Esperando a festa.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Anarquia
Ronnie Von, em Anarquia (1968).
Anarquia (Arnaldo Saccomani)
Prepare tudo o que é seu
Veja se nada você esqueceu
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
Nossa cidade será uma flor
As avenidas com carros de amor
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
E assim nós iremos adiante
Iremos custe o que custar
Pois as ordens vêm de um alto-falante que só nós
Não conseguimos escutar
Prepare tudo o que é seu
Veja se nada você esqueceu
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
Fazer uma tremenda anarquia!
Fazer uma tremenda anarquia!!
Fazer uma tremenda anarquia!!!
Anarquia (Arnaldo Saccomani)
Prepare tudo o que é seu
Veja se nada você esqueceu
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
Nossa cidade será uma flor
As avenidas com carros de amor
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
E assim nós iremos adiante
Iremos custe o que custar
Pois as ordens vêm de um alto-falante que só nós
Não conseguimos escutar
Prepare tudo o que é seu
Veja se nada você esqueceu
Pois amanhã vamos pra rua fazer
Fazer uma tremenda anarquia
Pintar as ruas de alegria
Porque
Quem manda hoje somos nós, mais ninguém
E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar
Há quem nos queira atrapalhar
Fazer uma tremenda anarquia!
Fazer uma tremenda anarquia!!
Fazer uma tremenda anarquia!!!
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Personagens da tradição que se constrói
por Liana Costa
DILSON PINHEIRO
O moleque de dez anos de idade guardava o costume de acompanhar o pai-fotógrafo durante as coberturas jornalísticas pelo Centro da cidade. No mês de fevereiro, o destino eram os festejos de Carnaval. “Desde pequeno eu tenho esse contato com a rua, com a avenida”, lembra o carnavalesco Dilson Pinheiro, hoje aos 57 anos. No fim da adolescência, a brincadeira virou ofício. O garoto aprendeu a fazer samba e tornou-se carnavalesco das principais escolas da Capital. Em 1994, deixou as festas mominas para dedicar-se à folia que antecedia o Carnaval e ganhava cada vez mais força em Fortaleza: o Pré-Carnaval. O Quem é de Benfica, bloco criado com a ajuda de um grupo de amigos, foi o primeiro a trazer a folia para o bairro, atual recanto dos blocos carnavalescos da cidade. Hoje, Dilson comanda o seu Num Ispaia Sinão Ienchi, na Praia de Iracema, e chega a arrastar quase quatro mil pessoas em épocas de Pré. Seguro, o carnavalesco sabe: ajudou a formar uma geração de foliões. “As pessoas trocaram o tumulto por serpentina. As famílias vão levando as crianças. É essa geração que daqui a 20 anos vai continuar brincando o Carnaval”.
GILDO MOREIRA
Em 1998, a rua Marechal Deodoro, a antiga rua da Cachorra Magra, viu surgir uma animada bateria de escola de samba que resolveu carregar no nome uma homenagem ao lugar. Morador da Cachorra Magra, Gildo Moreira, 58 anos, se juntou a um grupo de vizinhos para criar a batida da Porra da Cachorra. A festa fez sucesso e começou a atrair foliões de outros bairros. “A rua já não comportava mais toda aquela gente”, pontua Gildo. Em 2005, o bloco ganhou novos nomes e endereços. Foi o Unidos da Cachorra, lembra o presidente do bloco, o primeiro a desfilar pelas bandas do aterrinho da Praia de Iracema, hoje circuito oficial do Pré-Carnaval da cidade. O bloco fez escola – e escolinha – entre as agremiações do Pré. Apostou na formação de ritmistas, reunindo uma equipe que, atualmente, conta com mais de 180 integrantes. “Nós somos uma bateria muito querida e popular, que faz um samba irreverente e se sente bem. Eu sinceramente tenho três amores na vida: esposa, filho e a Unidos da Cachorra”, arremata.
