tema, que remonta às raízes da formação do Brasil e guarda estreita relação com a dominação masculina.
Trata-se de um ataque desleal, covarde, oportunista. O que lastimo profundamente é que uma pessoa como essa, que tem coragem de lançar mão de tão sórdida mentira, seja albergado por uma Revista que se pretende formadora de opinião. Lamento que tantos desavisados leiam estas postagens de textos desqualificados, tomando-os como expressão de verdade.
Ah! Se conhecessem quem é Luiz Edson Fachin e o que a sua obra e atuação jurídica significam para o Direito, no Brasil. É lamentável que sua indicação ao Supremo Tribunal Federal tenha ocorrido neste momento em que a irracionalidade, patrocinada por alguns veículos de comunicação de massa, vem tomando vulto e se verifica um notável esvaziamento do verdadeiro debate político.
Evoco, contudo, as sábias palavras de Dom Hélder Câmara, que sempre me serviram de alento quando vejo avolumar a barbárie, a brutalidade e, às vezes, a bestialidade. Ensinava o sábio Bispo de Olinda: “A razão não adere ao erro total”. Tenho viva esperança de que o Senado Federal não há de deixar-se conduzir pela fúria dos tolos. A luz da razão há de prevalecer.
Marcos Alves da Silva
Professor de Direito Civil
Advogado
Pastor Presbiteriano
terça-feira, 28 de abril de 2015
Evaldo, Carlinhos e Tarcísio
Via Carlinhos Patriolino
Serenata da Chuva.
Música de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.
Carlinhos Patriolino (bandolim) e Tarcísio Sardinha (violão 7 cordas).
Serenata da Chuva.
Música de Evaldo Gouveia e Jair Amorim.
Carlinhos Patriolino (bandolim) e Tarcísio Sardinha (violão 7 cordas).
Strange Fruit
Escrito por David Margolick
Conforme Billie Holiday contou depois, um único gesto de um cliente de um clube noturno de Nova York chamado Café Society mudou a história da música norte- -americana naquela noite do começo de 1939, a noite em que ela cantou “Strange Fruit” pela primeira vez.
O Café Society era a única boate de Nova York realmente integrada, um lugar que servia pessoas progressistas e de mente aberta. Mas Holiday lembraria que mesmo ali ela teve medo de cantar sua nova mú- sica, uma canção que atacava de frente o ódio racial numa época em que nem se sonhava com a música de protesto, e se arrependeu – pelo menos momentaneamente – ao cantá-la pela primeira vez. “Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei”, escreveu em sua autobiografia. “Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente. De repente todo mundo estava aplaudindo.”
O aplauso ficou mais forte e um pouco menos hesitante à medida que “Strange Fruit” foi se transformando primeiro num ritual cotidiano para Holiday, depois em uma de suas gravações de maior sucesso, depois em uma de suas marcas registradas, pelo menos nos lugares onde era seguro cantá-la. Isso porque ao longo da curta vida de Holiday – ela morreu em 1959, aos 44 anos – a can- ção viveu numa espécie de quarentena artística: podia viajar, mas só para certos lugares. E, nos quarenta anos posteriores à sua morte, as plateias continuaram a aplaudir, a respeitar e a se comover com essa balada perturbadora, única na obra de Holiday e no repertório da música norte-americana, que deixou sua marca em gerações de autores, músicos e outros ouvintes, brancos e negros, nos Estados Unidos e por todo o mundo.
O famoso compositor E. Y. “Yip” Harburg chamou “Strange Fruit” de “documento histórico”. O falecido crí- tico de jazz Leonard Feather uma vez disse que “Strange Fruit” era “o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo”. Para Bobby Short, a canção era “muito, muito fundamental”, um modo de trazer essa tragédia que era o linchamento da imprensa negra para a consciência branca. “Quando se pensa no Sul e em leis segregacionistas, naturalmente se pensa nessa canção, não em ‘We Shall Overcome’”, disse Studs Terkel. Ahmet Ertegun, o lendário produtor musical, chamou “Strange Fruit” – que Holiday cantou pela primeira vez dezesseis anos antes de Rosa Parks se recusar a ceder seu lugar a um branco num ônibus em Montgomery, no Alabama –, de “uma declaração de guerra” e “o começo do movimento pelos direitos civis”.
