Quem sou eu

Minha foto
Agrônomo, com interesses em música e política

domingo, 18 de março de 2012

Elis Regina por César Camargo Mariano (1)

César Camargo Mariano escreveu suas memórias. 
Estão no livro SOLO, lançado pela Editora LeYa.
Obrigatório para quem gosta de música. Excelente livro.
Devo publicar aqui,  as memórias de César sobre Elis. Eis a primeira.
Marcus Vinicius

Por César Camargo Mariano


Cesar Camargo Mariano
O bar ao lado do Teatro Record era um lugar de grandes conversas e servia de relaxamento das tensões, dos cansativos e corridos ensaios daqueles shows diários. Em um canto do bar, Caçulinha contava histórias e aventuras hilariantes; em outro, Ciro Monteiro sempre tinha um causo sobre alguma música ou sobre compositores de uma época em que eu nem sabia que um dia seria músico; Ronnie Von falava de seu avião e seus carros, todos azul-marinho; Simonal, Erasmo, Wanderléa, Elizeth, Hebe Camargo...todos ficavam ali, se descontraindo, trocando informações e tomando café naquela uma hora que tínhamos antes do início de cada programa.


Todos os dias, praticamente, eu convivia com o cast inteiro da Record, fazendo grandes amizades. A única pessoa que raramente aparecia no bar e, portanto, com quem eu não tinha o menor contato era a ELIS.


Lembro que tinha acabado de entrar no teatro, no início da tarde, e estava indo em direção aos camarins quando, virando a esquina de um corredor, demos um superencontrão. Elis estava chorando. O cabide de roupas que eu carregava caiu no chão, misturando-se com seus livros, sua bolsa e mais um monte de papéis que ela trazia nas mãos. Pedi desculpa, e ela chorava muito enquanto juntávamos as coisas no chão.


- Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? - perguntei
- Nada - respondeu. E sumiu.






O Zimbo Trio, que era o trio, digamos, oficial da Elis e do programa O Fino da Bossa, foi fazer uma apresentação fora do Brasil naquela semana, e Manoel Carlos, então, escalou o SOM 3 e o quinteto do Luiz Loy para o programa. Seria a primeira vez que eu ia tocar com ela.


Nos ensaios dentro de um dos camarins, o clima foi tenso. Sabá e Toninho já tinham trabalhado e gravado com ela quando ainda eram o Jongo Trio, e aconteceu alguma coisa entre eles que, aparentemente, ainda não estava resolvida. De minha parte, era somente mais uma cantora que eu ia acompanhar, apesar de existir uma coisa que estava meio que pesando sobre a minha cabeça, que era a responsabilidade de substituir o Zimbo, tocando exatamente os mesmos arranjos de dois sucessos dela. Eram somente duas músicas, mas a situação era meio delicada. O clima ficava cada vez mais tenso à medida quew íamos ensaiando. Ela, sentada em uma cadeira, ao lado do piano, nem sequer olhava pra mim. Não falava nada: nem sim, nem não, nem tá bom ou está ruim. Nada.


Quando as duas músicas ficaram prontas e já íamos para o bar ao lado relaxar um pouco, ela me chamou:
- Tô com vontade de cantar mais uma com vocês - disse timidamente sem se levantar da cadeira e olhando para o chão


Era a música nova do Edxu Lobo que ela ainda não havia cantado.
Voltamos para os instrumentos, e fiz o arrajo de "Upa, Neguinho".
E foi só.

Do Livro:
SOLO - Cesar Camargo Mariano - Memórias - Editora LeYa - 2011

sexta-feira, 16 de março de 2012

O ECAD E A CHURRASCARIA ZÉDIA LENCAR

Rogério Lama
Por Rogério Lama

Depois de ler umas postagens feicebuquianas  do Bruno e do Mateus (ambos Perdigão), lembrei de um "causo" que aconteceu comigo faz mais de 10 anos.

Era uma apresentação da Orquestra Eleazar de Carvalho no Teatro José de Alencar. O Maestro Márcio Landi tinha convidado o Maestro Orlando Leite para reger o grupo.

Fiz alguns convites a amigos e nada. Das duas uma: meus amigos fingem que gostam de música ou eu não sou boa companhia. Pior que isso, pode ser que eles finjam que eu seja boa companhia. Melhor não pensar nisso. Plano de saúde não cobre psicólogo. Humpf... como se eu tivesse plano... 

A verdade é que segui para mais um show.