DILSON PINHEIRO
O moleque de dez anos de idade guardava o costume de acompanhar o pai-fotógrafo durante as coberturas jornalísticas pelo Centro da cidade. No mês de fevereiro, o destino eram os festejos de Carnaval. “Desde pequeno eu tenho esse contato com a rua, com a avenida”, lembra o carnavalesco Dilson Pinheiro, hoje aos 57 anos. No fim da adolescência, a brincadeira virou ofício. O garoto aprendeu a fazer samba e tornou-se carnavalesco das principais escolas da Capital. Em 1994, deixou as festas mominas para dedicar-se à folia que antecedia o Carnaval e ganhava cada vez mais força em Fortaleza: o Pré-Carnaval. O Quem é de Benfica, bloco criado com a ajuda de um grupo de amigos, foi o primeiro a trazer a folia para o bairro, atual recanto dos blocos carnavalescos da cidade. Hoje, Dilson comanda o seu Num Ispaia Sinão Ienchi, na Praia de Iracema, e chega a arrastar quase quatro mil pessoas em épocas de Pré. Seguro, o carnavalesco sabe: ajudou a formar uma geração de foliões. “As pessoas trocaram o tumulto por serpentina. As famílias vão levando as crianças. É essa geração que daqui a 20 anos vai continuar brincando o Carnaval”.
GILDO MOREIRA
Em 1998, a rua Marechal Deodoro, a antiga rua da Cachorra Magra, viu surgir uma animada bateria de escola de samba que resolveu carregar no nome uma homenagem ao lugar. Morador da Cachorra Magra, Gildo Moreira, 58 anos, se juntou a um grupo de vizinhos para criar a batida da Porra da Cachorra. A festa fez sucesso e começou a atrair foliões de outros bairros. “A rua já não comportava mais toda aquela gente”, pontua Gildo. Em 2005, o bloco ganhou novos nomes e endereços. Foi o Unidos da Cachorra, lembra o presidente do bloco, o primeiro a desfilar pelas bandas do aterrinho da Praia de Iracema, hoje circuito oficial do Pré-Carnaval da cidade. O bloco fez escola – e escolinha – entre as agremiações do Pré. Apostou na formação de ritmistas, reunindo uma equipe que, atualmente, conta com mais de 180 integrantes. “Nós somos uma bateria muito querida e popular, que faz um samba irreverente e se sente bem. Eu sinceramente tenho três amores na vida: esposa, filho e a Unidos da Cachorra”, arremata.
MARCUS VINÍCIUS
“Na época, éramos uns quarentões que gostavam mais de concentrar e tomar um uísque ou uma cervejinha do que passear por aí”, lembra Marcus Vinícius de Oliveira, 57 anos. Em 2001, inspirado na experiência do bloco Quem é de Benfica, os tais quarentões criaram o Concentra Mas Não Sai, que, em seus primeiros Pré-Carnavais, fez a festa nas ruas do Papicu e nas proximidades do Mercado dos Pinhões. Há sete anos, o Concentra encontrou seu lar atual: a Praça do Ferreira. “Somos um dos únicos blocos a dialogar com o Centro da cidade. O grande charme do bloco é ficar concentrado. Juntamos todo mundo em uma festa de graça”, comenta Marcus, coordenador do bloco que chega a reunir 10 mil pessoas nos sábados de folia. Além do bloco que ajudou a fundar, Marcus é responsável ainda por outras raízes do Pré-Carnaval de Fortaleza: dois dos integrantes do bloco Luxo da Aldeia, os músicos Bruno e Mateus, são seus filhos. “Ao longo de um mês você tem folia garantida, pública e gratuita. O Pré-Carnaval ainda é o grande lance da cidade”.
“Na época, éramos uns quarentões que gostavam mais de concentrar e tomar um uísque ou uma cervejinha do que passear por aí”, lembra Marcus Vinícius de Oliveira, 57 anos. Em 2001, inspirado na experiência do bloco Quem é de Benfica, os tais quarentões criaram o Concentra Mas Não Sai, que, em seus primeiros Pré-Carnavais, fez a festa nas ruas do Papicu e nas proximidades do Mercado dos Pinhões. Há sete anos, o Concentra encontrou seu lar atual: a Praça do Ferreira. “Somos um dos únicos blocos a dialogar com o Centro da cidade. O grande charme do bloco é ficar concentrado. Juntamos todo mundo em uma festa de graça”, comenta Marcus, coordenador do bloco que chega a reunir 10 mil pessoas nos sábados de folia. Além do bloco que ajudou a fundar, Marcus é responsável ainda por outras raízes do Pré-Carnaval de Fortaleza: dois dos integrantes do bloco Luxo da Aldeia, os músicos Bruno e Mateus, são seus filhos. “Ao longo de um mês você tem folia garantida, pública e gratuita. O Pré-Carnaval ainda é o grande lance da cidade”.