Holiday cantou a música inúmeras vezes em seus últimos vinte anos de vida. Muitas coisas sobre ela – sua aparência, sua saúde, sua vida pessoal, o som de sua voz – pareciam loucamente instáveis nessa época. Embora estivesse morrendo por causa da heroína e do álcool, ela teve também grandes momentos de triunfo. Mas quer a tivessem ouvido em disco, na rádio (onde era tocada de vez em quando por hesitantes djs negros ou djs brancos de alma negra) ou cantada ao vivo por Holiday ou por outra pessoa, todos que se deparavam com “Strange Fruit” ficavam com a música gravada na memória. Muitos passaram anos sem ouví-la, mas ainda hoje sabem recitar a letra de cor. “A não ser pela letra de ‘America the Beautiful’”, relembra Feenie Ziner, uma professora aposentada e escritora, “não sei se existe outra música ou outra cantora de que eu me lembre tão intensamente sessenta anos depois.” Por quê? Porque, como diz Ziner: “Billie Holiday nos deixava arrasados” quando a cantava. Fãs da música não dizem que gostam dela – como se pode realmente gostar de uma música sobre um tema desses? – mas reconhecem seu impacto duradouro. Creditam à mú- sica seu despertar para a realidade do preconceito racial e para o poder transformador e redentor da arte. O que quer que tenham feito, protestado em Selma, participado da marcha de Washington ou passado a vida como ativistas sociais, muitos dizem que foi ouvir “Strange Fruit” que desencadeou o processo. “Será que a empatia pelos injustiçados do mundo teria me atraído para os mesmos planos de carreira se nunca tivesse ouvido Billie Holiday? Duvido”, disse George Sinclair, um sulista que passou a vida trabalhando com os pobres e desfavorecidos. “Billie Holiday pode não ter acendido o estopim, mas inquestionavelmente alimentou a chama.”
E, no entanto, “Strange Fruit”, tanto como música quanto como fenômeno histórico, é surpreendentemente desconhecida hoje. Sem dúvida em grande parte por seu tema, a canção não é um dos muitos clássicos de Holiday sempre tocados nas estações de rádio ou nos alto-falantes de restaurantes, como “God Bless the Child”, “Lover Man”, “Miss Brown to You” ou “I Cover the Waterfront”. É uma anomalia, tanto dentro como fora da obra de Holiday.
“Strange Fruit” escapa a qualquer categorização musical fácil e se esgueirou por entre as fissuras do estudo acadêmico. É artística demais para ser música folk, politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz.
Com certeza nenhuma canção na história dos Estados Unidos representa tamanha garantia de silenciar uma plateia ou gerar tanto desconforto. Joe Segal, que lidera há cinquenta anos o Jazz Showcase de Chicago, o segundo clube de jazz mais antigo dos Estados Unidos, ainda não consegue ouvir a música quando ela toca na rádio. “É muito dura”, ele me disse. “Não consigo aguentá-la.”
Lançada em 1939 – mesmo ano de …E o vento levou, um filme repleto de condescendência com os negros e com os artistas negros, e na mesma época em que “A-Tisket, A-Tasket”, de Ella Fitzgerald, era o que se esperava de cantoras negras –, “Strange Fruit” “devolve o elemento de protesto e resistência ao centro da cultura musical negra contemporânea”, escreveu Angela Davis em Blues Legacies and Black Feminism [Legados do Blues e Feminismo Negro]. Mais de setenta anos depois de ter sido cantada pela primeira vez, músicos de jazz ainda falam da música com uma mistura de estupefação e medo. “Quando Holiday a gravou, era mais que revolucionária”, disse o baterista Max Roach. “Ela expressou um sentimento que todos nós, negros, sentíamos. Ninguém falava daquilo. Ela se transformou em um dos guerreiros, essa linda mulher que sabia cantar e fazer você se emocionar. Tornou-se a voz dos negros, e eles a adoravam.” Quando a canção apareceu, a maioria das rádios a considerou provocante demais para ir ao ar; até hoje, mesmo os djs mais progressistas só a tocam de vez em quando. “É muito intensa, e eu quero divertir as pessoas”, disse Michael Bourne, que apresenta um dos programas de jazz mais populares de Nova York. Quem toca a música o faz quase hesitante (“é como esfregar o nariz das pessoas na própria merda”, disse Mal Waldron, pianista que acompanhou Holiday em seus últimos anos de vida), e muitas vezes só quando são obrigados; às vezes, ela é simplesmente pesada demais.