Com uma hora de antecedência já estava na porta. Peguei o programa na recepção e passei a folheá-lo, naquele espaço que há entre o foyer e a sala principal. Por ser um concerto no meio da semana, até que tinha bastante gente. Pouco tempo depois, se aproximou devagar um rapaz segurando sob o braço uma surrada valise de couro sem a alça e folheando o programa do espetáculo. Passava as páginas intercalando o gesto de segurar o queixo com a arrumação da valise sob o braço. 

Maestro Orlando Leite
Depois de pigarrear um pouco e ajustar as calças, disse:

- Desculpe, amigo. Conhece esses compositores? - disse, abrindo o programa na minha cara.
- Depende do que você considere conhecer – respondi meio que no susto.
- Digo assim, você sabe de onde eles são, quais estão vivos... essas coisas. 

Dei uma revista rápida, sem tempo de estranhar a pergunta, e sentenciei:

- Só tem gente morta ai.
- Então Mozart morreu... - numa entonação difícil de definir se era uma pergunta ou uma afirmação consternada. 

E emendou com um: 

- Faz tempo?
- Mais de 200 anos.
- Tá... e brasileiros? Tem brasileiros nessa lista?
- Tem esses aqui, ó: Villa Lobos e Radamés Gnatalli.
- E esses também morreram tem muito tempo?
- Olha, o Villa se foi na década de 50. Já o Radamés, eu não sei ao certo, mas tenho disco dele gravado na década de 80.

Ouvindo isso, tirou uma caneta da valise e circulou o nome dos brasileiros no programa. Mordeu a tampa da caneta por um tempo e apontou:

- E esse Liduíno Pitombeira? 
- Esse ai é um cearense, tá vivinho, mas não compôs nenhuma das peças. Ele arranjou uma delas.

Franziu a testa quando falei "arranjou", mordeu mais um pouco a tampa da caneta e riscou o nome do russano da sua misteriosa lista.

Nesse momento eu já queimava de curiosidade com aquelas perguntas descabidas, mas era incapaz de perguntar a razão delas.
Em silêncio, remexeu papéis na valise e perguntou sem me olhar:

- Conhece o ECAD?
- Sei o que o ECAD faz.
- Pois é. Trabalho lá e vim inspecionar essa apresentação.
- Como assim? Veio cobrar direito autoral por uma apresentação gratuita?
- Isso! Mas no programa só tem a galera das antigas. Menos esse Radamés, que é mais novo, né?
- E como você vai fazer pra taxar a música do Radamés e isentar a música do Mozart?
- Não sei! Meu negócio é medir restaurantes com uma trena e preencher esse documento aqui, ó! - tirou um papel de dentro da maleta que mais parecia um escritório portátil - Nem precisa ter seresta, basta uma caixa de som!
- E quem você vai autuar? O Governo? A Orquestra? O Teatro? Ou seremos nós, que vamos assistir ao concerto?
- Essa orquestra é do governo?
- Quem trabalha no ECAD é você!
- Hmm... quem paga é a casa – disse hesitante.

Toca a sirene avisando que faltam poucos minutos para o começo da apresentação. 

Então disse:
- Vou entrar pra pegar um lugar bacana. Até mais.
- Obrigado pela ajuda, viu?

Acenou e seguiu curvo e desajeitado o agrimensor das artes e sua maleta atulhada da insensatez.

quinta-feira, 15 de março de 2012

República Dominicana - Música

via  Thais Andrade

Eleições 2012 (2) - A PRIVATARIA TUCANA

Por Marcus Vinicius


Já que as eleições se aproximam e a temporada de caça está aberta, uma dica: compre e leia ou só leia o livro "A PRIVATARIA TUCANA" de Amaury Ribeiro Jr, lançado pela Geração Editorial.
O livro faz parte da colação História Agora e mostra com farta documentação sobre as "irregularidades" nas privatizações durante o governo FHC. Mostra também como familiares e amigos de políticos tornaram-se novos ricos nas Ilhas Virgens Britânicas. Aliás, um desses políticos está se candidatando a candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB.
O livro mostra também as disputas por espaço e poder dentro de uma campanha eleitoral. Especificamente as disputas na área da comunicação da campanha de Dilma Rousseff a presidência da República.
O livro que passou em brancas nuvens pela grande imprensa será lançado hoje as 19 horas no Auditório da Faculdade de Direito da UFC.
http://diumtudo-marvioli.blogspot.com/2012/03/convite.html

terça-feira, 13 de março de 2012

Eleições 2012 (1) - O debate e um novo jeito de governar

Iniciamos com o artigo do Leonardo Sampaio, publicado no O POVO,  uma série de postagens, Eleições 2012 - Fortaleza (Marcus Vinicius)


Por Leonardo Sampaio


Estamos em um ano eleitoral no qual o debate político administrativo e ideológico deve ser o eixo da discussão a partir de projetos transformadores que apresentem metodologia participativa com visão intersetorial e que apontem propostas de gestão para além do criticismo, muitas vezes vazio, distante da realidade e que costuma tomar o momento de eleição.