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Dilson Pinheiro,
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Gildo Moreira,
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Marcus Vinicius,
Marvioli,
O POVO,
pré-carnaval de Fortaleza
A vida dentro dos sapatos
Por Ethel de Paula
A imagem do poeta andarilho que entrou para o imaginário coletivo de uma cidade através de seu próprio engenho, inventando para si uma errância deliberada como extensão da franca recusa ao trabalho, alinhada à também confessa vocação para a boemia sem freios, é poeira nos olhos. E colírio pingado a conta gotas. Aos 66 anos, Mário Gomes perambula pelas ruas de Fortaleza desde a juventude, quando, aposentado por invalidez após controversas internações psiquiátricas, fundou o seu “mundo”: um “escritório” ao ar livre em plena Praça do Ferreira, coração do Centro, com direito à banco preferencial e audiência fiel para poemas escritos e recitados ao sereno, a qualquer hora do dia ou da noite, em estado de graça ou embriaguez.
Por anos a fio, o filho de dona Nenzinha e de seu Benedito - ela costureira, ele motorista -, vem fazendo da rua lugar de permanência e reinvenção de si. A casa da família, no bairro Bom Sucesso, serviu-lhe, na melhor das hipóteses, como mero dormitório. E o entra-e-sai fora de hora só deixara pistas de sua passagem relâmpago pelo ambiente doméstico graças a um refazer-se diário, à preparação minuciosa do corpo outsider para a gesta ambulante. Metido em trajes elegantes, o bon vivant sem posses, mas com carisma e inteligência incontestes, sensível às artes, dedicou-se a construir um personagem até hoje atento ao que veste e ao que lhe adorna precariamente, aos moldes de um dândi desafortunado das ruas. Assim, o paletó sem gravata virou marca-registrada, como também o charuto em punho e os sapatos bico-fino. Arranjo plástico que lhe conferiu singularidade em meio às informais rodas de conversa literárias improvisadas em torno do “escritório” do poeta da Praça do Ferreira, onde escritores e jornalistas de renome se misturavam a novos e anônimos, emergentes e anarquistas.
A camaradagem fez do poeta da Praça um dos mais reconhecidos no circuito alternativo de quem escreve por linhas tortas nas bordas da Academia. Mário Gomes conta oito livros de poemas publicados com o auxílio luxuoso de amigos endinheirados. E já venceu concurso de poesia “comendo lagartas e defecando borboletas” ou ainda armando uma orgia metafórica entre mulheres famintas que lhe devoraram em meio a um banquete antropofágico, para, ao final, salivantes, exclamarem: “como é gostoso esse Mário Gomes!”. Um homem para se comer com os olhos, é fato, lentamente, com desvelo.
Devorar o poeta, chupando-lhe todos os ossinhos, é, antes de tudo, entender o caminhar não como algo natural, mas como problema e experiência. A partir mesmo da estranheza e da dificuldade do ato de equilíbrio intrínseco à deriva de quem realizou seu destino praticamente sem apoio, nas franjas da cidade, como um declarado vagabundo, do tipo chapliniano. O errante, em Mário Gomes, diz sobre a falta de lugar no mundo de quem ousa andar na contramão, ou melhor, no “entre”, dentro, mas fora, em ziguezague existencial, persistindo em colar o que, no humano, se separou do animal - ou da ânima -, na colisão dos tempos. Mas diz também sobre a sobrevivência política dos “vaga-lumes”, imagem trazida pelo filósofo Georges Didi-Huberman para recolocar em jogo nuances entre a luz ofuscante da vida mercantilizada sob os holofotes da sociedade do espetáculo e os lampejos e pequenas chamas dos seres luminescentes que, em momentos de exceção, vagam intocáveis e resistentes, “como se uma luz pudesse gemer”, emitindo sinais de resistência, transgressão e inocência. “Clarão errático, certamente, mas clarão vivo, chama de desejo e de poesia encarnada”.