Poucos anos atrás, a revista britânica Q considerou “Strange Fruit” uma das “dez músicas que realmente mudaram o mundo”. Como qualquer ato revolucionário, a canção encontrou grande resistência num primeiro momento. Holiday e o cantor folk negro Josh White, que começou a cantá-la poucos anos depois de Holiday fazê-lo pela primeira vez, eram atacados, às vezes fisicamente, por clientes irados das boates – crackers,1 como Holiday os chamava. A Columbia Records, gravadora de Holiday no final dos anos 30, se recusou a gravar a música. E como acontece com atos revolucionários, a canção deu origem à sua própria cota de mitos, nenhum mais duradouro do que a declaração de Holiday, muitas vezes citada, de que ela própria escreveu ou encomendou a música. “Strange Fruit” foi um divisor de águas, elogiado por uns, execrado por outros, na evolução de Holiday de exuberante cantora de jazz para chanteuse da dor amorosa e da solidão. Assim que Holiday a acrescentou ao seu repertório, parte da tristeza da música parece ter se colado à ela; à medida que ia se deteriorando fisicamente, a música assumia nova pungência e imediatismo. O crítico de jazz Ralph J. Gleason chegou a vê-la como uma metáfora da vida de Holiday. “Ela só era feliz de fato quando cantava”, ele escreveu uma vez. “O resto do tempo ela era uma espécie de encarnação da canção ‘Strange Fruit’, pendurada não em um álamo, mas nos braços da vida em si.”
À sua maneira, “Strange Fruit” pode até ter acelerado o declínio de Holiday. Certamente, uma música que forçou uma nação a confrontar seus impulsos sombrios, uma música que ofendia grande parte do país, não lhe conquistou nenhum amigo influente que pudesse lhe dar uma mãozinha à medida que ela mergulhava no abuso de drogas e se envolvia em cada vez mais encrencas com a lei. “Fiz uma porção de inimigos, sim”, ela disse à revista Down Beat em 1947, logo depois de ter sido presa por uso de drogas na Filadélfia. “Cantar aquilo [‘Strange Fruit’] não me ajudou em nada. Eu estava cantando no Earle [Theater, na Filadélfia], e me fizeram parar.” William Dufty, o coautor da autobiografia de Holiday, tem certeza de que Holiday se apropriava de “Strange Fruit” porque sentia que a música só lhe trouxera dissabores – chegando ao ponto de fazê-la ser convocada por investigadores federais anticomunistas.
Depois de um ciclo inicial de popularidade, “Strange Fruit” caiu em desuso por muitos anos, vítima do conservadorismo de uma era, do idealismo e da esperança de outra e da desilusão de uma terceira. Josh White e Nina Simone estão entre os poucos artistas que a cantaram nos anos 50 e 60. Mas recentemente muitos outros músicos, de Sting a Dee Dee Bridgewater, de Tori Amos a Cassandra Wilson, do ub40 ao Siouxsie and the Banshees, gravaram “Strange Fruit”. Cada gravação é um ato de coragem, dado o domínio permanente de Holiday sobre a música. (Isso talvez não se aplique ao 101 Strings, que gravou uma versão orquestral.) Sidney Bechet fez uma versão instrumental logo depois da gravação de Holiday; mesmo sem a letra, a gravadora Victor preferiu não lançá-la por muitos anos.