A crítica é bem-vinda quando ajuda a refletir e a corrigir algo que possa passar despercebido, ou até mesmo quando desperta para tirar da comodidade. A crítica também pode ser cega, raivosa, destrutiva, vingativa, maldosa, mentirosa, descabida e ainda pode ter como propósito manipular e desinformar com falácias desproporcionais à realidade.

A crítica muitas vezes tem o propósito de desinformar. Nesse caso, apresenta-se com certa sutileza. Mas bastaria um pouquinho de senso crítico do observador para perceber se está se levando em conta o funcionamento da máquina pública da forma como ela é, departamentalizada, ou seja, o que é de um setor não pode ser gasto no outro, por exemplo.

Para que a máquina administrativa funcione como um todo, todas as peças são importantes. A grande dificuldade das administrações públicas é engrenar todas as peças, a partir da intersetorialidade, onde o conjunto das ações esteja interligado e com olhar da sociedade, já que a população entende a gestão pública como um todo, na sua integralidade, tendo como base suas necessidades.

É daí de onde deve partir o debate político administrativo e ideológico apontando para um novo jeito de governar a máquina pública, prevendo desenvolvimento ecológico e sustentável e equipamentos tecnológicos modernos, que garantam formação, capacitação, atendimento, emprego e renda direcionados à juventude.

Esse novo jeito de governar precisa fazer parcerias com as esferas federal e estadual, com a iniciativa privada e com o terceiro setor para oferecer qualidade nos serviços e melhoria de vida à população.

O debate deve ser nessa linha de raciocínio e não apenas na visão eleitoreira. É preciso com inteligência elevar o nível das discussões políticas, porque a crítica não pode ser cega, nem a sociedade pode se acomodar. Tem que debater, criticar, propor e participar como protagonista de um novo modelo de gestão pública que proporcione direitos e acima de tudo busque a emancipação humana.
http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/03/13/noticiasjornalopiniao,2800592/o-debate-e-um-novo-jeito-de-governar.shtml

segunda-feira, 12 de março de 2012

O início, o fim e o meio

Por Marcus Vinicius

Vem aí o filme Raul - O início, o fim e o meio de Walter Carvalho - estréia dia 23 de março nos cinemas.

sexta-feira, 9 de março de 2012

... mas quem paga a conta?

Por Ronildo Mastroianni

Amigas

Ronildo Mastroianni
O 8 de março é comemorado no mundo, o Dia Internacional da Mulher, ou seja dos 365 dias do ano, 364 são do homem;

As mulheres só tiveram o direito de votar, de fato, ainda que, por concessão do governo de Getúlio Vargas em 1932: detalhe só as casadas e que tivessem permissão dos maridos. Em 1946 a mulher de passou a efetivamente exercer o direito de votar igualmente os homens vinham fazendo desde 1532, essa conta é fácil, são 400 anos;

No Brasil, após 122 anos de homens se reversando na presidência da República, uma mulher assumiu esse cargo. Foram 34 homens anteriores a Dilma Rousseff.
Será que os outros homens presidentes eram tão competentes e as mulheres necessitaram de quase um século e meio para construir essa competência?

A agricultura foi inventada pela mulheres a aproximadamente 9 mil anos, porém quem recebe maiores estímulos e créditos para o exercício dessa atividade são os homens em qualquer parte desse Brasil e na maioria dos países do mundo.

As Forças Armadas do Brasil existem oficialmente desde 1808, porém somente em 1943, mais de um século depois as mulheres puderam ingressaram no Exército Brasileiro. Mesmo assim, permanecem em cargos de "cuidadoras ou socorristas" por que será isso? Porque os grandes cargos e patentes só ficam para os homens?

O dia 15 de outubro de 1827 foi consagrado à educadora Santa Teresa de Ávila, porém somente em 1947, 120 anos após a instituição desse dia, ocorreu a primeira comemoração efetivamente dedicada a essa categoria, e a partir de então passou a ser o Dia do Professor e não o Dia da Professora ou Educadora... fala sério!

A primeira Faculdade de Medicina foi criada em 1808, pelo príncipe regente D. João VI, porém sete décadas depois, ou mais de meio século depois ocorreu a primeira matricula de uma mulher na faculdade de medicina, foi a gaúcha Ermelina Lopes Vasconcelos...