Passadas mais de quatro décadas de deriva e reação silenciosa ao choque paralisante da moral e dos bons costumes, gerando curtos-circuitos na engrenagem normativa e disciplinadora de um capitalismo cultural que exige produtividade e lucro diante da comercialização incessante de desejos e formas de vida, Mário Gomes acende um cigarro. Derby, comprado no retalho entre os muitos ambulantes do Centro que lhe confiam vender fiado, visto que a aposentadoria tarda mas não falha e o devedor em questão, desprendido da matéria, é de uma reconhecida honestidade. Com crédito na Praça e acenos por onde passa, há muito a tríade “casa, comida e roupa lavada” foi relativizada. Assim é que afirma, contundente: “Minha casa é meu corpo, meu carro também. Moro dentro dos meus sapatos, ora! Meu nome é Pensamento!”.
E se a apresentação impecável do poeta de outrora já não é mais a mesma, assim como encerrou-se a safra de poemas sobre papel, seu gênio permanece afiado, combinando perfeitamente com o casaco surrado junto à calça risca-de-giz amarrada com cordão. “Agora tá tudo na minha cabeça. A Oi capta tudo por satélite. Não precisa mais escrever. Fotografa e manda pela internet. Não é assim não?”, provoca o poeta, em dia com as notícias do Brasil e do mundo que ele “capta” em jornais que lê diariamente, sem falha. “Não leio mais livro e nem vejo mais filme. Tenho 66 anos, já li muita coisa!!! Então é só saber o que tá acontecendo. Você sabia que o Uruguai liberou a maconha? Pois foi. Mas o Brasil ainda não tem cabeça para isso!”, emenda, crítico.
Envergado sobre si mesmo, o homem-caracol, agora com vistas recaídas sobre o chão aonde pisa, ouve tudo e tudo vê, desta perspectiva mesmo, basta que lhe chegue uma provocação ou a palestra venha a interessar. Caminhando ao seu lado, é ele quem avisa sobre postes sem luz; calçadas deterioradas; fontes de água insuspeitadas; o melhor baião-de-dois do pedaço, a ele, e só a ele, gentilmente servido no balcão do Duda´s Burguer, em copo de plástico, como prefere; a hora exata da “fresca” para descer até o Centro Dragão do Mar e lá tomar um trago por sua conta; o número catastrófico de mortes violentas praticadas naquele mês em Fortaleza e o tipo de pássaro que, em revoada, sobrevoa a Coluna da Hora para depois segui-lo até próximo à Catedral, em uma cúmplice sinfonia ouvida diariamente.
Mário Gomes, o praticante ordinário da cidade, para usar Michel de Certeau, “joga com espaços que não se vêem e tem deles um conhecimento tão cego quanto no corpo-a-corpo amoroso”. Por último, inventou para si um guarda-roupas a céu aberto, onde casacos, calças e camisas estão embaixo de pedras e árvores que só ele identifica. Pelos olhos ardósia, a cidade que passa e também se refaz teimosamente não é a do Forte de Nossa Senhora da Assunção, fechada em si, monumentalizada, mal planejada ou aterrorizada diante das próprias feridas. Subtraído da lei do presente, Mário escreve e organiza em torno de si, como exímio aprendiz de uma história da não-linguagem, o romance de uma outra Fortaleza possível, aberta a outros modos de ser e de estar no mundo. A Fortaleza onde queremos viver e estar-com.
A imagem do poeta andarilho que entrou para o imaginário coletivo de uma cidade através de seu próprio engenho, inventando para si uma errância deliberada como extensão da franca recusa ao trabalho, alinhada à também confessa vocação para a boemia sem freios, é poeira nos olhos. E colírio pingado a conta gotas. Aos 66 anos, Mário Gomes perambula pelas ruas de Fortaleza desde a juventude, quando, aposentado por invalidez após controversas internações psiquiátricas, fundou o seu “mundo”: um “escritório” ao ar livre em plena Praça do Ferreira, coração do Centro, com direito à banco preferencial e audiência fiel para poemas escritos e recitados ao sereno, a qualquer hora do dia ou da noite, em estado de graça ou embriaguez.