Hoje a música aparece em muitos lugares. Leon Litwack, historiador da Guerra Civil e dos períodos de Reconstru- ção, vencedor do prêmio Pulitzer, usa-a em suas aulas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e Stephen Bright a cita em “Pena de morte: raça, pobreza e desvantagem”, um curso que dá nas escolas de direito de Harvard, Yale e Emory. Don Ricco, um professor de Novato, na Califórnia, a toca para os alunos da oitava série quando estão estudando a Guerra Civil; enquanto repassam a dura saga das relações inter-raciais norte-americanas, eles aprendem também a força das metáforas. “Strange Fruit” é o que Mickey Rourke inexplicavelmente coloca no toca-discos para seduzir Kim Basinger em 9 ½ semanas de amor (como era de se imaginar, a música não funciona nem um pouco para criar um clima romântico). O juiz de uma corte de apelação federal a citou alguns anos atrás para demonstrar que a execução por enforcamento era inerentemente “cruel e desumana”. A música foi proibida nas rádios da África do Sul durante a era do apartheid. Khalid Abdul Muhammad, notório discípulo antissemita de Louis Farrakhan e organizador da Passeata de um Milhão de Homens,2 citou-a em discursos de ataque ao racismo contra negros nos Estados Unidos, aparentemente sem saber que a canção foi escrita por um professor judeu branco de Nova York.
O tal professor, Abel Meeropol, que escrevia sob o pseudônimo de Lewis Allan, não criou a canção para Holiday: vários outros, inclusive a esposa de Meeropol, Anne, a haviam cantado antes dela. E, no entanto, Holiday se apossou tão completamente de “Strange Fruit” que Meeropol – hoje mais conhecido por ter adotado os órfãos de Ethel e Julius Rosenberg após a execução dos pais deles do que por seus milhares de outros poemas e canções – passou metade da vida, a partir do momento em que a canção ficou famosa, a lembrar às pessoas que ela era realmente criação sua, e apenas sua.
Nem sempre funcionou: ninguém parecia aceitar que uma canção tão potente pudesse vir de uma fonte tão prosaica. Vários artigos atrelavam Meeropol a uma grande variedade de supostos colaboradores. Uma revista francesa o descreveu como diretor de uma escola para negros em algum lugar às margens do Mississípi. “Um certo Lewis Allen [sic] é citado como autor de ‘Strange Fruit’, mas ele compôs letra e música?”, escreveu o compositor e memorialista Ned Rorem, devoto apaixonado de Holiday, no New York Times em 1995, nove anos depois da morte de Meeropol. “Aliás, quem era ele mesmo? Ele era negro?” (Para os organizadores de uma homenagem a compositores negros no Museu de Belas Artes da Virgínia em 1999 a resposta era sim, pois eles incluíram “Strange Fruit” no programa.)
De certa forma, Meeropol selou seu próprio destino, seu status de nota de rodapé histórica, quando resolveu levar a canção para Billie Holiday: ela, mais do que qualquer outra artista, poderia torná-la efetivamente sua. “Quando você ouve Billie cantando, é quase como uma fita cassete da autobiografia dela”, disse Tony Bennett, que qualificou “Strange Fruit” como “magnífica”. “Ela não cantava nada que não tivesse vivido.”
Trecho do livro Strange Fruit, de David Margolick, publicado pela Cosac Naify
http://www.suplementopernambuco.com.br/suplemento/1398-strange-fruit.html
Por Merecimento
por Karina Buhr
| foto Pri Burr |
Durante algum tempo só me importava com a sua chegada. Não tinha exatamente um controle de qualidade, era principalmente uma maneira de me manter educada, demônio sedado.
Depois te recebia. Braços abertos bruços.
Você era estilo prêmio semibom, superlombra selfie sexo de si mesmo, ego ótimo, bastante hipervalorizado pelo entorno e eu, a essa altura, parecia embarcar na alta do passe e entendia ter uma sorte plena, pelo meu merecimento, pelo bom comportamento.