A Ordem dos Advogados do Brasil, cujo nome inicial era Instituto dos Advogados do Brasil, existe desde 1843, porém, somente no inicio do século XX as mulheres passaram a ingressar na OAB, as pioneiras foram Myrthes de Campos e Leonilda Daltro, isso há mais de um século depois...

Ainda hoje, as mulheres recebem um salário menor que os homens para assumir o mesmo cargo e as mesmas responsabilidades...

Hoje o tempo de atendimento no serviço de saúde pública é menor para as mulheres negras, se comparado com o mesmo tipo de atendimento para as mulheres brancas;

Ainda hoje as principais vítimas da violência que ocorrem dentro das casas, ou seja a violência doméstica, são as mulheres as crianças e os idosos/as...

Ainda hoje, prioritariamente, a responsabilidade de fazer a alimentação da família, limpar, lavar cozinhar e cuidar dos idosos/as dentro da família, são atribuições colocadas para as mulheres...

Ainda hoje, a cada ano cresce o número de mulheres violentadas e mortas no Ceará, em 2009 houve aumento de 46% comparado 2008; em 2010 o aumento foi de 12% comparado a 2009, em 2011 segue o no mesmo ritmo...
Os motivos são espetaculares: intolerância, ciúme, possessão, agressividade, machismo!

Bem, acho que de fato devemos comemorar o dia 8 de março, como um dia de luta, um dia de superação sim!;

Para os homens está tudo muito bem obrigado, porque tudo, absolutamente tudo é construído a partir do referencial masculino.

Como não cumprimentei com a palavra amigos no início dessa mensagem, é bem provável que alguém não tenha gostado e talvez não tenha chegado a ler o conteúdo dessa mensagem...

Pra finalizar: Que todos e todas, principalmente as mulheres, possam vivenciar o cotidiano de uma forma crítica, de como são vistas dentro dessa sociedade "moderna" que usa os artifícios do capitalismo e do patriarcalismo para perpetuar o que historicamente vendo estruturando as desigualdades de classe, raça e gênero, obviamente em níveis diferenciados, porém recorrente em todas os canto e sociedades do mundo.

Essa sim seria a maior revolução que poderíamos ter.

Justiças, igualdade e efetivação de direitos para todas, para todos.
E aí: vamos comemorar! Mas quem paga essa conta?

Ronildo Mastroianni é Agroecologista e Agrônomo do Esplar – Centro de Pesquisa e Assessoria


Sobre times e clubes

Por Felipe Araújo


Felipe Araújo
No futebol, há dois tipos de gestão: de time e de clube. A primeira, ligada às questões mais comezinhas do dia a dia, indo apenas “da mão pra boca” e raramente divisando algum horizonte além das demandas prementes das quatro linhas. A segunda, mais consistente e complexa, lida com projetos de longo prazo, voltados ao fortalecimento institucional dessas “empresas” esportivas. 
No futebol cearense, esse secular fracasso administrativo (mas pelo qual, ressalto, sou apaixonado), sempre imperou a lógica da gestão de time. Ou seja, veja-se quem há para colocar em campo, fé em Deus e pé na tábua. Esse modelo, alimentado pela paixão dos torcedores (e pela ingenuidade dela decorrente de modo inexorável), fez a glória de inúmeros demagogos e oportunistas de plantão (certos radialistas e profissionais de imprensa, alguns líderes de torcida organizada, dirigentes corruptos, políticos, etc).
Apenas de uns anos pra cá, nossos principais clubes dão sinais de que estão dispostos a traçar caminhos mais consistentes em termos de planejamento e gestão. O Ceará, sob a batuta de Evandro Leitão, renasceu das cinzas. O jovem presidente organizou a casa alvinegra, saneou suas dívidas, retomou o prestígio nacional do clube e vem semeando ações de longo prazo. O Fortaleza não quis ficar pra trás e ensaia voos semelhantes, incluindo a perspectiva de um centro de treinamento moderno e bem estruturado na Região Metropolitana e uma forte campanha de marketing em torno do sócio-torcedor.