Por anos a fio, o filho de dona Nenzinha e de seu Benedito - ela costureira, ele motorista -, vem fazendo da rua lugar de permanência e reinvenção de si. A casa da família, no bairro Bom Sucesso, serviu-lhe, na melhor das hipóteses, como mero dormitório. E o entra-e-sai fora de hora só deixara pistas de sua passagem relâmpago pelo ambiente doméstico graças a um refazer-se diário, à preparação minuciosa do corpo outsider para a gesta ambulante. Metido em trajes elegantes, o bon vivant sem posses, mas com carisma e inteligência incontestes, sensível às artes, dedicou-se a construir um personagem até hoje atento ao que veste e ao que lhe adorna precariamente, aos moldes de um dândi desafortunado das ruas. Assim, o paletó sem gravata virou marca-registrada, como também o charuto em punho e os sapatos bico-fino. Arranjo plástico que lhe conferiu singularidade em meio às informais rodas de conversa literárias improvisadas em torno do “escritório” do poeta da Praça do Ferreira, onde escritores e jornalistas de renome se misturavam a novos e anônimos, emergentes e anarquistas.
A camaradagem fez do poeta da Praça um dos mais reconhecidos no circuito alternativo de quem escreve por linhas tortas nas bordas da Academia. Mário Gomes conta oito livros de poemas publicados com o auxílio luxuoso de amigos endinheirados. E já venceu concurso de poesia “comendo lagartas e defecando borboletas” ou ainda armando uma orgia metafórica entre mulheres famintas que lhe devoraram em meio a um banquete antropofágico, para, ao final, salivantes, exclamarem: “como é gostoso esse Mário Gomes!”. Um homem para se comer com os olhos, é fato, lentamente, com desvelo.
| Foto Deivyson Teixeira |
Passadas mais de quatro décadas de deriva e reação silenciosa ao choque paralisante da moral e dos bons costumes, gerando curtos-circuitos na engrenagem normativa e disciplinadora de um capitalismo cultural que exige produtividade e lucro diante da comercialização incessante de desejos e formas de vida, Mário Gomes acende um cigarro. Derby, comprado no retalho entre os muitos ambulantes do Centro que lhe confiam vender fiado, visto que a aposentadoria tarda mas não falha e o devedor em questão, desprendido da matéria, é de uma reconhecida honestidade. Com crédito na Praça e acenos por onde passa, há muito a tríade “casa, comida e roupa lavada” foi relativizada. Assim é que afirma, contundente: “Minha casa é meu corpo, meu carro também. Moro dentro dos meus sapatos, ora! Meu nome é Pensamento!”.
E se a apresentação impecável do poeta de outrora já não é mais a mesma, assim como encerrou-se a safra de poemas sobre papel, seu gênio permanece afiado, combinando perfeitamente com o casaco surrado junto à calça risca-de-giz amarrada com cordão. “Agora tá tudo na minha cabeça. A Oi capta tudo por satélite. Não precisa mais escrever. Fotografa e manda pela internet. Não é assim não?”, provoca o poeta, em dia com as notícias do Brasil e do mundo que ele “capta” em jornais que lê diariamente, sem falha. “Não leio mais livro e nem vejo mais filme. Tenho 66 anos, já li muita coisa!!! Então é só saber o que tá acontecendo. Você sabia que o Uruguai liberou a maconha? Pois foi. Mas o Brasil ainda não tem cabeça para isso!”, emenda, crítico.
Envergado sobre si mesmo, o homem-caracol, agora com vistas recaídas sobre o chão aonde pisa, ouve tudo e tudo vê, desta perspectiva mesmo, basta que lhe chegue uma provocação ou a palestra venha a interessar. Caminhando ao seu lado, é ele quem avisa sobre postes sem luz; calçadas deterioradas; fontes de água insuspeitadas; o melhor baião-de-dois do pedaço, a ele, e só a ele, gentilmente servido no balcão do Duda´s Burguer, em copo de plástico, como prefere; a hora exata da “fresca” para descer até o Centro Dragão do Mar e lá tomar um trago por sua conta; o número catastrófico de mortes violentas praticadas naquele mês em Fortaleza e o tipo de pássaro que, em revoada, sobrevoa a Coluna da Hora para depois segui-lo até próximo à Catedral, em uma cúmplice sinfonia ouvida diariamente.