No dia a dia não via essa figura, assim, tão atenta a minha figura mesma, mesmo conhecendo direitíssimo, era tão mais fácil me camuflar e me deixar quietinha. Dopada. Fluindo.
Até que tinha algo naquele líquido, aquele veneno no copo, que dava uma náusea que curava um pouco mas não deixava, assim, perfeitamente segura de si a pessoa eu.
E a pessoa você era um monstro, mas por que cargas, eu, minha própria monstra de mim, permitia essa vacilação, perda de horizonte, de chão, essa mesquinhez tosca diária. Por que deixava o veneno meu me corroer e ser o seu adubo?
De cabeça baixa aceitando toda merda e seguindo sem freio na destruição das vontades próprias, na preparação do shape de um jeito estranho, nem bonita ficava pra minha opinião.
Até o sapato usava de outro tipo. O comprimento da saia. Até as palavras regulava. Pensava duas vezes antes do palavrão, antes amigo íntimo e adorado, palavrão bronco, sucesso da língua portuguesa, tradução perfeita, idioma campeão.
E logo eu, que parecia tão, mas tão super dona de mim, pras malfadadas línguas, pra opinião social do meio, pequeno meio.
Grande instrutor de passos, o meio.
Chamava-se machismo.
Esse texto estará no livro Desperdiçando Rima, que o selo Fábrica 231, da editora Rocco, lança em abril
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Alegria Amarela de Caiô, com Lorena Nunes
Alegria Amarela (Caiô), com Lorena Nunes. Direção de Barbara Cariry.
Ótimo vídeo e com a participação do povo do Luxo da Aldeia.
sábado, 25 de abril de 2015
Cartas Falsas com LEL
Por Marvioli
O conheci Leonardo. Cantava e tocava pandeiro na saudosa GEBEDIM, grupo de samba que acompanhei, e muito, em apresentações no Vila Camaleão e Bons Amigos. Hoje, o Leonardo é LEL e está se lançando numa nova vibe, o sertanejo universitário. Aqui, no clipe, Cartas Falsas. Valeu, LEL.
Cartas Falsas
Produtora - Audível Filmes (085-88071785)
Direção Geral - Eder Samuel
Cantor - Lel
Compositor - Fleury Neto
Arranjador - Ananias Gois
O conheci Leonardo. Cantava e tocava pandeiro na saudosa GEBEDIM, grupo de samba que acompanhei, e muito, em apresentações no Vila Camaleão e Bons Amigos. Hoje, o Leonardo é LEL e está se lançando numa nova vibe, o sertanejo universitário. Aqui, no clipe, Cartas Falsas. Valeu, LEL.
Cartas Falsas
Produtora - Audível Filmes (085-88071785)
Direção Geral - Eder Samuel
Cantor - Lel
Compositor - Fleury Neto
Arranjador - Ananias Gois
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Som de Prata (Moacyr Luz e PC Pinheiro)
Som de Prata ( Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro)
Nasceu no Rio de Janeiro
No dia do santo guerreiro
Naquele tempo que passou
Foi o maior mestre do choro
Tinha um coração de ouro
E que bom compositor
Foi carinhoso e foi ingênuo
E na roda dos boêmios
Sua flauta era rainha
E em samba, choro e serenata
Como era doce o som de prata, doutor
Que a flauta tinha
O embaixador dessa cidade
Meu Deus do céu, mas que saudade que dá
Do velho Pixinguinha
Veio da terra de Zambi
Sangue de malê
De uma falange do rei Nagô
Filho de Ogum, de São Jorge, no batuquegê
De benguelê, de iaô
Rainha ginga
É que sua avó era africana
A rezadeira de Aruanda, vovó
Vovó Cambinda
Só quem morre dentro de uma igreja
Virá Orixá, louvado seja senhor
Meu santo Pixinguinha
Ele é de benguelê
Ele é de iaô
É do batuquegê
Ele é do rei Nagô
É sangue de malê
É santo sim senhor
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