Outro dia um interlocutor me fez a provocação: em nosso futebol, o que se chama de “boa estrutura” é pagamento em dia. Não deixa de ser uma incômoda verdade. Entre alvinegros e tricolores, tudo ainda é muito incipiente no terreno da gestão de clube. E contentar-se com o que está posto é denunciar nosso complexo de vira-latas. Mas é importante saudar - até para que não voltemos mais uma vez à estaca zero - o que vem sendo feito. O que nos separa dos grandes clubes do País é a continuidade dessa opção.
Clubes com uma gestão fortalecida produzirão times mais qualificados - nunca o contrário. Mesmo porque futebol é jogo, e um jogo onde, mais do que todos os outros esportes, sempre se pode contar com o imponderável. Times perdem e ganham, sobem e descem de divisão. É do jogo. Já os clubes, não. Aqueles bem estruturados ganham sempre - independente do resultado dentro de campo.

COPA DO MUNDO DE 2014

Por André Lima Sousa

O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse que o Brasil precisa de “um chute no traseiro” para acelerar as obras da Copa. O governo brasileiro está certo em não aceitá-lo como interlocutor da Fifa?

SIM - Além de rejeitar o senhor Valcke como interlocutor, o governo brasileiro poderia garantir os direitos que estão ameaçados pela Lei Geral da Copa, vetando-a no Congresso, já que estes são os reais motivos das infelizes declarações do integrante da Fifa.
O Brasil tem larga experiência na organização de megaeventos esportivos. Sabemos que a Lei Geral não é necessária para que a Copa transcorra com sucesso.


A referida lei fere a soberania brasileira ao permitir que uma empresa privada internacional (a Fifa) interfira de forma indevida nas normas nacionais. Não devemos aceitar isso. Vetar a Lei Geral é garantir o direito à meia entrada para estudantes e idosos, é não deixar mexer no Código do Consumidor, é dizer não ao monopólio comercial dos patrocinadores da Fifa – que desfavorece os pequenos e médios comerciantes locais, é não restringir a exibição dos jogos em bares, restaurantes e locais públicos, é manter a carga horária escolar integral, é não permitir abusos na lei de patentes e nem a privatização do hino e da bandeira nacional, é não abrir mão do Estatuto do Torcedor, é manter a proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios, é não permitir o maior recrudescimento do Código Penal brasileiro.



Sediar a próxima Copa do Mundo proporciona ao Brasil a excelente oportunidade de demonstrar ao mundo que é possível realizar um evento autêntico, livre de interesses obscuros que visam só o lucro fácil e que nada tem a ver com a paixão pelo futebol.

Milhares de pessoas já vêm fazendo a sua parte, na fiscalização, na denúncia de irregularidades e do hiper endividamento do Estado e dos municípios, na exigência de participação popular e transparência, na resistência contra as remoções forçadas. O Comitê Popular da Copa convoca você a participar dessa seleção! #FifaBaixaBola.

quinta-feira, 8 de março de 2012

8 DE MARÇO

Por Marcus Vinicius

ELIS REGINA
EMMA GOLDMAN
MARIA BONITA
INGRID BERGMAN
DONA IVONE LARA
LEILA DINIZ
CHIQUINHA GONZAGA
NAIR DE TEFÉ - (RIAN)
PAGU
SIMONE WEIL

Janis Joplin
Billie Holiday

 

terça-feira, 6 de março de 2012

Cinquenta Anos (Cristovão Bastos/Aldir Blanc)

por Alfredo Pessoa
Capa do CD - 50 anos



Esta música foi feita para os cinquenta anos de Aldir Blanc. Na ocasião foi gravado  um excelente trabalho de músicas de Aldir com outros compositores e com diversas participações (Aldir Blanc: 50 anos -1996, Alma Produções). O resultado é um primor e vai além da parceria com João Bosco. Na época foi vendido nas bancas de revistas, vale a pena conferir.


Cinquenta Anos (Aldir Blanc/Cristovão Bastos)