Mário Gomes, o praticante ordinário da cidade, para usar Michel de Certeau, “joga com espaços que não se vêem e tem deles um conhecimento tão cego quanto no corpo-a-corpo amoroso”. Por último, inventou para si um guarda-roupas a céu aberto, onde casacos, calças e camisas estão embaixo de pedras e árvores que só ele identifica. Pelos olhos ardósia, a cidade que passa e também se refaz teimosamente não é a do Forte de Nossa Senhora da Assunção, fechada em si, monumentalizada, mal planejada ou aterrorizada diante das próprias feridas. Subtraído da lei do presente, Mário escreve e organiza em torno de si, como exímio aprendiz de uma história da não-linguagem, o romance de uma outra Fortaleza possível, aberta a outros modos de ser e de estar no mundo. A Fortaleza onde queremos viver e estar-com.
Crônica de uma cidade-colombina
por Felipe Araujo
E vamos a mais um pré-carnaval. Sexta-feira é o início oficial segundo a programação da Prefeitura (embora inúmeros blocos já estejam a pleno vapor há alguns finais de semana). Daqui até quarta-feira de cinzas, a alegria será a prova dos nove. E tome Luxo da Aldeia, Sanatório Geral, Unidos da Cachorra, Concentra Mas Não Sai, Cheiro e inúmeros outros blocos do prazer a libertar nossos corações.
O evento, que começou a renascer como um marco público do calendário na segunda metade da década passada - com a chegada mais efetiva do poder público municipal no apoio à festa -, remonta, na verdade, a algumas décadas atrás, com estandartes como Periquito da Madame e o inesquecível Quem é de Benfica, de Dilson Pinheiro.
A festa chega a 2014 fortalecida pelo acúmulo de discussões e iniciativas desenvolvidas ao longo dos últimos anos. Destaque para o instituto do edital, que, à parte a necessidade de ajustes, democratiza o acesso ao recurso público; e para a criatividade e garra dos próprios blocos. Destaque também, e sobretudo, para a resposta favorável da população, que, por alguns dias, parece perder o medo de sair à rua, de se (re)encontrar com o espaço público, de (re)viver com o outro novos desejos e novas possibilidades de cidade.
“A colombina já morreu,/ E o palhaço ainda sou eu / A procurar nos blocos / Nas ruas e nos rostos / Tudo que a vida não me deu”, diz a linda melancolia de uma marchinha composta por Paulo Gomes – música do repertório do bloco Luxo da Aldeia, que dedica suas apresentações à celebração das composições de autores cearenses (de Petrúcio a Fausto, de Lauro a Ednardo). Pois o pré-carnaval e o carnaval são, pelo menos para este folião, uma oportunidade para procurar, nos blocos, fantasias e molecagens espalhadas nas ruas, um sorriso que, em relação à cidade, no restante do ano, nos tiraram do rosto; uma esperança (meio fugidia) de fazer valer a pena ser e estar por aqui.
Palhaço à espera de uma ingrata e por vezes cruel cidade-colombina, em nenhum outro momento do ano, me sinto tão fortalezense...
E vamos a mais um pré-carnaval. Sexta-feira é o início oficial segundo a programação da Prefeitura (embora inúmeros blocos já estejam a pleno vapor há alguns finais de semana). Daqui até quarta-feira de cinzas, a alegria será a prova dos nove. E tome Luxo da Aldeia, Sanatório Geral, Unidos da Cachorra, Concentra Mas Não Sai, Cheiro e inúmeros outros blocos do prazer a libertar nossos corações.
O evento, que começou a renascer como um marco público do calendário na segunda metade da década passada - com a chegada mais efetiva do poder público municipal no apoio à festa -, remonta, na verdade, a algumas décadas atrás, com estandartes como Periquito da Madame e o inesquecível Quem é de Benfica, de Dilson Pinheiro.
A festa chega a 2014 fortalecida pelo acúmulo de discussões e iniciativas desenvolvidas ao longo dos últimos anos. Destaque para o instituto do edital, que, à parte a necessidade de ajustes, democratiza o acesso ao recurso público; e para a criatividade e garra dos próprios blocos. Destaque também, e sobretudo, para a resposta favorável da população, que, por alguns dias, parece perder o medo de sair à rua, de se (re)encontrar com o espaço público, de (re)viver com o outro novos desejos e novas possibilidades de cidade.