C6(9) C6(9)/G C7(9) C7(9)/G F6/C Fm6/C    
[C6(9) C6/9/G]                                           F6/C   
Eu vim aqui prestar contas. De poucos acertos 
Fm6/C            C7+ [C6(9) C6(9)/G] 
De erros sem fim. Eu tropecei tanto, às tontas, 
F#7(b5)   Dm6/F     E7(b13)  
Que acabei chegando. No fundo de mim  
Am7+          Fm6/Ab C/G   
O filme da vida         Não quer despedida 
F#m7(b5)     B7(b9)      Em7+/9 Em7(9)  
E me indica,            acha a saída 
A4/7(9)   A7(9)       C/D D4(7/9)/13 D4(7/9) F#/G# G4/7(9) G4/7(b9)    
E pede socorro onde a lua                            Encanta o alto do morro 
C7M C7M(#5)       C7M/6    C7M(#5)  
E gane que nem cachorro  
C4/7(9)                       C7(9)        C7(b9) F7M  F7 F6 F7  
Correndo atrás do momento que foi vivido   
Fm6           E7(b13)     Am7        Am7M           Am7    
Venha de onde vier. Ninguém lembra porque quer  
F#m7(b5)              B4/7(9)  B7(b9)  
Eu beijo na boca de hoje 
Fm7(9)                 Bb7(13)  
As lágrimas de outra mulher  
[C6(9) C6(9)/G]  
Cinquenta anos são bodas de sangue 
F6/C                                         Fm6/C  C7+ 
Casei com a inconstância e o prazer, 
[C6(9) C6(9)/G]                                        Gm7              C7(9)  C7(b9)  
Perdôo a todos, não peço desculpas. Foi isso que eu quis viver  
F6                       Ab6  
Acolho o futuro de braços abertos 
C/G                    A7(13)               A7(b13)  
Citando cartola: "Eu fiz o que pude" 
[D7(9) Am6]              G4/7(9) G7(b9)        [C6(9) C6(9)/G]
Aos cinquenta anos, insisto na juventude!
Fm6 Bb7/9 Am7+ Am7 Gm7/9 C7/9 C7/9- F7+ F7 F6 F7 Fm6 (Venha)

Chico, Caetano e a canção

Romulo Fróes
por Romulo Froes

Muito tem se discutido sobre uma possível crise da canção e da própria música popular brasileira, mas penso ser esta uma avaliação apressada e o erro está na observação do problema. A música brasileira tem se renovado não mais somente pela composição, mas principalmente por meio de uma experiência coletiva nova que se dá através do acesso facilitado à tecnologia de gravação. É pelo som que a música brasileira está se transformando. Através dos trabalhos mais recentes de Chico Buarque e Caetano Veloso, vou tentar identificar traços dessa renovação e o modo como cada um vem lidando com esse problema.

Chico (2011), o mais recente lançamento de Chico Buarque, faz parte de um momento muito importante de sua discografia, em que incluo também As Cidades (1998) e Carioca (2006). Entre a gravação destes dois, ele concede a famosa entrevista a Fernando de Barros e Silva, em que discorre sobre um possível esgotamento histórico da canção. As músicas que compõem estes três álbuns parecem tomadas por este pensamento.

Chico inventa um personagem andarilho que aparece sempre na primeira faixa de cada disco, como se a cada trabalho saísse por aí para topar com as novidades do mundo. “Gostosa, quentinha, tapioca, o pregão abre o dia, hoje tem baile funk, tem samba no Flamengo, reverendo no palanque lendo o apocalipse (…)”, os versos de Carioca, canção que abre As Cidades, se desenvolvem sobre uma harmonia fendida que distende a melodia até o limite da nitidez. É difícil cantá-la, pois segue fluida, como que procurando seu prumo. E quando finalmente o encontra, já é tarde demais para compreendermos o seu desenho.

Ao iniciarmos de novo a melodia, não nos lembramos mais dela. Sem rima aparente, a letra conduz o personagem num travelling desorientado pela cidade. Dando liga a pessoas e acontecimentos distintos e sem tentar compreendê-los, vai descrevendo uma cidade e um cotidiano novos em sua música. Subúrbio, faixa que abre o álbum Carioca, avança ainda mais em direção a essa outra cidade, vai ao “avesso da montanha” onde “não tem brisa, não tem verdes-azuis, não tem frescura nem atrevimento”. Talvez espere encontrar nesse outro Rio novos caminhos para sua canção. Em Querido Diário, faixa que abre o disco novo, este andarilho adquire uma certa melancolia, não se encontra mais em sua própria cidade, que anda em contramão.

A movimentação que Chico imprime a este personagem movimenta também sua canção. Provoca nela um esgarçamento, em que a melodia é muitas vezes esticada até sua quase desintegração. A ponto de virar fala, mas ainda possível de ser cantada.

Sua obra recente parece encontrar um novo caminho para a sua música, mas encontra nele mesmo o adversário que dificulta sua plena realização. Chico sempre manteve certo distanciamento (admitido por ele em mais de uma entrevista) com a produção de seus discos. Talvez por isso nunca alcançaram a importância de suas canções. Todos conhecem Construção, poucos sabem dizer o nome de outras faixas que pertencem ao disco que leva este título, um dos mais importantes de sua carreira. Essa dualidade entre o compositor e o intérprete permanece nos trabalhos recentes, pois se as canções parecem apontar um novo caminho não só para sua obra, mas para a própria canção brasileira, nos discos elas regridem ao escalonamento um tanto simplista do seu produtor musical.

Luiz Cláudio Ramos, seu arranjador desde 1989, parece orientado por uma correção escolar, querendo consertar os ‘defeitos’ das composições de Chico, como em Dura na Queda, um dos mais belos e estranhos sambas de todo o seu repertório, escrito para Elza Soares e gravado por Chico em Carioca. Na gravação de Elza, sua linda melodia desliza como a personagem da canção, ‘desfila natural’ sobre uma pulsação cambaleante, com seu tempo forte camuflado. A gravação de Chico ‘corrige’ essa pulsação, revelando seu tempo forte e pondo a canção literalmente no chão. Os arranjos escritos por Ramos tendem ao fisionômico, enfraquecem as letras, numa tentativa de tradução inocente e anacrônica, como acontece em Querido Diário.

Ao se alcançar o verso “armou tocaia lá na curva do rio”, na busca de construir a imagem que a letra sugere, os instrumentos produzem sons que emulam água, pássaros, vento. Às vezes, o título é que determinará sua feição – dessa maneira, As Atrizes, faixa de Carioca, recebe tratamento orquestral típico dos musicais de cinema americano, numa redundância que nada contribui para a canção. Não há enfrentamento ali, um samba é apenas isto, um samba, uma valsa é uma valsa, um choro é um choro. Assim, Tipo um baião, outra faixa de Chico, perde a dubiedade estampada no título, e é finalmente transformada em um baião.

Francisco Bosco escreve em seu artigo O Artista e o Tempo que Chico atingiu o encontro perfeito entre forma e história e que soube manter e desenvolver sua forma, a certa distância formal da história. No mundo de hoje, talvez este distanciamento não seja mais possível em um projeto de renovação. Caetano, por sua vez, sempre ligado ao aqui e agora, quando parece ter simplesmente ignorado o presente, penso que houve um certo desvio em sua trajetória. Eu me refiro ao período de um pouco mais de uma década de colaboração com o músico e maestro Jaques Morelenbaum.

Caetano já disse que Morelenbaum fez com que perdesse muito do medo que tinha da música. Talvez isso explique o movimento em direção a uma produção mais sofisticada, de arranjos orquestrais extremamente formatados e sem espaços para improvisação, negando aquele saudável amadorismo sempre presente em sua obra. Longe dos experimentos tropicalistas de Rogério Duprat, próximo do que fez Dori Caymmi para Domingo (seu disco de estreia ao lado de Gal Costa) e, por que não notar, dos discos de Chico Buarque, ainda que com resultados muito superiores. Não por acaso seu canto se apura nesses trabalhos, parece querer acompanhar o aprimoramento técnico de sua banda. Discos que privilegiam o intérprete em detrimento do compositor se sucedem. Caetano vinha numa evolução que se configurava como um projeto de maturidade, quando esse processo é interrompido.

Cê (2006) e Zii e Zie (2009) trazem à cena um novo protagonista em seu trabalho, o guitarrista Pedro Sá, um dos nomes mais importantes de uma nova geração de artistas ainda pouco comentada. A banda montada por Pedro Sá com outros talentosos músicos desta geração (Marcelo Callado na bateria e Ricardo Dias Gomes no baixo), provocou uma transformação na sua canção. Parece óbvia essa afirmação, pois é claro que o som de um violão, uma guitarra, um violoncelo ou um cavaquinho, cada um com sua característica, muda nossa percepção. Mas não só o som do instrumento tem importância aqui. O modo como ele é captado e a manipulação do seu timbre através dos inúmeros equipamentos de um estúdio de gravação serão tão ou mais importantes. Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música.

A canção de Caetano nestes dois discos foi influenciada por este comportamento e é devido exatamente à nossa intimidade com sua obra que notamos mais claramente uma transformação. Se compararmos, por exemplo, com um de seus trabalhos mais celebrados, o álbum Transa, há de se notar diferenças na sua relação com os músicos. Mais do que pelas próprias canções apresentadas, a banda que gravou Transa parecia influenciada pelo comportamento e pela música produzida naquela época – era isso o que a motivava, na busca do som adequado às canções. Com a banda Cê (nome com que batizou sua banda atual), Caetano parece compor para o som que ela produz. Um som de rock, como o de Transa, mas menos desbundado que os anos 1970, mais sombrio, próximo de bandas como Pixies e Sonic Youth e que se mostrou perfeito para a leva de canções carregadas de raiva e frustração apresentadas em Cê.