“A colombina já morreu,/ E o palhaço ainda sou eu / A procurar nos blocos / Nas ruas e nos rostos / Tudo que a vida não me deu”, diz a linda melancolia de uma marchinha composta por Paulo Gomes – música do repertório do bloco Luxo da Aldeia, que dedica suas apresentações à celebração das composições de autores cearenses (de Petrúcio a Fausto, de Lauro a Ednardo). Pois o pré-carnaval e o carnaval são, pelo menos para este folião, uma oportunidade para procurar, nos blocos, fantasias e molecagens espalhadas nas ruas, um sorriso que, em relação à cidade, no restante do ano, nos tiraram do rosto; uma esperança (meio fugidia) de fazer valer a pena ser e estar por aqui.
Palhaço à espera de uma ingrata e por vezes cruel cidade-colombina, em nenhum outro momento do ano, me sinto tão fortalezense...
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Bruno Perdigão,
CONCENTRA MAS NÃO SAI,
Fausto Nilo,
Felipe Araújo,
luxo da aldeia,
MATEUS PERDIGÃO,
Paulo Gomes,
pré-carnaval de Fortaleza
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Mal de Percussion - Duo Moviola
Por Marcus Vinicius
Para minhas amigas batuqueiras.
Mal de Percussion (Duo Moviola)
Vê se para esse batuque
- Não dá, eu já tentei!
Teleco-teco
Tum-ca-ca
Tum-tum-ca-ca
Tum-tum-pa-pa-pa
A mão tem vontade própria
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
E quando pinta o breque
É um repique no vazio pra voltar
A mão se acaba ra-cu-tum pa-ra-cum-ta
Altera o tempo, que ela adora se mostrar
Tanta vergonha que essa mão me fez passar
E no elevador é um terror e coisa e tal
Descobre som entre o espelho e a parede lateral
O pé se empolga e vai fazendo a marcação
É, ela não pára não - não pára não!
Eu já fui atrás de um doutor que é muito bom
Ele me disse: "isso é Mal de Percussión"
Me receitou Lexotan, floral de Bach
Pra ela se acalmar - se acalmar.
Na falta de objeto ela me espanca
Bate na coxa, na bochecha e na garganta
Na minha cara sempre aquele vermelhão
Ela não pára não - não pára não!
Eu já comprei lá na de [???] a machadinha
Pra mim alívio, para ela o fim da linha
Só falta alguém que se habilite, por favor!
A machadinha na mão dela é um horror - horror, horror!
Vê se para esse batuque
- Não dá, eu já tentei!
Teleco-teco
Tum-ca-ca
Tum-tum-ca-ca
Tum-tum-pa-pa-pa
A mão tem vontade própria
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
"O bicho, o negócio é o seguinte. Vocês... cês tão achando tudo isso aí muito engraçado, né? Só que pra mim, isso é um tormento. Eu já fui nas Clínicas, me levaram na CED [?] também, fui no Hospital do Mandaqui, um monte de pronto-socorro aí. Fui no SUS, fui no Páscoa [?], não tinha. Meu, eu sofro com esse bagulho aí, cara! Fico todo dolorido. A mão não pára, não consigo comer, não consigo namorar, não consigo fazer nada. Desde que esse negócio aí, cara desse Barba* aí, inventou esse treco aí, bicho. Os caras ficam se batendo, aí e agora? Que que eu faço com isso? Nem um troco eu arrumo, os caras tão na Europa. E eu tô aqui, mano, na fila aqui do Peripiri..."
Para minhas amigas batuqueiras.
Mal de Percussion (Duo Moviola)
Vê se para esse batuque
- Não dá, eu já tentei!
Teleco-teco
Tum-ca-ca
Tum-tum-ca-ca
Tum-tum-pa-pa-pa
A mão tem vontade própria
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
E quando pinta o breque
É um repique no vazio pra voltar
A mão se acaba ra-cu-tum pa-ra-cum-ta
Altera o tempo, que ela adora se mostrar
Tanta vergonha que essa mão me fez passar
E no elevador é um terror e coisa e tal
Descobre som entre o espelho e a parede lateral
O pé se empolga e vai fazendo a marcação
É, ela não pára não - não pára não!
Eu já fui atrás de um doutor que é muito bom
Ele me disse: "isso é Mal de Percussión"
Me receitou Lexotan, floral de Bach
Pra ela se acalmar - se acalmar.
Na falta de objeto ela me espanca
Bate na coxa, na bochecha e na garganta
Na minha cara sempre aquele vermelhão
Ela não pára não - não pára não!
Eu já comprei lá na de [???] a machadinha
Pra mim alívio, para ela o fim da linha
Só falta alguém que se habilite, por favor!
A machadinha na mão dela é um horror - horror, horror!
Vê se para esse batuque
- Não dá, eu já tentei!
Teleco-teco
Tum-ca-ca
Tum-tum-ca-ca
Tum-tum-pa-pa-pa
A mão tem vontade própria
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
Bate que bate com a direita
Bate que bate com a canhota
"O bicho, o negócio é o seguinte. Vocês... cês tão achando tudo isso aí muito engraçado, né? Só que pra mim, isso é um tormento. Eu já fui nas Clínicas, me levaram na CED [?] também, fui no Hospital do Mandaqui, um monte de pronto-socorro aí. Fui no SUS, fui no Páscoa [?], não tinha. Meu, eu sofro com esse bagulho aí, cara! Fico todo dolorido. A mão não pára, não consigo comer, não consigo namorar, não consigo fazer nada. Desde que esse negócio aí, cara desse Barba* aí, inventou esse treco aí, bicho. Os caras ficam se batendo, aí e agora? Que que eu faço com isso? Nem um troco eu arrumo, os caras tão na Europa. E eu tô aqui, mano, na fila aqui do Peripiri..."
Roda de Frevo - no Kukukaya (2)
Por Marcus Vinicius
RODA DE FREVO
Sábado - dia 25 de Janeiro
Local - Kukukaya
Preço - R$10,00
Hora - 16 horas
RODA DE FREVO
Sábado - dia 25 de Janeiro
Local - Kukukaya
Preço - R$10,00
Hora - 16 horas
RODA DE FREVO NO KUKUKAYA
RODA DE FREVO
Sábado - dia 25 de Janeiro
Local - Kukukaya
Preço - R$10,00
Hora - 16 horas
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Vídeo da Roda de Frevo - Lúcio Flávio Vieira
Sábado - dia 25 de Janeiro
Local - Kukukaya
Preço - R$10,00
Hora - 16 horas
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Vídeo da Roda de Frevo - Lúcio Flávio Vieira
Definido percurso dos blocos pré-carnavalescos que desfilam na Praia de Iracema
A rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, é a nova rota escolhida para os foliões do Unidos da Cachorra, Bons amigos, Baqueta, Camaleões do Vila e Mio Ki. O percurso original dos blocos foi modificado por causa da interdição da avenida Monsenhor Tabosa. A decisão foi tomada na tarde dessa quarta-feira, 22, durante reunião entre o presidente da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania (AMC), Vítor Ciasca, e o secretário de Cultura do Município, Magela Lima, com representantes dos blocos pré-carnavalescos.
O ponto de concentração dos brincantes este ano será na avenida Almirante Tamandaré, de onde prosseguem pela rua dos Tabajaras até chegar ao Aterrinho. As avenidas Almirante Jaceguai, Almirante Barroso e Historiador Raimundo Girão ficarão livres para o tráfego de veículos.
Durante os dias de folia, será montando esquema especial de trânsito no sentido de coibir as infrações, principalmente, relacionadas a estacionamento irregular, e assegurar uma melhor fluidez aos foliões.
O ponto de concentração dos brincantes este ano será na avenida Almirante Tamandaré, de onde prosseguem pela rua dos Tabajaras até chegar ao Aterrinho. As avenidas Almirante Jaceguai, Almirante Barroso e Historiador Raimundo Girão ficarão livres para o tráfego de veículos.
Durante os dias de folia, será montando esquema especial de trânsito no sentido de coibir as infrações, principalmente, relacionadas a estacionamento irregular, e assegurar uma melhor fluidez aos foliões.
Luxo da Aldeia -Num sábado de janeiro... (fotos 3)
Por Marcus Vinicius
"Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente"
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Luxo da Aldeia - Num sábado de janeiro.... (Fotos 2)
Por Marcus Vinicius





| com Fernando Cesar, do Bloco Cachorra Magra |
| Os compositores: Paulo Gomes e Virgílio César |
| Com Roberto Félix |
| Com Vanda Nildes |
| Mauricio Lima e o compositor Marcus Dias |
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