Em Zii e Zie, 2º disco gravado com essa mesma banda, os sinais de renovação de Caetano ficam mais claros. Em Perdeu, que abre o disco, já é possível notar uma novidade. A canção, rasgada por um riff de guitarra, acompanhada em uníssono pelo baixo e pela bateria, confere à melodia uma rigidez quase mecânica, travando sua evolução, tornando-a menos nítida, quebrada, quase falada – o canto é áspero, diferente daquele a que nos acostumamos. É difícil saber o que diz a letra, as rimas estranhíssimas se desenvolvem fraturadas pelo groove da banda, trazendo um vocabulário inédito à sua lírica, mais erótico do que já foi, quase pornográfico, “(…) colheu, esticou, encolheu, matou, furou, f…, até ficar sem gosto. Ganhou, reganhou, bateu, levou, mamãe, perdeu, perdeu (…)”.

O encontro de Caetano com a nova geração de artistas e este novo comportamento em relação à música brasileira, acabou por encontrar e recuperar a carreira de Gal Costa. Gal há muito tempo fora dos estúdios e que havia se transformado numa intérprete burocrática de clássicos da MPB volta a ser a voz ideal para as experimentações de Caetano. Em Recanto (2011), disco mais recente da cantora produzido por ele e Moreno Veloso, Caetano se aprofunda ainda mais no trabalho dentro do estúdio. Apoiado quase totalmente sobre bases eletrônicas, em sua maioria programadas por Kassin (músico e produtor), Caetano compôs canções duras, impenetráveis, de letras um tanto desagradáveis e que modificaram o canto de Gal, tornando-o menos exuberante, de registro mais baixo, com notas graves desconhecidas até então. Tão belo quanto já foi. De uma beleza surgida de elementos comumente não reconhecidos como belo. Do tipo que Caetano sempre perseguiu e que voltou a aparecer em seus trabalhos recentes.

Se a canção vive mesmo uma crise e não tem a mesma relevância na transformação cultural do nosso país, é porque vivemos um tempo diferente, o que envolve questões que vão muito além do modo como nos relacionamos com ela. A pergunta pertinente, agora, é se ainda precisamos de canções. Chico e Caetano seguem ligados por suas diferenças, mas principalmente pela estreita relação que mantêm com a canção brasileira. Chico, acreditando ainda numa renovação através da composição. Caetano, voltando a se alinhar com o presente atrás dessa renovação. Talvez seja justamente pelo comportamento inalterado destes dois grandes artistas que ela ainda demonstre imensa vitalidade. O tempo, afinal, para Chico e Caetano, parece no fundo ser o mesmo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

FILIPE CATTO _ JURO POR DEUS



Juro poe Deus (Filipe Catto)

Juro por Deus, já pensei até mesmo
Em provar do extremo
De misturar sonrisal, guaraná
Rum, cachaça e veneno
Ou barbitúricos batizados de bourbon
Quando você me deixou
Dormindo em casa e foi à zorra, amor

Juro por Deus, já olhei tantas vezes
Pro quintal
Um nó bem dado bem na corda do varal
Pra te punir ou não, quem vai saber?
Não me surpreenderia
Tua alegria mórbida ao amanhecer

Foi quando o samba chorou outra vez
E o nó pesado esquecido no peito desfez
E eu me banhei, eu me perfumei
E então decidi
Usar o decote mais abusado que existir

E eu vou abrir a fenda até o meu umbigo
E eu vou dormir com
Aquele teu melhor amigo
E me matar de ciúme por ti?
Ah! Por favor!
Se é pra morrer
Que morra você, meu amor

FILIPE CATTO _ AVE DE PRATA



Ave de Prata ( Zé Ramalho)


É muito mais do que muito
Muito mais do que quantos anos todos piorei
É muito mais do que mata
Muito mais do que morrem todos pela planta do pé
É muito mais do que fera
Mais do que bicho
Se quiser procriar
Uma espécie: sementes da água mistérios da luz
É muito mais do que antes
Mais do que vinte anos multiplicar
Dividir a mentira entre cabelos, olhos e furacões
Inventar objetos
Pela esfinge
Quando era mulher
Ave de prata
Veneno de fogo
Vaga-lume do mar
O mar que se acaba na areia
Gemidos da terra apoiados no chão
Entre todos que usam os dentes do arpão
Apoiados em cada parede pela mão
Pela mão que criou
Tantas trevas e luz
E cada coisa perdida
Perdidamente
Pode se apaixonar
Pela última vida poucos amigos
Hão de te procurar
Como é o silêncio
E nesse momento tudo quer se calar
numa história
Que venha do povo
O juízo final

Porque hoje é sexta - março de 2012